sexta-feira, 26 de maio de 2017

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Conferência do Seminário do Mar


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Leixões na rota do turismo! (5/2017)


Navios em porto nos últimos dez dias

A grande maioria dos navios de passageiros, que realizaram uma nova escala em porto, são já conhecidos de visitas em anos anteriores, mas vê-los de regresso foi e será sempre motivo de elevada satisfação, face ao reconhecimento das empresas armadoras, em função das excelentes condições que o porto oferece às suas unidades.
Há, porém, a considerar, a escala dos navios "Ocean Dream" e "Tui Discovery 2" a visitar o porto pela primeira vez, o que poderá insinuar sobre a importância de outras empresas, virem igualmente a optar pela escala dos navios em Leixões, realçando o porto e áreas limítrofes como referência no circuito europeu de cruzeiros.

No dia 15, o navio de passageiros "Silver Whisper"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha

No dia 16, o navio de passageiros "Queen Elizabeth"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Saint Peter Port

No dia 18, o navio de passageiros "Ocean Dream"
Chegou procedente de Valencia, saiu com destino ao Havre

Também no dia 18, o navio de passageiros "Artania"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Guernsey

No dia 21, o navio de passageiros "Mein Schiff 1"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 23, o navio de passageiros "Silver Explorer"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Vigo

Ainda na noite de 23, o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Veio procedente de Vigo, saiu esta tarde com destino a Lisboa

terça-feira, 23 de maio de 2017

Dia da Marinha 2017


Os navios do desfile naval
21 de Maio de 2017, Caxinas, Vila do Conde

O navio de treino de mar NRP "Creoula"

O navio abastecedor A5210 NRP "Bérrio" e
a fragata F330 NRP "Vasco da Gama"

Os navios patrulhas P590 NRP "Tejo" e P1153 NRP "Cassiopeia"

A corveta F471 NRP "António Enes" e
o patrulha-oceânico P361 NRP "Figueira da Foz"

Vista geral dos navios em desfile
À direita a fragata F333 NRP "Bartolomeu Dias"

segunda-feira, 22 de maio de 2017

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Evocação do Dia Europeu do Mar 2017
Convite


quinta-feira, 18 de maio de 2017

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20 de Maio - Comemoração do Dia da Marinha
Póvoa de Varzim - Vila do Conde - Leixões


A comemoração do Dia da Marinha deste ano, que decorre em espaços públicos nas cidades da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, está a revelar-se um enorme sucesso, em função do interesse demonstrado pela população em geral, que tem acorrido massivamente aos locais onde estão instalados diversos meios utilizados pela força policial marítima, pelos fuzileiros especiais, nos colóquios, nas exposições e nas actividades desportivas em curso.
Está igualmente prevista grande afluência de público no próximo Domingo em Vila do Conde, durante o cortejo Naval e na visita aos diversos navios atracados na doca norte do porto de Leixões.
Durante o fim de semana, vai ser igualmente possível embarcar em lanchas disponibilizadas pela Capitania de Leixões, equipadas por equipas da Patronia, Polícia Marítima e Socorros a Náufragos.
Outras informações de interesse, podem ser consultadas no respectivo programa


terça-feira, 16 de maio de 2017

História trágico-marítima (CCXVII)


O encalhe e naufrágio do vapor “Gomes 7º”

A barra da foz do Douro, que no mês de Fevereiro findo, esteve interdita à navegação durante nove dias, sendo-o nos cinco últimos seguidos, por causa da agitação do mar e corrente de água no rio, foi ontem reaberta ao movimento de entrada e saída de embarcações, por terem melhorado um tanto as condições que determinaram o impedimento.
Houve, porém, a lamentar um sinistro, que pode indubitavelmente representar consideráveis prejuízos materiais, não tendo, por felicidade, havido perda de vidas.
A Corporação de Pilotos da barra, reunindo ontem de manhã, foi de parecer que poderiam entrar ou sair embarcações que demandassem até 14 pés de água. Cerca das 10 horas e meia entraram os vapores noruegueses “Tide” e “Muller”, em 12 pés de água, e que subiram o rio e buscaram ancoradouro, sem que lhes sucedesse incidente algum.
Pouco depois do meio-dia entrava também o vapor português “Gomes 7º”, avançando sem novidade até defronte do farolim de Felgueiras. De repente, desgovernou e, arrastado pela força da água, encostou para o sul, indo encalhar no cabeço da restinga do Cabedelo, a uns 200 metros de terra. A bordo foram içados sinais pedindo rebocador e avisando de que o maquinismo não funcionava bem; e imediatamente se apresentaram os rebocadores “Veloz” e “Hércules” para socorrer o “Gomes 7º”. Os esforços empregados para lhe lançar um cabo foram, porém, infrutíferos e, entretanto, o vapor encalhado batido pelas ondas, operava um movimento de rotação, ficando com a proa voltada a oeste; mas a popa, fortemente encravada na areia, não conseguiu levantar.
No Cabedelo apresentaram-se, logo que correu notícia do sinistro, o sr. Chefe do Departamento Marítimo do Norte, todos os pilotos disponíveis e grande número de pessoas daqueles sítios.
Por volta das 2 e meia da tarde foi lançado para o vapor, por meio de um foguetão, um cabo de vai-vem, que a bordo amarraram ao mastro grande, e às 4 horas deram começo ao salvamento dos tripulantes, que eram em número de 17, incluindo o capitão, e do piloto da barra, sr. Francisco Guerra, que vinha pilotando o vapor desde Leixões.
Dezoito vezes, pois, o saco de salvação fez o percurso, pelo cabo ligado entre o Cabedelo e o “Gomes 7º”, conduzindo outros tantos homens, que eram recolhidos a cerca de 110 metros de distância, pelo barco salva-vidas e por um saveiro da Afurada, tripulado por 10 valentes pescadores daquela localidade. Foi o saveiro que recolheu o primeiro náufrago, e notava-se que os remadores dos dois barcos porfiavam em apanhar o maior número possível dos indivíduos salvos por aquela forma, o que podia dar lugar a perder-se alguma daquelas vidas assim disputadas.
Houve um momento em que a ansiedade das pessoas que no Cabedelo e na Foz assistiam a este espectáculo foi angustiosa e se traduziu em gritos de aflição. Um dos tripulantes do vapor, Francisco Faísca, era puxado do areal pelo cabo de vai-vem; este tocou na água e o homem desapareceu, sem ter atingido nenhum dos dois barcos que o esperavam e por baixo dos quais passou avante. Felizmente, de terra fizeram com que o cabo corresse mais ligeiramente e em breve o náufrago tocava no areal, são e salvo, sendo abraçado e saudado com gritos jubilosos.
Eram 5 horas e 14 minutos quando o capitão do “Gomes 7º”, sr. Manoel da Costa, que foi o último a abandonar o vapor, caía no salva-vidas. No Cabedelo foram dispensados aos náufragos os socorros mais urgentes, sendo-lhes fornecida roupa para se enxugar por vários marítimos e outros indivíduos daquele extremo de Vila Nova de Gaia e da Foz,
A não ser o incidente que fica mencionado, e que aliás não teve consequências graves, todos os tripulantes fizeram bem a perigosa travessia, ficando ilesos. Eis os nomes deles:
Capitão, Manuel da Costa; imediato, Fernando Franco Serra, natural de Esposende. Marinheiros: Francisco António Faísca e António Castela, ambos de Portimão; Henrique Francisco, José Joaquim Rodrigues, António do Carmo e Francisco Marrusso, de Tavira. Fogueiros: Francisco Bernardo, de Portimão; Maurício Gordinho, de Mértola; Manoel Gomes Toledo, de V. R. Santo António; e António Manoel, da freguesia de S. Nicolau, no Porto. Despenseiro, José Mimoso. Criado, Carlos António Castela, de Portimão. Cozinheiro, Joaquim Vidal, de Alvor (Algarve). Engenheiros, James Smith e Franz Joseph Ender.
O sr. José de Souza Faria, solicito e activo agente na cidade da empresa a que pertence o “Gomes 7º”, apresentou-se sem demora nas imediações do lugar do sinistro, providenciando de modo que fossem prosseguidos os trabalhos para salvamento do vapor encalhado, ao mesmo tempo que lhe merecia especiais cuidados a tripulação, que em barcos fôra trazida para a Cantareira e dali viera em carro americano, ficando alojada no hotel do sr. Manoel Francisco Malhão, na rua do Comércio do Porto.
Os dez corajosos tripulantes do saveiro da Afurada, que tanto contribuíram para socorrer os náufragos, são o arrais António de Oliveira Dias Cangalhas, António Gomes Remelgado Júnior, Severino de Oliveira Dias Cangalhas, José Gomes Ferreirinha, António de Oliveira Meireles, João Nunes Arruela, Manuel Rodrigues Crista, José Vinagreiro, António Rodrigues Moleiro e José Rodrigues Crista.
O vapor “Gomes 7º”, um vapor solidamente construído de ferro, tem 456 toneladas e pertence ao sr. Alonso Gomes, fazendo, alternadamente com o “Gomes IVº”, do mesmo senhor, consecutivas viagens entre esta cidade, Lisboa, Algarve e portos da América, sempre com carregamentos completos e passageiros. Tinha entrado em Leixões no dia 25 do mês findo, e ali se conservara até ontem, aguardando que o mar abonançasse para entrara a barra.
O seu carregamento compõe-se de 800 sacas de cevada, consignadas aos srs. Martins & Silveira; 400 sacas de limpadura, 900 de purgueira, 50 de açúcar, 50 de café, 80 pipas de vinho e álcool, 70 fardos de tabaco em folha e porções de farinha e tremoços, com destino a diversos comerciantes.
O vapor encalhado, que está seguro em diversas Companhias estrangeiras, conservava-se, até ao anoitecer, direito e estanque, não tendo sofrido, pelo menos aparentemente, avaria alguma. Na vazante da noite, que devia dar-se por volta das 8 horas e meia, encetar-se-iam os trabalhos de descarga, se fosse possível, a fim de aliviar o casco. Para esse fim foram para a Foz o rebocador “Leão”, com seis grandes barcas. O capitão do “Gomes 7º” também para ali voltou, com a intenção de saltar para bordo logo que o mar desse lugar.
Cerca das 11 horas e meia da noite, porém, rebentaram as amarrações do “Gomes 7º”, e o navio, garrando, montou a restinga do Cabedelo para o sul, indo encalhar nas pedras denominadas «Folga Manada» ou na «Prolonga», o que de terra não se pode verificar bem por causa da neblina. O vapor ficou adernado para bombordo, supondo-se por isso que tenha sofrido algum rombo.
Como fica dito, o sinistro atraiu à Foz inúmeras pessoas, que na Meia-Laranja estiveram presenciando, durante a tarde, todas as peripécias que ocorreram. Ontem a velocidade da corrente no rio Douro era ainda de 4 milhas por hora.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 2 de Março de 1893)


Características do vapor "Gomes 7º"
Nº Oficial: N/a - Iic: N/a - Porto de registo: Lisboa
Armador: Alonso Gomes & Cª., Lisboa, 1892-1893
Construtor: Hall Russel & Co., Aberdeen, Março, 1877
ex "Banchory" - Grampian Steamship Co., Ltd., 1877-1892
Arqueação: Tab 576,00 tons - Tal 372,00 tons
Dimensões: Pp 54,36 mts - Boca 7,95 mts - Pontal 4,39 mts
Propulsão: 1 motor compósito do construtor - 2:Ci
Equipagem: 17 tripulantes

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Está completamente perdido o vapor “Gomes 7º”, que ante-ontem havia encalhado na restinga do Cabedelo. Por volta das 11 horas da noite, rebentaram as amarras do vapor, e este, impelido pelo mar, guinou para o sul, galgando a restinga e foi cair sobre a pedra «Folga Manada». Àquela hora a cerração era intensa, não se podendo do lado de terra, seguir os movimentos do navio naufragado.
As pessoas que estavam na Foz com o intuito de empregar esforços para a salvação do “Gomes 7º” seguiram pela Meia Laranja, procurando descobri-lo através da neblina. Efectivamente, numa ocasião em que a cerração se dissipou um pouco, puderam ver o navio flutuando à mercê das vagas. De súbito, porém, bateu duas vezes com grande fragor na penedia e baixou muito, não se mexendo mais.
Ao amanhecer, viu-se que o casco tinha sido despedaçado a meio; a parte da ré, até ao passadiço, estava perfeitamente imóvel, vendo-se fora da água o mastro e a chaminé; a parte da proa balouçava-se no dorso das ondas, até que o embate destas a foi destruindo a pouco e pouco.
Quase toda a carga acomodada no porão da proa começou a ser arremessada pelo mar ao areal do Cabedelo, onde era recolhida sob a vigilância de uns 20 soldados da Guarda-fiscal, às ordens do chefe da secção de Gaia, sr. Mendes, sob o comando superior da força, sr. capitão Cabreira. Os salvados são: grande número de fardos de tabaco, pipas e cascos de vinho e álcool, sacas de cevada e purgueira, algumas de farinha e vários cascos vazios. Há pipas que têm vindo arrombadas, depois de verterem até à última gota o líquido que continha.
O porão da ré já foi também aberto pelo mar, pois que alguma carga miúda ali acondicionada tem vindo igualmente dar à praia. Ainda lá estão dentro bastantes cascos de álcool e alguma purgueira. Como fica dito, os arrojos do mar vão todos ao Cabedelo, e para evitar que haja qualquer cena de pilhagem, uma patrulha de cavalaria da Guarda-fiscal percorre a beira-mar até alturas do Senhor da Pedra.
Fora do Cabedelo apenas um rapazinho achou uma garrafa de cerveja e a bandeira que o vapor tinha arvorado para pedir rebocador, quando ante-ontem se deu o sinistro. Esses objectos foram apreendidos pela delegação da alfândega na Cantareira.
Às 8 horas e meia da manhã de ontem em que ainda se conservavam direitas as duas metades do vapor, saltaram para bordo os tripulantes do mesmo, em procura dos haveres que lá deixaram quando na véspera tiveram que o abandonar. Alguns dos náufragos puderam então retirar a maior parte das roupas e outros objectos que lhes pertenciam, salvando também o capitão e o 1º engenheiro alguma roupa e vários instrumentos náuticos. O imediato e o 2º engenheiro não salvaram coisa alguma, bem como o marinheiro António do Carmo, o criado Carlos Castela, e os fogueiros Maurício Gordinho, António Manoel e Manoel Gomes Toledo.
O prático da barra que pilotava o vapor “Gomes 7º” foi suspenso do exercício das suas funções.
Como o dia de ontem esteve de sol e de uma amenidade primaveril, foi considerável o número de pessoas que acorreram à Foz para ver o vapor naufragado. Os carros da Companhia Carris de Ferro, tanto da linha marginal como os da Boavista, fizeram corridas extraordinárias durante o dia, indo e vindo sempre cheios de passageiros.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 3 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Conservava-se ontem no mesmo estado em que ficou no dia anterior o casco despedaçado do vapor “Gomes 7º”. Apenas a parte da proa se fragmentou um tanto mais, por efeito dos embates do mar.
Na maré das 8 horas e meia da manhã, em dois caíques que atracaram à popa do vapor foram retirados da respectiva câmara vários objectos de mobília e de trem de cozinha, tais como espelhos, sofás, louças finas e de ferro, e bem assim roupas de cama, almofadas, bandeiras, farolins, latas de conserva, garrafas de diversas bebidas, etc.
Segundo informou o capitão do “Gomes 7º”, na parte do navio que permanece direita apenas existirão, no porão, uns oito ou dez cascos de álcool e algumas sacas de purgueira.
Ao Cabedelo continuaram ontem sendo arrojados pelo mar vários destroços do navio – pedaços de madeira e metade do mastro da proa. Também foram dar ao areal uns cinco cascos de álcool e diversas sacas de cereais. No serviço de arrecadação dos salvados emprega-se uma turma de 16 trabalhadores, que por vezes são auxiliados pelos soldados da Guarda-fiscal incumbidos da vigilância.
A patrulha a cavalo, da mesma guarda, que percorre a linha de costa até Gulpilhares, tem perseguido diferentes indivíduos que tentam apanhar despojos do naufrágio arremessados às praias. Que conste, porém, apenas dois homens foram encontrados com um pedaço de encerado e uma pequena mala, que não conseguiram subtrair.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
O mar não destruiu ainda o que resta do vapor “Gomes 7º” desde que foi quebrado o casco em dois pedaços. Ontem só se notava que o mastro da ré está partido, não se sabendo explicar o que o sustentava erguido.
Com respeito a despojos do naufrágio, somente foram arremessados ao Cabedelo durante a noite de ante-ontem para ontem dois cascos com álcool e 16 sacas de purgueira, e ontem de manhã 1 casco com álcool.
Quase todos os salvados deram já entrada na alfândega. Para esse fim foi contratada com o estivador sr. Florindo Bandeira a remoção dos mesmos salvados do lugar onde se encontravam para as barcas que os conduziram àquela casa fiscal.
Ontem foi conduzida para ali a seguinte carga: 28 pipas de álcool, 52 pipas de vinho, 245 sacas de purgueira, 96 fardos e 4 caixas de tabaco, 2 fardos de papel para tabaco, 32 cascos vazios e 1 grade de feltro. No areal pouco resta: alguma lenha, várias pipas de vinho e álcool e um montículo de tabaco em folha.
O serviço de fiscalização tem sido feito com a máxima vigilância, na costa pela força da Guarda-fiscal, sob o comando do chefe de secção de Gaia, sr. alferes Mendes, e na via marítima por um barco da alfândega dirigido pelo patrão de remadores sr. Vital Gonçalves Lima.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
O casco despedaçado do vapor “Gomes 7º” ainda se conserva no mesmo estado tal como ante-ontem foi descrito, e continuou sendo alvo de curiosidade, pois que foi muita gente à Foz, no Domingo, para ver os destroços do sinistro.
Já foram remetidos para a alfândega os restantes salvados, que se achavam no Cabedelo.
Junto da praia de Lavadores foi ontem arremessada uma pipa de álcool, que alguns soldados da Guarda-fiscal trataram de arrastar para o areal, tendo para isso de empregar grandes esforços e até com certo risco. Os soldados ficaram completamente alagados pela água do mar e um deles feriu-se bastante numa perna.
Desde que ocorreu o naufrágio, as forças de cavalaria e infantaria da Guarda-fiscal têm estado alojadas numa casa que o comerciante sr. Charles Coverley possui no Cabedelo e que pelo mesmo cavalheiro fôra generosamente oferecida para esse fim, procurando, além disso, que aos militares que ali vão pernoitar se depare o possível conforto.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 7 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Da popa do vapor “Gomes 7º”, que não foi por enquanto destruída pelo mar, foram ontem retirados um casco de álcool, vários utensílios da cozinha de bordo e uma porção de cobre.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 8 de Março de 1893)

O vapor “Gomes 7º”
Continuou ontem a faina de retirar alguns salvados de bordo do naufragado vapor “Gomes 7º”, da parte da ré que o mar não destruiu por enquanto. Foram conduzidos para terra a roda do leme, vários cabos e correntes de ferro, moitões de ferro e de madeira, e ainda diversas peças do trem de cozinha, etc.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 9 de Março de 1893)


Novo vapor
O naufragado vapor “Gomes 7º” vai ser substituído por um novo navio, que se denominará “Gomes VIII”, e que terá uma lotação superior a 1.000 toneladas. Com a aquisição do novo vapor fica a casa Alonso Gomes & Cª com a sua frota novamente completa, satisfazendo assim os desejos dos carregadores que necessitam dos serviços dos vapores da mesma empreza, de que é agente nesta cidade o sr. José de Souza Faria.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 11 de Março de 1893)

O vapor “Gomes 7º”
Realizou-se ante-ontem no Cabedelo a arrematação dos salvados vistos e não vistos do vapor “Gomes 7º”, ultimamente naufragado. O casco do vapor foi arrematado por 331$000 réis, e os salvados não vistos por 31$000 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 14 de Março de 1893)

domingo, 14 de maio de 2017

Leixões na rota do turismo! (4/2017)


Na segunda semana de Maio

Apenas dois navios de passageiros estiveram de visita ao porto, de acordo com a informação abaixo representada.
Também digno de registo, ocorreu a primeira escala de um dos novos navios patrulha da Marinha Portuguesa, o P590 - NRP Tejo, que se encontra em comissão SAR (Search and Rescue), por cá permanecendo e simultaneamente intercalando a estadia com serviço pelas águas do norte, até cerca de meados do mês de Junho.

Navio de passageiros "Amadea"
No dia 10, chegou procedente da Corunha, tendo saído para Agadir

Navio de passageiros "Astoria"
No dia 11, chegou proveniente da Corunha, saindo para Lisboa

Navio-patrulha português NRP Tejo
Entrado no dia 11, em serviço pela primeira vez em Leixões

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Construção naval


Com a presença do ministro Oliveira Martins
Estaleiros Navais entregaram navio à Portline

Na doca dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, realizou-se ontem a cerimónia de baptismo e entrega do navio “Port Lima”, da Portline, presidida pelo ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, engº Oliveira Martins, que se fazia acompanhar dos secretários de Estado das Vias de Comunicação e dos Transportes Exteriores e Comunicações, respectivamente engº Falcão e Cunha e dr. Correia de Matos.

Foto do navio "Port Lima", em Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Foi madrinha do “Port Lima” a esposa do ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Dª. Maria Amélia Oliveira Martins.
Trata-se do primeiro navio de uma encomenda de cinco, cujo contrato foi assinado em 15 de Dezembro de 1987, elevando-se o preço de cada construção a mais de seiscentos mil contos.
O início da construção teve lugar em Maio do ano findo, e em Julho do mesmo ano ocorreu o assentamento do primeiro bloco. Está prevista a entrega de outro navio da referida encomenda para o mês de Maio.
Usando da palavra, o ministro Oliveira Martins salientou a necessidade de os armadores nacionais renovarem as suas frotas em estaleiros igualmente nacionais, apelando ainda para o uso das «bandeiras de conveniência» com conta, peso e medida.
Oliveira Martins anunciou também que dentro em breve irá entrar em funcionamento um centro internacional de registo de navios na cidade do Funchal, alvitrando ao conselho de administração da Portline o registo do “Port Lima” naquela cidade.
Usaria também da palavra o presidente do conselho de administração dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, engº Duarte Silva, o qual, manifestando o seu regozijo, e referindo-se ao acto, afirmou: «Trata-se de uma unidade para uma empresa de um armador nacional, que foi integralmente projectada e concebida nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e entregue dentro do prazo contratual».
Logo de seguida, afirmaria o engº Duarte Silva; «Com a construção deste navio e dos outros em carteira, foi possível uma boa taxa de ocupação da mão-de-obra do estaleiro, no exercício de 1988, cerca de 70 por cento, ocupação essa que em 1989 está praticamente preenchida com a entrega de nove navios até Dezembro, dos quais mais dois são também para a Portline».
Acrescentou que este programa de entregas é um grande desafio que se põe ao estaleiro e a todo o seu pessoal, constituindo um facto inédito na história dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
O presidente do conselho de administração dos Estaleiros Navais agradeceria ainda ao ministro Oliveira Martins os esforços do Governo para conseguir a aprovação do decreto-lei Nº 11/89, que determina o novo regime da concessão dos terrenos do Estado utilizados pelo estaleiro, problema que tanto preocupava esta empresa e as autoridades portuárias locais.
Com este novo regime, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo passam a poder utilizar uma área de terrenos públicos, com a extensão de 270 mil metros quadrados, até ao ano de 2031, o que permitirá instalar algumas infra-estruturas e redimensionar outras, que, sem aumentarem a capacidade do estaleiro, a tornam, no entanto, mais viável e melhor preparada para a concorrência que cada vez mais terá de enfrentar.

Entretanto, durante a parte da tarde, e prosseguindo a sua visita de trabalho, o ministro das Obras Públicas deslocou-se ao local da nova doca de recreio de Viana do Castelo, situada na margem direita do rio Lima, cujo concurso será lançado pela Direcção-Geral de Portos até final de Maio.
O custo desta obra está estimado em cerca de 300 mil contos e o prazo de execução previsto é de cerca de dois anos. O projecto prevê a capacidade de estacionamento para 250 barcos e ainda um núcleo de apoio com restaurante e outras infra-estruturas.
Aquele representante do Governo fez ainda o ponto da situação sobre o núcleo portuário de pesca, cuja definição e projecto estão a ser desenvolvidos pela Direcção-Geral de Portos, em colaboração com o Serviço de Lotas e Vendagens, esperando-se que o concurso seja lançado até finais de Julho do corrente ano. Está igualmente prevista a construção do edifício da lota, de armazéns de comerciantes e de aprestos. O custo desta obra é de cerca de 110 mil contos e o prazo previsto para a sua entrada em funcionamento é finais de 1990.
Mais tarde, e a culminar a sua visita de trabalho, o ministro Oliveira Martins assistiu à betonagem da primeira estaca para a construção da nova ponte sobre o rio Lima, que se insere no lanço variante à EN-13, entre Anha e Vila Praia de Âncora. A nova ponte, que se situa a três quilómetros a montante a actual, será executada em betão pré-esforçado, de acordo com um projecto variante apresentado no concurso pelo adjudicatário, a firma Somague, S.A.
Terá um comprimento de cerca de 2.250 metros, compreendendo 42 vãos intermédios de 50 metros e dois vãos extremos de 40 metros. Terá igualmente uma largura de cerca de 27,8 metros, correspondendo a um perfil transversal com a seguinte constituição: vias de circulação – 14 metros; separador – 2 metros; bermas interiores – 2 metros; bermas exteriores – 7 metros; passeios e guardas – 2,8 metros. Este perfil permite, se necessário, o estabelecimento de mais uma via em cada sentido, mediante a redução das dimensões das bermas e separador.
A estrutura da nova ponte é constituída por um tabuleiro contínuo apoiado em pilares circulares com fuste ligeiramente jorrado, e em encontros de tipo perdido. Como características invulgares, em obras deste tipo, salientam-se o seu comprimento, a existência de apenas duas vias longitudinais e ausência de carlingas. O custo total da construção da nova ponte sobre o rio Lima ascende a 2.800 mil contos.
O prazo de execução é de 780 dias, tendo-se iniciado os trabalhos preparatórios e a construção do estaleiro em 31 de Outubro do ano findo, devendo a obra assim ficar concluída em Dezembro de 1990.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 1 de Abril de 1989)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Histórias do mar português!


O iate “Santa Margarida”, que naufragou no Atlântico, deu à costa,
em Lagos, com mercadorias, passadas aos direitos alfandegários

Um tanto misteriosamente deu à costa na praia da Curdana, Vila do Bispo, Lagos, um iate abandonado e carregado de mercadorias, especialmente grandes fardos com roupas e certa quantidade de relógios. Imediatamente surgiram suspeitas de se tratar do “Santa Margarida”, que foi abandonado pela tripulação na costa algarvia, a qual foi recolhida pelo cargueiro dinamarquês “Mar Cord” e mais tarde desembarcados em Cascais, suspeitando-se que os seus quatro tripulantes sejam contrabandistas.
Ao fim da tarde de ontem, após ter recebido comunicação de Lagos, a Polícia Marítima de Lisboa certificou tratar-se realmente do “Santa Margarida”, registado na Brigada Naval, em nome de Edmundo Pedro.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Novembro de 1959)

A Polícia Marítima procura esclarecer o caso do
iate “Santa Margarida”
O caso do barco “Santa Margarida” continua a preocupar a Polícia Marítima, depois de ter sido dado como naufragado, pelos seus quatro tripulantes recolhidos, há dias, por um navio dinamarquês. Entretanto, e com grande surpresa, o “Santa Margarida” deu à costa perto de Vila do Bispo, na costa algarvia.
Têm sido interrogados pela Polícia os referidos tripulantes, os quais declararam que saíram o estuário do Tejo, na embarcação registada na secção desportiva da Brigada Naval, apenas para dar um passeio.
Embora suspeitando que o barco estivesse a ser utilizado no transporte de mercadorias em contrabando, as autoridades marítimas apenas os processou por terem saído a barra de Lisboa sem autorização da Capitania e por não estarem devidamente encartados.
Quando deu pelo “Santa Margarida” junto à costa, a Guarda-Fiscal da mencionada região algarvia, supôs que fosse uma embarcação estrangeira, por no respectivo registo estarem apenas escritas as letras “B.N.”, que traduziram por «British Navy”. Passada busca, foram encontradas mercadorias avaliadas em cerca de 150 contos e bandeiras inglesas, francesas e portuguesas, supondo-se que eram hasteadas conforme as conveniências da tripulação.
Na Polícia Marítima foi agora ouvida Maria de Lurdes Ricardo de Jesus, mulher de Edmundo Pedro, o proprietário do barco, para explicar a proveniência de uma mala com meias e lenços que o marido trouxera de bordo, quando ele e os seus companheiros foram recolhidos pelo navio dinamarquês. A Maria de Lurdes explicou que esses artigos haviam sido comprados em Espanha durante uma viagem que ela e o marido fizeram ao país vizinho, declarando ainda que tinha um «atelier» de confecções para senhora.
As investigações continuam para completo esclarecimento da situação.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Novembro de 1959)

terça-feira, 9 de maio de 2017

História trágico-marítima (CCXVI)


O naufrágio do vapor “Gomes VIII”

Lisboa, 1 de Abril – Naufragou o vapor “Gomes VIII”, que vinha do Porto para Lisboa. O naufrágio deu-se hoje, pela 1 hora da madrugada, nas Berlengas, em consequência do nevoeiro. A tripulação compunha-se de 17 homens e trazia 32 passageiros.
Salvaram-se quase todos em lanchas, sendo trazidos para Lisboa pelo vapor de pesca “Argentino”, da casa Bensaúde. Tanto os passageiros como os tripulantes ficaram sem os seus haveres, tendo-se dado o desastre quando estavam dormindo nos beliches.
Morreu um passageiro de 52 anos, espanhol, criado de servir no Porto, ignorando-se a sua identidade por falta dos papéis de bordo. Perderam-se a carga e as bagagens.
Não se conhecem por enquanto outros pormenores.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 2 de Abril de 1899)

Imagem do vapor "Gomes VIII" a entrar na doca comercial de Viana
Cartão postal de Viana do Castelo (pormenor) - minha colecção

Características do vapor "Gomes VIII"
Nº Oficial: N/a - Iic: H.K.J.P. - Porto de registo: Lisboa, 01.05.1893
Armador: Emp. de Navegação para o Algarve e Guadiana, 1893-1899
Construtor: Edwards Shipbuilding Co. Ltd., Newcastle, 1891
ex "Montague" - Merchant Banking Corp., 1891-1893
Arqueação: Tab 702,70 tons - Tal 485,00 tons - 1.987,150 m3
Dimensões: Ff 53,90 mts - Boca 8,50 mts - Pontal 4,30 mts
Equipagem: 17 tripulantes

O naufrágio do vapor “Gomes VIII”
Lisboa, 3 de Abril – Anteontem de madrugada, naufragou próximo das Berlengas o vapor “Gomes VIII”, pertencente à casa Centeno & Cª., de Lisboa, e que vinha do Porto, onde é agente da mesma o sr. José de Sousa Faria, com 32 passageiros, entre os quais algumas mulheres e crianças, e 18 tripulantes.
O “Gomes VIII”, que era de ferro e de 702 toneladas de registo, tinha sido construído em Newcastle em 1891, vindo substituir o vapor “Gomes 7º”, naufragado à entrada da barra do Porto.
O “Gomes VIII” saiu a barra do Douro sem inconveniente, e assim fez as primeiras horas de viagem. O nevoeiro, porém, tornou-se para o fim da tarde muito denso e, quando o sol desapareceu, era de tal ordem que quase se não viam os faróis de bombordo e estibordo dentro do próprio navio. A navegar a meia força, fazendo tocar continuamente a sineta de bordo, e à proa dois marinheiros fazendo sondagens, seguiu o navio durante muito tempo sem a mínima rascada.
Era meia-noite e 45 minutos quando o comandante, sr. Manoel da Costa, mandou parar a máquina. A cerração era completa.
Havia alguma vaga e o vapor balançava com violência; de repente, os marinheiros que estavam à proa, gritavam «Terra!» - e ainda não tinham acabado a palavra quando a proa do “Gomes VIII” deu num baixo, cerca de meia milha a nordeste das Berlengas. No meio de uma confusão enorme, entre choros e lamentos soltados por homens, mulheres e crianças, ouviu-se a voz enérgica do comandante gritar:
- «Escaleres ao mar!»
Duas baleeiras e um bote foram descidos dos turcos do “Gomes VIII” e 38 pessoas embarcaram neles. O salvamento dos passageiros foi feito com a maior regularidade; mas, ao saltar para um dos pequenos barcos, um dos passageiros, individuo de cerca de 52 anos, de naturalidade espanhola, caiu ao mar, não sendo possível salvá-lo. Não se sabe, por enquanto, a sua identidade, pois os documentos de bordo não puderam ser salvos e pessoa alguma do navio sabia o nome do infeliz.
Como a bordo dos três pequenos barcos só pudessem embarcar 38 pessoas, 13 ficaram a bordo do “Gomes VIII”. A este tempo, o vapor, que pouco depois de dar no baixo mergulhou a proa, tinha apenas a popa fora de água. Ali e apinhados no mastro grande, entregues à mercê de Deus, aguardavam os 13 infelizes o salvamento ou a morte, e assim se conservaram cerca de 4 horas.
Próximo das 5 da madrugada, quando o nevoeiro levantou e começou a ser dia, viram-se próximo das Berlengas. Então, os três escaleres dirigiram-se para ali e, depois de desembarcarem em terra, aqueles indivíduos voltaram a bordo buscar os restantes.
Quando procediam ao salvamento das últimas pessoas, foi avistado o vapor de pesca “Colombo”, pertencente à casa Bensaúde, que foi em procura dos infelizes e que os tomou a seu bordo. Apesar de não estar na sua derrota entrar no Tejo, o “Colombo” trouxe os náufragos para Lisboa, desembarcando-os na Alfândega, cerca das 5 horas da tarde de ante-ontem.
Como os passageiros se destinavam a Lisboa, seguiram todos aos seus destinos; a tripulação hospedou-se em diferentes hotéis.
Diz-se que o infeliz que pereceu no naufrágio era serviçal no Porto e vinha a Lisboa visitar um irmão, que está como criado em casa do sr. Conde de Paço de Arcos.
O “Gomes VIII” avaliado em 60.000:000 réis, estava seguro em várias casas estrangeiras. A carga que conduzia, no valor de 15.000:000 réis, consistia em tecidos, caixas com vinho, cabedais, cascaria vazia, vinho encascado e outra carga, que ia ser baldeada para a barca “Viajante”.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 4 de Abril de 1899)

Naufrágio do vapor “Gomes VIII”
A perda deste navio nos Farilhões das Berlengas, causou bastante pesar, pelos grandes benefícios que vinha prestando ao comércio, conjuntamente com o “Gomes IV”, na carreira semanal estabelecida entre Lisboa e os portos do Algarve.
Como é do conhecimento, esses vapores pertencem à Empresa de Navegação para o Algarve e Guadiana, de que são proprietários os srs. Centeno & Cª., e dos quais é de esperar a rápida substituição do navio naufragado, a fim de que não se interrompa a regularidade daquela carreira.
Ao escritório do agente da empresa no Porto, o sr. José de Sousa Faria tem afluído bastantes pessoas a obterem informações acerca do naufrágio, principalmente de comerciantes que deploram a perda sofrida.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 5 de Abril de 1899)

domingo, 7 de maio de 2017

Leixões na rota do turismo! (3/2017)


Na primeira semana de Maio

Há algumas surpresas a considerar, face ao cancelamento de visitas de navios ao porto, que registamos terem tido início na semana anterior, com a segunda anulação da escala do navio "Viking Sky".
Da mesma forma, perdeu-se a hipótese de apreciar o navio "Costa Mediterrânea", anunciado inaugurar a passagem por Leixões, no passado dia 5, quando em viagem de Tenerife para Glasgow.
Julgamos ainda estar em aberto a escala do navio "Corinthian", com chegada prevista para hoje, dia 7, por eventuais problemas ocorridos durante a escala realizada em Lisboa. O atraso a que o navio foi sujeito, pode levar à anulação da programada escala no porto, seguindo directamente para Vigo.
Porém, apesar dos condicionalismos a que o porto está sujeito, principalmente devido a situações de mau tempo, foram revistos com agrado os seguintes navios de passageiros:

No dia 1, o navio de passageiros "Serenissima"
Chegado procedente de Lisboa, saiu para Villagarcia de Arosa

Também no dia 1, o navio de passageiros "Saga Sapphire"
Vindo procedente da Corunha, chegou ao porto a meio da tarde, tendo permanecido em Leixões também até à tarde ao dia seguinte, altura em que retomou a viagem de cruzeiro com destino a Lisboa.

No dia 2, o navio de passageiros "Aurora"
Chegou procedente do porto de Vigo, seguiu viagem para Málaga

Ainda no dia 2, o navio de passageiros francês "Le Boreal"
Vindo procedente de Lisboa, continuou a viagem com destino à Corunha

No dia 4, agora a navegar com novo operador, o navio "Deutschland"
Chegado procedente do Funchal, partiu com destino a St. Malô

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Memorativo da Armada


O lançamento à água do cruzador “Rainha D. Amélia”

Foto da cerimónia do bota-abaixo do cruzador "Rainha D. Amélia"
Imagem previamente publicada no blog «Restos de Colecção»

Lisboa, 10 de Abril – Efectuou-se hoje, com a presença da família real, do ministério, corpo diplomático, altos funcionários e grandíssimo número de oficiais do exército e da armada, o lançamento à água do novo cruzador “D. Amélia”. Acudiu a presenciar essa cerimónia enorme multidão de povo, que enchia o Arsenal de Marinha e suas dependências, começando de manhã a afluir para ali, havendo grande movimento nas ruas próximas do Arsenal, a cuja entrada se viam milhares de pessoas.
A família real chegou ali cerca das 2 horas da tarde, sendo recebida próxima do estaleiro pelo ministério, vice-almirantes, oficialidade de patente superior da armada, generais da 1ª divisão e dignitários.
Os trabalhos preparativos do lançamento já haviam principiado e SS.MM. dirigiram-se, com o seu séquito, para o pavilhão, às 2 horas e 10 minutos, para assistirem à cerimónia. Quando chegaram eram cortadas as últimas escoras que especavam o novo navio. Terminados os preparativos, o inspector do Arsenal, sr. Croneau informou el-rei de que estavam concluídos os trabalhos, dando em seguida o corte final na escora de proa.
S.M. a rainha disse então nesse momento: «Vai» e os operários tiraram as primeiras cunhas de sob a quilha do cruzador. S.M. repetiu «Vai», e novas cunhas foram tiradas. Quando tiraram as últimas, S.M. a rainha pronunciou estas palavras: «Em nome de el-rei, vai com Deus».
Neste momento foram soltados vivas unânimes e estrondearam entusiásticas salvas de palmas, executando a banda dos marinheiros o hino real e salvando os navios de guerra. O espectáculo no seu conjunto era imponente, fazendo palpitar de júbilo todos os corações.
O novo navio de guerra começou a deslizar com serenidade pelas calhas da carreira e metendo triunfalmente pelo Tejo dentro, descreveu um curva magnífica, tendo as esquadrilhas, compostas de rebocadores, guigas, caíques, lanchas, etc., de desviar-se rapidamente para não sofrerem algum abalroamento.
A canhoneira “Zaire” ainda roçou nessa ocasião pelo cruzador, chegando a produzir bastante susto entre as muitas pessoas que se encontravam a bordo; felizmente não se deu nenhum prejuízo.
O novo cruzador foi por fim rebocado pelo vapor “Bérrio” para a bóia em frente do Arsenal, e aí dar entrada no dique para procederem à montagem da máquina, mastreação e restantes apetrechos.
SS. MM., que permaneceram algum tempo no pavilhão, voltaram à casa da superintendência, onde receberam os cumprimentos do corpo diplomático e de outros personagens. A senhora D. Amélia, ao despedir-se da oficialidade de marinha, dirigiu felicitações em particular ao sr. engenheiro Croneau.
No cruzador, quando entrou no Tejo, levava a bordo apenas o engenheiro naval Carvalho, o patrão-mor do Arsenal João Sampaio, o sota patrão-mor Reynol, o mestre da armada Jorge Bartolomeu, um contra-mestre e os marinheiros de serviço.
O aspecto do Arsenal de Marinha, onde tudo estava apinhado de gente, pavimento, janelas e telhado, era de um efeito soberbo gozado do Tejo; mas a vista do mar, onde se viam as canhoneiras “Diu” e “Zaire”, o vapor “Rei de Portugal”, os rebocadores “Bérrio” e “Lidador” e muitos vaporzinhos particulares, barcos e lanchas, cheios de convidados e famílias, oferecia, apreciado de terra, um espectáculo pitoresco.
No Tejo, a bordo dos navios, houve o mesmo entusiasmo que em terra quando o “D. Amélia” entrou na água, sendo levantados vivas à família real e à marinha, de todos os pontos e por gente de todas as classes.
Achavam-se decorados com bandeiras todos os palanques construídos para os deputados e pares, altos funcionários, etc., etc. As janelas das oficinas e dependências do Arsenal estavam cheias de senhoras, vendo-se muita gente também nos telhados dos edifícios do Arsenal e do ministério da marinha. Junto das vedações e próximo da carreira conservaram-se centenas de pessoas, sob um sol abrasador, para assistirem à cerimónia. Calcula-se em 20.000 o número das pessoas que assistiram ao lançamento do navio.
Infelizmente, deu-se um desastre: na ocasião em que era solta uma das escoras que seguravam o navio, a escora caiu sobre um operário, deixando-o em estado grave. Amanhã deve ficar assente a lista dos agraciados com mercês honoríficas por motivo da construção do novo cruzador.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 11 de Abril de 1899)

Foto do cruzador "Rainha D. Amélia", em Lisboa
Postal ilustrado de «Martins & Silva» - Minha colecção

O lançamento à água do cruzador “D. Amélia”
O sr. contra-almirante Fernandes da Cunha, inspector do Arsenal de Marinha, fez publicar uma ordem do dia elogiando o director das construções navais sr. Croneau, chefes, engenheiros e mais pessoal das oficinas, por terem contribuído para levantar o bom nome daquele estabelecimento com a construção relativamente rápida do novo cruzador. Entretanto, agravou-se o estado de saúde do operário ferido por ocasião do lançamento do cruzador “Rainha D. Amélia”.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 12 de Abril de 1899)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Memorativo da Armada


A chegada das novas fragatas "Pacheco Pereira" e "Álvares Cabral"

Os escoltadores oceânicos “Álvares Cabral” e
“Pacheco Pereira”, chegam ao Tejo dentro de dias
As fragatas “Álvares Cabral” e “Pacheco Pereira”, compradas por Portugal à Inglaterra, devem chegar a Lisboa em princípios de Dezembro.
A cerimónia de entrega ao Governo português foi celebrada em 11 de Maio, em Devonport, na presença do embaixador do nosso País, do 4º Lord do Almirantado britânico, e de outras individualidades.
Foram nomeados comandantes, da “Álvares Cabral” o sr. Capitão-de-fragata Fernando Ornelas Vasconcelos, e, da “Pacheco Pereira”, o sr. Capitão-de-fragata José Pimenta Simões Godinho.
Os navios tem 136 metros de comprimento, estão dotados de dez peças de artilharia e demais armamento moderno, equipamento de radar, etc.
Os navios, cujas provas de mar decorreram satisfatoriamente, ficarão a constituir o grupo de escoltas oceânicos Nº 1 da Marinha de Guerra.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 27 de Novembro de 1959)

Dois navios da Armada portuguesa em Leixões
Entraram, ontem, em Leixões, pelas 17 horas, as fragatas “Álvares Cabral” e “Pacheco Pereira”, recentemente adquiridas na Inglaterra e destinadas aos comandos navais de Angola e Moçambique. Esses navios, que ultrapassam as 2.000 toneladas, estão fortemente artilhadas para o combate contra submarinos.
Estão patentes ao público, hoje e amanhã, das 15 às 17 horas.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Novembro de 1959)

Foto da fragata F337 NRP "Pacheco Pereira", à chegada a Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Entraram em Leixões os dois novos escoltadores
oceânicos da nossa Marinha de Guerra
Cerca das 17 horas, entraram no porto de Leixões, fundeando a meio da bacia, os dois novos escoltadores oceânicos da nossa Marinha de Guerra “Álvares Cabral” e “Pacheco Pereira”, adquiridos recentemente em Inglaterra, Estas duas unidades navais atracarão na segunda-feira no cais da doca nº1, onde serão visitadas pelo sr. Ministro da Marinha.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Novembro de 1959)

Foto da fragata F338 NRP "Álvares Cabral", à chegada a Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Os novos escoltadores da Armada portuguesa fundeados em
Leixões foram, ontem, visitados pelo Ministro da Marinha
Dois navios de guerra, apetrechados para o combate anti-submarino e anti-aéreo, em especial, vieram, agora, da Inglaterra, para robustecer o quadro da Armada portuguesa. São navio de soberba estrutura, na ordem dos 100 metros de comprimento, com guarnição efectiva, cada um, de cento e oitenta homens, incluindo oficiais, sargentos e praças.
Os engenhos de combate são quatro peças de quatro polegadas, em reparos «binados», seis peças «Bofors» de 40 milímetros, duas calhas para lançamento de cargas de profundidade, sistema de instrumentos de detecção e quatro morteiros lança-bombas; um «ouriço», arma particularmente anti-submarina. Este volume de motivos tem de funcionar e alimentar-se pela qualidade e têmpera dos marinheiros.
Ambos recheados de poder ofensivo, vão servir nas estações navais da África portuguesa, um em Angola, o outro em Moçambique. Com as adaptações que receberam ao nosso sistema, podem considerar-se belas unidades da Marinha de Guerra, com as feições de utilidade pratica no combate. A tonelagem anda pelas duas mil e quinhentas, podendo os seus motores desenvolver dezassete nós de velocidade.
Esta feição, que é de valia funcional, reunida ao mérito dos marinheiros portugueses, pôde ser apreciada pela gente do Porto, a quem o Ministro da Marinha dedicou a primeira visita dos novos escoltadores. O temporal violento, chuva e vento de rajadas fortes, com o mar alteroso, devido a uma depressão na Biscaia, prejudicaram um tanto a iniciativa, pois, ante-ontem, tiveram de ficar ancorados na bacia de Leixões e só ontem um deles, o “Álvares Cabral”, veio atracar ao cais da doca, enquanto o “Pacheco Pereira” se mantinha ao largo.
A distinção do sr. Contra-almirante Quintanilha de Mendonça Dias foi considerada e, apesar da invernia «ferrada», ela teve correspondência de apreço. Dezenas de pessoas, ante-ontem e ontem, visitaram os dois navios, durante algumas horas da tarde.
Numa visita particular que o trouxe ao Norte, o sr. Contra-almirante Quintanilha de Mendonça Dias esteve ontem de manhã em Leixões, tendo apreciado os novos escoltadores.
A bordo do “Álvares Cabral”, com o navio atracado, a guarnição formou no convés, em continência. Uma rajada forte e a violência da chuva, nesse momento, não ofuscou o brilho do cenário. Os marinheiros portugueses honraram as tradições da Armada.
Ao portaló receberam o ilustre oficial general, que era acompanhado pelos srs. Capitão de mar-e-guerra Ramalho Rosa, seu chefe de gabinete, e Primeiro-tenente João Carlos Alvarenga, seu ajudante de campo, os srs. Capitão-de-fragata Ornelas de Vasconcelos e Camões Godinho, respectivamente comandantes do “Álvares Cabral” e “Pacheco Pereira”, Primeiro-tenente Alberto Pereira Miranda, imediato do navio atracado, e restante oficialidade. Estavam presentes também os srs. Primeiro tenente Sousa Guimarães, adjunto do Departamento Marítimo do Norte, Capitão-tenente Pinto Fonseca, Capitão do porto de Leixões, Capitão-tenente Ventura da Cruz, comandante da Polícia Marítima, e Primeiros-tenentes Pereira Setas e Sousa Campos, comandantes, respectivamente, das lanchas-patrulha “Dourada” e “Corvina”.
O sr. Contra-almirante Quintanilha de Mendonça Dias, sempre acompanhado pelos comandantes dos novos escoltadores e pelos oficiais em serviço no “Álvares Cabral”, fez uma revista pormenorizada a todos os departamentos, observando ao mesmo tempo o complexo mecanismo do corpo de guerra, que achou devidamente articulado.
Uma hora depois, o ilustre oficial general foi homenageado com um almoço a bordo, a que assistiram também os srs. Capitães-de-fragata Ornelas Vasconcelos e Camões Godinho, o Capitão de mar-e-guerra Ramalho Rosa e Primeiro-tenente João Carlos Alvarenga, retirando cerca das 14 horas.
O Ministro da Marinha seguiu ao fim da tarde para Lisboa, acompanhado do seu chefe de gabinete e do seu ajudante de campo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 1 de Dezembro de 1959)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXV)


O abalroamento da galera-transporte "Pero de Alenquer"

Lisboa, 11 de Abril - Hoje, ao anoitecer, o transporte “Pero de Alenquer” foi avistado do Cabo Espichel, pedindo socorro, em virtude de ter abalroado com um navio inglês.
Saíram do Tejo alguns rebocadores em seu auxílio.

Lisboa, 11 de Abril - O paquete “Chili”, vindo do Brasil e entrado hoje no Tejo pelas 5 horas da tarde, é que informou achar-se o transporte “Pero de Alenquer” perto do Cabo Espichel com água aberta, em consequência de ter sido abalroado na noite passada com um navio inglês.
Os rebocadores “Bérrio” e “Lidador” e o vapor nº 2 da Alfândega saíram ao encontro do transporte; mas até agora ignora-se o que terá sucedido.
Vem da Índia o “Pero de Alenquer” com 94 dias de viagem, não tendo tocado em nenhum porto. Conduz um carregamento de teca, sendo comandado pelo 1º tenente Macieira.

Lisboa, 12 de Abril - Até à 1 hora e meia não se sabia se fôra encontrado o transporte “Pero de Alenquer”. O vapor “Chili” não lhe deu reboque porque de bordo do transporte lhe foi declarado não precisar dele. Apenas lhe pediu que avisasse a estação competente logo que entrasse no Tejo. A maior avaria no transporte é um rombo na proa, abaixo da linha de água. Os vapores de pesca que regressaram ontem de tarde não o viram, presumindo que virasse de bordo, pois que o vento soprava forte, do norte.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 12 de Abril de 1899)

Imagem da galera-transporte "Pero de Alenquer"
Foto de autor desconhecido - Revista da Armada

Características da barca construída em ferro “Kinfauns”,
identificada como responsável pelo abalroamento
Nº Oficial: N/a - Iic: K.J.C.N. - Porto de registo: Dundee
Armador: J. Couper, Dundee, Escócia
Construtor: A. Stephen & Sons, Glasgow, 09.1886
Arqueação Tab 1.001,00 tons - Tal 981,00 tons
Dimensões: Pp 62,18 mts - Boca 10,49 mts - Pontal 5,99 mts
Propulsão: À vela
Transporte “Pero de Alenquer”
Lisboa, 13 de Abril - Foi levantada a quarentena ao “Pero de Alenquer”, que amanhã, se o tempo permitir, virá para o Tejo rebocado pelos vapores “Bérrio” e “Lidador”.
O comandante do “Pero de Alenquer” mandou à direcção de marinha informações circunstanciadas sobre o abalroamento que sofreu e que ocorreu na noite de 5 do corrente, pelas 2 horas da madrugada.
O “Pero de Alenquer” navegava à bolina a 28 milhas dos Açores, quando sobre ele, por circunstância ainda desconhecida, veio a barca inglesa “Kinfauns”, procedente de Londres e com destino à Madeira e a qual não deu tempo ao navio português senão para orçar, a fim de evitar ser abalroado por través.
Por este modo se explica porque o rombo foi na amurada de estibordo, acima da linha de flutuação e avante da quartelada. A barca inglesa desarvorou, ficando sem o mastro do traquete e o gurupés.
Quanto ao “Pero de Alenquer” perdeu o pau da bujarrona e teve o pano todo rasgado. Durante a noite de 6 o comandante do transporte, o 1º tenente sr. Macieira, pôde fazer reparar algumas avarias sofridas, mas não evitar que o navio metesse água, apesar de navegar com âncora a estibordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 14 de Abril de 1899)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Leixões na rota do turismo! (2/2017)


Navios de passageiros em Leixões

O navio de passageiros "Viking Star" passou pelo porto no dia 20 p.p., procedente de Lisboa, tendo encontrado à chegada vento exageradamente forte. Pela previsível dificuldade de manobra, o comandante do navio anulou a escala em Leixões, continuando acto contínuo a viagem com destino ao porto de St. Helier. Está prevista nova visita deste navio ao porto, no próximo dia 28.

Navio de passageiros "Aida Luna"
Dia 22, chegou procedente do Funchal, seguiu viagem para a Corunha.

Navio de passageiros "Midnatsol"
Dia 22, chegou procedente de Lisboa, seguiu viagem para a Corunha

Navio de passageiros "Viking Sea"
Dia 22, chegou procedente de Lisboa, seguiu viagem para a Corunha

Para hoje, dia 24, estava prevista a visita do navio de passageiros "Clio", que não se verificou, por ter igualmente cancelado a escala.

sábado, 22 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXIV)


O incêndio a bordo do vapor Haytor, no rio Douro

Pouco depois das 4 horas da tarde manifestou-se incêndio a bordo do navio inglês “Haytor”, fundeado junto da margem esquerda do Douro, defronte do lugar do Cavaco.
O vapor, que entrara no dia 28 do corrente, procedente de Catania, com carregamento de enxofre consignado à firma J.T. da Costa Basto & Cª., estava à descarga quando se deu o incêndio, originado por faúlhas saídas das caldeiras da máquina motriz.

Desenho sem correspondência ao texto

Características do vapor “Haytor”
Nº Oficial: N/a - Iic: P.S.H.V. - Porto de registo: Londres
Armador: Earnmount Sailing Co., Ltd., Londres
Operador: R. Ferguson & Co., Ltd., Londres
Construtor: William Hamilton & Co., Port Glasgow, 07.1897
Arqueação Tab 1.989,00 tons - Tal 1.860,00 tons
Dimensões: Pp 81,38 mts - Boca 12,22 mts - Pontal 7,14 mts

A tripulação tentou apagar o fogo; como o não conseguiu, reclamou os socorros dos bombeiros, comparecendo ali os municipais e voluntários de Gaia e do Porto. Como se revelassem impotentes estes socorros para localizar o incêndio, os consignatários do vapor solicitaram a comparência dos bombeiros municipais do Porto, que não se fizeram esperar e que conduziram, numa barcaça, até junto do vapor, uma bomba, que trabalhou ali, atacando, com água do rio, o incêndio, que dentro em pouco era dado por extinto.
Não obstante o porão ter dois compartimentos apenas separados por um taipal de madeira (antepara), foi conseguido que o fogo não passasse de um para o outro lado.
Os trabalhos foram dirigidos pelo inspector dos incêndios, sr. Guilherme Fernandes. A carga do navio está segura em diversas companhias estrangeiras, muito embora não sendo de grande importância os prejuízos verificados.
Os bombeiros e material retiraram perto das 11 horas da noite. A bordo ficou de vigilância um bombeiro, por assim o haverem solicitado os consignatários do vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 29 de Março de 1899)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXIII)


O naufrágio da barca “Judith”

Ocorrência marítima
Foi recebida notícia de ter sofrido grossa avaria, em viagem do Maranhão para o Rio Grande do Sul, a barca “Judith”, pertencente aos srs. Glama & Marinho, da praça do Porto.
A barca considera-se perdida.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 28 de Março de 1899)

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Características da barca “Judith”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.B.N.R. - Porto de registo: Porto
Armador: Glama & Marinho, Lda., Porto
Construtor: José Fernandes Lapa, Azurara, 1884
ex “Lopes Duarte”, A. Lopes Duarte, Porto
Arqueação Tab 383,00 tons - Tal 322,35 tons
Dimensões: Pp 38,20 mts - Boca 7,40 mts - Pontal 3,60 mts
Propulsão: À vela
Naufrágio
Com respeito ao naufrágio da barca “Judith”, os proprietários do navio, srs. Glama & Marinho, apenas receberam um telegrama expedido do Pará pelo respectivo capitão, participando-lhes que a “Judith” fôra a pique, em viagem de Temonha (ou Timonha, estado do Ceará), para o Rio Grande do Sul.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 29 de Março de 1899)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXII)


O abalroamento entre os vapores "Daybreak" e "Science"

Desenho sem correspondência ao texto

Características do vapor inglês “Daybreak”
Nº Oficial: N/a - Iic: M.B.Q.F. - Porto de registo: West Hartlepool
Armador: J. Wood & Co., West Hartlepool
Construtor: Ropner & Son, Stockton-on-Tees, Fevereiro de 1891
Arqueação Tab 2.922,00 tons - Tal 1.904,00 tons
Dimensões: Pp 95,55 mts - Boca 12,34 mts - Pontal 6,15 mts
Propulsão: 1 motor de tripla expansão
Equipagem: 24 tripulantes
Características do vapor inglês “Science”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.V.S.T. - Porto de registo: Londres
Armador: Westcott & Laurence, Londres
Construtor: William Pile & Co., Sunderland, Março de 1868
Arqueação Tab 1.299,00 tons - Tal 810,00 tons
Dimensões: Pp 75,90 mts - Boca 9,17 mts - Pontal 5,26 mts
Propulsão: 1 motor compósito
Equipagem: 22 tripulantes

Abalroamento e naufrágio
Lisboa, 27 de Março - Cerca da 1 hora da madrugada de ontem, 8 milhas ao norte do Cabo de S, Vicente, o o vapor inglês “Daybreak” que ia de Brighton para Alexandria, com carvão de pedra, abalroou com o vapor inglês “Science”, cortando-o a meio e metendo-o a pique.
Os tripulantes do “Science”, em número de 22 foram salvos pelo “Daybreak”, ficando dois deles muito feridos. O “Science” levava trigo carregado em Odessa para Antuérpia.
O “Daybreak”, com uma equipagem de 24 homens, veio fundear na Cova da Piedade, precisando ser rebocado por haver sofrido avaria na proa.
Os capitães prestaram declarações sobre a causa do sinistro.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 28 de Março de 1899)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Leixões na rota do turismo! (1/2017)


O regresso dos navios de passageiros

No último fim de semana, registou-se o início das visitas dos navios de cruzeiro ao porto. Um pouco tarde para o habitual, porque o estado do tempo e mar levou ao cancelamento de algumas escalas.
Mesmo assim, a tendência de aumento do número de navios em Leixões é perfeitamente consistente com as perspectivas anunciadas pela Autoridade Portuária, significando também um aumento paralelo quanto ao número de turistas embarcados, bem como das respectivas tripulações que efectuam serviços a bordo.
Antecipamos que visitarão o porto diversos navios pela primeira vez, estando aberta a possibilidade de virem a ser realizados cruzeiros com viagens a ter início em Leixões, durante o ano de 2018.

Navio de passageiros "Oriana"
Chegou procedente do porto do Ferrol, tendo saído com destino a Cadiz.

Navio de passageiros "Le Soleal"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha.

Navio de passageiros "Marco Polo"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino a Avonmouth.

sábado, 15 de abril de 2017

Histórias do mar português!


A vida arriscada e operosa dos pilotos do Douro e Leixões
Texto de Afonso Passos

Trinta e quatro homens, escondidos na maior modéstia, realizam, dia a
dia, trabalho perigoso, de que colhe altos benefícios o Norte do País
Há mais de um século, Feminore Cooper, espírito brilhante que cultivou, com amor e ciência, o campo das letras, deu à estampa um livro com este singelo título: «O Piloto». Embora do género romance, a ideia que presidiu à confecção do livro foi, unicamente, a glorificação do piloto, objectivo conseguido em pleno porque o autor, com larga visão da vida e das coisas do mar, focou, com maestria, o carácter, a concentração e a audácia desses admiráveis marinheiros.
Maior teria sido a sua impressão, maior seria a emoção dos leitores, se Feminore Cooper nos oferecesse, no século em que vivemos, o descritivo, por-certo envolto em ricas roupagens literárias, da entrada e saída de navios na barra do Douro e, até, no porto de Leixões. Veria, com seus olhos perscrutadores e com seu espírito perspicaz, como na era da máquina, em que o progresso se avantaja, em que a Natureza parece dominada ao poder criador do homem, como uma vaga, apenas por mais alterosa, como um rio tranquilo, apenas por aumentar de corrente e volume, desafia a eficácia da mecânica, obstruindo-lhe o caminho, relegando-a para o lugar próprio.
E, nesta emergência, é ainda o homem – o piloto que Cooper glorificou – quem vai adiantar-se a certos poderes da terra, vencendo, pela sua inteligência, forças consideradas indómitas. Sabe que assim é quem já assistiu, em dias de mar bravio, ao trabalho dos pilotos nessa «garganta da morte», que é a barra do Douro. Os seus conhecimentos, a sua tenacidade e, quantas vezes, o seu heroísmo, são constantemente postos à prova, mostrando-nos, de forma eloquente, quão arriscada e operosa é a profissão do piloto.

Navio de carga holandês "Strabo" da K.N.S.M.
Fotografia de Alberto Teixeira da Costa, Foz do Douro

A barra do Douro oferece aspecto desolador
Movidos pela leitura de Cooper e pelo conhecimento directo que temos da vida do piloto, fomos, há dias, em busca de impressões até à Corporação dos Pilotos das Barras do Douro e Leixões, instalada num prédio do Passeio Alegre, frente ao mar. Da visita às instalações, que são modelares, das palavras que trocamos com alguns pilotos de serviço, ficou-nos impressão magnífica do importante papel que desempenham na navegação e do enorme contributo que oferecem à vida do comércio e da indústria.
Mas outro motivo nos levou até à Cantareira. Arriscarmo-nos, com o piloto, se possível fosse, até um dos navios que entram ou saem a barra, assistindo, para que a impressão fosse mais viva, aos trabalhos que demonstram a perícia e os riscos do piloto. Não pôde ser satisfeito o nosso desejo. A barra, antes da guerra sempre com movimento intenso de embarcações, oferece, agora, aspecto profundamente desolador.
Que vemos? Um barquito à vela, que regressa da faina da pesca, uma fragata que um rebocador leva para Leixões… Nada mais. Dos vapores de carga, não encontramos rasto nem fumo… Disseram-nos que, de quando em vez, aparece um pela barra… E o sol, esplendoroso e magnânimo, parecia abençoar os homens e as coisas! Os pilotos da barra – os «práticos», como lhe chamam os brasileiros – são escolhidos entre os homens do mar, indistintamente, exercendo qualquer das diversas profissões marítimas.
Para que possa concorrer ao lugar, tem de conhecer, após aturado estudo, especialmente a barra, as marés, os baixios, as correntes e mil e um pormenores que a prática na vida do mar oferece. Requerida a sua admissão, o candidato é sujeito a exame, feito sempre a bordo de um navio de guerra, com o qual manobra, saindo e entrando na barra do Douro como na de Leixões, para mostrar as suas aptidões. O júri de exame é sempre composto por dois oficiais da marinha, pelo piloto-mór e pelo sota piloto-mór. Aprovado piloto provisório, faz seis meses de tirocínio, sob a vigilância dos pilotos efectivos. Decorrido esse tempo, se as informações forem abonatórias da sua competência, passa a fazer serviço sob sua responsabilidade. Continuando a ser bem-sucedido, ao cabo de 18 meses passa à efectividade. E ao fim de 7 anos de trabalho pode concorrer aos lugares superiores.

No mar, estão já sepultados muitos pilotos
O pessoal encarregado da pilotagem nas barras do Douro e de Leixões está assim distribuído: na secção da Foz do Douro, há 26 pilotos, incluindo os graduados e um escrivão; e em Leixões prestam serviço 8 pilotos. Na secção da foz, o pessoal está dividido em duas esquadras, estando uma, durante quinze dias, ao serviço de entradas, e a outra ao serviço de saídas, findos os quais alternam.
O piloto, além das responsabilidades técnicas, tem outras referentes às autoridades aduaneira, policial e sanitária, visto que sendo a primeira autoridade a entrar a bordo toma sobre si todos os encargos, até que aquelas, já dentro do porto efectuem as suas visitas.
Os pilotos da barra do Douro, atendendo à situação do seu porto, têm de ser marinheiros muito hábeis, pois é uma das barras mais difíceis, atendendo à tonelagem da navegação que a demanda. Indagando dos momentos que consideram mais difíceis para a sua vida profissional, todos os pilotos são de opinião que o acto mais arriscado é o de saltar, fora da barra, da lancha para bordo ou de bordo para a lancha, operação que o mar, quando alteroso, torna difícil ao máximo.
E recordaram-nos, a propósito, alguns desastres sucedidos a colegas seus, muitos deles mortais. Há anos, existia em Carreiros um posto suplementar, onde estavam atracadas várias catraias. Uma delas, quando em serviço, voltou-se, morrendo afogados, muito perto de terra, todos os pilotos que levava. Também uma outra catraia, destinada a «assistir», que estava em serviço de sinalização da barra, voltou-se no momento em que um vapor holandês demandava o porto, perecendo sete dos seus ocupantes.
É, assim, cheia de perigos, a vida dos pilotos na barra do Douro, que se continua a manter num estado luminoso. Quem não se recorda do trágico naufrágio do vapor alemão “Deister”, ocorrido mesmo à entrada do porto, sem que milhares de pessoas, que presenciaram, horrorizadas, da margem, os diversos passos da catástrofe, pudessem valer a duas dezenas de vidas que o mar sepultou? Foi neste desastre pavoroso que um piloto, Jacinto José Pinto, encontrou a morte.

Os pilotos têm salvo muita gente da morte
Existe lamentavelmente um equívoco que vem a propósito esclarecer. Quando se dá qualquer naufrágio em que aos pilotos não é possível actuar, quer por ignorância do caso ou porque o facto sé dá em ocasião que o material mais apropriado está em serviço, certo público, injustamente, critica-os asperamente, quando, na verdade, esquece que não sendo a sua função propriamente a de salvação, visto que exercem uma indústria distinta, que é a pilotagem das embarcações, e, contudo, a Corporação de Pilotos do Douro e Leixões a entidade que mais gente tem salvo, não só aquela que arranca da água, como dos múltiplos naufrágios que evita quando se apercebe que uma embarcação corre risco e, caso interessante, raro é o piloto que possui uma medalha do Instituto de Socorros a Náufragos e nem a Corporação foi, ainda, condecorada pelos poderes públicos, o que, aliás, era justíssimo.
Não sucede isto, porém, com outras corporações de interesse público, tais como os bombeiros, que, pelo menos em matéria de socorros a náufragos, são sempre, e muito bem, premiadas, assim como os seus componentes.
Não se tem isto em vista, não só quanto à parte crítica de certo público, mas também às distinções honoríficas que a Corporação de Pilotos, não tendo nenhum subsídio especial do Estado, justamente merecia, pois danifica o seu material flutuante e gasta combustível. Como os casos de socorros a barcos de pesca e de recreio se dão frequentemente, no fim dum ano pode avaliar-se o quanto afecta a economia da Corporação e dos pilotos, pois que os proventos dependem, em parte, da referida economia. Ora para bem de todos convém explicar que a entidade dada aos serviços de socorros a náufragos é o Instituto de Socorros a Náufragos.
A Corporação de Pilotos intervém, pronta e voluntariamente, já por iniciativa própria dos sentimentos dos seus incorporados, já porque isso é dever de todo o cidadão, sempre que pode, quando tem conhecimento dos factos. Nos naufrágios desta área quase sempre comparece uma ou mais lanchas ou o rebocador “Comandante Afonso de Carvalho”, mesmo nos casos em que o salva-vidas sai.
Quando se trata do salvamento de propriedades de valor apreciável, não de vidas, a Corporação tem de ser remunerada porque vai danificar o seu material e fazer despesas com pessoal, combustível, etc.
Há quem julgue que devido à pilotagem ser um serviço oficial, existe obrigação de fazer gratuitamente os serviços de salvação dos navios, mas, na verdade, esquecem que a Corporação compra o material que adquire, paga os carburante e lubrificantes, pessoal, reparações e seguros, como qualquer entidade particular, comercial ou industrial.

O piloto não enfrenta apenas os perigos do mar
A continuar assim, não surpreenderá ninguém que a barra do Douro venha ser ainda sepultura de muitas vidas. Disse-nos um membro da corporação, quando lhe apontamos essa possibilidade: «Sim, porque o piloto, aqui, é como um artista a trabalhar com fraca ferramenta».
Porém, os pilotos não enfrentam apenas os perigos do mar. Pela natureza da profissão, a mortalidade entre eles, é enorme, causada, especialmente, por doenças do coração, tuberculose, resfriamentos, etc. Para corroborar essa afirmação, basta citar a sua Caixa de Pensões, que possuindo 34 sócios, em 7 anos tem já 11 viúvas a sustentar.
Não obstante as crises dos últimos anos e a actual, que a todas supera, a Corporação dos Pilotos está apetrechada com material mecânico moderno para o serviço de pilotagem e outros, material esse que fica bastante oneroso. Para o serviço de amarrações, possui 50 assalariados, aos quais tem dispensado bastantes regalias, não obstante a Corporação viver presentemente em regime de «deficit».
Na secção de Leixões, o serviço de pilotagem é também pesado e difícil, visto que é permanente, de noite e de dia, e especialmente devido às más condições do porto, que foi feito para abrigo dos antigos navios de vela e, hoje, é demandado por verdadeiras cidades flutuantes. Estes navios, pelo seu tamanho como também pelo seu enorme calado, tornam-se de difícil manobra, devido às dimensões acanhadas da bacia.
Hoje, graças à aquisição, por parte da Corporação, do rebocador “Comandante Afonso de Carvalho”, o serviço é feito em melhores condições, facilitando não só o acto de pilotar, que, anteriormente, em dias de muito mar, não podia efectuar-se, como ainda o recurso de assistência permanente, visto que o rebocador está sempre em Leixões e, portanto, pronto a actuar na emergência de qualquer sinistro.
Há, na vida dos pilotos da barra do Douro, um facto que demonstra claramente a ponderação com que efectuam os seus serviços. Quando o mar, embravecido, dificulta a entrada ou saída de embarcações, os pilotos reúnem-se, em conselho, numa casita, junto ao mar, na Cantareira, para deliberarem sobre a melhor forma de conduzir o navio com segurança ao seu ancoradouro. O piloto-mór ouve as opiniões, muitas vezes divergentes, dos seus subordinados. Se o acordo, para tal fim, não é unânime, procedem à votação – e o serviço é feito segundo o critério da maioria.
Da vida dos pilotos, da sua profissão arriscada e operosa, muito haveria a dizer. Ainda bem que Feminore Cooper o fez, embora noutra época e com outros motivos, porque nós, sem o recurso de impressões vivas em que nos possamos escudar, apenas repetiremos que os portos do Douro e Leixões, por imperativo da guerra que assola o mundo, oferecem aspecto triste, desolador, embora o Sol por lá ande a abençoar os homens e as coisas…
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 1 de Agosto de 1940)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

História trágico-marítima (CCXI)


O encalhe do navio "Nashaba"

Encalhou na Ericeira, devido ao nevoeiro,
o navio de carga americano “Nashaba”
Ericeira, 17 – Na madrugada de hoje foram ouvidos nesta vila sucessivos apitos da sirene de um vapor, que deveria estar em perigo muito próximo de terra. Havia muita cerração e nada se via para o mar.
No posto da Guarda Fiscal de S. Julião soube-se a breve trecho do que se tratava. O navio de carga americano “Nashaba”, encalhara devido ao nevoeiro, pelas 4 horas, perpendicularmente à praia de S. Julião, que fica imediatamente ao Sul da praia da Baleia.
No momento do encalhe, o comandante do navio expedira um rádio para Lisboa a comunicar o sinistro e a solicitar assistência, visto o navio encontrar-se em situação difícil. Da administração do porto de Lisboa foi mandado seguir para o local o rebocador “Cabo Espichel”, apetrechado para trabalhos de salvamento e com técnicos a bordo.
Compareceu também no local um outro rebocador vindo de Lisboa, mas as primeiras tentativas de salvamento não deram qualquer resultado. O navio encontra-se muito enterrado na areia e não se sabe mesmo se em rocha, mas o mar, em compensação, não está muito agitado. Até agora os tripulantes não correm qualquer risco.
Muitos veraneantes dirigiram-se em pequenos barcos para próximo do navio sinistrado, a fim de assistirem às tentativas de desencalhe.
Na preia-mar das 14 horas e quarenta minutos, os rebocadores deram alguns esticões violentos, mas o navio não cedeu e manteve-se na mesma posição. Está a ser encarada a hipótese de aliviar o navio de parte da carga. Os trabalhos de salvamento continuam.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 18 de Julho de 1940)

Foto do navio "Nashaba" - imagem de autor desconhecido
www.armed-guard.com/sunk.html

Características do navio “Nashaba”
Nº Oficial: N/a - Iic: K.D.S.M. - Porto de registo: Houston, Texas
Armador: Lykes Bros Steamship Co. Inc., Houston, Texas
Construtor: Pacific Coast Shipbuilding Co., Bay Point, California
Arqueação: Tab 6.062,00 tons - Tal 3.776,00 tons
Dimensões: Pp 122,66 mts - Boca 16,15 mts - Pontal 9,75 mts
Propulsão: 1:Tvapor de Kerr Turbine Co., Wellsville, Nova York
Equipagem: 27 tripulantes

O vapor norte-americano “Nashaba” que havia
encalhado na Ericeira seguiu para Lisboa
Ericeira, 18 – O navio americano “Nashaba” que desde ontem se encontrava encalhado na praia de S. Julião, foi esta tarde desencalhado e seguiu para Lisboa, acompanhado pelos rebocadores que intervieram no seu salvamento.
As tentativas de desencalhe feitas durante a noite e a manhã de hoje não deram resultado, mas os técnicos mantinham-se convencidos de que seria possível salvar o navio. Devido ao encalhe ter ocorrido muito próximo de terra, os rebocadores tiveram grande dificuldade em estabelecer as espias de aço com as quais tentariam proceder ao salvamento.
Uma pequena embarcação foi empregada por fim com exito no estabelecimento das espias e, durante a noite, o rebocador “Cabo Espichel” manteve-se ligado por duas espias ao “Nashaba”.
Próximo, manteve-se sempre o vapor dos Pilotos “Comandante Pedro Rodrigues”, cujos serviços de assistência foram também muito importantes, especialmente na fase final dos trabalhos.
Durante a enchente da manhã, foram feitos os últimos preparativos para uma nova tentativa na preia-mar das 15 horas. Numerosas pessoas acorreram ao local para assistir aos trabalhos, fazendo-se transportar em automóveis e em carroças. Os rochedos próximos apresentavam, pelo meio-dia, um curioso aspecto. Muitos banhistas levaram o farnel para ali passarem a tarde.
Pelas 14 horas, quando a maré já estava bastante alta, foram tomadas disposições para nova tentativa. O “Cabo Espichel” pegou numa espia e o “Comandante Pedro Rodrigues” pegou em outra.
Eram 14 horas e dez minutos, quando os dois rebocadores deram, num esforço simultâneo, o primeiro esticão. O vapor cedeu, ligeiramente, e, cinco minutos depois, a um novo esticão, moveu-se sobre a areia. Os navios de salvação insistiram no esforço e o “Nashaba” ficou a flutuar francamente. As sirenes dos vapores silvaram e os tripulantes acenavam com os bonés numa grande manifestação de alegria.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 19 de Julho de 1940)

Nota: Este navio naufragou em 26 de Fevereiro de 1945, quando integrado no comboio «TAM91», seguindo viagem para Ghent, na Bélgica, colidiu com uma mina no estuário do Schelde, posição 51º22’18”N 02º55’25”E. A tripulação salvou-se.