quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Pesca do bacalhau


A bênção da frota bacalhoeira em 1947


À bênção da frota bacalhoeira que ontem se realizou em Belém
presidiu o Rev. mo Bispo de Helenópole e assistiram membros
do Governo e entidades oficiais
Com o já habitual esplendor e solenidade, realizou-se ontem, de manhã, no histórico e glorioso templo de Santa Maria de Belém, a bênção dos lugres bacalhoeiros que horas depois começaram a partir para os bancos da Gronelândia e da Terra Nova.
Presidiu Sua Ex.ª Rev.ma o sr. Bispo de Helenópole que celebrou missa no templo dos Jerónimos, tendo, no final lançado a bênção ritual aos lugres. O sr. D. Manuel Trindade Salgueiro chegou à igreja de Belém, pouco depois das 10 horas da manhã, acompanhado pelo beneficiado José Correia da Cunha.
Aguardavam o prelado à porta do templo Mons. Gonçalo Nogueira, prior de Santa Maria de Belém; rev. Armando da Anunciação, capelão da frota bacalhoeira; comandante Henrique Tenreiro, presidente da Comissão Central das Casas dos Pescadores; Engº. Higino de Queiroz, presidente da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau; Otero Salgado, presidente do Grémio dos Armadores de Bacalhau, capitães dos vários lugres da frota, alunos das Casas de Pescadores, etc.
Após receber os cumprimentos dos presentes, o sr. Bispo de Helenopole seguiu processionalmente para a capela-mor do templo, onde depois de breve oração ao Santíssimo Sacramento se paramentou a fim de dar início ao Santo Sacrifício, acolitado pelos Revs. Mons. Gonçalo Nogueira, beneficiados Correia da Cunha, Marques Ferreira e Paulo Marques e Rev. Armando da Anunciação.
Na capela-mor tomaram lugar a Srª Embaixatriz de Inglaterra, os Srs. Ministros da Marinha e da Economia e subsecretários de Estado das Corporações, Previdência Social e do Comércio e Indústria, Major-general da Armada, Superintendente Geral da Armada, Director dos Serviços Marítimos, capitão do porto de Lisboa, muitos oficiais da Armada, capitães e oficiais dos vários lugres bacalhoeiros, directores dos vários Grémios de Pesca, representantes de Casas dos Pescadores de todo o País, armadores da pesca do bacalhau, etc.
A guarda de honra ao altar-mor foi feita por alunos das Escolas de Pescadores do Bom Sucesso e de Cascais. No transepto tomaram lugar os pescadores da frota e suas famílias. Às lavandas serviram ao sr. Bispo de Helenópole alguns dos tripulantes dos lugres. Ao «elevar a Deus» a fanfarra da Escola de Pescadores tocou uma marcha de continência.
Depois à comunhão acercaram-se da sagrada mesa os alunos da Escola de Pescadores, capitães, oficiais e membros da frota e muitas pessoas da família destes.

A alocução do sr. Bispo de Helenópole
Terminada a missa o sr. Bispo de Helenópole paramentado de pluvial, mitra e báculo tomou lugar no faldistório de onde dirigiu a sua alocução aos pescadores:
«Mais uma vez – comentou o sr. D. Manuel Trindade Salgueiro – tudo se apresta para a largada dos lugres para os bancos da Gronelândia e da Terra Nova. Uma nova campanha de pesca vai começar.
Como já um dia disse, Pescadores de Portugal, a Economia Nacional tem necessidade do vosso esforço abnegado e forte; as vossas famílias têm necessidade do vosso sacrifício de cada dia e de cada hora; Vós próprios tendes necessidade material e moral dessa labuta ingente que não podeis dispensar.
Na realidade vós não podeis viver sem o mar. E até mesmo quando em horas de revolta e tempestade fazeis o propósito de não voltar ao mar breve vos chega a nostalgia daquele amigo de todas as horas e decorridos dias, quando muito umas semanas eis que de novo sentis a atracção do abismo.
E a propósito o sr. Bispo de Helenópole evoca a figura do velho e glorioso arrais Ançã que alquebrado de anos e privações ia até à beira-mar, fazendo fala com a mão olhando a extensão infinita. Quantas recordações, quantas lembranças não desfilariam naqueles diálogos mudos. O velho arrais já não podia ir ao mar mas dir-se-ia que a sua alma continuava no Mar, como o Mar continuava na sua alma.
E o sr. D. Manuel Trindade Salgueiro continuou:- A nossa epopeia marítima nasceu dessa atracção pelo Mar. Já se escreveu que Portugal nesga de território vive entre dois azuis religiosos: o azul do céu e o azul do Mar.
Para iniciar a vossa árdua e quantas vezes heróica tarefa vai realizar-se dentro de pouco a procissão do Mar, a procissão dos lugres. E eu estou vendo em espírito aquelas outras procissões dos nossos pescadores, homens fortes e tisnados cultuando e glorificando o Senhor Jesus dos Navegantes prestando preito e veneração aos santos da sua devoção, procissões ordeiras, magnificas de respeito e esplendor.
É diferente agora esta procissão que vai sulcar as águas. Não terá o mesmo método, a mesma ordem das outras que se realizam em terra porque são fortes os ventos, alterosas e bravias as correntes, mas será uma procissão singular. De dia caminhará sob a luz acariciante do sol criador, de noite será alumiada pelos potentes holofotes de bombordo e estibordo.
E esta procissão inigualável é também uma procissão de penitência. Os que partem levam na alma, no coração, as imagens queridas dos pais, das mães, dos filhos, das esposas, dos irmãos, das irmãs, das noivas, enfim das pessoas queridas. Os que partem levam saudades, os que ficam saudades têm. É uma hora de esperança a da partida mas, também, uma hora amarga de dor.
Procissão de penitência, primeiro pela viagem que pode ser tormentosa, depois pela dureza da faina, desde o levantar ferro ao levantar o peixe com as mãos enregeladas, curtindo o frio agreste e cortante da Gronelândia e da Terra Nova, o regresso ao navio, a salgagem, a luta de semanas que em certo modo é uma luta heróica.
Procissão de penitência, mas procissão religiosa. O Mar já por si é uma imagem do próprio Deus. Nem sequer o compreendemos mas existe, como existe Deus. Deus existe, está presente em toda a parte, mas parece que nessa amplidão imensa do mar se sente mais forte a sua presença invisível, mas sempre real.
Procissão religiosa! Quem nasceu nas terras da beira-mar, terras por excelência de fé, não pode esquecer, por um momento sequer, essa cerimónia chocante que é sempre a despedida dos que se lançam à faina do mar das imagens da sua devoção: o Senhor Jesus dos Navegantes, a Senhora da Encarnação, a Senhora da Nazaré, a Senhora da Esperança.
Talvez rezem pouco. Mas toda a sua vida é já uma oração constante. Por isso esta nova campanha tinha de começar por uma cerimónia religiosa. Há pouco coloquei na patena as vossas intenções no sacrifício que ofereci por vós ao Senhor. E era bem que esta cerimónia se realizasse neste templo, onde todas as pedras velhinhas de séculos nos falam de glória de um passado magnífico e heróico de gente do mar.
Foi daqui, destas paragens, da antiga praia do Restelo, que saíram os navegadores em procissão para as caravelas que haviam de dar mundos ao mundo».
E o sr. D. Manuel Trindade Salgueiro, terminou: «Depois será o regresso. Ter-se-ão desfeito as dores logo transformadas em alegrias. E bom seria que nessa hora se realizasse um ofício de acção de graças. Dentro em pouco começará esta nova e singular procissão: velas desfraldadas, motores roncando e depois o caminho largo do Mar imenso. E eu digo como na liturgia quando se iniciam as procissões: “Ide e caminhai em paz”. Mas ainda acrescentarei: “E regressai em bem. Ide em paz na graça do Senhor e voltai com alegria sob as bênçãos de Deus».

Condecoração de dois pescadores
Seguidamente o sr. Ministro da Marinha condecorou junto do altar-mor e na presença do sr. Bispo de Helenópole os pescadores José Matias de Oliveira e Benjamim Alexandre Branco, ambos do lugre “Hortense” que na campanha passada, nos mares da Terra Nova arriscaram a vida para salvar um companheiro em perigo.
Por último organizou-se, de novo o cortejo que conduziu sob o pálio aquele prelado até à porta principal dos Jerónimos, donde o sr. D. Manuel Trindade Salgueiro lançou a bênção do ritual aos 32 lugres que embandeirados em arco se encontravam entre as praças do Império e Afonso de Albuquerque. Às varas do pálio pegaram sempre os capitães e oficiais da frota bacalhoeira.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 21 de Abril de 1947)

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Coincidência!...


O encalhe do paquete “Queen Elizabeth”, há 67 anos

Foto do paquete "Queen Elizabeth"
Postal ilustrado - minha colecção

O maior paquete do mundo encalhou, à entrada de Southampton,
com quase dois mil e quinhentos passageiros a bordo
Southampton, 14 – O maior paquete do mundo, o “Queen Elizabeth”, de 85 mil toneladas, está encalhado na entrada das águas de Southampton. O navio devia aqui chegar esta noite. Estão a bordo 2.446 passageiros. O paquete está parado desde as 16 horas e 30 minutos e 7 rebocadores estão a tentar desencalhá-lo.
O denso nevoeiro tem retardado hoje a entrada dos navios no porto de Southampton. O capitão de um navio americano declarou que o seu navio esteve detido durante seis horas e que, por vezes «era impossível ver a água». Um paquete britânico, vindo de Hong-Kong, sofreu quatro horas de atraso e declarou que, em determinadas alturas o nevoeiro era tão cerrado que se tornava impossível, da ponte, avistar-se o mastro principal.
Nas suas últimas viagens, em Southampton, a tempestade fez com que o “Queen Elizabeth” perdesse a maré e sofresse várias horas de atraso. Confirmou-se, depois, que o “Queen Elizabeth” encalhou a cerca de 12 quilómetros em linha recta das docas. É julgado improvável que o navio possa ser desencalhado antes da maré alta, às 6 horas de amanhã.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 15 de Abril de 1947)

sábado, 12 de Abril de 2014

Divulgação


Projecto "Jovens e o mar"


CREOULA RUMO AO MAR DO NORTE COM A APORVELA
VERÃO 2014

A Aporvela volta este verão a fazer uma travessia no NTM Creoula no âmbito do programa “Jovens e o Mar” que, todos os anos, dá aos jovens a partir dos 14 anos a oportunidade de embarcar num grande veleiro e experimentar a vida no mar, fazendo parte de uma tripulação.

De dia 21 Junho a 31 de Julho, com partida no Alfeite, a Aporvela e o NTM Creoula irão navegar em direcção ao Mar do Norte e às famosas The Tall Ships Races. As escalas do navio passarão por Cherbourg (França), Harlingen (Holanda), Fredrikstad (Noruega), Antuérpia (Bélgica) e Avilés (Espanha).

A Aporvela convida a população portuguesa a experimentar a vida a bordo de um dos barcos mais emblemáticos de Portugal, fazendo parte da tripulação e participando em todas as actividades que permitem a navegação do NTM Creoula como por exemplo: ver cartas náuticas, estar ao leme, manobrar as velas, aprender a fazer nós, fazer a manutenção e limpeza do Creoula, tudo isto com o mar e a mais bela paisagem do nosso país no teu horizonte.

O NTM Creoula é um lugre de quatro mastros e 67 metros de comprimento com capacidade para 51 instruendos. O treino de mar é assegurado pela guarnição da Marinha Portuguesa, em número propositadamente reduzido com o objectivo de dar aos recém-chegados instruendos a oportunidade de participar em todas as manobras e tarefas. A bordo segue também uma equipa de monitores da Aporvela que irão organizar os turnos, promover a animação geral da tripulação e fazer todo o tipo de actividades relacionadas com o Mar.

Contactos: As reservas de lugares e pedidos de informação devem ser feitas para a Aporvela: geral@aporvela.pt ou para o telefone 218 876 854.
Mais informações em www.aporvela.pt e www.jovenseomar.com

Datas e preços:
Alfeite – Cherbourg 21/06-29/06 – completo
Cherbourg – Harlingen 29/06 – 05/07 – 420€
Harlingen – Fredrikstad 05/07 – 14/07 – 600€ (Tall Ships Race)
Fredrikstad – Antuérpia 14/07 – 22/07 540€
Antuérpia – Avilés 22/07 – 31/07 – 540€
Nota: estes preços não incluem as viagens de deslocação até ao porto de embarque e de regresso a Portugal.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

História trágico-marítima (CXXXV)


O encalhe do vapor "Kurt Hartwig Siemers", no rio Douro

Sinistro marítimo
Ontem (28.12.1927), cerca das 15 horas e trinta minutos, quando o vapor alemão “Kurt Hartwig Siemers” demandava a barra do Douro, devido à forte corrente de água, desgovernou em frente à «Ponta do Dente» e, descaindo para estibordo, foi encalhar num banco de areia, que a força da corrente havia arrastado dos lados do Cabedelo.
Reclamados os socorros, compareceram imediatamente os rebocadores “Magnete” e o “Burnay IIº”, que tentando lançar amarretas à popa do vapor encalhado, não o conseguiram, em virtude dos cabos se terem partido.
Chegando, então, mais dois rebocadores, o “Lusitânia” e o “América”, este da praça de Lisboa, sempre conseguiram lançar as amarretas à proa e à popa do “Kurt Hartwig Siemers”, que, puxado violentamente e com o auxílio da sua própria propulsão, conseguiu safar-se e rumar a caminho de Leixões, onde fundeou depois das 6 horas da tarde.
Supõe-se que o “Kurt Hartwig Siemers”, que desloca 647 toneladas e trazia para o Porto, desde Port Talbot, um grande carregamento de carvão para a C.P. – sofreu, além do forte impulso da água, alguma avaria nas máquinas.
No local do sinistro compareceram também o salva-vidas da Afurada e os rebocadores “Audaz” e “Mars 2º”. Estes não chegaram a ser utilizados e aquele auxiliou eficazmente o “América” a lançar a amarreta.
O piloto que guiava o “Kurt Hartwig Siemers” era o sr. Afonso Costa Pinto que, como se compreende, nenhuma responsabilidade teve no desastre – que se explica deste modo; devido à forte corrente de água, da praia do Cabedelo foi arrastado um largo banco de areia que, saindo fora da barra, se firmou a pouca distância da saída do rio. Foi nesse banco que o navio encalhou – que, ao que consta apenas sofreu ligeiras avarias.
(In “Jornal de Notícias”, quinta, 29 de Dezembro de 1927)

Desenho de um vapor, sem correspondência ao texto

Identificação do vapor “Kurt Hartwig Siemers”
Armador: G.J.H. Siemers & Co., Hamburgo, 1922-1943
Construtor: Wilton’s E & Slpwy. Co., Roterdão, 01.1918
ex “Graaf Lodewijk”, Scheepv. “Oranje”, Nassau, 1918-1922
Arqueação: Tab 1.147,00 tons - Tal 662,00 tons
Dimensões: Pp 70,17 mts - Boca 10,36 mts - Pontal 4,02 mts
Propulsão: Wilton’s, Roterdão - 1:Te - 3:Ci - 124 Nhp - 9 m/h
O navio perdeu-se por encalhe em Klockfotsrev, próximo a Nidingen, Suécia, em 11 de Fevereiro de 1943, quando em viagem de Gotemburgo para a Alemanha, com um carregamento de papel.

Na barra do Douro – O encalhe do vapor alemão
Ontem, à tarde, auxiliado pelo rebocador “Lusitânia”, entrou a barra do Douro o vapor alemão “Kurt Hartwig Siemers”, que, ao tentar, ante-ontem, fazer a mesma manobra, encalhou num banco de areia, que se havia deslocado da praia do Cabedelo.
A propósito do sinistro sofrido pelo “Kurt Hartwig Siemers”, informações colhidas ontem na Foz, asseguram que o rebocador “Lusitânia” foi que, depois de cerca de 3 quartos de hora de violentos esforços conseguiu safá-lo. Depois disso é que o rebocador “América”, o outro rebocador de Lisboa, ajudou, também, a levar o vapor alemão até Leixões.
Entretanto, contrariando um pouco a primeira versão, o mestre do rebocador “América”, no próprio dia do sinistro, à noite, disse que, tendo o “Lusitânia” lançado uma amarreta à proa do “Kurt Hartwig Siemers”, o “América”, que lhe pegou pela popa, foi quem, com os seus empurrões, o conseguiu safar e rebocar para o canal navegável.
Como à volta deste assunto giram interesses materiais – todos defensáveis -, aqui ficam as duas versões, para que se não diga que foi tomado partido no assunto. A quem competir, em última instância, que resolva o caso como fôr de justiça.
(In “Jornal de Notícias”, sexta, 30 de Dezembro de 1927)

sábado, 5 de Abril de 2014

História trágico-marítima (CXXXIV)


O encalhe da barca “Die Matrone”

Imagem sem correspondência ao texto

Sinistro marítimo
Ontem (17.07.1864), perto das 2 horas da tarde, vindo a entrar a barra uma barca russiana, encalhou na restinga de areia próxima das pedras de «Felgueiras», ficando em seco. A barca denomina-se “Die Matrone”, capitão Lopp, e vinha de Riga em 28 dias de viagem, com um carregamento de aduela consignado ao sr. Miguel de Souza Guedes.
Em consequência da maré estar na vazante, resolveram os pilotos que o navio fosse aliviado da carga para ver se poderia ser safo na maré da noite, e assim aconteceu.
Uma parte da aduela foi descarregada para catraias, e pela 1 hora da noite a barca pôde ser desencalhada com o auxílio do vapor de reboques “Foz do Douro”, achando-se já fundeada no rio Douro, sem ter sofrido avaria. Valeu de muito para o excelente resultado do desencalhe do navio o bom estado do mar.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 18 de Julho de 1864)

terça-feira, 1 de Abril de 2014

O "Aidaluna" em Leixões


O primeiro "Aida" a fazer escala por Leixões


O primeiro navio da Aida Cruises a visitar o porto, passou neste 1º de Abril por Leixões, trazendo como proposta um enorme beijo às novas instalações portuárias locais, para navios de cruzeiro, que ainda não estão completamente prontas, mas que caminham a passos largos nesse sentido.




O navio chegou ao porto bem cedo, procedente do Funchal, mas o dia muito chuvoso não correspondeu às melhores expectativas, para ajudar à festa de boas vindas preparada para o efeito.
Mesmo assim, Leixões congratula-se com a presença em porto de mais um navio, a realizar uma primeira escala entre várias outras já anunciadas, tendo saído a meio da tarde com destino à Corunha. Para breve estão também programados o regresso do navio norueguês "Fram", a que se seguirá nova visita do "Funchal".

domingo, 30 de Março de 2014

Memórias dum passado recente!... (XI)


A chegada do aviso “Gonçalves Zarco” a Lisboa

A nova esquadra - O “Gonçalves Zarco”
chega amanhã a Cascais, pelas 9 horas da manhã
O aviso “Gonçalves Zarco” deve chegar amanhã a Cascais, pelas 9 horas, vindo depois para o quadro dos navios de guerra, amarrando à sua bóia pelas 11 horas.
Tal como foi antecipado, vão esperá-lo fora da barra o contra-torpedeiro “Tâmega” e os torpedeiros “Liz”, “Mondego”, “Sado” e “Ave”, que acompanharão o “Gonçalves Zarco” até à altura de Santos, a fim de o navio poder depois manobrar à vontade.
Este navio, desde Cascais, navegará sempre pelo norte, isto é, o mais próximo de terra, para poder ser melhor apreciado pelas pessoas que estiverem na margem norte do Tejo.
Logo que o navio fundeie, vão a bordo os srs. Ministro da Marinha, do Interior e da Guerra, e provavelmente o da Justiça, o comandante Geral da Armada, o chefe do Estado Maior Naval e pessoas dos gabinetes dos ministros.
Os discursos a bordo serão proferidos pelo sr. Ministro da Marinha e pelo Capitão-de-Fragata Quintão Meireles, comandante do navio. Vão, também, esperá-lo dois hidro-aviões.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 1 de Setembro de 1933)

Postal do aviso "Gonçalves Zarco" - edição da Marinha Portuguesa,
com a legenda «chegada do navio ao Tejo, 1 de Setembro de 1933»

Editorial - A nova esquadra
Chegou ontem ao Tejo, num ambiente festivo e acariciador, o novo aviso “Gonçalves Zarco”, que vem acamaradar orgulhosamente com o “Gonçalo Velho” e o “Vouga”.
Portugal, possuidor de um domínio colonial que lhe deve dar justa hegemonia no contexto das nações, tem absoluta necessidade de manter marinha que seja digna do nosso passado de povo de marinheiros e seja, ao mesmo tempo, nos dias angustiosos e nebulosos que passam, uma afirmação de vitalidade, uma presença efectiva que, não pretendendo tornar-se agressiva, deve, contudo, posicionar-se como realidade defensiva.
O Império Colonial merece a marinha de guerra e mercante, imprescindível nestes tempos que correm às nacionalidades que presem marcar o seu lugar perante o mundo internacional. A nossa época é de afirmações. E mal vai aos países que preferem às informações o negativismo e o desanimo. O “Gonçalves Zarco” é uma afirmação não do nosso valor, mas, como timbre das possibilidades da nossa acção.
O nome foi bem escolhido: João Gonçalves Zarco, fidalgo cavaleiro, pertenceu à Casa do Infante D. Henrique. Desde muito novo, seguiu a carreira marítima, exercendo, por mais de uma vez, o comando difícil das caravelas que guardavam as costas do Algarve. Foi Gonçalves Zarco o primeiro a oferecer-se ao Infante D. Henrique, quando este iniciou as explorações nesses «mares nunca dantes navegados».
Aproveitando-se do oferecimento, em 1418, o Infante D. Henrique mandou preparar um barco, entregando o comando dele a Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Chegou o barco a uma ilha, então chamada Porto Santo. Gonçalves Zarco regressou à Pátria, dando conta dos resultados da sua missão. Passado tempo, começou a colonização da ilha, ordenando o Infante D. Henrique a Gonçalves Zarco e Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo. Nesta segunda viagem descobriram a ilha da Madeira que foi circum-navegada.
Regressando a Portugal, Gonçalves Zarco foi honrado pelo Infante D. Henrique, que lhe deu por armas escudo em campo azul verde, com uma torre de menagem e cruz de ouro.
Marinheiro, colonizador, Gonçalves Zarco foi também guerreiro. O seu valor valeu-lhe ser armado cavaleiro, em Tanger. O mais curioso é que se afirma, se bem que historicamente não esteja provado, que foi Gonçalves Zarco quem primeiro utilizou artilharia a bordo. Por todos esses motivos, o nome de Gonçalves Zarco quadra bem ao novo aviso de guerra que triunfalmente entrou, ontem, em Lisboa.
Sendo uma afirmação da nossa vida presente, é uma recordação heróica dum passado, que não podemos esquecer. (a) V.G.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Setembro de 1933)

A nova esquadra - Chegou hoje ao Tejo o aviso
“Gonçalves Zarco”, que foi entusiasticamente saudado
Apesar de se prever que, devido ao nevoeiro, o novo aviso “Gonçalves Zarco” não pudesse chegar ao Tejo à hora anunciada, aquela unidade de guerra entrou no quadro às 11 horas em ponto, por ter aumentado de 12 para 18 milhas a sua velocidade logo que a cerração levantou.

A recepção em Cascais
Ao largo de Cascais, o novo navio de guerra foi recebido por uma esquadrilha constituída pelo contra-torpedeiro “Tâmega” e pelos torpedeiros “Mondego”, “Liz”, “Sado” e “Ave” e ainda por dois vapores com populares e alguns barcos de recreio com banhistas da Costa do Sol. Nos navios de guerra houve as continências regulamentares e nos mercantes estrugiram salvas de palmas e vivas entusiásticos.
Nas praias do Estoril e Cascais, centenas de pessoas assistiram à chegada do terceiro navio do programa naval. Três hidro-aviões voavam baixo. Um aparelho do grupo de bombardeamento de Alverca lançou proclamações, convidando o povo a receber mais uma unidade da nova esquadra.

O cortejo
Eram 11 horas, quando se formou um cortejo com rumo à barra. Passou para a cabeça da formatura o contra-torpedeiro “Tâmega”, seguindo nas suas águas o novo aviso “Gonçalves Zarco”, ladeado a bombordo pelos torpedeiros “Liz” e “Sado” e a estibordo pelos “Mondego” e “Ave”. Todos tinham embandeirados os topes. Na cauda da formatura seguiam barcos com muitos populares, enquanto os hidro-aviões iam evolucionando sempre a pouca altura.
A chegada ao Tejo
Pelas 10 horas o cortejo estava entre torres. Na barra havia outros barcos aguardando a sua chegada e pelas margens e pontos altos grupos de populares admiravam o belo efeito da formatura.
Em frente de Algés foi o cortejo engrossado por mais um rebocador, o “Falcão” – que conduzia os srs Adam, conselheiro da embaixada britânica, o cônsul geral da Inglaterra, sr. Robi Rowell, o director da casa Hawthorne Leslie, construtora do novo navio, o sr. Stilwell, seu representante em Lisboa e muitas senhoras da colónia inglesa.
Soaram as salvas em frente da Torre de Belém. A artilharia anti-aérea do aviso “Gonçalves Zarco” deu 21 tiros numa saudação à terra portuguesa, respondendo-lhe o Forte do Bom Sucesso. E o cortejo seguia a uma velocidade de 12 milhas.
Às 11 horas em ponto o aviso “Gonçalves Zarco”, de peças desencapotadas, com as suas bocas cobertas com placas metálicas onde reluziam os escudos nacionais, entrava no quadro perante um enxame dos navios de guerra e mercantes dificultando estes últimos, por vezes, a marcha do navio. Na Praça do Comércio havia centenas de pessoas e as janelas dos ministérios estavam cheias.
Subiram, então, nos mastros de todos os barcos da esquadra portuguesa surta no Tejo, bandeiras de saudação e as guarnições formavam nas toldas. Só os antigos vasos de guerra “Vasco da Gama” e “Adamastor”, condenados já por medida oportuna, se conservavam impassíveis e com as toldas limpas de marinheiros.
O “Gonçalves Zarco” descrevendo uma curva, passou pela popa da “Sagres”, dirigindo-se para a baía que lhe estava destinada, próximo do seu irmão gémeo, o “Gonçalo Velho”. Por uma deferência cativante do sr. Capitão-de-Fragata Afonso de Carvalho, sub-director dos serviços de marinha, o rebocador “Azinheira” largou do Arsenal de Marinha cheio de repórteres dos jornais de Lisboa e Porto e de muitos fotógrafos correspondentes de jornais estrangeiros.
Entretanto o aviso “Gonçalves Zarco” rodeado de embarcações que lhe dificultavam as manobras, amarrava à bóia às 11 horas e quinze minutos. Nesse momento, as sirenes e buzinas dos navios apitaram largamente numa saudação entusiástica ao novo navio de guerra, formando um coro ensurdecedor, de mistura com vivas e salvas de palmas.
Todos os navios da esquadra estavam embandeirados nos topos, e os torpedeiros que haviam dado escolta ao Gonçalves Zarco dirigiram-se lestos para as suas boias. Só o “Mondego” não o pode fazer desde logo, porque esteve algum tempo com avaria no leme, não chegando, porém, a utilizar reboque por ter seguido pelos seus próprios meios para a bóia.

A visita do governo a bordo
Eram 11 horas e trinta minutos quando dois gasolinas que conduziram os membros do governo e alguns oficiais do comando da Armada, atracou ao portaló do “Gonçalves Zarco”. No convés superior, o sr. Comandante Quintão Meireles, em uniforme de gala, aguardava os visitantes. Os oficiais alinhavam na tolda e a guarnição estava formada. Subiu em primeiro lugar o sr. Ministro da Marinha, seguido pelos seus colegas da Guerra, Interior e da Instrução e do sub-secretário de Estado das Finanças, almirante Saavedra Melo Cabral, comandantes Filomeno da Câmara e Oliveira Mozante e pessoal do gabinete dos ministros. Houve toques de sentido de bordo das embarcações que cercavam o novo navio, e o público saudou a entrada do Governo com uma salva de palmas.
Iniciou-se, após os cumprimentos, uma visita ao navio, que é, como se sabe, igual ao “Gonçalo Velho”, e que se apresenta impecável. Na sala dos oficiais e num quadro encimado por duas cruzes de Cristo lêem-se estas palavras em iluminura: Gonçalves Zarco – Guerreiro e navegador do século XV. Combateu valorosamente em Ceuta e em Tanger, onde foi armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique. Descobriu o Arquipélago da Madeira. Teve mercês e uma das duas capitanias em que foi dividida a Madeira. Houve de 1861 a 1876 uma canhoneira chamada Zarco, em memória deste navegador.
Terminada a visita ao navio, foi servida, na câmara do comandante, uma taça de champanhe em honra dos visitantes.

O discurso do comandante do “Gonçalves Zarco”
Usou, então, da palavra o sr. Capitão-de-fragata Quintão Meireles, que na sua qualidade de comandante, agradeceu a visita do Governo, congratulando-se com a continuidade da execução do programa naval.
Referiu-se à vida nova da Marinha, dizendo que é preciso intensificar a instrução do pessoal no mar, para que os marinheiros se acostumem aos seus navios e remunerar convenientemente os oficiais e as praças, para que essas não precisem de dividir a sua atenção por outras profissões, em prejuízo da Corporação. E terminou com uma saudação ao Governo e em especial ao sr. Ministro da Marinha.

O discurso do sr. Ministro da Marinha
Falou depois o sr. Comandante Mesquita Guimarães, Ministro da Marinha, que disse concordar com o pensamento do sr. Comandante Quintão Meireles, esperando que a pouco e pouco tudo se vá resolvendo, como tantas outras necessidades se têm solucionado. Como chefe da Corporação e como marinheiro, disse regozijar-se com a chegada de mais um navio novo, cujos tripulantes saudava. No final do discurso os membros do Governo cumprimentaram efusivamente o sr. Comandante Quintão Meireles. Pelas 13 horas, os membros do Governo e oficialidade superior da Armada abandonaram o navio, repetindo-se as continências da ordenança.
O sr. Comandante Quintão Meireles declarou aos jornalistas que o navio provou muito bem, que foram feitos trabalhos para evitar temperaturas excessivas na casa das caldeiras e que a empresa construtora Hawthorne Leslie satisfez plenamente as condições do contrato.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Setembro de 1933)

Identificação do aviso de 2ª classe “Gonçalves Zarco”
(Em comissão de serviço entre 1933 e 1964)
Nº Oficial: F475 (1946) - Iic.: C.T.B.C. - Registo: Lisboa
Construtor: Hawthorne Leslie & Co., Ltd., Hebburn, G.B., 1932
Arqueação: Tab 1.265,74 tons - Tal 357,26 tons
Deslocamento: St 966,00 ts - Mx 1.435,61 ts - Nm 1.173,48 ts
Dimensões: Pp 76,20 mts - Boca 10,82 mts - Pontal 5,18 mts
Propulsão: Do construtor - 2:Tv - 2x1000 Bhp - 17 m/h
Equipagem: 147 tripulantes

A nova esquadra portuguesa
A chegada ao Tejo do aviso “Gonçalves Zarco”
- O sr. Ministro da Marinha tem recebido grande número de telegramas de diferentes pontos do país, saudando-o pela chagada ao Tejo de mais um novo navio de guerra.
- Vai ser completada a guarnição do “Gonçalves Zarco”, que veio de Inglaterra com a sua tripulação muito reduzida. O referido navio irá mais tarde para o mar proceder a vários exercícios para a instrução e adestramento do seu pessoal.
- No dia 9 do corrente, devem seguir para Inglaterra, a fim de servir na missão naval portuguesa, o sr. Capitão-tenente Antero do Amaral, e para embarcar no contra-torpedeiro “Lima”, para fazerem parte da guarnição que o há-de trazer para Lisboa, o sr. Primeiro-tenente Santiago da Silva Ponce, o Segundo-tenente Fernando Pascoal da Veiga Oliveira, um sargento e dezoito praças.
- Este navio tem andado ali a fazer experiências, devendo terminá-las a 20 do corrente.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 3 de Setembro de 1933)