domingo, 2 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A insólita história do lugre "Clemencia"!

Lugre “Clemencia”
Está marcado o dia 27 do corrente, quarta-feira próxima, para o lançamento à água, do magnífico navio “Clemencia”, construído nos estaleiros da Póvoa de Varzim, sob a hábil direcção do mestre naval sr. Manuel Amaro e pertencente à conceituada firma C. Dupin & Cª., de Anadia,
(In jornal “Comércio da Póvoa de Varzim, Dezembro de 1918)

Imagem do lugre "Clemencia"
(In revista "Ilustração Nacional", Nº1, Póvoa de Varzim, 1919)

Navio “Clemencia”
Ontem, pelas 15 e meia horas, foi lançado à água, no estaleiro desta praia, o navio “Clemencia”, da casa Dupin & Cª., de Anadia. O navio era um belo barco de três mastros, grande e bem feito, sob a hábil direcção do mestre construtor naval sr. Manuel Amaro.
Centenas de pessoas acorreram à praia para o admirar e assistir ao bota-abaixo. Quase toda a Póvoa deixou de trabalhar para assistir ao interessante espectáculo, e muita gente veio das aldeias e Vila do Conde.
A descida, pela carreira, decorreu maravilhosa e o barco correu à água no meio de entusiásticas saudações. Ao largo, na enseada, o rebocador que o havia de levar ao Porto.
Mas – tudo, tudo tem o seu mas – o navio começou de aproar a terra, certamente arrastado, pouco a pouco, pelas vagas (vento e mar picado) até que atravessou na praia, oscilando, e depois de salva, por meio de cordas, a gente que fôra dentro e a tripulação, o navio adornou com os mastros sobre a água e o casco virado para terra, na praia, começando as ondas na faina da sua destruição!
Foi uma decepção e uma mágoa o triste acontecimento, que se deve, sem dúvida, ao fraco ou mau serviço de amarras, por uma imprevidência imperdoável.
O navio estava no seguro e não houve, felizmente, desastres pessoais. Diz-se que, não obstante este insucesso, o estaleiro continuará avante; todavia é necessário que se apurem responsabilidades para que, por causa duns, não venha a sofrer a Póvoa, dando destes tristes espectáculos e perdendo essa nova indústria – o estaleiro, que tanto beneficia a terra.
(In jornal “O Intransigente”, de 20 de Dezembro de 1918)

O navio “Clemencia”
Parece-nos que nunca, nesta praia, se construiu navio maior do que este, que na última quinta-feira foi lançado ao mar. Barco lindo e magnificamente construído pelo sr. Manuel Amaro, hábil industrial de construções navais.
A tarde de quinta-feira foi um dia de festa para a gente desta vila. Todos queriam ir ver o deita ao mar do belo “Clemencia”. Clemencia é o nome próprio da Exma. proprietária do navio que o quis batizar com o seu nome.
Das três para as quatro horas, meia Póvoa e muita gente das aldeias e de Vila do Conde acorreu ali, à praia, para ver deslizar o barco. Eram quatro horas, menos vinte minutos, quando a Exma. proprietária cortou as amarras.
Na alma daquele povoléu enorme passou; então, um trémito de alegria. O barco desliza belamente e fica no mar flutuando donairosamente, esplendidamente. Todos vitoriam o bom sucesso e a alegria vê-se a bailar em todos os olhos.
Passam-se dez minutos e ninguém olha pelo barco. Só o mar toma conta dele. E em muito pouco tempo lhe vira a proa para o norte e o apanha de bombordo. Depois, como a brincar, atirou-o para a areia fazendo-o tombar quase logo. Isto passou-se em breve tempo, em 15 ou vinte minutos, o máximo.
Não queremos nem podemos acusar ninguém. Só afirmamos que saímos dali, magoados, como todos os espectadores. Uma coisa ficou provada à evidência: é que o nosso estaleiro é magnífico, o construtor hábil e perito na arte.
O navio desceu belamente, magnificamente, e ficou na água flutuando donairosamente. Ele não tinha caldeira, nem velas, nem remos. Era preciso rebocá-lo. E lá estava para isso o rebocador, que não rebocou nada.
Em conclusão: se porventura se quis fazer uma experiência sobre a viabilidade de construções navais na nossa praia, o resultado não podia ser mais favorável, nem mais concludente.
Ficou evidentemente demonstrado que o nosso estaleiro é magnifico e que os barcos, de grande tonelagem, deslizando bem nas calhes, ficam no mar flutuando, como um cisne num lago. Depois, depois… é rebocá-los; que eles, sem caldeiras, sem remos, sem velas, não podem seguir viagem.
À Exma. Sociedade C. Dupin & Cª., agradecemos o convite que teve a amabilidade de nos enviar.
(In jornal “Estrela Povoense”, 22 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
Triste sina!
Narra o "Janeiro" (jornal "Primeiro de Janeiro", do Porto) de sábado p.p. o lançamento, à água na nossa bacia dum navio, o “Clemencia”, navio pertencente à firma C. Dupin & Cª., que o mandara construir.
Transcrevemos essa notícia na íntegra, apenas com uns leves comentários nossos, os quais não podemos abafar em nosso peito, tão grande foi a tristeza e desgosto que sentimos e toda aquela multidão de pessoas, que viram perder esse navio duma forma que não sabemos explicar.
«Ante-ontem de tarde, foi lançado ao mar, perante numerosíssima assistência na praia da Póvoa de Varzim, o magnífico navio “Clemencia”, de 1.200 toneladas, mandado construir pela firma C. Dupin & Cª.
Como o lançamento se fazia directamente para o mar, foi tratado o rebocador “Mars”, da casa Garland, Laidley & Cª., para o rebocar até ao rio Douro, onde devia receber um carregamento de vinho para a Inglaterra.
O “Clemencia”, cujas amarras foram cortadas por M.me Clemencia Dupin de Seabra, entrou bem na água por entre as aclamações da multidão.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 24.Dezembro.1918)

Edital da Delegação Aduaneira de Leixões,
pela Alfândega do Porto, que se entende por si.
(In jornal "Comércio do Porto", 26 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
O lindo navio que saiu na última semana do nosso estaleiro e que por uma fatal imprevidência arrojou à praia vinte minutos depois, lá continua a desfazer-se pelas maresias.
Cada destroço arrojado é como que uma lançada no nosso coração bairrista, que teceu de simpatias por aquele barco, que nos trazia uma nova esperança numa indústria que dando-nos interesses, nos dava por igual muita honra.
A Póvoa sentiu e compartilhou largamente do desgosto da empresa, mormente da sua ilustre diretora, Exma. srª. Dª. Clemencia Dupin, a quem este jornal apresenta os protestos da sua muita consideração.
Os arrojos já lançados à praia pelo mar foram arrematados no último dia 24 por 680 escudos.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

O Desastre do “Clemência”
Continua o Nosso Estaleiro?
O desastre do navio “Clemencia”, que tão aflitivamente entristeceu todos os povoenses fez nascer naturalmente a pergunta: continuará o estaleiro?
É que o nosso bairrismo de sustentar todas as fontes de riqueza que possam fazer prosperar a terra fez criar o receio de que o triste sucesso do “Clemencia” desanimasse a empresa a prosseguir nas construções dos seus navios, se bem que em nada concorresse para o desastre quer a carreira, quer qualquer outro serviço da parte do pessoal construtor.
Isto nos forçou a colher esclarecimentos e a trocar impressões com quem alguma coisa pudesse elucidar os leitores.
É o mestre construtor sr. Manuel Gonçalves Amaro, nosso amigo, que afavelmente nos recebe no seu próprio estaleiro:
- Que quer que lhe diga? Não me magoaria tanto com uma perca minha exclusivamente.
- Mas a que atribuir o desastre?
- Eu sei lá! Não sou técnico no mar. Daqui, como viu, saiu o “Clemencia” por uma carreira fora, lindo, formoso, que me fez soltar as lágrimas de contentamento! Aquelas palmas, milhares de palmas, recebias com gratidão, tanto mais que assim eu via a Exma. srª Dª Clemencia e todos os patrões tinham a paga da confiança que em mim depositaram. Para um construtor, o deslizar dum navio é a maior das comoções porque nisso está o complemento duma obra, que é alguma coisa de nós mesmo. Afinal…
- Deixemos as tristezas. O que lá vai, já não tem remédio. Toda a gente sabe que a culpa não é sua…
- Sim, mas aquele casco, ali, a rolar…
- Vamos ao que importa: o estaleiro continua?
O mestre Amaro, perante esta pergunta, reanima-se, toma novo alento, nova vida e diz-nos com vivacidade:
- Se continua? Sempre. Enquanto eu tiver quem me encomende barcos hei-de construir aqui! E hão-de deslizar bem por aí fora!
- Não é isso. A empresa Dupin & Cª. continua a construir?
- Sim, senhor. A sua ilustre diretora não é pessoa para desanimar. Não a conhece? Que energia, que vontade! Ela sentiu bem no dia do desastre como a Póvoa se comoveu com ela e o facto mais a animou.
Continua e para já com mais dois navios.
- Dois navios?
- Sim, senhor. Dois lugres, de 700 toneladas cada um. São essas duas quilhas que para aí vê.
- Bravo! A Póvoa recebe com a maior satisfação essa notícia. Mas diga-me ainda: já tem nome?
- Não sei bem. Creio, no entanto, que outro “Clemencia” há-de surgir radioso a navegar triunfante!
- Diga-me para terminar: o barco que se perdeu estava seguro?
- Estava, segundo o que me disse um empregado superior da casa. Creio que pagaram 3.000 escudos só pelo seguro de carreira, e mar, até ao Porto.
De junto a uma quilha dos novos barcos chamaram o mestre Amaro. Era tempo de o deixarmos entregue aos seus novos trabalhos, que são os seus novos amores e para toda a Póvoa a esperança! Eles hão-de sair por aí fora a flutuar galhardamente com os afetos de todos nós!
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

Navio “Clemencia”
Parece que não; que há pleito sobre o caso. É o que logicamente depreendemos de ter corrido à revelia, sem reclamação, a arrematação do mesmo navio, - o que não se daria se houvesse harmonia entre a empresa construtora e as companhias, que reclamariam, então, o que lhes pertencia.
Assim, questionando, nem elas nem aquela lhes convinha reclamar - a empresa, para ter direito ao seguro, e as companhias para não perderem o direito das suas alegações.
Ou não será assim?
(In jornal “O Intransigente”, de 12 de Janeiro de 1919)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Leixões, o porto em 1919!


(In revista "Ilustração Nacional, Nº 4, 1919, Póvoa de Varzim)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLIV)


O naufrágio da galera “Santa Maria”
(7 de Setembro de 1918 - posição 13º25'S 15º00'W)

Características do navio
1916-1918
Armador: Transportes Marítimos do Estado

Desenho da galera "Santa Maria" por Luís Filipe Silva

Nº Oficial: 352-E - Iic: H.S.A.N. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Oswald, Mordannt & Co., Ltd., Southampton, 1886
ex “Schiffbek”, Knor & Burchard, Hamburgo
ex “Ellesmere”, Sailing Ship Ellesmere Co., Londres
Arqueação: Tab 2.662,94 tons - Tal 2.526,62 tons
Dimensões: Pp 104,76 mts - Boca 15,37 mts - Pontal 8,40 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 17 tripulantes

Pernambuco, 30 de Setembro – Chegaram em 19 deste mês ao porto do Recife dois botes à vela, conduzindo 17 homens da tripulação da galera portuguesa “Santa Maria”, que de Glasgow se dirigia ao Lobito, em África.
A barca incendiou-se no alto mar, a 120 milhas de Pernambuco, por efeito da explosão de umas bombas que trazia a bordo, com carregamento de carvão.
Salvou-se toda a tripulação em três botes, gastando onze dias desde o lugar do sinistro até ao porto de Recife. Um dos botes aportou por alturas da Baía. O cônsul português providenciou dando mantimentos e vestuário aos náufragos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Dezembro de 1918)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Leixões na rota do turismo!


O navio de passageiros "The World"


Depois de mais uma escala de dois dias em porto, a frase escolhida pela administração portuária faz todo o sentido, quando diz que «O mundo passa por Leixões».

Navio de passageiros "The World"

Chegado procedente de Lisboa, tem a saída agendada para esta noite, com destino a Gijon.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLIII)


O encalhe do vapor “Mormugão”

No encalhe do vapor “Mormugão”,
não resultou perigo para os passageiros
Segundo um telegrama recebido nos Transportes Marítimos do Estado, o vapor “Mormugão”, da carreira da América, encalhou à entrada de Newbedford, devido ao nevoeiro.
O navio, que conduzia grande número de passageiros, conseguiu safar-se pouco depois, sem avaria de importância e prosseguiu viagem, não carecendo de entrar em doca seca para reparar.
Esta informação, conquanto diversa de outras chegadas do estrangeiro, deve ser a mais exacta. No entanto, quer esta quer as outras, dão, felizmente, como livres de perigo os passageiros.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 1 de Maio de 1921)

Imagem do vapor "Mornugão" dos T.M. do Estado
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Mormugão”
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
1916-1924
Nº Oficial: 412-E - Iic: H.M.O.R. - Registo: Lisboa
Construtor: Blohm & Voss, Steinweder, Alemanha, 11.09.1904
ex “Esne” – D.D.G. Kosmos, Hamburgo, 1904-1910
ex “Kommodore” – Deutsch Ost-Afrika, Hamburgo, 1910-1916
Arqueação: Tab 6.064,00 tons - Tal 3.849,70 tons
Dimensões: Pp 125,32 mts - Boca 15,51 mts - Pontal 8,70 mts
Propulsão: Blohm & Voss, 1904 - 1:Qe - 2.800 Ihp - 10 m/h
Vendido a Lara Sousa & Cª. em 1924, ficou ao serviço da Companhia de Açucares de Angola com o nome “Infante de Sagres”. Foi ainda vendido à Companhia Nacional de Navegação, em 1927, sendo rebaptizado “Zaire” e naturalmente utilizado nas carreiras para África.

Os passageiros do “Mormugão”
Black-Island, 2 – Todos os passageiros do vapor “Mormugão” foram esta tarde transferidos para terra, sãos e salvos.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 2 de Maio de 1921)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLII)


Um abalroamento ditou o fim do navio-motor "Conceição Maria"

Um navio holandês abalroou com o cargueiro português
“Conceição Maria” e abandonou-o em chamas no mar do norte
Foi salva a tripulação
Hamburgo, 3 – Envolto em chamas após ter colidido com o navio holandês “Simonskerk”, no dia 2 de Fevereiro, o cargueiro português “Conceição Maria”, de 1.819 toneladas, propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes e registado em Lisboa, derivou perigosamente em direcção aos reservatórios petrolíferos da Transocean – informou a guarda costeira holandesa.
As autoridades acrescentam que o rebocador de alto mar “Atlas” está a tentar passar um cabo ao navio português, a fim de o afastar dos depósitos e evitar a possibilidade de uma catástrofe ainda maior. Entretanto, os vinte e seis tripulantes portugueses do “Conceição Maria” foram recolhidos pelo navio dos pilotos da barra do Ems, “Pollux”.
Mensagens de rádio recebidas de bordo do “Atlas” indicam que o “Conceição Maria” deve ter derivado perigosamente em direcção dos reservatórios da Transocean, desconhecendo-se, por enquanto, o que sucedeu ao navio holandês envolvido na colisão.
Dezassete dos tripulantes portugueses recebidos pelo “Pollux” foram, mais tarde, transferidos para bordo do navio da guarda costeira “Georg Breusing”, que os levou imediatamente para terra, regressando, pouco depois, para recolher os nove restantes. Todos os sobreviventes, um dos quais apresentava ferimentos graves, foram para a ilha de Borkum, no Mar do Norte – informa a guarda costeira.
Segundo a rádio «Norddeich», a colisão deu-se ao largo do estuário do rio Ems, a doze quilómetros ao norte da ilha holandesa de Schiermonnikog.
Os vinte e seis tripulantes portugueses foram recolhidos por navios de socorro holandeses.
Por informações obtidas junto da Sociedade Geral, o cargueiro português “Conceição Maria”, propriedade daquele armador, estava fundeado perto da boia JE-2, já na área do porto de Borhum, quando foi abalroado pelo vapor “Simonskerk”, de 9.821 toneladas, que, criminosamente e ao contrário de todas as leis do mar e dos homens continuou o seu rumo. O navio português sofreu um grande rombo e incendiou-se, afundando-se mais tarde, notícia, aliás, ainda não confirmada pela Sociedade Geral.
O marinheiro ferido, Jasmim dos Santos Nascimento, natural de Mafra e que está internado no Hospital de Borkum, sofreu fratura numa perna e nas costelas. Encontrava-se na parte superior dos navio e, devido ao abalroamento, foi projectado.

A atitude criminosa do navio abalroador
De acordo com mais informações recolhidas na Sociedade Geral, que o comandante do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, este em contacto telefónico, às 11 horas da manhã, com aquela empresa e dissera que o navio português se encontrava fundeado e devidamente sinalizado. Depois do abalroamento, que provocou grande rombo no costado do “Conceição Maria”, o navio holandês continuou viagem sem prestar assistência ao navio nem à tripulação do cargueiro português.
O “Conceição Maria” saiu de Lisboa no passado dia 29 de Janeiro, com destino a Bremen, onde devia ter chegado ontem. Levava um carregamento de cortiça e carga geral. A notícia do afundamento do navio não pôde ser confirmada pela empresa proprietária. O último telefonema pra a companhia armadora, feito a bordo do rebocador “Atlas”, onde se encontrava o comandante do navio, informava que já tinha sido lançada uma amarra ao navio português e que se faziam tentativas para o recuperarem e extinguir o incêndio.

A tripulação do “Conceição Maria”
São as seguintes as identidades dos membros da tripulação:
Comandante, Manuel Casimiro Soares de Sousa, de Lisboa; imediato, Vasco Dinis de Barros Freire, de Oeiras; segundo-piloto, Délio Carlos Ramos Morgado, de Loulé; praticante de piloto, Afonso Correia Bettencourt, dos Açores; radiotelegrafista, Renato Manuel da Silva Santos Medeiros; contra-mestre, José Fiúza Sampedro, de Lisboa; marinheiros, Cesário dos Santos Evangelista, de Vila Franca de Xira; Vasco Boto Macatrão, da Nazaré; Ernesto Cordeiro, da Figueira da Foz; Armindo Pereira Rico, de Vila Nova de Gaia; José Viegas Samuel, de Setúbal e Jasmim dos Santos Nascimento, de Mafra; primeiro-maquinista, António Fiel, de Lisboa; segundo-maquinista, Fernando Neves do Sacramento, também de Lisboa; terceiros-maquinistas, Domingos Augusto Beira, de Mirandela e João Lima Maranhão, do Porto; artífice, José de Oliveira Ferreira Lopes, de Lisboa; fogueiro-paioleiro, Joaquim dos Santos, da Lourinhã; ajudantes de motorista: Manuel Anselmo Freitas Maciel e Manuel Luís Delgado Gaivoto, ambos de Viana do Castelo; Alípio António da Rocha Carvalho, de Caminha; cozinheiro, António Luís de Brito, dos Arcos de Valdevez; padeiro, Manuel Rodrigues da Silva, de Aveiro; e, ainda Manuel Ferreira Pousada, de Valença; António Lajes Veloso, dos Arcos de Valdevez; e João de Sousa Marques, de Vila Verde.
Todos se encontram a salvo, no porto de Borkum.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Fevereiro de 1966)

Características do navio-motor “Conceição Maria”
1948 – 1968
Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

Foto do navio-motor "Conceição Maria" em Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos - minha colecção

Nº Oficial: H-360 – Iic: C.S.I.U. – Registo: Lisboa, 08.07.1948
Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 07.1947
Arqueação: Tab 1.735,64 tons – Tal 931,59 tons – Pm 2.974 tons
Dimensões: Ff 93,32 mt – Pp 86,40 mt – Bc 12,84 mt – Ptl 4,55 mt
Propulsão: Burmeister & Wain – 1:Di – 7:Ci – 2.500 Bhp – 13 m/h
Equipagem: 26 tripulantes

O convés superior e a superestrutura do navio português
“Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras
Emden (Alemanha Ocidental), 4 – Chegou hoje aos estaleiros Rheinstahl Nordseewerke, de Emden, o navio português “Conceição Maria”, a fim de ser reparado, pois tem o casco muito queimado.
O capitão e oito tripulantes estavam a bordo quando um rebocador da Alemanha Federal rebocou o navio para o porto de Emden.
O convés superior e a superestrutura do “Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras. O navio apresenta as marcas da colisão com o navio holandês “Simonskerk”.
Um dos vinte e seis tripulantes portugueses continua hospitalizado na ilha de Borkim, no Mar do Norte.
Os restantes dezassete chegaram a Emden, vindos de Borkum, num «ferryboat» pouco depois do navio. Foram imediatamente recolhidos numa casa de marinheiros onde comeram e descansaram, antes de partirem de comboio para Portugal.
Ainda não se sabe quanto tempo demorarão as reparações que o “Conceição Maria” terá de sofrer em Emden.

Um comunicado da empresa armadora do navio
A Sociedade Geral, empresa armadora do navio “Conceição Maria”, ante-ontem abalroado por um navio holandês, no Mar do Norte, informou que, segundo as últimas notícias recebidas, aquele cargueiro continuava a navegar, às 21 horas de ante-ontem, e estava a ser rebocado para o porto alemão de Emden, onde devia chegar, ontem, cerca das 11 horas.
Pouco antes daquela hora, o capitão do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, deixara o rebocador “Atlas” para regressar para bordo do navio português, onde o fogo, entretanto, fôra extinto.
Além do comandante Soares Sousa, estão em Emden mais sete membros da tripulação, com vista à possível reparação do navio. Só depois do “Conceição Maria” entrar naquele porto poderá ser decidido se o navio será objecto de reparação provisória em Emden, vindo depois para Lisboa, ou se também se fará na Alemanha a sua reparação definitiva.
Os outros dezoito tripulantes do “Conceição Maria” partiram, ontem à noite, de comboio, para Lisboa, onde devem chegar na segunda-feira à noite.

Foto do navio-motor "Simonskerk"
Imagem da photoship.uk

Vai ser posta uma acção contra o comandante do vapor holandês
que não prestou assistência ao navio abalroado
A Sociedade Geral já incumbiu os seus advogados, em Londres, de prepararem a apresentação da queixa contra o comandante do navio holandês “Simonskerk”, que seguiu viagem sem prestar assistência aos sinistrados, depois do seu navio ter abalroado violentamente o “Conceição Maria”. A atitude daquele comandante, e tanto mais incompreensível, pois o “Conceição Maria” para além de seguir devidamente sinalizado, o sino de nevoeiro ia a tocar, por mera precaução.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Fevereiro de 1966)

Em função do referido no texto anterior, confirma-se ter o navio levado a cabo reparações provisórias no porto de Emden, possibilitando a viagem de regresso a Lisboa. Porém, a companhia Sociedade Geral, em função dos múltiplos danos encontrados a bordo, optou pela venda do navio ao sucateiro Américo Vasques Vale, de Lisboa, tendo a demolição acontecido no decorrer do ano de 1968.

sábado, 11 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLI)


O patacho “ Mediterrâneo “
1912 - 1917
Armador: José Soares da Costa, Porto

Desenho de navio armado em patacho,
sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-152 - Iic: H.D.J.R. - Porto de registo: Porto
Construtor: Não identificado, Montrose, Inglaterra, 1896
ex “Standard”, Armador não identificado, Aberdeen, 1896-1910
ex “Soares da Costa“, José Soares da Costa, Porto, 1910-1912
Arqueação: Tab 189,50 tons - Tal 149,88 tons
Dimensões: Pp 35,00 mts - Boca 7,19 mts - Pontal 3,50 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes
Capitães embarcados: Francisco da Rocha (1912 a 1913) e Manuel dos Santos Saltão (1914 a 1917)

O patacho encalhou em Caceia, ou Cacela (Vila Nova), Algarve, em 23.12.1917, quando em viagem do Porto para Mazagão. Não foi encontrada qualquer notícia, nos jornais consultados, com o respectivo relato do sinistro em causa.

Aos armadores e construtores de navios
Venda do casco do patacho “Mediterrâneo”, no dia 15 do corrente (Janeiro de 1918), ao meio dia, na praia denominada Manta Rota, Cacela, próximo a Vila Real de Santo António. Vai ter lugar a venda particular do casco do patacho “Mediterrâneo”, ali naufragado. O referido casco é forrado de cobre e tem muitas cavilhas de cobre e magnificas ferragens.
A praia onde está encalhado, dista da estação de Cacela pouco mais de 1 quilometro, é de areia e o navio, na baixa-mar, fica todo em seco, de modo que é possível salvar-se tudo e conduzir-se, quer por mar quer por terra para Vila Real, Tavira ou Lisboa. Pode ser aproveitada, pois, tão boa ocasião.
Havendo concorrência suficiente, no mesmo dia, hora e local, se venderão os salvados, que constam de velas do navio, vergas, cabos, ferros, correntes e outras miudezas, cuja relação segue abaixo.
Salvados do patacho “Mediterrâneo”,
naufragado na costa de Cacela, Algarve:
Todas as velas do navio, algumas novas e as restantes em estado de quase novas, 1 espia nova, 2 espias velhas, 2 escotas do traquete novas, 1 ostaga do joanete nova, 1 talha de ferros, 2 talhas do vergueiro, 1 peça de cabo de linho, colhedor, ½ fieira de colhedor mais fino, 1 bocado de cabo novo, 1 ostaga do velacho, escada de cabo nova, 1 talha nova.
Todos os cabos de manilha do navio em meio uso, 3 faróis de borda, 2 globos de socorro vermelhos, 3 caixas de petróleo, 1 sino, 2 pipas, 3 quartolas, 4 barris de água e vinho (vazios), pedaço de vela, 6 vassouras novas, 3 madeixas de fio de vela, 9 escovas novas, 38 moitões grandes e pequenos, 19 cadernais, 2 guardinis de pau de carga, 12 manilhas de corrente de polegada, 2 ferros grandes, 2 ancoretes, 2 cadernais de ferro, 2 moitões de ferro, 3 guias de ferro, 1 macho de gatas, 12 arcos de pano de proa, 3 rodas de poleame novas, 700 gramas de arame, todas as vergas, retrancas e mastaréus do navio, etc., 1 pau de carga, 1 arpão, ferramentas, 1 baleeira, 1 bote, 10 remos de pinho, código de sinais, panelas, pratos, bandejas e mais louças, 2 rosas de vento, 5 cartas, 1 linha de barca, 1 hélice, 1 barómetro-orómetro, 1 cronómetro, mariato grande e bandeira nacional, relógio, 1 candeeiro de metal, 1 candeeiro, 2 binóculos, correntes finas, amantilhos e cabos de arame de aço do aparelho do navio.
Enfim quase o aparelho completo para o navio, faltando-lhe os mastros reais, que são de Riga e que se venderão com o casco ou em separado, conforme for combinado no acto de venda.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 13 de Janeiro de 1918)