domingo, 19 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLXI)


Encalhe do lugre-escuna "Felix", na praia de Matosinhos

Momentos de ansiedade – Salvamento da tripulação
Não só em terra o mau tempo se tem feito sentir. Também no mar o temporal tem causado grossas avarias a diversas embarcações. O mar, de há dias a esta parte, está agitadíssimo, sendo uma temeridade as embarcações tentarem aproximar-se de terra.
Ontem, pelas 11 horas e meia da manhã, o lugre dinamarquês “Felix”, que se encontrava ao largo do porto de Leixões, tentou aproximar-se para via ancorar na baía, fugindo assim ao temporal. Na ocasião em que demandava o porto, ao chegar à embocadura, as vagas grossas e alterosas e a falta de vento fizeram com que fosse direito à praia.
Na iminência do perigo, a tripulação largou os ferros, conseguindo assim que a embarcação se aguentasse durante algum tempo. Como fosse grande a agitação do mar, as amarras rebentaram, vindo o navio encalhar na praia da República (antiga praia de D. Carlos).
De terra logo prestaram socorro aos náufragos, sendo, depois de alguns esforços, salva a tripulação, composta de 5 homens, incluindo o capitão, pelo barco salva-vidas, vindo desembarcar na praia.
O lugre “Felix” procedia da Terra Nova, trazendo um carregamento de bacalhau para a Sociedade Mercantil Industrial, Lda. Vem consignado aos srs. Blackett & Magalhães e pertence à praça de Marstal. O “Felix” é um lugre de 99 toneladas.

Imagem do lugre-escuna "Felix" na praia de Matosinhos
Foto de autor desconhecido - minha colecção

Matosinhos-Leça, 3 – Pelas 10 horas e meia da manhã foi dada ordem, pela Capitania do porto de Leixões para a Estação de Bombeiros de Leça para avançarem com o barco salva-vidas e o material de socorros a náufragos para o navio de vela que estava em perigo pela parte de fora do molhe sul de Leixões, defronte da praia da República.
O salva-vidas “Leixões” saiu logo, tripulado pelo patrão José Rabumba, o «Aveiro», com 12 homens de guarnição, rebocado pelo salva-vidas a gasolina, até à entrada do porto de Leixões, indo nele o sr. capitão do porto, o patrão-mor José Amaral e mais tripulação.
Não obstante a vaga alterosa e ser uma verdadeira temeridade a saída do salva-vidas, o «Aveiro», homem experiente e arrojado que é, aproveitando ocasião propícia, saiu a doca.
Neste tempo já tinham chegado ao molhe sul os bombeiros voluntários com o carro porta-cabos nº 2 da estação de Matosinhos, que iniciavam o serviço de salvamento. Quando estava pronto para ser lançado o foguetão, dobrava o salva-vidas a curva do molhe sul, pelo que foi suspenso o lançamento do foguetão até ver se o salva-vidas conseguia abordar o navio.
Depois de várias tentativas frustradas, pelo muito mar, espectáculo imponente, presenciado por milhares de pessoas, o salva-vidas sempre conseguiu encostar-se ao navio, recolhendo a sua tripulação, que era de 5 homens. A dificuldade agora era trazer o salva-vidas para terra, pois voltar pela entrada do porto era um grande perigo para os salvadores e para os salvados.
Então, com um grande lance de audácia, o salva-vidas foi levado à força de remos para a praia, o que foi feito em tais condições de coragem pela tripulação. Já próximo da praia, uma vaga muito alterosa, quase virou o salva-vidas que ficou inundado de água por uma borda, não ficando voltado completamente, por ter seguido no dorso dessa onda, que o depositou na areia.
Após um momento de indiscritível regozijo para todos quantos presenciaram o arrojado salvamento, a multidão saudou calorosamente o intrépido «Aveiro» e os seus valentes companheiros, dirigindo-se ao salva-vidas, de onde retiraram os náufragos e tripulantes, trazendo o barco para lugar seguro.
Acções desta natureza honram quem as pratica e não há recompensas que possam premiar tanto arrojo e tanta abnegação.
O sr. capitão do porto acompanhou todos esses serviços, do molhe sul, onde desembarcou o salva-vidas motorizado, que estava pronto a socorrer o outro, caso fosse preciso.
O serviço do carro porta-cabos, dos bombeiros voluntários foi dirigido pelo seu prestigioso comandante, sr. coronel Alberto Laura Moreira.
Prestou, também apreciados serviços o condutor Manuel Augusto Valente, com a camionete da Fabrica de Conservas de Casebre & Cª., Lda., de Matosinhos, prestando-se espontaneamente, a rebocar para o molhe sul o carro porta-cabos, e conduzir para a capitania e para o hotel, aonde foram mandados hospedar os náufragos, e a conduzir da estação o salva-vidas e o material para o seu encalhe na praia.
O navio, que pouco depois das 2 horas da tarde, foi arrojado à praia, defronte da Fabrica de Conservas de Brandão, Gomes & Cª., por se ter partido a corrente de ferro que tinha no fundo, era o lugre-escuna dinamarquês “Felix”, que está completamente perdido bem como a sua carga, que era de bacalhau.
Consta que da tripulação do navio faltam dois homens, que há dias uma volta de mar arrebatou sendo um deles o capitão. O “Felix”, cujo casco é de madeira, vinha da Terra Nova. É da praça de Marstal, Dinamarca, e tem 99 toneladas brutas de registo.
Vinha consignado à firma desta praça Blackett & Magalhães e a carga era destinada à Sociedade Industrial Mercantil, Lda.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Fevereiro de 1922)

O naufrágio do lugre “Felix”
Pormenores
Matosinhos-Leça, 4 – O lugre-escuna “Felix”, naufragado ontem ao sul do porto de Leixões, mantem-se no mesmo estado. Em vista do mar o permitir, foram já hoje retirados, por ordem da Alfândega, vários apetrechos de bordo, como sejam velas, barricas, etc., ficando tudo na praia, convenientemente arrumado, sob a vigilância da Guarda-fiscal.
Como constasse que o mar tinha arrojado à praia o bacalhau, que constituía o carregamento do navio, apareceram lá diversos indivíduos que se tornaram suspeitos e que a guarda-fiscal tratou de dispersar.
Durante o dia tem ido à praia muitas pessoas que são mantidas à distância pela guarda-fiscal, esperando-se que amanhã a concorrência seja maior em virtude de ter terminado a greve da Carris.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Fevereiro de 1922)

O navio foi posteriormente desencalhado, seguindo para o rio Douro em 21 de Junho, a reboque da traineira “Mediterrâneo”, entrando em estaleiro a fim de realizar os necessários trabalhos, pelo que depois de reparado regressou ao serviço comercial.

sábado, 18 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLX)


O naufrágio do vapor inglês “Emylton”, no dia 19 de Março de 1922, na viagem de Pomarão para Caen, França, com carga de pirites.

Navio abandonado
No Ministério da Marinha foi entregue um telegrama da capitania do porto do Porto nos seguintes termos:
«Foi recebido um rádio de bordo do navio “Cabo Creux”, (*) pedindo para ser avisada a navegação de que a 4 milhas de Montedor, latitude 41º48’N, e longitude 8º58’W, havia um navio inglês, o “Emylton”, abandonado, tendo aquele salvo a sua tripulação».
Em seguida a este aviso, saiu o cruzador inglês “Snapdragon”, que se encontrava ancorado em Leixões, regressando ontem ali, não encontrando navio algum abandonado.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 21 de Março de 1922)

Imagem de vapor, sem correspondência ao texto

Características do vapor inglês “Emylton”
1920-1922
Armador: Emylin Line Ltd., Cardiff, Grã-Bretanha
Construtor: John Chambers, Lowestoft, Inglaterra, 12.1920
Arqueação: Tab 700,00 tons
Dimensões: Pp 54,30 mts - Boca 8,40 mts
Propulsão: 1:Te
Sinistro marítimo
Viana do Castelo, 20 – Ontem, pelas 9 horas da manhã, apareceu a oeste da barra, muito ao largo, um vapor, adernado a estibordo, com sinais içados, que de terra foi impossível identificar.
Para o norte navegava um outro vapor, que parece não ter reconhecido os sinais que do semáforo lhe foram feitos e quando já muito ao norte do vapor em perigo, desfez de rumo, aproximando-se deste.
Depois de alguns esforços empregados para o socorrer e de fazer várias evoluções, desistiu de lhe dar reboque, seguindo para o norte; não se sabe se tomou a tripulação. Passados alguns momentos, o vapor em perigo, levado pela corrente, perdeu-se de vista.
O vapor que tentou socorrê-lo parece pertencer à linha Ybarra, de Sevilha. Consta-se que o vapor foi, mais tarde, rebocado para o norte.
O salva-vidas, como em terra corresse que duas baleeiras se aproximavam da praia, saiu a barra e navegou para o norte, no propósito de salvar vidas, caso as baleeiras fossem encontradas.

Viana do Castelo, 21 – Relativamente à informação anterior sobre o navio em perigo, acrescenta-se que era inglês e se chama “Emylton”, tendo a tripulação sido salva pelo vapor espanhol “Cabo Creux”.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 21 de Março de 1922)

Imagem do vapor espanhol "Cabo Creux"
Desenho de autor desconhecido

(*) O vapor “Cabo Creux”, 1919-1962, (segundo navio da firma armadora com o mesmo nome), era propriedade da empresa Ybarra & Cª., de Sevilha, Espanha, porto onde estava matriculado. Foi construído nos Astilleros del Nervion S.A., em Bilbao, arqueava 3.717 toneladas de registo bruto e tinha 99,16 metros de comprimento).

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLIX)


O naufrágio do vapor "Santa Maria"

Naufrágio do vapor português "Santa Maria"
Tripulação e passageiros salvos
Naufragou nas proximidades do cabo Finisterra, ao norte da costa de Espanha, o vapor português "Santa Maria", pertencente à Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos, com sede em Ponta Delgada.
Sabendo que é seu agente no Porto o Sr. David José de Pinho, procuramos contactá-lo no seu escritório, na rua Nova da Alfândega, no sentido de obter algumas informações.
Amavelmente, os esclarecimentos surgiram, mas não tanto quanto seria para desejar. As informações do naufrágio eram poucas e estas, rápidas e breves. Constavam dum «rádio» do capitão do "Santa Maria" e de um telegrama proveniente de Leixões, tudo num laconismo impressionante.
Ficamos sabendo, no entanto, que o vapor naufragou, encalhando em pedra pelas 5 horas da manhã de ontem, quando navegava entre os cabos Vilano e Torinana.
A cauda do encalhe é ainda ignorada, depreendendo-se do radiograma enviado à agência desta cidade pelo capitão do navio, ter este sido abandonado pela tripulação, em auxílio da qual seguiram para o local do sinistro diversas embarcações.
O vapor "Santa Maria" procedia de Antuérpia, com carga e passageiros, cujo número não foi possível averiguar, considerando-se salvos, m virtude do rápido auxílio que lhes foi prestado.
A carga era de 900 toneladas, para o Porto e Açores.
Estava previsto ter entrado ontem na barra do rio Douro.
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O vapor "Santa Maria" era o antigo navio marroquino "Koutoubia", tendo sido construído em 1906, nos estaleiros de North Shields, Inglaterra, e ultimamente adquirido pela Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos, que tem sede em Ponta Delgada, e o utilizava em carreiras entre o arquipélago dos Açores e portos no norte da Europa, Havre, Londres, Hamburgo e Antuérpia, com escalas por Lisboa e Porto.
Tinha 210.1 pés de comprimento, 32.1 de largura e 11.1 de pontal, deslocando 1.104 toneladas brutas e 750 toneladas liquidas.
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O Sr. David José de Pinho, agente no Porto da Companhia a que pertencia o referido vapor, seguiu ontem, à tarde, para o norte de Espanha, a fim de obter informações sobre o naufrágio.
(Jornal "Comércio do Porto", sexta-feira, 28 de Setembro de 1923)

Imagem do vapor “Santa Maria”
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Santa Maria”
26 de Janeiro de 1923 - 27 de Setembro de 1923
Armador: C.N. Carregadores Açoreanos, Ponta Delgada
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Ponta Delgada
Construtor: Smith’s Dock & Co., Ltd., North Shields, 1906
ex “Libertad”, S.A. Lloyd Bahia Blanca, Argentina, 1906-1908
ex “Libertad”, M.M. Argentina, S.A., Buenos Aires, 1908-1920
ex “Koutoubia”, S.M. Protect. Maroc, Casablanca, 1920-1922
Arqueação: Tab 1.104,00 tons – Tal 750,00 tons
Dimensões: Pp 64,02 mts - Boca 9,81 mts - Pontal 3,37 mts
Propulsão: McColl & Pollock, Ltd. - 1:Te - 127 Nhp - 8 m/h
Equipagem: 33 tripulantes
Capitão embarcado: Francisco José de Brito

O naufrágio do vapor “Santa Maria”
Apesar de todas as diligências empregadas para conseguir informações mais detalhadas a propósito do naufrágio do vapor português “Santa Maria”, na costa norte de Espanha, nada mais foi possível saber, além do que está confirmado através do seguinte telegrama, enviado de Vimianzo, Corunha:
«Vimianzo, 28 – A tripulação e passageiros do vapor “Santa Maria” encontram-se salvos e sem novidade».
Todavia, a causa do sinistro é por enquanto desconhecida.
(Jornal "Comércio do Porto", sábado, 29 de Setembro de 1923)

O naufrágio do “Santa Maria”
Continua a falta de pormenores completos sobre o naufrágio do vapor português “Santa Maria”, cujo encalhe se deu na «Costa da Morte», perto de Corme, ao norte do cabo Vilano, ao sul da Corunha.
É de crer que a causa do sinistro obedeceu por força do intenso nevoeiro, que surpreendeu o vapor quando navegava naquela parte do norte de Espanha.
A tripulação do “Santa Maria” era composta por 33 homens, sendo comandado pelo capitão Sr. Francisco José de Brito. Tanto tripulantes como passageiros salvaram-se nos botes de bordo e nos navios que imediatamente acorreram a socorrer o vapor naufragado.
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Ontem correu a notícia de que os passageiros do “Santa Maria” chegaram ao Porto, no comboio correio do Minho, motivo que levou muitas pessoas a acudir à gare de S. Bento para esperá-los.
Tal, porém, não aconteceu, aguardando-se, no entanto, a todo o momento, ansiosamente, a sua chegada, que segundo se antecipa, será ainda hoje.
(Jornal "Comércio do Porto", Domingo, 30 de Setembro de 1923)

O naufrágio do vapor “Santa Maria”
A falta de informações sobre o naufrágio deste vapor português, ao norte da costa da Galiza, continua martirizando a curiosidade dos interessados, naturalmente desejosos de conhecer, em todos os seus pormenores, as circunstancias em que se deu o encalhe do “Santa Maria”, nas rochas de Corme.
À agencia do Sr. David José de Pinho, representante no Porto da Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos, têm afluído muitos pedidos de informações sobre o assunto, mormente das pessoas que têm parentes entre os tripulantes e os passageiros.
Estes, segundo telegrama recebido ontem do Sr. David José de Pinho, encontram-se bem, não tendo regressado ainda em virtude de circunstancias diversas, cujas explicações não foram apuradas.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 2 de Outubro de 1923)

O encalhe do “Santa Maria”
O sinistro contado por um dos passageiros
Ante-ontem, chegaram ao Porto, vindos de Espanha, os passageiros do vapor português “Santa Maria”, naufragado no dia 28 do mês passado, entre os penedos terríveis da «costa da Morte». Todos o sabem, mas o que desconhecerão ainda é a forma como o sinistro se deu e as circunstâncias que o motivaram.
Continuada a procura de informações esclarecedoras, encontramos o Sr. Mário de Pinho, um dos passageiros do “Santa Maria”, filho do consignatário no Porto, da Companhia proprietária daquele vapor, o Sr. David José de Pinho.
Aquele senhor recebe-nos com uma amabilidade distinta. Tinhamos enfrentado uma enorme falta de pormenores.
- Compreendo a vontade de ver esclarecido este sinistro. A povoação onde desembarcamos dista três léguas da mais próxima caixa do correio… Já vê!
- A povoação chama-se?
- Arou. Um isolamento total, absoluto… Daí a falta de comunicações.
- Queríamos tê-las agora. Pode relatar como se deu o encalhe?
- Eram 3 horas e meia da madrugada do dia 28, quando, casualmente, subi à ponte de comando do navio a informar-me com o piloto do navio – o oficial que então se encontrava de quarto – da posição em que o navio se encontrava. Respondeu-me que, cerca das 3 horas, calculara a posição do vapor por meio de dois faróis, pelo que nos devíamos encontrar, naquele momento, muito perto do cabo Vilano. Apresentou-se-nos então uma nevoa cada vez mais densa e cerrada, tendo o piloto, que momentos antes havia diminuído a velocidade do navio, descido aos aposentos do comandante a comunicar-lhe o estado do tempo.
- E o que fez o capitão? – interrompemos.
- Este oficial, meu amigo pessoal, deu ordem imediata para que se fizessem rapidamente os sinais de nevoeiro, a fim de ser evitado qualquer abalroamento. Ordenou também que fosse alterado o rumo para posicionar o navio absolutamente safo dos escolhos, que tanto abundam nas costas da Galiza…
Quando foram dadas estas ordens, encontrava-me na casa de navegação, diligenciando ver a posição do navio em função da carta marítima. O piloto subiu para dar cumprimento às manobras quando, subitamente, decorridos dois minutos apenas, se deu o embate.
Imediatamente, o capitão, já vestido, apareceu no convés, berrando para a ponte que abrissem a máquina a toda a força à ré. A ordem foi cumprida, mas o navio não cedeu.
- Que fizeram, nesse caso?
- O comandante, em seguida, subiu à ponte e com energia mas calmo em absoluto, chamou a tripulação e ordenou-lhe que arreasse as baleeiras como medida preventiva.
- E os passageiros?
- …calmos, tranquilos, com um sangue frio inimaginável… Mas não só os passageiros. Todos o mantiveram, oficiais e pessoal da tripulação, constantemente, obedecendo, sem hesitação, a todas as ordens que, para bem comum, eram dadas pelo comandante, sr. Francisco Brito.
Arreadas as baleeiras, operação coadjuvada pelos próprios passageiros, que já então haviam afluído ao convés, o vapor começou a pedir socorro, quer pela telegrafia sem fios, quer por meio da sirene, que nunca deixou de apitar. O nevoeiro era então densíssimo, duma espessura profunda e negra…
Como eram desconhecidos os escolhos, pouco mais podia ter sido feito, além de tomar as medidas necessárias para evitar a perda de vidas. Porém, cerca das 4 horas e um quarto da madrugada, o vapor que até aí só tocava em rochedos à proa, e por vezes a meio do navio, começou também a bater de popa com tal violência, ocasionando novos rombos por onde a água começou a entrar com abundância, inundado dentro em pouco a casa das máquinas. O capitão ordenou imediatamente ao 2º maquinista de serviço que abrisse o vapor das caldeiras, para assim evitar uma explosão horrível.
Desta forma, a situação do navio tornou-se crítica, receando-se a todo o momento que os mastros desabassem, em virtude da extraordinária violência dos embates no casco resultantes da ondulação do mar.
- Em face disso, o capitão ordenou que os passageiros abandonassem o navio, o que foi feito na melhor ordem. Cada oficial tomou o comando da sua baleeira. Estas pairaram até ao amanhecer junto do navio encalhado. Quando era já dia claro, apareceram uns pequenos barcos de pesca, aos quais pedimos um «prático», que nos indicou um bom local para atracarmos na costa de Arou.
- Não ficou ninguém no vapor?
- Ficou o comandante a bordo, juntamente com o seu criado, que se negou a abandoná-lo. Uma vez desembarcados os passageiros, as baleeiras voltaram para o local do sinistro. Mais tarde, aproveitando a maré baixa, tratou a oficialidade e os tripulantes de atender ao salvamento da bagagem. O capitão continuou a bordo, de onde, até ante-ontem, não havia retirado, visto terem estado a tratar de salvar toda a carga possível e estancar os rombos.
- Será possível salvar o navio?
- Não creio. Para isso, já foram solicitados os socorros necessários. Mas parece-me impossível. À data da minha partida de Arou, já se encontravam descarregadas 300 toneladas de carga.
- A que atribui o encalhe?
- Na minha opinião, não houve o mais pequeno descuido que motivasse o sinistro, mas julgo-o devido a um grande desvio na agulha, sobre a qual aquelas costas têm grande influência.
Ultimamente, um navio de guerra espanhol andou a estudar as influências magnéticas da costa sobre as agulhas.
Em seguida, o Sr. Mário de Pinho refere, cheio de admiração, os actos de coragem e de abnegação, de que os oficiais deram provas, tal como o comandante, o telegrafista, e todo o pessoal do vapor.
Embebemo-nos também da mesma veneração por esse grupo de portugueses, valentes, disciplinados e generosos, que nos momentos de perigo sabem sacrificar-se por um dever de completa beleza moral.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 4 de Outubro de 1923)

terça-feira, 31 de julho de 2018

História trágico-marítima (CCLVIII)


O naufrágio do vapor “Mossamedes”, por encalhe na costa
da Namíbia, na posição 18º33’S 12º03’E, em 24.04.1923

O vapor “Mossamedes”, conduzindo a bordo passageiros,
encalha em Cabo Frio - Socorro por um navio australiano
O paquete “Mossamedes”, da Empresa Nacional de Navegação, que ia em viagem do Cabo para a costa ocidental de África, encalhou no Cabo Frio, segundo comunicação de um navio inglês, que dizia ir já um outro navio em seu auxílio.
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O paquete “Windsor Castle”, que chegou ontem, diz que o vapor português “Mossamedes” encalhou no Cabo Frio.
O “Windsor Castle” recebeu sinais de socorro, mas à distância de 1.000 milhas e transmitiu esses sinais aos outros navios. O paquete australiano “Port Victor”, que se encontrava à distância de 290 milhas do “Mossamedes”, devia chegar em seu auxílio à meia-noite.
O “Mossamedes” conduz passageiros e carga, e partiu do Cabo na sexta-feira, com destino à costa ocidental de África.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 26 de Abril de 1923)

O encalhe do “Mossamedes”
Há poucas esperanças em o salvar
Segundo comunicação de hoje, o vapor “Mossamedes” encontra-se ainda encalhado em Cabo Frio, estando já no local um vapor inglês. Os vapores “Mindelo”, “Ambriz” e o rebocador “Salvador Correia”, já seguiram para o local do sinistro.
Segundo consta, foi recebida hoje à tarde a notícia, que dá poucas esperanças do vapor “Mossamedes” se salvar. Já estão a fazer o transporte dos passageiros e a proceder ao salvamento da carga.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 27 de Abril de 1923)

Imagem do navio de passageiros “Mossamedes”
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Mossamedes”
Armador: Empresa Nacional de Navegação, Lisboa
Nº Oficial: 453-C - Iic: L.D.P.F. - Registo: Lisboa
Construtor: Alexander Stephen & Sons, Linthouse, 20.08.1895
ex "Sumatra", Peninsular & Oriental Co., Glasgow, 1895-1914
Arqueação: Tab 4.977,08 tons - Tal 3.513,85 tons
Dimensões: Pp 121,70 mts - Boca 14,26 mts - Pontal 8,35 mts
Propulsão: A. Stephen & Sons, Glasgow - 1:Te - 13,5 m/h

O encalhe do “Mossamedes”
Segundo as notícias recebidas aquele vapor considera-se
perdido, salvando-se toda a tripulação
Parece confirmar-se a perda do “Mossamedes”. O seu comandante, o sr. António Eduardo de Oliveira, foi quem comandou dois navios torpedeados e metidos a pique: o “Cazengo”, que transportava carvão para Lisboa, e o “Angola”, que levava vinho e sardinha para Bordéus.
O “Mossamedes” trazia a bordo 237 pessoas, entre elas 29 mulheres e 36 crianças. Saiu do Cabo no dia 25 do corrente às 3 horas e 30 minutos e encalhou algumas horas depois no Cabo Frio.
Pediu socorro pela telegrafia sem fios que, pouco depois, avariou. Começou lançando baleeiras ao mar com os passageiros e a tripulação.
Segundo um telegrama vindo de Mossamedes, o vapor inglês que o socorreu abrigou todos os náufragos. Um telegrama de Cape Town datado de ontem, às 10 horas, diz que já chegaram 3 baleeiras com passageiros do “Mossamedes” a Porto Alexandre e que dará detalhes do sinistro oportunamente.
Por enquanto a Empresa Nacional de Navegação ainda não recebeu notícia alguma do encalhe do “Mossamedes”. A falta de notícias do naufrágio atribui-se ao facto do Cabo Frio ficar distante 190 milhas de Porto Alexandre. É muito provável que as restantes baleeiras aportassem à Baía dos Tigres.
Pode asseverar-se não ter havido qualquer desastre pessoal.
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Cape Town, 26 – Segundo notícias recebidas sobre o encalhe do vapor “Mossamedes”, o “Port Victor”, quando chegou em seu auxílio, encontrou o navio abandonado e sem nenhum vestígio dos 237 passageiros. Entre os passageiros contam-se 29 mulheres e 36 crianças, sendo a maioria dos passageiros de nacionalidade portuguesa.
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Cape Town, 26 (de madrugada) – O “Port Victor” desistiu das tentativas de salvar o “Mossamedes”, visto as baleeiras serem suficientes para comportar os passageiros do navio. Entre os passageiros portugueses contam-se os srs. Henrique Immerteg, família Faria, João Amorim de Carvalho, J. Pinheiro e esposa, João Quinato Ramalho e Mendes Pereira.
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Cape Town, 27 (de madrugada) – O “Port Victor” continuou viagem. Algumas baleeiras do “Mossamedes” e da canhoneira inglesa “Dwarf” voltaram a Cabo Frio para continuarem os trabalhos dos salvados.
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Walfish Bay, 27 – Três baleeiras do “Mossamedes” chegaram a Porto Alexandre. Faltam detalhes.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Abril de 1923)

Imagem do transporte de guerra “Salvador Correia”, que
desempenhou um papel fulcral no salvamento dos náufragos
Postal ilustrado - In (fotosnamibe.blogspot.com)

O naufrágio do “Mossamedes”
Segundo comunicações recebidas, há a registar,
infelizmente, algumas mortes
Ao ministério das colónias e aos escritórios da Empresa Nacional de Navegação, têm ido durante o dia muitas de pessoas averiguar do que há acerca do vapor “Mossamedes”, naufragado próximo do Cabo Frio.
Esses indivíduos são quase todos parentes dos tripulantes e passageiros do vapor, reflectindo-se nos olhos de todos a ansiedade de notícias.
Naquele ministério foram recebidos durante o dia de ontem e hoje os seguintes telegramas, enviados pelo alto comissário de Moçambique:
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Lourenço Marques, 28 – Até agora, que são 8 horas, apenas tenho notícia de terem chegado três embarcações com náufragos.
A terceira entrou ontem em Porto Alexandre, de tarde. Trazia os seguintes náufragos: Luiz Domingues Primo, Maria Cardoso, Manoel Tavares com seu filho, Luiz José Freitas, Teodoro Paulo Henriques Matias, Paula França, José Azevedo, Manoel do Prado Martins, António Pereira Rodrigues, José Fernandes Sugueiro, José Augusto Mesquita, José Nunes França, Joaquim Dionísio, João Dias de Oliveira, José da Cunha, João Jorge Betencourt, Arlindo Esteves, José de Almeida, Dionísio Domingues, José Freitas, Teodoro Pinto Henriques, Fernando Godinho, Manoel Lourenço, Nestor Assunção, Caetano Simões, Diniz Pinto, Salvador Caleia, João Tacos e Francisco Bulhão.
Faltam 6 embarcações que se calcula devem conter o mínimo de 80 pessoas. Abrigo a esperança de que alguns tenham sido recolhidos por navios com rumo ao sul. Pedi notícias ao nosso cônsul no Cabo.
Por informações prestadas por náufragos concluiu-se que o vapor “Mossamedes” às 2 horas de 24, estava sobre rocha com meia braça de fundo ao meio, duas à proa, e quatro à ré. Atribui-se o desastre a erro de carta, violentas correntes e intenso nevoeiro. – (a) Alto-comissário
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Luanda, 27 – Mais alguns náufragos salvos: Eduardo Fontes com seu filho, Alfredo António, André Caiado, António Belo Mendes, Eduardo Leitão, António Soares, Joaquim Soares e Abdula.
António Eduardo de Oliveira, comandante; Manuel de Oliveira, contra-mestre; Diamantino da Silva Teodoro, praticante; Rosa, moço; João Alfinetes, chegador; Victor Franco, 1º maquinista; Horácio Saraiva Ramos, 1º maquinista; Marcelino Inácio, 1º maquinista; José dos Reis Varandas, 3º maquinista; António Paulino, 6º maquinista; José dos Santos Filipe, 3º piloto; António André dos Santos, 2º telegrafista; dr. Joaquim Pimenta, nauta; Felisberto Fernandes, marinheiro; José Vilar dos Santos, moço; Albino José Amorim, fogueiro; José João dos Santos, criado; José dos Santos, criado; e José Alves, 3º cozinheiro. – (a) Alto-comissário
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Luanda, 27 – A primeira baleeira, com senhoras e crianças, foi arreada ao romper do dia, partindo-se os engates e caindo ao mar, com todos os passageiros, salvando-se alguns e morrendo 7 ou 8.
Das 6 para as 7 horas foi arreada a 2ª baleeira e depois as outras, sendo as últimas das 11 para as 15 horas.
A primeira baleeira foi encontrada pelo transporte “Salvador Correia”; a segunda pela embarcação de pesca “Sampaio e Nunes”, a 30 milhas ao sul de Porto Alexandre; a terceira foi encontrada pela catraia “Norton de Matos”, dos poveiros, a 2 milhas ao sul de Porto Alexandre.
As embarcações com náufragos que faltam têm poucos recursos náuticos, mas abundância de comida e água. Continuam as pesquisas com toda a intensidade. – (a) Alto-comissário

Às 2 horas e 15 de hoje foi recebido o seguinte telegrama:
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Luanda, 27 – Por comunicações telefónicas que tive com Mossamedes, sei que o transporte “Salvador Correia” recebeu umas quatro baleeiras, faltando apenas salvar uma. Aguardo confirmação e detalhes. – (a) Alto-comissário
Um outro telegrama diz que foram salvos 223 passageiros, mas a carga e bagagens não se pôde salvar. Também o vapor alemão “Tanganyka”, que tinha saído da capital de Angola, dias antes do “Mossamedes”, recebeu, ao entrar a barra, um rádiograma comunicando que todos os náufragos tinham sido recolhidos.

A agência «Rádio» distribuiu o seguinte telegrama:
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Cidade do Cabo, 28 – A canhoneira inglesa “Dwarfs”, foi para Cabo Frio procurar as baleeiras do vapor português “Mossamedes”, que encalhou naquele ponto.
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Cidade do Cabo, 28 – A canhoneira “Aware”, que estaciona no Lobito, recebeu ordens para realizar as buscas necessárias, a fim de encontrar as baleeiras com as pessoas, que estavam a bordo do “Mossamedes”.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Abril de 1923)

Página da revista Ilustração Portuguesa Nº 904, de 12 de Maio de 1923

Também a "Ilustração Portuguesa" publica a notícia do naufrágio do "Mossamedes", referindo o posterior e inesperado falecimento do comandante do vapor, Sr. António Eduardo de Oliveira, muito provavelmente por angústia e sofrimento causado pela perda do navio.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Leixões na rota do turismo! (5/2018)


Navios de passageiros em porto no mês de Junho

Não há muito para dizer sobre as escalas de navios neste período, exceptuando uma agradável confirmação da habitual regularidade, sem surpresas, nem novidades. Tratam-se, por esse motivo, de navios já conhecidos, cujo principal interesse estatístico está fundamentado pela ocupação dos respectivos terminais, em metade dos dias do mês.

Navio de passageiros "Berlin"
No dia 1, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Navio de passageiros "Crystal Serenity"
No dia 2, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Honfleur

Navio de passageiros "Nautica"
No dia 2, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Navio de passageiros "Queen Victoria"
No dia 3, chegou procedente de Southampton, saiu para Lisboa
No dia 10, chegou procedente de Southampton, saiu para Barcelona

Navio de passageiros "Star Pride"
No dia 7, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino ao Ferrol

Navio de passageiros "Azamara Journey"
No dia 8, chegou procedente de Lisboa, saiu para St. Perter Port

Navio de passageiros "Bremen"
No dia 10, chegou procedente de Vila do Porto, saiu para Villagarcia

Navio de passageiros "Silver Wind"
No dia 11, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Navio de passageiros "Ventura"
No dia 12, chegou procedente de Lisboa, saiu para St. Peter Port
No dia 19, chegou procedente de Southampton, saiu para Bercelona

Navio de passageiros "Aegean Odyssey"
No dia 14, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Vigo

Navio de passageiros "Marella Spirit"
No dia 19, chegou procedente de Malaga, saiu para Lisboa

Navio de passageiros "Viking Star"
No dia 21, chegou procedente de Malaga, saiu com destino a Falmouth

Navio de passageiros "MSC Magbifica"
No dia 28, chegou procedente do Havre, saiu com destino a Lisboa

sábado, 21 de julho de 2018

História trágico-marítima (CCLVII)


Porto, 1900
O temporal e a cheia no Douro
Conclusão

Temporal – Sinistros no rio
Diminuíram sensivelmente as águas do rio, achando-se já ontem descobertos todos os cais e ruas das margens. Prevendo uma rápida descida, os práticos preveniram com a devida oportunidade as coisas de modo a que as embarcações se afastassem um pouco para o largo, a fim de não correrem o risco de ficar em seco. Ainda assim, no cais da Estiva, algumas das muitas barcaças que ali estavam, ficaram em seco, nas lajes do cais, sendo imediatamente postas a nado.
Na madrugada de ontem, o vento rondara para sudoeste, soprando rijamente e caindo fortes aguaceiros. O dia, porém, apresentou-se sereno e de sol radiante e acariciador, e, consequentemente em nada influíram no rio esses chuveiros, confirmando nova descida.
A situação das embarcações é já sobremaneira desafogada na Ribeira. Logo que as águas do rio baixem um pouco mais e a corrente seja menos veloz, tratarão de lhes melhorar a posição em que se encontram e que até aqui foi bastante comprometedora. No postigo dos banhos mantém-se a mesma situação.
Em Massarelos andam alguns trabalhadores procurando evitar que a barca “Ligeira” fique em seco, ao que está bastante arriscada.
Quanto à galera “América”, foram suspensos os trabalhos encetados, visto serem impotentes todos os esforços para a pôr a nado, na presente ocasião, porque o rio desceu muito. No entanto, não dão ainda o navio como perdido, pois pensam em desarvorá-lo completamente e depois abrir-lhe carreira na praia, como se estivesse num estaleiro. A “América” está segura em 6 Companhias em cerca de 12:000$000.
No Ouro mantém-se na mesma posição a barca “Douro”, que ali se encontra voltada de bombordo sobre as pedras, onde encalhou, próximo à draga “Portugal”. Esta barca que pertence à firma Glama & Marinho, não está no seguro.
Ontem, como a corrente do rio foi menos impetuosa, os tripulantes da “Douro” conseguiram abordá-la, e, entrando pelo porão do «rancho» puderam retirar roupas e outros objectos que lhes pertenciam e também do capitão. A bordo ainda se encontram haveres da tripulação.
Quanto à barca “Maria Emília”, fundeada na Cantareira, continuava ontem em magnifica posição para se poder salvar, segundo a opinião dos práticos. Às 5 horas da tarde foram passadas para bordo daquele navio duas correntes e âncoras, a fim de reforçar os ferros da proa.
Na Afurada e no Cabedelo têm aparecido muitos salvados, tais como couros, caixas com relógios, bicicletas, aduelas, etc., estando esses objectos guardados pela guarda-fiscal.
O sr. António Gonçalves, chefe do posto de fiscalização municipal no Ouro, participou à polícia que ante-ontem, um tal Luiz Dias, morador na calçada do Ouro, cortou por malvadez um dos cabos do vapor “Highlands”, fundeado frente à fábrica do Gaz. O caso foi participado à polícia Judiciária, que procede já às devidas investigações.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 16 de Fevereiro de 1900)

Temporal – Sinistros no rio
Com a sensível melhoria do tempo, voltou a intensidade dos trabalhos ribeirinhos, vendo-se já ontem o rio sulcado de rebocadores conduzindo barcaças de carga de um para outro lado. O dia apresentou-se sereno e sem chuva, como os três últimos, motivo porque o rio vai voltando à normalidade. Já não subsiste o perigo para as embarcações, por isso que, conquanto a velocidade da corrente do rio fosse ainda ontem de 6 milhas por hora, as águas acima do nível ordinário estavam apenas em 50 centímetros.
O único navio que continua em má situação é a galera “América”, pela circunstância de ser difícil pô-la a flutuar, não obstante os esforços empregados para tal efeito. Vão empreender-se novos trabalhos para salvar este magnífico veleiro, um dos melhores da praça do Porto.
Ontem, de tarde, trataram de fazer sair da situação em que se achava o vapor sueco “H, Wicander”, que estava em frente do Postigo dos Banhos. Os rebocadores “Victoria” e “Liberal” concorreram bastante para o fazer safar, indo o “H. Wicander” fundear em Santo António do Vale da Piedade.
A bordo do vapor estavam dois pilotos da barra e as ordens eram dadas pelo Patrão-mor da Capitania do porto e pelo Patrão-mor dos pilotos da barra. Alguns remadores do Departamento Marítimo do Norte trabalharam também para fazer safar o referido vapor.
Como o rio baixasse sensivelmente, ficou a descoberto parte do convés do vapor “Sir Walter”, que se acha submergido em frente do Postigo dos Banhos. Quanto à barca “Ligeira” foi efectivamente posta a nado.
Os tripulantes da barca “Douro” voltaram ontem a bordo, como no dia anterior, conseguindo recolher mais alguns dos seis haveres.
A barca “Maria Emília”, que se julgou perdida, e que ultimamente havia garrado até junto do molhe da Cantareira, à Foz, foi ontem dali retirada sendo rebocada pelo vapor “Mariano de Carvalho”, para o ancoradouro de Santo António do Vale da Piedade, cerca das 4 horas da tarde. Este serviço foi dirigido por um piloto da barra.
Ontem foram postas a nado muitas barcaças que se achavam em seco. Da Cantareira foram levadas para os respectivos ancoradouros duas barcaças da casa Andresen, pelo rebocador “Ligeiro”; uma da mesma casa e três da casa Barros, pelo rebocador “Águia”; três do sr. David José de Pinho, pelo rebocador “Liberal”; e três do sr. Santos Victorino, pelo rebocador “Victoria”.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 17 de Fevereiro de 1900)

Mau tempo
Uma ventania de O.N.O. (oeste-noroeste), excepcionalmente forte, caiu ontem sobre a cidade, causando não pequenos danos, principalmente nos arvoredos, De manhã vieram alguns chuveiros, mas fosse lá alguém atrever-se a abrir o seu guarda-chuva! Felizmente, não há nenhum desastre de vulto a assinalar.
O rio esteve muito agitado, levando ainda uma velocidade de 4 milhas e meia, achando-se 50 centímetros acima do nível ordinário. Todavia, foi feito sem dificuldade o movimento fluvial.
O vapor “Sir Walter” continua no fundo, parecendo que muito brevemente terão início trabalhos para o pôr a flutuar. O mesmo acontece com a galera “América”, que está em seco e que pretendem pôr a nado. A barca “Douro” permanece entre os rochedos do Ouro.
Ontem, os rebocadores “Ligeiro”, “Victoria” e “Liberal” singraram as águas durante o dia, conduzindo algumas barcaças que foram parar ao Cabedelo, e empregando-se também na faina de mudar as amarrações de alguns barcos de uns peões para outros, onde permanecerão com maior segurança.
O iate “Rasoilo”, que se achava fundeado próximo da galera “América”, foi mudado para Santo António do Vale da Piedade, indo também para o mesmo fundeadouro o iate “Correia”, que estava na margem esquerda, e a escuna “Valladares”, que se achava próximo da barca “Albatroz”, a qual ainda permanece em frente do cais da Ribeira.
Nos postos semafóricos está içado o sinal de tempestade.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 18 de Fevereiro de 1900)

Mau tempo
Uma deliciosa manhã, a de ontem, sem sol, mas serena e amena. Todavia, aí pelas 11 horas, quando sol irrompia já por um rasgão no azul, começou a toldar-se a atmosfera e a chuva miúda do dia e noite anteriores veio outra vez. O sol mostrou-se assim fugazmente, como a fazer-nos pirraça.
O rio voltou quase à normalidade, sendo já sulcado pelos barcos a remos. Todo o tráfego fluvial está restabelecido, não obstante haver ainda alguma corrente.
Os três navios naufragados permanecem na situação anterior.
O movimento marítimo no porto está interrompido há onze dias.
(Jornal “Comércio do Porto”, segunda-feira, 19 de Fevereiro de 1900)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

História trágico-marítima (CCLVII)


Porto, 1900
O temporal e a cheia no Douro
4ª Parte

A cheia
Diminuíram bastante as águas, do que derivou o regresso ao trabalho a bordo, nos navios mais próximos dos cais e das barcaças de carga que também se encontram junto ou pousadas neles. Tratavam de afastar os barcos, para evitar que fiquem em seco, caso se dê um rápido decrescimento das águas, como se espera, visto que o dia de ontem esteve verdadeiramente primaveril, cheio de sol quente e brilhante.
Esta circunstância, junta à diminuição do rio, permitiu que efectuassem trabalhos de descarga, principalmente do carvão que abarrotam as barcaças fundeadas próximo ao cais da Estiva e Postigo dos Banhos, e que tanta falta faz aos caminhos-de-ferro do Minho e Douro, estabelecimentos fabris, etc.
Muito daquele combustível tem sido depositado no cais da estação Porto-A, onde existe um gradeamento, que foi em parte derrubado em consequência do peso do carvão. Foram tomadas as necessárias providências, segurando-se aquela vedação com algumas antenas.
Ontem estavam as águas do rio em 2 metros acima do nível ordinário, sendo a corrente de 11 milhas por hora, isto é, houve um decrescimento de 50 centímetros na altura da água e o aumento na intensidade da corrente de 1 milha.
Hoje, por certo, se registarão novas diminuições, voltando o rio à situação normal dentro em breve, se não sobrevierem novos temporais.

A situação das embarcações
Não mudou ainda, por não ter chegado a oportunidade de procederem à deslocação das embarcações dos locais onde permanecem.
Na Ribeira, o iate “Flor de Setúbal” descaiu um pouco mais para oeste, bem como o iate “Valladares”, que assim conseguiu posição mais desafogada, se bem que tenha ainda a proa entre a barca “Albatroz” e o patacho “Robin”. Este tem uma forte antena na proa para evitar que venha sobre o cais.
No Postigo dos Banhos mantém-se por igual a mesma situação. O vapor “Sir Walter” mergulhado completamente e pousado no banco de areia do sítio, e o “H. Wicander”, direito, junto deste, bem como o rebocador e a infinidade de barcaças que ali se reúnem em posição desordenada. Como acima foi deixado transparecer, tanto ali, como mais adiante, junto à Alfândega, vai bastante azáfama nas descargas e demais trabalhos fluviais. Admite-se, porém, que o “H. Wicander” possa estar encalhado no aludido banco.
No lado de Gaia, os seis iates que lá estão fundeados, bem como o lugre “Hossana”, fundeado próximo ao estaleiro, não correm agora perigo. Ontem desenrolaram todo o velame encharcado das chuvas anteriores. O dia calmo e de sol intenso veio em ocasião propícia para tal efeito.
Em Massarelos continuaram ontem os trabalhos de protecção nos navios que ali se encontram em situação critica. A barca “Glama” foi reforçada com mais amarras, sendo conseguido de manhã endireitar o navio, que, como foi dito, estava muito adernado para estibordo.
À noite, porém, o navio voltou a adernar um pouco para estibordo, em virtude de se terem desprendido alguns cabos. Entre a barca “Glama” e o cais estão o lugre “Costa Lobo” e a barca “Ligeira”. Esta última, que é bastante velha, está muito adernada sobre o cais, não sendo das melhores situadas, pois que corre o risco de ficar em seco.
Relativamente à galera “América” é bastante má a sua situação. Às 8 horas da manhã um numeroso troço de trabalhadores, sob a direcção do sr. António Ribeiro dos Santos, procurou mudar-lhe a posição que havia tomado, para mais tarde facilitar o processo de lançá-la à água, pois que a “América” encontra-se sobre a areia da praia.
Os trabalhadores conseguiram desviar um pouco o navio que, como é sabido, tinha a proa sobre o cais. Além de fortes amarras que lhe lançaram, foram-lhe colocadas duas potentes antenas, ambas na proa. Durante a noite, porém, o navio descaiu bastante para terra, sendo impotentes as antenas que o seguravam. Os trabalhos continuam na madrugada de hoje, sendo empregues todos os esforços para que o magnifico navio volte a ser posto a nado.
Em Massarelos juntou-se muito povo a presenciar os trabalhos, tomando a polícia da esquadra daquele local as providências necessárias, não só para evitar algum acidente, mas também para que os trabalhadores manobrassem livremente.
No Ouro encontram-se bem as embarcações que para ali garraram; apenas tem sido reforçada uma ou outra amarra. A barca “Douro” que se perdeu naquele sítio, mostrava ontem, de tarde, metade da coberta, por motivo das águas terem descido.
Na Cantareira encontra-se em boa situação a barca “Maria Emília”, que na noite de ante-ontem havia garrado um pouco. Agora está em melhor água, próximo ao molhe da Cantareira, e julga-se salva.
Ante-ontem, na ocasião em que aquele navio garrou, saíram de bordo os tripulantes António dos Santos e Guilherme José Loureiro, que foram dali retirados numa catraia pelos barqueiros Inácio Fernandes, António Carola e José Ferreira. Os pilotos da barra ainda lançaram à água o barco salva-vidas, mas não largou, visto os homens terem saído de bordo sem dificuldade. Ontem já a tripulação estava a bordo.
À polícia constou que dera causa à “Maria Emília” garrar por alguns malfeitores lhe haverem partido uma amarra. Os agentes da autoridade procederam a várias diligências, mas nada apuraram que indicasse crime, pelo que só presume que a amarra quebrara pela força da água.

O “Sir Walter”
Não se considera inteiramente perdido este vapor, que, como se sabe, está no fundo do rio entre os Banhos e a Porta Nobre. Pelo contrário, há todas as esperanças de o pôr a nado, logo que o volume das águas volte ao seu estado normal. Para o conseguir, começarão por estancá-lo, com o auxílio de poderosas máquinas de esgoto, e vedar-se-lhe os rombos, sendo todos os trabalhos feitos por pessoal ao serviço da casa dos consignatários daquele vapor, os srs. C. Coverley & Cª., sob a direcção do engenheiro sr. Charles J. Ennor.
Presume-se que o “Sir Walter”, além das avarias produzidas pelo abalroamento da fragata “Dª. Anna”, pouco mais dano terá sofrido.
Os 13 tripulantes do vapor, em cujo número se conta o capitão, sr. Henderson, estão hospedados no hotel Malhão. A todos eles foram fornecidos fatos novos pelo atrás citado consignatário do navio.

Os salvados
Tendo constado ao sr. administrador de Vila Nova de Gaia, por ofício do sr. director da Alfândega do Porto, que alguns salvados arrojados às margens do rio e às praias do mar têm sido sonegados e até vendidos por diversas pessoas, ordenou aquele funcionário aos respectivos regedores que empreguem todos os meios, não esquecendo a prevenção especial aos cabos de polícia, designadamente aos que residem mais próximo das margens e praias do concelho, para que se evitem furtos que nenhuma disposição legal autoriza, sendo, portanto, intolerável que esses agentes ou auxiliares da autoridade sejam neles coniventes.
Sabe-se que do lado do Porto a policia tem tomado todas as providências indispensáveis em tais casos. Desde a Cantareira até ao molhe de Carreiros, à Foz, especialmente, o mar tem arrojado à praia muita aduela, fragmentos de embarcações, barris, etc., sendo tudo apanhado e levado para lugar seguro, onde é guardado pela polícia do posto da Foz e por soldados da guarda-fiscal.

Notas diversas
- Conquanto seja muito avultado o número de barcaças de carga que a força da corrente levou rio abaixo ou meteu a pique, calcula-se que não excederão a 25 as que se tenham perdido completamente. Baseia-se este cálculo no facto de irem aparecendo nas praias da costa algumas dessas barcaças, tendo sofrido apenas ligeira avaria, e na probabilidade de se retirarem do fundo do rio bastantes outras, quando o Douro voltar ao seu leito ordinário.
- Entre os navios que ante-ontem correram sério risco, contou-se a escuna “Britannia”, fundeada junto do cais do Terreiro da Alfândega. Reforçada, porém, rapidamente a amarração, pôde o elegante navio, que é novo, pois há apenas 9 meses que encetou as suas viagens, resistir aos puxões da corrente.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 15 de Fevereiro de 1900)

Desenho de navio do tipo escuna, sem correspondência ao texto

Características da escuna inglesa “Britannia”
Armador: Veloaga Slate Co., Ltd., Londres
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Londres
Construtor: W.H. Skileton, Plymouth, Abril de 1899
Arqueação: Tab 106,00 tons - Tal 93,00 tons
Dimensões: Pp 28,04 mts - Boca 6,43 mts - Pontal 3,15 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 13 tripulantes

O temporal - Sinistros no rio
O dia de ontem apareceu com o céu encarvoado. Apresentou-se tão sorumbático, tão triste, quanto o anterior fôra alegre, cheio de sol radiante. De manhã caíram ligeiros chuviscos, conservando-se o vento das bandas do sul. Se ronda um pouco mais para oeste haverá novo escarcéu, mas nada faz supôr que isso aconteça.
Pouco há a acrescentar ao que ontem foi dito sobre a inundação no Douro e acerca da situação dos navios nele ancorados.

A cheia
Não houve mudança para pior, nem melhoria alguma, quanto à inundação. As águas têm vindo em quantidade razoável, mas como encontram fácil e ampla saída para o mar, não engrossaram o rio em frente da cidade, conservando-se na mesma situação de ante-ontem, isto é, 2 metros de altura acima do nível ordinário e uma intensidade na corrente de 11 milhas por hora. Estão ainda inundados todos os locais das margens. Apesar disso trabalham afincadamente, como ante-ontem, na descarga das barcaças em toda a margem.

A situação das embarcações
Na Ribeira há a registar apenas que o iate “Flor de Setúbal” se desviou um pouco mais para o largo, a fim de não ficar em seco sobre o cais. Foi-lhe colocada uma antena para não chocar contra ele. As embarcações ancoradas mais abaixo, a “Albatroz”, o “Valladares” e o “Robin”, mantém-se na situação anterior de maior desafogo do que na segunda-feira.
O “Britannia”, no cais do Terreiro; o “Sir Walter”, o “H. Wicander” e o rebocador “Lynce”, no Postigo dos Banhos; o “Bella Rosa”, no quadro da Alfandega; conservam-se precisamente na situação do dia anterior e a que foi oportunamente feita prévia referência.
Em Massarelos a barca “Glama” continuava na mesma posição de ante-ontem, isto é. um pouco adernada por estibordo.
Ontem, depois das 2 horas da madrugada, um grupo de trabalhadores fluviais voltou a entregar-se aos serviços, que tinham encetado no intuito de salvar a galera “América”. As duas antenas colocadas na quarta-feira na proa do navio, foram impelidas contra o casco, conseguindo os trabalhadores desviá-la um pouco do cais.
De manhã, aproveitando a baixa-mar, trabalharam alguns homens a estibordo da galera, procurando tapar-lhe um rombo que tinha um pouco abaixo da linha de flutuação, por onde tem metido bastante água. O navio continua em situação crítica, havendo ainda receio de não se poder salvar. De Massarelos até à Cantareira, os navios mantém-se na mesma situação, não se tendo dado acidente algum digno de registo.

Notas diversas
- Na Porta Nobre, junto à linha férrea, está depositada grande porção de fardos de algodão, que têm sido retirados das fragatas fundeadas ali próximo. Ontem, dois dos oleados, que os cobriam principiaram a arder, parece que motivado por alguma ponta de cigarro, que lançaram da rua da Nova Alfandega. Diversos indivíduos que ali estão de guarda, evitaram que fosse ateado fogo ao algodão.
- Na Afurada a guarda-fiscal tem tomado rigorosas providências tendentes a evitar que a população daquele lugar conserve em seus poder quaisquer objectos que sejam arrojados à praia. São de certa importância os salvados arrecadados ali.
- De Viana do Castelo foi recebida uma relação dos objectos arrojados às praias do norte e sul desta cidade, até ontem (dia 14), à tarde, provenientes dos sinistros ocorridos no Douro, como segue:
Em Fão e recolhidos nos armazéns da delegação de Esposende:- 1 caixa com 5 relógios de mesa, 140 aduelas de carvalho do norte, 4 vigas de Flandres e 2 barris de petróleo.
Na Praia de Anha:- 2 vigas de Flandres
Em Castelo de Neiva:- 2 fardos de algodão e 9 vigas de Flandres.
Na barra:- 1 viga de Flandres
Em Montedor:- 4 fardos de algodão, 2 barris de vinho verde (marca S.C.C.- Rio) e 3 vigas de Flandres
Em Afife:- 1 barril de vinho verde (marca S.C.C.- Rio), 3 vigas de Flandres e alguns fardos de algodão incompletos.
Resumo:- 1 caixa com 5 relógios de mesa, 6 fardos de algodão, 3 barris de vinho verde, 140 aduelas de carvalho do norte, 21 vigas de Flandres e 2 barris de petróleo.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 16 de Fevereiro de 1900)

domingo, 1 de julho de 2018

História trágico-marítima (CCLVII)


Porto, 1900
O temporal e a cheia no Douro
3ª Parte

Ocorrências diversas
É impossível por enquanto determinar não só o número de barcos que se afundaram, mas a importância dos prejuízos, que são enormes. No entanto, será mencionado o que foi possível averiguar:
- A barca “Asia”, pertencente aos srs. Glama & Marinho, garrou, sofrendo avarias.
- Também sofreu avarias o iate “Odília Costa”.
- Parte da tripulação do iate “Dª. Joaquina”, a esposa e um filho do respectivo capitão, que estavam a bordo, foram salvos por um cabo de vai-vem. O navio seguiu rio abaixo, levando ainda o mencionado capitão e um marinheiro, que depois conseguiram saltar para um bote em Santo António do Vale da Piedade.
- A barca “Clara” fundeada em Massarelos, partiu-se-lhe o pau da bujarrona e teve outras avarias. Pertence aos srs. José Domingues de Oliveira e José Nogueira Pinto.
- A barca “Leonor”, da firma Rocha Primo, em comandita, perdeu um ferro, ficando em perigo.
- Em frente de Santa Marinha, na margem esquerda, também está em perigo um lugre inglês.

Como fica dito, não é possível precisar o número de barcaças de carga que se afundaram. Eram numerosíssimas as que estavam amarradas entre o cais da Ribeira e o da Porta Nobre.
Em meio da faina a confusão enorme que reinava na margem do rio, a cada momento que se via largar uma barcaça ou afundar-se no próprio local da amarração, sem que houvesse meio de lhes valer. No intuito de obviar à continuação destes sinistros, trataram de alijar o carvão que constituía o carregamento de algumas delas.
Foram bastantes, carregadas de cereais e de carvão pertencentes aos srs. J.H. Andresen, que seguiram rio abaixo ou soçobraram.
Dos srs. Encarnação & Paredes naufragaram cinco barcaças, sendo duas com carga de petróleo e três com aduela; e do sr. Ambrósio dos Santos Gomes, foram perdidas duas barcaças com carvão pertencentes aos srs. H. Kendall & Cª.

- Os bombeiros voluntários da cidade, antes de terem auxiliado os seus colegas de Leça no salvamento da tripulação do patacho “Bella Rosa”, já se haviam apresentado às 5 horas e meia da manhã na rua da Nova Alfândega, por serem reclamados os seus socorros, na ocasião do abalroamento dos vapores “Sir Walter” e “H. Wicander”.
Na impossibilidade de prestar outros serviços, ofereceram archotes para iluminar o local do sinistro, onde procediam ao trabalho de reforçar as amarrações. Na ocasião, curaram na sua ambulância um bombeiro voluntário de Leça, que se ferira ligeiramente.
Ontem mesmo, o comandante interino dos Voluntários do Porto, sr. Domingos Mendes, elogiou o pessoal, pelo denodo com que acudiu aos esforços dos voluntários de Leça no salvamento dos náufragos.

- Às 9 horas da noite de ontem a água do rio já cobria os arcos mais baixos sobre que assentam as casas da rua de Miragaia. De tarde andou um barco da Alfândega naquele improvisado canal, em serviço dos moradores cujas habitações não têm outra saída, além daquela que a cheia cobriu completamente e que são obrigados a sair pelas janelas dos primeiros andares, para se abastecerem de alimentos e água.
- A corveta “Estephânia” perdeu um bote.
- Em frente do cais da Ribeira está fundeada a barca “Albatroz”, que descarregava trigo para a casa Andresen. A estibordo tinha uma barcaça carregada com aquele cereal, que, partindo as amarras, garrou.
- No mesmo sítio está fundeado, quase junto ao cais, o iate “Flor de Setúbal”, achando-se entre a barca e este iate uma fragata do sr. Andresen, em iminente risco de se despedaçar.
- Uma das muitas barcaças de carga que garraram pertencia ao sr. Joaquim Domingues Bandeira e ainda ultimamente havia sofrido concertos que importaram em 200$000.
- A escuna inglesa “Britannia”, procedente de Cardiff, com carvão, que está à descarga no Terreiro da Alfândega, está fortemente amarrada para terra. A tripulação desembarcou, estando na margem de prevenção para reforçar as amarras.

Quando, cerca das 3 horas e meia da madrugada de ontem, os lampionistas iam apagar os candeeiros da iluminação pública da margem do rio, a polícia não o consentiu, para evitar que a escuridão aumentasse o perigo.
O fotógrafo amador sr. Aurélio da Paz dos Reis esteve em vários pontos da margem do rio recolhendo diversas imagens.
Nos carros americanos da linha marginal houve durante todo o dia de ontem um movimento extraordinário de passageiros, sendo também enorme a afluência de pessoas nos sítios onde ocorreram os sinistros.
Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 13 de Fevereiro de 1900

À última da hora – A cheia do Douro
À meia hora da madrugada, a barca “Albatroz”, que se encontrava a descarregar trigo na Ribeira, garrou até em frente às escadas da Rainha, voltando a popa para o meio do rio. Nessa ocasião houve alarme entre as pessoas que se conservavam na margem. Imediatamente o pessoal da intendência da marinha deu conhecimento daquele acidente às tripulações das embarcações que estavam próximo da “Albatroz”, a fim de se prevenirem contra qualquer abalroamento.
Diziam alguns marítimos que estavam em terra, que seria difícil a “Albatroz” sustentar-se, pois parecia estar apenas segura por um ferro de proa que tinha no fundo.
A barca foi abandonada pela tripulação.
Cerca das 2 horas da madrugada, quando a maré começou a vazar, em virtude da impetuosidade da corrente, que àquela hora já se tornava mais violenta, a fragata que estava junto da barca “Albatroz” garrou rio abaixo, por lhe terem rebentado as amarras.
Cerca das 3 horas a “Albatroz” garrou mais um bocado, dando fortes guinadas e pondo em grave risco o iate “Valladares” e o patacho “Robin”, já abandonados pelas tripulações e que estavam ancorados em frente ao Muro dos Bacalhoeiros. A “Albatroz” já àquela hora tinha abalroado com o “Valladares”, danificando-lhe o pau da bujarrona.
Às 3 horas e meia ainda a “Albatroz” se conservava em frente à Ribeira, receando-se a cada momento que fosse rio abaixo. Cerca das 4 horas da madrugada rebentou a única amarra que segurava a “Albatroz”, voltando esta a proa para o cais da Ribeira.
Aquela barca encontrou apoio no iate “Valladares”, que tem carga de bacalhau, deteriorando-o pela força que contra ele está a fazer. Espera-se a todo o momento a saída da situação em que se acha.

Desenho de navio do tipo barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Albatroz”
Armador: Glama & Marinho, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.C.D. - Porto de registo: Porto
Construtor: Richou, Bordéus, Setembro de 1865
ex “Gaston”, proprietário não identificado, Bordéus
ex “Stanley Sleath”, M. Hennessy, Swansea
Arqueação: Tab 791,00 tons - Tal 741,00 tons
Dimensões: Pp 51,61 mts - Boca 10,06 mts - Pontal 6,15 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: Joaquim de Oliveira da Velha

- À 1 hora da madrugada seguiu para o cais da Ribeira o Patrão-mor, sr. Agostinho Ildefonso, acompanhado do Cabo-de-mar, a fim de providenciar sobre as amarrações a fazer na “Albatroz”.
- O iate “Flor de Setúbal”, que estava junto da “Albatroz”, parece ter aberto água por motivo dos embates que dava contra o cais.
- Segundo informaram, a tripulação do vapor sueco “H. Wicander”, tentou abandonar o navio ontem, à noite, sendo obrigada a desistir do seu intento, em função das ordens dadas pelo sr. chefe do Departamento Marítimo. Esta autoridade determinou que alguns práticos portugueses fossem para bordo, a fim de ajudar os tripulantes no trabalho de salvamento do vapor.
- O pessoal do Departamento Marítimo esteve durante a noite em serviço permanente.
- Às 3 horas da madrugada a velocidade da corrente era a mesma, isto é, 10 milhas por hora.
- Apesar da muita chuva que caiu de madrugada, tanto na Ribeira como na Porta Nobre e em Cima do Muro, havia muita gente a presenciar o que se passava no rio.
Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 13 de Fevereiro de 1900

Temporal – Sinistros no rio
A situação anormal das embarcações fundeadas no rio permaneceu ontem a mesma do dia anterior, sem alterações sensíveis. Há, porém, esperança de que as coisas melhorem rapidamente, porque o temporal, violento ainda nas primeiras horas da manhã de ontem, amainou para a tarde, parecendo que ainda se acentuará mais essa melhoria.
A notícia de tão grandes sinistros e da situação critica em que se encontram muitos navios da cabotagem fluvial e de alto mar, provocou ontem uma excepcional concorrência a toda a margem direita desde os Guindais ao Bicalho. Do outro lado também era enorme a afluência a presenciar a imponência da cheia e os navios que correm maior risco.
Continuou incessante e afadigosamente a faina para o salvamento das embarcações ancoradas nos locais mais expostos. Grupos de trabalhadores preparavam fortes antenas, passavam ferros e espias de arame, de bordo dos navios para terra, numa palavra, trabalhavam denodadamente, encharcados muitos deles, especialmente no cais da Ribeira, onde a “Albatroz”, magnifico navio de ferro, o iate “Valladares” e o patacho “Robin”, tendo todos pela proa o iate “Flor de Setúbal”, se tem mantido a custo.
A cheia
As águas vindas de cima não avolumaram mais o rio nem lhe aumentaram a impetuosidade da corrente. Ao contrário, verificou-se ontem de tarde que o volume da água havia diminuído um pouco e que a velocidade se mantinha entre 9 e 10 milhas.
Como a diminuição foi mínima, o rio oferecia ainda o aspecto imponente do dia anterior, permanecendo alagados todos os locais de uma e outra margem e, consequentemente estão paralisadas as transacções comerciais ribeirinhas e os trabalhos industriais nas oficinas das margens.
As águas correm barrentas e formidavelmente revoltas, formando redemoinhos a meio do rio. No dorso vão, de quando em quando ramos de árvores, paus, tudo quanto na sua marcha desordenada para o mar encontra no caminho.
Ontem registou-se um volume de água acima do nível ordinário de 2 metros e meio, tendo vindo para o Departamento Marítimo do Norte telegramas de Barca d’Alva, Régua e Foz Côa e de outros pontos, dando notícia de ali terem avolumado as águas. Isto, porém, pouco influirá se porventura não sobrevierem chuvas incessantes.

Os navios em perigo na Ribeira
Os srs. Glama & Marinho contrataram por 500$000 o trabalho de segurança da barca “Albatroz”, com os srs. Encarnação & Paredes. Na “Albatroz”, uma partida de trabalhadores da firma Encarnação e Paredes, ocupou-se ontem em amarrá-la com fortes cabos de arame, dispondo as coisas de modo a evitar que ela venha sobre o cais.
O iate “Valadares” que se encontra entre aquele navio e o patacho “Robin” é o que se nos afigura pior situado, correndo o risco de ser estilhaçado entre os dois, tendo mesmo sofrido já algumas avarias na proa. Tratava-se ontem de lhe salvar o velame, cordame, tudo quanto era susceptível de fácil remoção.
O “Robin” tem ainda pelo lado de terra e sobre o cais algumas barcaças de carga do sr. José de Sousa Faria. Todos estes navios, muito juntos, a ponto de se poder passar de uns para os outros, não estão em boa posição, ameaçando cair sobre o cais ou bater nele.
O iate “Flor de Setúbal”, que se acha na proa daqueles três navios, continuou pousado sobre o cais da Ribeira, contra o qual sofre pequenos embates.
A escuna “Britannia”
A tripulação deste navio voltou ao seu posto, auxiliando ontem alguns trabalhadores na colocação de duas antenas para se obstar ao choque contra o cais da Estiva, onde se encontra fundeada. Também lhe foram reforçadas as amarras.
O lugre “Hossana”
Depois de muitos esforços pôde ser salvo este navio dinamarquês, encostando mais a terra, próximo ao estaleiro de Gaia, onde se encontra com boas amarrações. Ontem, às 2 horas da tarde, içou no mastro da ré os sinais «C.L.B.K.» e «D.R.S.” que, pelo Código Marryat, de sinais marítimos, se verificou dizer: Houve furto a bordo.
Efectivamente, desapareceram do navio várias louças, mantimentos, etc., supondo-se que o assalto ao navio se deu na noite de ante-ontem para ontem. É pena que se não descubram os ratoneiros para terem a devida correcção.

Os navios ancorados no Postigo dos Banhos
Não mudou ontem a situação do vapor “Sir Walter”, que permanece afundado, do “H. Wicander” e enfim de um rebocador e várias barcaças, que se encontram quase encostados uns aos outros.
No “H. Wicander” estavam a tripulação e alguns trabalhadores a proceder a diversos serviços de segurança e defesa contra qualquer eventualidade que possa surgir.
Nas barcaças houve grande faina, tratando-se com actividade intensa descarregá-las do carvão, algodão e cereais que continham. Algumas sacas de trigo, pertencentes aos srs. Andrades Villares, ficaram depositadas e guardadas pela polícia no largo fronteiro à igreja de S. Francisco.
E, já que falamos destes pequenos barcos, que tão grandes serviços prestam ao tráfego fluvial, acrescentamos que ontem desapareceram mais alguns, sendo dois pertencentes ao sr. José de Sousa Faria. Tinham carga de carvão.
A barca “Glama”
A barca “Glama”, dos srs. Glama & Marinho, garrou, indo encostar-se a outras embarcações no cais de Massarelos. O navio oferecia grande risco de perder-se, tanto mais que havia adernado muitíssimo para estibordo.
Logo de manhã, o sr. António Glama e um troço de trabalhadores trataram de lançar fortes amarras ao navio, procurando também, por meio de espias, evitar que ele adernasse ainda mais. Esses trabalhos, deveras fatigantes, demoraram até à noite, melhorando pouco a situação daquele navio, pois continua adernado.
Neste sítio havia grande aglomeração de povo a presenciar os trabalhos, sendo custoso o trânsito.

O patacho “Bella Rosa”
Este navio, que largou do ancoradouro em que estava, no Terreiro da Alfândega, achava-se ontem em frente da Porta Nobre. Pelo Departamento Marítimo foram ordenadas diversas providências, a fim daquele navio se sustentar na posição em que ficou. Por esse motivo foram lançados mais dois cabos para terra, ficando assim o patacho seguro.
A barca “Ligeira”
Ontem, foram substituídas as amarras que sustém a barca “Ligeira”, fundeada próximo a Massarelos, e que estavam prejudicando bastante as embarcações que lhe ficam próximo. As amarras foram mudadas para terra, oferecendo desta forma maior segurança.

A galera “América”
Continua encalhada no mesmo sítio. Ontem foi amarrada mais fortemente para evitar que se perca este navio de vela, um dos melhores da praça do Porto.

A barca “Ásia”
Correu ontem algum risco no seu fundeadouro em Massarelos. Cerca das 3 horas da tarde, na ocasião em que procediam a novos trabalhos de amarração, o tripulante Manoel dos Santos Saltão, de 18 anos, foi apanhado por um moitão, que o feriu na cabeça. Recebeu o primeiro curativo no hospital da Misericórdia, voltando para bordo.

Cálculo dos prejuízos
Estão calculados os prejuízos de todos os sinistros no Douro em 600:000$000, aproximadamente. A maioria desses prejuízos, porém, são cobertos por Companhias de seguros estrangeiras.

Diversos
- Para bordo do patacho inglês “Robin” foi hoje, de madrugada, um piloto da barra, com o respectivo pessoal, a fim de prevenir qualquer eventualidade.
- O iate “Flor de Setúbal” garrou mais para o cais da Ribeira, ficando assim um tanto afastado da forte corrente da água.
- Ao fim da tarde, compareceu no cais da Porta Nobre, como na noite anterior, um piquete de bombeiros municipais, incumbidos da iluminação daquele sítio com barricas de alcatrão. Os bombeiros conservaram-se ali toda a noite, continuando o serviço de prevenção a ser feito entre a Porta Nobre e Massarelos, onde rapidamente seriam postas barricas a arder, se fosse necessário.
- Às praias de Matosinhos e de Leça da Palmeira continuaram ontem a serem arrojadas pelo mar grandes porções de aduela e vigas de Riga.
- Desde Sobreiras até ao molhe de Carreiros, a polícia do posto da Foz auxiliou a guarda-fiscal na remoção e vigia dos fragmentos de barcos e grande quantidade de aduelas que ali eram arrojadas à praia.
- Nos carros americanos da linha marginal continuou ontem a haver extraordinária concorrência de passageiros. Pela mesma estrada transitaram muitos trens conduzindo pessoas que andavam presenciando os estragos causados pela cheia.
Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 14 de Fevereiro de 1900

quarta-feira, 27 de junho de 2018

História trágico-marítima (CCLVII)


Porto, 1900
O temporal e a cheia no Douro
2ª Parte

A barca “Maria Emília” e a fragata “Dª. Francisquinha”
A barca “Maria Emília”, fundeada em frente da Alfândega Velha, garrou, indo parar à Cantareira. Corria abandonada, mas os pescadores da Afurada, que ali estacionam com os seus barcos, e algumas catraias de pilotos puderam segurá-la e amarrá-la. Está carregada de madeira.

Desenho de navio do tipo barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Maria Emília”
Armador: José Lopes Fernandes, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.M.Q. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Manuel Gomes Rodrigues, Vila do Conde, 1867
ex “Novo Silêncio”, A.F.M. Guimarães, Porto
Arqueação: Tab 369,00 Tons - Tal 353,00 tons
Dimensões: Pp 36,14 mts - Boca 8,76 mts - Pontal 4,67 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: João Villas Boas Robim

Aconteceu outro tanto à fragata de carga “Dª. Francisquinha”, que tinha um carregamento de algodão, trazido pelo paquete “Brunswick”, para diversos comerciantes.

O iate “Dª. Joaquina”
À 1 hora da tarde rebentou a corrente do iate “Dª. Joaquina”, fundeado no sítio da Bica, em Vila Nova de Gaia. Quando já descia o rio, dois tripulantes que tinha a bordo saltaram para um bote, sustentando-se no rio à força de remos. O iate parou no lugar do Cavaco e aqueles tripulantes, voltando para bordo, trataram de amarrá-lo solidamente.

Desenho de navio do tipo iate, sem correspondência ao texto

Características do iate “Dª. Joaquina”
Armador: Joaquim Pereira Mendes, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.J.G. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Não identificado, Vila do Conde
ex “Sampaio”
Arqueação: Tab 89,03 Tons - 251,944 m3
Propulsão: À vela
Condenado por inavegável, abatido em 1902

A galera “América” e os rebocadores “Galgo” e “Veloz”
A galera “América”, fundeada no cais das Pedras garrou e foi parar em frente da Fabrica de Fundição de Massarelos, de encontro ao iate “Rasoilo”. Na sua carreira impetuosa, destruiu a chaminé e o mastro do rebocador “Galgo” e ainda a roda de estibordo e a chaminé do mesmo lado do rebocador “Veloz”. A galera ficou com o pau da giba, borda falsa e figura de proa despedaçados. A figura foi apanhada na Cantareira. A “América” ficou fortemente espiada para evitar que bata de encontro às pedras da margem.

Desenho de navio do tipo galera, sem correspondência ao texto

Características da galera “América”
Armador: Agostinho A. Lopes Cardoso, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.F.C. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Não identificado, Porto, 1867
Arqueação: Tab 1.013,73 Tons - 2.868,867 m3
Dimensões: Pp 55,35 mts - Boca 10,16 mts - Pontal 5,79 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: João Gonçalves Marques

Quanto ao rebocador “Galgo”, por efeito do abalroamento, garrou, atravessando-se na proa da corveta “Estephânia”. A tripulação deste navio pôde obstar a eventuais danos no navio de guerra, e o “Galgo”, ao sabor da corrente, seguiu rio abaixo até à Cantareira, onde foi agarrado.

O lugre dinamarquês “Hossana”
Achava-se próximo ao estaleiro de Gaia, com dois ferros pela proa. O perigo que corria e a impossibilidade de lhe ser prestado imediato socorro, fez com que a tripulação o abandonasse. Ficando assim entregue à sua sorte, ao capricho da corrente, veio, aí à volta das 2 da tarde, até ao meio do rio. Umas vezes corria sobre os ferros, atropelando-os, outras descaía vertiginosamente para trás, retesando violentamente as duas correntes. Percebia-se que as unhas das âncoras se deslocavam a espaços e agarravam de novo mais adiante, estroncando a madeira dos olhais. Mas os ferros não rebentaram e a isso se deve a salvação do navio.

Desenho de navio do tipo lugre, sem correspondência ao texto

Características do lugre dinamarquês “Hossana”
Armador: A. H. Petersen, Marstal, Dinamarca
Nº Oficial: N/d - Iic: N.C.P.V. - Porto de matrícula: Marstal
Construtor: F. Hansen, Marstal, Dinamarca, 1890
Arqueação: Tab 131,00 Tons - Tal 119,00 tons
Dimensões: Pp 26,92 mts - Boca 6,27 mts - Pontal 2,97 mts
Propulsão: À vela

Os cais das duas margens estavam apinhados de gente a presenciar o estranho espectáculo, ansiosa por ver o desfecho. Afinal saiu de Vila Nova de Gaia um barco tripulado por alguns trabalhadores fluviais e depois de várias investidas conseguiram saltar para dentro do lugre, tratando de o segurar para terra.

A barca “Douro”
A barca “Douro”, dos srs. Glama & Marinho, fundeada próximo da lingueta da Cábrea, desde a madrugada que corria risco de garrar. A tripulação foi salva por um cabo de vai-vem. À tarde bateram de encontro àquele navio duas barcaças, partindo-lhe uma amarra. Por esse motivo adornou para estibordo ameaçando voltar-se.
Às 6 horas e meia da tarde uma gritaria ensurdecedora da multidão que estacionava na margem direita e repetidos toques de apito deram rebate que a amarra havia partido, e a barca lá foi levada rio abaixo.
Felizmente a corrente encaminhou-a para o meio do rio, e, assim, passou sem causar dano nas outras embarcações, indo despedaçar-se de encontro a umas pedras próximo do cais do Ouro, onde está fundeada a draga “Portugal”.
A barca “Douro”, que era de 446 toneladas de registo, veio de Nova Orleães com aduela aos srs. Glama & Marinho, tendo entrado a barra no dia 24 de Janeiro findo.

Desenho de navio do tipo barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Douro”
Armador: Agostinho A. Lopes Cardoso, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.F.C. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Fili Schiavent, Fiume (Rijeka, Croácia), 1865
Reconstrução: A. Buron, St. Malô, França, 1898
ex “Mimi”, Delacour, St. Malô, França
Arqueação: Tab 489,00 tons - Tal 446,00 tons
Dimensões: Pp 55,35 mts - Boca 10,16 mts - Pontal 5,79 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: Carlos Lino Gaspar

A barca “Glama”
Este navio, fundeado no cais da Paixão, garrou cerca das 2 horas da madrugada, indo encalhar junto do lugre “Costa Lobo” e da barca “Ligeira”, em frente ao cais de Massarelos. Ali foram-lhe lançados grossos cabos. À noite, porém, adornou para estibordo, não sendo das melhores a sua situação.

Desenho de navio do tipo barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Glama”
Armador: Glama & Marinho, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.L.M. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Não identificado, East Boston, Setembro de 1868
ex “Southern Cross”, Baker & Morrill, Boston, Estados Unidos
Arqueação: Tab 1.139,71 tons - 3.225,370 m3
Dimensões: Pp 55,17 mts - Boca 10,97 mts - Pontal 7,16 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: João Simões Paião

Uma vítima
O vapor alemão “Egeria”, que estava em frente à Arrábida, teve de mudar de ancoradouro, o que fez com bastante risco, indo para Santo António do Vale da Piedade.
Deste vapor tentou sair para terra o soldado da Guarda-fiscal nº 218, da 1ª companhia, António Miguel. Na ocasião, porém, em que saltava para uma barca, caiu ao rio, perecendo afogado. O infeliz contava 43 anos de idade e deixa viúva e filhos; era natural de Vila Nova de Gaia.

Calculo dos prejuízos
A pessoas que conhecem bem a praça do Porto foi ouvido calcular os prejuízos sofridos pelo comércio portuense em cerca de 6000:00$000, devendo ter-se em consideração os graves transtornos que resultam da perda dos carregamentos de trigo e carvão que se afundaram.

Os pescadores da Afurada
Foi já dito que, na série de sinistros conhecidos até ao momento, muitas embarcações foram impelidas para a barra, sendo apanhadas na sua carreira vertiginosa pelos homens da Afurada. Embarcados nas suas bateiras, estes pescadores aproximavam-se animosa e habilmente dos barcos sem governo e saltavam para bordo, conseguindo dirigi-los e salvá-los, agarrando também porções de madeira, fardos de algodão e outros objectos arrastados pela corrente.
Estas manobras eram auxiliadas pela revessa do rio naquele ponto, a qual diminui consideravelmente o ímpeto da corrente. Esta circunstância, de que os vareiros com tanta utilidade se aproveitam, sugere a ideia de que seria de grande vantagem estabelecer na Afurada um serviço regular de salvamento, não só de despojos, mas até de vidas em perigo.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

História trágico-marítima (CCLVII)


Porto, 1900
O temporal e a cheia no Douro
1ª Parte

Em todo o dia de ante-ontem caiu sobre a cidade um forte temporal, com ventos variáveis, de sul e sudoeste. A ventania desabrida, destruidora, acompanhada de chuva incessante, começou a fazer-se sentir na madrugada de Domingo, destelhando casas, deslocando clarabóias e deitando à terra os arvoredos dos sítios mais expostos.
Todavia, onde o temporal actuou mais, causando prejuízos avaliados em centenas de contos de réis, foi no rio. À ventania vieram juntar-se as águas do alto Douro, em volume extraordinário, de sorte que na noite de Domingo, quando quiseram acautelar os valores constituídos em navios e cargas muito importantes, já mal lhes puderam valer.
A faina foi enorme durante a noite, não em procura dos ancoradouros mais abrigados, porque a cheia e a corrente de água, intensíssima, o não permitia, mas sim em proceder-se a amarrações sólidas, em revestir os costados dos navios com resistentes troncos de madeira para não se escangalharem de encontro aos cais, e, finalmente, reforçá-las com potentes antenas.
No entanto, valha a verdade, era de prever um estado anormal no rio, visto a experiência ter demonstrado por muitas vezes a série de factos que agora se deu. A neve caiu abundantemente na segunda quinzena de Janeiro e primeiros dias do corrente mês de Fevereiro, cobrindo todas as eminências. É claro que com as primeiras chuvas abundantes e quentes, a neve, descendo das montanhas, iria aumentar imensamente os caudais, e as inundações seriam um facto. Foi o que sucedeu. Não obstante, as prevenções foram tardias e os resultados tristes patentearam-se e patenteiam-se ainda aí.

Vista panorâmica do Porto, cidade e rio, cerca de 1900
Postal ilustrado da série "Estrela Vermelha"

A cheia
Às 10 horas da noite de Domingo começou o rio a sair do leito. Dados os primeiros rebates do facto, muitas pessoas da população ribeirinha e trabalhadores fluviais afluíram às margens, a despeito da chuva e do vento. A inundação ameaçadora oferecia esse espectáculo belo-horrível que tanto impressiona o espírito. O sussurro da corrente, dos cachões e dos redemoinhos, as vozes de comando a bordo das barcaças e dos navios de alto mar; a gritaria que sempre acompanha as manobras marítimas, tudo isto era um espectáculo intraduzível.
À 1 hora da madrugada já os cais de Gaia estavam alagados, como o estavam a rua de Miragaia e Monchique, tentando a água galgar o cais da Ribeira. Duas horas mais tarde já a inundação chegava aos arcos da Ribeira e à entrada da rua Direita em Vila Nova de Gaia. De enchente tão acelerada, tão rápida, não há memória.
Quando amanheceu viu-se então a imponência da cheia e registaram-se os desastres. Toda a avenida Diogo Leite, em Gaia, todos os caminhos marginais até ao Cabedelo e do lado do Porto os locais já indicados, inundados! É claro que paralisou todo o comércio e o trabalho ribeirinho nas duas margens.
Na eventualidade de ainda avolumarem mais as águas, os habitantes da rua Direita até à do Sacramento, em Gaia, tomaram logo precauções, sucedendo outro tanto do lado do Porto.
Vem a propósito dizer que a polícia da 6ª esquadra (Ferreira Borges), ao ter notícia da rápida inundação percorreu os estabelecimentos do cais da Ribeira prevenindo os respectivos donos, para que pusessem a salvo os seus haveres, prevenindo também os proprietários das barracas, da venda de sardinha salgada, proximamente aos Guindais, para o mesmo efeito. Porém, nem tudo pôde ser salvo, tão vertiginoso foi o avanço da água.
O volume desta acima do nível ordinário era ontem de mais de 2 metros, e a velocidade da corrente de 10 milhas por hora, sendo ainda esperada alteração nestes números, visto aguardaram-se novas águas vindas de cima, nomeadamente de Espanha.
Às 5 horas e meia da madrugada os bombeiros municipais prestaram bons serviços no cais da Porta Nobre, iluminando-o com seis faróis de petróleo, a fim dos trabalhadores fluviais poderem trabalhar.

Registo dos sinistros
Os vapores “Sir Walter” e “H. Wicander”
O vapor inglês “Sir Walter”, de 298 toneladas, entrado na barra no dia 9 do corrente, procedente de Leith, com carregamento de carvão para os srs. C. Coberley & Cª., achava-se fundeado próximo da ponte D. Luiz I, do lado de Vila Nova de Gaia, onde procedia à descarga.
Parece que um barco rabelo viera, impelido pela corrente do rio, quebrar-lhe dois cabos de arame que lhe serviam de amarração. O vapor garrou, correndo rio abaixo até ao antigo sítio do Postigo dos Banhos, indo bater de encontro ao vapor sueco “H. Wicander”, que igualmente havia sido arrastado até ali, arrancado do seu ancoradouro, na margem esquerda, defronte da rua Direita, de Vila Nova de Gaia.
Do choque entre os dois vapores resultou o “Sir Walter” ir a pique, depois de ter feito dois rombos no casco do “H. Wicander”, do lado da proa. Como, porém, essas aberturas ficavam acima da linha de água, o referido navio sueco pôde resistir e conservar-se direito. Turmas de trabalhadores ocuparam-se logo depois em reforçar-lhe a amarração.
Quanto ao “Sir Walter” tinha fora da água os mastros e a chaminé. Às 3 horas e meia da tarde a fragata de carga “Dª. Anna”, levada pela corrente, despedaçou-lhe o mastro da ré e a chaminé, quedando-se enrascada com o “H. Wicander”, submergindo pouco depois.
Este vapor que é de 770 toneladas, viera de Estocolmo e Memel (porto actualmente identificado por Klaipéda, na Lituânia), com carregamento de ferro e aduela à firma Jervell & Knudsen, tendo entrado a barra no dia 6 do corrente.

O patacho inglês “Bella Rosa”

Desenho de navio do tipo patacho, sem correspondência ao texto

Características do patacho inglês “Bella Rosa”
Armador: A. Goodridge & Sons, St. John’s, Terra Nova
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de matrícula: St. John’s
Construtor: Upham, Brixham, Inglaterra, Junho de 1874
Arqueação: Tab 149 Tons
Dimensões: Pp 29,90 mts - Boca 6,81 mts - Pontal 3,84 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes

Este navio inglês, de 149 toneladas, vindo da Terra Nova, no dia 30 de Janeiro findo, com bacalhau para os srs. Martins de Sousa & Cª., largando também o ancoradouro em que estava, no Terreiro da Alfândega, desceu até à Porta Nobre, onde os ferros se pegaram no fundo, quase a meio do rio. A tripulação içou sinais pedindo correntes e ferros. Como não houvesse meio de os levar a bordo, pela Alfândega foi requisitado o auxílio dos bombeiros voluntários de Leça e Matosinhos, que se apresentaram com a máxima celeridade, depois das 10 horas da manhã, com o seu carro porta-amarras, salva-vidas e foguetões.
Foram lançados dois destes sem resultado; mas o terceiro pôde deixar entre os mastros do navio um chicote, por meio do qual foi estabelecido o serviço de salvamento dos tripulantes, que eram em número de oito. Neste trabalhão, seguido com ansiedade por milhares de pessoas que se comprimiam de encontro às grades da rua da Nova Alfândega e se aglomeravam nas janelas dos prédios daquela rua e no cais da Alfândega, foram os bombeiros voluntários de Leça auxiliados pelos voluntários desta cidade e alguns populares.
Como é natural, houve tristes peripécias, que por vezes fizeram estremecer de pavor os espectadores desta cena, como sucedeu quando rebentou o cabo por onde corria o saco salva-vidas, que, felizmente, tinha deixado já a pé e enxuto o marinheiro que conduzia. Por duas vezes também, os náufragos, na sua viagem aérea, pousaram na água, em razão do afrouxamento dos cabos pelas guinadas do patacho. Completamente encharcados, foram, como os seus outros companheiros de desventura, socorridos depois pelos consignatários do navio, srs. J.T. Costa Basto & Cª.
O capitão do “Bella Rosa”, sr. Coward, enquanto os marinheiros foram salvos pelo cabo de vai-vem, conservou-se ao leme, para atenuar o efeito da violência da corrente. Quando mais ninguém restava a bordo, veio por seu turno para terra.
Aos bombeiros voluntários de Leça foram dirigidos calorosos elogios pelos seus humanitários serviços, principalmente ao seu comandante efectivo, sr. José Luiz de Araújo, ao comandante honorário sr. José Adrião da Rocha e adjunto de comando, sr. Alfredo de Vasconcelos.