quarta-feira, 20 de junho de 2018

Leixões na rota do turismo! (4/2018)


Navios de passageiros em porto na 2ª quinzena de Maio

Neste período o porto de Leixões recebeu a visita de mais 10 navios de cruzeiros, totalizando vinte escalas durante o mês. Creio que, se a memoria não me atraiçoa, não haver novo recorde, mas estará seguramente muito próximo dos melhores números verificados em anos anteriores.
Quase todos os navios são conhecidos de outras escalas, exceptuando o "Norwegian Jade", da Norwegian Cruises, que possivelmente poderá regressar de novo ao porto, bem como o abrir caminho para outros navios desta conhecida empresa.
Uma outra excepção está relacionada com a primeira visita do navio "Star Breeze", da Star Cruises. É já o terceiro navio desta companhia que vem a Leixões, todos eles idênticos, casos do "Star Legend" e do "Star Pride", que já esteve de regresso na primeira quinzena de Junho.
Convirá igualmente lembrar que aos navios de passageiros da Tui Cruises, que tem realizado escalas em porto com agradável regularidade, foram-lhes alterados os nomes, desaparecendo o prefixo Tui entretanto substituído por Marella.

Navio de passageiros "Silver Muse"
No dia 13, chegou procedente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

Navio de passageiros "Black Watch"
No dia 15, veio procedente de Lisboa, saiu com destino a Liverpool

Navio de passageiros "Boudicca"
No dia 18, chegou procedente de Almeria, saiu com destino a Dover

Navio de passageiros "Norwegian Jade"
No dia 22, chegou procedente da Corunha, saiu com destino a Vigo

Navio de passageiros "Island Sky"
Também no dia 22, veio procedente da Corunha, saiu para Lisboa

Navio de passageiros "Star Breeze"
Também no dia 22, chegou procedente de Lisboa, saiu para Bilbao

Navio de passageiros "Marella Spirit"
Ainda no dia 22, chegou procedente de Vigo, saiu com destino a Lisboa

Navio de passageiros "Silver Spirit"
No dia 23, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Navio de passageiros "Seven Seas Explorer"
Também no dia 23, veio procedente de Lisboa, saiu para a  Corunha

Navio de passageiros "Sea Cloud II"
No dia 24, chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Vigo

terça-feira, 19 de junho de 2018

História trágico-marítima (CCLVI)


Sinistros de embarcações de pesca a norte e a sul


Na defesa do inegável direito de especular sobre os sinistros que vem acontecendo com embarcações de pesca, lembro uma frase que escrevi num outro texto, em relato de características semelhantes: “a pesca do robalo tem andado a matar mais gente, do que peixe”. Há certamente também casos de verdadeiro infortúnio, em resultado de extremo cansaço, que o sono profundo não perdoa. A avaria da máquina, as pás do hélice deformadas por colidirem com objectos submersos, etc.
Quando se trata da pesca do robalo, por norma realizada muito próximo da costa, em zona de rebentação, explica-se com razoável certeza o motivo por que aparecem cordas ou cabos na hélice.

Na esperança de que os recentes sinistros com embarcações de pesca, não tenham sido provocados por qualquer tipo de negligência, porque a vida de quem está a bordo - ao contrário do peixe -, não tem preço, lembro os encalhes dos barcos “Viviana Coentrão”, em Matosinhos, e do “Luzé”, ao largo da Carrapateira, no Algarve.


O “Viviana Coentrão” ex “Zé Coentrão”, encalhado na praia de Matosinhos, no dia 7 de Junho, é um barco com casco de alumínio, tendo sido construído no estaleiro de Samuel & Filho, em Vila do Conde. Estava matriculado na Capitania de Vila do Conde, tem 9 metros de comprimento e 3,45 metros de boca. Na ocasião do sinistro estava a ser operado por três tripulantes, que saíram ilesos, tal como a embarcação, do inusitado contratempo que durou algumas horas.

Foto de Pedro Noel da Luz - jornal Correio da Manhã

Quanto à embarcação “Luzé” do mestre José Lourenço, repetente nestas horas de azar, tendo passado por um sinistro idêntico a bordo do barco “André Filipe”, estava a cerca de 4 quilómetros ao largo da Carrapateira, no dia 13 de Junho, quando foi constatada a avaria na hélice, ficando a embarcação à deriva, até vir a encalhar junto à Torre de Aspa, em Vila do Bispo.
Depois de cerca de uma hora na balsa salva-vidas, os 7 tripulantes do barco, 5 pescadores da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, mais um ucraniano e um marroquino, foram resgatados pelo barco de pesca “Lagoal”, que os desembarcou na Baleeira, em Sagres. O “Luzé” encontrava-se matriculado na Capitania do porto da Póvoa de Varzim, tinha 21 metros de comprimento e encontrava-se a operar na pesca costeira desde 2015.

sábado, 16 de junho de 2018

Divulgação!


Conferência do Seminário do Mar
Junho - Julho 2018


quinta-feira, 14 de junho de 2018

História trágico-marítima (CCLV)


O encalhe – naufrágio do navio “Amethyst”, na Foz do Douro
3ª Parte

Já começou a bombagem do gasóleo
Enquanto procedem à bombagem do gasóleo, decorre uma outra actividade, em terra: o ensaque, feito por particulares, do milho que enchia os porões do “Amethyst”
O “Amethyst” continua entregue à sua sorte
Começa hoje o inquérito às causas do naufrágio
Apesar de todos os receios anteriores, as condições de mar permitiram que fosse trasfegado parte do gasóleo existente no cargueiro “Amethyst”, encalhado desde a manhã da passada sexta-feira, nos rochedos da praia do Molhe.
Efectivamente, ao fim da tarde de ontem foi dado início à bombagem do gasóleo existente nos tanques subjacentes à ponte de comando. Para a operação de trasfega muito contribuiu a acção dos bombeiros das três corporações que se encontram de serviço no local, orientados pelo chefe Licínio e pelo ajudante Geraldo Amorim – Portuenses, Voluntários de Leixões e Matosinhos-Leça.
Na montagem do sistema a bordo foi indispensável o trabalho do engenheiro naval sr. Kearon que, desde manhã até ao fim da tarde, esteve empenhado na operação juntamente com quatro bombeiros que também foram para bordo.
Entretanto, devem chegar esta madrugada 48 bidões de dispersante para ser aplicado não só sobre o fuel mas até mesmo num tanque do qual não é possível extrair o combustível.

Chega hoje o solicitador
Praticamente, o caso “Amethyst” encontra-se já entregue à companhia de seguros, cuja representação no Porto pertence à firma Kendall, Pinto Basto, que todos os dias tem estado representada na praia do Molhe pelo gerente e outros funcionários.
Entretanto, deve chegar, hoje, ao Porto, vindo de Londres, o solicitador que juridicamente ultimará as negociações.
O «Protesto de mar» foi já elaborado no Consulado da Grécia e as autoridades marítimas deverão, hoje mesmo, iniciar o inquérito sobre as causas do naufrágio. Serão inquiridos o comandante do navio, o imediato, o chefe de máquinas e o marinheiro que estava de «quarto».

Partida de alguns marinheiros
Alguns dos tripulantes que já não tem qualquer intervenção no caso deverão ser repatriados hoje, para os seus países, fazendo primeiramente escala pela Grécia. Os filipinos e o chileno devem ser os primeiros a abandonar o Porto.
Ainda não foram retirados do navio os mantimentos, que o comandante ofereceu ao Albergue Distrital do Porto. Com a operação de trasfega não houve tempo para tal tarefa, que deverá ser levada a cabo hoje de manhã.

Poucos mirones e muito milho
Alguns dos muitos indivíduos que não tem nada que fazer e para quem um navio encalhado constitui motivo mais que suficiente para longas horas de contemplação, estiveram ontem, de tarde e de manhã, estáticos, mirando e remirando o jovem-morto “Amethyst”. Alguns mirones houve que não se ralavam em perder ali a tarde inteira.
Não tenho nada que fazer - dirão muitos. E pronto, a monótona contemplação é preferível a muitas outras (também monótonas) formas de gastar o tempo. E lá vão. E não são só reformados! Afinal, há sempre um encalhe para derivar as coisas e desmonotonizar os tónicos!
Numa perspectiva sociológica essa romaria – maior ou menor consoante os afazeres das pessoas – faz-nos pensar em muita coisa. É um interesse que não se fica pela simples curiosidade.
Entretanto, longe do estatismo contemplativo dos mirones, muitas pessoas continuavam, ontem, a colher o milho espalhado na areia. Esses não perderam o seu tempo, já que conseguiram ensacar muitos quilos do cereal.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 5 de Fevereiro de 1974)

Imagem do navio parcialmente desfeito pelo mar
Minha colecção

Características do navio “Amethyst”
Armador: Pentelikon Shipping Co., Piréu, Grécia
Construtor: Ishikawajima Heavy Industries, Aioi, Japão, 1972
Arqueação: Tab 10.006 tons
Dimensões: Pp 142,30 mts - Boca 19,80 mts - Pontal 9,10 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Di - 14 m/h
Equipagem: 22 tripulantes e 2 passageiros

“Amethyst” – Enquanto as fendas se alargam
Foram extraídos mais de 70 mil litros de combustível
Concluído o inquérito (confidencial)
Continuando a ser açoitado pelas vagas fortes e rígidas, o “Amethyst” ficará de um momento para o outro em duas ou três partes. As fendas existentes a bombordo encontram-se cada vez mais abertas e a preocupação dominante continua a ser o perigo da poluição, Isto, apesar de já terem sido trasfegadas mais de setenta toneladas de diesel marítimo que em auto-tanques foi levado para a Sacor. Nesta operação empenharam-se activamente os bombeiros das quatro corporações que têm estado a trabalhar no local – Portuenses, Matosinhos-Leça, Leixões e Aguda – e, de ante-ontem para ontem não se coibiram de laborar até às duas horas da madrugada para aproveitar ao máximo a melhoria das condições do tempo.
Na verdade, segundo o comentário do chefe Licínio, dos Portuenses, a operação de trasfega decorreu em bom andamento, contribuindo em muito a actividade dos bombeiros e do estado do mar.
Os quatro soldados da paz que andaram a bordo chegaram mesmo a ter de ficar, de madrugada, no navio, para logo de manhã recomeçarem a tarefa da bombagem.
Acabada a trasfega do combustível existente nos tanques subjacentes à ponte de comando, exactamente na ré, que constitui a parte mais critica do defunto cargueiro, foram aplicadas algumas toneladas de produtos dispersantes, para evitar o efeito poluidor dos resíduos.

Bidões de dispersante
Chegaram, efectivamente, ontem de manhã, as dezenas de bidões de dispersante vindo de Portimão, por determinação do departamento contra a poluição do Ministério da Marinha. Foi parte desse mesmo dispersante que ontem foi aplicado nos tanques de diesel-marítimo.
Havia outro tanque do qual em princípio pensaram poder também extrair o gasóleo, mas revelou-se completamente impossível dado o estado de alagamento em que o navio se encontra.
É natural, portanto, que grande porção de combustível se tenha espalhado já pelo mar, atendendo até que com as fissuras existentes no fundo do cargueiro, os tanques mais fundos se tenham rompido.
Já ao princípio da noite de ontem e com o agravamento do tempo e maior ondulação do mar, os bombeiros que se encontravam a bordo foram obrigados a regressar a terra. Antes disso, porém, foram colocadas as mangueiras nos tanques de fuel da ré, para onde foram bombadas algumas toneladas de dispersante.
Entretanto, estiveram a bordo dois inspectores, srs. Wheatley e Curtis, representantes da companhia de seguros e da Salvage Association Inc., respectivamente, a fim de recolherem elementos para a elaboração do relatório.

Inquérito já elaborado - Resultado confidencial
Ao fim da tarde de ontem, foram, entretanto, ouvidos pelo comandante do Departamento Marítimo do Norte, o capitão do “Amethyst”, o imediato, o chefe de máquinas, e o 2º oficial de máquinas, servindo de intérpretes o sr. Shilas, superintendente da companhia armadora, e engº. Bustorff Silva, da firma Kendall, Pinto Basto & Cª., Lda. Os resultados são ainda confidenciais pelo que, oficialmente, nada se sabe ainda sobre as origens do encalhe.
Não só porque os bombeiros em acção na praia do Molhe tiveram de correr para um incêndio que deflagrou em Matosinhos, mas, até, porque o tempo piorou para o fim da tarde, não foi possível trazer para terra os mantimentos existentes no navio e oferecidos pelo comandante ao Albergue Distrital do Porto. Se o mar deixar, havendo condições de segurança, os bombeiros poderão voltar ao navio, para que esse transporte seja feito hoje.
No entanto, ao princípio da noite de ontem, previam os técnicos que, dentro de algumas horas, o “Amethyst” estaria já quebrado. Só a fúria do mar, o impacto das vagas é que ditaria, no entanto, o prolongamento maior ou menor da expectativa.

Repatriamento da tripulação
Os três tripulantes filipinos abandonaram já o Porto com destino ao seu país. Hoje de manhã parte para Londres o radio-telegrafista e pela tarde, catorze dos restantes tripulantes serão repatriados para Atenas.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 6 de Fevereiro de 1974)

Era uma vez um cargueiro grego
“Amethyst”: A sucata é o destino mais certo
A partir da madrugada de ontem, deixou de existir na praia do Molhe o “Amethyst”, na sua unidade. Quebrou-se em duas partes, sensivelmente a meio, na região do quinto porão, exactamente pelo rombo que desde as primeiras horas ditou a morte do cargueiro.
Com efeito, cerca das 2 horas e meia da madrugada, o rombo foi abrindo mais de estibordo para bombordo, até que, passados alguns momentos, a parte dianteira do cargueiro encontrava-se já bem distante da restante, que se encontra fortemente cravada nas rochas e arqueada na zona da ponte de comando.
Com a quebra, o “Amethyst”, que estava com sensível inclinação sobre bombordo acabou por ficar na horizontal, com a proa já assente sobre rochedos. Entretanto, a vaga forte, vinda de noroeste, continuou dia adiante, a acicatar o navio, arrastando aos poucos a parte da proa desagregada, elevando para mais de seis metros a distância entre ambas as partes. Se a vaga continuar na mesma direcção e com a mesma fúria, a parte da frente do navio aproximar-se-á cada vez mais do molhe e da praia.
Durante o dia de ontem prosseguiram os trabalhos de tratamento do fuel que se encontra na região do primeiro porão dado que não foi, de modo nenhum, permitida, pelo tempo, a operação de trasfega desse carburante. Até às 14 horas e aproveitando a baixa-mar quatro bombeiros estiveram a bordo orientando a operação de tratamento.
Chegaram, também, a ser tratados com dispersante, três tanques de fuel da ré, tornando-se assim bastante menor o perigo de poluição.
Quanto aos mantimentos que constava existirem a bordo (no frigorífico, sobretudo) nada foi possível recuperar dado o estado de alagamento do navio. A água havia tomado conta de tudo e então era queijo, batatas e hortaliças que boiavam na água salgada.
Quanto à tripulação, ao fim da tarde de ontem partiram para Lisboa, com destino a Atenas, os restantes tripulantes, ficando no Porto apenas o comandante do navio.
Entretanto, estão prestes a seguir para Londres os inspectores da companhia de seguros e do armador com o relatório acerca do sinistro, a fim de ser decidido o destino a dar ao “Amethyst”, já que são inúmeros os sucateiros, não só de Lisboa e do Porto, interessados no que resta do navio.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 7 de Fevereiro de 1974)

terça-feira, 12 de junho de 2018

História trágico-marítima (CCLV)


O encalhe – naufrágio do navio “Amethyst”, na Foz do Douro
2ª Parte

“Amethyst” – Espectáculo à beira mar
Completamente inundado, o “Amethyst”, que escalaria Leixões pela primeira vez, está condenado a ser mais um dos cargueiros que passará a desintegrar-se na costa portuguesa, ao mesmo tempo que constituirá um prolongado espectáculo para os milhares de «mirones», que farão da Foz um lugar mais «turístico» e certamente grande foco do negócio-feirante. Já na tarde de ontem, nas imediações da praia do Molhe, o negócio começou com as castanhas.

Um navio ferido de morte?
Tratando-se de fim-de-semana a gente acorreu em quantidade e não fôra a mudança de tempo os esboços de engarrafamento na larga Avenida Brasil ter-se-iam tornado um verdadeira pandemónio. A chuva e o vento forte que começou a soprar pelas 16 horas foram de facto o grande «espantalho» dos mirones, que apenas pelas janelas dos automóveis davam as olhadelas distantes para o mar. Para o navio encravado nas rochas. Perdido, apesar da pouca «longevidade».
Efectivamente, embora haja já algumas companhias interessadas em salvar o navio, parece ser completamente impossível que o “Amethyst” volte a adquirir a flutuabilidade. O enorme rombo existente na região do 5º porão e o estado do fundo do navio, que se encontra aluído, levam, com efeito, a todo o pessimismo. Praticamente só o desmantelamento se tornará possível.
Entretanto, para averiguar melhor as possibilidades exactas do cargueiro grego ser salvo, chegam hoje, ao Porto, alguns peritos espanhóis e holandeses.

Foto do encalhe do navio "Amethyst"
Minha colecção

O comandante voltou ao navio
Dado que as condições do mar melhoraram no dia de ontem, as autoridades marítimas autorizaram a ida a bordo do comandante, do imediato e de três inspectores que ontem chegaram ao Porto.
Com efeito, às 12,30 horas, o cabo de vai-vem recomeçou a funcionar e a primeira pessoa a retornar ao navio foi o comandante, logo seguido do imediato, e dos três inspectores, Mr. Tarben Starge, representante do fretador, Mr. M. Senkan, da Salvage Association Inc., e um representante da companhia armadora. Durante largas horas estiveram a inspeccionar a situação do navio e as possibilidades de trasfega do combustível que constitui, de momento, a principal preocupação.
Mais tarde, já depois das 15,30 horas, o chefe de máquina foi também para o navio, seguindo-se depois dois bombeiros e outro tripulante.
Entretanto, voltaram a terra os inspectores, enquanto o comandante e restantes tripulantes, ainda, se mantinham a bordo para que numa «aberta» do tempo, os tripulantes pudessem voltar sobraçando alguns embrulhos de roupa, pois toda a tripulação encontra-se com a indumentária de trabalho. O comandante voltou a ser o último tripulante a abandonar o navio, regressando ao hotel.

Montagem para a trasfega
Durante toda a noite esteve ligado um projector (dos bombeiros Portuenses) sobre o cargueiro, por ordem das autoridades marítimas e do representante do armador.
Quanto à operação de trasfega foram logo pela manhã de ontem colocados na praia os tubos necessários para a extracção, tendo inclusivamente sido montado o cabo de vai-vem necessário para deslocar a tubagem.
Para tal operação foi já pedida a colaboração dos bombeiros da Aguda que, ainda ontem à tarde estiveram no local.
Devido ao agravamento atmosférico, pois, do sol resplandecente da manhã se passou à nevoenta invernia, pela tarde, não foi possível, ontem mesmo, estabelecer toda a montagem do sistema de trasfega. As condições do mar, de forte ondulação, não permitiram também a execução dos trabalhos e, hoje pela manhã, com o começo da baixa-mar, os bombeiros procurarão estabelecer toda a montagem levando para bordo bombas e o gerador. É claro que as condições de mar e tempo são determinantes para possibilitar a montagem.

Milho espalhado pela praia
As areias da praia do Molhe encontram-se coalhadas de milho que com a braveza do mar foi atirado para fora do 5º porão, que juntamente com o 6º porão vinha carregado com 1.200 toneladas daquele cereal. A água penetrando no grande rombo ali existente encarregou-se de amarelar mais a praia.
A restante tonelagem do cereal encontra-se no 4º porão (600 toneladas), no 2º e 3º (que se comunicam entre si tal como o 5º e o 6º) com 1.200 toneladas também. Dado que o fundo do navio aluiu todos os porões estão alagados.

As autoridades marítimas procedem a um inquérito
Porque houve perigo de vidas na operação de salvamento da tripulação do navio, as autoridades marítimas estão a proceder a um inquérito. Para além disso tem sido feitas diligências, no sentido de serem tomadas providências suficientes para evitar a poluição.
Caso não seja possível trasfegar o combustível existente a bordo, e na hipótese de derrame, será feito um ataque com produtos dispersantes.
A fim de dar colaboração à campanha anti-poluição, esteve na praia do Molhe um engenheiro da Direcção da Marinha Mercante.

Reunião para debate da situação
Ao fim da tarde de ontem, reuniram-se, num hotel da cidade, com o representante das autoridades marítimas, os vários representantes do armador, das companhias seguradoras e dos agentes, acompanhados do comandante do navio, a fim de discutirem as medidas a tomar quanto ao destino do “Amethyst”. Foi, também, ventilado o problema da trasfega das toneladas de gasóleo e nafta existentes no navio para tentar ser evitada a poluição das águas.
A título de curiosidade, refira-se que era a primeira vez que o “Amethyst” escalaria o porto de Leixões se não tivesse naufragado.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 3 de Fevereiro de 1979)

Sem apelo nem agravo o fim do “Amethyst”
- Partir ou não partir é com o mar -
Afinal, parece que se goraram todas as hipóteses de extracção do combustível existente no “Amethyst”, encalhado desde sexta-feira junto à praia do Molhe, na Foz, onde ontem constituiu um verdadeiro atractivo para milhares de portuenses, para quem a ocupação de tempos livres, dos fins-de-semana se não é problema, insere-se pelo contrário - o que é mais grave - numa ausência de preocupação, num não saber que fazer ou, então, num rodar continuo, semanal, do mesmo dispêndio de tempo. Da mesma aplicação do tempo-livre. Nesta perspectiva, temos assim que facilmente do futebol se volta para o «adorno» da Foz, dando uma passeata pela zona-chique da pacata cidade. Já que embora por campos diferentes, os fins são os mesmos…
Assim acontecendo, não faltam, portanto, os feirantes das «romarias», que logo miram as imediações do naufrágio com golpes de mestre em negócios. E a morte de um navio, a desolação de um comandante para quem certamente a carreira pode ter findado, tornou-se assim, motivo de atracção e de negócio num lugar e momento onde o espectáculo “Amethyst” é acontecimento necessário à continuidade duma certa e bem caracterizada «monotonia».
Assim, e durante todo o dia de ontem e, dum modo muito especial, na tarde, a zona da Foz tornou-se num imenso formigueiro humano e automobilístico. Milhares de pessoas e muitas centenas de veículos marcavam passos contemplativos na vasta avenida e esplanada. E os pequenos balanços da popa do “Amethyst” eram motivo de espanto.

Às duas por três o navio fica partido
Face aos rombos que o navio tem, apenas o estado do mar poderá determinar alguma alteração de relevo com respeito ao “Amethyst”.
A opinião corrente de muitas pessoas que desde as primeiras horas têm estado em permanente operação de socorro, é de que, em breve, o cargueiro partir-se-á. Isto é, sem qualquer hipótese de navegabilidade como foi previamente afirmado, resta apenas a fúria demolidora do mar alterar o espectáculo. A opinião corrente é de que se o mar piorar em breve ficará o “Amethyst” partido em duas ou três partes.
De facto, quem, ontem contemplou o navio, tem visto a água a sair por várias fendas existentes a bombordo.
Dada a elevada inclinação que o navio apresenta sobre bombordo, é de recear que alguma das partes quebradas venha a tombar. Aliás, ontem mesmo, chegaram a suspeitar que, com a preia-mar, partisse.

Dois técnicos foram a bordo e confirmaram a morte do cargueiro
Vindos de Espanha, dois peritos duma firma de salvadegos – Júlio Iglésias e Tom Juyn – foram, ontem à tarde inspeccionar o navio, demorando-se nele algumas horas. E a conclusão final a que chegaram é de que não há qualquer hipótese de fazer o cargueiro flutuar. Se fosse desencravado das rochas, afundar-se-ia imediatamente por causa dos vários rombos que tem.
Entretanto, logo de manhã, o comandante havia voltado ao navio juntamente com os inspectores sr. Kearon, engenheiro naval, chegado da Grécia anteontem, e o sr. Shilas, superintendente da companhia armadora. Dadas as tão más condições de segurança em que estes inspectores encontraram o navio, algum tempo depois efectuavam o regresso a terra.
Serão estes dois superintendentes da companhia armadora que tratarão de todos os pormenores respeitantes ao que resta do “Amethyst” e que naturalmente manobrarão todas as negociações. Decidirão, também, sobre o regresso da tripulação para a Grécia.

Dispersante sobre o fuel
Em virtude de não ter sido possível bombar para terra o fuel do navio, já que com o frio solidificou, foi aplicado dispersante sobre o tanque do porão nº 1, para evitar que no caso de vir a espalhar-se pelas águas não vir a constituir perigo para as praias.
Ligada a tubagem de terra para o navio, os bombeiros – orientados pelo chefe Licínio, dos Portuenses, e ajudante Geraldo Amorim dos Voluntários de Leixões – procederam ao fim da tarde de ontem, à bombagem do dispersante para o cargueiro. Foram aplicados apenas quatro bidões cedidos pela A.P.D.L. Entretanto, esperam que, hoje, cheguem de Portimão camiões carregados com mais dispersante.
Registe-se que o fuel é que oferece maior perigo para a população.

Hoje fazem a tentativa de trasfega do gasóleo
Os bombeiros tentarão hoje trasfegar o gasóleo existente por baixo da ponte de comando do cargueiro. Toda esta operação depende, como é evidente, das condições do mar.
No caso de ser totalmente impossível extravasar este combustível para terra, haverá aplicação dos produtos dispersantes. Felizmente ainda não foram verificadas quaisquer roturas nos tanques de combustível, para além da verificada sob o porão nº 1, cujo fuel se encontra solidificado, evitando assim qualquer perigo.

Trazida para terra a bagagem dos tripulantes
Já no fim da tarde de ontem e com a baixa-mar seis bombeiros e três tripulantes foram para bordo buscar as bagagens da tripulação.
Sobre as rochas, junto ao cargueiro e por intermédio de um cabo ligado ao navio foram trazidas para terra muitas malas com os artigos pessoais da tripulação do navio. Para esta operação também contou com a ajuda de populares que carregaram, prontamente com os tripulantes as bagagens.

O comandante do navio agradece todo o auxílio
- Nunca vi gente com tanto carinho e dedicação – exclamou, ontem, o comandante do “Amethyst”, Demokritus Kronydas, ao agradecer a todos – populares e bombeiros – o empenho posto na operação de salvamento de toda a tripulação do seu navio.

O casco do cargueiro terá de ser retirado
As autoridades marítimas estão a envidar todos os esforços para que o caso “Amethyst” não venha a ser transformado noutro “Maura”. Desmantelado, ou de outra forma, o cargueiro tem de ser retirado do local onde encalhou. As autoridades marítimas não deixarão que ali se mantenha, destroçando-se, apodrecendo com o tempo.
(Jornal “Comércio do Porto”, segunda-feira, 4 de Fevereiro de 1979)

terça-feira, 5 de junho de 2018

História trágico-marítima! (CCLV)


O encalhe – naufrágio do navio “Amethyst”, na Foz do Douro
1ª Parte

Cargueiro grego amarrado às rochas
Após cerca de quatro horas de angústia e intenso dramatismo, conseguiram ser salvas as 24 pessoas que se encontravam no cargueiro grego “Amethyst”, que ao fim da invernosa madrugada de ontem encalhou nas rochas da praia do Molhe, na Foz do Douro.

Casario e ponte do navio "Amethyst"
Minha colecção

“Amethyst”: ao sabor das ondas com três mil toneladas de milho
Horas dramáticas antecederam o salvamento de toda a tripulação
Essa ansiedade dramática, qual expectativa trágica presente em toda a tripulação do navio e nas centenas de pessoas que, apesar das acicatadas bátegas, contemplavam o cargueiro, foi, sem duvida, a nota mais dominante, mais aflitivamente sentida.
Pensou-se, na verdade, que para além do navio, se perderiam as duas dúzias de vidas, ali palpitantes, tal era a fúria e braveza do mar. Fortemente encapelado com alterosíssimas ondas a varrerem agrestemente a costa e a provocarem grandes balanços no navio, de tal ordem que, com a proa assente sobre o rochedo chegou a rodar cerca de 100 graus para Sueste.
Como é natural o trágico acontecimento suscitou a atenção de milhares de curiosos que, durante todo o dia de ontem não deixavam de contemplar demoradamente os acicates do navio. E em muitos deles não deixou, até, de vir à lembrança o caso de outros navios naufragados ainda há pouco tempo. Casos do “Varna” e do “Silver Valley” e, ainda, recentemente, em Francelos, do “Maura”.

O primeiro alarme
O “Amethyst” era um dos muitos cargueiros que se encontravam ao largo de Leixões, na longa e penosa espera de lugar. Chegara na quinta-feira às 0,30 horas, tendo saído do Tejo no dia anterior.
Eram cerca das 6,30 horas de ontem, quando o barqueiro-fragateiro sr. João Jesus Oliveira seguia frente à praia do Molhe, juntamente com quatro colegas, e se aperceberam da proximidade da costa em que se encontrava o cargueiro grego.
Suspeitando de encalhe logo estabeleceu comunicação com o «115». O comissário de serviço mandou sair imediatamente um carro-patrulha e uma ambulância, sendo a informação prontamente comunicada às corporações de bombeiros.
Entretanto, e bem próximo das 7 horas, ter-se-à consumado o encalhe. O barqueiro disse que chegou mesmo a ouvir um estrondo, assistindo pouco depois a uma rotação do navio da ordem dos 100 graus.
Passava já das 8 horas, quando começaram a chegar os Bombeiros Portuenses, de Matosinhos-Leça e de Leixões, e o Batalhão de Sapadores, estes com os seus homens-rã. E logo a falta de organização, a falta de um orientador de trabalhos tornou-se evidente. É que a boa vontade não basta. E a confusão ficou uma vez mais patente.
Depois de demoradas tentativas para estabelecer a ligação terra-navio, os foguetões de lançamento não eram bem-sucedidos, finalmente, às 9 horas, um cabo havia ficado firme. Estava assim estabelecida a ligação com o navio e com ela esmorecia a angústia que atrozmente crepitava nos tripulantes, tal a investida constante das ondas.
O cabo era sinal de salvação. De facto, após o devido apetrechamento, finda a colocação de todo o material necessário à operação de salvamento, deram início ao transporte dos tripulantes que já haviam deixado o castelo da proa, aguardando sobre um dos porões da popa.

Finalmente a operação de salvamento
Cerca das 10,45 horas foi dado início, efectivamente, à operação de salvamento, altura em que na praia era vasta a multidão que se acotovelava com ansiedade e notória expectativa. Registe-se o valioso auxílio de muitos dos populares que tiveram também uma missão a desempenhar. Foram prestimosa ajuda nos trabalhos de salvamento, se bem que o amontoamento tivesse originado a intervenção da Polícia de Segurança com algumas cacetadas.
Primeiramente seguiu para o navio o homem-rã do Batalhão de Sapadores, Joaquim Campos da Silva, que de bordo passou a coordenar o desenrolar das operações de salvamento.
Foi o 3º maquinista quem primeiro veio para terra, acompanhado de uma menina de 4 anos, Royla Sigala, filha do 1º maquinista Panagiotis Sigala, ante os olhares expectantes dos presentes que ansiosamente aguardavam a chegada de toda a tripulação.
No olhar da criança o concomitante com a estranheza do que se lhe deparava, havia uma singular indiferença. A ingenuidade pueril. Logo conduzida a uma ambulância foram transportados para um hotel das imediações, onde ficaria hospedada toda a tripulação.
A seguir foi a vez da mãe de Royla, srª Efy Sigala, que na bóia-calção foi puxada para a praia. Olhar carregado, profundo e estupefacto, mal tocou a areia interrogou-se sobre a filha e lá foi, também, transportada para o hotel.
Depois, de cinco em cinco minutos, foram sendo salvos os restantes elementos da tripulação, trazidos pela bóia-calção presa a uma roldana que deslizava sobre o cabo de ligação mar-terra. Aqui, exactamente, na operação de salvamento, na força necessária ao deslizar da bóia, é que foi preciosa a ajuda dos populares, que com os bombeiros puxavam pelas guias.

Helicóptero – Para quê?
Entretanto, quando ainda se encontravam a bordo quatro tripulantes, chegou um helicóptero pedido pelas autoridades marítimas, ao Serviço de Busca e Salvamento do Ministério da Marinha. Eram 11,50 horas, quando helicóptero pilotado pelo 2º sargento António Galinha Dias, secundado pelo 2º cabo Jacob Maia, tocava o solo da praia.
Embora viessem preparados com todo o material necessário ao salvamento da tripulação é evidente que a sua acção era já dispensada. Saíra da Base de Tancos às 10,40 horas, quando afinal, já decorria o transporte dos tripulantes em direcção a terra.
Convenhamos, entretanto, que mesmo atrasada a presença da gigantesca «abelha», não deixou de ser grande motivo de espanto para a multidão presente. Só que de espanto… e se as condições do mar tivessem piorado, perigando mais intensamente a vida dos tripulantes, seria tragicamente comprometedor o atraso verificado.

Foto do "Amethyst" no local do encalhe
Minha colecção

O último tripulante a abandonar o navio
O último tripulante a abandonar o navio foi o comandante, Demokritus Kronydas, que sob o olhar da multidão manifestava perfeitamente o seu desespero, no rosto manchado e salpicado de água.
Rodeado pelas autoridades e representantes das firmas consignatárias, quis esperar pelo homem-rã que ainda se encontrava no navio, mas depois cedeu e foi encaminhado também para o hotel onde pouco depois falou telefonicamente com o representante do armador. Pouco passava das 13 horas. Por fim, regressou a terra o homem-rã que foi, afinal, o orientador da operação. A partir daqui a maioria das pessoas dissipou-se, não deixando no entanto de ser volumoso e constante o número de curiosos.

«Dentro de 24 horas o navio fica partido»
Em conversa estabelecida com o sr. Eduardo Augusto, representante da Navex, que bastante se empenhou no desenrolar dos trabalhos de salvamento, deu conta de alguns pormenores sobre as últimas comunicações estabelecidas com o navio.
- «Entre as 6,30 e as 7 horas, o comandante pediu socorro através do rádio V.H.F., mas depois ficou logo sem comunicação por falta de energia. Utilizaram só a sirene e depois a comunicação foi estabelecida por morse luminoso. Às 7 horas foi quando fui avisado e logo que cheguei fiz todos os possíveis para comunicar com o navio, por intermédio do megafone, mas não obtive qualquer resposta.».
Mais adiantou:
- «O rebocador “Monte S. Brás” ainda saiu em direcção ao navio, mas revelou-se impossível tentar a aproximação devido à vaga estar a partir a milha e meia da costa.»
Quanto às hipóteses de salvamento do navio deverão são nulas, porque tendo em conta estar muito cravado nas rochas, tem um rombo por estibordo e, até, as próprias escotilhas dos quatro porões estarem destruídas. Disseram, inclusivamente, que «dentro de 24 horas o navio fica partido».
Quanto à carga, 3.000 toneladas de milho (das 10 que o “Amethyst” trouxe de Nova Orleães), pode adiantar-se que as hipóteses de recuperação são, também, bastante negativas. No entanto, tal como acontece com o combustível existente no navio, as condições do mar têm grande influência no andamento das tentativas de recuperação.

A deficiência dos serviços de socorro
Mais um encalhe na Foz, Na costa portuguesa. E com ele avultam, de novo, as insuficiências e deficiência de um serviço devidamente apetrechado e desburocratizado a tal ponto de se conseguir aplicar os melhores meios para a imediata intervenção em acidentes desta gravidade.
Para além da falta de interacção tão necessária entre os elementos das várias corporações de bombeiros, o que mais saliente se tornou foi o grande atraso e consequente inutilidade (para além do dar nas vistas!...) do helicóptero pedido logo pela manhã, quando as autoridades marítimas ao tomarem conhecimento do sinistro logo atenderam à evidente gravidade da situação. As ondas chegaram a varrer intrepidamente as tampas dos porões, passando por cima da tripulação que, encoletada, aguardava o início da operação de salvamento. Terão sido, na verdade, horas de inusitada angústia e desespero, para toda a tripulação.
Por parte do trabalho dos bombeiros não poderá passar em claro o foguetão de lançamento atirado, de sudeste, por elementos dos bombeiros de Matosinhos-Leça e que, não fôra o facto de ter embatido contra o mastro, causaria, certamente, a morte de alguns tripulantes que nessa altura ainda se encontravam no castelo da proa.
Por outro lado, alguns dos homens-rã que colaboraram nos trabalhos, foram a certa altura arrastados por uma enorme vaga, criando-se um certo pânico entre os presentes – pânico esse que só desapareceu, quando outra vaga os atirou, de novo, à praia, com alguns ferimentos.
Um dos tripulantes chegou também a ser transportado ao hospital, por se ter ferido ligeiramente nas rochas, quando era transportado para terra. Depois de assistido foi para o hotel.

«Nasceu» no Japão há quatro anos
142 metros de comprimento
O “Amethyst”, de nacionalidade grega, foi construído em 1970, no Japão. Tem 10.006 toneladas de registo bruto e 142 metros de comprimento.
A empresa armadora do navio é a Pentelikan Shipping Co,, com sede no Panamá, sendo o representante, a Faraos Shipping Ltd., de Londres, para onde o comandante do “Amethyst” estabeleceu contacto telefónico a fim de receber instruções.
Registe-se, entretanto, que anteriormente, tinha sido recebido um telegrama de Londres para o comandante não abandonar o navio juntamente com alguns outros elementos da tripulação. É claro que o estado do mar e a inclinação do navio não permitia qualquer permanência a bordo.
A «Navex» é o agente do navio, sendo a Kendall, Pinto Basto, agente da companhia seguradora, funcionando ambas como representantes da companhia armadora.
A tripulação é composta por indivíduos de várias nacionalidades, embora a maioria seja grega. De facto, enquanto o capitão, o imediato, o 1º engenheiro e mais 14 marinheiros são da Grécia, o fogueiro é chileno, o radio-telegrafista inglês e outros três marinheiros são filipinos.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 2 de Fevereiro de 1974)

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Leixões na rota do turismo! (3/2018)


Navios em porto na primeira quinzena de Maio

Em função do número de navios e passageiros que estiveram de visita ao porto, pode considerar-se um óptimo período, muito embora todos os navios são já conhecidos de viagens anteriores. O "MSC Magnifica" repetiu o bem sucedido «turnaround», i.e. o desembarque e embarque de passageiros em simultâneo, aproveitando as excelentes condições oferecidas pelo terminal de Leixões. Deve ainda ser sublinhado o regresso do navio de passageiros "Tui Discovery", recentemente rebaptizado pelo armador com o nome "Marella Discovery".

No dia 1, o navio de passageiros "Viking Sun"
Chegou procedente de Málaga, saiu com destino a Lisboa

Também no dia 1, o navio de passageiros "Ocean Adventurer"
Veio procedente de Lisboa, continuando a viagem com destino a Vigo

No dia 2, o navio de passageiros "Le Boreal"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Ainda no dia 2, o navio de passageiros "Aidabella"
Chegou procedente de Cadiz, tendo saído com destino à Corunha

No dia 3, o navio de passageiros "MSC Magnifica"
Chegou procedente do Havre, saindo com destino a Lisboa

No dia 4, o navio de passageiros "Mein Schiff 4"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha

No dia 6, o navio de passageiros "Amadea"
Chegou procedente de Portimão, saiu com destino a St. Helier

No dia 9, o navio de passageiros "Marella Discovery"
Veio procedente de Málaga, tendo saído com destino a Vigo

No dia 10, o navio de passageiros "Serenissima"
Veio procedente da Figueira da Foz, saiu com destino a Villagarcia

Também no dia 10, o navio de passageiros "Seabourne Quest"
Chegado procedente de Lisboa, continuou a viagem com destino a Vigo

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Divulgação!


X Encontro de embarcações tradicionais
Rio Cávado - 2018 - Esposende



Programa


terça-feira, 29 de maio de 2018

História trágico-marítima (CCLIV)


Na praia de Santo André, ao norte da Póvoa,
um navio panamiano encalha no areal

A praia de Santo André, no limite das freguesias contiguas de
A-Ver-o-Mar e a Aguçadoura, local de grande vocação turística
(ali se situa a moderna estalagem de 60 quartos), foi ontem local
de visitas para uns (os mirones) e de grandes preocupações para
outros (as autoridades marítimas).
Cerca das 4 horas da madrugada, e por motivos que se desconhecem, a que não deve ser estranho o denso nevoeiro que cobriu a costa, o navio “Panda Star”, com bandeira panamiana, mas de armador inglês, com 72 metros e de 1.434 toneladas, encalhou na areia daquela praia, ficando totalmente atravessado.
Dado o alerta, foram solicitados os socorros dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Varzim, que, por não disporem de material de socorros a náufragos, não chegaram a sair, cabendo aos seus congéneres de Esposende montar um cabo de vai-vem, com cesta para salvamentos. Igualmente se deslocaram o capitão do porto, capitão-tenente Vidigal Aragão e o comandante da Guarda-fiscal na cidade, tenente Alves Pereira, acompanhado por alguns subordinados, que actuaram de conformidade com a situação do navio.
A tripulação é constituída por três portugueses, dois cabo-verdianos, um espanhol, um tanzaniano (maquinista), um oficial e o comandante, ingleses. A bordo viaja ainda a esposa do comandante.
O navio, na maré-vaza, ficou com fácil acesso desde o areal da praia, por escada de «quebra-costas», tendo por ela saído os tripulantes portugueses José Fernando Gomes da Silva, Zacarias Gomes Bastos e seu sobrinho Fernando Cação Gomes Bastos, todos de Matosinhos, que, cerca das 11 horas se dirigiram à Estalagem de Santo André para fazerem um telefonema, voltando para bordo.
Pouco depois, o José Fernando e o Fernando Cação, acompanhados do cabo-verdiano Vitorino Fortes e do espanhol Manuel Piñero Ribas, munidos das suas malas abandonaram o navio, regressando a casa e declarando que aguardariam por ele em Leixões, se conseguisse safar-se da areia. Caso contrário, procurariam outro local de trabalho. O José Fernando era a primeira vez que embarcava no “Panda Star”.
O capitão do porto ouviu o comandante do navio, que declarou ter a bordo 900 toneladas de madeira, em toros, 40 toneladas de gasóleo, ter saído de Villagarcia (Espanha) e dirigir-se para a Argélia. Recusou auxílios de rebocador, informando que iria tentar safar o navio pelos próprios meios, na maré cheia, portanto entre as 15 e as 16 horas.
Confirmando as previsões dos pescadores da Aguçadoura, a tentativa não surtiu efeito, pese embora todos os esforços da tripulação que restou. O motor foi posto a funcionar em marcha-à-ré, para arrancar o navio da areia, quando já estava totalmente a flutuar, mas sem êxito.
Entretanto, os Voluntários de Esposende montaram preventivamente os lança foguetes para a hipótese do navio se afastar e bater nos rochedos que o ladeavam à proa e à ré. Refira-se que os pescadores sublinhavam a sorte do comandante, por ter conseguido entrar pelo «buraco da agulha», o canal, como lhe chamam, a uma nesga de mar de escassos cem metros de largo, entre maciços de penedia.
As autoridades receavam que, na tentativa de salvamento, o navio pudesse abrir um rombo, derramando o gasóleo, se por acaso batesse nos penedos. Daí a vigilância permanente do capitão do porto.
Ao fim da tarde, o comandante do navio, em face do fracasso da tentativa feita pelos seus próprios meios, acedeu à intervenção de rebocadores em próximas tentativas.

Hoje de tarde nova tentativa de desencalhe
Para tanto, estarão hoje reunidos, às 9 horas da manhã, com o comandante do navio, o capitão do porto da Póvoa, um representante do armador, a empresa «Cotandre», do Porto, um mestre de rebocadores e um oficial da APDL. Só depois desta reunião será decidida a forma como irá ser feita nova tentativa de desencalhe, o que virá a ter lugar, em caso de se ter de fazer na preia-mar, às 16,30 horas.
Entretanto, o navio está já a ser aliviado de parte da carga (a que se encontrava no convés), cerca de 2.500 toneladas de toros de madeira de razoável porte, pelo que foi feito aviso à navegação deste facto.
Porque é lícito recear um provável arrombamento de fundos, foi solicitada a colaboração dos Bombeiros Sapadores do Porto para procederem à trasfega das 40 toneladas de gasóleo que se encontram no navio, para evitar risco de poluição nas praias da costa poveira.
A Câmara Municipal, preocupada com a defesa das suas praias, mobilizou todos os meios que ali chegaram vindos do Sul para Norte. Também naquela tarde teriam sido vistas sair grandes nuvens de fumo negro de bordo. Outras testemunhas afirmam que, já depois da meia-noite, o navio, iluminado, mantinha a proximidade da costa.
Entretanto, um outro navio, do tipo butaneiro, mantém-se estacionado ao largo, desde a madrugada, desconhecendo-se os motivos.
Enfim, há assunto de sobra para as autoridades averiguarem.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 10 de Agosto de 1979)

Imagem do navio "Panda Star" encalhado sobre a areia da praia
(minha colecção)

O encalhe do “Panda Star”
O navio sé deverá safar-se com as marés vivas do fim do mês
O cargueiro “Panda Star”, encalhado na praia de Santo André, na Aguçadoura, a 6 quilómetros a Norte da cidade da Póvoa de Varzim, mantém-se em situação estável e ali deve permanecer talvez até ao dia 23 do corrente, na melhor das hipóteses, pois a partir dessa data e até ao dia 29 se verificarão as maiores marés-vivas do mês. A esta conclusão chegaram os técnicos da APDL e dos rebocadores, o capitão do porto da Póvoa, o comandante do navio encalhado e o representante dos armadores, em reunião realizada no local, na manhã de ontem.
Porque o navio, embora mais adornado para o lado do mar, os seus ocupantes não correm perigo imediato. Os Bombeiros Voluntários de Esposende desmontaram o cabo de vai-vem e o lança foguetões e retiraram. Entretanto, mantém-se no local elementos da Guarda-fiscal e da Capitania do porto da Póvoa de Varzim, para tomar quaisquer atitudes, que sejam recomendadas em caso de emergência.
O capitão do porto da Póvoa de Varzim recomendou que o “Panda Star” seja escorado na borda do lado do mar, do que se encarregará o gasoleiro “S. Bonifácio”, do porto da Póvoa.
Ontem, ao fim da tarde, chegou ao Porto, de avião, vindo de Londres, um representante dos armadores ingleses, para tomar decisões quanto ao destino do navio. Assim, ou o navio é descarregado da totalidade da sua carga, composta por 975 toneladas de madeira em toros e 40 de gasóleo, e posteriormente será feita nova tentativa de o safar, já com ajuda de rebocador; ou então será dado como perdido e competirá às autoridades portuguesas decidir do seu destino.
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A propósito das declarações de algumas testemunhas, pode desde já ficar esclarecido que o navio que se encontrava estacionado ao largo era o butaneiro “Cidla”, com avaria na casa das máquinas, o qual terá tido um princípio de incêndio que provocou os fumos que as testemunhas afirmavam ter visto de terra. O navio, já depois de reparada a avaria e já depois, também, de ter sido contactado por um navio-patrulha da Marinha de Guerra Portuguesa, que fiscalizava a área, pôde prosseguir viagem cerca das 3 horas da madrugada.
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O dia de ontem foi de verdadeira romaria para a praia de Santo André, depois que a população tomou conhecimento do que estava a acontecer. Muitos dos condutores, imprevidentemente, estacionaram as suas viaturas ao longo da estreita estrada de acesso, impedindo a livre circulação das viaturas dos bombeiros e das autoridades.
Numa emergência será difícil prestar socorro, se as viaturas continuarem a entupir a estrada. O capitão do porto, comandante Vidigal Aragão, que tem acompanhado esta ocorrência com a maior eficiência e usado de toda a ponderação, sem abdicar da necessária firmeza, apela aos automobilistas que pretendam dirigir-se a Santo André, para que estacionem os seus carros fora da estrada, evitando, assim, impedir o livre acesso às viaturas de socorro.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 11 de Agosto de 1979)

Ainda sobre o encalhe do “Panda Star”
Como que ainda a «fazer praia» no acolhedor areal da Póvoa de Varzim, o navio “Panda Star”, arvorando bandeira do Panamá, mantém-se «pousado» a aguardar maré que o possa safar.
Ontem, milhares de pessoas estiveram a vê-lo e a tecer, à volta do caso as mais díspares opiniões, não faltando, entre a multidão, os que eram «capazes de o safar dali num abrir e fechar de olhos»; enfim, talentos perdidos… Estiveram a bordo, dois peritos ingleses. À boa maneira britânica, viram, apreciaram, mas nada disseram que se ouvisse.
Diz-se que só lá para fins de Setembro haverá maré capaz de permitir a reflutuação do navio. Diz-se também, que rebocadores virão, antes disso, tentar safar o navio, para já assente na areia que as ondas, aos poucos, vão cavando do lado do mar.
Será isto uma ameaça para o “Panda Star”?
Haverá, realmente, interesse em recuperá-lo?
São perguntas que andam no ar, enquanto o navio está bem assente no chão, ou melhor, na areia.
(Jornal “Comercio do Porto”, segunda-feira, 13 de Agosto de 1979)

Foto do navio "Panda Star" a entrar no porto de Leixões
(Imagem da Fotomar, Matosinhos)

Encalhado na Póvoa há 25 dias - Longo trabalho de
especialistas consegue salvar o navio “Panda Star”
Eram 4 horas e meia da tarde de ontem quando o navio panamiano “Panda Star” entrou no porto de Leixões, depois de ter conseguido «safar-se» das areias da praia da Aguçadoura, na Póvoa de Varzim, onde encalhara na madrugada do dia 8 do mês passado. Tendo acostado ao cais novo de contentores, o navio esperará agora que a Capitania lhe faça uma vistoria ao casco, passando-lhe o respectivo certificado de segurança, seguindo tão cedo quanto possa à sua vida.
A «história» do “Panda Star”, propriedade de um armador inglês, que tem os seus navios sob a nacionalidade panamiana, começou quando os habitantes das freguesias de A-Ver-o-Mar e Aguçadoura viram sair do denso nevoeiro, que fazia na referida madrugada do dia 8 de Agosto passado, um enorme navio que iria encalhar na areia, e que o mar colocaria paralelamente à praia. Os motivos deste acidente, mais um dos têm feito das costas nortenhas um verdadeiro cemitério de navios, não se conseguiram apurar, sendo porém provável que se tenha devido exactamente ao denso nevoeiro que se fazia sentir.
Depois de repetidas tentativas falhadas para desencalhar o navio, com o auxílio das marés-altas, o proprietário fez um acordo com a empresa holandesa Wijsmuller B.v., especialista nestas operações, e representada em Portugal pela agência de navegação Jervell & Knudsen, segundo o qual o proprietário só pagaria a tentativa de desencalhar o navio caso esta resultasse.
Foi assim que há cerca de 15 dias o capitão A. Christiaans tomou conta do “Panda Star”, com a missão de o retirar da praia da Aguçadoura, onde parecia estar de «pedra e cal».

Ninguém acreditava que o salvamento do navio fosse possível
Foi exactamente com o capitão Christiaans que a reportagem falou, depois de ter sido possível subir a bordo do “Panda Star”, ainda a manobra de atracação não tinha terminado. Visivelmente satisfeito, e num inglês cuja pronúncia possivelmente flamenga se tornava de difícil entendimento, este especialista da Wijsmuller em operações de desencalhe, começaria por dizer que «ninguém na Póvoa acreditava que fosse possível salvar o navio», mas que a operação «correu maravilhosamente», não tendo acontecido nenhuma avaria.
O processo usado – explicaria o capitão Christiaans – foi o de retirar com «bulldozers» a areia junto ao navio que se encontrava em paralelo à praia e a ele encostada. Mais, uma âncora ficou presa no mar ligada a um cabo com 900 metros. Isto, evidentemente, depois de ter sido retirada a carga que levava (toros de madeira), assim como quase totalmente esvaziadas as reservas de combustível.
E assim, retirada a areia necessária, o navio esperou pelas marés-vivas que se costumam fazer sentir com mais volume, nos princípios do corrente mês de Setembro. Na manhã de ontem, durante a maré cheia, o navio começou a mover-se para sul, do lado da ré, de forma que, logo que a hélice pôde trabalhar o navio saiu mesmo de ré, fazendo então uma difícil manobra entre os bancos de areia donde tinha saído e os rochedos que mais ao largo abundavam, conseguindo sair de proa evitando-os a todos.

Há mais de dez anos que nenhum navio
encalhado na costa nortenha conseguia safar-se
Esta «operação de salvamento» constituiu uma verdadeira vitória, tanto mais que, para além de possíveis prejuízos de poluição que evitou, foi a primeira vez que, pelo menos nestes dez últimos anos, um navio encalhado na costa a Norte de Espinho consegue safar-se.
O capitão A. Christiaans, responsável por esta proeza, haveria também de agradecer o próximo auxílio da empresa portuguesa Ferrinha, de Leça, que acompanhou toda a operação, assim como ao proprietário da Estalagem de Santo André, que forneceu à tripulação água potável e onde foi lavada a respectiva roupa.
Sobre o preço por que terá ficado ao armador proprietário do “Panda Star” toda esta bem-sucedida operação de salvamento, o capitão Christiaans disse «ser um técnico não sabe essas coisas de dinheiro», sendo no entanto de esperar que, pelo tipo de contrato estabelecido, a verba a receber pela empresa Wijsmuller não seja pequena, tanto mais que o navio se encontra na mesma como quando encalhou.
(Jornal “Comercio do Porto”, segunda-feira, 4 de Setembro de 1979)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Histórias do mar português!


Caça à baleia gerou incidente
“Sierra” e “Sea Shepherd” permanecem em Leixões

Guardo ainda na memória, a presença dos navios referidos na abaixo mencionada notícia, em Leixões, muito embora só me tivesse parecido merecer algum relevo a segunda e terceira parte do episódio, do qual fiz algumas fotos.
A segunda parte da história está relacionada com o arresto do “Sea Shepherd”, pelo juiz do Tribunal de Matosinhos, que conduziu o processo, e a longa demora para decidir sobre a venda do navio em hasta pública, no sentido de serem ressarcidas as despesas com a reparação do navio-baleeiro “Sierra”. Esta ideia, antecipada ao parecer judicial, era voz corrente por corresponder à decisão habitual.
Daí que a pouca tripulação a bordo do “Sea Shepherd”, optando não esperar mais pela decisão judicial, agravada pelo facto de não lhes ser favorável, abriram as válvulas dos tanques do navio, provocando-lhe o afundamento. E, lá ficou durante muito tempo, a ocupar espaço junto ao cais, privando outros navios de efectuar operações portuárias, num local que privilegia a descarga de graneis sólidos.
Obviamente, já numa fase posterior, havia que dar solução a este embaraço e para tal foi contratada uma empresa para remover o destroço do “Sea Shepherd” e levá-lo para demolir. Apesar desta situação, que levou à total destruição do navio, há também notícias publicadas sensivelmente na mesma época, a dar conhecimento do afundamento do navio-baleeiro “Sierra”, em Lisboa, devido a explosão.
Em função deste resultado, perfeitamente descrita e explicada na notícia, não terá sido do agrado de nenhum dos intervenientes, resumindo-se tudo apenas a mais uma história, das muitas que há para descobrir, passadas no mar português.

Imagem do navio-baleeiro "Sierra"

Permanecem em Leixões os dois navios que recentemente, há pouco mais de um mês, foram intérpretes de um incidente estranho e curioso pelas formas de que se revestiu: não é, com efeito, habitual pelo menos desde que a pirataria deixou de sulcar os mares, uma embarcação abalroar propositadamente uma outra. Mas foi exactamente isso que aconteceu e por razões que se situam no campo da defesa da natureza, concretamente na preservação da fauna marinha.
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O caso passou-se a cerca de 200 milhas do porto de Leixões, em 16 de Julho. O “Sea Shepherd” (Pastor do Mar), tripulado normalmente por 17 homens provenientes de cinco países diferentes, mas naquela investida reduzido a três elementos, zarpou de Leixões a toda a velocidade para abalroar um baleeiro cipriota, de origem espanhola, o “Sierra”, pertencente a um armador sul-africano.
Tratava-se, afinal, de um velho ajuste de contas. De há muito que a embarcação analisava a actividade do “Sierra”, concentrada na pesca da baleia, que o considerava «pirata» e como tal definia-a como um inimigo a abater.
Daí, a acção de represália empreendida pelo “Sea Shepherd” em nome da salvação dos cetáceos que ainda restam nos oceanos. Mas nem toda a tripulação esteve de acordo com o abalroamento proposto.
Apenas três elementos, com efeito, entre os quais Paul Watson, jornalista canadiano que abandonou a profissão para se dedicar de corpo e alma à luta contra os navios, que fazendo tábua rasa da regulamentação internacional, pescam baleias em diferentes pontos do globo, aceitaram a operação.
A «vingança» acabaria, pois, por suceder com o abalroamento do navio cipriota que, após a colisão propositada, ficou com um rombo na proa junto à linha de água, que o fez vir até Leixões com água aberta.
O «Pastor do Mar», entretanto, apesar de se dirigir para o alto mar seria, algumas horas mais tarde, apresado pelo navio-patrulha “Limpopo”, mandada sair logo que a tripulação do “Sierra”, reclamando socorro, alertaram as autoridades marítimas portuguesas.
A partir de então, o “Sea Shepherd”, ficaria aprisionado em Leixões onde ainda se encontra, aguardando o desenrolar do processo judicial que lhe foi movido pelos representantes do armador do navio baleeiro abalroado. Este, por seu turno, espera também em Leixões que sejam reparados os danos que o impedem de navegar.

Imagem do afundamento do "Sea Shepherd"

«Tentativa de homicídio»
Arrestado em Matosinhos como «fiança» pelos prejuízos que provocou, o “Sea Shepherd” também sofreu alguns danos, o que não lhe impedem contudo, de navegar, devido à colisão havida. Os seus tripulantes responsáveis pela «vingança» ecológica ficaram com os passaportes apreendidos e tiveram que pagar caução para esperar em liberdade o julgamento do caso. Só que, mesmo sem passaportes, acabariam por deixar o nosso país continuando ausentes.
O «Pastor do Mar» terá que responder por uma acção movida pelo “Sierra”, que aguarda a sua vez no Tribunal de Matosinhos, por «tentativa de homicídio».
Objectivamente, a embarcação que provocou propositadamente o abalroamento incorreu em franca ilegalidade que a obrigará, certamente, a pagar uma pesada indemnização. Mas terá o crime de Watson e companheiros compensado?
Para eles, o importante era denunciar o desrespeito flagrante, a cumplicidade do silêncio com que conta um baleeiro como o “Sierra”, despertar a atenção da opinião pública e de organismos internacionais para a necessidade de proteger certas espécies em vias de extinção. Tê-lo-ão, de facto, conseguido, mas agora quem paga os prejuízos?

O “Sierra” transforma-se em arrastão
Embora o armador não se encontre actualmente entre nós, é provável que o “Sierra” abandone as suas actuais características para ser transformado em arrastão. O que deixa pressupor uma certa vitória para o “Sea Shepherd” que, assim, não voltará a ter que denunciar a actividade pouco clara da embarcação registada em Chipre. Esta, para já, terá de ser reparada antes de se dirigir rumo a um estaleiro nacional para ser concretizada a sua transformação. A sua reparação que irá processar-se em Matosinhos, foi objecto de concurso, prevendo-se que o orçamento para reparar os danos provocados pela colisão ultrapassarão os mil contos.
Para Paul Watson, o antigo jornalista que comandou o abalroamento, o “Sierra” é pertença de duas companhias, a Taiyo, japonesa com 75 por cento do capital e uma outra norueguesa, o Banco Furrentnings, que não se quer assumir como tal, pois esse facto traria problemas internacionais aos governos dos respectivos países, que assinaram convenções que não se preocupam em cumprir.
O “Sea Shepherd”, capitaneado por Lavis Sellers, um dos 14 elementos que se recusou a participar na operação de abalroamento, que tem na sua torre a inscrição «salvem as Baleias», um apelo que lhe serve de palavra de ordem, é um navio oceanográfico que sulca os mares para estudar e proteger a fauna, denominando-se por isso, de «Pastor do Mar». Desta vez, porém, a sua função sofreu um ligeiro desvio, para punir pelas suas próprias mãos um navio «inimigo»… das baleias!

Imagens do "Sea Shepherd" reposto a flutuar

Deve ser proibida!
Enquanto o director das Pescas Portuguesas afirmava, pouco depois do incidente, que o nosso país nada tinha a ver com este escândalo, o Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem defendia em comunicado que «a caça às baleias deve ser proibida nas águas portuguesas, assim como a entrada de baleeiros nos nossos portos».
«Mas não podemos concordar com o processo de contestação agora usado pelo “Sea Shepherd” em relação ao baleeiro “Sierra”» – esclarece o NPEPVS no seu comunicado.
Acrescentando que «é, no entanto, sintomático que um organismo profundamente empenhado na conservação das baleias, depois de usar todos os processos de actuação possíveis, se veja obrigado a recorrer a um abalroamento para ser ouvido».
Apesar das reservas feitas no caso presente o núcleo exprime o seu «apoio global» ao referido organismo, a Greenpeace Foundation (Fundação Paz Verde), proprietária do “Sea Shepherd”, «que só em 1978 – diz-se no comunicado – salvou mais de 1.400 baleias».
O NPEPVS observa «que nos últimos 50 anos foram mortas mais de dois milhões de baleias, o que significa mais de cem por dia ou quatro a cinco por hora». «É necessário alterar esta situação, no sentido de não provocar mais uma catástrofe ecológica de consequências imprevisíveis» - salienta o comunicado.
Ao enumerar as «medidas mais urgentes a tomar» a nível internacional, o Núcleo indica a proibição total da captura de baleias até melhor se conhecerem os efectivos destas, uma resolução da Comissão Baleeira Internacional (IWC – International Whaling Comission) que proíba a caça à baleia durante dez anos e a criação de reservas internacionais para aqueles animais.
A caça à baleia á actualmente controlada, a nível mundial, pela IWC, que estabelece os limites anuais de captura para cada espécie. Porém, o NPEPVS afirma serem os critérios em vigor «puramente teóricos» e «incapazes de proteger a espécie».
Em abono desta crítica, o NPEPVS argumenta que «em 1972 foram abatidas 38.600 baleias, ao passo que em 1977 apenas se chegou a 17.830, e as baleias capturadas eram, em regra, mais pequenas».
O comunicado do NPEPVS termina revelando estatísticas que indicam ser a baleia boreal e a baleia branca, duas espécies, aliás, hoje totalmente protegidas, as mais atingidas. Quanto à primeira, cujos efectivos antes da comercialização e da caça eram de 50 mil exemplares, está hoje reduzida a dois mil. No caso da segunda espécie, o decréscimo foi de 50 mil para quatro mil.
A situação das restantes espécies traduz-se pelos seguintes quantitativos, também respeitantes aos efectivos antes da comercialização e da caça e aos estimados actualmente: cachalote fêmea, 570 mil/ 390 mil; baleia anã, 360 mil/ 300 mil; cachalote macho, 530 mil/ 230 mil; baleia ordinária, 450 mil/ 100 mil; rorqual boreal, 200 mil/ 75 mil; porqual de bryde, 100 mil/ 40 mil; baleia azul, 210 mil/ 13 mil; baleia cinzenta, 15 mil/ 11 mil e jubarte, 100 mil/ 7 mil.
Jornal Comércio do Porto, Setembro de 1979

terça-feira, 22 de maio de 2018

Divulgação!


Vila do Conde
Um porto para o Mundo


Com referência às decisões aprovadas no Congresso Internacional sobre Construção Naval, Arte, Técnica e Património, que decorreu em Vila do Conde, de 23 a 25 de Maio de 2016, com o propósito de ter como mais-valia a construção naval em madeira, para ser lançada a candidatura desta actividade a Património Imaterial da Humanidade, foi lançado um livro versando os assuntos discutidos, com a promessa de que outros se seguirão a curto prazo.
À apresentação do livro, que teve lugar no último sábado, no edifício da Alfândega, em Vila do Conde, presidiu a presidente da Câmara Municipal, Dra. Elisa Ferraz, acompanhada pela presidente da Comissão Científica do Projecto «Vila do Conde: um porto para o Mundo», Prof. Dra. Amélia Polónia, e pelo presidente da Comissão de Honra do projecto, Dr. António Carmo Reis.
Na nota introdutória a Dra. Amélia Polónia sustenta que «a realização do Congresso Internacional, que deu origem a esta publicação I…I prossegue uma intenção de cruzar olhares, que incluem as perspectivas e os saberes de agentes locais, investigadores e técnicos, com os de investigadores e especialistas portugueses e estrangeiros, que nos dão o privilégio da sua presença e do seu saber. Um saber que se quer comparativo, critico e analítico – três componentes essenciais para a validação de qualquer conhecimento – e por isso também daquele que se pretende que venha a sustentar o projecto Vila do Conde: um porto para o Mundo.»
O livro contém um conjunto de temas divididos em três partes distintas: Na primeira parte relacionada com a «Construção Naval, Politicas Régias e Empreendedorismo Local», os textos são assinados por Liliana Oliveira, Amélia Polónia, António do Carmo Reis, António José Carmo, e José Nunez.
Na segunda parte do livro sobre a «Construção Naval, Agentes e Comunidades», os textos são da autoria de Carlos Valentim, Amândio Barros, e Sílvio Rodrigues. Já os últimos textos sobre a «Construção Naval, Patrimónios», os assuntos tratados são da autoria de Carlos Carvalho, António Costa Canas e Cristina Giesteira.
Com os habituais agradecimentos pela presença de todos os convidados, a presidente da edilidade vilacondense deu por encerrada a cerimónia, lembrando que está viva a vontade de ver ultrapassada a demora do governo, para agilizar este projecto da maior importância para a cidade.

sábado, 19 de maio de 2018

Divulgação!


Evocação do Dia Europeu do Mar de 2018


terça-feira, 15 de maio de 2018

Navio francês "Le Marité”


O último veleiro de madeira francês da pesca na Terra Nova

Imagem do "Le Marité", retirada da página oficial do navio

Este navio foi fortuitamente encontrado em 1922 pelo armador Charles Le Borgne, já parcialmente construído, num estaleiro de Fécamp, concebido de acordo com a legislação de 1920, para aumentar a frota francesa da pesca do arenque.
Ainda em 1922, o navio permanece em estaleiro, e durante o período de um ano, recebe as transformações necessárias para armar em lugre-patacho, para futura operação na pesca do bacalhau na Terra Nova. No início navegava com uma equipagem composta por 24 tripulantes, que utilizavam uma dúzia de canoas na pesca. Partiu de Fécamp para a primeira campanha em 11 de Abril de 1924.
A cerimónia do bota-abaixo ocorreu durante o verão de 1923, devendo ter sido baptizado com o nome “Marie-Thérèse”, porém, como já existia um outro navio com este nome, a opção recaiu sobre o diminutivo “Marité”, que foi mantido ao longo dos anos, independentemente do facto de ter mudado várias vezes de proprietário.
Pode ser complementada esta informação através da página oficial do navio, no sítio www.lemarite.com

O "Le Marité" de visita ao Porto, atracado no cais de Gaia

Características do navio “Le Marité”
Construído em madeira, tem 3 mastros, arma em lugre-patacho
Construtor: Desconhecido, Fécamp, França, 1923
Peso total: 250 toneladas
Dimensões: Pp 44,90 mts - Boca 8,00 mts - Pontal 2,60 mts
Superfície velica: 16 velas - 650 m2
Propulsão: 1:Diesel - 450 Cv
Equipagem: 5 a 6 tripulantes - 74 passageiros

De visita à cidade do Porto, o navio esteve atracado no cais de Gaia, de 7 a 11 de Maio p.p., tendo chegado procedente de Alicante. Encontra-se a efectuar um cruzeiro de promoção patrocinado pela “Exotic Taste of Europe”. Continuou esta viagem com destino ao porto de Nantes.
O objectivo da escala no Porto, visou mostrar através de uma exposição fotográfica, produtos agrícolas menos conhecidos de regiões ou locais com proximidade ao centro da Europa.
Naturalmente, exibe também uma considerável quantidade de informação e imagens, do glorioso passado em que esteve ligado à pesca do bacalhau.

sábado, 12 de maio de 2018

História trágico-marítima (CCLIII)


O naufrágio do navio-motor “Sea Star”, no Cabo Raso

Salvos os sete tripulantes de um cargueiro dinamarquês
encalhado ao largo do Guincho
Pelas 12 horas e 30 minutos de ontem, encalhou nos rochedos, junto do farol do Cabo Raso, ao largo do Guincho, o cargueiro dinamarquês “Sea Star”, de 980 toneladas, que era aguardado no porto de Lisboa.
Trazendo um carregamento de peças de automóvel para serem montadas em Portugal, aquele navio era tripulado por sete marítimos, dois dos quais portugueses. Às 14 horas, estes homens já se encontravam em terra, sãos e salvos.
O alarme foi dado pelo chefe do farol do Cabo Raso, João Félix Francisco, tendo avançado brigadas de socorro, o barco salva-vidas de Paço de Arcos, e, por terra, pessoal e material do serviço de Socorros a Náufragos dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Foi, também, solicitado o auxílio do barco dos pilotos da barra.
Apesar do mar bravio, foi possível estabelecer um cabo de comunicação com o navio, processando-se a operação de salvamento dos tripulantes.
O “Sea Star” vinha de Bordéus com um comandante novo, escalando, habitualmente, os portos de Leixões, Lisboa e Setúbal. Com 59 metros de comprimento, foi construído em 1968 e está registado em Hundested, na Dinamarca. Vinha consignado à agência Orey Antunes, e, pela posição crítica em que ficou, considera-se perdido.
Os náufragos portugueses são: António Augusto Marques, de 37 anos, da Torreira; e Fernando Correia dos Santos, de 32 anos, de Aveiro.
(In jornal “Comércio do Porto”, 27 de Dezembro de 1972)

Imagem do navio encalhado, publicada no referido jornal

Características do navio-motor “Sea Star”
Armador: Starcoast K/S, Hundested, Dinamarca
Construtor: Oberwinter Ship Works, Oberwinter, Alemanha, 1968
Arqueação: Tab 400,00 tons
Dimensões: Pp 59,30 mts - Boca 10,80 mts
Propulsão: 1:Di - 12 m/h
Equipagem: 7 tripulantes

O sinistro no farol do Cabo Raso
Agravou-se a situação do cargueiro dinamarquês – Só esta
tarde deve ser bombado para terra o combustível do navio
Orientadas pela Comissão de Defesa contra a Poluição Marítima do Ministério da Marinha, foram iniciados, ontem, as operações com vista a bombear 30 toneladas de gasóleo do cargueiro dinamarquês “Sea Star”, de 399 toneladas, encalhado junto ao farol do Cabo Raso, como foi ontem noticiado.
A situação do navio piorou, na medida em que avançou bastante para terra e estabilizou de tal maneira, sobre os rochedos, que, no entender dos técnicos, a sua recuperação é impossível. Com a maré baixa, quase se torna viável uma visita, a pé, ao navio encalhado.
Entretanto, as reservas de combustível do “Sea Star” tornaram-se altamente perigosas para os lagosteiros vizinhos, aliás já atingidos pelo óleo derramado pelo navio. Se não fôr possível retirar o gasóleo armazenado nos tanques, aquela zona da costa portuguesa – que alimenta em mariscos uma série de conhecidos restaurantes numa das mais intensas zonas turísticas do País – ficará de tal modo poluída que condenará a existência de viveiros por largos anos.
As operações para a bombagem tiveram início ontem de manhã, com o auxílio de um helicóptero da Força Aérea e dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Dois elementos desta Corporação foram colocados a bordo do “Sea Star”, por aquele aparelho, permitindo assim a remontagem de um cabo de vai-vem e a ligação de mangueiras a um tanque da Sonap. Técnicos da Gazlimpo tem colaborado na tentativa. Porém, surgiu um grave problema: os depósitos de combustível encontram-se sob a carga transportada pelo navio, sendo quase certo terem de recorrer ao processo de ar comprimido para fazerem a bombagem.
Estas operações foram interrompidas ao cair da noite, por falta de algum material julgado necessário, esperando-se que recomecem ao princípio da tarde de hoje.
A empresa à qual o navio vinha consignado, Orey Antunes, informou, ontem à noite, que, logo que o tempo melhore, irá ser feita nova tentativa – aliás sem esperanças – para salvar o navio. Depois, o problema pertence às companhias seguradoras, que decidirão, inclusivamente, sobre o destino a dar à carga que puder ser recuperada.
Uma boa parte do carregamento era constituído por peças para as linhas de montagem dos automóveis «Peugeot» em Portugal.
Os tripulantes – 5 dinamarqueses e dois portugueses da região de Aveiro, que ontem foram identificados – encontram-se hospedados num hotel de Lisboa, até ao cumprimento das formalidades legais. Depois tratarão da sua vida.
(In jornal “Comércio do Porto”, 28 de Dezembro de 1972)

Começou a ser retirado o gasóleo do “Sea Star”
Adernado sobre bombordo, quase «encostado» à costa, o cargueiro dinamarquês “Sea Star” agoniza junto ao farol do Cabo Raso, preso de morte nos rochedos onde encalhou.
A iniciativa da Comissão de Defesa contra a Poluição Marítima, no sentido de retirar o combustível dos depósitos existentes no navio, começou, ontem, a dar os seus frutos, mas já era tarde pois uma ruptura num dos depósitos fizera derramar muito gasóleo.
Como último recurso, foi espalhado um detergente antitóxico para minorar os estragos nos viveiros de lagostas vizinhos. Agora, o maior perigo para estes reside na destruição do navio, que segundo os entendidos, não resistirá muito mais tempo à violência das ondas.
Entretanto, na Capitania do porto de Cascais, prestaram, ontem, declarações o maquinista e o 1º oficial do “Sea Star”, no auto de averiguações acerca do encalhe.
(In jornal “Comércio do Porto”, 29 de Dezembro de 1972)