sábado, 22 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXIV)


O incêndio a bordo do vapor Haytor, no rio Douro

Pouco depois das 4 horas da tarde manifestou-se incêndio a bordo do navio inglês “Haytor”, fundeado junto da margem esquerda do Douro, defronte do lugar do Cavaco.
O vapor, que entrara no dia 28 do corrente, procedente de Catania, com carregamento de enxofre consignado à firma J.T. da Costa Basto & Cª., estava à descarga quando se deu o incêndio, originado por faúlhas saídas das caldeiras da máquina motriz.

Desenho sem correspondência ao texto

Características do vapor “Haytor”
Nº Oficial: N/a - Iic: P.S.H.V. - Porto de registo: Londres
Armador: Earnmount Sailing Co., Ltd., Londres
Operador: R. Ferguson & Co., Ltd., Londres
Construtor: William Hamilton & Co., Port Glasgow, 07.1897
Arqueação Tab 1.989,00 tons - Tal 1.860,00 tons
Dimensões: Pp 81,38 mts - Boca 12,22 mts - Pontal 7,14 mts

A tripulação tentou apagar o fogo; como o não conseguiu, reclamou os socorros dos bombeiros, comparecendo ali os municipais e voluntários de Gaia e do Porto. Como se revelassem impotentes estes socorros para localizar o incêndio, os consignatários do vapor solicitaram a comparência dos bombeiros municipais do Porto, que não se fizeram esperar e que conduziram, numa barcaça, até junto do vapor, uma bomba, que trabalhou ali, atacando, com água do rio, o incêndio, que dentro em pouco era dado por extinto.
Não obstante o porão ter dois compartimentos apenas separados por um taipal de madeira (antepara), foi conseguido que o fogo não passasse de um para o outro lado.
Os trabalhos foram dirigidos pelo inspector dos incêndios, sr. Guilherme Fernandes. A carga do navio está segura em diversas companhias estrangeiras, muito embora não sendo de grande importância os prejuízos verificados.
Os bombeiros e material retiraram perto das 11 horas da noite. A bordo ficou de vigilância um bombeiro, por assim o haverem solicitado os consignatários do vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 29 de Março de 1899)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXIII)


O naufrágio da barca “Judith”

Ocorrência marítima
Foi recebida notícia de ter sofrido grossa avaria, em viagem do Maranhão para o Rio Grande do Sul, a barca “Judith”, pertencente aos srs. Glama & Marinho, da praça do Porto.
A barca considera-se perdida.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 28 de Março de 1899)

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Judith”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.B.N.R. - Porto de registo: Porto
Armador: Glama & Marinho, Lda., Porto
Construtor: José Fernandes Lapa, Azurara, 1884
ex “Lopes Duarte”, A. Lopes Duarte, Porto
Arqueação Tab 383,00 tons - Tal 322,35 tons
Dimensões: Pp 38,20 mts - Boca 7,40 mts - Pontal 3,60 mts
Propulsão: À vela
Naufrágio
Com respeito ao naufrágio da barca “Judith”, os proprietários do navio, srs. Glama & Marinho, apenas receberam um telegrama expedido do Pará pelo respectivo capitão, participando-lhes que a “Judith” fôra a pique, em viagem de Temonha (ou Timonha, estado do Ceará), para o Rio Grande do Sul.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 29 de Março de 1899)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXII)


O abalroamento entre os vapores "Daybreak" e "Science"

Desenho sem correspondência ao texto

Características do vapor inglês “Daybreak”
Nº Oficial: N/a - Iic: M.B.Q.F. - Porto de registo: West Hartlepool
Armador: J. Wood & Co., West Hartlepool
Construtor: Ropner & Son, Stockton-on-Tees, Fevereiro de 1891
Arqueação Tab 2.922,00 tons - Tal 1.904,00 tons
Dimensões: Pp 95,55 mts - Boca 12,34 mts - Pontal 6,15 mts
Propulsão: 1 motor de tripla expansão
Equipagem: 24 tripulantes
Características do vapor inglês “Science”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.V.S.T. - Porto de registo: Londres
Armador: Westcott & Laurence, Londres
Construtor: William Pile & Co., Sunderland, Março de 1868
Arqueação Tab 1.299,00 tons - Tal 810,00 tons
Dimensões: Pp 75,90 mts - Boca 9,17 mts - Pontal 5,26 mts
Propulsão: 1 motor compósito
Equipagem: 22 tripulantes

Abalroamento e naufrágio
Lisboa, 27 de Março - Cerca da 1 hora da madrugada de ontem, 8 milhas ao norte do Cabo de S, Vicente, o o vapor inglês “Daybreak” que ia de Brighton para Alexandria, com carvão de pedra, abalroou com o vapor inglês “Science”, cortando-o a meio e metendo-o a pique.
Os tripulantes do “Science”, em número de 22 foram salvos pelo “Daybreak”, ficando dois deles muito feridos. O “Science” levava trigo carregado em Odessa para Antuérpia.
O “Daybreak”, com uma equipagem de 24 homens, veio fundear na Cova da Piedade, precisando ser rebocado por haver sofrido avaria na proa.
Os capitães prestaram declarações sobre a causa do sinistro.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 28 de Março de 1899)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Leixões na rota do turismo! (1/2017)


O regresso dos navios de passageiros

No último fim de semana, registou-se o início das visitas dos navios de cruzeiro ao porto. Um pouco tarde para o habitual, porque o estado do tempo e mar levou ao cancelamento de algumas escalas.
Mesmo assim, a tendência de aumento do número de navios em Leixões é perfeitamente consistente com as perspectivas anunciadas pela Autoridade Portuária, significando também um aumento paralelo quanto ao número de turistas embarcados, bem como das respectivas tripulações que efectuam serviços a bordo.
Antecipamos que visitarão o porto diversos navios pela primeira vez, estando aberta a possibilidade de virem a ser realizados cruzeiros com viagens a ter início em Leixões, durante o ano de 2018.

Navio de passageiros "Oriana"
Chegou procedente do porto do Ferrol, tendo saído com destino a Cadiz.

Navio de passageiros "Le Soleal"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha.

Navio de passageiros "Marco Polo"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino a Avonmouth.

sábado, 15 de abril de 2017

Histórias do mar português!


A vida arriscada e operosa dos pilotos do Douro e Leixões
Texto de Afonso Passos

Trinta e quatro homens, escondidos na maior modéstia, realizam, dia a
dia, trabalho perigoso, de que colhe altos benefícios o Norte do País
Há mais de um século, Feminore Cooper, espírito brilhante que cultivou, com amor e ciência, o campo das letras, deu à estampa um livro com este singelo título: «O Piloto». Embora do género romance, a ideia que presidiu à confecção do livro foi, unicamente, a glorificação do piloto, objectivo conseguido em pleno porque o autor, com larga visão da vida e das coisas do mar, focou, com maestria, o carácter, a concentração e a audácia desses admiráveis marinheiros.
Maior teria sido a sua impressão, maior seria a emoção dos leitores, se Feminore Cooper nos oferecesse, no século em que vivemos, o descritivo, por-certo envolto em ricas roupagens literárias, da entrada e saída de navios na barra do Douro e, até, no porto de Leixões. Veria, com seus olhos perscrutadores e com seu espírito perspicaz, como na era da máquina, em que o progresso se avantaja, em que a Natureza parece dominada ao poder criador do homem, como uma vaga, apenas por mais alterosa, como um rio tranquilo, apenas por aumentar de corrente e volume, desafia a eficácia da mecânica, obstruindo-lhe o caminho, relegando-a para o lugar próprio.
E, nesta emergência, é ainda o homem – o piloto que Cooper glorificou – quem vai adiantar-se a certos poderes da terra, vencendo, pela sua inteligência, forças consideradas indómitas. Sabe que assim é quem já assistiu, em dias de mar bravio, ao trabalho dos pilotos nessa «garganta da morte», que é a barra do Douro. Os seus conhecimentos, a sua tenacidade e, quantas vezes, o seu heroísmo, são constantemente postos à prova, mostrando-nos, de forma eloquente, quão arriscada e operosa é a profissão do piloto.

Navio de carga holandês "Strabo" da K.N.S.M.
Fotografia de Alberto Teixeira da Costa, Foz do Douro

A barra do Douro oferece aspecto desolador
Movidos pela leitura de Cooper e pelo conhecimento directo que temos da vida do piloto, fomos, há dias, em busca de impressões até à Corporação dos Pilotos das Barras do Douro e Leixões, instalada num prédio do Passeio Alegre, frente ao mar. Da visita às instalações, que são modelares, das palavras que trocamos com alguns pilotos de serviço, ficou-nos impressão magnífica do importante papel que desempenham na navegação e do enorme contributo que oferecem à vida do comércio e da indústria.
Mas outro motivo nos levou até à Cantareira. Arriscarmo-nos, com o piloto, se possível fosse, até um dos navios que entram ou saem a barra, assistindo, para que a impressão fosse mais viva, aos trabalhos que demonstram a perícia e os riscos do piloto. Não pôde ser satisfeito o nosso desejo. A barra, antes da guerra sempre com movimento intenso de embarcações, oferece, agora, aspecto profundamente desolador.
Que vemos? Um barquito à vela, que regressa da faina da pesca, uma fragata que um rebocador leva para Leixões… Nada mais. Dos vapores de carga, não encontramos rasto nem fumo… Disseram-nos que, de quando em vez, aparece um pela barra… E o sol, esplendoroso e magnânimo, parecia abençoar os homens e as coisas! Os pilotos da barra – os «práticos», como lhe chamam os brasileiros – são escolhidos entre os homens do mar, indistintamente, exercendo qualquer das diversas profissões marítimas.
Para que possa concorrer ao lugar, tem de conhecer, após aturado estudo, especialmente a barra, as marés, os baixios, as correntes e mil e um pormenores que a prática na vida do mar oferece. Requerida a sua admissão, o candidato é sujeito a exame, feito sempre a bordo de um navio de guerra, com o qual manobra, saindo e entrando na barra do Douro como na de Leixões, para mostrar as suas aptidões. O júri de exame é sempre composto por dois oficiais da marinha, pelo piloto-mór e pelo sota piloto-mór. Aprovado piloto provisório, faz seis meses de tirocínio, sob a vigilância dos pilotos efectivos. Decorrido esse tempo, se as informações forem abonatórias da sua competência, passa a fazer serviço sob sua responsabilidade. Continuando a ser bem-sucedido, ao cabo de 18 meses passa à efectividade. E ao fim de 7 anos de trabalho pode concorrer aos lugares superiores.

No mar, estão já sepultados muitos pilotos
O pessoal encarregado da pilotagem nas barras do Douro e de Leixões está assim distribuído: na secção da Foz do Douro, há 26 pilotos, incluindo os graduados e um escrivão; e em Leixões prestam serviço 8 pilotos. Na secção da foz, o pessoal está dividido em duas esquadras, estando uma, durante quinze dias, ao serviço de entradas, e a outra ao serviço de saídas, findos os quais alternam.
O piloto, além das responsabilidades técnicas, tem outras referentes às autoridades aduaneira, policial e sanitária, visto que sendo a primeira autoridade a entrar a bordo toma sobre si todos os encargos, até que aquelas, já dentro do porto efectuem as suas visitas.
Os pilotos da barra do Douro, atendendo à situação do seu porto, têm de ser marinheiros muito hábeis, pois é uma das barras mais difíceis, atendendo à tonelagem da navegação que a demanda. Indagando dos momentos que consideram mais difíceis para a sua vida profissional, todos os pilotos são de opinião que o acto mais arriscado é o de saltar, fora da barra, da lancha para bordo ou de bordo para a lancha, operação que o mar, quando alteroso, torna difícil ao máximo.
E recordaram-nos, a propósito, alguns desastres sucedidos a colegas seus, muitos deles mortais. Há anos, existia em Carreiros um posto suplementar, onde estavam atracadas várias catraias. Uma delas, quando em serviço, voltou-se, morrendo afogados, muito perto de terra, todos os pilotos que levava. Também uma outra catraia, destinada a «assistir», que estava em serviço de sinalização da barra, voltou-se no momento em que um vapor holandês demandava o porto, perecendo sete dos seus ocupantes.
É, assim, cheia de perigos, a vida dos pilotos na barra do Douro, que se continua a manter num estado luminoso. Quem não se recorda do trágico naufrágio do vapor alemão “Deister”, ocorrido mesmo à entrada do porto, sem que milhares de pessoas, que presenciaram, horrorizadas, da margem, os diversos passos da catástrofe, pudessem valer a duas dezenas de vidas que o mar sepultou? Foi neste desastre pavoroso que um piloto, Jacinto José Pinto, encontrou a morte.

Os pilotos têm salvo muita gente da morte
Existe lamentavelmente um equívoco que vem a propósito esclarecer. Quando se dá qualquer naufrágio em que aos pilotos não é possível actuar, quer por ignorância do caso ou porque o facto sé dá em ocasião que o material mais apropriado está em serviço, certo público, injustamente, critica-os asperamente, quando, na verdade, esquece que não sendo a sua função propriamente a de salvação, visto que exercem uma indústria distinta, que é a pilotagem das embarcações, e, contudo, a Corporação de Pilotos do Douro e Leixões a entidade que mais gente tem salvo, não só aquela que arranca da água, como dos múltiplos naufrágios que evita quando se apercebe que uma embarcação corre risco e, caso interessante, raro é o piloto que possui uma medalha do Instituto de Socorros a Náufragos e nem a Corporação foi, ainda, condecorada pelos poderes públicos, o que, aliás, era justíssimo.
Não sucede isto, porém, com outras corporações de interesse público, tais como os bombeiros, que, pelo menos em matéria de socorros a náufragos, são sempre, e muito bem, premiadas, assim como os seus componentes.
Não se tem isto em vista, não só quanto à parte crítica de certo público, mas também às distinções honoríficas que a Corporação de Pilotos, não tendo nenhum subsídio especial do Estado, justamente merecia, pois danifica o seu material flutuante e gasta combustível. Como os casos de socorros a barcos de pesca e de recreio se dão frequentemente, no fim dum ano pode avaliar-se o quanto afecta a economia da Corporação e dos pilotos, pois que os proventos dependem, em parte, da referida economia. Ora para bem de todos convém explicar que a entidade dada aos serviços de socorros a náufragos é o Instituto de Socorros a Náufragos.
A Corporação de Pilotos intervém, pronta e voluntariamente, já por iniciativa própria dos sentimentos dos seus incorporados, já porque isso é dever de todo o cidadão, sempre que pode, quando tem conhecimento dos factos. Nos naufrágios desta área quase sempre comparece uma ou mais lanchas ou o rebocador “Comandante Afonso de Carvalho”, mesmo nos casos em que o salva-vidas sai.
Quando se trata do salvamento de propriedades de valor apreciável, não de vidas, a Corporação tem de ser remunerada porque vai danificar o seu material e fazer despesas com pessoal, combustível, etc.
Há quem julgue que devido à pilotagem ser um serviço oficial, existe obrigação de fazer gratuitamente os serviços de salvação dos navios, mas, na verdade, esquecem que a Corporação compra o material que adquire, paga os carburante e lubrificantes, pessoal, reparações e seguros, como qualquer entidade particular, comercial ou industrial.

O piloto não enfrenta apenas os perigos do mar
A continuar assim, não surpreenderá ninguém que a barra do Douro venha ser ainda sepultura de muitas vidas. Disse-nos um membro da corporação, quando lhe apontamos essa possibilidade: «Sim, porque o piloto, aqui, é como um artista a trabalhar com fraca ferramenta».
Porém, os pilotos não enfrentam apenas os perigos do mar. Pela natureza da profissão, a mortalidade entre eles, é enorme, causada, especialmente, por doenças do coração, tuberculose, resfriamentos, etc. Para corroborar essa afirmação, basta citar a sua Caixa de Pensões, que possuindo 34 sócios, em 7 anos tem já 11 viúvas a sustentar.
Não obstante as crises dos últimos anos e a actual, que a todas supera, a Corporação dos Pilotos está apetrechada com material mecânico moderno para o serviço de pilotagem e outros, material esse que fica bastante oneroso. Para o serviço de amarrações, possui 50 assalariados, aos quais tem dispensado bastantes regalias, não obstante a Corporação viver presentemente em regime de «deficit».
Na secção de Leixões, o serviço de pilotagem é também pesado e difícil, visto que é permanente, de noite e de dia, e especialmente devido às más condições do porto, que foi feito para abrigo dos antigos navios de vela e, hoje, é demandado por verdadeiras cidades flutuantes. Estes navios, pelo seu tamanho como também pelo seu enorme calado, tornam-se de difícil manobra, devido às dimensões acanhadas da bacia.
Hoje, graças à aquisição, por parte da Corporação, do rebocador “Comandante Afonso de Carvalho”, o serviço é feito em melhores condições, facilitando não só o acto de pilotar, que, anteriormente, em dias de muito mar, não podia efectuar-se, como ainda o recurso de assistência permanente, visto que o rebocador está sempre em Leixões e, portanto, pronto a actuar na emergência de qualquer sinistro.
Há, na vida dos pilotos da barra do Douro, um facto que demonstra claramente a ponderação com que efectuam os seus serviços. Quando o mar, embravecido, dificulta a entrada ou saída de embarcações, os pilotos reúnem-se, em conselho, numa casita, junto ao mar, na Cantareira, para deliberarem sobre a melhor forma de conduzir o navio com segurança ao seu ancoradouro. O piloto-mór ouve as opiniões, muitas vezes divergentes, dos seus subordinados. Se o acordo, para tal fim, não é unânime, procedem à votação – e o serviço é feito segundo o critério da maioria.
Da vida dos pilotos, da sua profissão arriscada e operosa, muito haveria a dizer. Ainda bem que Feminore Cooper o fez, embora noutra época e com outros motivos, porque nós, sem o recurso de impressões vivas em que nos possamos escudar, apenas repetiremos que os portos do Douro e Leixões, por imperativo da guerra que assola o mundo, oferecem aspecto triste, desolador, embora o Sol por lá ande a abençoar os homens e as coisas…
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 1 de Agosto de 1940)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXI)


O encalhe do navio "Nashaba"

Encalhou na Ericeira, devido ao nevoeiro,
o navio de carga americano “Nashaba”
Ericeira, 17 – Na madrugada de hoje foram ouvidos nesta vila sucessivos apitos da sirene de um vapor, que deveria estar em perigo muito próximo de terra. Havia muita cerração e nada se via para o mar.
No posto da Guarda Fiscal de S. Julião soube-se a breve trecho do que se tratava. O navio de carga americano “Nashaba”, encalhara devido ao nevoeiro, pelas 4 horas, perpendicularmente à praia de S. Julião, que fica imediatamente ao Sul da praia da Baleia.
No momento do encalhe, o comandante do navio expedira um rádio para Lisboa a comunicar o sinistro e a solicitar assistência, visto o navio encontrar-se em situação difícil. Da administração do porto de Lisboa foi mandado seguir para o local o rebocador “Cabo Espichel”, apetrechado para trabalhos de salvamento e com técnicos a bordo.
Compareceu também no local um outro rebocador vindo de Lisboa, mas as primeiras tentativas de salvamento não deram qualquer resultado. O navio encontra-se muito enterrado na areia e não se sabe mesmo se em rocha, mas o mar, em compensação, não está muito agitado. Até agora os tripulantes não correm qualquer risco.
Muitos veraneantes dirigiram-se em pequenos barcos para próximo do navio sinistrado, a fim de assistirem às tentativas de desencalhe.
Na preia-mar das 14 horas e quarenta minutos, os rebocadores deram alguns esticões violentos, mas o navio não cedeu e manteve-se na mesma posição. Está a ser encarada a hipótese de aliviar o navio de parte da carga. Os trabalhos de salvamento continuam.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 18 de Julho de 1940)

Foto do navio "Nashaba" - imagem de autor desconhecido
www.armed-guard.com/sunk.html

Características do navio “Nashaba”
Nº Oficial: N/a - Iic: K.D.S.M. - Porto de registo: Houston, Texas
Armador: Lykes Bros Steamship Co. Inc., Houston, Texas
Construtor: Pacific Coast Shipbuilding Co., Bay Point, California
Arqueação: Tab 6.062,00 tons - Tal 3.776,00 tons
Dimensões: Pp 122,66 mts - Boca 16,15 mts - Pontal 9,75 mts
Propulsão: 1:Tvapor de Kerr Turbine Co., Wellsville, Nova York
Equipagem: 27 tripulantes

O vapor norte-americano “Nashaba” que havia
encalhado na Ericeira seguiu para Lisboa
Ericeira, 18 – O navio americano “Nashaba” que desde ontem se encontrava encalhado na praia de S. Julião, foi esta tarde desencalhado e seguiu para Lisboa, acompanhado pelos rebocadores que intervieram no seu salvamento.
As tentativas de desencalhe feitas durante a noite e a manhã de hoje não deram resultado, mas os técnicos mantinham-se convencidos de que seria possível salvar o navio. Devido ao encalhe ter ocorrido muito próximo de terra, os rebocadores tiveram grande dificuldade em estabelecer as espias de aço com as quais tentariam proceder ao salvamento.
Uma pequena embarcação foi empregada por fim com exito no estabelecimento das espias e, durante a noite, o rebocador “Cabo Espichel” manteve-se ligado por duas espias ao “Nashaba”.
Próximo, manteve-se sempre o vapor dos Pilotos “Comandante Pedro Rodrigues”, cujos serviços de assistência foram também muito importantes, especialmente na fase final dos trabalhos.
Durante a enchente da manhã, foram feitos os últimos preparativos para uma nova tentativa na preia-mar das 15 horas. Numerosas pessoas acorreram ao local para assistir aos trabalhos, fazendo-se transportar em automóveis e em carroças. Os rochedos próximos apresentavam, pelo meio-dia, um curioso aspecto. Muitos banhistas levaram o farnel para ali passarem a tarde.
Pelas 14 horas, quando a maré já estava bastante alta, foram tomadas disposições para nova tentativa. O “Cabo Espichel” pegou numa espia e o “Comandante Pedro Rodrigues” pegou em outra.
Eram 14 horas e dez minutos, quando os dois rebocadores deram, num esforço simultâneo, o primeiro esticão. O vapor cedeu, ligeiramente, e, cinco minutos depois, a um novo esticão, moveu-se sobre a areia. Os navios de salvação insistiram no esforço e o “Nashaba” ficou a flutuar francamente. As sirenes dos vapores silvaram e os tripulantes acenavam com os bonés numa grande manifestação de alegria.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 19 de Julho de 1940)

Nota: Este navio naufragou em 26 de Fevereiro de 1945, quando integrado no comboio «TAM91», seguindo viagem para Ghent, na Bélgica, colidiu com uma mina no estuário do Schelde, posição 51º22’18”N 02º55’25”E. A tripulação salvou-se.

domingo, 9 de abril de 2017

O lugre "Granja", do Porto


Histórico comercial do navio

Ano de 1940, aos vinte e dois dias do mês de Fevereiro, nesta Capitania do Porto, achando-se presente o capitão do porto do Porto, CMG António Afonso de Carvalho, e o escrivão da referida Capitania do porto, 1ºTen A/M António Brandão dos Santos, foi apresentado pela Sociedade de Navegação Sagres, Lda., donos do dito navio, um requerimento no qual pedem para ser feito o registo de propriedade deste lugre, por desejarem empregá-lo no comércio marítimo de longo curso, excluindo as ilhas adjacentes e colónias, juntando para o efeito os documentos constantes do artigo sessenta e sete do regulamento geral das capitanias, aprovado por decreto de 1 de Dezembro de 1892, ficando arquivados nesta repartição, em cujo teor se depreende o seguinte:
- Que este navio era o lugre “Corça”, construído de madeira na Figueira da Foz, no ano de 1919, achando-se registado na capitania de Lisboa a folhas 28 do livro 16 respectivo, com o número oficial 476-F a favor da Parceria Geral de Pescarias.
- Que foi adquirido pela Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., com sede na cidade do Porto, pela quantia de duzentos e cinquenta mil escudos (250.000$00) e registado para se empregar na pesca longínqua, nos termos da alínea d) do art.º 3.º do Decreto n.º 24.235, de 27 de Julho de 1934, sendo a sua propulsão à vela.
- Que ficou registado a favor da referida Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., com o nome “Granja”, na Capitania do porto de Lisboa, a folhas 72 do livro 16 respectivo, sob o n.º G-371.
- Que em 1 de Junho de 1938 transferiu o seu registo para a Capitania do porto da cidade do Porto, continuando propriedade da mesma Companhia de Pesca Transatlântica. Lda., e registado sob o n.º C-122 a folhas 183 do livro 8KK. Possui um motor diesel Deutz a 4 tempos, de 10 HP para as manobras; um semi-diesel marca NK para accionamento do molinete da amarra, de 10 HP e um motor propulsor semi-diesel, da marca Otto Deutz, de 4 cilindros, de 150 HP, a 400 rotações por minuto.
- Por escritura lavrada no notário Artur da Silva Lemos, no dia 20 do mês de Fevereiro de 1940, foi este lugre adquirido à Companhia de Pesca Transatlântica. Lda., pela Sociedade de Navegação Sagres, Lda., com sede na rua de Sousa Viterbo, n.º 36-1.º, na cidade do Porto, pela quantia de oitocentos e cinquenta mil escudos (850.000$00). Conforme nota da marinha mercante, ficou autorizado a manter a mesma denominação de “Granja” e o mesmo distintivo visual.

Foto do lugre "Granja" no rio Douro
Imagem de autor desconhecido

Características do lugre “Granja”
1940-1941
Armador: Sociedade de Navegação Sagres, Lda., Porto
Nº Oficial: C-122 - Iic: C.S.F.X. - Porto de registo: Porto
Construtor: Sebastião Gonçalves Amaro, F. Foz, 23.11.1918
ex “Sagres”, Empresa Industrial Figueirense, 1918-1922
ex “Guerra IIº”, Nunes, Guerra & Cª., Lda., Aveiro, 1922-1933
ex “Corça”, Parceria Geral de Pescarias, Lisboa, 1933-1937
Arqueação: Tab 283,48 t - 802, 825 m3 - Tal 194,56 t - 550,986 m3
Dimensões: Pp 39,27 mts - Boca 8,85 mts - Pontal 4,04 mts
Equipagem: 12 tripulantes
Navio de 3 mastros, tinha proa de beque, popa redonda, convés com salto à ré, 1 pavimento e a carena forrada com cobre.
O lugre perde-se por naufrágio no dia 23 de Julho de 1941.

O naufrágio do lugre “Granja” na Terra Nova
Os seus tripulantes chegam em breve a Lisboa
Está confirmado em absoluto o afundamento do lugre “Granja”, da Sociedade de Navegação Sagres, do Porto, sinistro ocorrido quando aquele lugre chegava à Terra nova. Por informações chegadas aos seus agentes em Lisboa, salvou-se a sua tripulação composta de 12 homens, incluindo o seu capitão Manuel S. Marques.
Aquele lugre andou nestes últimos tempos a fazer o transporte de mercadorias entre Lisboa e Génova, arvorando o pavilhão da Cruz vermelha Internacional. Em Abril último teve uma viagem acidentada durante a qual dois dos seus tripulantes perderam a vida, em pleno Mediterrâneo, arrastados pelas ondas, que varriam o convés de lado a lado. Nessa mesma viagem, o navio esteve prestes a perder-se num encalhe perto de Gibraltar.
O lugre tinha há poucos dias deixado de fazer essas viagens, para se entregar à missão de carregar bacalhau para Lisboa. A sua tarefa, portanto, consistia em trazer para Portugal o bacalhau que os outros lugres pescavam nos bancos.
O sinistro, ocorreu precisamente quando o navio chegava à Terra Nova e deu-se em consequência do lugre, devido ao nevoeiro, ter chocado com uma rocha. Os seus tripulantes chegam brevemente a Lisboa.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 25 de Julho de 1941)