terça-feira, 25 de setembro de 2018

Construção naval


O lançamento à água da canhoneira "Beira"
Iic: G.Q.H.B. - Deslocamento: 405 tons - 700 Bhp - 2 bocas de fogo

Imagem da canhoneira "Beira"
Desenho de Luís Filipe Silva

Lisboa, 8 de Junho – No Arsenal de Marinha realizou-se esta tarde a cerimónia do lançamento ao rio da canhoneira “Beira”.
O administrador do Arsenal, contra-almirante Sr. Magalhães da Silva, que tinha à direita o major-general da Armada, Sr. José Cesário da Silva e à esquerda o capitão-tenente, Sr. Silveira Moreno, ajudante do Sr. Ministro da Marinha, depois de retirado o macaco hidráulico, empurrou o navio, que, levando a bordo o patrão-mor e o guarda-marinha, Sr. António Venâncio, dois sargentos e os homens do troço, foi amarrar em frente do Arsenal.
Assistiram à cerimônia o diretor da Escola Naval, o contra-almirante Sr. Augusto Botto, os capitães de mar-e-guerra, Srs. Vieira de Sá e Nandim de Carvalho, capitão-de-fragata Sr. Júlio Teles, capitão-tenente Sr. Pacheco Moreira, 1ºs tenentes, Srs. Cardoso Pereira, Montalvão, Bastos, Seixas, Bicker, etc.
Não assistiu, como se esperava, o Sr. Ministro da Marinha.
Assistiram ao lançamento da canhoneira mais de 500 pessoas.
(Jornal "Comércio do Porto", Quinta-feira, 9 de Junho de 1910)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXIV)


O naufrágio do paquete “Lusitânia”

Lisboa, 19 de Abril – No Cabo da Boa Esperança encalhou hoje o paquete “Lusitânia”, da Empresa Nacional de Navegação, ficando completamente perdido. Passageiros e tripulação foram salvos.

Imagem do paquete "Lusitânia"
Bilhete postal da companhia armadora do navio

Lisboa, 19 de Abril – Hoje, de manhã, na Empresa Nacional de Navegação, foram recebidos alguns telegramas, assim como no ministério dos Estrangeiros, dando conta que o paquete “Lusitânia” pertencente à Empresa Nacional de Navegação, ao passar no Cabo da Boa Esperança, encalhara, ficando logo completamente perdido, salvando-se, a custo, toda a tripulação e passageiros. Um outro telegrama acrescentava que havia falecido uma passageira.
Esta última informação não é desmentida nem confirmada na Empresa a que pertence o navio, e que ainda não há muito tempo perdeu um outro dos seus melhores paquetes, o “Lisboa”. Esse mesmo telegrama refere que um cruzador inglês, informado do sinistro, partiu imediatamente com o fim de prestar socorros. O desastre deu-se às dez horas da manhã de hoje e, segundo outras informações recebidas ao começo da tarde, perdeu-se a carga na sua totalidade.
O “Lusitânia”, era actualmente o mais importante paquete da Empresa. Foi construído em 1906, na Alemanha, e custou 104.000 libras. Tinha 32 lugares de 1ª classe para 104 passageiros; 58 de 2ª para 172 passageiros e 14 de 3ª para 140. Possuía duas enfermarias, quatro beliches e boticas.
As suas carreiras eram para a África Oriental, vindo agora de Lourenço Marques com 874 pessoas, entre passageiros e tripulação. A oficialidade de bordo compunha-se do capitão, César José Faria; imediato, Joaquim Fernandes de Oliveira; 1º piloto, Duarte Alfredo Bacia; 2º piloto, Ramos de Almeida Lopes; e 3º piloto José Bernardo Camelo; médico, Júlio Proença Fortes; 1º engenheiro, Robert Ireland; 2º engenheiro, Jacinto Martins e 3º engenheiro, José L. dos Santos.
O “Lusitânia” devia chegar a Lisboa no dia 11 de Maio próximo.
Como é de prever, a notícia deste lamentável desastre tem causado grande consternação em Lisboa.
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Londres, 19 de Abril – Um telegrama da Cidade do Cabo, recebido pelo Lloyds, diz que o paquete português “Lusitânea”, em viagem de Moçambique para Lisboa, encalhou em Betlows Rock e julga-se estar totalmente perdido.
O cruzador “Forte” e um rebocador do governo saíram para o socorrer.
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Londres, 19 de Abril – Um telegrama de Simonstown para o almirantado diz que tanto os passageiros como a tripulação do “Lusitânia”, em número de cerca de 800 pessoas, foram recolhidos a bordo do cruzador “Forte” e do rebocador “Scotsman”.
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Londres, 19 de Abril – Telegrafaram da Cidade do Cabo à Agência Reuter, que o “Lusitânia” naufragou por causa do nevoeiro, pois o mar estava sossegado.
O rebocador “Scotsman” levou muitos passageiros para Simon’s Bay. Os outros vão por terra, em vagões e carros; 400 foram levados a Table Bay, a bordo do cruzador “Forte”. Morreu afogada uma senhora e falta um rapaz. A lancha do “Lusitânia” voltou-se em frente da praia, afogando-se duas pessoas.
Os porões nºs 1 e 2 estão cheios de água.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 20 de Abril de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Lisboa, 20 de Abril – Sabe-se que 400 náufragos do vapor “Lusitânia” desembarcaram em Simon’s Bay, chegando já à Cidade do Cabo trinta e oito dos que mais sofreram. Está confirmado ter morrido uma mulher, um homem e ainda um terceiro, chamado Raúl Lopes. No desembarque, as mulheres queixavam-se de frio, pois quase iam desprovidas de roupa. Muitos passageiros apresentavam-se apenas meio cobertos com cobertores.
Quando o “Lusitânia” encalhou, ficou preso nos rochedos, de contrário teria soçobrado rapidamente, morrendo todos.
O cônsul português no Cabo da Boa Esperança telegrafou ao governo, dizendo que o almirante da esquadra de Simon’s Bay, em seguida ao naufrágio, providenciou ao salvamento da tripulação e passageiros.
Duzentos passageiros e a tripulação seguem para Lisboa no primeiro vapor inglês que chegar à Cidade do Cabo.
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Lisboa, 20 de Abril – O último telegrama que a Empresa Nacional de Navegação recebeu esta tarde, do Cabo da Boa Esperança, diz que o paquete “Lusitânia”, está completamente perdido. Tripulantes e passageiros foram salvos, à excepção de madame Carvalho Nunes, soldado Souza Rosa, piloto Raúl de Almeida Lopes e um passageiro de nome Mendes. Uma parte da carga foi salva.
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Lisboa, 20 de Abril – Chama-se Madalena Pedroso a mulher que morreu vitima do naufrágio do vapor “Lusitânia”.
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Londres, 20 de Abril – Telegrafaram da Cidade do Cabo para a Agência Reuter a informar que o capitão César Faria, do “Lusitânia”, se recusou a abandonar o vapor. Tendo sido infrutíferos os meios de persuasão empregados, o comandante do cruzador inglês “Forte”, dirigiu-se num escaler para bordo do “Lusitânia” e obrigou o capitão Faria a sair.
Este, então, pôs a bandeira a meia haste, deixando o “Lusitânia” com relutância, tendo sido conduzido para bordo do cruzador “Forte”.
As malas do “Lusitânia”, bem como outras coisas aparentemente perdidas, foram salvas pelo “Forte”.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 21 de Abril de 1911)

Os náufragos do “Lusitânia”
Londres, 21 de Abril – Comunicam da Cidade do Cabo à Agência Reuter que os passageiros e a tripulação do “Lusitânia” partirão, provavelmente, no dia 24, a bordo do vapor inglês “Comrie Castle”, à excepção dos 475 indígenas, que partem para S. Tomé na próxima semana. (Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 22 de Abril de 1911)

O vapor “Lusitânia”
Lisboa, 22 de Abril – Na Empresa Nacional de Navegação foi hoje recebido um telegrama dizendo que soçobrara de todo o paquete “Lusitânia”, que será substituído pelo novo paquete “Beira”, adquirido em Hamburgo e que deve chegar ao Tejo no próximo dia 9 de Maio.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 23 de Abril de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Londres, 24 de Abril - Telegrafaram da Cidade do Cabo para a Agência Reuter informando que foi arrojado à praia, na margem de Falsebay, um cadáver do “Lusitânia”, tendo sido já identificado como sendo o de madame Carvalho Nunes.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Abril de 1911)

Náufragos do vapor “Lusitânia”
Lisboa, 9 de Maio – Chegaram hoje à Madeira, a bordo do vapor “Corfe Castle”, os primeiros náufragos do paquete “Lusitânia”. São 18 passageiros de 1ª classe e 10 de segunda. Entre os primeiros figura, com destino a essa cidade, o sr. dr. Arnaldo Dinis da Silva Viana, conservador na Beira, África Oriental. Os restantes embarcaram já na Cidade do Cabo, a bordo do “Comrie Castle”.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 10 de Maio de 1911)

O naufrágio do “Lusitânia”
Lisboa, 15 de Maio – Amanhã devem chegar a bordo do “Rio Negro” oito passageiros de 3ª classe, náufragos do “Lusitânia”, procedentes do Funchal. Os passageiros de 2ª classe ainda aí se encontram, devido à negligência da empresa, tendo sido a este respeito pedidas providências ao governador civil.
A direcção da Liga dos Oficiais da Marinha Mercante reuniu esta noite para protestar contra o artigo publicado pelo “Século”, acerca do naufrágio do paquete “Lusitânia”, artigo que produziu indignação entre a classe, porquanto o comandante Faria goza da melhor reputação entre os colegas. Brevemente será publicado o protesto.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 16 de Maio de 1911)

sábado, 22 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXIII)


O naufrágio do paquete “Lisboa”
1910 - 1910

Lisboa, 24 de Outubro – Encalhou, ontem, na enseada do norte do Cabo da Boa Esperança o paquete “Lisboa”, da Empresa Nacional de Navegação, do comando do capitão sr. Meneses, tido como um dos melhores oficiais na marinha mercante de Lisboa. A notícia deste sinistro correu por toda a cidade, afluindo centenas de pessoas ao escritório daquela Empresa, visto que o paquete saíra em 1 do corrente do Tejo com grande número de passageiros e um importante carregamento. Corriam boatos terroristas.
O telegrama dali recebido dizia que o encalhe produzira tal rombo, que o paquete corria risco de ir a pique por todo o dia.
Era a segunda viagem que o paquete fazia, sendo o melhor navio da Empresa Nacional de Navegação. Morreram três indivíduos que se não sabe se eram tripulantes ou passageiros. É considerado perdido.
O navio tinha custado aproximadamente 130.000 libras. Estava seguro em 80.000. Partiram para o local do sinistro os agentes do Lloyds.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Outubro de 1910)

Imagem do paquete "Lisboa" na Ilustração Porutuguesa,
Nº 227 de 27 de Junho de 1910, com a seguinte legenda:
O vapor "Lisboa"
O paquete "Lisboa", da Empresa Nacional de Navegação, que chegou ao Tejo em 18 de Junho, atracando ao cais da Fundição, tem 130 metros de comprimento, desloca 7.200 toneladas e pode comportar 3.000 de carga. É seu comandante o sr. Baltasar de Meneses.

O naufrágio do vapor “Lisboa”
Cidade do Cabo, 25 de Outubro – Morreram os seguintes indivíduos: o engenheiro Brown, os criados Azevedo Ferreira e Lúcio, os sargentos Nascimento e Braz e o passageiro Lambert.
A comunicação entre o local do sinistro do vapor “Lisboa” e este porto é muito má. Não se pode comunicar com o comandante.
Os passageiros são aqui esperados amanhã e seguirão no primeiro vapor. A tripulação seguirá para Lisboa.
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Cidade do Cabo, 25 de Outubro – As vitimas do naufrágio são o 1º engenheiro Brown, o 3º engenheiro Maclalon, os sargentos Nascimento e Braz, os criados Ferreira e Lúcio e os passageiro Lambert.
O sr. Finsel, vice-cônsul inglês em Lobito, que era passageiro do “Lisboa”, disse ao correspondente da Agência Reuter, que o navio encontrara ao principio fortes ventos, mas que depois o tempo abrandara e não havia nevoeiro.
Durante o trajecto o “Lisboa”, bateu no rochedo, às dez horas e 45 minutos da noite de Domingo. O choque foi forte, produzindo grande alarme nas mulheres e nas crianças, mas não houve pânico. Só apenas alguma confusão, no momento em que os passageiros desciam para as lanchas. Estas ficaram perto do navio até à aurora, que foi quando se chegou à costa, sem dificuldade.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 27 de Outubro de 1910)

O vapor “Lisboa”
Lisboa, 27 de Outubro – A Empresa Nacional de Navegação recebeu hoje da Cidade do Cabo um telegrama, confirmando as notícias já conhecidas sobre os mortos do naufrágio do paquete “Lisboa”, acrescentando não haver notícias do comandante pela má comunicação entre aquele porto e o local do sinistro e que os passageiros eram ali esperados amanhã, seguindo viagem no primeiro vapor, regressando a tripulação a Lisboa. Os prejuízos do vapor são totais.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 28 de Outubro de 1910)

O naufrágio do “Lisboa”
Cidade do Cabo, 27 de Outubro – Chegou aqui o vapor “Burton Port”, com os passageiros do vapor português “Lisboa”.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 29 de Outubro de 1910)

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Acredite, se quiser!


Fait divers

Até que ponto a aproximação de um cometa à terra pode, ou não, influenciar o comportamento das pessoas?
Esta é, à partida, uma questão de difícil e complicada resposta, porém, face aos acontecimentos, fica no ar a ideia de existir algo, que o bom senso não consegue explicar. Senão vejamos:

O cometa Halley

Face à aproximação do cometa Halley ao nosso planeta, em meados de 1910, sendo visível em vários pontos o seu rasto longo e luminoso, que encantou uns e assustou outros, mais abaixo o impensável ia acontecendo!

Com origem no Rio de Janeiro, chegou uma notícia desde Toulon, que informava ter sido roubado o cofre do navio-escola “Benjamim Constant”, quando este se encontrava atracado num cais do porto de La Seyne-sur-Mer, em França, em reparação prolongada. Tratava-se do cofre forte do navio, onde o comandante guardava todos os documentos, e a simpática quantia de 172 mil francos franceses.

Logo que o roubo foi conhecido, de imediato tiveram início as compreensíveis diligências policiais, para tentarem identificar os autores de tão audaciosa proeza. Feitas as necessárias pesquisas, não ficou qualquer indício dos criminosos, mas pelo menos o cofre forte foi encontrado, naturalmente afundado em La Seyne, muito próximo do ancoradouro do navio.
Pelo que foi possível apurar, os ladrões foram para bordo do navio brasileiro num pequeno barco, para o qual desceram o cofre, que continha além da soma já indicada, mais documentação substancialmente importante e algumas joias de um oficial recentemente falecido.
A polícia francesa que colaborou activamente nas buscas, para dar solução a este estranho caso, está convencida, por falta de melhor evidência, que o roubo do cofre do “Benjamim Constant”, partiu de pessoas de bordo.

Entretanto, de Londres chega a notícia que várias companhias firmaram contratos com o governo português, para a construção de três couraçados do tipo “Dreadnought”, dez caça-torpedeiros e dez submarinos, e que os orçamentos estavam aprovados, sendo o prazo para a construção de vinte e oito meses, a contar do mês de Junho.
Houve naturalmente a preocupação de verificar a data da notícia, não fosse brincadeira do primeiro de Abril, mas não era, e se não fosse para levar a sério, passaríamos a ter uma marinha muito bem equipada, e as finanças do país em total bancarrota.

Quadro com a figura do conselheiro Azevedo Coutinho
Imagem do sítio da Sociedade de Geografia de Lisboa

Ainda na mesma época, o Almirante João de Azevedo Coutinho, distinto oficial com uma longa e meritória carreira militar, entre outros serviços prestados ao país, deslocou-se de propósito a Matosinhos, para o lançamento da primeira pedra, no local onde posteriormente funcionou a Escola de Alunos Marinheiros, depois de despojados de instalações, devido ao triste e infeliz naufrágio da canhoneira “Estephânia”, na cheia do rio Douro, em Dezembro de 1909.
No regresso a Lisboa, à noite, na viagem do comboio rápido de ligação entre ambas as cidades, por altura do Entroncamento, estando no salão-restaurante, encontrou o sr. Marquês de Gouveia, irmão do sr. D. Fernando de Serpa, a quem muito delicadamente estendeu a mão para o cumprimentar.
Como aquele titular lhe não correspondesse, o sr. conselheiro Azevedo Coutinho, recusando-se a levar o desaforo para casa, assestou-lhe um valente soco, que o sr. Marquês fez questão de retribuir. Obviamente, intervieram na contenda vários passageiros, o secretário e ajudante do sr. Ministro, que por vias de facto, acabou com uma escoriação no rosto.
Posto isto, a culpa não será mesmo do cometa?

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Na era dos gigantes!


Um colosso do mar – o navio “Britannic”

Desenho postal do navio em www.learning-history.com

Sepultado o “Titanic” nas profundezas do oceano, a White Star Line, a que pertencia aquele sumptuoso navio, activa a construção de outro paquete de maiores dimensões, que se intitulará “Gigantic”. Nunca o esforço humano chegou a culminâncias tais na construção naval.
Refere o jornal «Boston American» que o comprimento do novo transatlântico medirá mil pés ou sejam 305 metros, comportando comodamente 4.000 passageiros e 1.000 tripulantes.
Conterá jardins e passeios, teatros de opera, comédia e variedades, cafés, restaurantes, estabelecimentos de comércio e indústria, postos telegráficos e telefónicos, ascensores, etc.
Supondo o navio em direcção vertical, a sua altura seria mais elevada que a do edifício maior do mundo! O seu calado impossibilitá-lo-á de dar ingresso nos portos, pensando-se dotar o de Nova-York de maior profundidade, para o que serão feitas as necessárias dragagens.
Serão estabelecidos a bordo grandes recintos para os jogos de golfe, futebol, cricket, basquetebol, piscinas com capacidade maior que as existentes nas mais populosas capitais europeias e americanas. Porém, o que produzirá verdadeiro assombro, será um aeródromo situado na coberta, onde poderão voar livremente aeroplanos, estabelecendo-se assim comunicações entre o colossal paquete e a costa.
Com respeito ao tipo das máquinas nada está ainda decidido, supondo-se que será empregada uma combinação de turbina e máquina alternativa, que é a forma de propulsão mais económica, sendo fácil que o combustível liquido, o petróleo, substitua o carvão à semelhança do usado já em alguns navios de guerra.
Haverá ainda a bordo um grande diário, que publicará notícias transmitidas de todo o mundo, contendo ainda na coberta um comboio para recreio dos passageiros.
O custo do transatlântico ascenderá a doze mil contos de reis.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 12 de Maio de 1912)

Desenho sobre o naufrágio da autoria de Ken Marshall
Wikipedia

Na realidade, as melhores previsões apontavam no sentido de vir a existir um navio com tanta opulência para a época, tanto mais que já estava em construção desde Novembro de 1911, data que corresponde ao batimento da quilha.
Porém, porque era simultaneamente impensável construir um paquete com as dimensões anunciadas, sem a comparticipação do Estado, e sabendo-se estar obviamente sujeito a ser requisitado pela marinha britânica, até porque a construção decorre durante os anos da Iª Grande Guerra, o “Gigantic” teve alteradas as características previamente imaginadas, sendo por esses motivos equipado e preparado para navegar como navio-hospital.
Terminada a construção nos estaleiros Harland & Wolff, de Belfast, em 12 de Dezembro de 1915, o navio era baptizado com o nome “Britannic”, apresentava umas notáveis 48.158 toneladas de arqueação bruta, 269,06 metros de comprimento, 28,70 metros de boca, sendo propulsionado por 2 hélices acopladas a duas turbinas a vapor, que lhe asseguravam em média cerca de 21 nós de velocidade.
Terminadas as provas de mar em inícios de 1916, o almirantado britânico mandou o navio viajar para o Mediterrâneo, para que fosse garantida a necessária assistência às tropas em conflito nessa área. No dia 21 de Novembro de 1916, o maior de todos os navios ingleses, em pleno mar Egeu, durante a viagem que o levaria a Modros, chocou com uma mina, seguindo-se o afundamento num curto espaço de tempo, resultando do naufrágio 21 vitimas mortais.
O que há de curioso nesta ocorrência, prende-se ao facto do campo de minas por onde o navio se deslocava, ter sido plantado por um submarino alemão, apenas uma hora antes do trágico sinistro.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

História trágico-marítina (CCLXXII)


O encalhe do cruzador "Adamastor", na China

O cruzador “Adamastor”
A má sorte persegue a Marinha de Guerra Portuguesa, já tão minguada de navios! O ano passado, o naufrágio do “S. Rafael”, o encalhe do “Almirante Reis” nos «Cavalos de Fão», e agora recebe-se a notícia de haver batido nuns rochedos, no mar da China, o “Adamastor”!
Este vaso não vale apenas para nós como uma unidade da nossa Marinha de Guerra: vale também como um sinal do despertar da alma nacional, profundamente ferida pelo ultimatum de 1890. Efectivamente, o “Adamastor” foi adquirido com o produto da grande subscrição nacional aberta num memorável e doloroso momento da nossa História contemporânea.
O cruzador “Adamastor” foi construído na Itália, pela casa Fratelli Orlando, e distingue-se principalmente pela sua velocidade, pela sua facilidade de manobra e pelas suas qualidades para resistir à perseguição inimiga. É um navio próprio para viajar às nossas colónias, em qualquer momento critico, e com a sua lotação relativamente avultada, e que em muitos casos poderia ainda aumentar, auxiliando a guarnição e defesa do litoral.
O “Adamastor”, de que foi primeiro comandante o conselheiro Ferreira do Amaral, mede 76,41 metros de quilha, 10,63 metros de boca; o pontal à linha de água carregado é compreendido entre 4,70 a 5 metros, segundo o navio se considere com ou sem carvão de reserva. Os motores, aparelhos acessórios, geradores de vapor e as duas hélices eram dos melhores, quando o “Adamastor” foi construído.
O armamento do “Adamastor” consta de duas peças 15/30 calibres Krupp; quatro peças de 10 5/40 tiro de rápido Hotkiss; quatro peças de 0,65 /16 de tiro rápido Hotkiss; duas peças 0,037/42 de tiro Hotkiss; duas metralhadoras Nordenfeld de 0,006; 120 espingardas Meneliker; 40 revolveres Abbadie; três tubos lança torpedos; e seis torpedos Whitehead. As munições estão dispostas em três paióis.
Os elementos militares de maior importância no “Adamastor”, são:
1º - A velocidade que, num golpe de fogo, pode atingir 18 milhas durante algumas horas, permite-lhe, em muitas circunstancias, escapar à perseguição de navio mais bem armado.
2º - Um raio de acção que excede 8.000 milhas, o que lhe permite realizar longos cruzeiros sem ter de recorrer às estações de carvão.
3º - Os compartimentos estanques repetidos, que lhe permitem isolar e restringir as avarias causadas pelo fogo do inimigo, sendo esta a base teórica da sua defesa.
4º - Facilidade de evoluções derivadas da enorme porta do seu leme compensado e da distância relativamente considerável das hélices ao seu plano médio longitudinal.
5º - Notável desempachamento da sua bateria e instalação engenhosamente simples dos seus tubos lança torpedos laterais, que lhe permitem uma fácil manobra da bateria e a essencial instalação de parques de aprisionamentos correspondentes à ligeireza do tiro.
Da tripulação do “Adamastor” fazem parte o 2º tenente sr. Henrique Owen Pinto, natural do Porto, filho do benquisto juiz do Supremo Tribunal de Justiça, sr. conselheiro Henrique Pinto; e o guarda-marinha sr. Sebastião das Neves Silva Monteiro, filho do falecido general desta divisão, sr. José Joaquim da Silva Monteiro.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 12 de Maio de 1913)

Notícia publicada na revista Ilustração Portuguesa
Nº378 de 19 de Maio de 1913

O “Adamastor” em perigo
Lisboa, 12 – No Ministério da Marinha foram recebidos hoje os seguintes telegramas:
- Do Governador de Macau:
«Informações que recebi do comodoro inglês e cônsul de Hong-Kong, o “Adamastor” encalhou na passagem entre as ilhas Lautan, Chung Chan, Conhua, sendo a sua situação perigosa. A água invade os compartimentos de vante e as máquinas. Não há perda de vidas. A maior parte da tripulação passou para bordo da “Pátria”, tentando estancar a água o rebocador das docas de Hong-Kong. Fiz seguir embarcações para receberem a artilharia e bagagens. O comodoro inglês mandou o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas”.
O governador telegrafou agradecendo o auxílio prestado.
- Do comandante do “Adamastor”:
«O navio encalhou nas pedras do canal, entre as ilhas Chung. Não há nenhum desastre pessoal. Julgo ser possível salvar o navio com recursos de Hong-Kong. O comodoro inglês enviou navios auxiliares para salvamento. A canhoneira “Pátria” está também fundeada junto do navio. Está desembarcando todo o material, ficando o pessoal necessário a bordo. Há facilidade no salvamento.
Do mesmo comandante:
«Continuo o trabalho de safar o navio, esperando bom resultado».

Lisboa, 12 – O comandante do “Adamastor” é o capitão de fragata sr. Aníbal de Sousa Dias, tendo como imediato o 1º tenente sr. Procópio de Freitas. Os restantes oficiais são os srs. 1º tenente Carlos Coutinho e Almeida Couceiro, 2ºs tenentes Botelheiro e Owen Pinto, guardas-marinha Barbosa Carmona, Junqueira Rato, Cunha Gomes, Pires da Rocha, Silva Monteiro, Vitor Serra, Pereira da Fonseca, Azeredo de Vasconcelos, Baeta Neves, e Adolfo Trindade, médico o dr. Emídio Pires, maquinistas, 1º tenentes João Carlos Costa, 2º tenente Adolfo Alcobia; e guardas-marinha Soares Mesquita, Pereira Bastos, Boaventura Real e Dias Silva; do serviço de administração naval 2º tenente Guilherme Rodrigues e guarda-marinha Abel Costa Lázaro.

Lisboa, 12 - Produziu geral impressão o encalhe sucedido com o cruzador “Adamastor”. Numerosas pessoas tem ido ao Arsenal de Marinha, quartel de marinheiros e ministério da Marinha, pedir informações acerca do caso.

Londres,12 – Telegrafaram ontem, de Hong-Kong, à agência Reuter, dizendo que o cruzador “Adamastor”, no seu regresso a Portugal, vindo de Macau, enviou ontem à noite, pela telegrafia sem fio, um despacho referindo que o navio tinha batido num rochedo perto da ilha de Duwebell, tendo ficado seriamente avariado, pelo que pediu socorro urgente. As autoridades navais enviaram-lhe o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas”.
A canhoneira “Pátria”, partiu também para o local do sinistro. À meia-noite foi, pelo cônsul Leiria, enviado também um rebocador e aparelhos de salvação. Àquela hora não havia perda de vidas.

Londres, 12 – Um telegrama de Hong-Kong para a agência Reuter refere que o contra-torpedeiro “Otter” e o rebocador “Atlas” voltaram já ao local onde se deu o sinistro relatado no despacho anterior, e que o “Adamastor” ficou seriamente avariado, tendo a tripulação e as munições que conduzia sido transbordadas para a canhoneira “Pátria”. O rebocador partiu novamente para o local do sinistro, com novos aparelhos de salvação, levando a bordo um comodoro. Também parte para lá o chefe da marinha de Hong-Kong, a bordo do “Otter”.

Londres, 12 – Telegrafaram de Hong-Kong à agência Reuter, dizendo, às cinco horas da tarde de ontem, terem partido para Macau três juncos com parte da tripulação do “Adamastor”; que a descarga continua, as bombas funcionam bem e há esperanças de salvar o navio.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 12 de Maio de 1913)

O cruzador “Adamastor”
Lisboa, 13 – Numerosas pessoas foram hoje ao quartel dos marinheiros, ministério e Arsenal de Marinha, saberem com ansiedade informações referentes ao encalhe do cruzador “Adamastor”. Para Macau têm sido expedidos muitos telegramas de pessoas de famílias dos oficiais, também pedindo informações.

Lisboa, 13 – Em vista do desastre agora sofrido pelo cruzador “Adamastor” vai ser alterada a composição da divisão naval de instrução, que deve largar para o mar em Julho próximo.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 13 de Maio de 1913)

O cruzador “Adamastor”
Lisboa, 17 – Reuniu hoje extraordinariamente, o conselho superior de higiene, para consulta sobre o tratamento sanitário a aplicar ao cruzador “Adamastor”, que amanhã chega do Extremo Oriente, onde se manifestaram a bordo alguns casos suspeitos de cólera. Aquele tratamento está dependente da visita de saúde, que se realizará, quando o “Adamastor entrar a barra.

Lisboa, 17 – O comandante do cruzador “Adamastor” enviou hoje um radiograma ao sr. Ministro da Marinha, por via Cadiz, dizendo continuar a viagem sem novidade, devendo estar antes do meio-dia de amanhã, no seu fundeadouro no Tejo, solicitando que à chegada sejam concedidas todas as facilidades sanitárias.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 18 de Outubro de 1913)

domingo, 16 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXI)


O naufrágio do iate “Cysne”, na praia de S. Jacinto

Sinistro marítimo
Foi recebida comunicação de ter naufragado no dia 23 do corrente, na praia de S. Jacinto, em Aveiro, o iate “Cysne”, que no último Domingo passara à vista da barra do Porto, já um tanto desmantelado pelo forte temporal.
Anúncio anterior ao sinistro, quando de viagem para Lisboa

Características do iate “Cysne”
Armador: Francisco Estevão Soares, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.D.R. - Porto de matrícula: Porto
Construtor: Custódio Martins de Araújo, V. Conde, Dezembro de 1899
Arqueação: Tab 114,83 tons - Tal 109,09 tons
Dimensões: Informação indisponível
Propulsão: À vela
Equipagem: 7 tripulantes

O iate “Cysne” que tem estado consignado à firma Artur José Rebelo de Lima, tinha saído do rio Douro no dia 18 do corrente, com destino a Portimão, levando um carregamento de madeiras. O iate desfez-se na praia, tendo-se salvo a tripulação, composta de sete homens.
Têm procedido ao salvamento de parte da carga e aprestos de bordo.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 28 de Fevereiro de 1914)