segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Leixões na rota do turismo! (14/2017)


Escalas de navios em porto na primeira quinzena de Setembro

A última quinzena esteve animada com as escalas de diversos navios, salientando-se a primeira visita ao porto do iate de luxo "Variety Voyager", a operar como navio de passageiros no mercado de cruzeiros. Foram praticamente cumpridas as visitas previstas neste período, à excepção do navio "Sea Cloud II", por motivos não conhecidos.

No dia 1, o navio de passageiros "Silver Muse"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha.

No dia 2, o navio de passageiros "Aegean Odyssey"
Chegou procedente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 5, o navio de passageiros "Mein Schiff 4"
Chegou procedente da Corunha, tendo saído com destino a Lisboa

No dia 6, o navio de passageiros "Tuy Discovery 2"
Veio proveniente de Vigo, tendo saído com destino a Lisboa

No dia 7, o navio de passageiros "Hebridean Sky"
Chegou procedente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 8, o navio de passageiros "Star Pride"
Chegou proveniente de Vigo, tendo saído para Lisboa

No dia 13, o iate de luxo com passageiros "Variety Voyager"
Chegado procedente de Vigo, saiu também com destino a Lisboa

No dia 13, o navio de passageiros "Costa Magica"
Chegou procedente da Corunha, continuou viagem rumo a Lisboa

No dia 14, o navio de passageiros "Azamara Journey"
Chegou procedente de Bilbao, saindo com destino a Lisboa

No rio Douro

Lugre "Santa Maria Manuela"
O navio pela primeira vez, depois da mudança de proprietário, esteve de regresso ao rio Douro, entre os dias 9 a 14, tendo atracado no cais de Gaia. Chegou procedente do Havre e saiu com destino a Lisboa.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Divulgação


Dia do porto de Leixões 2017


É já no próximo sábado que o porto de Leixões abre as portas, para animadamente celebrar a passagem de mais um dia festivo.
O programa apresentado no respectivo cartaz, sugere praticamente a repetição de eventos apresentados nos anos anteriores, o que de certo modo garante novo sucesso, em termos de exigência e interesse.
Para este ano a administração do porto, em colaboração com a Marinha de Guerra Portuguesa, promovem o regresso a Leixões do navio-escola "Sagres", que atracando no novo terminal de passageiros, vai igualmente possibilitar a visita ao navio entre as 10 horas da manhã e as 7 horas da tarde, decididamente a cereja em cima do bolo.
Pela nossa parte, cabe com imensa satisfação apresentar os nossos votos de parabéns à administração e restante equipa de trabalhadores portuários, por mais este aniversário.

sábado, 9 de setembro de 2017

História trágico-marítima (CCXXXVII)


O naufrágio do lugre "Britónia"

Viana, 25 – Naufragou o lugre “Britónia”, na Ponta Tornada.
Espera-se ser possível salvar a tripulação.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 26 de Abril de 1924)

Desenho de um lugre, sem correspondência ao texto

Características do lugre “Britónia”
1923-1924
Armador: Bernardo Pinto Abrunhosa, Viana do Castelo
Nº Oficial: 80 - Iic: H.B.R.O. – Porto de registo; Viana do Castelo
Construtor: M. Leis Hermida, Noya-Obrés, Espanha, 1917
ex “Manuel”, (Proprietário espanhol não identificado)
ex “Arosa”, Enrique Lorenza Gil, Vigo, Espanha
Arqueação: Tab 120,98 tons - Tal 104,21 tons
Dimensões: Pp 26,29 mts - Boca 7,11 mts - Pontal 2,79 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 7 tripulantes

No mar de Viana  - Viagem tormentosa
Naufrágio - Em perigo - Os socorros - Salvos!
Viana do Castelo, 26 – A nossa terra assistiu ontem a um emocionante espectáculo – o naufrágio do lugre “Britónia”, propriedade de Bernardo Pinto Abrunhosa.
O vento soprava rijo de sudoeste e o mar, embravecido pelo vendaval, encarreirava o lugre, que navegava com as marcas da barra feitas, ou não viessem a bordo homens experimentados e conhecedores de todos os «petões» que na mesma existem. Na boca da barra, o gasolina com os pilotos fazia sinais ao navio para orçar mais ao mar ou mais à terra, conforme as exigências do seco, que nas últimas cheias fizeram na «Ponta da Tornada», prolongando-o até lá muito fora.
Sobre o castelo da proa vinha um marinheiro, que transmitia ao homem do leme os sinais que recebia do gasolina. E o lugre avançava, velas enfunadas, parecendo orgulhar-se de transpôr as altas montanhas de água que na sua frente se erguiam.
Mais um sinal feito pelo «gasolina» para que o “Britónia” desfizesse de rumo para noroeste; porém, o navio não obedeceu e foi cair sobre a areia acumulada desde a «Tornada» até quase ao «Ladrão».
Não se descreve a emoção que isto trouxe ao espírito das já milhares de pessoas, que nos cais e pontos elevados assistiam ao desenrolar deste drama marítimo. A bordo do “Britónia” começou a azáfama para conseguirem safá-lo e em terra não foi menor a azáfama para tratarem do salvamento da tripulação, que o navio perdido estava.
O salva-vidas foi imediatamente lançado à água e era vê-lo galgar as vagas alterosas, como que a escarnecer da sua indómita bravura, e às catraias dos pilotos não faltaram tripulantes, todos prontos a prestar os socorros que pedissem. Mas nenhuma destas embarcações se podia aproximar do “Britónia”, que as vagas varriam da proa à popa.
Há gritos, lamentos, e o navio, de quando em quando, vai ficando em mais crítica situação. O salva-vidas consegue alcançar uma bóia lançada de bordo, segura a um cabo que é preso no Bugio, para ser estabelecido o cabo de vai-vem, mas como a distância era muita, os náufragos não utilizaram desse meio de salvação, que a meio caminho os poderia recolher, porque estariam sem vida ou gravemente feridos.
Resolveram então levar o aparelho porta-cabos para o Cabedelo; foram feitos cinco tiros, mas os projécteis perderam-se por terem rebentado as linhas que conduziam, para ser estabelecido o serviço. Entretanto, a noite aproximava-se.
No coração de tanta gente que assistia ao tenebroso quadro, havia a dor dilacerante ocasionada pelo receio de que ali tão perto de suas casas, talvez a vê-las branquear, iam morrer sete criaturas tragadas pelo mar que, a espaços, ia desfeiteando aos poucos aquele navio. E essa gente, boa e crente, que rezava pedindo a Deus pela boa sorte e salvação dos navegantes, foi acender as lâmpadas das igrejas.
A uma menina moradora na rua do Loureiro, ouvimos dizer: «tenhamos fé, os marinheiros não morrem, porque a luz que acendi à Virgem está tão linda!». Bendita crença! E hoje de manhã, essa mesma criança, conversando com os vizinhos, disse-lhes: «Viram como a Virgem salvou os marinheiros!...».
O lugre, ao escurecer, atravessou ao mar. Tudo, perdido, ouvimos dizer a homens práticos. Que tristeza! E homens do mar, bombeiros voluntários e gente do povo por ali permaneceram até altas horas. O mar rugia e o vento soprava violentamente. Nem uma luz na praia se podia conservar. E para maior infelicidade dos pobres náufragos, a cidade esteve ontem às escuras.
Meia-noite. Ouvimos dizer: «Já estão salvos quatro náufragos».
Fomos procurá-los. Encontramos um na cozinha de sua casa a mudar de roupa e mesmo ali nos recebeu, É um rapaz alto, agradável. Chama-se Manoel Gonçalves Muxaxo, de 19 anos. Depois de mudar de roupa, comeu uma tigela de caldo, pois tinha bastante fome.
Perguntamos-lhe se o navio desgovernou quando do «gasolina» lhe foi feito sinal para mudar de rumo. Respondeu-nos que se lhes havia partido o galdrope.
- Como se salvaram?
- Por um cabo que cinco homens, que praticaram a temeridade de se colocar no perigoso cais de madeira, no Cabedelo, nos jogaram para bordo. Eu já estava disposto a jogar-me à água, quando de terra preveniram que iam lançar um cabo. Efectivamente, poucos momentos depois caía na proa do lugre um cabo, com uma peça de metal na extremidade, daqueles que os bombeiros usam à cinta. Seguro, bem seguro ao mastro da proa, começou o serviço de salvamento. E na graça de Deus, cá estamos em terra firme.
- E se não fosse a resolução de estabelecer esse serviço, não havia outras probabilidades de se salvarem?
- Talvez não nos salvássemos porque o mar saltava sobre o navio de lado a lado.
- A viagem foi tormentosa?
- Bastante. Saímos de Mazagão na quinta-feira Santa e por aí viemos aos trambolhões.
- Os nomes desses cinco homens?
- O Baptista do salva-vidas, o capitão do lugre “Condestável”, e os pescadores Manoel da Silva, Manoel Pacheco e César Martins.
- A que horas foi atirado o cabo para bordo?
- Seriam 11 horas.
- Claro, que vocês ficaram aliviados?
- Não queria. Estávamos empitados até aos ossos. Olhe que se não morrêssemos afogados, morríamos de frio. Despedimo-nos do rapaz, porque o reconhecemos extenuado. Mas antes de sairmos, ainda lhe fizemos esta pergunta:
- Aquele gageiro que subia e descia as enxárcias, o que fazia?
- Era eu e cortava os cabos para prevenirmos qualquer hipótese de precisarmos deles para nos salvarmos.
- Então não tinham outros a bordo?
- Tinhamo-los na câmara; mas ninguém podia lá ir, porque estava completamente inundada.
Retiramo-nos.
O lugre “Britónia” lá está na praia, a desmantelar-se. Parece que ainda há esperanças de salvar a carga, que é gesso. Quanto aos tripulantes, se o mar amainar, ainda esperam salvar as suas roupas e quaisquer utensílios de bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 27 de Abril de 1924)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

História trágico-marítima (CCXXXVI)


O naufrágio da chalupa “Farol”

Viana do Castelo, 27 – Nas alturas de Peniche naufragou a chalupa “Farol”, propriedade dos srs. José Rodrigues Maduro Filho, João M. Couto Viana e Manuel Martins Giesta.
A violenta nortada e mar aberto partiu-lhe o leme e fê-la abrir água.
A tripulação foi salva por um vapor francês, tendo chegado ante-ontem a esta cidade. Perdeu todos os seus haveres.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 28 de Abril de 1925)

Desenho de uma chalupa, sem correspondência ao texto

Características da chalupa “Farol”
Armadores: José Rodrigues Maduro Filho, João Martins Couto Viana e Manuel Martins Giesteira, Porto
Nº Oficial: 67 - Iic: H.F.R.A. - Porto de registo: Viana do Castelo
Construtor: José de Azevedo Linhares, Esposende, Outubro, 1920
Arqueação: Tab 68,23 tons - Tal 49,38 tons
Dimensões: Pp 21,48 mts - Boca 5,94 mts - Pontal 2,43 mts
Propulsão: À vela

De acordo com documento oficial disponível com informação do naufrágio, o sinistro ocorreu no dia 20 de Abril, a cerca de 20 milhas a oeste do Porto, tendo a tripulação sido resgatada pela chalupa lagosteira francesa Jeanne d’Arc.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

História trágico-marítima (CCXXXV)


Póvoa de Varzim
Naufrágio – Pormenores do sinistro

Na noite de ante-ontem para ontem deu à costa, na Póvoa de Varzim, a escuna portuguesa “Esperança”, pertencente à firma Lázaro de Oliveira & Cª., da praça de Olhão, no Algarve.
O navio foi acossado pelo temporal, quando pairava por alturas do Cabo da Roca e a custo se aguentou, durante uns dias, depois de haver perdido velas, mastros, etc., até que teve de dar à costa a despeito dos esforços feitos pelo respectivo capitão, Sebastião dos Reis, que é um verdadeiro lobo-do-mar, condecorado com a Torre e Espada e uma medalha Humanitária.
Salvou-se toda a tripulação, da qual faziam parte dois homens naturais do Porto, da freguesia de Massarelos e dois de Aveiro. O navio, que se considera perdido, está a ser destruído por ondas alterosas.

Desenho de chalupa, sem correspondência ao texto

Características da chalupa “Esperança”
Armador: Lázaro de Oliveira & Cª., Olhão
Nº Oficial: A-712 - Iic: H.E.C.A. - Porto de registo: Olhão
Construtor: N/d
Arqueação: Tab 73,53 tons - Tal 61,79 tons
Dimensões: N/d
Propulsão: À vela

O navio “Esperança” deve medir 18 a 20 pés de comprimento, de fundo achatado, com dois grandes mastros e pertence, como atrás referido, ao sr. Lázaro de Oliveira, farmacêutico em Olhão e importador e exportador naquela praça, onde está registado.
Por entre um vendaval desfeito, o mar agitadíssimo e a chuva a fustigar fortemente, o “Esperança” deu à costa pelas 9 horas da noite.
Apesar da violência do temporal que caía e da escuridão que nada permitia ver, numerosíssimas pessoas afluíram à praia, ali chamados pelos gritos dos tripulantes que pediam socorro.
Embora tivesse dado à costa, o navio continuava a ser batido por vagas alterosas. Estava ele completamente atravessado na areia, em frente ao prédio do sr. dr. Caetano Marques de Oliveira, para onde o mar o atirou, num arranco titânico de forte vaga.
Dentro, na câmara, estava ainda a tripulação, desorientada e faminta, por isso que desde o dia 15 estavam sem comer; tudo que levavam na proa tinha sido batido pelas ondas e arremessado ao mar.
O capitão do navio foi o primeiro a vir à proa, surpreendendo-se ao perceber que estava na Póvoa, terra que ele desconhecia. Ao acaso, sem esperança alguma, a tripulação estava salva.
O capitão do navio é um arrojado e forte marinheiro, que ostenta ao peito uma medalha do Instituto de Socorros a Náufragos e a Torre Espada. Não é preciso dizer mais nada para saber-se o quanto vale Sebastião dos Reis. Tem 38 anos de idade e 22 de vida passada no mar; nasceu em Olhão, é casado e tem 3 filhos.
O navio foi construído em 1919, conta três viagens de Olhão a Leixões e destinava-se agora a Inglaterra, a fazer um carregamento de bacalhau para Aveiro, consignado ao sr. Júlio Forte Homem, proprietário do navio “Argonauta”(?), dos bancos da Terra Nova.
O “Esperança”, agora destruído, andava desarvorado e sem panos, pedindo socorro desde terça-feira, por meio de bandeiras. Navios que passavam ao largo transmitiram a notícia pela T.S.F., mas foi baldado o trabalho, porque, em poucas horas, este mesmo navio galgava milhas seguidas, afastando-se ininterruptamente do local onde era procurado.
Perdidas as esperanças, os tripulantes refugiaram-se na câmara, amarrando-se por um lais de guia ao mestre Sebastião dos Reis, aguardando ali a morte. E assim andaram até que o navio foi bruscamente arremessado à praia da Póvoa de Varzim, entre o paredão que lhe ficava à direita e os cachopos à esquerda.
«Foi um milagre (declara o capitão); se o navio larga 3 graus para a esquerda ou para a direita ficava ali mesmo destruído e nós estávamos já todos mortos!»
Três dos tripulantes foram logo salvos; os outros estiveram na iminência de perecer ali, sendo a custo salvos pela abnegação de Sebastião dos Reis, auxiliado por algumas praças da Guarda-fiscal que prontamente acudiram.
O navio, que vinha em lastro, não estava no seguro, ao que se afirma.
É um bravo, e um herói o capitão do “Esperança”. A Grã-Cruz da Torre e Espada foi-lhe conferida porque, sendo prisioneiro dos alemães logo nos primeiros meses do conflito europeu, foi obrigado a combater contra os aliados, chegando a comandar um submarino, que mais tarde conseguiu entregar ao governo inglês.
A outra condecoração ganhou-a por ter salvo 55 náufragos – 27 noruegueses e 28 portugueses, em diversas conjunturas de perigo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 22 de Dezembro de 1925)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Leixões na rota do turismo! (13/2017)


Navios em Leixões durante o mês de Agosto

Durante este período registaram-se apenas oito escalas de navios de passageiros em porto, eventualmente a adivinhar os dias de muita névoa e aguaceiros, que se fizeram sentir no norte do país. Se para tal houver correspondência, e antecipando a larga quantidade de navios esperados chegar durante o mês de Setembro, é presumível admitir que o tempo estará muito bom para recebê-los.

No dia 8, nova escala em porto do navio de passageiros "Ventura"
Chegou procedente de Lisboa, saindo com destino a St, Peter Port

Nos dias 9 e 23, escalas do navio de passageiros "Tui  Discovery 2"
Em ambas as ocasiões veio procedente de Vigo, saindo para Lisboa

No dia 12, novo regresso do navio de passageiros "Mein Schiff 4"
Vindo procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 24, fez escala em porto o navio de passageiros "Star Legend"
Chegado procedente do Ferrol, saiu com destino a Lisboa

No dia 26, escala inaugural do navio de passageiros "Aida Sol"
Chegou procedente da Corunha, saindo com destino a Lisboa

No dia 31, regresso do navio de passageiros "Astoria"
Chegou procedente de Vigo, saiu com destino a Lisboa

Navio-escola da Marinha Portuguesa NRP "Sagres"
O navio embaixada itinerante nacional passou por Leixões entre os dias 23 a 25 de Agosto, para mais uma vez ser brindado com a visita de alguns milhares de pessoas. O navio chegou procedente da Base Naval de Lisboa, tendo seguido viagem com destino ao Havre.

Navio-escola da Marinha da Colômbia ARC "Gloria"
De visita ao porto para descanso da guarnição entre os dias 28 de Agosto até ao 1º dia de Setembro. O navio encontra-se a realizar uma viagem de instrução de cadetes, com a duração estimada em 6 meses.
Saído de Cartagena, na Colômbia, fez escala em portos de países na América do Sul e nos Estados Unidos, partindo de Hamilton, Bermudas, para cruzar o Atlântico com destino ao Havre, último porto antes de chegar a Leixões. O próximo porto de escala será nas Canárias.
O bergantim-barca "Gloria" desloca 1.300 toneladas de arqueação, tem 76,00 metros de comprimento máximo, 64,60 metros de comprimento entre perpendiculares e 10,60 metros de boca.
A altura máxima dos mastros é de 40 metros, a superfície vélica é de 1.400 metros, a velocidade com motor é de cerca de 10,5 milhas por hora, tem autonomia de navegação para 60 dias e a guarnição permanente ronda os 94 tripulantes.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXXIV)


Ocorrência marítima
O naufrágio do iate “Flor do Cávado”

Constou ontem na cidade (Porto) ter naufragado ao sul da barra de Esposende o iate “Flor do Cávado”, que ia da Figueira da Foz para Esposende, com pedra de cal.


Características do iate “Flor do Cávado”
Armador: Amândio de Jesus Teixeira, Porto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.K.J.F. - Porto de registo: Viana do Castelo
Construtor: António Dias dos Santos, Fão, 1891
Arqueação: Tal 105,95 tons - 299,833 m3
Dimensões: Pp 25,65 mts - Boca 7,07 mts - Pontal 2,48 mts
Propulsão: À vela

O sinistro deu-se ante-ontem, de tarde, caindo o iate sobre a praia, por motivo de falta de vento e o mar estar agitado. A tripulação salvou-se, mas o navio está perdido. O iate era de 105 toneladas e pertencia ao sr. Amândio de Jesus, desta praça.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 23 de Maio de 1899)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXXIII)


Ocorrências marítimas na Figueira da Foz
O naufrágio do iate “Libânia & Adelaide”

Venho de assistir ao naufrágio do iate “Libânia & Adelaide”. O navio perdeu-se e não se sabe se vai ser possível salvar a carga; a tripulação salvou-se, à excepção do mestre Isaac Henrique, devido à muita dedicação dos esgueirões.
O iate da mesma casa, “Voador do Mondego”, também encalhou na barra, mas safou-se, não perdendo ninguém. Agora, vem a entrar uma galeota inglesa. É grande o risco. Deus a traga a salvamento.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Dezembro de 1872)


Características de ambos os navios
Iate “Libânia & Adelaide”
Armador: Manuel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/d - Iic: H.C.W.S. - Porto de registo: Figueira da Foz
Construtor: N/d
Arqueação: 113,000 m3
Dimensões: N/d
Propulsão: À vela
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Iate “Voador do Mondego”
Armador: Manuel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/d - Iic: H.F.R.V. - Porto de registo: Figueira da Foz
Construtor: N/d
Arqueação: 87,330 m3
Dimensões: N/d
Propulsão: À vela

Figueira da Foz, 15 de Dezembro – Uma grande desgraça ia ontem enlutando muitas famílias daqui. A Providência Divina, com o auxílio de alguns arrojados pescadores, permitiram, porém, que de tantos desgraçados só houvesse a lamentar uma vítima, que deixou a esposa na viuvez e os filhos na orfandade.
Eis o que aconteceu:
Fora da barra da Figueira, que está má, já andavam há dias uma galeota inglesa, a “My Queen”, com carga de ferro para a ponte do Mondego, e os dois iates do abastado comerciante desta praça, o sr. Manuel José de Souza, “Libânia & Adelaide”, vindo de Lisboa, e o “Voador do Mondego”, procedente da Ilha de S. Miguel.
O tempo era medonho: os sucessivos aguaceiros de oeste-noroeste (pura travessia) parecia que tudo levavam pelo ar, e as vagas do mar, que se encapelavam umas sobre as outras, mostravam a quase impossibilidade de qualquer navio lhes resistir!
Nestas circunstâncias em ambos os iates resolveram, em consulta, entrar a barra, visto que fora dela lhes era duvidoso sobrestarem, principalmente o “Libânia”, que já trazia o pano de proa em estilhaços. Por volta da 1 hora deitaram ambos a proa para a barra; Pouco depois estava o “Libânia” sobre o banco, onde uma montanha de água lhe partiu o traquete, atravessando-o e levando consigo o infeliz Isaac Henriques, capitão do mesmo.
Que quadro horrível e de desespero para os espectadores, que lhe não podiam valer! O navio desgovernado e sem pano sobre um banco de areia, onde se confundia com as próprias ondas! Pouco depois o mar safou-o daquele precipício, arremessando-o de encontro ao cabedelo, onde já se achavam postados uma porção de pescadores do lugar, que com a maior coragem, dedicação e sangue-frio salvaram com um cabo de vai-vem, não só todos os tripulantes que restavam como até o cão!
Cabe aqui dizer que temos lamentado e lamentaremos que o Governo de Sua Majestade, a Câmara Municipal ou mesmo a Associação Comercial não criem um prémio pecuniário para estes infelizes, que, mortos de fome, exaustos de forças, não vacilam em arriscar a sua vida em socorro dos seus semelhantes!
E não foi só isto: a alguns, que não tinham mais que o gabão e o fato do corpo, vimos tirá-los e com eles cobrirem os náufragos!
A carga deste navio era importante; constava de açúcar, aduela, madeira de Flandres e encomendas; quase toda está segura, ainda que não no seu real valor; o navio não. Durante a maré da noite salvaram bastante mercadoria, bem como parte do aparelho; na enchente, porém, o mar levou o fundo do iate, perdendo-se o resto. Os interessados devem aos proprietários muita dedicação e óptimos serviços, sem os quais as perdas seriam talvez completas.
O “Voador”, que, como foi dito, vinha para a barra na popa do outro, encalhou também sobre o banco, e ali, como o “Libânia”, sofreu mil baldões, mas felizmente não perdeu o governo nem pano, o que fez com que, livre do banco, viesse fundear no Mondego sem mais avaria que a falta de algumas folhas de cobre, que deve ter perdido.
Este navio estava seguro e a carga não. Este quadro horroroso fez recordar muita gente do drama «Pedro Sem». Devo em tempo acrescentar, que as guarnições destes dois navios, composta de 17 pessoas, são quase todas daqui.
Ontem de manhã, entrou também com muito risco o caíque “Senhor Jesus das Almas”, mestre Manuel da Cruz, procedente de Lagos com pescaria. Na proa deste vinha da mesma procedência e com a mesma carga o pequeno caíque “Flor de Maria”, mestre João Gomes, mas que se não viu. O mestre Manuel da Cruz, que é proprietário de ambos, supõe-no em Viana do Castelo, ou então perdido.
Na galeota “My Queen”, que estava à vista, mas distante, não devem ter visto a bandeira de entrada franca, que lhe içaram, no pressuposto de poderem salvar-se as vidas dos tripulantes. Este navio aparenta ter tido a viagem mais atribulada do que se pode imaginar: saiu há 100 dias da Suécia, bateu num banco no canal de Inglaterra, arribou a Plymouth, onde, para reparar as avarias, fez avultadíssima despesa, e devido ao capitão se ter suicidado; depois veio para aqui e nas águas da barra tem apanhado temporal desfeito há pelo menos vinte dias!
No dia 8 do corrente já esteve quase perdida próximo do Cabo Mondego; para se não perder valeu-lhe o mar não ser mau e o salva-vidas ir espiá-la para fora até conseguir velejar. Insistirá ainda o seu novo capitão pela entrada na barra da Figueira?
Embora me classifiquem de impertinente, creiam que não cessarei de pedir os aprestes necessário para lançar de terra os cabos de vai-vem. Se o fundão permitiu que o “Libânia” encalhasse tão próximo que dele pudessem dar o cabo para terra, não sucede a mesma situação na maior parte das vezes. E quando, devido a tal incúria, existam vitimas a lamentar, eu não só, ainda que com o meu débil brado, protestarei e rogarei a quem mais autorizado o faça, contra aqueles que tem obrigação de prevenir desastres de tal ordem.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 15 de Dezembro de 1872)

Notícias do reino, publicadas no jornal “Tribuno Popular”,
Coimbra, sábado, 14 de Dezembro de 1872
«Temos a registar mais um grande serviço prestado pelo Joaquim Lopes, da costa de Buarcos. Nada menos que uma tripulação e um navio salvos pelo valente patrão do salva-vidas, o sr. Jacinto de Abreu Guerra, o qual, apesar dos seus 70 anos de idade, afronta sem tremer os perigos do mar em socorro dos que nele se acham em perigo.
Eis as notícias que chegam da costa de Buarcos»:
«Sem comentários passo a narrar um facto ocorrido na baía de Buarcos no dia 8 do corrente mês. Naquele dia, às 8 horas da manhã, demandavam a barra da Figueira, para entrar, um iate nacional e uma chalupa inglesa. A curta distância de terra foram estas embarcações surpreendidas por uma espessa cerração, a qual de todo lhes ocultou a terra. Viraram na volta do mar, aproando ao Noroeste na intenção de subirem o Cabo Mondego e franquearem-se de terra.
Arrastados por grossa vaga de Oeste e desviados do rumo por uma vaga de água, que os encostava para o cabo, ao clarear da cerração, encontravam-se numa situação tão difícil quanto perigosa: o mar quebrava a pequena distância sobre os rochedos e o vento escasseava cada vez mais, restando-lhes por única manobra abicarem os ferros.
«Ficaram, portanto, os navios à mercê das amarras, não havendo espaço para arreiar suficiente filame, nem tão pouco largar outros ferros, no caso de aqueles faltarem; é, portanto, claro que a posição dos navios era arriscadíssima. O iate, que se achava em lastro e com uma suficiente tripulação, lançou a lancha ao mar, e com o auxílio de espias conseguiu fazer-se ao largo e velejar; porém a chalupa, que se achava carregada de ferro e com um pequeno número de tripulantes, não obstante tentar a mesma manobra, não o conseguiu; a cada momento se tornava mais critica a sua posição; o mar já quase lhe rebentava a pouca distância pela amura de estibordo; sem mais socorros, o naufrágio seria inevitável e a perda de vidas mais do que provável.
«Felizmente, as providências da terra foram tão prontas como a urgência do caso reclamava. Rapidamente saiu de Buarcos o bote salva-vidas, guarnecido com 22 homens, e, vogando com a máxima presteza em socorro do navio em pouco tempo conseguiu abordá-lo, e depois de 5 horas de aturado trabalho e repetidos esforços conseguiu pôr a salvo o navio, que horas antes se considerava perdido, de encontro ao sem número de escolhos que bordam aquela parte da costa.
Honra, pois, a todos que concorreram a tão prontas como acertadas providências – para o digno patrão do barco de socorro, o sr. Jacinto de Abreu Guerra, e para todos os tripulantes do mesmo barco, que pela vez primeira concorreram aquele humanitário serviço, sem a menor excitação. - Buarcos, 10 de Dezembro de 1872».
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«Por outra via consta que, quando o salva-vidas chegou ao pé do navio, já o mar lhe quebrava por fora, e tanto a Alfândega como o povo que se juntou de terra o julgavam perdido. Isto passou-se defronte da fábrica nova de vidros. O intrépido patrão do salva-vidas tentou e conseguiu, debaixo de muito risco, com a sua gente, lançar espias ao navio. Depois saltou-lhe dentro com a gente, deixando quatro homens no salva-vidas para o caso de rebentarem as espias e terem de abandonar o navio; mas não foi preciso, porque o navio obedeceu às espias e foi conduzido para a enseada de Buarcos.
Talvez hoje (dia 10), entre a barra. O navio traz o resto do ferro para a ponte da Portela. Os homens que tripularam o salva-vidas ganharam 2$000 réis cada um, e não foi muito em vista do serviço que fizeram e do risco que correram. – Buarcos, 10 de Dezembro de 1872».
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 17 de Dezembro de 1872)

domingo, 27 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXXII)


O naufrágio da galeota holandesa “Henrich Elise”

(Desenho de uma chalupa ou ketch, idêntica à galeota)

Naufragou ante-ontem, pelas 4 horas da tarde, ao sul da barra de Viana, no sítio denominado «Rego d’Anha», uma galeota holandesa chamada “Henrich Elise”, capitão J. Roskamp, proveniente de Bremen com destino ao Porto, com um carregamento de garrafas e garrafões. Era de 97 toneladas de registo e trazia 60 dias de viagem.
A tripulação, que se compunha de cinco pessoas, 3 homens e 2 rapazes, foi salva, bem como o capitão. O navio pertencia ao porto de West Rhanderfelm. (Este porto é desconhecido)
A galeota desarvorou do mastro de ré, e a perda deste e o muito vento e mar obrigaram-na a encalhar ao sul da barra, no sítio acima referido. O casco julga-se perdido, mas espera-se salvar a carga.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 20 de Janeiro de 1881)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXXI)


Sinistro marítimo
O encalhe do iate “Bom Sucesso”

O iate “Bom Sucesso”, que há dias saiu de Lisboa para Esposende, achando-se na terça-feira última em frente deste porto, ficou sem a vela grande, em consequência de ter sido arrebatada pela força do temporal. O capitão, vendo-se em grande perigo com o muito mar e tempo, resolveu pôr a proa do iate à barra, para a salvação das vidas a bordo, e com muito risco conseguiu encalhar ao norte da barra.


Características do iate “Bom Sucesso”
Armador: De acordo com o referido no texto
Nº Oficial: N/d - Iic: H.B.L.D. - Porto de registo: Esposende
Construtor: António dos Santos Garcia, Esposende, 1863
Arqueação: 78,000 m3
Dimensões: Pp 20,40 mts - Boca 5,78 mts - Pontal 2,35 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: Clementino José Loureiro

Pelo piloto-mór, com um colete de cortiça, foi então lançado um cabo de vai-vem e por este meio foi salva a tripulação. Na baixa-mar o navio estava livre de água, e assim pode salvar-se parte do aparelho e da carga. Havia esperanças, se o tempo abonançasse, de salvar o casco.
O “Bom Sucesso” era propriedade dos srs. João José Lopes, José Soares Estanislau, Francisco Soares Estanislau, Joaquim Gomes Soares Chita, António Nunes dos Santos e do capitão do mesmo iate.
A carga, que era de sal, pertencia aos srs. António Gomes Cachada e Francisco Fernandes Gaifem.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 12 de Dezembro de 1872)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXX)


O encalhe do bergantim de guerra português "Damão"

A imagem escolhida para contextualizar o sinistro a que se faz referência, é do bergantim "Serpente do Mar", que, por ter estado ao serviço da Marinha no mesmo período e ser do mesmo tipo, permite partir do pressuposto de se tratarem de unidades muito semelhantes.

(Bergantim "Serpente do Mar" - Marinha de Guerra Portuguesa)
Blog navios da Real Marinha de Guerra Portuguesa III - Séc. XII a XIX

No dia 6 do corrente deu à costa, junto a Vila do Conde, o bergantim de guerra "Damão", tendo-se perdido o seu Comandante, o segundo Oficial de Marinha, o Capelão e alguma gente mais da equipagem.
Anunciado ao Augusto Príncipe este sucesso, e que quase tudo o que era da Fazenda Real se tinha salvado, e que só havia a perda do hábil Comandante e mais algumas pessoas da equipagem, que fosse digna de lástima, o mesmo Augusto Senhor, sem hesitar, respondeu que antes se houvesse perdido toda a sua Real Fazenda, do que tão hábeis Oficiais e Vassalos, que eram aos seus olhos de um valor inestimável.
Este dito é uma verdadeira pintura da humanidade e das incomparáveis virtudes, que ornam a grande Alma deste Príncipe, o Ídolo dos seus Povos, e a quem Portugal deve a sua actual felicidade, no meio da quase universal desgraça da Europa.
(In "Gazeta de Lisboa", Nº LI - Supl. de 22 de Dezembro de 1798)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXIX)


Sinistro marítimo
O “Highland Hope” encalhou nas Berlengas
4ª Parte

O naufrágio do “Highland Hope”
O navio “Highland Hope” continua na mesma situação, com grandes rombos no fundo. Parte de meio-navio até à ré, está já destruída pelas vagas, e o casco, por vezes, estremece, ouvindo-se o ruído do choque com as rochas, e a popa está inteiramente submersa.
Como o mar está numa agitação constante, devido ao temporal, está posta de parte a ideia do salvamento da carga pelos mergulhadores.
Na Alfândega estão armazenados, sob a vigilância das autoridades locais, vários salvados feitos ultimamente.

Poster publicitário da empresa proprietária do navio
Pinterest - Colecção de Jean Dwulit

O chefe do posto aduaneiro prossegue a buscas nos subúrbios de Peniche, por ter denúncia de que neles se acham objectos pertencentes aos náufragos, tendo sido encontrados, nas dunas da praia de Peniche de Cima, dentro da areia, diversas peças de vestuário. O marítimo José da Costa, a quem foram apreendidos alguns salvados, pagou a multa de três mil escudos, na Alfândega, por descaminho de direitos.
Durante o dia de hoje muitos passageiros de terceira classe estiveram na delegação do Posto Marítimo de Desinfecção procurando ainda, alguns dos seus haveres.
A maior parte dos náufragos segue amanhã para a América do Sul.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 24 de Novembro de 1930)

O naufrágio do “Highland Hope”
Segundo comunicação telefónica recebida de Peniche, o mar continua muito agitado, motivo porque tem sido muito difícil retirar de bordo do “Highland Hope” a parte do seu rico mobiliário.
Os passageiros de 3ª classe do paquete naufragado seguiram hoje para a América do Sul, no “Darro”.

Cartão postal do navio "Darro" emitido pela Mala Real Inglesa

Para Londres vão ser remetidos os vários utensílios e bagagens de bordo que não foram até hoje requisitados no Posto de Desinfecção.
O que resta do “Highland Hope”, ao que parece, vai ser posto em leilão, a fim de ser adjudicado a uma companhia que se dedique a salvados.
Acusados de terem em seu poder alguns colares de pérolas, foram presos oito indivíduos, residentes nos subúrbios de Peniche.
Por motivo do temporal, não foram para o mar as traineiras de pesca.
Tanto o sr. Howe, como o primeiro-oficial e maquinista do “Highland Hope”, aguardam instruções para seguir viagem para o seu país.
O “Highland Hope”
Durante a madrugada, o temporal recrudesceu de violência, soprando vento rijo. O estado do mar continua péssimo, sendo temerária e por vezes impossível qualquer tentativa de aproximação ao paquete naufragado nos Farilhões. Às primeiras horas da manhã começaram a dar à costa, ao norte do Cabo Carvoeiro, destroços do “Highland Hope”. As vagas alterosas sacudidas pela ventania, iniciaram a destruição do transatlântico, açoitando-o incessantemente. Mais vinte e quatro horas de temporal e o “Highland Hope” terá desaparecido por completo.
As praças da Guarda-fiscal que estavam a bordo retiraram para terra, devido ao perigo a que estavam expostas, vistoriando agora na praia qualquer traineira que regresse do mar.
À praia chegam ainda, trazidas pelas vagas, grandes quantidades de nafta e outros lubrificantes do navio naufragado, os quais dão, por vezes, um aspecto curioso à superfície do mar.
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Rio de Janeiro, 29 – É esperada a senhorita espanhola Vitória Parish, irmã do popular empresário de circo Leonardo Parish, náufraga do “Highland Hope”, tendo perdido tudo. Por notícias enviadas por ela, diz ter-se voltado a lancha em que se encontrava com outras senhoras e crianças e que foi salva pelos pescadores de Peniche. Nessa ocasião caiu-lhe ao mar um cofre de ferro com jóias. Tinha embarcado na Corunha e vinha com destino ao Rio de Janeiro.
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O paquete inglês naufragado continua, a despeito de ser batido com violência pelas ondas, na mesma situação.
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O naufrágio do “Highland Hope”
Pelo Ministério do Comércio vai ser assinado um decreto, isentando do pagamento de taxas de passageiros e bagagens devidas à administração do porto de Lisboa, pelos náufragos do navio inglês “Highland Hope”.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Novembro de 1930)

domingo, 20 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXIX)


Sinistro marítimo
O “Highland Hope” encalhou nas Berlengas
3ª Parte

O naufrágio do “Highland Hope”
O paquete mantem-se na mesma posição
O “Highland Hope” mantem-se na mesma posição. Este facto faz supor que o paquete está já apoiado em rochas, porquanto se assim não fosse ter-se-ia afundado, pelo menos todo o meio-navio e a popa.
Junto a ele continuam algumas traineiras, recolhendo o que é ainda possível salvar. Está previsto que o navio começará a ser despedaçado, se o temporal aumentar de violência.
Cerca das 11 horas, retiraram para o Tejo o navio da Armada “Patrão Lopes” e o rebocador de alto mar “Valkyrien”. O primeiro destas unidades, que reboca duas embarcações, transporta um enorme carregamento de bagagens salvas pelos marinheiros da sua guarnição, que nesses serviços foram dirigidos por alguns oficiais e sargentos.
À praia continuam a chegar traineiras conduzindo algumas bagagens do paquete naufragado. A população de Peniche exigiu que se fizessem imediatamente buscas às residências dos pescadores, a fim de serem esclarecidos procedimentos menos correctos que lhes eram atribuídos por determinadas pessoas.
Durante as buscas passadas de manhã às residências dos pescadores, foram unicamente encontrados pequenos objectos, que constituem apenas recordações do naufrágio.
Os náufragos em Lisboa
Cerca das 13 horas chegaram à estação de Alcântara-Terra numerosos náufragos, que ali aguardavam com ansiedade, a chegada do comboio das 13 horas e 32, onde presumiam que viessem algumas das suas bagagens recolhidas durante o dia de ontem. A breve trecho, foram, porém, informados de que uma parte dos salvados seria transportada para Lisboa, hoje, à tarde, em camião e outra parte no “Patrão Lopes”.
Em Peniche estão ainda depositadas bagagens e outros haveres dos náufragos, que são unânimes em manifestar a sua admiração pela forma como estão montados os serviços da casa Pinto Basto, representante em Lisboa da empresa proprietária do paquete e pela maneira rápida e inteligente como lhes foram prestados socorros.
Todas as despesas têm sido prontamente cobertas, dispondo os náufragos de uma liberdade de acção, que lhes permite sem a menor dificuldade acorrer às suas mais urgentes necessidades. Os passageiros exteriorizam assim a cada passo, e em termos entusiásticos, o inteligente serviço de assistência e auxilio, que desde o primeiro momento da sua estada em Lisboa lhes são prestados.
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Todas as mercadorias que se encontram a bordo estão seguras em várias companhias da especialidade.
O “Highland Hope”, que fazia, agora, a terceira viagem e cuja construção custara 15 mil contos, é o oitavo navio que encalha no rochedo do Farilhão, muito próximo das Berlengas.
Os trabalhos do “Patrão Lopes”
Regressou hoje ao Tejo o “Patrão Lopes”, que trouxe alguma bagagem de passageiros, que salvou, bem como dois escaleres, que vieram a reboque daquele vapor, tendo ido um barco do consignatário do navio naufragado buscar a bordo do “Patrão Lopes” a referida bagagem.
O comandante do “Patrão Lopes” informou que o rebocador alemão, que fôra encarregado de proceder ao salvamento do “Highland Hope”, largou do local do sinistro às 2 horas e 10, abandonando o salvamento do material existente no referido vapor, tendo transportado ainda algum a bordo, deixando de o entregar à alfândega, como lhe competia e como determinam as nossas leis.
Informou mais que foi a bordo do “Highland Hope”, bem como o capitão de um rebocador dinamarquês, visitar o navio, tendo-lhe passado revista, com o auxílio de um mergulhador, considerando o navio perdido, opinião que mereceu a concordância dos capitães dos rebocadores alemão e dinamarquês.
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Seguiram hoje para Peniche o capitão e os oficiais do paquete “Highland Hope”, os quais se dirigiam para bordo daquele navio, na intenção de ali retirarem as suas bagagens e os documentos de bordo. Não conseguiram o seu intento, devido ao grande temporal que está a dominar naquela zona do litoral. Foi já salvo quase todo o mobiliário das 1ª e 2ª classes daquele paquete.
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No «sud-express», chegou o capitão P.F. Howe, representante do Lloyds, que ficou hospedado no Avenida Palace. Era aguardado pelo representante da Mala Real Inglesa e por um empregado da mesma firma, que ficou às suas ordens. Amanhã, às 6 horas da manhã, parte de automóvel para Peniche, a fim de examinar o “Highland Hope” e só depois transmitirá à imprensa as suas impressões.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 21 de Novembro de 1930)

Imagem do navio encalhado - Foto do Museu Municipal de Peniche
Venâncio, Rui; Ramos, Dulcineia; Veríssimo, Rodolfo; Silva, Ana Elisa,
Património Cultural de Turismo, um elemento diferenciador, 2007

O naufrágio do “Highland Hope”
As vagas tem açoitado fortemente o paquete,
sendo de esperar o seu breve desaparecimento
O vento, mais forte do que ontem, levantou muito o mar. As vagas começaram hoje de manhã a bater o paquete com violência, calculando-se que, a continuar, a destruição do “Highland Hope” não se faça esperar. Devido ao temporal, estão cortadas as comunicações de terra com o navio, desde ontem à noite.
Hoje de manhã, chegou a Peniche, em automóvel, ido de Lisboa, o sr. capitão P.F. Howe, delegado do Lloyds inglês, que desde ontem está em Portugal. Foi-lhe, porém, impossível seguir para bordo do paquete, devido ao estado do tempo.
As buscas nas residências dos pescadores continuaram hoje, não tendo dado qualquer resultado. A bordo de uma traineira foram apreendidos pelo pessoal da Alfândega alguns objectos e outros haveres recolhidos do “Highland Hope”, os quais não tinham sido ainda entregues às autoridades locais.
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O “Patrão Lopes” desembarcou no posto alfandegário da Rocha do Conde de Óbidos as bagagens recolhidas a bordo do navio. Esta manhã, os náufragos que estão em Lisboa dirigiram-se ao Posto de Desinfecção, procurando encontrar, entre os numerosos volumes salvos do paquete encalhado, as malas, as roupas e outros objectos que lhes pertencem. Alguns, mais felizes, puderam reaver todas as suas bagagens. Mas uma grande parte deles voltou sem ter encontrado os seus haveres.
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O sr. embaixador de Inglaterra testemunhou de viva voz ao sr. ministro dos Estrangeiros, em nome do seu governo, o mais vivo agradecimento pelo procedimento dos pescadores e população de Peniche, no auxílio prestado aos náufragos do “Highland Hope”.
Igualmente o sr. ministro da Argentina dirigiu uma nota de agradecimento, nos termos mais penhorantes para os pescadores e população de Peniche.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 22 de Novembro de 1930)

O naufrágio do “Highland Hope”
O “Highland Hope” que está abandonado, continua a ser fortemente batido pela rebentação do mar, sendo impossível a qualquer embarcação aproximar-se dele.
O rebocador de alto-mar “Valkyrien”, levando a bordo algumas praças da Guarda-fiscal, segue amanhã para junto do navio encalhado, a fim de tentar trazer alguns salvados.
No entanto, se o tempo não melhorar, serão infrutíferos todos os esforços e, se o vento rondar para leste, o navio passará a ser mais violentamente batido pelo mar, devendo começar a desfazer-se.
Durante o dia de hoje, o chefe do posto alfandegário, sr. Mário Noronha Oliveira, acompanhado de algumas praças da Guarda-fiscal, realizou algumas buscas às residências dos marítimos, tendo sido apreendidos vários objectos sem importância. Foram efectuadas, no entanto, prisões.
O estado do navio
A bordo de rebocador de alto-mar “Vakyrien”, chegou hoje a Peniche o capitão Howe, que conseguiu entrar a bordo do paquete naufragado.
Ao contrário do que se poderá pensar, a água não entrou ainda na maior parte do transatlântico. Compartimentos estanques preservam três quartas partes do navio, da invasão do mar. A sala de música está intacta, bem como a biblioteca, sala de fumo, salão de senhoras e muitas outras dependências.
Nos corredores acham-se amontoadas bastantes bagagens que os pescadores, dirigidos pelo imediato e por outro oficial do “Highland Hope” transportam constantemente para as traineiras, que por sua vez as transportam para terra.
Ao percorrer o navio, sente-se, por forma impressionante, a invasão da água que, entrando pelo rombo da quilha, próximo da roda da proa, sai com grande violência pelas vigias da ré.
Parte das dependências, de meio-navio para a ré, está completamente destruída pelo mar, que atravessa já o convés de estibordo a bombordo. O paquete estremece de quando em vez com mais violência, sentindo-se a cada passo o ruído cavo do choque com as rochas.
É de prever que os mergulhadores não possam realizar quaisquer trabalhos na parte do navio inundada, porquanto a água entra ali com grande energia.
A bordo estão os dois oficiais do navio, já referidos, o representante do Lloyds e algumas praças da Guarda-fiscal.
Continuam as rusgas às residências dos pescadores, sem resultados. Foi suspensa a requisição dos agentes da Polícia de Investigação Criminal, que tinham sido chamados a Peniche para tratar da apreensão de objectos pertencentes ao paquete naufragado.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 23 de Novembro de 1930)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXIX)


Sinistro marítimo
O “Highland Hope” encalhou nas Berlengas
2ª Parte

O naufrágio do “Highland Hope”
O paquete ainda não se submergiu
O “Highland Hope” ainda não se tinha afundado completamente às primeiras horas da tarde, conservando a proa sobre os rochedos, mas a parte que vai de meio navio à ré já se encontra submersa.
Devido a essa circunstância, conseguiram ainda ser salvas ontem muitas bagagens dos passageiros, que hoje foram depositadas na Alfândega.
O ex-deputado brasileiro Daniel de Carvalho, e o jornalista sr. Severino Barbosa Correia, do Rio de Janeiro, voltaram ontem mesmo a bordo, conseguindo salvar algumas bagagens e todas as jóias pertencentes à srª Daniel de Carvalho.
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O que diz um oficial da Armada argentina
O capitão-de-fragata da Armada argentina, sr. Daniel de Oliveira César, um dos náufragos do “Highland Hope”, dizia à imprensa:
- A companhia do vapor merece as minhas mais ásperas censuras, por entregar o comando de um transatlântico, com centenas de vidas a bordo, a um homem velho e alquebrado, com 74 anos de idade. Para esta falta, que é gravíssima, não encontro a mais leve desculpa. E o capitão Johnes, que julgo ter sido em novo um grande comandante, já não tem hoje qualidades para conduzir um transatlântico como o “Highland Hope”. Como marinheiro profissional é esta a minha opinião.
Em relação a pormenores do sinistro e dos momentos de emoção que se lhe seguiram, o entrevistado volta a lembrar quanto lhe custa trazer a público, factos tão lamentáveis, que o levaram à firme convicção de que a Marinha Mercante inglesa de hoje em nada se pode comparar à de ontem.
Contudo, aquele oficial foi dizendo:
- Vou citar-lhe alguns episódios passados comigo, os quais considero suficientemente elucidativos. Por exemplo: nas primeiras baleeiras arriadas, quiseram vir para terra muitos tripulantes a quem competia permanecer a bordo, para promover o salvamento dos passageiros. Alguns conseguiram o seu intento. Ao chegaram à praia, dirigiram-se aos primeiros estabelecimentos que encontraram, comendo e bebendo sem se preocuparem com a sorte de tantas vidas. E lá na praia, eram os vossos abnegados pescadores, nobres descendentes dos grandes marinheiros portugueses, que ensinaram o mundo a navegar, quem, desveladamente e com um carinho indiscutível, auxiliavam a passagem dos salvados de bordo das traineiras e das baleeiras para terra. É esta a verdade dos factos, e como tal não me esquivo a dizê-la.
- Havia a bordo uma certa falta de organização. Contudo, não observei qualquer caso de embriaguês. Em terra é que, talvez, para se refazerem do susto, beberam e comeram desmedidamente.
- Logo que se deu o sinistro, apareci rapidamente na tolda. O capitão Johnes, abatido e desorientado, andava pelo convés, de um lado para o outro, sem dar uma ordem, sem tomar uma atitude enérgica. O pessoal de bordo não tinha quem lhe desse ordens e aparentava pouca disposição para obedecer a quaisquer que lhes fossem dadas. Havia baleeiras já cheias de gente que não eram arriadas, porque alguns tripulantes a quem competia a permanência a bordo, alimentavam ainda a esperança de seguir nelas para terra. Este libelo é tremendo, mas representa infelizmente a verdade dos factos.
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- É difícil descrever o que se passou nesses momentos trágicos. Junto a mim lançaram-se duas senhoras de joelhos, com filhos de tenra idade ao colo, suplicando-me que as fizesse embarcar na primeira baleeira que fosse arriada. A certa altura, como dois tripulantes teimassem em seguir para terra antes de se concluírem os trabalhos de salvamento, ameacei-os de os lançar ao mar, só assim evitando que insistissem nos seus intentos.
«Sem que tivesse contribuído para isso, eu passei a ser, a certa altura, um orientador dos trabalhos de salvamento, porque não havia aquela organização indispensável para evitar um desastre de maiores proporções. Fi-lo na minha qualidade de marinheiro profissional».
- O capitão Johnes veio para terra na quarta ou quinta baleeira, deixando a bordo não só os três passageiros que dormiam, mas outros que ainda aguardavam no convés lugar nas embarcações. Isto é muito lamentável, mas é também muito verdadeiro. Em terra o velho oficial, soube das censuras que lhe eram por esse motivo dirigidas e voltou então para bordo às 13 horas e 30, conforme foi noticiado. Foi para lá, quando já nada tinha a fazer. A minha acusação. É como vê, áspera, mas não quero deixar de dizer, que não respeito a idade do velho capitão Johnes. Ele teria sido em tempos um hábil comandante mas actualmente ele já não reúne os requisitos para exercer tão espinhoso cargo. As culpas recaem, pois, sobre a companhia proprietária do navio, que entregou o “Highland Hope” a um homem que já devia desfrutar uma reforma compensadora de tão grande carreira no mar. Criou-se assim uma situação inadmissível: a bordo todos mandavam, menos o comandante, e ninguém obedecia.
- Quanto ao aspecto técnico do sinistro, houve um erro. Em todas as marinhas sabe-se quais os pontos perigosos dos litorais. Este comandante devia ter conhecimento da existência dos Farilhões. Porque não guinou para oeste como estava indicado? Não sei. Sabemos apenas que o encalhe se deu com todas as consequências, que teriam sido trágicas se houvesse algum temporal. Considero ridículo um encalhe nestas circunstâncias.
- O que lhe posso garantir é que vai ser tremenda a propaganda dos serviços desta empresa, a ser feita pelos náufragos, logo que cheguem aos seus países. Será dura, mas será justa.
- Quero igualmente declarar, que os portugueses pela maneira como nos receberam conquistaram para sempre um lugar no nosso coração. Onde eu estiver, jamais um português terá dificuldades. Tudo farei por ele, sem recompensar, por forma alguma, aquilo que nos fizeram. A gratidão de todos os náufragos será eterna, porque para sempre ficará gravado no nosso espírito o acolhimento fraterno, que nos foi proporcionado em Peniche. Que grande povo, o português! Creiam que digo isto com uma enorme comoção, porque não olvidarei nunca os carinhos de que nos rodearam. Houve sempre para nós, além do grande auxílio material que nos prestaram, palavras de conforto moral, que tanto mitigaram a nossa crítica situação.

Poster da Companhia Nelson Line
(in Pinterest - colecção AntikBar)

As declarações do engenheiro-chefe
Esta é a outra versão… Como sempre, a verdade apresenta vários aspectos. Neste caso há dois; o do náufrago e o do tripulante.
Não se entendem, não tem pontos de contacto, para dar o sinistro, na espessura do nevoeiro, noite ainda, sugerindo-o na sua grandeza trágica, que tão vivamente impressionou o país. Os oficiais do “Highland Hope” estão divididos por vários hotéis. É difícil encontrar um que fale à vontade, claramente, não evitando os escolhos, como se usa na boa navegação… O mutismo dos ingleses é um lugar-comum, que nem por isso honra a superioridade daquela raça.
Neste caso até podia ser ou supor-se uma desculpa. Depois de várias tentativas infrutíferas, foi possível falar com o engenheiro-chefe do navio, no Hotel Borges. Estava comendo um bife, rodeado de uma dezena de oficiais, que ouviram toda a conversa, sublinhando gravemente certas passagens, com inclinações de cabeça.
Começamos pelo princípio que não é paradoxo, porque muitas vezes começa-se pelo meio, ou pelo fim, abrindo assim situações de continuidade, que alteram a lógica. Desta vez, a opção recaiu por questões directas. Perguntas e respostas cabais. A mais importante de todas – que agora parece estar esclarecida – era esta:
- Como se deu o encalhe do transatlântico?
Sem uma nuance.
- O “Highland Hope” encalhou de vante, ficando na posição de «cavalo». Isto é, a proa, cravando-se nos rochedos, levantou-se ao mesmo tempo que a ré, encontrando fundo no mar mergulhava, ameaçando o navio de ir a pique. O encalhe produziu um forte ruído, sendo os outros que se ouviram devidos à oscilação do navio.
- Qual a razão por que o comandante deu ordem para abandonar o “Highland Hope”?
- Por temer, em virtude das circunstâncias, que ele fosse a pique. O perigo parecia iminente, tanto mais que o mobiliário era fortemente sacudido contra as paredes.
- Reparou nisso?
- Reparei e acordei. Imediatamente ocupei o meu posto, assim como parte do pessoal de máquinas, que estava em período de descanso.
- A que horas se deu o sinistro?
- Minutos antes das 5 horas, procedendo-se logo ao salvamento dos passageiros, que apenas demorou um quarto de hora.
- E o desembarque foi feito em boas circunstâncias?
- Tudo em ordem, com a maior calma e sem grandes confusões. Não é verdade que os tripulantes do “Highland Hope” tenham preterido os passageiros nos salva-vidas, que estes não tivessem pessoal de remo, e ainda que se tenha dado preferência aos viajantes ingleses.
- Quem desembarcou, então, primeiro?
- A terceira classe, quase toda composta por espanhóis. Cada baleeira levava quatro ou cinco marinheiros. Os oficiais conservaram-se a bordo até final, com o seu comandante que, apesar de ser já idoso, é considerado como um dos mais cuidadosos e competentes da Companhia.
«Pessoalmente, conheço-o há mais de vinte anos».
- Mas, diz-se que ainda havia passageiros a bordo, depois do comandante sair…
- Não é verdade! A ronda fez-se e, tanto assim, que um dos oficiais aqui presentes – confirmado – teve tempo de salvar cinco cães.
- A causa do sinistro?
- O nevoeiro.
- Há esperanças de salvar o navio? Tem algum rombo?
- Suponho que deve ter aberto água na proa. No meu entender é possível safá-lo, embora com dificuldade.
- Como se portaram os pescadores portugueses?
- Admiravelmente. O seu auxílio foi precioso, coadjuvando os nossos esforços.
- O que esperam agora?
- Estamos a aguardar ordens de Inglaterra, devendo esta tarde avistar-mo-nos com o cônsul do nosso país.
Apesar da insistência, o entrevistado, muito à inglesa, despediu-se, dizendo:
- Nada mais tenho a declarar.
Informações do comandante do “Patrão Lopes”
Do vapor de salvamentos “Patrão Lopes”, que está a prestar assistência ao “Highland Hope”, o seu comandante enviou hoje ao Ministério da Marinha um rádio, dizendo que o navio encalhara ao norte do Farilhão e a nordeste, entre Farilhão e a rocha Ferreiro de Barlavento, tendo adernado uns 10 graus a estibordo e à popa, na direcção nordeste.
Pela sondagem feita na baixa-mar, do lado de bombordo, avante para ré, 4 a 7 braças. Esta última altura ao portaló, havendo pois de altura no poço avante da 3ª classe e na alheta, 8 braças. A estibordo, devido ao estado do mar, só permite obter a altura de água na proa, na altura da 1ª classe, variando de 3 a 5 braças, tendo-se encontrado 7 braças na altura do poço à ré.
Informa que a bordo do vapor viu muitos marítimos de Peniche, que declararam que estavam ali a salvar roupas e bagagens, tendo verificado pelo convés que as malas se achavam arrombadas e as roupas dispersas, dando todo o aspecto de haver pilhagem, mandando retirar os marítimos, que deviam estar ali por ordem superior.
Em vista do navio não ter ninguém a bordo, passou o comando do “Patrão Lopes” a exercer uma aturada vigilância, tendo sido mandada para bordo do navio naufragado uma força do seu navio, comandada por um oficial e o referido comandante vai de novo inspeccionar o vapor, a fim de observar se o navio pode ser desencalhado.
Junto ao navio acha-se também o navio de salvamentos dinamarquês “Valkyrien”, que, segundo uma nota do armador, se propõe ocupar o navio, mas que o comandante do “Patrão Lopes” não permitirá, em virtude de se opor o direito marítimo.
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A duquesa Mary Hamilton seguiu hoje para Paris no «sud-express».
Os passageiros da 1ª e 2ª classes seguem viagem no vapor “Asturias” e os de 3ª classe no vapor “Darro”.
Amanhã chega a Lisboa o capitão Howe, representante do Lloyds.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 20 de Novembro de 1930)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

História trágico-marítima (CCXXIX)


Sinistro marítimo
O “Highland Hope” encalhou nas Berlengas
1ª Parte

O transatlântico considera-se perdido, tendo os passageiros
desembarcado em Peniche, nas baleeiras de bordo
A noroeste das Berlengas e a cerca de 13 milhas da costa de Peniche, encalhou hoje o transatlântico inglês “Highland Hope”, um belo paquete de 14.500 toneladas da série dos Highland, que pertence à Nelson Line, de que são agentes em Lisboa os srs. E. Pinto Basto & Cª.
O “Highland Hope”, com 380 passageiros, oito dos quais se dirigiam a Lisboa, e 170 homens de tripulação, saíra há dias de Londres para fazer a sua costumada viagem com escala por Boulogne, Vigo e Lisboa, e dirigia-se à América do Sul, tendo embarcado em Vigo cerca de 200 emigrantes espanhóis, que viajavam em 3ª classe. Além disso, trazia 140 passageiros de 1ª classe e 80 passageiros de 2ª.
Logo que entrou na costa portuguesa, caiu sobre o mar um nevoeiro densíssimo, que obrigou o navio a abrandar a marcha, tendo sido tomadas todas as precauções, que são de uso em tais casos.
A sereia de bordo fazia ouvir de 2 em 2 minutos os seus lamentos. O pessoal de quarto vigiava na ponte. Os passageiros dormiam, poucos se tendo apercebido que o navio navegava entre um nevoeiro tão denso, que a poucos metros de distância já não se distinguia o mar.
O encalhe
Às 4 horas e 45 minutos, quando o navio se aproximava das Berlengas, foi sentido um grande choque. Os passageiros acordam sobressaltados e correram para a tolda.
O comandante Johnes, um velho lobo-do-mar, que tem 74 anos de idade, apercebeu-se rapidamente que o navio tinha encalhado num rochedo, que naquela altura só podia ser o Farilhão, que está a cerca de 6 milhas a noroeste das Berlengas.
Um passageiro suíço descreveu do seguinte modo o encalhe e os trabalhos de salvamento, que se seguiram:
- Logo que se sentiu o choque do navio nos penedos, os passageiros foram tomados de pânico e correram, para o convés. A tripulação, porém, começou a sossegar os mais assustadiços, aconselhando-lhes serenidade, para os trabalhos de salvamento poderem decorrer com ordem, visto que não havia o perigo imediato do navio se afundar.
«A sineta de bordo começou a tocar, chamando às baleeiras, onde começaram a fazer o embarque dos passageiros. Logo que as primeiras se encheram, foram arreadas pela tripulação, poisando com certa dificuldade sobre o mar, por se ter levantado uma certa ondulação.
«Foi feito tudo na melhor ordem. Registou-se apenas precipitação entre os passageiros de 3ª classe, por serem os mais numerosos.
«Claro que houve cenas dramáticas, principalmente entre as senhoras, que choravam e gritavam, receando não só pela sua vida, como pelas das criancinhas que as acompanhavam e que são em grande número.
«Devo dizer que nos foram prestados socorros preciosíssimos pelos pescadores que andavam perto, na sua faina, e que acorreram imediatamente ao local do sinistro, auxiliando no reboque das baleeiras para terra. Se não fossem esses bravos homens do mar, para os quais vai toda a nossa gratidão, teria havido algumas desgraças a lamentar.
«A bordo, acenderam os projectores, a fim de facilitar o desembarque. Os seus fachos luminosos iluminavam não só o navio, como varriam o mar na direcção da costa, ensinando o caminho às baleeiras carregadas de passageiros, que se dirigiam para terra.
«No momento de desembarcar, ficou entalado entre o costado do navio e uma baleeira um tripulante espanhol, tendo ficado ferida também uma senhora. São os únicos desastres pessoais que há a lamentar.
«Foi verificado mais tarde que o relógio do ferido tinha parado nas 5 horas, o que equivale dizer que entre o encalhe do navio e o salvamento dos primeiros passageiros decorreu apenas um quarto de hora.
A chegada a terra
Às 8 horas e 30 minutos, começaram a chegar a terra as primeiras baleeiras com passageiros, que vinham rebocadas pela traineira “Maria Luiza”. Foi assim que as autoridades marítimas de Peniche tiveram conhecimento do naufrágio, visto o “Highland Hope” se encontrar a 13 milhas da costa, não se podendo avistar de terra, mesmo com boas condições de visibilidade. O mestre da traineira, António Uva, deu logo conhecimento do sinistro ao capitão do porto, 1º tenente João Encarnação, que tomou imediatas providencias para socorrer o navio encalhado e alojar os passageiros que começavam a desembarcar.
Os homens foram distribuídos pelos hotéis e as senhoras alojadas em casas particulares. A vila tomou um aspecto de movimento desusado. A população saiu para a rua, acolhendo todos com o maior carinho.
Algumas senhoras surpreendidas pelo sinal de alarme, não tiveram tempo de se vestir, vindo para terra, umas em pijama e outras em camisa de dormir, com os casacos pelos ombros. Os homens vestiam também, na sua maioria, trajos menores, tendo-lhes sido emprestados em terra casacos para se cobrirem.
Entretanto, largavam para o navio sinistrado mais traineiras, a fim de conduzirem para terra os salva-vidas. Os trabalhos de desembarque terminaram só às 11 horas.
Foi então que o comandante Johnes embarcou na última baleeira, supondo que já não estava ninguém a bordo. Mas quando a embarcação ia a afastar-se do navio, ouviram-se gritos lancinantes de pedido de socorro a bordo. Tinham ficado ainda no navio três passageiros: uma senhora com uma criança e um rapaz de 15 anos, que dormiam no mesmo beliche, com um sono tão pesado que não se aperceberam do choque, nem dos toques repetidos da sineta, que foram feitos a bordo.
Só acordaram depois de feito o salvamento de todos os passageiros e tripulantes. Correram então até ao convés onde gritaram por socorro. A baleeira do comandante recolheu-os e trouxe-os para terra.
Depois de terem sido salvas as 545 pessoas que o navio conduzia, entre passageiros e tripulantes, seguiram para bordo do navio cinco traineiras, a fim de trazerem para terra as bagagens dos passageiros.
Entretanto, e depois de terem tomado a primeira refeição, os náufragos seguiram para a estação de S. Mamede, em automóveis e caminhetas que foram mobilizadas pelas autoridades marítimas, tendo-se formado ali às 16 horas um comboio especial a fim de os conduzir para Lisboa.
O navio perdido
O comandante do “Highland Hope”, que se recusou a fazer declarações, mostra-se abatido. O navio ficou espetado nos rochedos, não se tendo notado que metesse água, talvez porque os próprios rochedos lhe sirvam de estanque. No entanto, na posição em que ficou e com os rombos que deve ter recebido no costado, considera-se perdido.
Os socorros
Logo que houve conhecimento do sinistro em Lisboa, por intermédio do posto Radiotelegráfico de Monsanto, o Comando Geral da Armada ordenou que o “Patrão Lopes” seguisse para o local do encalhe, a fim de prestar os necessários socorros.
Efectivamente, aquele rebocador saiu a barra com destino aos Farilhões, às 9 horas e 10 minutos. Pouco depois, largava com o mesmo destino o salvadego dinamarquês de socorro “Valkyrien”, em obediência a uma ordem radiotelegráfica recebida de Gibraltar.
O comandante Johnes, chegado a terra, pôs-se em comunicação telefónica com a casa Pinto Basto, tendo comunicado, o seguinte:
- Às 5 horas da manhã de hoje, encontrei-me encalhado nos penedos dos Farilhões, a noroeste das Berlengas e a 13 milhas a oeste de Peniche. O paquete ficou preso de proa nos penedos, metendo água nos porões. Imediatamente se arriaram as baleeiras de bordo, nas quais os passageiros e a tripulação se dirigiram para Peniche, rebocadas por traineiras de pesca, que prestaram excelentes serviços. De Peniche, seguiram para S. Mamede, e dali vão de comboio para Lisboa, devendo continuar viagem num paquete da Mala Real.
Apenas ficou ferido um tripulante espanhol, que seguiu de automóvel para o hospital de S. José, depois de ter recebido os primeiros socorros no hospital desta vila.
10.000 palavras
Na estação telegrafo-postal de Peniche, o encarregado sr. Diamantino Vargas não teve mãos a medir. Todos os passageiros queriam informar telegraficamente as famílias de que estavam salvos. Foram dali enviados 400 telegramas, com um total de 10.000 palavras.
Para Peniche partiram imediatamente, logo que tiveram conhecimento do sinistro, os srs. cônsul de Inglaterra e Fernando Pinto Basto, da agência a que o navio vinha consignado.
Todos os passageiros e oficiais de bordo tecem os maiores louvores à maneira rápida e inteligente como goram organizados os serviços de socorros pela capitania do porto de Peniche.
Falta uma criança
Embora não tenha sido feita ainda a contagem dos náufragos, cujo procedimento terá lugar na estação de S. Mamede, há a suspeita de que falta uma criança, que vinha entregue aos cuidados de uma senhora. Esta mostra-se de tal forma impressionada, que não sabe contar o que se passou com ela, até entrar na traineira que a trouxe para terra, onde deu pela falta da criança.
Entre os náufragos há passageiros de várias nacionalidades, entre as quais ingleses e franceses, sendo alguns de elevada posição social.
O navio, que não se mostra muito adornado para qualquer dos bordos, balança ligeiramente sobre as rochas, não dando a impressão de que começou a meter água, apesar das declarações do comandante.
Os passageiros portugueses
Como foi dito, a bordo do “Highland Hope”, vinham com destino a Lisboa oito passageiros, que nada sofreram. Um deles é o sr. major Teixeira, que vive em Estremoz, com sua esposa, srª. Reynolds Teixeira, e que regressava de Inglaterra, onde fôra deixar seu filho num colégio. O sr. major Teixeira apressou-se a comunicar para Lisboa que não houvera desastres pessoais, tendo chegado à capital às 13 horas.
Além do major Teixeira, há mais outro português: um individuo de nome António Palma, que vem de Londres e um casal com um filho que vem para Almada.
O individuo de nacionalidade espanhola, que ficou entalado entre o navio e a baleeira chama-se Manuel Perez y Perez, encontra-se recolhido no Hospital de S. José, em perigo de vida.
A maioria dos passageiros lamenta que o comandante do navio não tenha continuado a bordo, visto o navio não oferecer perigo de se afundar. A bordo acha-se a Guarda-fiscal e o pessoal da Alfândega.
À 1 hora e 30, dirigiram-se novamente para bordo o comandante e o imediato. Às 17 horas estão a proceder, em S. Mamede, à contagem e chamada dos náufragos. A fim de serem dirigidos os trabalhos de salvamento das bagagens, seguiram para bordo alguns oficiais do navio, acompanhados do cabo-de-mar e de praças da Guarda-fiscal.
Notas de reportagem
Houve algumas pessoas com ligeiros ferimentos ao fazerem a passagem do paquete para as baleeiras, e no trajecto para terra os tripulantes das embarcações e os náufragos quiseram ambos esgotar a água que entrava a cada momento nas baleeiras.
Entre os passageiros figura a Duquesa Mary Hamilton. Esta senhora negou-se a fazer declarações, dizendo que se reserva para dizer por escrito o que sabe e o que viu.
Vinha ainda a bordo o gerente do Banco de Inglaterra em Santos, o deputado brasileiro Daniel de Carvalho e sua esposa, que se encontra ferida numa perna, o coronel argentino Betencourt, e o jornalista brasileiro Severino Barbosa Correia.
Uma senhora inglesa das que tomaram lugar na primeira traineira de socorro, veio para terra completamente nua, tendo tido a necessidade de se cobrir com o casacão dum pescador.
Os náufragos devem chegar hoje, às 19 horas, à estação de Alcântara-Terra, em comboio especial.
Fala um passageiro
O jornalista brasileiro Severino Barbosa Correia, um dos náufragos, acusa o comandante do paquete de precipitação, no momento em que procederam aos salvamentos, e sobretudo de não ter mandado fazer, como lhe cumpria, uma rusga rigorosa a todo o navio naufragado. No entender do aludido jornalista, é assim que se explica o facto de já depois do comandante estar em terra, se ter verificado que a bordo haviam ficado a dormir três passageiros.
Acrescenta o sr. Severino Correia que ao caírem as baleeiras no mar, se verificou que não havia remadores para elas, tamanha era a deficiência da organização a bordo, e que só o socorro rápido das traineiras, que se acercaram do navio pôde evitar uma grande catástrofe.
Ante-ontem, tinham-se feito a bordo exercícios de salvamento, daí resultando que ao dar-se hoje o sinal de alarme, poucos passageiros acreditaram que se tratasse dum naufrágio a valer. O farol dos Farilhões estava apagado, por motivo de uma explosão que o inutilizou recentemente, mas esta circunstância não teve a menor influencia no sinistro, pois que, mesmo aceso o farol não teria sido avistado de bordo, em virtude da cerração.
Chegada dos náufragos a Lisboa
Os passageiros e tripulantes do “Highland Hope” chegaram a Alcântara-Terra em comboio especial, pelas 8 horas da noite, e hospedaram-se no Francfort – Hotel Metrópole e France.
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No Ministério da Marinha logo que foi recebida comunicação do encalhe do “Highland Hope”, foi mandado seguir para o local do sinistro o rebocador “Patrão Lopes”. No Instituto de Socorros a Náufragos foi recebido, à tarde, um telegrama dando conta do estado do vapor e do salvamento dos náufragos.
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O comandante do “Highland Hope”, segundo informação do arquitecto espanhol Las Casas, só teve a noção do perigo quando a bordo foi ouvida a sirene do farolim de Peniche.
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Consta que a criança que desapareceu a bordo pertencia a um casal galego, que seguia para Buenos Aires.
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A agência Pinto Basto entregou o paquete aos cuidados do Lloyd.
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Faleceu no hospital de S. José o súbdito espanhol António Perez y Perez, um dos tripulantes do navio.
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Ao hospital de S. José recolheu António Baptista Pereira, de 37 anos, marítimo, que, quando trabalhava numa traineira para salvamento dos náufragos, se feriu, por ter caído em cima dum motor, ficando com contusões no baixo-ventre.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 19 de Novembro de 1930)

Imagem de navio de passageiros similar ao navio naufragado
Postal ilustrado da companhia armadora - Minha colecção

Características do navio “Highland Hope”
Nº oficial: 148170 - Iic: N/d - Porto de registo: Belfast
Armador: Nelson Steam Navigation Co., Ltd., Belfast
Construtor: Harland & Wolff, Ltd., Belfast, Janeiro de 1930
Arqueação: Tab 14.129,00 tons - Tal 8,733,00 tons
Dimensões: Pp 159,50 mts - Boca 21,13 mts - Pontal 11,30 mts
Propulsão: 1 motor do construtor - 2 veios - 2x8:Ci - 2.190 Nhp
Equipagem: 170 tripulantes e 375 passageiros

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Efeméride


O naufrágio do navio-escola alemão "Pamir"
3ª Parte

Imagem do navio-escola "Pamir"
Foto de autor desconhecido - Colecção ZMKG

Características do navio-escola “Pamir”
Armador: Heinz Schliewen, Hamburgo, Alemanha
Construtor: Blohm & Voss, Hamburgo, Outubro de 1905
Arqueação: Tab 3.910,00 tons - Tal 2.522,00 tons
Dimensões: Pp 114,50 mts - Boca 14.00 mts - Pontal 7,98 mts
Propulsão: À vela com motor auxiliar - max 16 min 9 m/h

«Olha sempre o perigo de frente!», foi com este conselho
paternal, que salvou o 6º sobrevivente do “Pamir”
Kiel, 28 – O marinheiro Gunther Hasselbach, o sexto sobrevivente do naufrágio do veleiro alemão “Pamir”, enviou ontem um telegrama aos seus pais, que vivem em Kiel. Foi encontrado sozinho numa baleeira, por um navio da guarda-costeira e encontra-se agora a bordo do paquete francês “Antilles”, que o desembarcará amanhã em Porto Rico.
Depois de ter tranquilizado os pais quanto ao seu estado de saúde, diz:
«Passei 72 horas na água antes de ser socorrido. Não tínhamos mais água potável, pois os barris foram levados pelas vagas. Muitos dos meus camaradas tiveram de beber água do mar, pois tinham os lábios terrivelmente inchados e estavam horrivelmente desfigurados. Durante todo o meu calvário, lembrei-me sempre da recomendação do meu pai: olha sempre o perigo de frente…»
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Casablanca, 28 – O transporte de tropas americano “Geiger” chegou hoje pelas 7 horas a este porto.
Uma vedeta com cerca de 40 fotógrafos e cineastas foi ao encontro do navio, logo rodeado por um enxame de barcos particulares, cujos passageiros desejavam cumprimentar os cinco sobreviventes do “Pamir”, recolhidos por aquela unidade da marinha americana.
Às 7 horas e 15 minutos, o representante da Embaixada da Alemanha Federal em Rabat, o adido naval dos Estados Unidos em Casablanca, o representante do governador da cidade, entraram a bordo na altura em que o “Geiger” atracava. Os rebocadores do porto oferecem-lhes um concerto de sirenes. Nos cais há centenas de pessoas. Os guindastes vergam ao peso dos cachos humanos.
Walter Anders, pai do grumete Folkert Anders, é o primeiro a entrar a bordo, seguido por uns cem jornalistas, que vão assistir à conferência com os sobreviventes do veleiro alemão. Nenhum destes conta mais de 20 anos e o seu aspecto físico ressente-se ainda das horas tremendas que viveram. Todos eles loiros, curiosamente iguais com o fardamento do exército americano que lhes foi dado no “Saxon”, que os recolheu, tem na cara e nas mãos marcas profundas das queimaduras da água salgada. Contudo, sorriem e estão a recuperar as forças perdidas nas sessenta horas que passaram no Atlântico.
Os cinco náufragos são os cadetes Folkert Anders, Karl Heinzkraas, as praças Klaus Friedrich, Hans Georg Wirth e o cozinheiro Carl Otto Tummer. Às 8 horas e 45 minutos entraram na sala de jantar do “Geiger” para uma curta conversa com os jornalistas.
«Devem compreender que estes rapazes estão sobretudo ansiosos por se encontrarem com a família, no seu país, e não queremos retê-los mais do que o tempo necessário» - começou por dizer o capitão Lotz, comandante do “Geiger”. Depois, Henzel, conselheiro da Embaixada Alemã em Rabat, agradeceu nomeadamente ao Governo marroquino todas as facilidades concedidas aos sobreviventes do “Pamir” e às autoridades americanas os extremos cuidados que lhes prestaram.
Começaram então as perguntas dos jornalistas, devendo estas e as respostas dos náufragos ser traduzidas sucessivamente em alemão, inglês e francês. Entretanto, o povo avoluma-se no cais onde dois veículos militares americanos esperam os cinco homens para os levarem ao aeroporto de Cazés, em Casablanca, donde seguirão viagem para a Alemanha.
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A odisseia alucinante das vítimas do “Pamir”
Casablanca, 28 – Carl Otto Dummer, cozinheiro do “Pamir”, contou aos jornalistas a odisseia alucinante dos tripulantes:
«O nosso navio foi surpreendido pelo furacão “Cary” quando navegava a todo o pano. A violência do temporal impediu-nos de ferrar as velas que foram rasgadas em poucos minutos. Vimo-nos obrigados a cortas os panos com facas, para desenvencilhar os mastros. O “Pamir” baloiçando como uma casca de noz, adornou perigosamente. Então, o comandante deu a ordem: salve-se quem puder, ao mesmo tempo que a rádio lançava um S.O.S. De repente o navio deitou-se por completo. Assim, as baleeiras não puderam ser arreadas».
«Uma das embarcações foi arrebatada por um vagalhão e atirada para vários metros de distância. Montões de água caíram sobre os tripulantes agarrados com a força do desespero ao casco e aos mastros, alguns dos quais tinham sido quebrados pela violência do mar».
«A inclinação do “Pamir” tornou-se tão acentuada, que todos nós, escorregando pelo casco, fomos atirados, a trouxe-mouxe, para o mar. Só raros companheiros voltaram à superfície…
Enquanto que os sobreviventes nadavam a toda a força para se distanciarem o mais possível do local do naufrágio, o “Pamir” desaparecia lentamente nas águas revoltas. Deviam ser umas 11 horas e quarenta e cinco minutos».
E o cozinheiro continua:
«Agora reagrupados, os náufragos nadavam em conjunto, ajudando-se uns aos outros, à procura de objectos flutuantes a que pudessem agarrar-se. A certa altura vimos um escaler vazio. Foi-nos preciso quase uma hora, exaustos pelas vagas gigantes, com 10 metros de altura, os pulmões cheios de água salgada, para o alcançarmos. Uma vez a bordo, verificamos que os flutuadores em volta do escaler, estavam cheios de água do mar. Decidimos arrancá-los e deitá-los fora».
«A primeira noite foi tremenda. Tínhamos água até ao peito. Dois camaradas faleceram. Em nada lhes pudemos acudir. Empurramos os cadáveres para o mar, orando, segundo as tradições da nossa religião e da marinha. Pouco há a dizer do dia e noite seguintes. Repartimos as conservas que encontramos no escaler. Abrimos as latas com as nossas facas, mas não tínhamos água doce. Sofríamos de uma sede horrorosa. Avistamos barcos e gritamos para lhes chamar a atenção, mas como vento soprasse em sentido contrário, não nos ouviram e passaram ao largo. No dia seguinte, desvairados, dois camaradas atiraram-se ao mar. Um quarto de hora mais tarde desapareciam para sempre».
«Nesse mesmo dia, avistamos outros barcos que passavam relativamente perto do nosso escaler. Tampouco nos enxergaram, apesar dos sinais desesperados que fazíamos com uma bóia e um cinto de salvação presos a um pau, que agitávamos em todos os sentidos».
«Estávamos de tal maneira exaustos que nem força tínhamos para abrir as latas de conservas que restavam. Todos começavam a delirar. Um via vedetas rápidas, outro aviões, um terceiro queria nadar até à costa inglesa. Um camarada atirou-se ao mar sem que pudéssemos, como sucedera com os outros, impedi-lo. Os tubarões rondavam o barco, mas nenhum nos atacou. Uma vedeta americana passou muito perto de nós, mas os tripulantes não nos ouviram gritar. Éramos então seis a bordo do escaler, verdadeiro brinquedo no oceano enfurecido».
«Apesar da nossa situação trágica, tivemos subitamente a noção de que íamos ser salvos. Quis Deus que começasse a chover, o que refrescou a nossa pele escaldada pela água do mar. De repente, qual aparição celestial, formou-se um arco-íris enorme, diante de nós, entre as nuvens escuras, e, brutalmente, emergiu dele uma torre enorme. Era um navio. Saindo do torpor que a todos invadia, tivemos forças para dar graças a Deus, nosso Salvador».
«O navio viu-nos, socorria-nos. Saltando todos para a água, nadamos ao seu encontro, parecíamos doidos, doidos de alegria. Agarrámo-nos aos cabos que nos atiravam. Uns segundos mais tarde estávamos, sem poder acreditar ainda em tamanha felicidade, a bordo do navio americano “Saxon”. A recepção dos americanos, excedeu tudo o que possamos contar. Vestidos de novo, reconfortados com bebidas quentes, fomos, horas depois, transbordados para o “Geiger”, onde médicos e enfermeiros nos rodearam da sua solicitude extrema».
Enquanto o cozinheiro falava, o cadete Folkert Anders abraçava o pai, segurando-lhe uma das mãos.
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Casablanca, 28 – Os cinco sobreviventes do “Pamir” partiram para Frankfurt num avião militar americano.
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Chegaram a Hamburgo os cinco sobreviventes do “Pamir”
Hamburgo, 28 – Visivelmente fatigados após 10 horas de voo, os cinco sobreviventes do navio-escola “Pamir” chegaram, esta noite, a Hamburgo, onde uma numerosa multidão os aguardava, fazendo-lhes uma entusiástica recepção.
O capitão do “Pamir”, que não embarcara por se encontrar em férias e que fôra esperar o pequeno grupo a Frankfurt, levou-os rapidamente para um hotel desta cidade, onde serão interrogados pelas autoridades marítimas sobre as circunstâncias técnicas do naufrágio.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Setembro de 1957)

Material de salvação de náufragos
O trágico naufrágio do veleiro alemão “Pamir”, coloca em evidência uma exposição de material de salvamento de náufragos, agora efectuada em Londres, na qual é apresentada uma jangada de lona e borracha, de formato curioso, que pode encher-se em poucos minutos e tem lugar para dez pessoas.
Neste barco de nova espécie, e possível navegar durante longo tempo, sem qualquer risco, tanto mais que cada um dos tripulantes será ainda munido de um colete pneumático. Esta jangada fará parte integrante dos navios britânicos, a partir do dia 1 de Janeiro do próximo ano.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 30 de Setembro de 1957)

Imagem do navio-escola "Pamir"
Foto de autor desconhecido - Colecção Linger & Look

A derradeira fotografia do “Pamir”
A derradeira fotografia do “Pamir”, o navio-escola da Marinha da Alemanha Ocidental, cujo recente naufrágio impressionou o Mundo inteiro, foi feita pela esposa de um capitão dinamarquês. O “Pamir” saía, então, do porto de Buenos Aires, em 10 de Agosto, na mesma ocasião em que o navio de carga dinamarquês “Nevada” entrava naquele porto.
A bordo do “Nevada” esta a Srª Cecile Dam, de Esbjerg, que tirou uma expressiva fotografia, que justificava este título pungente: «Viagem sem regresso…»
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 2 de Outubro de 1957)