quarta-feira, 17 de outubro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXIX)


O naufrágio do iate "Flor de Setúbal"

Um navio de carga português encalhou à entrada
de Port Lyautey, mas a tripulação já foi salva
Telegramas recebidos em Lisboa e Setúbal informam que o navio de carga “Flor de Setúbal” de 249 toneladas, da praça de Setúbal, pertencente à firma Chaves & Mateus, Lda., encalhou ante-ontem à entrada de Port Lyautey (Marrocos), e que se encontrava em perigo.

Desenho de navio do tipo iate, sem correspondência ao texto

Caracteristicas do iate "Flor de Setúbal"
1946 - 1951

Armador: Chaves & Mateus, Lda., Setúbal
Nº Oficial: 514 - Iic: C.S.N.J. - Porto de matrícula: Setúbal
Construtor: Chaves & Chaves, Setúbal, 1946
Arqueação: Tab 148,76 tons - Tal 93,75 tons
Dimensões: Ff 32,07 mts - Pp 28,10 mts - Boca 7,65 mts - Ptl 3,40 mts
Propulsão: 1 motor semi-diesel - 2:Ci - 410 Rpm - 150 Bhp
Equipagem: 8 tripulantes

O “Flor de Setúbal” tinha a bordo a seguinte tripulação, sobre a chefia do capitão José Machado, de Viana do Castelo; António Freitas; contra-mestre; José Fernandes, motorista; Manuel Passos e Henrique Araújo, marinheiros, António Pereira, cozinheiro, todos também de Viana do Castelo; José Bomba Marro, ajudante de motorista, de Portimão; e Ilídio Malhão, moço, de Vila Praia de Âncora.
O navio transportava mais de 200 toneladas de cimento para aquele porto e tinha saído de Setúbal no dia 20 de Agosto. Os primeiros telegramas eram alarmantes, mas informações posteriores dizem que foi possível salvar toda a tripulação, a qual já se encontra em terra.
A situação do navio, que foi construído há cinco anos, continua, porém, a ser muito critica. Seguiram socorros para o local do encalhe.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 8 de Agosto de 1951)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Navios portugueses


O navio-tanque “Cercal”

Terceira unidade da empresa armadora, encomendada na Belgica aos estaleiros John Cockerill, foi lançado à água em 8 de Dezembro de 1952, embandeirando em português através da entrega ao proprietário em 9 de Setembro de 1952. A viagem inicial, de Antuérpia para Lisboa tem lugar em 12 de Setembro, entrando pela primeira vez no Tejo, em 16 de Setembro. A primeira viagem comercial, a partir de Lisboa com destino a Aruba, tem com comandante o capitão da Marinha Mercante, Sr. António Dionísio de Jesus.
Ao fim de 24 anos de incessante actividade, quer ao serviço da Soponata, ou em fretamentos esporádicos, o navio foi vendido à empresa João Luís Russo & Filhos, de Setúbal, em 20 de Setembro de 1976, data a partir da qual foram iniciados os trabalhas de demolição.

Foto do navio-tanque "Cercal", em Leixões
Minha colecção

Características do navio-tanque “Cercal”
1952 - 1976
Armador: Soponata – Soc. Portuguesa de Navios Tanques, Lda., Lisboa
Nº Oficial: H-414 - Iic: C.S.M.F. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: John Cockerill S.A., Hoboken, Bélgica, 1952
Arqueação: Tab 11.143,42 tons - Tal 7.179,50 tons - Pm 16.849 tons
Dimensões: Pp 155,73 mts - Boca 21,10 mts - Pontal 11,55 mts
Propulsão: Burmeister & Wein, Bélgica - 1:Di - 6.000 Bhp - 12,7 m/h

O novo petroleiro “Cercal” foi visitado pelo ministro da Marinha
O navio petroleiro português “Cercal”, recentemente construído na Bélgica para a frota mercante e que ante-ontem chegou ao Tejo, foi visitado, ontem, pelo Sr. ministro da Marinha. O Sr. almirante Américo Tomás, chegou às 10 horas, ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, sendo recebido, à entrada do navio, pelos administradores e directores da empresa armadora do “Cercal”, pelo respectivo comandante Sr. António Dionísio de Jesus e por alguns funcionários afectos aos serviços da Marinha Mercante.
Depois de uma visita pormenorizada, que durou cerca de duas horas e que terminou na câmara do comandante, foi ali servida ao Sr. ministro da Marinha, uma taça de «champagne»- Em nome da empresa armadora, o Sr. major Vitorino Branco agradeceu a visita do Sr. almirante Américo Tomás e os auxílios prestados pelo Governo àquela empresa e à Marinha Mercante.
O Sr. almirante Américo Tomás manifestou o seu agrado por ver a marinha nacional enriquecida, com uma unidade de categoria semelhante à das melhores do mundo, e desejou felicidades ao navio e à sua tripulação.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 18 de Setembro de 1952)

domingo, 14 de outubro de 2018

Leixões na rota do turismo! (9/2018)


Navios em porto na 2ª quinzena de Setembro

Nesta quinzena, os navios que estiveram de visita ao porto, são já conhecidos de escalas anteriores.
Mesmo assim, não pode ser ignorado o facto, relacionado com o número de navios em Leixões, ter atingido um valor muito significativo. Ficou apenas por salientar os muitos dias de sol, ocasionalmente combinados com imenso nevoeiro, a dificultar novamente melhor recolha de imagens.

Navio de passageiros "Midnatsol"
No dia 16, Chegou procedente da Corunha, saíu para Lisboa

Navio de passageiros "Zenith"
No dia 17, veio proveniente de Bilbau, também saíu para Lisboa
Foto retirada do sítio «Mercado de Eventos»

Lugre-patacho de passageiros "Gulden Leeuw"
No dia 17, chegou procedente de Amesterdão, saíu para Bonifácio
Escala com estudantes, permaneceu durante vários dias no rio Douro

Navio de passageiros "Marella Spirit"
No dia 18, veio procedente de Málaga, tendo saído para Lisboa

Navio de passageiros "Azamara Journey"
No dia 19, chegou procedente de Bilbao, saíndo para Lisboa

Navio de passageiros "Koningsdam"
No dia 21, veio proveniente da Corunha, também saíu para Lisboa

Navio de passageiros "Seven Seas Explorer"
No dia 23, veio procedente da Corunha, tendo saído para Lisboa

Navio de passageiros "Aida Cara"
No dia 23, chegou procedente de Lisboa, saíu com destino a Vigo

Navio de passageiros "Clio"
No dia 29, chegou proveniente de Vigo, tendo saído para Lisboa

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

História trágico- marítima (CLIX) Repetição


O lugre “Maria Helena“
1922 - 1923

Desenho de um lugre, sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-191 - Iic: -?- - Porto de registo: Porto
Armador: Não identificado, Lisboa
Construtor: D.S. Howard, Parsboro, Nova Escócia, 1894
ex "Maria Helena", Santos Amaral, Lda., Porto
ex “Maria Helena”, Leonardo A. Dos Santos, Porto, 1920-1921
ex “Minho”, J. Mourão & Cª., Porto, 1917-1920
ex “Earl of Aberdeen”, Bridgetown, Barbados, 1894-1917
Arqueação: Tab 450,36 tons - Tal 392,05 tons
Dimensões: Pp 50,00 mts - Boca 10,50 mts - Pontal 3,75 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 9 tripulantes

Ocorrência marítima
Viana do Castelo, 16 – Continua o mau tempo. O mar brame encolerizado. Não constam mais desastres, além daqueles já conhecidos, felizmente sem vítimas a lamentar.
Ainda não houve notícias do lugre “Maria Helena”, saído do Porto no último Domingo. Deus as mande satisfatórias para sossego das famílias dos seus tripulantes.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 18 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 18 - O lugre "Maria Helena", quando já desamarrado na doca para seguir viagem para Lisboa, foi de encontro ao cais rebentando um cabresto, não podendo sair no sábado. Saiu ontem e talvez a esta hora tenha arribado, devido ao mau tempo.
(Jornal "Comércio do Porto", quinta-feira, 19 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 24 - Ainda não há notícia do lugre "Maria Helena", que no Domingo saiu a barra de Viana com destino a Lisboa e no qual embarcou, a fazer a primeira rota de tirocínio para piloto, o sr. Jerónimo Aguiar, filho do industrial sr. José Pereira de Aguiar.
(Jornal "Comércio do Porto", quarta, 25 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 25 – Da viagem tormentosa do lugre “Maria Helena”, foram recebidas as seguintes informações:
No dia 16, imediato ao dia da saída, achava-se o navio nas alturas dos «Cavalos de Fão», quando foi surpreendido por um forte temporal de sudoeste; procurando então arribar, tal não conseguiu, devido ao nevoeiro, pelo que se pôs de capa rigorosa. O mar estava agitadíssimo, as vagas varriam o convés, levando o que encontravam.
O vento, saltando para O.N.O. (oeste-noroeste), fez-se ciclone e o navio adernou, tendo de alijar a carga de convés, com grande risco. Dando a popa ao mar correu à mercê, visto o pano ter ido pelos ares.
A tripulação quase esmoreceu, pois a todo o momento esperava que o navio fosse varar numa praia, onde ninguém escaparia. Entretanto, no dia foi o “Maria Helena” socorrido por um vapor alemão, rebocando-o para a bacia de Peniche, onde por ordem da capitania, o navio ficou ancorado com dois ferros pela proa. Às 3 horas da manhã do dia 20, rebentaram as amarras e o “Maria Helena” foi à praia, onde se desfez.
Ontem chegaram os náufragos a Viana. Alguns deles, ao transporem os umbrais das suas habitações, ajoelhavam e beijavam a soleira da porta! Parece que um dos náufragos vai cumprir uma promessa à Virgem da Agonia, de joelhos desde a sua casa até ao santuário.
Bendita crença!
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 26 de Janeiro de 1922)

Apesar de tanta turbulência, há que corrigir a notícia do naufrágio deste lugre de três mastros, construído em madeira, que iria ainda sofrer uma pequena alteração na arqueação, depois de passar por eventuais trabalhos de recuperação.
Aumentou a Tab para 457 tons e a Tal para 385 tons, o que não é muito significativo, mas permite ajuizar da existência do navio num período mais recente. Todos os acontecimentos relatados e o estado degradado do navio, terão levado o armador portuense a colocar o navio à venda, conforme se comprova pelo anúncio publicado no “Comércio do Porto”, em 7 de Setembro de 1922.


Concretizado o objectivo da venda, apareceu um comprador interessado, que não foi possível identificar, dado que o navio transferiu a matrícula para a praça de Lisboa. Infelizmente havia de navegar por pouco tempo, pois nova ocorrência ditou o ponto final.

Sinistro marítimo - Encalhe de um navio
Sagres, 24 - A 2 milhas a norte do Cabo Carvoeiro encalhou o navio português "Maria Helena". Para o socorrer partiram para ali várias embarcações.
O navio considera-se perdido, mas a tripulação foi toda salva.
(Jornal "Comércio do Porto", terça-feira, 24 de Setembro de 1923)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXVIII)


O naufrágio do vapor grego “Eugenia”

O navio grego “Eugenia” naufragou, não se sabendo da tripulação
Em Lisboa foi hoje recebido um rádio do comandante do vapor italiano “Sicania”, dizendo que às 8 horas, na latitude 39º Norte e longitude 9º35’ Oeste, vira naufragar o navio grego “Eugenia”, não encontrando vestígios da tripulação.
Esta comunicação foi feita às autoridades de Marinha.

Desenho de navio do tipo do vapor naufragado correspondente ao texto

Características do navio grego “Eugenia”
1920-1921
Armador: J.B. Culucundis, Piréu, Grécia
Construtor: Russel & Co., Ltd., Greenock, Escócia, 1898
ex “Foreric”, Bank Line (Andrew Weir Ltd), Londres, 1898-1916
ex “Foreric”, Egypt & Levant Steam Navigation Co., Londres, 1916-1920
ex “Eugenia”, Eugenia Shipping, Piréu, Grécia, 1920-1920
Arqueação: Tab 3.974,00 tons
Dimensões: Pp 105,20 mts - Boca 15,20 mts - Pontal 5,50 mts
Propulsão: Rankin & Blackmore, Greenock - 1:Te - 364 Nhp

Segundo um telegrama do Cabo Carvoeiro, parece que a tripulação do vapor “Eugenia” se salvou, porque o vapor belga “Minerva”, que passou ali, vindo do Sul, anunciou que ia desembarcar em Peniche a tripulação dum navio naufragado.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 16 de Abril de 1921)

Numa informação complementar, consta que o navio grego “Eugenia” deve ter naufragado no dia 15 de Abril de 1921, por suposta colisão com uma mina, próximo às Berlengas, quando em viagem de Huelva para Hamburgo.

sábado, 6 de outubro de 2018

Salva-vidas do I.S.N. "Gago Coutinho"


A entrega do salva-vidas "Gago Countinho" em Olhão

Mais uma vez o blog recorda a notícia de um novo barco salva-vidas, que na ocasião foi entregue aos Socorros a Náufragos de Olhão.
E muito me apraz poder fazê-lo, pelo respeito e reconhecimento que as tripulações destes barcos merecem, devido às provas de coragem e abnegação demonstrados ao longo dos anos.
Porém, foi imprescindível estarem dotados de equipamento adequado, pois só assim foi possível dar responta às perigosas missões de salvamento, que lhes foram confiadas.
A estatistica que abaixo se apresenta, é disso a principal evidência.


A estação de Socorros a Náufragos de Olhão tem um novo salva-vidas
A entrega do salva-vidas “Gago Coutinho” teve um festivo entusiasmo
Olhão, 24 – Chegou hoje a este porto, vindo de Lisboa, o novo salva-vidas “Gago Coutinho”, que à entrada da barra foi recebido festivamente por vários vapores, gasolinas e outras embarcações repletas de pessoas desta vila e da Filarmónica Olhanense.
O novo barco foi conduzido a esta ria, pelo sr. comandante Borges de Carvalho, pelo mestre Joaquim Casaca e pelo maquinista José Rodrigues Rocha. Após a sua chegada, organizou-se um cortejo fluvial em direcção à vila, onde depois se realizou, na Câmara Municipal, uma sessão solene, que foi presidida pelo sr. capitão de mar-e-guerra Eduardo Soares, secretariado pelos srs. Celestino Pereira, chefe da Repartição do Instituto de Socorros a Náufragos, comandante Borges de Carvalho e Duval Pestana, presidente da Câmara, que usou da palavra em primeiro lugar.

Foto do salva-vidas "Gago Coutinho" à chegada a Olhão
Imagem publicada no jornal referido no texto

O sr. Duval Pestana que se congratulou por tão importante melhoramento, pediu ao sr. comandante Eduardo Soares, que transmitisse ao sr. Ministro da Marinha, a quem o país devia tão relevantes serviços, a sua imensa gratidão. Enalteceu a figura prestigiosa do sr. comandante Borges de Carvalho. Terminou com palavras de louvor para o sr. Celestino Pereira e expondo a grave situação em que a classe piscatória se encontra, a qual podia ser remediada pelas entidades superiores.
A seguir falou o sr. Celestino Pereira, que como algarvio manifestou muita satisfação por vir associar-se a esta simpática festa, motivada pela vinda do salva-vidas, para esta ridente vila do Algarve e manifesta, também, o seu regozijo por ver Olhão dotado com uma bela estação de Socorros a Náufragos, o melhor edifício deste género, que o Instituto até hoje mandou construir, a qual fica devidamente apetrechada.
Rendeu preito de sincera homenagem ao prestigioso inspector dos Serviços de Socorros a Náufragos, capitão de mar-e-guerra, sr. Eduardo Soares, pessoa de inteligência lúcida e grande orientador dos mesmos serviços, a quem Olhão deve a vinda deste belo salva-vidas.
A seguir usou da palavra o sr. Cruz Azevedo, que como algarvio se congratulou também pela vinda do novo salva-vidas, afirmando que era o melhor preito de homenagem que poderia prestar, por tal motivo. Relembrou a nobilitante figura do Patrão Joaquim Lopes, honra e glória da terra portuguesa e pediu aos assistentes 2 minutos de silencio, de respeito e gratidão pela memória daquele que foi um verdadeiro lobo do mar e que abnegadamente tantas vidas salvou.
Finalmente falou o sr. comandante Eduardo Soares, que se associou a esta tocante manifestação de gratidão e saudade, pela memória de tão prestimoso algarvio. Agradeceu as palavras que lhe foram dirigidas, prometendo dirigir ao sr. Ministro da Marinha o reconhecimento e as aspirações do laborioso povo de Olhão.
(Jornal "Comércio do Porto", terça-feira, 26 de Julho de 1938)

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXVII)


O incêncio a bordo do vapor África", em Lisboa

Manifestou-se incêndio com violência no porão nº1 do
paquete “África”, atracado no Jardim do Tabaco.
Os bombeiros trabalham com dificuldade na extinção.
O vapor “*Africa” pertencente à Companhia Nacional de Navegação, viera no dia 27 do mês findo do Porto, onde estivera a receber carga diversa, principalmente caixas de vinho e fardos de fazendas.
Acostara ao cais de Santa Apolónia, onde esteve a receber mais carga, a fim de seguir para os portos de África.
Hoje, cerca das 2 horas da tarde, foi visto sair muito fumo pelos respiradores do porão nº2. Dado o alarme compareceram, dentro em pouco, os bombeiros municipais e voluntários, assim como vapores e rebocadores, sendo estabelecido, imediatamente, o ataque ao fogo.
Foram fechadas as escotilhas e o porão começou por ser inundado, no local onde o incêndio se manifestara. Pelas 4 horas e 45 minutos foram abertas as escotilhas, sendo verificado que o fogo continuava, pelo que um bombeiro com escafandro desceu ao porão, a fim de localizar o sítio exacto, conseguindo extinguir assim o incêndio.
O vapor está um tanto adernado a estibordo.
Ao posto de socorros, estabelecido no cais, foram receber curativo o bombeiro voluntário da 3ª secção Amorim, tripulante Laranjeira, João dos Santos Ferreira, José Nunes Ferreira e Joaquim Mendes Raimundo dos Santos, 3º piloto, e o comandante João Augusto Ferreira, intoxicados pelo fumo, ao tentarem descer ao porão.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 8 de Novembro de 1921)

Foto-postal do "África", emitido pela Cª Nacional de Navegação
Minha colecção

Características do paquete “África”
Armador: Companhia Nacional de Navegação, Lisboa
Nº Oficial: 443-B - Iic: H.B.G.K. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Raylton Dixon & Co., Ltd., Middlesbrough, Agosto 1905
Arqueação: Tab 5.490,81 tons - Tal 3.582,87 tons
Dimensões: Pp 127,52 mts - Boca 15,70 mts - Pontal 5,80 mts
Propulsão: N.E. Marine Engineering, Newcastle, 1:Tv - 6:Ci - 752 Nhp
Equipagem: 156 tripulantes
Abatido à frota da companhia durante o ano de 1932

Imagem do incêndio no vapor "África" da autoria de Salgado
Ilustração Portuguesa, Nº 821 de 12 de Novembro de 1921, pp.371

O incêndio a bordo do “África”
Morte de um estivador – Os prejuízos materiais
Ficou hoje, ao meio dia, extinto o incêndio que ontem se declarou no porão nº2 do vapor “África”.
A experiência feita com uma máquina de ar quente, que encheu por completo o porão, não deu os resultados desejados, pois que às 4 horas da madrugada, sendo o porão destapado, viu-se que o incêndio continuava a lavrar com a mesma intensidade.
Foram então, para debelar o incêndio, postos a funcionar os rebocadores “Cabo da Roca”, “Buarcos” e “Josephina”, bem como duas bombas a vapor, uma auto-bomba dos bombeiros municipais e várias mangueiras, que começaram a despejar água em grande quantidade (850 metros cúbicos aproximadamente), sendo o incêndio debelado.
Pouco depois começaram a proceder ao esvaziamento da água que enchia o porão, a fim de serem recolhidos os salvados.
Os prejuízos, tanto no porão como no resto do vapor são importantes, principalmente nos beliches que ficam próximo do porão e que a acção do calor muito danificou.
Os trabalhos decorriam com toda a regularidade, quando apareceu, numa embarcação, a mulher do estivador José Firmino Pinto, a dizer que o seu marido, que estava empregado no “África”, não tinha aparecido em casa.
Alguns empregados de bordo tiveram logo a suspeita de que o infeliz tivesse morrido no incêndio, pois que tinha sido visto a bordo quando este se declarou.
Vários bombeiros desceram imediatamente ao porão, sendo encontrado o cadáver do estivador à tona da água. Retirado para o cais, foi entregue à família, depois de verificado o óbito pelo respectivo sub-delegado de saúde.
Hoje de manhã também foi retirado o empregado de bordo Joaquim António Reis, sendo conduzido ao posto médico, onde foi submetido a ginástica respiratória, seguindo depois para sua casa.
Ao meio dia retiraram o material de incêndios e os rebocadores. Como medida de precaução, ficou junto do “África” uma bomba a vapor.
Os prejuízos estão cobertos por várias companhias de seguros.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 9 de Novembro de 1921)

Leixões na rota do turismo! (8/2018)


Navios em porto na primeira quinzena de Setembro

Neste período Leixões recebeu três navios em escala inaugural. De entre estes, aquele que atraiu maior atenção foi certamento o novo "Mein Shiff 1", com 315 metros, portanto um recorde absoluto.
Foi igualmente interessante a escala do novo navio francês "Le Laperouse", que apresenta diversas caracteristicas inovadoras.
Se congratulamos a visita ao porto de um agradável conjunto de navios, o nevoeiro que esteve presente a maior parte do tempo, dificultou a possibilidade de colher melhor imagens, motivo que nos levou a utilizar uma foto de Luís Miguel Correia, até que o "Costa Mediterranea", por exemplo, possa regressar a Leixões.

Navio de passageiros "Mein Schiff 1"
Foto do Arqtº Fernando Paiva Leal
No dia 3, chegou procedente da Corunha, tendo saído para Lisboa

Navio de passageiros "Marella Spirit"
No dia 4, chegou procedente de Vigo, continuou viagem para Lisboa

Navio de passageiros "Azamara Pursuit"
No dia 6, chegou procedente de Bilbao, seguiu também para Lisboa

Navio de passageiros "Balmoral"
No dia 6, chegou procedente de Newcastle, saiu para Málaga

Navio de passageiros "Boudicca"
No dia 8, veio proveniente de Dover, saiu com destino a Cadiz

Navio de passageiros "Le Laperouse"
No dia 12, chegou procedente da Corunha, saindo para Lisboa

Navio de passageiros "Black Watch"
No dia 12, veio procedente de Lisboa, saiu para Liverpool

Navio de passageiros "Costa Mediterranea"
Excelente foto de Luís Miguel Correia
No dia 14, chegou procedente da Corunha, saíu com destino a Lisboa

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXVI)


O naufrágio da chalupa “Primavera”, em Leixões

Ocorrência marítima
Na nossa costa a tempestade tem feito sentir os seus efeitos. Pela madrugada de ontem, cerca das 3 horas e meia, a ventania apanhou em cheio a chalupa “Primavera”, procedente de Lisboa, com carregamento de petróleo para Viana do Castelo.
O mar era muito e a chalupa tentou arribar a Leixões; quando, porém, estava prestes a transpôr a abertura dos molhes, desgovernou, tendo por isso de lançar mão do recurso único na ocasião: largar a âncora. Todavia, momentos depois a corrente rebentava e a chalupa foi de encontro ao rochedo denominado «Orça», situado ao oeste de Leixões.
Depois caiu sobre o enrocamento do molhe sul, em frente à praia de D. Carlos, em Matosinhos, e aí submergiu-se.
Imagine-se quantas angústias as da tripulação, composta de oito homens, naquele transe, com a morte diante dos olhos.
A catraia dos pilotos de Leixões, valeu-lhes em tão aflitiva situação, acudindo prestes e salvando a marinhagem. O rebocador “Águia” saiu também de Leixões, mas os seus serviços já não puderam ser utilizados.

Desenho de navio do tipo chalupa, sem correspondência ao texto

Características da chalupa “Primavera”
Armador: António Marques, Lisboa
Nº Oficial: N/d - Iic: S.T.D.H. - Porto de matrícula: Lisboa
Construtor: Não identificado
Arqueação: Tab 86,41 tons
Dimensões: Informação indisponível
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes

Matosinhos, 29 – A chalupa “Primavera”, encalhada hoje nas pedras que ficam na parte exterior do molhe sul do porto de Leixões, pertencia ao sr. António Marques, de Lisboa. Saíra daquele porto na quarta-feira passada, transportando 3.310 caixas de petróleo para Viana do Castelo.
A tripulação era composta de oito homens, incluindo o mestre, sr. Joaquim António da Silva, de Ílhavo. Este salvou-se em trajes menores, pois estava já preparado para se atirar ao mar, receando que não chegassem a tempo os socorros que estiveram pedindo para terra.
O mestre trazia a bordo um filho de dez anos de idade e ao qual, no momento de maior perigo, entregou uma boia de salvação para seguir desde logo a nado para terra; mas o rapazito, segundo disseram, recusou-a, ficando junto de seu pai.
Quando os tripulantes reconheceram o risco que corriam, acenderam fogachos a bordo e, para melhor serem vistos de terra, um dos marinheiros subiu ao mastro grande, enquanto que no convés outros pediam socorro pelo «porta-voz».
Numa ansia desesperada combinava-se já a bordo a maneira de tentar o salvamento, quando os tripulantes avistaram a catraia dos pilotos, que saía do porto. Os pilotos propuseram a chamada do “Águia”, para melhor lhes prestar auxílio. O mestre aceitou, mas os tripulantes opuseram-se, protestando contra a demora. Então a catraia aproximou-se e tomou a bordo os oito marinheiros e o rapazito, levando-os para bordo do “Águia”.
Daí a pouco o mar arrebatava a “Primavera”, que logo começou a desfazer-se de encontro aos blocos que guarnecem exteriormente o molhe sul. Os tripulantes foram levados para o posto de Socorros a Náufragos, onde lhes prestaram reconfortantes e roupas de agasalho.
De manhã afluiu muita gente à praia de D. Carlos a ver a chalupa, que acabou de se desfazer cerca do meio-dia.
Um banheiro, com o auxílio de um cabo, conseguiu ir até junto do navio perdido e trouxe para terra o cão de bordo.
As providências fiscais que é costume adoptar em tais casos foram tomadas logo de manhã cedo pelo sr. tenente Almeida, da secção fiscal, que pessoalmente compareceu no local a dirigir a fiscalização para a boa arrecadação dos salvados e destroços do navio.
O carregamento está seguro na Colonial Oil Company. Quanto ao navio consta que não estava no seguro.
O mestre do navio conseguiu trazer um colete com alguns objectos e uma pequena quantia em notas. Os tripulantes não salvaram nada.
O mesmo mestre naufragou no dia 27 de Agosto último, no iate “Modelo”, em consequência de ter rebentado a amarreta do rebocador, que o conduzia para fora da barra da Figueira da Foz.
Parece não restar dúvida que se em Leixões estivesse um vapor de prevenção, a “Primavera” não teria naufragado, pois ainda se deve ao acaso o aparecimento da catraia, que saía com destino a visitar um paquete que tinha avistado fora, ou por outra, por parecer de terra que os fogachos da chalupa eram do vapor “Funchal”, a pedir visita.
À praia veio já uma enorme quantidade de caixas com latas de petróleo, exalando muito cheiro.
No local do naufrágio compareceu o consignatário da chalupa no Porto, o sr. Artur José Rebelo de Lima.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 30 de Outubro de 1907)

O naufrágio da chalupa “Primavera”
Matosinhos, 30 - Continuam a ser arrojadas à praia D. Carlos grande quantidade de caixas com latas de petróleo, da carga da chalupa “Primavera”, que naufragou ontem por não lhe ter permitido o temporal arribar a Leixões, como pretendia. É provável que já no próximo Domingo seja vendido em leilão algum petróleo.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 31 de Outubro de 1907)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXV)


Nota de abertura

Venho notando desde há algum tempo que pessoas de poucos escrúpulos, tem vindo a copiar o trabalho de pesquisa apresentado neste blog, sendo utilizado anónimamente, sem que seja cumprida a mais elementar regra de educação, que seria obter a necessária autorização, omitindo dessa forma valores éticos, e morais.
Por inacreditavel que pareça, sou obrigado a informar que as fotos e textos, entretanto resumidos, compõe actualmente a base de dados relacionada com naufrágios, disponível no Museu Marítimo de Ílhavo, sem que disso me fosse dado conhecimento.
De ora avante, por favor respeitem o meu trabalho!...

O naufrágio do vapor inglês "Coventry"

Navio encalhado na barra do Douro
Por volta das seis horas da tarde de ontem enca-lhou à entrada da barra do rio Douro um vapor inglês, que está em risco de fechar o porto se o mar o deslocar da posição em que se encontra sobre as pedras.
Damos em seguida os pormenores que colhemos sobre o sinistro:
O vapor inglês “Coventry”, ao demandar a barra, guinou para o norte, indo encalhar sobre as pedras denominadas «Ponta do Dente», que se em frente à Meia-Laranja, no Passeio Alegre.
O navio, considerado logo perdido, foi abandonado pela tripulação, que retirou para terra no barco salva-vidas, da Cantareira, e nas catraias dos pilotos, tendo afluído a esse tempo numerosas pessoas ao paredão do Passeio Alegre, a presenciar os trabalhos de salvamento.
Segundo ouvimos, se o mar se agitar, o “Coventry” correrá risco de sair da posição em que ficou e causar a interrupção do movimento marítimo, o que, a dar-se, originaria grandes prejuízos a esta praça.
O vapor de 1.043 toneladas, consignado à casa Kendall, Pinto Basto & Cª., vinha de Newport, trazendo 2.043 toneladas de carvão para os caminhos de ferro do Minho e Douro.
O capitão, dois pilotos e dois engenheiros, ficaram hospedados no Hotel da Boavista, à Foz; e os treze restantes homens da tripulação foram mandados pelo sr. cônsul da Inglaterra para o Hotel Malhão.
A Guarda-fiscal adoptou desde logo as providências que é costume pôr em prática em casos de naufrágio, e na Capitania do porto está sendo levantado o costumado auto acerca do sinistro.
O vapor já tinha descarregado ontem em Leixões cerca de 300 toneladas de carvão.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 2 de Outubro de 1908)

Foto do vapor "Coventry" encalhado na barra do rio Douro
Minha colecção

Características do vapor inglês “Coventry”
1897-1908
Armador: F. Child, West Hartlepool, Sunderland, Inglaterra
Construtor: Edward Withy & Co., West Hartlepool, Julho de 1883
ex “Coventry”, Hessler Shipping Co., Londres, 1895-1897
ex “Coventry”, Sivewright, Bacon & Co., West Hartlepool, 1883-1895
Arqueação: Tab 1.678,00 tons – Tal 1.043,00 tons
Dimensões: Pp 78,50 mts - Boca 10,50 mts - Pontal 5,90 mts
Propulsão: T. Richardson & Sons, Hartlepool - 1:Cp - 2:Ci - 150 Bhp
Equipagem: 18 tripulantes

Vapor encalhado na barra do Douro
Durante o dia de ontem afluíram numerosas pessoas à Foz, para ver o vapor “Coventry”, que desde ante-ontem se encontra encalhado nas pedras denominadas «Ponta do Dente», à entrada da barra.
Por indicação do sr. cônsul inglês foi realizada de manhã uma vistoria ao “Coventry”, sendo peritos os capitães Jarvis, do vapor “Tagus”, e Thompson, do vapor “Starley Hall”.
Pelo que consta, os dois marítimos foram de opinião que se deve tratar desde já do salvamento da carga e dos aprestos do navio. Quanto ao casco, consideram-no perdido; mas depois de aliviada a carga irão proceder a trabalhos de tentativa de salvamento, que, segundo os entendidos, não parece crível que deem resultado satisfatório.
O navio e a carga estão seguros em Companhias estrangeiras e, segundo as opiniões dos peritos, já ontem começaram os trabalhos de retirada dos salvados, tendo atracado a bordo algumas catraias com vários trabalhadores que ao fim da tarde transportaram para a Cantareira diversos utensílios do navio, os quais foram entregues à delegação da Alfândega.
O capitão B. Cox, do “Coventry” foi a bordo com alguns tripulantes, sendo retirados os viveres, roupas, livros e instrumentos náuticos.
Hoje devem prosseguir os trabalhos de salvamento de materiais, sempre sob a fiscalização dos empregados aduaneiros.
Na repartição do Departamento Marítimo do Norte foi ontem levantado o auto acerca do sinistro, prestando declarações o piloto sr. José Martins, que dirigia a manobra do navio quando demandava a barra. Parece estar apurado que não houve imperícia por parte do prático da barra e que o sinistro se deve ao desgoverno do leme por motivo de duas grandes vagas que bateram na popa.
O piloto sr. José Martins é um homem experimentado, tendo andado 21 anos no mar e há 30 que exerce o cargo de piloto, sem que nunca tivesse sofrido um desastre.
Até ontem, ao fim da tarde, o “Coventry” não mudou de posição e não prejudicou o movimento marítimo, pois que entraram quatro vapores e saíram três vapores, duas chalupas, dois iates e uma escuna.
Como foi dito acima, uma multidão de curiosos estacionou durante o dia de ontem no paredão da Meia-Laranja e no molhe do Castelo a ver o navio naufragado.
No areal, sob um amplo guarda-sol branco, o grande artista Artur Loureiro esboçava na tela o casco do vapor, enquanto um grupo numerosos de curiosos, mais ou menos importunos, se comprimia em volta dele, estorvando-lhe por vezes a vista e o movimento do pincel.
Em outros pontos, diversos fotógrafos assestavam para o “Coventry”, as objectivas das suas máquinas.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry”
Este vapor continua na mesma posição, encalhado nas pedras «Ponta do Dente», à entrada da barra do Douro.
Ontem atracaram a ele alguns barcos e o vapor “Liberal”, tendo ido a bordo vários trabalhadores fluviais, que retiraram para a Cantareira utensílios de bordo e diferentes materiais. Quanto à carga ainda não começou a ser descarregada.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 4 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry”
Ante-ontem afluiu à Foz do Douro um acrescido número de pessoas a ver o vapor “Coventry”, encalhado à entrada da barra sobre as pedras «Ponta do Dente». Foi uma verdadeira romaria, vendo-se os carros americanos repletos de passageiros, especialmente de tarde.
Ontem continuava o vapor na posição em que ficou, quando se deu o sinistro, tendo sido retirada grande quantidade de carvão que constituía a carga e vem assim vários utensílios de bordo.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 6 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry” – Obstrução da barra
O mar bravio acabou de escangalhar o vapor inglês Coventry”, que há dias se encravara no rochedo “Ponta da Dente”, existente muito perto da barra do Douro.
Ainda no Domingo o navio estava direito, apenas com a popa um pouco afundada. Visto das proximidades do castelo da Foz mais parecia estar ali fundeado, do que na situação perigosa em que o azar o colocou.
O sinistro deu-se há uns poucos de dias, como é notório. Tendo ocorrido muito perto do estreito canal da barra, era de presumir que, logo que o mar se mexesse e agitasse um pouco mais, fragmentasse o navio e os destroços obstruíssem a barra.
Urgia, portanto, tomar medidas rápidas e decisivas, e não esperar os efeitos violentos do mar. Como tais medidas não viessem, vagas alterosas incumbiram-se de zombar da impotência dos homens. Destroçaram-no pela madrugada, pouco antes do nascer do sol, de sorte que quando a gente da Foz se ergueu, do vapor apenas restavam leves vestígios.
O que muitos temiam no tocante à obstrução da barra, deu-se. Segundo informações do telégrafo da Associação Comercial, um pedaço da proa do “Coventry” foi arremessado para o canal da barra, um pouco a leste da «Lage do Geão» e presumindo-se que parte dos destroços estejam dispersos pelo mesmo canal, impedindo assim a passagem dos navios.
O mar, como foi dito, tem estado alteroso, obstando por isso a uma rigorosa sondagem. Um barco com pilotos da barra, sob as ordens do piloto-mor, sr. Domingos Pereira da Silva, lá andou ontem no local em trabalhos de investigação; mas nada ou quase nada ficou apurado porque a braveza do mar não consente por enquanto os trabalhos práticos dê resultados definitivos.
O que se sabe de positivo é que os navios surtos no Douro estão engarrafados, como sucedeu àquela celebre esquadra que, em audaciosa viagem, correra em socorro de possessões ameaçadas. Nem uma triste light (laita) passa na barra com grave prejuízo do comércio da praça do Porto.
Da obstrução indicada foi logo dado conhecimento ao ilustre capitão de mar-e-guerra sr. conselheiro Marques da Costa, chefe do Departamento Marítimo do Norte, o qual, acto contínuo, telegrafou à Direcção Geral de Marinha, dando parte do ocorrido, e oficiou à Junta das Obras da Barra no mesmo sentido.
O engenheiro da Junta, sr. Manuel de Sousa Machado Júnior, teve logo uma conferencia com aquele oficial de marinha, ponderando os inconvenientes resultantes da obstrução e assentando-se na realização de sondagens tão depressa o mar o permita. Um mergulhador procederá a investigações e ver-se-á então o que é necessário fazer para o restabelecimento do movimento marítimo.
A Companhia Carris de Ferro do Porto dispôs de todo o seu material de carga, isto é, de 26 zorras abertas e fechadas e de quatro reboques para o transporte de mercadorias de Leixões para a Alfândega e vice-versa.
As laitas surtas no Douro descarregaram logo as mercadorias prontas a seguir para Leixões e outro tanto fizeram as embarcações do mesmo padrão e tonelagem, que deviam seguir de Leixões, onde estão, para o Douro. O material da Companhia Carris foi que andou no transporte das mercadorias.
Todavia, se acaso a desobstrução da barra se não faz quanto antes, o comércio sofrerá irreparáveis prejuízos com a chegada de vapores e navios de vela, que se esperam a todo o momento, visto não ser fácil dar vazão ao movimento de mercadorias.
Se, com efeito, a barra está excessivamente obstruída, como se supõe, urge que os fragmentos do vapor naufragado voem pela dinamite, por meio de correntes eléctricas, segundo o uso nestes casos.
A fúria do mar não permitiu a pesca dos barcos à vela, que se refugiaram em Leixões os que an-davam ao largo, visto não poderem entrar no Douro.
Ao Cabedelo, que nestes dias se vê muito concorrido, tem o mar arrojado objectos que constituíam o recheio do navio. À Foz, como nos dias anteriores, acudiu ontem muita gente, curiosa de acompanhar o seguimento dos trabalhos.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 14 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry” – Obstrução da barra
O mar amainou ontem bastante, mantendo-se ainda assim um tanto agitado, especialmente de tarde.
Como havia sido combinado, o piloto-mor sr. Domingos Pereira da Silva foi ontem, cerca do meia hora da tarde, numa catraia dos pilotos até à altura das pedras denominadas «Lages», onde se afundou o vapor “Coventry”, e procedeu a uma rigorosa sondagem para conhecer o estado do canal de acesso ao rio, e qual a situação do navio naufragado, a fim de verificar se poderiam entrar ou sair quaisquer embarcações.
Nessa ocasião, o mesmo piloto-mor colocou uma boia no ponto onde está a proa do “Coventry” e mudou mais para a entrada da barra uma outra boia que estava próximo.
Realizada esta sondagem e feitas as demarcações, o mesmo marítimo participou às respectivas estâncias oficiais que o casco do “Coventry” está atravessado no fundo do canal, no lugar das «Lages», achando-se, portanto, obstruída a maior parte do canal. Diz, porém, haver pelo sul da marca nova, «Anjo», uma passagem bastante dificultosa, devido à restinga do Cabedelo e ao cabeço de areia do sudoeste da barra, o que permitirá a entrada e saída de embarcações de pequena lotação.
Com o piloto-mor, que é um prático habilíssimo, esteve conferenciando o mergulhador sr. Alfredo Pinto Monteiro, ao serviço da Junta das Obras da Barra, sobre a situação do “Coventry”, não podendo, porém, o referido mergulhador ir ao fundo do canal em virtude do estado do mar. Ficou assente que procurará ir hoje e, só depois do resultado do exame, será indicada a melhor forma de se realizar a desobstrução da barra, que parece só se conseguirá por meio da dinamite.
Depois da uma hora da tarde começou a haver algum movimento marítimo, entrando e saído em serviço de reboque de laitas os vapores “Veloz”, “Ligeiro”, “Victória”, “Max” e Lusitânia”.
Entraram depois os vapores de pesca “Laureate”, “Sachsen” e “King Edward” e a chalupa “D. Feli-cidade”; e saíram os três torpedeiros portugueses e os vapores de pesca “Saale” e “Neskar”.
No molhe da Cantareira, junto da delegação adu-aneira, estão depositados vários materiais que pertenciam ao “Conventry”.
Ontem continuaram durante o dia vários comboios de vagonetes, tirados a rebocadores eléctricos, a empregar-se no serviço de transporte de mercadorias para Leixões.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 15 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry” – Obstrução da barra
Os consignatários de vapores conferenciaram ontem com o ilustre presidente da Associação Comercial, sr. dr. Júlio Araújo, a quem pediram a sua interferência para que quanto antes se restabeleça plenamente o movimento marítimo na barra do Douro, que está obstruída, como é notório, pelos destroços do naufragado vapor “Coventry”, visto que a interrupção da barra, ainda mesmo que parcialmente, causa não pequenas perdas à praça do Porto.
O sr. dr. Júlio Araújo expôs as diligências que tem empregado desde o dia do naufrágio daquele navio. Desfeito o vapor em duas partes, a proa, como está verificado, foi impelida para a parte norte da barra e a popa foi arremessada para o lado sul. De conferencias que nos últimos dias tem realizado com o piloto-mor da barra, ficou assente uma minuciosa investigação ao canal da barra por um mergulhador, que ontem se efectuou, especialmente à parte sul do canal, que é a mais acessível aos navios de maior calado e por onde já ante-ontem e ontem passaram navios.
Urgia, porém, repôr a barra nas condições anteriores e nesse propósito, - acrescentou o sr. presidente da Associação Comercial - depois de ouvidas as informações do mergulhador, tudo se dispôs para que hoje começasse a destruição do casco por meio de dinamite. A barra ficaria assim desimpedida muito rapidamente.
Os consignatários de vapores ficaram muito satisfeitos com estas explicações, que agradeceram, bem como a amabilidade com que foram recebidos.
Com efeito, o mergulhador sr. Alfredo Pinto Monteiro, quando explorou o canal, pode amarrar uma corda à popa do “Coventry”, tendo assistido aos trabalhos, de bordo de uma catraia, o piloto-mor sr. Domingos Pereira da Silva, o qual mandou colocar uma boia na referida amarra, a fim de se conhecer o rumo que os navios devem tomar na saída e entrada da barra.
Todos os navios que entram tomam o rumo sul, descrevendo depois uma curva em volta do sítio onde se encontra afundada a popa do “Coventry”, até entrarem no referido canal. Parece que hoje de manhã poderão entrar navios que demandem 16 pés de calado.
Com destino a Leixões saíram ontem a barra cinco laitas, levando algumas delas várias mercadorias.
Durante o dia entraram na barra os vapores de carga “Sir Walter” e de pesca “Portuense” e ainda o vapor “Santiago”, o iate “Flor de Setúbal” e os lugres “Vouga” e “Hamlet”, sendo estes quatro navios rebocados, respectivamente, pelos vapores “Veloz”, “Mars” e “Lusitânia”.
Também saíram os vapores alemães “Stahleck”, “Sines” e “Nestor”, e o iate inglês “Gladys S”, sendo este rebocado pelo “Victória”.
À Foz continua a afluir muita gente, para ver… o sítio onde está o vapor naufragado.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 16 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry” – Obstrução da barra
O mergulhador sr. Alfredo Pinto Monteiro, devia ter começado ontem os trabalhos de destruição do vapor “Coventry”. Esses trabalhos, porém, não puderam iniciar-se, em consequência do mar se apresentar um tanto alteroso.
Logo que esteja mais bonançoso, será começada a destruição por meio de dinamite, sendo realizados esses trabalhos na ocasião da vazante.
A fim de obstar a qualquer acidente motivado pelos explosivos, o chefe do Departamento Marítimo do Norte, sr. conselheiro Marques da Costa, mandou afixar no átrio do departamento o seguinte aviso:
«Procedendo-se desde já, quando o tempo permitir, a trabalhos de mergulhador no casco do vapor “Coventry”, é expressamente proibido na barra o trânsito de embarcações; e, enquanto elas durarem estará içado no castelo da Foz o sinal de impedimento.
Os transgressores serão punidos com a multa na conformidade do artº 238 do regulamento.
Havendo explosões, este trabalho será indicado por uma bandeira branca, içada na embarcação do mergulhador, e outra no mastro do castelo da Foz, a fim de prevenir os moradores da localidade e as embarcações que navegam nas proximidades.
Departamento Marítimo do Norte, 15 de Outubro de 1908»
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 17 de Outubro de 1908)

O vapor “Coventry” – Obstrução da barra
Ainda ontem não foi iniciada a operação de destruição do vapor “Coventry”, que naufragou à en-trada da barra, em virtude do mar não permitir o trabalho dos mergulhadores.
Logo que o mar melhore, será dado inicio aos trabalhos. Diz-se que serão dois os mergulhadores empregados na destruição do vapor.
Apesar do mar se ter apresentado bastante alteroso, houve ontem numerosas entradas e saídas de navios de calado inferior a 16 pés.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 18 de Outubro de 1908)

A destruição do vapor “Coventry”
Como o mar permitisse, tiveram inicio ontem os trabalhos de destruição do vapor “Coventry”.
Esses trabalhos começaram às seis horas e meia da manhã, tendo-se dado quatro explosões, sendo empregues em cada uma delas dois cartuchos de dinamite. As descargas eram produzidas por meio de electricidade, achando-se as respectivas pilhas colocadas no barco da junta das obras da barra.
A destruição começou por ser feita pela popa do “Coventry”, que fica do lado sul da barra, sendo os explosivos colocados ali pelo mergulhador sr. Alfredo Pinto Monteiro.
Ao darem-se as explosões, a água levantava-se em cachão, aparecendo então à superfície pedaços de madeira, que eram apanhados pelas tripulações de pequenos barcos que andavam distantes do sítio onde se encontra o vapor.
Do barco da junta das obras da barra assistia aos trabalhos de destruição o engenheiro da mesma junta, sr. Manuel de Sousa Machado Júnior, encontrando-se também ali de prevenção um outro mergulhador.
Ignoram-se por enquanto os destroços causados no vapor, produzidos pelos explosivos, devendo desse facto ser lavrado um relatório.
Num outro barco também assistiram aos trabalhos, os srs. Domingos Pereira da Silva e Joaquim Ferreira Viseu, respectivamente piloto-mor e sota piloto-mor da barra.
Os trabalhos terminaram cerca das dez horas e meia, devendo recomeçar hoje, às sete horas, caso o mar o permita.
No paredão ao longo do Passeio Alegre encontravam-se numerosas pessoas, que assistiram com interesse aos trabalhos de destruição. A polícia não consentiu que nos pontos mais próximos da barra estacionasse qualquer pessoa, a fim de evitar acidentes.
Conforme a determinação do capitão de mar-e-guerra, sr. conselheiro Marques da Costa, ilustre chefe do Departamento Marítimo do Norte, foram colocados os respectivos sinais nos sítios indicados pelo mesmo funcionário, já antes referidos.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 20 de Outubro de 1908)

A destruição do vapor “Coventry”
Em consequência do mar se apresentar ontem um pouco agitado, não puderam prosseguir os trabalhos de destruição do vapor “Coventry”. No caso do mar o permitir, esses trabalhos continuarão hoje, de manhã.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 21 de Outubro de 1908)

A destruição do vapor “Coventry”
Ainda ontem não puderam prosseguir os trabalhos da destruição do vapor “Coventry”, devido ao estado do mar. Esses trabalhos recomeçarão, porém, com celeridade, logo que se ofereça oportunidade para isso.
O sr. Joaquim Augusto da Silva Magalhães, solicito presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, recebeu dos srs. Ministros das Obras Públicas, da Marinha, da Justiça e dos Estrangeiros, telegramas em resposta aos que o mesmo município lhes havia dirigido, solicitando prontas providências para se desobstruir a barra do porto, cujo impedimento ocasiona sensíveis prejuízos a esta cidade.
Aqueles estadistas prometeram interessar-se pelo assunto, tendo já sido ordenadas as providências pedidas, em virtude das quais, como é sabido, se iniciaram os trabalhos de desobstrução da barra.
O sr. Joaquim Magalhães telegrafou novamente aos referidos ministros, agradecendo-lhes, penhorado, os seus valiosos serviços.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 22 de Outubro de 1908)

A destruição do vapor “Coventry”
Continuaram ontem com muita actividade os trabalhos de destruição do casco do vapor “Coventry”, assistindo a esses trabalhos um dos engenheiros da junta das obras da barra e o piloto-mor.
Como de costume, estiveram muitas pessoas no Passeio Alegre assistindo à destruição, na qual foram empregados quatro tiros.
Se o mar o permitir, os trabalhos da destruição do vapor devem prosseguir hoje.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 23 de Outubro de 1908)

A destruição do vapor “Coventry”
Continuaram ontem os trabalhos de destruição do vapor “Coventry”. Deram mais cinco tiros de dinamite, que produziram bastantes destroços no casco.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 24 de Outubro de 1908)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Construção naval


O lançamento à água da canhoneira "Beira"
Iic: G.Q.H.B. - Deslocamento: 405 tons - 700 Bhp - 2 bocas de fogo

Imagem da canhoneira "Beira"
Desenho de Luís Filipe Silva

Lisboa, 8 de Junho – No Arsenal de Marinha realizou-se esta tarde a cerimónia do lançamento ao rio da canhoneira “Beira”.
O administrador do Arsenal, contra-almirante Sr. Magalhães da Silva, que tinha à direita o major-general da Armada, Sr. José Cesário da Silva e à esquerda o capitão-tenente, Sr. Silveira Moreno, ajudante do Sr. Ministro da Marinha, depois de retirado o macaco hidráulico, empurrou o navio, que, levando a bordo o patrão-mor e o guarda-marinha, Sr. António Venâncio, dois sargentos e os homens do troço, foi amarrar em frente do Arsenal.
Assistiram à cerimônia o diretor da Escola Naval, o contra-almirante Sr. Augusto Botto, os capitães de mar-e-guerra, Srs. Vieira de Sá e Nandim de Carvalho, capitão-de-fragata Sr. Júlio Teles, capitão-tenente Sr. Pacheco Moreira, 1ºs tenentes, Srs. Cardoso Pereira, Montalvão, Bastos, Seixas, Bicker, etc.
Não assistiu, como se esperava, o Sr. Ministro da Marinha.
Assistiram ao lançamento da canhoneira mais de 500 pessoas.
(Jornal "Comércio do Porto", Quinta-feira, 9 de Junho de 1910)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXIV)


O naufrágio do paquete “Lusitânia”

Lisboa, 19 de Abril – No Cabo da Boa Esperança encalhou hoje o paquete “Lusitânia”, da Empresa Nacional de Navegação, ficando completamente perdido. Passageiros e tripulação foram salvos.

Imagem do paquete "Lusitânia"
Bilhete postal da companhia armadora do navio

Lisboa, 19 de Abril – Hoje, de manhã, na Empresa Nacional de Navegação, foram recebidos alguns telegramas, assim como no ministério dos Estrangeiros, dando conta que o paquete “Lusitânia” pertencente à Empresa Nacional de Navegação, ao passar no Cabo da Boa Esperança, encalhara, ficando logo completamente perdido, salvando-se, a custo, toda a tripulação e passageiros. Um outro telegrama acrescentava que havia falecido uma passageira.
Esta última informação não é desmentida nem confirmada na Empresa a que pertence o navio, e que ainda não há muito tempo perdeu um outro dos seus melhores paquetes, o “Lisboa”. Esse mesmo telegrama refere que um cruzador inglês, informado do sinistro, partiu imediatamente com o fim de prestar socorros. O desastre deu-se às dez horas da manhã de hoje e, segundo outras informações recebidas ao começo da tarde, perdeu-se a carga na sua totalidade.
O “Lusitânia”, era actualmente o mais importante paquete da Empresa. Foi construído em 1906, na Alemanha, e custou 104.000 libras. Tinha 32 lugares de 1ª classe para 104 passageiros; 58 de 2ª para 172 passageiros e 14 de 3ª para 140. Possuía duas enfermarias, quatro beliches e boticas.
As suas carreiras eram para a África Oriental, vindo agora de Lourenço Marques com 874 pessoas, entre passageiros e tripulação. A oficialidade de bordo compunha-se do capitão, César José Faria; imediato, Joaquim Fernandes de Oliveira; 1º piloto, Duarte Alfredo Bacia; 2º piloto, Ramos de Almeida Lopes; e 3º piloto José Bernardo Camelo; médico, Júlio Proença Fortes; 1º engenheiro, Robert Ireland; 2º engenheiro, Jacinto Martins e 3º engenheiro, José L. dos Santos.
O “Lusitânia” devia chegar a Lisboa no dia 11 de Maio próximo.
Como é de prever, a notícia deste lamentável desastre tem causado grande consternação em Lisboa.
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Londres, 19 de Abril – Um telegrama da Cidade do Cabo, recebido pelo Lloyds, diz que o paquete português “Lusitânea”, em viagem de Moçambique para Lisboa, encalhou em Betlows Rock e julga-se estar totalmente perdido.
O cruzador “Forte” e um rebocador do governo saíram para o socorrer.
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Londres, 19 de Abril – Um telegrama de Simonstown para o almirantado diz que tanto os passageiros como a tripulação do “Lusitânia”, em número de cerca de 800 pessoas, foram recolhidos a bordo do cruzador “Forte” e do rebocador “Scotsman”.
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Londres, 19 de Abril – Telegrafaram da Cidade do Cabo à Agência Reuter, que o “Lusitânia” naufragou por causa do nevoeiro, pois o mar estava sossegado.
O rebocador “Scotsman” levou muitos passageiros para Simon’s Bay. Os outros vão por terra, em vagões e carros; 400 foram levados a Table Bay, a bordo do cruzador “Forte”. Morreu afogada uma senhora e falta um rapaz. A lancha do “Lusitânia” voltou-se em frente da praia, afogando-se duas pessoas.
Os porões nºs 1 e 2 estão cheios de água.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 20 de Abril de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Lisboa, 20 de Abril – Sabe-se que 400 náufragos do vapor “Lusitânia” desembarcaram em Simon’s Bay, chegando já à Cidade do Cabo trinta e oito dos que mais sofreram. Está confirmado ter morrido uma mulher, um homem e ainda um terceiro, chamado Raúl Lopes. No desembarque, as mulheres queixavam-se de frio, pois quase iam desprovidas de roupa. Muitos passageiros apresentavam-se apenas meio cobertos com cobertores.
Quando o “Lusitânia” encalhou, ficou preso nos rochedos, de contrário teria soçobrado rapidamente, morrendo todos.
O cônsul português no Cabo da Boa Esperança telegrafou ao governo, dizendo que o almirante da esquadra de Simon’s Bay, em seguida ao naufrágio, providenciou ao salvamento da tripulação e passageiros.
Duzentos passageiros e a tripulação seguem para Lisboa no primeiro vapor inglês que chegar à Cidade do Cabo.
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Lisboa, 20 de Abril – O último telegrama que a Empresa Nacional de Navegação recebeu esta tarde, do Cabo da Boa Esperança, diz que o paquete “Lusitânia”, está completamente perdido. Tripulantes e passageiros foram salvos, à excepção de madame Carvalho Nunes, soldado Souza Rosa, piloto Raúl de Almeida Lopes e um passageiro de nome Mendes. Uma parte da carga foi salva.
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Lisboa, 20 de Abril – Chama-se Madalena Pedroso a mulher que morreu vitima do naufrágio do vapor “Lusitânia”.
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Londres, 20 de Abril – Telegrafaram da Cidade do Cabo para a Agência Reuter a informar que o capitão César Faria, do “Lusitânia”, se recusou a abandonar o vapor. Tendo sido infrutíferos os meios de persuasão empregados, o comandante do cruzador inglês “Forte”, dirigiu-se num escaler para bordo do “Lusitânia” e obrigou o capitão Faria a sair.
Este, então, pôs a bandeira a meia haste, deixando o “Lusitânia” com relutância, tendo sido conduzido para bordo do cruzador “Forte”.
As malas do “Lusitânia”, bem como outras coisas aparentemente perdidas, foram salvas pelo “Forte”.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 21 de Abril de 1911)

Os náufragos do “Lusitânia”
Londres, 21 de Abril – Comunicam da Cidade do Cabo à Agência Reuter que os passageiros e a tripulação do “Lusitânia” partirão, provavelmente, no dia 24, a bordo do vapor inglês “Comrie Castle”, à excepção dos 475 indígenas, que partem para S. Tomé na próxima semana. (Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 22 de Abril de 1911)

O vapor “Lusitânia”
Lisboa, 22 de Abril – Na Empresa Nacional de Navegação foi hoje recebido um telegrama dizendo que soçobrara de todo o paquete “Lusitânia”, que será substituído pelo novo paquete “Beira”, adquirido em Hamburgo e que deve chegar ao Tejo no próximo dia 9 de Maio.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 23 de Abril de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Londres, 24 de Abril - Telegrafaram da Cidade do Cabo para a Agência Reuter informando que foi arrojado à praia, na margem de Falsebay, um cadáver do “Lusitânia”, tendo sido já identificado como sendo o de madame Carvalho Nunes.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Abril de 1911)

Náufragos do vapor “Lusitânia”
Lisboa, 9 de Maio – Chegaram hoje à Madeira, a bordo do vapor “Corfe Castle”, os primeiros náufragos do paquete “Lusitânia”. São 18 passageiros de 1ª classe e 10 de segunda. Entre os primeiros figura, com destino a essa cidade, o sr. dr. Arnaldo Dinis da Silva Viana, conservador na Beira, África Oriental. Os restantes embarcaram já na Cidade do Cabo, a bordo do “Comrie Castle”.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 10 de Maio de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Lisboa, 15 de Maio – Amanhã devem chegar a bordo do “Rio Negro” oito passageiros de 3ª classe, náufragos do “Lusitânia”, procedentes do Funchal. Os passageiros de 2ª classe ainda aí se encontram, devido à negligência da empresa, tendo sido a este respeito pedidas providências ao governador civil.
A direcção da Liga dos Oficiais da Marinha Mercante reuniu esta noite para protestar contra o artigo publicado pelo “Século”, acerca do naufrágio do paquete “Lusitânia”, artigo que produziu indignação entre a classe, porquanto o comandante Faria goza da melhor reputação entre os colegas. Brevemente será publicado o protesto.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 16 de Maio de 1911)

sábado, 22 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXIII)


O naufrágio do paquete “Lisboa”
1910 - 1910

Lisboa, 24 de Outubro – Encalhou, ontem, na enseada do norte do Cabo da Boa Esperança o paquete “Lisboa”, da Empresa Nacional de Navegação, do comando do capitão sr. Meneses, tido como um dos melhores oficiais na marinha mercante de Lisboa. A notícia deste sinistro correu por toda a cidade, afluindo centenas de pessoas ao escritório daquela Empresa, visto que o paquete saíra em 1 do corrente do Tejo com grande número de passageiros e um importante carregamento. Corriam boatos terroristas.
O telegrama dali recebido dizia que o encalhe produzira tal rombo, que o paquete corria risco de ir a pique por todo o dia.
Era a segunda viagem que o paquete fazia, sendo o melhor navio da Empresa Nacional de Navegação. Morreram três indivíduos que se não sabe se eram tripulantes ou passageiros. É considerado perdido.
O navio tinha custado aproximadamente 130.000 libras. Estava seguro em 80.000. Partiram para o local do sinistro os agentes do Lloyds.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Outubro de 1910)

Imagem do paquete "Lisboa" na Ilustração Porutuguesa,
Nº 227 de 27 de Junho de 1910, com a seguinte legenda:
O vapor "Lisboa"
O paquete "Lisboa", da Empresa Nacional de Navegação, que chegou ao Tejo em 18 de Junho, atracando ao cais da Fundição, tem 130 metros de comprimento, desloca 7.200 toneladas e pode comportar 3.000 de carga. É seu comandante o sr. Baltasar de Meneses.

O naufrágio do vapor “Lisboa”
Cidade do Cabo, 25 de Outubro – Morreram os seguintes indivíduos: o engenheiro Brown, os criados Azevedo Ferreira e Lúcio, os sargentos Nascimento e Braz e o passageiro Lambert.
A comunicação entre o local do sinistro do vapor “Lisboa” e este porto é muito má. Não se pode comunicar com o comandante.
Os passageiros são aqui esperados amanhã e seguirão no primeiro vapor. A tripulação seguirá para Lisboa.
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Cidade do Cabo, 25 de Outubro – As vitimas do naufrágio são o 1º engenheiro Brown, o 3º engenheiro Maclalon, os sargentos Nascimento e Braz, os criados Ferreira e Lúcio e os passageiro Lambert.
O sr. Finsel, vice-cônsul inglês em Lobito, que era passageiro do “Lisboa”, disse ao correspondente da Agência Reuter, que o navio encontrara ao principio fortes ventos, mas que depois o tempo abrandara e não havia nevoeiro.
Durante o trajecto o “Lisboa”, bateu no rochedo, às dez horas e 45 minutos da noite de Domingo. O choque foi forte, produzindo grande alarme nas mulheres e nas crianças, mas não houve pânico. Só apenas alguma confusão, no momento em que os passageiros desciam para as lanchas. Estas ficaram perto do navio até à aurora, que foi quando se chegou à costa, sem dificuldade.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 27 de Outubro de 1910)

O vapor “Lisboa”
Lisboa, 27 de Outubro – A Empresa Nacional de Navegação recebeu hoje da Cidade do Cabo um telegrama, confirmando as notícias já conhecidas sobre os mortos do naufrágio do paquete “Lisboa”, acrescentando não haver notícias do comandante pela má comunicação entre aquele porto e o local do sinistro e que os passageiros eram ali esperados amanhã, seguindo viagem no primeiro vapor, regressando a tripulação a Lisboa. Os prejuízos do vapor são totais.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 28 de Outubro de 1910)

O naufrágio do “Lisboa”
Cidade do Cabo, 27 de Outubro – Chegou aqui o vapor “Burton Port”, com os passageiros do vapor português “Lisboa”.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 29 de Outubro de 1910)

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Acredite, se quiser!


Fait divers

Até que ponto a aproximação de um cometa à terra pode, ou não, influenciar o comportamento das pessoas?
Esta é, à partida, uma questão de difícil e complicada resposta, porém, face aos acontecimentos, fica no ar a ideia de existir algo, que o bom senso não consegue explicar. Senão vejamos:

O cometa Halley

Face à aproximação do cometa Halley ao nosso planeta, em meados de 1910, sendo visível em vários pontos o seu rasto longo e luminoso, que encantou uns e assustou outros, mais abaixo o impensável ia acontecendo!

Com origem no Rio de Janeiro, chegou uma notícia desde Toulon, que informava ter sido roubado o cofre do navio-escola “Benjamim Constant”, quando este se encontrava atracado num cais do porto de La Seyne-sur-Mer, em França, em reparação prolongada. Tratava-se do cofre forte do navio, onde o comandante guardava todos os documentos, e a simpática quantia de 172 mil francos franceses.

Logo que o roubo foi conhecido, de imediato tiveram início as compreensíveis diligências policiais, para tentarem identificar os autores de tão audaciosa proeza. Feitas as necessárias pesquisas, não ficou qualquer indício dos criminosos, mas pelo menos o cofre forte foi encontrado, naturalmente afundado em La Seyne, muito próximo do ancoradouro do navio.
Pelo que foi possível apurar, os ladrões foram para bordo do navio brasileiro num pequeno barco, para o qual desceram o cofre, que continha além da soma já indicada, mais documentação substancialmente importante e algumas joias de um oficial recentemente falecido.
A polícia francesa que colaborou activamente nas buscas, para dar solução a este estranho caso, está convencida, por falta de melhor evidência, que o roubo do cofre do “Benjamim Constant”, partiu de pessoas de bordo.

Entretanto, de Londres chega a notícia que várias companhias firmaram contratos com o governo português, para a construção de três couraçados do tipo “Dreadnought”, dez caça-torpedeiros e dez submarinos, e que os orçamentos estavam aprovados, sendo o prazo para a construção de vinte e oito meses, a contar do mês de Junho.
Houve naturalmente a preocupação de verificar a data da notícia, não fosse brincadeira do primeiro de Abril, mas não era, e se não fosse para levar a sério, passaríamos a ter uma marinha muito bem equipada, e as finanças do país em total bancarrota.

Quadro com a figura do conselheiro Azevedo Coutinho
Imagem do sítio da Sociedade de Geografia de Lisboa

Ainda na mesma época, o Almirante João de Azevedo Coutinho, distinto oficial com uma longa e meritória carreira militar, entre outros serviços prestados ao país, deslocou-se de propósito a Matosinhos, para o lançamento da primeira pedra, no local onde posteriormente funcionou a Escola de Alunos Marinheiros, depois de despojados de instalações, devido ao triste e infeliz naufrágio da canhoneira “Estephânia”, na cheia do rio Douro, em Dezembro de 1909.
No regresso a Lisboa, à noite, na viagem do comboio rápido de ligação entre ambas as cidades, por altura do Entroncamento, estando no salão-restaurante, encontrou o sr. Marquês de Gouveia, irmão do sr. D. Fernando de Serpa, a quem muito delicadamente estendeu a mão para o cumprimentar.
Como aquele titular lhe não correspondesse, o sr. conselheiro Azevedo Coutinho, recusando-se a levar o desaforo para casa, assestou-lhe um valente soco, que o sr. Marquês fez questão de retribuir. Obviamente, intervieram na contenda vários passageiros, o secretário e ajudante do sr. Ministro, que por vias de facto, acabou com uma escoriação no rosto.
Posto isto, a culpa não será mesmo do cometa?

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Na era dos gigantes!


Um colosso do mar – o navio “Britannic”

Desenho postal do navio em www.learning-history.com

Sepultado o “Titanic” nas profundezas do oceano, a White Star Line, a que pertencia aquele sumptuoso navio, activa a construção de outro paquete de maiores dimensões, que se intitulará “Gigantic”. Nunca o esforço humano chegou a culminâncias tais na construção naval.
Refere o jornal «Boston American» que o comprimento do novo transatlântico medirá mil pés ou sejam 305 metros, comportando comodamente 4.000 passageiros e 1.000 tripulantes.
Conterá jardins e passeios, teatros de opera, comédia e variedades, cafés, restaurantes, estabelecimentos de comércio e indústria, postos telegráficos e telefónicos, ascensores, etc.
Supondo o navio em direcção vertical, a sua altura seria mais elevada que a do edifício maior do mundo! O seu calado impossibilitá-lo-á de dar ingresso nos portos, pensando-se dotar o de Nova-York de maior profundidade, para o que serão feitas as necessárias dragagens.
Serão estabelecidos a bordo grandes recintos para os jogos de golfe, futebol, cricket, basquetebol, piscinas com capacidade maior que as existentes nas mais populosas capitais europeias e americanas. Porém, o que produzirá verdadeiro assombro, será um aeródromo situado na coberta, onde poderão voar livremente aeroplanos, estabelecendo-se assim comunicações entre o colossal paquete e a costa.
Com respeito ao tipo das máquinas nada está ainda decidido, supondo-se que será empregada uma combinação de turbina e máquina alternativa, que é a forma de propulsão mais económica, sendo fácil que o combustível liquido, o petróleo, substitua o carvão à semelhança do usado já em alguns navios de guerra.
Haverá ainda a bordo um grande diário, que publicará notícias transmitidas de todo o mundo, contendo ainda na coberta um comboio para recreio dos passageiros.
O custo do transatlântico ascenderá a doze mil contos de reis.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 12 de Maio de 1912)

Desenho sobre o naufrágio da autoria de Ken Marshall
Wikipedia

Na realidade, as melhores previsões apontavam no sentido de vir a existir um navio com tanta opulência para a época, tanto mais que já estava em construção desde Novembro de 1911, data que corresponde ao batimento da quilha.
Porém, porque era simultaneamente impensável construir um paquete com as dimensões anunciadas, sem a comparticipação do Estado, e sabendo-se estar obviamente sujeito a ser requisitado pela marinha britânica, até porque a construção decorre durante os anos da Iª Grande Guerra, o “Gigantic” teve alteradas as características previamente imaginadas, sendo por esses motivos equipado e preparado para navegar como navio-hospital.
Terminada a construção nos estaleiros Harland & Wolff, de Belfast, em 12 de Dezembro de 1915, o navio era baptizado com o nome “Britannic”, apresentava umas notáveis 48.158 toneladas de arqueação bruta, 269,06 metros de comprimento, 28,70 metros de boca, sendo propulsionado por 2 hélices acopladas a duas turbinas a vapor, que lhe asseguravam em média cerca de 21 nós de velocidade.
Terminadas as provas de mar em inícios de 1916, o almirantado britânico mandou o navio viajar para o Mediterrâneo, para que fosse garantida a necessária assistência às tropas em conflito nessa área. No dia 21 de Novembro de 1916, o maior de todos os navios ingleses, em pleno mar Egeu, durante a viagem que o levaria a Modros, chocou com uma mina, seguindo-se o afundamento num curto espaço de tempo, resultando do naufrágio 21 vitimas mortais.
O que há de curioso nesta ocorrência, prende-se ao facto do campo de minas por onde o navio se deslocava, ter sido plantado por um submarino alemão, apenas uma hora antes do trágico sinistro.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

História trágico-marítina (CCLXXII)


O encalhe do cruzador "Adamastor", na China

O cruzador “Adamastor”
A má sorte persegue a Marinha de Guerra Portuguesa, já tão minguada de navios! O ano passado, o naufrágio do “S. Rafael”, o encalhe do “Almirante Reis” nos «Cavalos de Fão», e agora recebe-se a notícia de haver batido nuns rochedos, no mar da China, o “Adamastor”!
Este vaso não vale apenas para nós como uma unidade da nossa Marinha de Guerra: vale também como um sinal do despertar da alma nacional, profundamente ferida pelo ultimatum de 1890. Efectivamente, o “Adamastor” foi adquirido com o produto da grande subscrição nacional aberta num memorável e doloroso momento da nossa História contemporânea.
O cruzador “Adamastor” foi construído na Itália, pela casa Fratelli Orlando, e distingue-se principalmente pela sua velocidade, pela sua facilidade de manobra e pelas suas qualidades para resistir à perseguição inimiga. É um navio próprio para viajar às nossas colónias, em qualquer momento critico, e com a sua lotação relativamente avultada, e que em muitos casos poderia ainda aumentar, auxiliando a guarnição e defesa do litoral.
O “Adamastor”, de que foi primeiro comandante o conselheiro Ferreira do Amaral, mede 76,41 metros de quilha, 10,63 metros de boca; o pontal à linha de água carregado é compreendido entre 4,70 a 5 metros, segundo o navio se considere com ou sem carvão de reserva. Os motores, aparelhos acessórios, geradores de vapor e as duas hélices eram dos melhores, quando o “Adamastor” foi construído.
O armamento do “Adamastor” consta de duas peças 15/30 calibres Krupp; quatro peças de 10 5/40 tiro de rápido Hotkiss; quatro peças de 0,65 /16 de tiro rápido Hotkiss; duas peças 0,037/42 de tiro Hotkiss; duas metralhadoras Nordenfeld de 0,006; 120 espingardas Meneliker; 40 revolveres Abbadie; três tubos lança torpedos; e seis torpedos Whitehead. As munições estão dispostas em três paióis.
Os elementos militares de maior importância no “Adamastor”, são:
1º - A velocidade que, num golpe de fogo, pode atingir 18 milhas durante algumas horas, permite-lhe, em muitas circunstancias, escapar à perseguição de navio mais bem armado.
2º - Um raio de acção que excede 8.000 milhas, o que lhe permite realizar longos cruzeiros sem ter de recorrer às estações de carvão.
3º - Os compartimentos estanques repetidos, que lhe permitem isolar e restringir as avarias causadas pelo fogo do inimigo, sendo esta a base teórica da sua defesa.
4º - Facilidade de evoluções derivadas da enorme porta do seu leme compensado e da distância relativamente considerável das hélices ao seu plano médio longitudinal.
5º - Notável desempachamento da sua bateria e instalação engenhosamente simples dos seus tubos lança torpedos laterais, que lhe permitem uma fácil manobra da bateria e a essencial instalação de parques de aprisionamentos correspondentes à ligeireza do tiro.
Da tripulação do “Adamastor” fazem parte o 2º tenente sr. Henrique Owen Pinto, natural do Porto, filho do benquisto juiz do Supremo Tribunal de Justiça, sr. conselheiro Henrique Pinto; e o guarda-marinha sr. Sebastião das Neves Silva Monteiro, filho do falecido general desta divisão, sr. José Joaquim da Silva Monteiro.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 12 de Maio de 1913)

Notícia publicada na revista Ilustração Portuguesa
Nº378 de 19 de Maio de 1913

O “Adamastor” em perigo
Lisboa, 12 – No Ministério da Marinha foram recebidos hoje os seguintes telegramas:
- Do Governador de Macau:
«Informações que recebi do comodoro inglês e cônsul de Hong-Kong, o “Adamastor” encalhou na passagem entre as ilhas Lautan, Chung Chan, Conhua, sendo a sua situação perigosa. A água invade os compartimentos de vante e as máquinas. Não há perda de vidas. A maior parte da tripulação passou para bordo da “Pátria”, tentando estancar a água o rebocador das docas de Hong-Kong. Fiz seguir embarcações para receberem a artilharia e bagagens. O comodoro inglês mandou o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas”.
O governador telegrafou agradecendo o auxílio prestado.
- Do comandante do “Adamastor”:
«O navio encalhou nas pedras do canal, entre as ilhas Chung. Não há nenhum desastre pessoal. Julgo ser possível salvar o navio com recursos de Hong-Kong. O comodoro inglês enviou navios auxiliares para salvamento. A canhoneira “Pátria” está também fundeada junto do navio. Está desembarcando todo o material, ficando o pessoal necessário a bordo. Há facilidade no salvamento.
Do mesmo comandante:
«Continuo o trabalho de safar o navio, esperando bom resultado».

Lisboa, 12 – O comandante do “Adamastor” é o capitão de fragata sr. Aníbal de Sousa Dias, tendo como imediato o 1º tenente sr. Procópio de Freitas. Os restantes oficiais são os srs. 1º tenente Carlos Coutinho e Almeida Couceiro, 2ºs tenentes Botelheiro e Owen Pinto, guardas-marinha Barbosa Carmona, Junqueira Rato, Cunha Gomes, Pires da Rocha, Silva Monteiro, Vitor Serra, Pereira da Fonseca, Azeredo de Vasconcelos, Baeta Neves, e Adolfo Trindade, médico o dr. Emídio Pires, maquinistas, 1º tenentes João Carlos Costa, 2º tenente Adolfo Alcobia; e guardas-marinha Soares Mesquita, Pereira Bastos, Boaventura Real e Dias Silva; do serviço de administração naval 2º tenente Guilherme Rodrigues e guarda-marinha Abel Costa Lázaro.

Lisboa, 12 - Produziu geral impressão o encalhe sucedido com o cruzador “Adamastor”. Numerosas pessoas tem ido ao Arsenal de Marinha, quartel de marinheiros e ministério da Marinha, pedir informações acerca do caso.

Londres,12 – Telegrafaram ontem, de Hong-Kong, à agência Reuter, dizendo que o cruzador “Adamastor”, no seu regresso a Portugal, vindo de Macau, enviou ontem à noite, pela telegrafia sem fio, um despacho referindo que o navio tinha batido num rochedo perto da ilha de Duwebell, tendo ficado seriamente avariado, pelo que pediu socorro urgente. As autoridades navais enviaram-lhe o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas”.
A canhoneira “Pátria”, partiu também para o local do sinistro. À meia-noite foi, pelo cônsul Leiria, enviado também um rebocador e aparelhos de salvação. Àquela hora não havia perda de vidas.

Londres, 12 – Um telegrama de Hong-Kong para a agência Reuter refere que o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas” voltaram já ao local onde se deu o sinistro relatado no despacho anterior, e que o “Adamastor” ficou seriamente avariado, tendo a tripulação e as munições que conduzia sido transbordadas para a canhoneira “Pátria”. O rebocador partiu novamente para o local do sinistro, com novos aparelhos de salvação, levando a bordo um comodoro. Também parte para lá o chefe da marinha de Hong-Kong, a bordo do “Otter”.

Londres, 12 – Telegrafaram de Hong-Kong à agência Reuter, dizendo, às cinco horas da tarde de ontem, terem partido para Macau três juncos com parte da tripulação do “Adamastor”; que a descarga continua, as bombas funcionam bem e há esperanças de salvar o navio.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 12 de Maio de 1913)

O cruzador “Adamastor”
Lisboa, 13 – Numerosas pessoas foram hoje ao quartel dos marinheiros, ministério e Arsenal de Marinha, saberem com ansiedade informações referentes ao encalhe do cruzador “Adamastor”. Para Macau têm sido expedidos muitos telegramas de pessoas de famílias dos oficiais, também pedindo informações.

Lisboa, 13 – Em vista do desastre agora sofrido pelo cruzador “Adamastor” vai ser alterada a composição da divisão naval de instrução, que deve largar para o mar em Julho próximo.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 13 de Maio de 1913)

O cruzador “Adamastor”
Lisboa, 17 – Reuniu hoje extraordinariamente, o conselho superior de higiene, para consulta sobre o tratamento sanitário a aplicar ao cruzador “Adamastor”, que amanhã chega do Extremo Oriente, onde se manifestaram a bordo alguns casos suspeitos de cólera. Aquele tratamento está dependente da visita de saúde, que se realizará, quando o “Adamastor entrar a barra.

Lisboa, 17 – O comandante do cruzador “Adamastor” enviou hoje um radiograma ao sr. Ministro da Marinha, por via Cadiz, dizendo continuar a viagem sem novidade, devendo estar antes do meio-dia de amanhã, no seu fundeadouro no Tejo, solicitando que à chegada sejam concedidas todas as facilidades sanitárias.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 18 de Outubro de 1913)