sábado, 22 de julho de 2017

Apresentação de livro sobre naufrágios!


Os “Naufrágios no «Mar de Viana»”

O capitão da marinha mercante Manuel de Oliveira Martins apresentou no «Centro do Mar», instalado à face da ré do navio “Gil Eanes”, no último sábado, dia 15 p.p., ao final da tarde, o seu terceiro livro, desta feita subordinado ao tema “Naufrágios no «Mar de Viana»”.
Com esta publicação fica quase completa a história marítima do porto e cidade de Viana do Castelo, tendo em linha de conta os trabalhos anteriormente editados, sobre os «Pilotos da barra de Viana - 1848/1948 -, cem anos de história» e «Viana e a pesca do bacalhau», livros publicados em 2010 e 2013 respectivamente.


Muito embora não se trate de uma pesquisa exaustiva, sobre os sinistros marítimos que abrangem a área definida por «Mar de Viana», tarefa que a meu ver se revelaria complexa e de extrema dificuldade, o livro tal como se apresenta, condensa uma considerável quantidade de ocorrências, algumas das quais ainda muito presentes, naqueles que de alguma forma tem ou tiveram actividades ligadas ao mar.


Presidiu à cerimónia de lançamento do livro o digníssimo presidente da Câmara de Viana do Castelo, Eng.º José Maria Costa, que numa breve saudação, aludiu ao interesse cultural que lhe merecem as obras do autor, em prol da herança marítima que tem vindo a ser preservada através dos seus livros, para memória futura.
O prefácio do livro está assinado pelo presidente da autarquia e pelo Dr. José Carlos de Magalhães Loureiro, do Centro de Estudos Regionais, a quem coube a apresentação do mesmo.
Sobre o livro propriamente dito falou igualmente o autor, que na oportunidade lembrou ter ele mesmo vivido uma situação de naufrágio. Dadas as circunstâncias dessa distante ocorrência, de certa forma comparada com alguns dos sinistros agora retratados, serviram de base e forte motivação para abraçar este trabalho, que visa paralelamente homenagear todos quantos perderam a vida neste mar.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXVII)


O encalhe e perda do rebocador “Aghios Georgios II”

Um cargueiro de 4.000 toneladas com as luzes acesas e
sem sinal algum de vida a bordo encalhou na Ericeira e os
habitantes da vila assistem surpreendidos ao naufrágio.
Ericeira, 1 (às 3 horas e 30 minutos) – Cerca das 2 horas, alguns habitantes desta localidade viram, com grande surpresa, um cargueiro de umas 4.000 toneladas aproximar-se, com todas as luzes acesas, vindo a encalhar a uns vinte metros da areia desta praia, e a uns dez metros da muralha do hotel da Ericeira.
Assestando luzes de automóveis, sobre o barco, lançando foguetes e disparando pistolas, foi tentado chamar a atenção da tripulação, mas esta, até agora, não respondeu. É de supôr, por isso, que tenha abandonado o barco, ou que qualquer coisa de muito extraordinário se tenha passado a bordo.
Pela maneira como as luzes decrescem de intensidade, é de admitir a hipótese das caldeiras estarem apagadas ou a diminuir a sua pressão. De qualquer modo, o barco, dados o local onde se encontra e a grande rebentação do mar, deve considerar-se perdido, pois é varrido, constantemente, de um lado ao outro, por vagas alterosas.
Quanto à tripulação, se o abandonou e navega em lanchas, corre grande perigo de naufragar. Ninguém por aqui acredita, que se trate de um barco português, pois só um piloto que desconheça completamente a nossa costa cometeria o erro de se aproximar tanto de terra, nesta zona. É no entanto possível, que o piloto, dado o facto do hotel da Ericeira se encontrar fortemente iluminado, por motivo da festa da passagem do ano, se tenha convencido que estava em Cascais.
Enfim, fazem-se muitas conjecturas, mas nada se pode afirmar concretamente senão isto: o barco encontra-se à mercê das vagas, ignora-se o paradeiro da tripulação e não há aqui qualquer meio de salvamento, que lhes possa acudir.
(In jornal “O Século”, sábado, 1 de Janeiro de 1949)

Imagem do encalhe do rebocador publicada no jornal

Não foram encontradas as características do rebocador de alto-mar “Aghios Georgios II”, encalhado e desfeito pelo mar na Ericeira. Por tratar-se de navio idêntico ao rebocador sinistrado, eis as características do “Marigo Matsa”, como segue:

Armador: Loucas Matsas & Sons, Pireu, Grécia
Nº Oficial: N/d - Iic: S.V.A.A. - Porto de registo: Pireu
Construtor: L. Smit & Zoon, Kinderdijk, Holanda, 1900
ex “Poolzee”, N.V.L. Smit & Co., Sleepdienst, Holanda
Arqueação: Tab 304,00 tons - Tal -,- tons
Dimensões: Pp 40,97 mts - Boca 8,38 mts - Pontal 3,86 mts
Propulsão: Maats. de Schelde, 1:Te - 3:Ci - 141 Nhp
Equipagem: 15 tripulantes

O mar está a destruir o barco que encalhou na Ericeira e que foi
abandonado, devido ao temporal, pelo navio que o rebocava
Um pequeno navio encalhou na praia da Ericeira, na madrugada de sábado, facto que provocou ali grande alarme, pois uma parte da população, por ser noite de festa, encontrava-se ainda a pé. Foi do hotel da Ericeira onde, entre outros, se encontrava o ex-rei Humberto de Itália e o sr. engº. Aulânio Lobo, da Sociedade Geral de Transportes, seu filho Artur Lobo e o médico municipal, dr. Franco, que primeiramente notaram o sinistro e logo tomaram providências para socorrerem o barco e os seus tripulantes, pois aqueles senhores avisaram de imediato as autoridades.
Verificaram, porém, que o navio inicialmente pensado ser um vapor de grande tonelagem, não tinha ninguém a bordo, o que levou a crer que se tratasse de um barco que vinha a reboque de outro, tanto mais que todas as luzes estavam acesas, o que está previsto pelo regulamento marítimo, sempre que um navio navega a reboque e sem tripulação.
De terra fizeram sinais luminosos, desfecharam tiros e lançaram foguetes, para atrair a atenção de possíveis tripulantes. Mas de bordo não veio nenhum sinal de vida, e o navio, batido pelas vagas, foi atirado de encontro às rochas e ao areal da praia de banhos, no local denominado “Lago da Baleia”.
De manhã, na baixa-mar, verificaram que o barco – um rebocador de alto-mar de nacionalidade grega – tinha um grande rombo na proa, no ponto em que assentou nos rochedos. Como o navio estivesse apenas a 20 metros da praia e a 10 da muralha do hotel e o mar o consentisse, de manhã foram a bordo os srs. Domingos Leitão Correia, delegado marítimo; João de Deus Oliveira, comandante dos bombeiros locais, que acorreram logo que o navio encalhou; o cabo-de-mar Luís Álvaro Lopes, os quais verificaram que a bordo apenas se encontrava um gato, que trouxeram para terra e que as portas dos beliches estavam fechadas e seladas, sinais evidentes que o navio vinha a reboque e em regime de despacho.
De facto na manhã de ante-ontem entrou no Tejo o rebocador de alto-mar “Marigo Matsa”, de 309 toneladas, da praça do Pireu, com quinze homens de tripulação, sob o comando de Demetrios Polemis, consignado à casa Pinto Basto.
Foi percebido então o que se passara. Este rebocador, que procedia de Southampton, trazia a reboque outro rebocador de alto-mar da mesma tonelagem, o “Aghios Georgios II”, que fora adquirido na Inglaterra, onde tinha o nome de “Trinit” (?) e se destinava ao Pireu, onde iria ser reconstruído, visto tratar-se de um barco já velho.
Os dois rebocadores fizeram escala por Vigo, para o “Marigo Matsa” ser reabastecido e substituir alguns tripulantes. Estes são de nacionalidade inglesa, grega e mexicana. O rebocador com o outro a reboque saíram de Vigo com destino a Gibraltar, onde fariam escala. O “Aghios Georgios II” seguia sem tripulação e, como é da lei marítima, um dispositivo de relojoaria, próprio para o efeito, acendia as luzes a determinada hora e apagava-as ao nascer do dia.
O encalhe do “Aghios Georgios II”
O temporal obrigou o comandante do “Marigo Matsa”
a cortar o cabo que o prendia ao outro rebocador
Ao norte das Berlengas, o temporal assumiu tais proporções, que o “Marigo Matsa” começou a estar em perigo. As vagas cobriam o rebocador, que dificilmente conseguia avançar açoitado pelo mar e pelo vento. Foi então que o comandante, como é de uso ser feito em tais emergências, mandou cortar o cabo que o prendia ao navio rebocado, abandonando-o aos caprichos do mar. Ao mesmo tempo fez um aviso à navegação para se precaver naquelas paragens – a seis milhas das Berlengas – contra o casco abandonado.
O “Marigo Matsa” veio então para Lisboa, onde o seu
comandante deu parte do sinistro às autoridades marítimas.
Atraídas pela notícia centenas de pessoas foram até à Ericeira, para admirar o rebocador encalhado. Este considera-se perdido, não só pelo local onde encalhou, mas também pelos danos que nele está a causar o mar tempestuoso.
Já começaram a dar à praia alguns utensílios de bordo e apareceu no areal um cachorro morto, que se crê ter estado a bordo do barco sinistrado. Este como não trazia tripulantes, também não tinha a bordo roupas ou quaisquer outros objectos usados por pessoas.
Ontem estiveram na Ericeira o comandante do “Marigo Matsa” e o agente do Lloyds, a fim de verificarem a posição do barco. Muita gente dos arredores também afluiu ontem ao local.
(In jornal “O Século”, segunda-feira, 3 de Janeiro de 1949)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXVI)


O encalhe e subsequente naufrágio do vapor "Henry Mory"

Em Peniche
Encalhou um vapor francês de carga
Devido ao nevoeiro que caiu sobre a costa, encalhou, esta manhã, pelas 7 horas, em frente do Forte da Luz, em Peniche, o vapor de carga francês “Henry Mory”.
Levava 30 homens de tripulação e bastante carga.
O comandante do navio, com os recursos de que dispõe a bordo, conta desencalhá-lo de madrugada. Para o local seguiu o vapor-rebocador “Patrão Lopes”, para lhe prestar socorros.
Informam de Peniche, que de bordo do navio francês “Henry Mory”, ali encalhado, foi tirado para a praia, em batelões, o carvão que transporta, esperando ser safo esta madrugada.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 7 de Outubro de 1931)

Imagem do encalhe do vapor "Henry Mory"
Foto da colecção do Sr. João Paulo Leitão
Publicada na página do facebook «Eu sou de Peniche!»

Características do vapor francês “Henry Mory”
Armador: Union Indust. & Maritime et Soc. Française d’Armament
Operador: S.A. de Navegation “Les Armateurs Français”, Rouen
Nº Oficial: N/d - Iic: O.U.G.Y. - Porto de registo: Rouen
Construtor: Ateliers & Chantiers de Bretagne, Nantes, 1920
ex “Martine” - proprietário desconhecido
ex “Thorium”, Société Industrielle de Combustibles, Nantes
Arqueação: Tab 2.564,00 tons - Tal 1.517,00 tons
Dimensões: Pp 89,15 mts - Boca 13,23 mts - Pontal 5,97 mts
Propulsão: Turbina a vapor do construtor
Equipagem: 30 tripulantes

O encalhe do vapor “Henry Mory”
A fim de proceder a trabalhos que se relacionam com o encalhe do navio de carga francês “Henry Mory”, que ante-ontem, devido ao forte nevoeiro, encalhou nuns rochedos próximo de Peniche, seguiu hoje, de automóvel, para ali, o sr. Henry, chefe do armamento da empresa proprietária do referido navio, com cujo comandante conferenciou.
Às 14 horas apenas se avistava parte dos mastros do “Henry Mory”, que se acha adornado a um dos bordos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 9 de Outubro de 1931)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Leixões na rota do turismo! (11/2017)


Na primeira quinzena de Julho

De acordo com a informação prestada no post anterior, apenas quatro navios de passageiros estiveram de visita ao porto neste período. Há a sublinhar a primeira escala em porto do navio "Island Sky", cuja presença tem sido notada com regularidade nos portos do sul do país. Porque os navios de guerra são igualmente atractivos, merece do mesmo modo ser realçada a primeira visita ao porto do navio de assalto anfíbio espanhol "Castilla", principalmente pela novidade que este tipo de navios apresenta e representa.

No dia 3, o navio de passageiros "Oriana"
Chegou de Southampton, tendo saído com destino a Gibraltar

No dia 5, o navio de passageiros "Silver Spirit"
Chegou procedente da Corunha, seguindo viagem para Lisboa

No dia 9, o navio de passageiros "Island Sky"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha

No dia 12, o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Chegou procedente de Vigo, tendo também saído para Lisboa

O navio LPD L52 "Castilla"
O navio de assalto anfíbio L52 “Castilla” é a segunda unidade da classe L51 “Galicia”. Foi construído nos estaleiros Bazan, em Ferrol del Caudillo. Encontra-se na situação de serviço activo desde 26 de Junho de 2000. Tem 13.815 toneladas de deslocamento, 160 metros de comprimento, 25 metros de boca e 16,8 metros de pontal. A propulsão assegura uma velocidade de 20 nós e tem capacidade para percorrer 6.000 milhas náuticas, à velocidade máxima de 12 nós. A guarnição é composta por 190 tripulantes.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXV)


Navio novo
Deve ser hoje lançado à água, em Gaia, o lugre “Luctador”, de 700 toneladas, que acaba de ser construído nos estaleiros do Sr. Alfredo de Fonseca Barros.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 29 de Novembro de 1917)

Na realidade este lugre não foi construído, mas sim reconstruído, sobre o cavername do brigue norueguês “Anna”, que havia sido desmastreado em 1910, para ser adaptado a servir de laita (termo aportuguesado do inglês “lighter”), nos portos do Douro e Leixões, devido à enorme destruição de diversos navios mercantes, fragatas e batelões de carga, durante a grande cheia no rio, que teve lugar entre os dias 22 a 24 de Dezembro de 1909. Apresentava à data as seguintes características: 

Brigue norueguês “Anna”
Armador: A.J. & C. Amundsen, Sarpsborg, Noruega
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Sarpsborg
Construtor: N/d, Sannesand, Noruega, Setembro de 1870
Arqueação: Tab 219,00 tons - Tal 199,00 tons
Dimensões: Pp 34,26 mts - Boca 7,45 mts - Pontal 3,66 mts
Propulsão: À vela

Gravura de galera não identificada em situação de naufrágio
Desenho de Charles Dixon - (Ilustração Portuguesa Nº736 - 29.3.1920)
Sem correspondência ao texto

Lugre portugues "Luctador"
Não há informação completa sobre as características do lugre após a reconstrução, excepto em relação aos novos proprietários, identificados por Alfredo da Fonseca Barros em sociedade com a Companhia Agrícola e Comercial dos Vinhos do Porto.
Esteve matriculado na Capitania do Douro, com o nº de registo B-105, com as letras H.L.U.T., do Código  Internacional de Sinais e arqueava 314,00 toneladas liquidas.

O lugre “Luctador” naufragou no dia 10 de Agosto de 1918, por motivo de incêndio a bordo, quando se encontrava a cerca de 110 milhas náuticas do porto de São Luiz do Maranhão, Brasil, em viagem para o Porto. Não há notícia sobre os náufragos.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 21 de Agosto de 1918)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXIV)


Com um rombo no porão atracou no porto de Leixões o navio
de carga “Borba”, após colidir com rochedos na Boa Nova

Às 20 horas de ontem (04Jan49) chegou a Leixões o vapor “Borba”, de 7.000 toneladas, pertencente à Sociedade Geral de Transportes, com 6.000 toneladas de carvão para a firma lisbonense Harold, Lda., e destinado à C.P.
Recentemente lançado à água em Inglaterra, pois foi construído nos estaleiros de Sunderland, o “Borba” fazia a sua primeira viagem. Logo à partida daquele país suportou um violento temporal, aguentando-se magnificamente.
Ao chegar a Leixões, como o mar estava agitado e era grande a cerração, o comandante, sr. José Matos Neves, verificando que não podia entrar no porto, pediu piloto, tendo-lhe sido respondido, da respectiva corporação, que o prático da barra só podia dar entrada ao navio às oito horas.
Cerca das quatro horas, porém, o “Borba” aproximou-se demasiadamente da terra devido à agitação do oceano (a) e foi bater contra os rochedos da Boa Nova. Com um rombo no porão Nº, o navio começou logo a ficar inundado. Vendo-se impotente para esgotar a água com os recursos de que dispunha, a tripulação fez, durante três horas, repetidos toques de sirene, pedindo socorros, mas sem resultado.
Então às 7 horas, verificando que os pilotos não acorriam ao seu chamamento, o capitão do “Borba” resolveu entrar no porto com diligente sucesso.

Foto do navio "Borba" em Leixões
Imagem da Fotomar - Matosinhos

Características do navio “Borba”
Armador: Soc. Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa
Nº Oficial: H-378 - Iic: C.S.I.Y. - Registo: Lisboa, 25.Abril.1949 (?)
Construtor: Wm. Doxford & Sons, Ltd., Sunderland, Inglaterra, 1948
Arqueação: Tab 4.457,25 tons - Tal 2.620,93 tons - Pm 7.145 tons
Dimensões: Ff 129,66 mts - Pp 123,99 mts - Bc 16,38 mts - Ptl 7,04 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Di - 4:Ci - 3.800 Ihp - 13,5 m/h
Equipagem: 23 tripulantes

Solicitados os socorros dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça, compareceram estes, a bordo do navio com duas moto-bombas, e iniciaram o trabalho de esgotamento da água, enquanto os tripulantes procediam à rápida descarga do navio. Mas as duas bombas não conseguiam esgotar a água entrada a bordo e, então, foi pedido o auxílio dos Bombeiros Voluntários Portuenses, que acudiram rapidamente com uma moto-bomba que tira 3.000 litros de água por minuto. Simultaneamente, um mergulhador desceu para avaliar a extensão do rombo.
Logo que o “Borba” esteja vazio será reparado, visto não ser aconselhável a sua partida para Lisboa com o rombo produzido pelo choque.
Assim que tiveram conhecimento do sinistro, vieram de Lisboa, num avião especial, os srs. engº Aulânio Lobo, comandante Otero Ferreira e engº.s Rodrigues dos Santos e Sousa Mendes, respectivamente, administrador, secretário-geral, director dos serviços técnicos e engenheiro dos estaleiros da C.U.F. Ao mesmo tempo vieram, em camionetas, duas bombas para serem utilizadas no esgotamento da água, se fosse necessário.
O “Borba” trouxe de Inglaterra 23 homens, incluindo o comandante; o imediato, sr. Manuel Piorro, de Buarcos; 2º piloto, sr. António Ribeiro da Silva, de Miranda do Corvo, e 1º maquinista, sr. José Júlio Duarte, de Lisboa. Como passageiro vinha o sr. Henrique Duarte, superintendente de máquinas da Sociedade Geral de Transportes.
O “Borba” é a terceira unidade de uma série de quatro navios do mesmo tipo, que a Sociedade Geral de Transportes mandou construir em Sunderland.
Ao fim da tarde, o “Borba”, aliviado de parte da carga, atracou à doca velha, em Leixões. No local compareceram as corporações dos Bombeiros Voluntários Portuenses e de Leixões, a fim de, com as suas moto-bombas, esgotarem a água dos porões inundados. Os trabalhos prosseguiram durante a noite e devem prolongar-se até de madrugada.
(In jornal “O Século”, quinta-feira, 6 de Janeiro de 1949)

(a) Numa situação de forte agitação marítima, por norma mais agressiva próximo da linha de costa, os navios devem afastar-se para o largo, onde encontram ondulações passiveis de assegurar melhores níveis de navegabilidade e segurança.
(?) De acordo com a Lista dos navios mercantes nacionais, referida a 1 de Julho de 1949, constata-se que o navio efectuou transporte de mercadorias, abriu um rombo, de acordo com a notícia supra, e muito provavelmente completou a necessária reparação, antes de ter realizado a respectiva matricula na Capitania de Lisboa!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Navios consagrados pela história


O navio de passageiros italiano "Rex"

Em Itália
Um transatlântico assombroso

Imagem do lançamento à água do navio "Rex"
Foto de autor desconhecido
Colecção Pinterest - Todd Neitring

Foi lançado à água, pela sociedade italiana Ansaldo, em Sestri-Ponente, um dos maiores paquetes que o mundo tem visto. É o “Rex”.
Ao acto de lançamento, que assumiu foros de acontecimento sensacional, assistiram os reis de Itália e uma multidão espantosa. Na verdade, houve razão para tudo isso. O “Rex” fica sendo talvez o primeiro paquete do Atlântico.

Cartão postal do navio com as datas da conquista da flamula azul
Colecção Pinterest - Ted Tidious

É um gigante assombroso, cujas proporções, aspecto, velocidade, conforto e segurança são, por si sós, uma afirmação magnífica do que pode o engenho humano. Calcule-se: As dimensões do seu elegante casco são de 268,25 metros de comprimento e 31 de largura, tendo uma altura, desde a quilha à ponte de comando 36,50 metros. É vapor de 50.000 toneladas, tem onze cobertas e quinze porões estanques!
Bastava dizer isto para aos olhos de quem sabe o que é um vapor, o “Rex” aparecer logo como um gigante fabuloso!

Poster da empresa armadora, Génova-Nova York em 6 dias e meio
Colecção Pinterest - Anna Hall

Características do navio de passageiros “Rex”
Armador: Itália Flotte Reunite, Génova, Itália
(Navegazione Generale, Cosulich Line e Lloyd Sabaudo)
Nº Oficial: N/d - Iic: P.E.L.O. - Porto de registo: Génova
Construtor: S.A. Ansaldo, Sestri Ponente, Génova, 09-1932
Arqueação: Tab 51.062,00 tons - Tal 30.823,00 tons
Dimensões: Ff 268,15 mts - Pp 254,13 mts - Bc 29,57 mts - Ptl 9,32 mts
Propulsão: Ansaldo - 12:Tv - 22.082 Nhp - 4 hélices - 27 m/h

Postal ilustrado da empresa armadora do navio
Minha colecção

Mas há mais: Este vapor deve atingir uma velocidade de 27 milhas por hora, qualquer coisa como 50 km, - de modo que, assim, será capaz de chegar da Itália a Nova York em 7 dias!
Vai ser esse, mesmo, o seu destino. Estabelecer, entre a Itália e os Estados Unidos uma linha rápida, - podendo o monstro levar, dentro de si, o número espantoso de 2.000 passageiros, ou mais, distribuídos por quatro classes distintas!

Pintura do navio "Rex" a navegar da autoria de Robert LLoyd
Colecção Pinterest

Como dados curiosos do novo “Rex” é possível adiantar que, na sua construção, entraram nada menos de 28.000 toneladas de materiais metálicos; que o casco pesa mais de 200 toneladas, uma caldeira completa, 180 toneladas; uma turbina de baixa pressão, 80, e que toda a aparelhagem de governo pesa umas 100 toneladas, pesando 160 toneladas as âncoras e as correntes!

Foto do navio com registo da firma detentora da mesma
Colecção Pinterest

As hélices têm 5 metros de diâmetro. E a superfície de conjunto dos alojamentos, salões e corredores é de uns 40.000 metros quadrados!
Na construção do “Rex”, ocuparam-se, trabalhando ao mesmo tempo, mais de 2.000 operários! Tal é, em breves palavras, o arcaboiço deste monstro que a Itália acaba de ver concluído nos seus estaleiros – para assombro do mundo e consolação do génio humano!
Que Deus abençoe o “Rex” – em nome e proveito dos que têm de andar pelas águas do mar!
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 8 de Outubro de 1931)

Foto do ataque ao navio da Força Aérea Inglesa
Colecção Wikipedia

Baía de Capo d'Istria, Triestre, Itália, 8 de Setembro de 1944.
O paquete italiano "Rex" da Itália Line, apesar da tentativa de ser mantido escondido durante a II Grande Guerra Mundial, não conseguiu evitar ser avistado por aviões ingleses da R.A.F., que procederam ao bombardeamento, até à sua completa destruição.
A imagem que documenta o desenrolar do ataque aéreo, regista um lamentável episódio provocado pela irracionalidade governativa de países europeus em conflito, outro momento trágico para lembrar, na história contemporânea das nações.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Leixões na rota do turismo (10/2017)


Na última semana de Junho

Apenas um navio de passageiros esteve de visita ao porto, no período correspondente à última semana deste mês. Antecipamos que o mês de Julho promete da mesma forma ser parco no número de escalas, com diversos navios conhecidos, de regresso a Leixões.

No dia 27, o navios de passageiros "Saga Pearl II"
Tendo chegado procedente de Castellon e saído com destino a Dover

sábado, 1 de julho de 2017

História trágico-marítima! (CCXXIII)


O naufrágio do vapor "Mourão", na barra do rio Douro

– Na restinga do Cabedelo, encalhou ontem o vapor “Mourão”
Os 18 homens da sua tripulação foram salvos por meio do cabo
de vai-vem - As mil toneladas de carvão que constituíam a sua
carga,e o vapor consideram-se perdidos - Momentos de ansiedade
O valor dos pescadores da Afurada
O sinistro deu-se pouco depois das 4 horas. E não obstante, poucos minutos depois, toda a cidade tomava conhecimento dele por informes incompletos, é certo; mas que ainda mais exageravam a sua gravidade.
De que se tratava? Um vapor naufragado à entrada da barra - dizia-se. E acrescentava-se com ar terrificante, que a tripulação não podia ser salva, dada a posição em que o navio se encontrava, e a dificuldade de estabelecer socorros eficazes.
No posto de pilotos, construído na barra, vai uma azáfama própria da ocasião. Fora, olhando o Cabedelo, o enorme banco de areia que se estende ao largo, à distância de umas centenas de metros, vê-se um formigueiro de gente; do outro lado do recife, isto é no mar, encontra-se o vapor naufragado, do qual apenas se divisa a mastreação. O povo junta-se na Foz, a ver o salvamento dos náufragos.

Como encalhou o vapor “Mourão”
O vapor “Mourão”, pertencente à firma desta cidade Guilherme Machado & Cª., da rua da Nova Alfândega, vinha de Cardiff com uma carga de mil toneladas de carvão. O navio é de mil e duzentas toneladas e tinha 18 homens de tripulação.
Depois de ter metido o piloto, preparava-se para entrar a barra. Ao largo estavam outros vapores também para entrar. Próximo da embocadura, o leme falhou, por motivo de se ter partido o «galdrope» (1), e o navio, já sem direcção, começou a ser batido pelo mar, a inclinar para a direita, sobre a restinga, até que encalhou, ficando a uma distância da praia de cerca de 40 metros.
Entretanto, o mar era cada vez mais forte. As ondas encrespavam-se, alagavam o vapor de lez a lez, que imobilizado pelo encalhe, constituía já um perigo para as pessoas que dentro dele estavam.
(1) Cabos de aço ou correntes ligados ao leme, nos navios de maior porte, que transmitem o movimento da roda de malaguetas ao leme, para governo do navio. Também é utilizada a designação gualdrope.

O salvamento dos náufragos
Era urgente cuidar da sua salvação. Foi o que fizeram. De bordo tinham já içado a bandeira de socorro.
Do posto de pilotos saiu o pessoal respectivo, com cabos e foguetões. As lanchas depressa alcançaram a restinga. E então, com o auxílio dos pescadores da Afurada, que afluíram em número considerável, a prestar os seus serviços, foram feitas as primeiras diligências para a montagem do cabo. Todos estes trabalhos foram executados prontamente, rapidamente, conforme as circunstâncias o exigiam.
Foi lançado o primeiro foguetão. Nada! O vento arrastou-o para a esquerda, fê-lo cair na água. De bordo a tripulação havia lançado à água bóias com cabos; as ondas arrastaram-nas até à praia, sendo conseguido por este meio fazer a ligação com o vapor. Assim, o cabo de vai-vem foi estabelecido. A cesta foi puxada de bordo, girando suavemente pelo cabo. E começou o salvamento dos náufragos – os 18 homens da tripulação, e mais um, o piloto que conduzia o navio.
O processo pelo cabo de vai-vem é conhecido. Uma grossa corda liga o vapor a terra. Sobre a corda fica uma cesta onde os náufragos se metem; essa cesta é puxada por meio de outro cabo, e neste serviço, que demanda esforço, é que se utilizam bastantes homens.
Quando os primeiros náufragos tomaram lugar na cesta, as pessoas da terra, pescadores da Afurada, gente da Foz, num admirável gesto de altruísmo e de solidariedade, agarrada ao cabo, a pulso, começou a puxar a cesta. O pequeno saco de lona, com os náufragos dentro, aproximava-se de terra. Mais um impulso – e estavam salvos. Todos acorreram para eles. Os náufragos estavam extenuados, e nos olhos estampava-se-lhes o espanto que o perigo da morte lhes causara.
Afagaram-nos, emprestaram-lhes roupas; meteram-nos numa lancha e seguiram com eles para a Foz, onde outros socorros lhes seriam prestados. E a cesta de salvação continua na sua faina. Outros náufragos vieram para terra; os mesmos socorros, os mesmos desvelos, os mesmos abraços. E assim sucessivamente, até final.
O penúltimo homem a sair do vapor foi o piloto da barra, sr. Manuel Pinto da Costa. Quando saiu da cesta foi logo rodeado por muitos dos seus colegas e pelo capitão do porto, sr Lencastre.
O piloto explicou, em duas frases simples, a origem do encalhe: - Não havia nada a fazer. O «galdrope» quebrou e o vapor ficou sem leme. Não havia nada a fazer!
Foi por motivo dessa avaria que o “Mourão”, tocado pelo mar embravecido e alteroso, que fazia, descaiu para a restinga do Cabedelo, ficando com a proa em frente da praia, encalhado e metendo água em grande quantidade.
Depois do piloto foi salvo o capitão – o sr. João Fernandes Matias Queijeira, de 54 anos, natural de Ílhavo. Quando chegou a terra este velho marinheiro, de rosto tostado, aliviou-se do colete de salvação que trazia vestido, e pediu apenas que lhe dessem água:
- Dêem-me água, estou a morrer de sede. Deram-lhe água. Como os outros náufragos, o capitão do “Mourão” foi conduzido para a Foz, numa lancha, sendo acompanhado por muitos amigos, que o abraçavam e felicitavam pelo salvamento dele e da sua gente.

Foto do encalhe do vapor "Mourão", na barra do rio Douro
Imagem de autor desconhecido

Características do vapor “Mourão”
1923-1928
Armador: Guilherme Machado & Cª., Lda., Porto
Nº Oficial: B-175 - Iic: H.M.O.U. - Porto de registo: Porto
Construtor: Nv Werft Gusto, Schiedam, Holanda, 24.06.1918
ex “Zeehond”, Willem van Dam, Roterdão, 1918-1919
ex “Hoogvliet”, Soetermeer Fekkes, Amesterdão, 1919-1923
Arqueação: Tab 743,72 tons - Tal 467,00 tons
Dimensões: Pp 57,35 mts - Boca 9,15 mts - Pontal 4,50 mts
Propulsão: 1 motor compósito - 10 m/h
Equipagem: 18 tripulantes

Outros pormenores
No banco de areia, que é a restinga do Cabedelo, juntou-se uma enorme multidão. Apesar da agitação das águas do rio, na entrada da barra, os caíques conduziram muitas pessoas. O pessoal dos Bombeiros Voluntários Portuenses foi transportado para o local pela lancha gasolina da capitania, não tendo trabalhado, por não ser necessário.
Na Foz, junto ao posto dos pilotos, compareceram também os Bombeiros Voluntários e os Municipais, bem como a Cruz Vermelha.
No Cabedelo assistiu aos trabalhos de salvamento o sr. dr. Mourão, sócio da firma proprietária do vapor. Alguns dos náufragos, como estivessem encharcados e prostrados, foram conduzidos ao hospital da Misericórdia, pelos Bombeiros Voluntários Portuenses, recolhendo à sala de observações. Os outros foram uns para suas casas, outros para casa de pessoas amigas e um deles, por ordem dos proprietários do vapor, para o restaurante Malhão.
Houve, na Foz, varias pessoas ali residentes que ofereceram roupas aos náufragos. Uma dessas pessoas foi a sra. Dª Maria Valado.

Quem são os tripulantes do vapor encalhado
José Fernandes Matias Queijeira, 54 anos, de Ílhavo, capitão; Carlos Domingos Regano, de Ílhavo, imediato; Salustiano Ferreira de Oliveira, o «brasileiro», da Bahia, 1º fogueiro; Abel, do Porto, 2º fogueiro; Filipe Vicente, do Porto, 3º fogueiro; António Francisco, do Porto, chegador; Manuel D. Monteiro, da Madalena, Gaia, chegador; João Fernandes Pinto, de Ílhavo, despenseiro; José Francisco do Bem, de Ílhavo, contra-mestre; Francisco Fernandes Mano, de Ílhavo, marinheiro; João Fernandes Parracho, de Ílhavo, marinheiro; A. Martins, de Viana do Castelo, marinheiro; Mateus Passos, de Viana do Castelo, marinheiro; Augusto Teixeira da Rocha, do Porto, 1º maquinista; Domingos A. Martins, do Porto, 2º maquinista; Laureu, do Porto, 3º maquinista; Domingos Marta, da Vila da Feira, cozinheiro; e Carlos Jaime Martins, da Ilha de S. Miguel, telegrafista.
Os tripulantes que deram entrada no hospital da Misericórdia, com forte comoção e pequenos incómodos são: Parracho, Passos, Mano, Fernandes Pinto e Vicente. O maquinista Teixeira da Rocha, que sofreu fractura nas costelas, foi ali socorrido, recolhendo a casa. Todos estes náufragos foram assistidos pelo sr. dr. José Aroso.

Notas várias
Os livros de bordo foram salvos. Trouxe-os para terra, por incumbência do capitão, o imediato. Também, na oportunidade, foram salvos alguns aparelhos náuticos. Na restinga viam-se latas de bolachas arrojadas à praia, pelo mar.
No banco de areia em frente do qual o “Mourão” está encalhado, era opinião dos técnicos que o vapor estava perdido. Com efeito, a água já o cobria de lado a lado, e o enorme cavername do navio carvoeiro, dava a impressão dum paquiderme estatelado.
Na Foz a multidão era enorme. Foi um verdadeiro espectáculo, em que se misturou o interesse, a ansiedade e a alegria do salvamento.
O “Mourão” e a sua carga estão cobertos pelos seguros.
O salva-vidas de Leixões chegou a sair para a Foz – mas não trabalhou por não ser preciso utilizá-lo. 

O “Mourão” está coberto de água
À meia-noite chegou a informação, recebida do posto de pilotos, que o vapor “Mourão” se encontra coberto de água, mantendo-se no mesmo ponto onde encalhou. É natural que durante a noite a posição do navio se modifique.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 11 de Abril de 1928)

O naufrágio do vapor “Mourão”
Não se modificou ainda a posição do vapor carvoeiro “Mourão”, que ante-ontem encalhou na restinga do Cabedelo, devido a ter-se quebrado o «galdrope» do leme. Salva a tripulação, em número de 18 homens, pelo cabo de vai-vem, o vapor ficou inteiramente abandonado, entregue à maresia, com a água a cobrir-lhe o convés, mantendo apenas a mastreação à vista. O “Mourão”, vencido pela procela, parecia estatelado, aguardando o seu fim. Supõe-se que o navio possa estar arrombado pelo fundo. Considera-se o vapor completamente perdido, devendo o seguro, caso o mar o não destrua, tomar conta dos seus destroços.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 12 de Abril de 1928)

O naufrágio do vapor “Mourão”
O navio continua na mesma posição
Os tripulantes foram ontem a bordo retirando dali as suas roupas
O “Mourão” considera-se perdido
Não se modificou, durante as ultimas 24 horas, a posição do vapor carvoeiro “Mourão”, que na passada terça-feira encalhou na restinga do Cabedelo, quando pretendia demandar a barra, em virtude de uma forte volta de mar lhe ter quebrado o «galdrope» do leme.
Ontem foi ainda muita gente à Foz e ao Cabedelo presenciar o espectáculo do vapor encalhado, e cuja posição em nada se modificou. Na praia, onde se encontrava a Guarda-fiscal, viam-se alguns despojos do vapor, arremessados ali pelo mar, tais como várias peças de madeira, sobretudo carvão que fazia parte da carga. O “Mourão” estatelado no seu encalhe, completamente paralisado, está à mercê do mar, que por vezes o cobre de lado a lado, inundando-o. De mais, o vapor deve estar fortemente arrombado, pelo que se perdeu toda a esperança de o salvar.
A não ser destruído pelo mar, terá de o destruir a mão humana, para lhe aproveitar os destroços.
* * * * * * *
Houve quem estranhasse que os «galdropes» do leme rebentassem, dizendo por isso que não houvera cuidado em verificar o estado do vapor.
Esses reparos caem porém por terra, perante as declarações peremptórias da tripulação do navio. Este fôra reparado em Cardiff, e só depois da vistoria que o deu pronto a navegar, e que ele meteu carga, fazendo-se depois ao largo com rumo ao Porto. A partida de Cardiff foi efectuada no dia 5.
A quebra dos «galdropes» deu-se pela volta de mar, imprevista e violenta, fazer arribar o vapor para a direita, sobre a restinga, sem que houvesse tempo de evitar o encalhe. De resto a tripulação fez tudo para frustrar o sinistro. A avaria foi reparada – mas era tarde, pois nessa altura já o “Mourão” estava assente na areia. Foi então que se cuidou de salvar as vidas.
* * * * * * *
Ontem à tarde, o capitão do “Mourão” sr. João Fernandes Matias Queijeira, acompanhado de alguns tripulantes, como o mar tivesse amainado, conseguiu ir a bordo numa bateira dos pescadores da Afurada, demorando-se ali o tempo necessário para retirar do navio as roupas dos tripulantes e vários objectos de bordo.
Da restinga foi a manobra presenciada por muitas pessoas, sendo os tripulantes que foram a bordo felicitados pelo bom sucesso dos seus esforços, tanto mais que a arriscada proeza já na véspera havia sido tentada, sem resultado, devido ao mar embravecido que fazia.
* * * * * * *
O relatório do sinistro, apresentado pelo capitão do “Mourão”, foi já entregue no Departamento Marítimo do Norte.
Os tripulantes do navio naufragado, ainda se encontram no Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 13 de Abril de 1928)

O vapor “Mourão"
O vapor carvoeiro “Mourão”, encalhado no Cabedelo, continua no mesmo lugar.
A tripulação do navio, com o respectivo capitão, sr. Queijeira, voltou ontem a bordo, a fim de retirar os restantes haveres, que ainda lá se encontravam, principalmente diverso vestuário.
A tarefa decorreu sem incidentes, conseguindo os tripulantes o seu objectivo. Na retrete de bordo, onde se tinham refugiado, foram encontradas, vivas, duas aves, um galo e uma galinha, que os tripulantes também trouxeram para terra.
Ao Cabedelo e Foz ainda tem ido bastante gente observar o vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Abril de 1928)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

História trágico-marítima (CCXXII)


O encalhe do vapor norueguês "Bessa", junto à Torre do Bugio

Vapor encalhado
Em frente da baía de Cascais encalhou esta manhã, devido ao denso nevoeiro, o vapor norueguês “Bessa”. Até esta hora, 3 horas da madrugada, continua encalhado em frente à baía de Cascais.
Durante a noite estiveram em sua volta vários rebocadores, aliviando-lhe a carga, contando às primeiras horas da manhã pô-lo a flutuar.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 20 de Novembro de 1928)

Foto do vapor "Bessa", de autor desconhecido
Kolltveit, Baerd; Pedersen, Bjoern, Wilh. Wilhelmsen, 150 years,
1861-2011, WW/ Dinamo Forlag, ISBN: 978-82-8071-221-9

Características do vapor norueguês “Bessa”
1917-1936
Armador: Den Norske Afrika og Australie Linie, Toensberg
Operador: Wilh. Wilhelmsen, Toensberg/ Oslo, Noruega
Nº Oficial: N/d - Iic: M.Q.W.B. - Porto de Registo: Toensberg
Construtor: Union Iron Works Co., Alameda, Califórnia, EUA, Abr.1917
Arqueação: Tab 7.797,00 tons - Tal 5.797,00 tons
Dimensões: Pp 125,20 mts - Boca 17,12 mts - Pontal 8,94 mts
Propulsão; Do construtor - 1:Te - 3:Ci - 600 Nhp - 11 m/h

O encalhe do “Bessa”
Continua nos baixos de areia do Bugio o vapor norueguês “Bessa”, que ontem de manhã, devido ao nevoeiro, encalhou naquele local.
Os trabalhos de salvamento recomeçaram hoje, às primeiras horas do dia, por parte das tripulações dos rebocadores “Falcão”, “Milhafre”, “Europa”, “Pátria”, “Arouca” e “Record”, mas, devido ao intenso nevoeiro, às 3 horas da tarde, o navio conservava-se no mesmo sítio, sendo possível que ainda hoje não seja safo.
As operações de descarga do “Bessa” prosseguiram ontem à noite, para ser conseguido pô-lo a flutuar. Como o “Bessa” metesse água pelo porão da ré, foram pedidas bombas para o seu esgotamento, de maneira a possibilitar safar o vapor na maré da madrugada.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 21 de Novembro de 1928)

O encalhe do vapor “Bessa”
Devido ao nevoeiro, ainda não foi possível pôr a flutuar o vapor norueguês “Bessa”, que ante-ontem encalhou na Torre do Bugio.
Os trabalhos prosseguiram com o auxílio de um rebocador dinamarquês, contando pô-lo a flutuar às primeiras horas da manhã.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 22 de Novembro de 1928)

O encalhe do vapor “Bessa”
O nevoeiro continua a prejudicar os trabalhos de salvamento do vapor norueguês “Bessa”, encalhado na areia, na Torre do Bugio.
No local encontra-se, desde ontem, um vapor de salvação dinamarquês, que se propõe desencalhar o “Bessa”, porém, apesar dos esforços empregados, os resultados foram infrutíferos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 23 de Novembro de 1928)

O vapor “Bessa”
Hoje, pelo meio-dia, hora da preia-mar, procederam-se aos trabalhos de salvamento do navio norueguês “Bessa”, há dias encalhado em frente da Torre do Bugio.
Apesar dos esforços empregues pelos vapores estrangeiros de salvação, auxiliados por um rebocador alemão de alto-mar, que substituíram os rebocadores portugueses naquele trabalho, continuam com resultados improfícuos.
As tripulações destes vapores esperam, mais uma vez, pôr o “Bessa” a flutuar na próxima preia-mar, pela madrugada de hoje.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 25 de Novembro de 1928)

Vapor norueguês “Bessa”
O vapor norueguês “Bessa”, que se encontrava encalhado nos bancos da Torre do Bugio, conseguiu hoje safar-se, com o auxílio dos rebocadores.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 29 de Novembro de 1928)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Leixões na rota do turismo! (9/2017)


Na 3ª semana de Junho

Fica registado neste período a repetição de visitas ao porto de quatro navios de passageiros, dentro da maior normalidade, com excelentes condições de tempo e mar.

No dia 17, o navio de passageiros "Wind Surf"
Chegou procedente de Lisboa e seguiu viagem para a Corunha

Ainda no dia 17, o navio de passageiros "Star Legend"
Também vindo procedente de Lisboa, continuou viagem para Vigo

No dia 20, o navio de passageiros "Aegean Odissey"
Como os anteriores veio de Lisboa, seguindo viagem para a Corunha

No dia 21, o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Chegou procedente de Vigo, seguiu com rumo a Lisboa

quarta-feira, 21 de junho de 2017

História trágico-marítima (CCXXI)


Ocorrências registadas em Junho de 1860

Em Caminha – Naufrágio
No dia 1 do corrente, pelas 7 horas da tarde, encalhou na barra de Caminha o caíque “Três Amigos”, que vinha de Aveiro com um carregamento de sal. Salvou-se a tripulação, mas muito poucos aparelhos. O barco pertencia à casa dos srs. Pereira & Filhos, de Aveiro.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 6 de Junho de 1860)

No rio Douro – Sinistro
Achando-se ancorado no Ouro o palhabote “Heroísmo”, que viera dos Açores carregado de pozolana (terra avermelhada de origem vulcânica), para as obras da alfândega, na madrugada do dia 4, alguém mal intencionado cortou-lhe os cabos de terra, e em consequência disso o navio garrou e caiu nas pedras. Às 7 horas da manhã chegou ali o sr. director das obras públicas, que mandando vir as catraias e gente das obras da barra, tão acertadas providências deu, que foi possível salvar o navio, sem avaria nem perigo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 5 de Junho de 1860)

Em Faro – Naufrágio
Por participação do director interino do círculo das alfândegas do Algarve, consta que no dia 15 do corrente mês naufragara na ilha, um pouco a oeste da barreta do porto de Faro, o bergantim napolitano “S. Miguel”, capitão Vicente Riccio, e carregador W.N. Mattos, pertencente ao porto de Procida, e procedente de Swansea com carvão de pedra, para a Serra Leoa. Toda a tripulação foi salva.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 28 de Junho de 1860)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Leixões na rota do turismo! (8/2017)


Escalas em porto na 2ª semana de Junho

O número de navios que se apresentaram de visita a Leixões baixou consideravelmente neste período. Digno de registo apenas o regresso do navio de passageiros "Boudicca", merecendo especial relevo a viagem de cruzeiro, que propiciou a escala inaugural em porto do navio de passageiros "Silver Spirit", que deverá regressar a Leixões em breve.

No dia 12, o navio de passageiros "Boudicca"
Veio procedente de Liverpool, seguiu viagem para o Funchal

No dia 15, o navio de passageiros "Silver Spirit"
Chegou proveniente de Lisboa e continuou viagem rumo à Corunha

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Divulgação


Tertúlia de encerramento do Seminário do Mar



domingo, 11 de junho de 2017

Leixões na rota do turismo! (7/2017)


A primeira semana de Junho

Neste período as escalas em porto decorreram em perfeita normalidade, à excepção do cancelamento daquela que seria a primeira visita a Leixões do navio "Variety Voyager", com previsão de chegada no dia 6, procedente de Portimão, para continuar a viagem com destino a Vigo. Regista-se de igual forma a visita inaugural ao porto do navio de passageiros "Star Pride", de acordo com a informação descrita abaixo e ainda lembramos a estadia do caça-minas da marinha inglesa "Blyth", eventualmente para descanso da guarnição.

No dia 2, o navio de passageiros "Insignia"
Vindo procedente de Lisboa, seguiu viagem para a Corunha

No dia 3, o navio de passageiros "Sea Cloud II"
Chegou procedente de Lisboa, continuou a viagem para Vigo

No dia 5, o navio de passageiros "Star Pride"
Tal como o navio anterior, veio de Lisboa e seguiu viagem rumo a Vigo

Também no dia 5, o navio de passageiros "Ventura"
Chegou procedente de Southampton, seguiu viagem para Barcelona

No dia 6, regressou o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Chegado procedente de Vigo, continuou a viagem rumo a Lisboa

No dia 7, o navio de passageiros "Oriana"
Chegou procedente de Southampton, seguiu viagem para Barcelona

Navio caça-minas inglês HMS “Blyth” da classe “Sandown”
Passou recentemente por Leixões este navio caça-minas, construído nos estaleiros Vosper Thornycroft, em 4 de Julho de 2000, tendo entrado ao serviço em 28 de Fevereiro de 2001. Tem um deslocamento de 600 toneladas, mede 52,50 metros de comprimento por 10,90 metros de boca. O porto de armamento é Clyde, navega com uma guarnição composta por 34 tripulantes e desenvolve uma velocidade na ordem das 15 milhas por hora.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Dia mundial dos oceanos 2017


Onde está a consciência ambiental?

Causa

Efeito

Porque o assunto é urgente, paremos para pensar e agir!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

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Maré d’Arte” invade Largo Fonseca Lima no dia 10 de Junho


O Largo Fonseca Lima, em Esposende, vai ser palco, no próximo sábado, dia 10 de junho, de um evento de arte na rua, intitulado “Maré d’Arte”.
A iniciativa marca o arranque do Ciclo de Artes Plásticas e Performativas do Museu Municipal de Esposende e reúne artistas plásticas e performers do norte de Portugal, sendo comissariada pela pintora Madalena Macedo, de Guimarães.
O evento vai decorrer das 10h00 às 16h30, com pintura ao vivo em cavalete, com a participação dos pintores António Miranda, Fátima Miranda e Monteiro da Silva, de Barcelos, António Nunes, João Marrocos e Joel Correia, de Caminha, Jorge Ferreira, de Forjães, Lurdes Rodrigues, de Braga, Cipriano Oquiniame, de Viana do Castelo, Mário Rebelo de Sousa, de Vila Praia de Âncora, Pierre-Michel de Keyn, de Valdreu, e da própria Madalena Macedo.
A Maré d’Arte trará ainda ao Largo Fonseca Lima apontamentos de poesia pelos declamadores Armindo Cerqueira, de Barcelos, e Maria Simões, de Braga, cujo fio condutor terá como protagonista as paisagens e as histórias do mar de Esposende.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Divulgação


Evocação do Dia Mundial dos Oceanos de 2017

sábado, 3 de junho de 2017

História trágico-marítima (CCXX)


O naufrágio do vapor americano “Tuscarora”

Nestes últimos dias tem aparecido vários objectos pertencentes a navios, como tábuas e outros pertences, arrolados na praia, desde a Torreira até à Costa Nova do Prado.
Pelos fragmentos encontrados nas praias atrás mencionadas, é de presumir que a embarcação naufragada no mar alto se denominava “Tuscarora”, seguindo em viagem para o Porto com carregamento de algodão. Não é conhecido, porém, o porto de onde procedia. É de crer que os infelizes tripulantes morressem todos.
Consta que a corporação fiscal tem procedido com toda a vigilância, apanhando e colocando em sítio seguro tudo quanto tem arrolado.
(In jornal “Distrito de Aveiro”, quinta-feira, 23 de Janeiro de 1873)
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 25 de Janeiro de 1873)


Características do vapor americano “Tuscarora”
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Filadélfia
Armador: Cope Brothers, Filadélfia
Construtor: Não identificado, Filadélfia, 1848
Arqueação: Tab 1.449,00 tons
Dimensões: N/d
Propulsão: 1 motor compósito

O naufrágio do vapor “Tuscarora”
Com o fim de procederem à arrecadação e guarda dos salvados do navio americano “Tuscarora”, que há dias naufragou na costa de Portugal, e que possam vir dar a terra, mandou o sr. António Pereira Júnior, acreditado comerciante da praça de Aveiro, alguns homens para junto da costa próximo da cidade, cumprindo assim as instruções que recebeu de um seu correspondente.
O navio ia para o Porto com carregamento de algodão.
(In jornal “Campeão das Províncias”, sábado, 25 de Janeiro de 1873)
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 26 de Janeiro de 1873)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Leixões na rota do turismo! (6/2017)


A última semana de Maio

Continuaram em bom ritmo as visitas de navios de passageiros em porto, merecendo especial realce as primeiras escalas dos navios "Costa Magica" e "Seven Seas Explorer".
Regista-se igualmente o cancelamento de uma segunda escala do navio "Nautica", que estava prevista para o último dia do mês.
Antecipamos desde já, para o mês de Junho,  mais algumas novidades.

No dia 25, o navio de passageiros "Nautica"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Ainda no dia 25, o navio de passageiros "Costa Magica"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 26, o navio de passageiros "Silver Wind"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

Também no dia 26, o navio de passageiros "Marina"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Bilbao

No dia 27, o navio de passageiros "Berlin"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Southampton

No dia 29, o navio de passageiros "Seven Seas Explorer"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 30, o navio de passageiros "Silver Cloud"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 31, o navio de passageiros "Marco Polo"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

segunda-feira, 29 de maio de 2017

História trágico-marítima (CCXIX)


O naufrágio da barca "Nova Palmeira"

Ontem, por volta das 4 horas da tarde, vindo a entrar a barra a barca “Nova Palmeira”, uma volta de mar partiu-lhe a roda do leme, e desgovernado foi bater de encontro às pedras de Felgueiras. Desde esse momento o navio foi dado como perdido, em consequência de ter encalhado no sítio do Cais Novo, por detrás do castelo.
Logo que houve conhecimento do sinistro saiu o salva-vidas em socorro da tripulação, porém, esta pode salvar-se toda por meio de um cabo de vai-vem, portanto não foi necessário o seu auxílio.
Durante a noite a barca, com o embate das ondas, fez-se em pedaços, aparecendo hoje de manhã alguns destroços na praia, arrojados pelo mar, bem como dois porcos, já mortos. O cão do navio apareceu também de manhã, vivo, salvando-se a nado durante a noite. O navio desfez-se tão repentinamente, não podendo ter sido salva a mínima parte da carga nem do aparelho.
A “Nova Palmeira”, que vinha do Pará por Lisboa, com 49 dias de viagem, trazendo um carregamento de sal e vários géneros, era comandada pelo sr. capitão Soares, e pertencia ao sr. Adrião Joaquim da Rocha, de Matosinhos. A carga vinha consignada aos srs. António José Martins & Cª.; quanto ao navio consta que estava segura nas companhias Garantia e Segurança.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 19 de Janeiro de 1873)

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Características disponíveis da barca “Nova Palmeira”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.D.L.S. - Porto de registo: Porto
Armador: Adrião Joaquim da Rocha, Matosinhos
Arqueação: 292,212 m3

A barca "Nova Palmeira"
Acerca deste navio naufragado ultimamente à entrada da barra do rio Douro, há ainda os seguintes pormenores:
O navio, cujo valor era calculado em 15.000$000 a 16.000$000 réis, estava seguro na Companhia Garantia na importância de 10.000$000 réis; e da carga, que constava de sal, madeira, barris e pipas vazias, arroz, urucú (fruto do urucuzeiro; substância tintorial, vermelha, extraída das sementes do urucuzeiro, na língua Tupi, Brasil), aguardente, mel e um caixote com moeda em pesos, sabendo-se apenas que esteja segura parte dela.
Tanto do navio, como da carga, foi, por assim dizer, perda total, porque apenas tem aparecido da carga alguma madeira, barris e alguns paneiros de urucú, que o mar tem arrojado à praia. A “Nova Palmeira” vinha do Pará por Lisboa, de onde trazia boa parte do carregamento.
Como foi dito, era seu proprietário o sr. Adrião Joaquim da Rocha, de Matosinhos, e vinha consignada aos srs. António José Martins & Cª.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 22 de Janeiro de 1873)

Arrematação de salvados
Procederam ontem na Foz à arrematação dos salvados da barca “Nova Palmeira”, ultimamente naufragada à entrada da barra do rio Douro. O massame, poliame, correntes, cadernais e madeira do navio foram arrematados por diversos indivíduos, produzindo a quantia de 656$800 réis. O cobre, chumbo e correntes, que foram arrematados por outras pessoas, só depois de devidamente pesados é que se poderá saber quanto produziram.
O não visto do navio foi adjudicado ao sr. José Rodrigues pela quantia de 453$000 réis. Finalmente, a parte da carga salva, foi igualmente arrematada pela soma total de 121$700 réis, entrando nesta quantia os barris para água que foram arrematados a 345 réis cada um. Estes géneros ficaram cativos de direitos.
Presidiu à arrematação o 1º oficial da alfândega, sr. Francisco Rodrigues de Faria, sendo escrivão do expediente o sr. António de Faria Carneiro. Também estiveram presentes um dos directores da companhia em que o navio estava seguro e o capitão do mesmo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 23 de Janeiro de 1873)

Anúncio da viagem que estava prevista, mas não concretizada

Os naufrágios na barra do Porto e a companhia salvadora
Habitante em Gaia há alguns anos, travei conhecimento com uma porção de homens que se empregam no mister de salvadores de carga e mais aprestos dos navios que naufraguem na barra do Porto. Estes homens, criados neste serviço têm dado provas incontestáveis do seu merecimento para tal serviço, e por mais de uma vez os tenho visto fazer proezas admiráveis na salvação, não só de diferentes objectos que vão rio abaixo, mas também imensas vidas têm sido salvas por eles.
Há dois anos, na ocasião de uma cheia, quando a água levava de velocidade seis a sete milhas por hora, vi eu alguns destes corajosos homens irem em seguimento de algumas pipas de vinho, que com grande risco de perderem a vida conseguiram salvar. A recompensa que tiveram deste serviço foi uma paga mesquinha e muito tardia.
Têm eles mostrado a sua perícia admirável na salvação da carga dos navios naufragados na barra do Porto, e entre eles citarei o naufrágio da barca “Flor de S. Simão”, cujo serviço de descarga foi entregue a homens inexperientes, que trabalharam durante três dias seguidos, sem tirarem resultado algum. Logo que este navio foi arrematado, os arrematantes justaram com a companhia de Gaia a salvação da carga e 24 horas depois estava salva carga no valor de 340$000 réis.
Muitos outros factos poderia citar para provar até à evidência a utilidade que as companhias de seguros têm em se servirem destes homens para a descarga dos navios que possam vir a naufragar, mas não o faço por me faltar o tempo para isso.
Vi com desgosto, na ocasião do último naufrágio sucedido na tarde do dia 18, na barra do Porto, da barca “Nova Palmeira”, serem rejeitados os serviços que a companhia de Gaia fôra oferecer ao local do sinistro. Lembro, pois, às companhias de seguros a conveniência de se aproveitarem destes homens para tal serviço, e que desprezem qualquer proposta que lhes seja feita por alguém que se propõe guerreá-los.
(ass. António Pereira Leite)
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 26 de Janeiro de 1873)