quinta-feira, 15 de novembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXXVIII)


No Norte do Brasil - A catástrofe do Camará

O “Paes de Carvalho” em chamas nas águas do Solimões,
Amazonas - Dezenas de náufragos mutilados - 12 mortos
Manaus, 31 de Março – Conforme o telégrafo comunicou já, a madrugada de 22 do corrente veio trazer à nossa população a emoção mais profunda que temos sentido nestes últimos tempos: o sinistro do vapor fluvial “Paes de Carvalho”, da frota da «Amazon River».
Ainda todos os corações pulsam no mesmo sentimento de piedade e horror, de tristeza e comoção, ao evocar essa tremenda hecatombe, que supera outras desgraças análogas, tal a amplitude de consequências trágicas e inesperadas, com o séquito extenso de luto, a trazer inúmeros lares presos de mágoa infinda causada pelas irreparáveis perdas.
À meia-noite de 19 do corrente, o “Paes de Carvalho” deixava o «roadway» da «Manaus Harbour», continuando, assim, a viagem da linha do Juruá, empreendida de Belém, porto inicial.
Comandado pelo piloto João de Deus Cabral dos Anjos, marítimo bastante conhecido e conceituado na nossa marinha mercante, o “Paes de Carvalho” conduzia elevado número de passageiros e avultada quantidade de carga, como aliás o fazem todos os gaiolas empregados na navegação do Amazonas.
O percurso do “Paes de Carvalho” ia sendo feito sem novidade, quando, ao chegar ao porto da vila de Codajás, o comandante notou que dois reboques de pescadores portugueses atrasavam a marcha da embarcação. Verificando esse facto, que, realmente, já vinha retardando em quatro horas a viagem, aquele oficial deliberou propôr aos pescadores que largassem o reboque, transmitindo-lhes essa resolução, por intermedio do praticante Mário de Assis Costa, que se tornou, mais tarde, num verdadeiro herói.
Atendendo às ponderações do comandante um dos pescadores procedeu logo à resolução tomada, desamarrando a canoa do navio, enquanto o seu colega de ofício se obstinava em continuar a viagem, já tendo, a esse tempo, o “Paes de Carvalho” deixado o porto de Codajás.
Diante da desobediência das suas ordens, o comandante Cabral dos Anjos renovou o aviso de que não podia continuar a conduzir o reboque, até que, vendo a insistência do pescador, mandou um marinheiro desatar os nós das cordas.
Esse facto não enfureceu o mariscador lusitano.

Foto do navio fluvial «gaiola» "Paes de Carvalho"
Retirada do corpo da notícia abaixo discriminada

Aliviado desse reboque, o navio prosseguiu a rota, costeando o Camará, à margem esquerda do Solimões. Nesse percurso, o “Paes de Carvalho” defrontou a ilha de Ajurá, situada na foz do paraná do Mamiá, conseguindo atingir a ponta da ilha da Botija, que, digamos de passagem, é circundada por barrancos intransponíveis. Essa ilha, que fica localizada a dez metros do canal de navegação, é o ponto que, nessa altura da viagem, todas as embarcações costeiam, não chegando, porém, o “Paes de Carvalho” a costear, porque, exactamente nessa travessia, se verificou o início do incêndio, às três horas e quarenta e cinco minutos da madrugada.
É de notar que a ilha da Botija, situada, como fica, no rio Solimões, divide esse rio em dois braços: um que segue para a esquerda – denominado paraná do Mamiá – e outro que se estende à direita – o Solimões propriamente dito, e onde fica situada a ilha do Trocary, pouco abaixo do porto do mesmo nome, para onde se destinava a embarcação sinistrada, a fim de descarregar mercadorias. Uma vez no Trocary, o “Paes de Carvalho” devia voltar ao local onde se deu o sinistro, entrando no paraná do Mamiá e seguindo o seu rumo.
Nesse momento, isto é, às 3 horas e quarenta minutos da madrugada, o vapor “Índio do Brazil”, que fazia a viagem inversa ao “Paes de Carvalho”, apitava para o porto do Mamiá, situado no paraná do mesmo nome, a fim de tomar lenha. O prático do “Índio do Brazil”, sr. Raimundo Baptista da Silva, que fez a atracação em Mamiá, diz que realmente observou, na direcção da ponta extrema da ilha da Botija, um clarão e fumo intenso. Acreditou que se tratasse de uma queimada na ponta da referida ilha. Não ouviu os apitos soltados pelo “Paes de Carvalho”, que a menos de trinta minutos, servia de pasto ao mais pavoroso incêndio em águas amazónicas.
Explicou este profissional que não admira de não ouvir o pedido de socorro do “Paes de Carvalho”, pois o vento soprava em sentido contrário e, portanto, levava o som noutra direcção. A profundidade do rio Solimões, no local onde o “Paes de Carvalho” soçobrou é, mais ou menos, de doze braças. O incêndio teve origem no presumível gesto de uma passageira de 3ª classe que, após fumar um cachimbo, sacudiu as cinzas, sem se aperceber de que estava próxima a inflamáveis.
- - - - - -
Eis o que sobre a catástrofe disse a um jornalista o 3º maquinista do navio, Leonardo Severo de Jesus, de serviço no momento angustioso:
- Era o maquinista do quarto de vigilância, e, como de costume, entrei à meia-noite e devia largar às 4 horas da manhã. Saímos desta capital à meia-noite do dia 19, tendo sido eu o maquinista que deu saída à embarcação. Até ao dia 22, às 3 e meia da madrugada, a viagem prosseguiu, como de costume, sem incidentes.
Às 3 horas e quarenta minutos o segundo cozinheiro deu o alarme de fogo a bordo, tendo eu deixado por breves instantes a casa das máquinas a certificar-me se era exacto o sinal e de onde irrompia o incêndio. Conjugando os meus esforços com dois tripulantes, conseguimos atirar à água o enxergão incendiado, não fazendo outro tanto com a outra banda porque a esse tempo já o fogo se começava a propagar a uma das caixas que ia vazando combustível.
Nesse momento então os gritos de alarme foram mais intensos e como o meu lugar era junto à caldeira, corri à casa das máquinas onde cheguei exactamente quando o telégrafo me determinava parada imediata da embarcação. Procedi de acordo com o determinado, sabendo depois que essa ordem fora efectivada pelo comandante Cabral dos Anjos.
Por essa altura, fui sobressaltado por dois estampidos, quase simultâneos: eram as primeiras explosões das centenas que depois se verificaram. Uma vez parado o “Paes de Carvalho”, determinei ao cabo-fogueiro que estava de plantão que tocasse o aparelho denominado «burro» para que puxasse e conduzisse a água para extinguir o fogo. Era tarde; o fogo havia tomado proporções agigantadas; qualquer esforço para dominar a fogueira era improfícuo e insensato; nem um dilúvio, naquela altura, conseguiria acalmar os ímpetos das chamas; o navio estava irremediavelmente perdido e as nossas vidas colocadas num fatal dilema: ou morrer pelo fogo, ou morrer pela água.
Os lotes de caixas que estavam próximos à casa das máquinas invadiram aquele recinto, comunicado o fogo ao dínamo gerador da luz a bordo. Todo o navio ficou, desde esse momento, completamente às escuras. Pela porta que me tinha dado entrada era impossível sair, porque o incêndio nessa altura já me assoberbava a passagem, resolutamente procurei sair pela frente da caldeira.
Conquanto surpreso, estava completamente senhor de mim, e pude com calma procurar abrigo seguro contra a avassaladora ira das chamas. Fui à procura de sossego na proa do navio, onde já encontrei o comandante Cabral dos Anjos, o prático Josino do Carmo Palheta, o prático Milton Angelin, o mestre José Ezequiel de Salles e o 1º maquinista. Foi mesmo neste momento que o pânico atingiu o mais alto grau, pois os passageiros totalmente desorientados gritavam muito alto, clamando por socorro, confundindo preces com imprecações, orações com blasfémias.
Muitos passageiros solicitavam ao comandante que aproasse o navio a terra, mas, quando o comandante quis tomar essas providências era demasiado tarde…
(Jornal "Comércio do Porto", Domingo, 9 de Maio de 1926)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Construção naval


O lançamento à água do navio-motor “António Carlos”

Nos estaleiros da C.U.F. realiza-se, amanhã, a cerimónia do lançamento à água do navio-motor “António Carlos”, o primeiro da série de seis do mesmo tipo, que a Sociedade Geral de Transportes mandou construir para ampliação da sua frota mercante.
À cerimónia, que se realiza às 14 horas e 45 minutos, assistem o chefe do Estado, membros do Governo e outras entidades.
Depois do lançamento à água daquela unidade, procederão ao assentamento da quilha e cravação do primeiro rebite do navio-motor “Conceição Maria”, o segundo da mesma série.
Estes navios tem de comprimento entre perpendiculares 86 metros, deslocam 4.518 toneladas e possuem seis anteparas estanques. Dispõem de dois amplos porões e de duas cobertas, têm bons alojamentos para a tripulação e camarotes para oito passageiros.
A Sociedade Geral de Transportes vai mandar construir, ainda, quatro unidades de 3.800 unidades cada, com a velocidade de 15 nós.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 26 de Julho de 1946)

Postal ilustrado com a imagem do navio-motor "António Carlos"
Edição da empresa proprietária - minha colecção

Características do navio-motor “António Carlos”
Registo na capitania de Lisboa, em 6 de Janeiro de 1948

Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa
Nº Oficial: G-493 - Iic: C.S.J.O - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 1946
Arqueação: Tab 1.735,64 tons - Tal 931,59 tons
Dimensões: Ff 93,32 mts - Pp 86,40 mts - Bc 12,84 mts - Ptl 4,55 mts
Propulsão: Burmeister & Wain - 1:Di - 7:Ci - 2.500 Bhp - Veloc. 13 m/h
Equipagem: 26 tripulantes – acomodações para 8 passageiros

O lançamento à água do novo navio-motor “António Carlos”
Foi, ontem, lançado à água o terceiro navio compreendido no programa de renovação da nossa frota mercante. O novo navio desceu a carreira do estaleiro naval da C.U.F., na presença do Chefe do Estado, membros do Governo e outras altas personalidades.
O primeiro lançado foi o “Benguela”, de 9.000 toneladas, construído na Suécia e destinado à frota da Companhia Colonial de Navegação, navio que deve ser entregue dentro de poucas semanas.
Realizaram-se, ontem, duas cerimónias de lançamento: uma em Inglaterra, a do navio “Rovuma”, de 9.500 toneladas, com a assistência do embaixador de Portugal e outras entidades, e, quase à mesma hora, a do navio-motor “António Carlos”, construído nos estaleiros da Administração Geral do porto de Lisboa, pela Companhia União Fabril, para a Sociedade Geral de Transportes.
Assistiram o Srs. Presidente da República, ministros da Marinha e Obras Públicas, sub-secretário das Comunicações, adidos navais americano, inglês, francês e espanhol e muitas outras entidades, além de grande número de outros convidados, entre os quais senhoras.
Numa tribuna, construída junto da proa do navio, e no momento da cerimónia, o Sr. D. Manuel de Melo, administrador da C.U.F., agradeceu a presença do Chefe do Estado, dos ministros e das outras pessoas, afirmando que o lançamento à água de uma nova unidade para a Marinha Mercante não é um acto banal, porque representa - disse - mais um elemento de trabalho ao serviço da economia nacional.
Após ter feito referência ao apelo, que em tempo fez, no sentido de ser dedicada a necessária atenção ao problema da Marinha Mercante, afirmou da sua satisfação por ter verificado que o Governo começou a dispensar desvelado estudo a este assunto.
O Sr. D. Manuel de Melo referiu-se ao despacho do Sr. ministro da Marinha, que estabelece o programa de reconstrução da Marinha Mercante portuguesa, e disse que o “António Carlos” era o primeiro navio, em execução do plano de renovação da frota nacional, lançado à água e feito por operários portugueses. Por isso, disse, este lançamento tem maior significado, visto constituir a execução de um programa oficialmente estudado e estabelecido, com o cuidado, a ponderação, e o desejo de bem servir, contribuindo para o engrandecimento do país.
O Sr. general Carmona felicitou, o Sr. engº D. Manuel de Melo pela ampliação da frota da sua empresa e pelo trabalho dos seus estaleiros.
Em seguida, realizou-se a cerimónia do assentamento da quilha e cravação do primeiro rebite do navio-motor “Conceição Maria”, o segundo navio da mesma série, a ser construído imediatamente.
Estudam-se agora os projectos de uma série de mais quatro navios, de 3.800 toneladas, com a velocidade de 15 nós, a construir depois.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 28 de Julho de 1946)

domingo, 11 de novembro de 2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Construção naval


O lançamento à água do navio-motor "São Macário"

O navio-motor “São Macário” foi ontem lançado à água,
em Lisboa, na presença do Chefe do Estado
Com a assistência do Sr. Presidente da República, membros do Governo e demais entidades oficiais, realizou-se, ontem, como estava anunciado, o lançamento à água do navio mercante “São Macário”.
Desde manhã cedo que os estaleiros da Administração Geral do porto de Lisboa, adjudicados à C.U.F., onde o novo navio-motor foi construído e de onde seria lançado à água, estavam profusamente embandeirados, com o ar festivo dos grandes dias. Pouco antes da hora marcada para o lançamento do navio à água, começaram a chegar aos estaleiros, na Rocha do Conde de Óbidos, as entidades convidadas.
Quando o Sr. Presidente da República chegou, já ali estavam, entre muitas outras pessoas, os Srs. ministro da Marinha e das Colónias, sub-secretários de Estado das Obras Públicas e do Comércio e Indústria, Major-General da Armada, chefe do E.M. Naval, Superintendente Geral da Armada, Diretor-geral de Marinha, chefe do Departamento Marítimo do Centro, chefe de gabinete do ministro da Marinha, etc.
Pelas empresas de navegação, estavam presentes os Srs. Bernardino Correia e capitão José Pessoa, da Companhia Colonial de Navegação; Jaime Thompson, da Companhia Nacional de Navegação; Melo e Silva, da Soc. Geral de Transportes; engº Gago de Medeiros, da Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos, muitos oficiais da Armada, funcionários dos Ministérios das Obras Públicas e da Marinha, etc.
Junto à carreira, sobre a qual o “São Macário” deslizou para a água, formava, em frente da tribuna, propositadamente ali construída, a guarda de honra ao Chefe do Estado, constituída por um batalhão de Marinha, com banda de música, fanfarra de clarins e bandeira.
Eram 16 horas em ponto quando chegou aos estaleiros o Sr. Presidente da República, acompanhado pelo Sr. general Amilcar Mota, chefe da sua casa militar. O Sr. general Carmona foi recebido pelo Sr. ministro da Marinha e pelo Sr. D. Manuel de Melo, conde do Cartaxo, como director da C.U.F., empresa construtora do novo navio. Enquanto a banda tocava o Hino Nacional, o Chefe de Estado passou revista à guarda de honra, acompanhado pelo Sr. ministro da Marinha, após o que tomou lugar na tribuna.
Imediatamente procederam à cerimónia, que foi breve, do lançamento à água do navio. O Sr. general Carmona impulsionou a alavanca, que fez estilhaçar uma garrafa de vinho espumoso, em jeito de baptismo, enquanto a banda de Marinha voltava a tocar o Hino Nacional.
E o “São Macário” deslizava pela carreira, entrando no Tejo, no meio das aclamações de numerosos operários que assistiam à cerimónia e dos silvos das sereias dos navios que estavam perto. Um rebocador lançou depois um cabo ao “São Macário”, que ficou a pairar a uma centena de metros de terra.

Postal ilustrado com a imagem do navio-motor "São Macário"
Edição da empresa proprietária - minha colecção

Características do navio-motor “São Macário”
Registo na capitania de Lisboa, em 11 de Abril de 1944
Armador: Soc. Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa
Nº Oficial: G-464 - Iic: C.S.C.H. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 1944
Arqueação: Tab 1.038,72 tons - Tal 772,03 tons
Dimensões: Ff 66,97 mts - Pp 61,47 mts - Bc 10,83 mts - Ptl 4,09 mts
Propulsão: Sulzer Frérès - 1:Di - 5:Ci - 500 Bhp - Veloc. 9 m/h
Equipagem: 19 tripulantes com acomodações para 6 passageiros

Fala o Sr. D. Manuel de Melo
Foi, então, que o Sr. D. Manuel de Melo, como gerente da C.U.F., pronunciou um discurso em que começou por saudar o Chefe de Estado e os membros do Governo, cuja presença agradeceu. Historiou, depois, rapidamente, a acção da C.U.F., em matéria de construção de navios mercantes, dizendo que, embora muito se tenha feito, muito mais é preciso fazer. Portugal precisa de aumentar a sua frota mercante, para que a bandeira portuguesa volte a flutuar nos navios que hão-de aproar aos vários pontos do Império, à Índia, a Macau e a Timor, e, também, às nações onde temos colónias populacionais importantes, como o Brasil e os Estados Unidos da América do Norte.
Alguma coisa se tem feito – repete – mas mais ainda é necessário fazer. Seguidamente, o orador pediu ao Chefe do Estado e aos ministros que olhem para a Marinha Mercante, não só com o carinho posto em tudo quanto é de interesse nacional, mas que a tratem com desvelo e cuidados especiais, como se deve merecer a um pai, ou a um filho. Disse, depois, que, apesar da sua insuficiência, é à Marinha Mercante que se deve, em grande parte, o abastecimento do País, mercê do esforço quase heroico que tem sido possível realizar no transporte de géneros alimentícios de primeira necessidade.
O orador acrescentou que para se construírem os navios que o País precisa há que modificar os estaleiros do porto de Lisboa. No entanto – acentuou – o desenvolvimento da Marinha Mercante só poderá conseguir desde que se estabeleça, em condições interessantes, um subsídio à construção, aliviando-a dos encargos que sobre ela pesam.
E a seguir:
- O “São Macário” é a décima unidade da marinha mercante construída nestes estaleiros. Estão, porém, em construção, mais dois arrastões para a Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau, e um navio de carga, do tipo do “Alexandre Silva”, último navio que se construiu. Dentro em breve, daremos início à construção do terceiro navio do mesmo tipo. E, logo que se consiga o material indispensável, daremos execução ao projecto de construção de mais dois navios de cerca de 9.000 toneladas, cada, mistos, de passageiros e de carga.
E terminou:
- Levou este navio o nome de “São Macário”, santo patrono dos caldeireiros. E, assim, prestamos homenagem ao esforço e boa vontade demonstrada pelos operários nas construções. Que Deus proteja esta nova unidade e que à Nação ele preste o serviço que inspirou a sua construção, correspondendo ao esforço feito a bem da Nação.

Fala o Sr. Presidente da República
O Sr. general Carmona proferiu, depois, algumas palavras e cumprimentou o Sr. D. Manuel de Melo, como director da organização construtora do novo navio mercante, tendo palavras de grande elogio para todos quantos colaboraram na construção do “São Macário”. Fez votos para que a nova unidade venha contribuir para a expansão económica da Nação e da Sociedade Geral de Transportes, congratulando-se por ter assistido a mais uma cerimónia desta natureza, produto da situação progressiva do País.
O Sr. Presidente da República abandonou, em seguida, a tribuna, sob as aclamações entusiásticas e demoradas da assistência, dando-se por finda a cerimónia.

A nova unidade
O “São Macário” é um navio com todos os requisitos modernos, com deslocamento de 1.774 toneladas, comprimento de 66 metros, accionado por motores «Diesel», a dois tempos, que lhe garantem a velocidade de 9,5 nós, num raio de acção de 9.000 milhas. Toda a aparelhagem de bordo é eléctrica. Dispõe de compartimentos estanques e amplos porões, bem como de alguns camarotes para certo número de passageiros.
O novo navio foi construído sob fiscalização de técnicos da Marinha Mercante, do Ministério da Marinha e dos peritos da Sociedade de Fiscalização «Lloyd’s Register of Shipping». O “São Macário” obterá a mais alta classificação desta Sociedade.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 27 de Janeiro de 1944)

O “São Macário” vai fazer a sua primeira viagem
Dentro de dias, a direcção dos estaleiros da C.U.F. fará a entrega do “São Macário” à Soc. Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lda.
O “São Macário”, que há dias foi lançado à água, já em Fevereiro vai fazer a primeira viagem, ao serviço da economia nacional.
Foi designado para ir a Casablanca buscar fosfatos, mercadoria por cuja vinda para Portugal, o Governo tem manifestado grande interesse, para o tratamento das terras, nesta hora de necessidades, em que é preciso garantir uma melhor e mais rendosa produção de artigos essenciais ao abastecimento do País.
Ontem, chegou, com 1.300 toneladas daquele produto o navio “Costeiro Terceiro”, também daquela empresa.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 29 de Janeiro de 1944)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXXVII)


O encalhe do navio "Almirante Schultz", na barra de Viana

Quando demandava o porto de Viana do Castelo encalhou
um navio que, porém, conseguiu safar-se horas depois
Viana do Castelo, 9 – Hoje, pelas 12 horas, ao demandar o porto de Viana, encalhou numa coroa de areia criada pelas recentes cheias, na foz do Lima, o navio balizador da Armada “Almirante Schultz”, de 547 toneladas, vindo de Leixões.
Este navio de guerra, que usualmente faz serviço de abastecimento de faróis, veio a Viana do Castelo para colocar uma boia-amarra destinada às corvetas da Marinha de Guerra, empregues na fiscalização da pesca.
Felizmente, o “Almirante Schultz”, safou-se na maré da tarde.

Imagem do navio-balizador "Almirante Schultz", em Leixões
Minha colecção

Características do navio balizador “Almirante Schultz”
Armador: Marinha de Guerra
Nº Oficial (Armada): 70 - Iic: C.T.B.O. - Porto de armamento: Lisboa
Data de lançamento: 1929 – Material do casco: Aço
Deslocamento standard: 529,45 tons
Deslocamento normal: 538,35 tons
Deslocamento máximo: 547,25 tons
Arqueação: Tab 547,55 tons - Tal 380,65 tons
Dimensões: Pp 40,00 mts - Boca 9,50 mts - Pontal 4,00 mts
Autonomia: 2.300 milhas
Propulsão: 1 motor diesel - 2x250 Bhp - 11,5 m/h

O caso só tem importância pelo que significa o assoreamento da barra. Por um lado, pedra, por outro, areia. Nestas circunstâncias, a navegação tem de ser feita com riscos. Basta uma rajada de vento mais forte, que foi o que aconteceu hoje, ou uma vaga alterosa para os navios enfrentarem situações de perigo.
O quebramento da rocha submersa na entrada da barra e a dragagem correspondente, afiguram-se como medidas urgentes e necessárias.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 10 de Fevereiro de 1946)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXXVI)


O naufrágio do lugre "Nossa Senhora da Agonia"

O lugre “Nossa Senhora da Agonia” afundou-se perto
da costa marroquina, salvando-se a tripulação
Devido ao temporal, afundou-se, há dias, perto da costa marroquina, o lugre português “Nossa Senhora da Agonia”, cuja tripulação foi salva e conduzida para Argel.
Face à dificuldade de transportes será demorada a repatriação. Três dos tripulantes embarcaram no lugre “Vitorioso”, que hoje ou amanhã chega ao Tejo, e os restantes regressarão oportunamente ao nosso país.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 13 de Janeiro de 1946)

Imagem do lugre "Nossa Senhora da Agonia" (2º)
Minha colecção

Características do lugre “Nossa Senhora da Agonia”
1942 – 1945
Armador: Soc. Navegação Costeira Nª Sª da Agonia, Lda., V. do Castelo
Nº Oficial: A-51 - Iic: C.S.G.Y. - Porto de matrícula: Viana do Castelo
Construtor: Harpswell Shipyard, Massachussets, E.U., Maio de 1874
ex lugre-patacho “Carrie D. Allen”, F.M. Lan, Mass., E.U., 1874-1887
ex lugre-patacho “Júlia 2º”, A. Mariano & Irmão, Lisboa, 1887-1915
- Reconstruído na Figueira da Foz durante o ano de 1903
ex lugre “Júlia 2º”, Atlântica- Comp. Port. de Pesca, Lisboa, 1915-1937
ex lugre “Atalante Primeiro”, Mesquita & Santiago, Viana, 1937-1941
- Reconstruído em Viana do Castelo durante o ano de 1938
Naufragou no estuário do rio Sado, sob violento ciclone, em 15.2.1941
- Recuperado e reconstruído em Setúbal durante o ano de 1942
Arqueação: Tab 206,80 tons - Tal 146,52 tons
Dimensões: Ff 37,30 mts - Pp 32,60 mts - Bc 7,85 mts - Ptl 3,60 mts
Propulsão: Skandia, Suécia, 1937 - 1:Sd - 2:Ci 130 Bhp - Veloc. 9 m/h
Equipagem: 9 tripulantes

Depois de reparado esteve matriculado em Setúbal à ordem da firma que procedeu à reparação. Vendido, passa à propriedade da Soc. Navegação Costeira Nossa Senhora da Agonia, e renova a matrícula na capitania de Viana do Castelo. Naufragou em 19 de Dezembro de 1945.

O naufrágio do “Nossa Senhora da Agonia”
Os três náufragos do lugre “Nossa Senhora da Agonia”, que chegaram ante-ontem, no “Vitorioso”, estiveram na Capitania do porto de Lisboa, a fim de prestarem declarações sobre a forma como se deu o sinistro. Aguarda-se a chegada do comandante do navio naufragado, para ser elaborado o respectivo relatório.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 15 de Janeiro de 1946)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXXXV)


O naufrágio do palhabote francês "Thomas L. Agnelet"

No vapor “S. Miguel”, procedente das ilhas, chegaram ontem a Lisboa 12 náufragos do palhabote francês “Thomas L’Agnelet”, que soçobrou na noite de 28 do mês passado, a 250 milhas da ilha da Madeira, tendo sido os náufragos recolhidos pelo lugre “Autonómico Açoriano”, da praça de Ponta Delgada, de que é capitão o Sr. Caetano José Madeira, o qual ia de Lisboa, com carga diversa, com rumo à ilha de S. Miguel.
O palhabote francês, belo navio de três (?) mastros, de 374 toneladas, comandado pelo seu armador, o capitão Eric de Basschop, bretão como todos os tripulantes, saíra do Havre no dia 10 e dirigia-se em lastro à República de S. Salvador, a fim de trazer para aquela cidade francesa uma carga de madeira.
Três dias antes de naufragar, o navio foi acossado por um violento temporal, que se manteve ininterruptamente, obrigando os marinheiros aos maiores sacrifícios. Quando já tinham pouca esperança de salvamento, pouco depois do meio-dia de 26, avistaram ao longe o “Autonómico Açoriano” e içaram o sinal de socorro, que foi visto de bordo do navio português, o qual avançou imediatamente, debaixo da grande tempestade a socorrer os infelizes.
Para chegarem à fala tiveram enorme trabalho, tal como na aproximação ao navio, a fim de procederem ao salvamento.
O palhabote francês metia água e os esforços dos marinheiros eram impotentes para a esgotar. Então, o comandante começou a passar para bordo do navio português os seus tripulantes, ficando ali apenas com o imediato, um oficial de nome Le Dorty, um piloto e um marinheiro. Depois entraram na faina de transportar para bordo do “Autonómico Açoriano” os víveres que tinham no palhabote.
Nestes trabalhos estiveram ocupados toda a tarde e parte da noite, gastando ainda algum tempo na transferência para bordo do navio português de roupa dos náufragos e dos aparelhos de marear. Cerca da meia-noite o navio francês começou a ir a pique, e os quatro tripulantes que tinham ficado a bordo, tiveram que saltar também para bordo do “Autonómico Açoriano”.

Desenho de navio do tipo palhabote, sem correspondência ao texto

Dois dias andou este ainda navegando sob a fúria da tempestade e outros seis gastou para chegar a S. Miguel, onde os náufragos, enfim, desembarcaram em Ponta Delgada, dirigindo-se às autoridades marítimas e ao consulado francês, onde receberam agasalhos, tendo-se revelado difícil a hospedagem na cidade, tal a quantidade de emigrantes, que ali esperava o vapor com destino à América.
Os 12 náufragos, que melhor não podem dizer do socorro que lhes foi prestado pelos portugueses, para eles cheios de carinho e de dedicação, procuraram ontem em Lisboa as autoridades consulares do seu país, ficando todos hospedados no Hotel de France, onde ficarão até sexta-feira, dia em que embarcam no “Lutetia” para Marselha, praça a que pertence o navio naufragado. A bordo vinha também a esposa do capitão, que foi igualmente salva pelo navio português.
No vapor “S. Miguel”, que trouxe os náufragos para Lisboa, vieram mais 143 passageiros e 48 bois.
(Jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 11 de Novembro de 1920)