sábado, 14 de fevereiro de 2009

Os navios de Viana do Castelo, 1936-1940


A frota Vianense,
“Nada se perdeu, tudo se transformou”…

Estamos prestes a encerrar mais um capítulo, relacionado com os navios mercantes e a frota bacalhoeira, que teve origem em Viana do Castelo. Deve ter sido uma época agitada de muitas mudanças, com aquisições e vendas de navios entre antigos e novos armadores e ainda com a modernização e motorização das embarcações. Contudo, a principal alteração foi ver iniciado o processo, que quase levou ao fim da construção naval em madeira, substituído por grandes estaleiros a montar unidades fabricadas em aço.

O lugre “Fernanda” ex “Galicia”, de 116 toneladas, construído em 1918, em Noya (Galiza) e o lugre “Senhora das Areias”, ex “Villalonga”, de 120 toneladas, construído em 1920, no estaleiro de Noya-Obrés (Galiza), foram vendidos a João Alves Cerqueira. Motorizados continuaram ambos a operar no serviço comercial de longo curso. O lugre “Fernanda” que entretanto mudou o nome para “Santa Madalena”, perdeu-se nas Berlengas, devido a nevoeiro em finais da década de 40. O lugre “Senhora das Areias” por sua vez foi vendido a José Amador, que o matriculou na praça de Luanda. Seguiu posteriormente para Cabo Verde, efectuando registo em São Vicente, com o nome "Senhor das Areias". Foi demolido em 1968.

As chalupas “Dina”, de 65 toneladas e “Raquel”, de 72 toneladas, ambas construídas por António Luiz Sobral, em Viana, desaparecem neste período. Sem rasto após 1936.

O iate “Elvira Covão”, ex “Covão IIº”, ex “Sarah da Luz”, de 91 toneladas, construído por Jeremias Martins Novais, de Vila do Conde, em 1921, propriedade de Simão Gonçalves Covão, desde 1928, foi vendido em 1937 à Sociedade de Navegação Costeira Nossa Senhora da Agonia, Lda. Manteve o registo em Viana, mas mudou o nome para “Santa Luzia”. Terminaria a sua actividade ao ser abalroado pelo lugre-motor “Anfitrite Iº”, na barra do porto de Setúbal, a 5 de Novembro de 1950.

Foi igualmente registado em nome desta Sociedade o lugre “Nossa Senhora da Agonia”, ex “Orion”, ex “Silva Lau”, de madeira, 184,40 toneladas, construído por José Maria de Lemos no estaleiro de Aveiro e lançado à água em Maio de 1921. Manteve-se em serviço até naufragar sob temporal a cerca de 10 milhas de Alger, em 19 de Dezembro de 1945. Recordamos que este navio foi um dos bacalhoeiros mais elegantes, matriculado no porto de Aveiro.

Novas empresas surgem estabelecidas na área do porto de Viana, oferecendo serviços de transporte na cabotagem nacional e internacional, como segue :

A firma Mesquita & Santiago adquire o seu 1º navio em 1937, o lugre "Atlante Primeiro”, ex “Júlia 2º”, construído em 1874 no Massachussets, até então inscrito na Figueira da Foz, propriedade da Atlântica - Companhia Portuguesa de Pesca, Lda. Apesar dos trabalhos de reconstrução levados a cabo num estaleiro de Viana, em 1938, sucumbiu sob violento ciclone no estuário do rio Sado, em 15 de Fevereiro de 1941.

Para finalizar o armador João Cândido Rodrigues Maduro adquiriu o palhabote “Navegante Primeiro”, ex “Navegante”, de madeira, 182,17 toneladas, construído por José Dias dos Santos Borda Júnior e lançado à água a 07.09.1919, para a Parceria Marítima Douro, do Porto. O navio encontrava-se matriculado na praça de Faro desde 1932, propriedade de Francisco Ramos Lopes & David de Sousa Nunes. Abandonado no cais de Santo Amaro, Lisboa, em finais da década de 50, para demolição.

Relativamente à frota de navios bacalhoeiros, registamos as seguintes embarcações :

Lugre “ Gaspar ”
1919 – 1948

Armador : Soc. Novas Pescarias de Viana, Lda., Viana do Castelo
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Nº Oficial : 71 > Iic.: H.G.A.P. > Registo : Viana do Castelo
Cttor.: Manuel M. B. Mónica, Cabedelo, F. Foz, lançado 24.08.1919
ex “Sarah”, Nápoles, Pinto Basto & Cª., Lda., F. Foz, 1919-1919
Tonelagens : Tab 317,68 to > Tal 245,81 to
Comprimentos : Pp 43,35 mt > Boca 8,80 mt > Pontal 4,23 mt
Máquina : Não tinha motor auxiliar, foi motorizado em 1938.
Máquina : Deutz, 1938 > 1:Di > 240 Bhp > Velocidade 8 m/h
Equipagem : 39 tripulantes
Capitães embarcados : Manuel d’Oliveira Mendes (1936 a 1940)
Naufragou com água aberta nos bancos da Terra Nova em 1948

Lugre “ Rio Lima ”
1920 – 1951

Armador : Empresa de Pesca de Viana, Viana do Castelo
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Nº Oficial : 69 > Iic.: H.R.L.I. > Registo : Viana do Castelo
Cttor.: José Lopes Ferreira Maiato, Viana, lançado 22.01.1920
Tonelagens : Tab 317,33 to > Tal 264,42 to
Comprimentos : Pp 48,00 mt > Boca 9,80 mt > Pontal 4,47 mt
Máquina : Volund, 1935 > 1:Sd > 225 Bhp > Velocidade 8 m/h
Equipagem : 41 tripulantes
Capitães embarcados : João Pereira Cajeira (1936), Achilles Gonçalves Bilelo (1937 a 1938) e José Bolais Mónica (1939 e 1940)
Naufragou com água aberta nos bancos da Terra Nova, a 6 de Maio de 1951.

Lugre “ Santa Luzia “
1929 – 1936

Armador : Empresa de Pesca de Viana, Viana do Castelo
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Nº Oficial : 86 > Iic.: H.S.A.L. > Registo : Viana do Castelo
Cttor.: Joaquim José Honrado, S. Martinho do Porto, 1922
ex “Neptuno”, Soc. Pesca do Bacalhau, F. Foz, 1922-1929
Tonelagens : Tab 335,83 to > Tal 250,32 to
Comprimentos : Pp 41,14 mt > Boca 9,99 mt > Pontal 4,42 mt
Máquina : Volund, 1934 > 1:Sd > 220 Bhp > Velocidade 8 m/h
Equipagem : 43 tripulantes
Capitães embarcados : Achilles Gonçalves Bilelo (1936)
Naufragou em resultado da colisão com o lugre “Infante de Sagres”, no banco de St. Pierre, Terra Nova, em 1936.

Lugre-motor “ Santa Maria Manuela “
1937 – 1964

O "Santa Maria Manuela" em Lisboa - foto (c) minha colecção

Armador : Empresa de Pesca de Viana, Viana do Castelo
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Nº Oficial : 91 > Iic.: C.S.F.K. > Registo : Viana do Castelo
Cttor : Comp. União Fabril, Rocha Conde de Óbidos, 1937
Tonelagens : Tab 666,17 to > Tal 390,41 to
Cpmts.: Ff 63,71 mt > Pp 57,77 mt > Bc 10,99 mt > Ptl 5,10 mt
Máquina : B. & Wain, 1936 > 1:Di > 400 Bhp > Veloc. 10 m/h
Equipagem : 73 tripulantes
Capitães embarcados : João Pereira Cajeira (1937 a 1940)
Vendido à Empresa de Pesca Ribau, em 1965, mantém o nome, mas altera a matrícula para a praça de Aveiro.

Navio-motor “ São Ruy “
1939 – 1987

O "São Ruy" em Lisboa - foto (c) minha colecção

Armador : Empresa de Pesca de Viana, Viana do Castelo
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Nº Oficial : 95 > Iic.: C.S.I.R. > Registo : Viana do Castelo
Construtor : Companhia União Fabril, Lisboa, 1939
Tonelagens : Tab 1.043,40 to > Tal 447,58 to
Cpmts.: Ff 66,82 mt > Pp 61,83 mt > Bc 10,99 mt > Ptl 5,10 mt
Máquina : Sulzer, 1938 > 1:Di > 550 Bhp > Veloc. 12 m/h
Equipagem : 80 tripulantes
Capitães embarcados : Achilles Gonçalves Bilelo (1939 e 1940)
Alterou o nome para “Leone II”, em 1987. Demolido em Viana do Castelo, durante o ano de 1993.

Navio-motor “ Santa Maria Madalena “
1939 - 1959

O "Santa Maria Madalena" em Lisboa - foto (c) minha colecção

Armador : Empresa de Pesca de Viana, Viana do Castelo
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Nº Oficial : 96 > Iic.: C.S.I.X. > Registo : Viana do Castelo
Construtor : Companhia União Fabril, Lisboa, 1939
Tonelagens : Tab 1.043,40 to > Tal 447,58 to
Cpmts.: Ff 66,82 mt > Pp 61,83 mt > Bc 10,99 mt > Ptl 5,10 mt
Máquina : Sulzer, 1938 > 1:Di > 550 Bhp > Veloc. 12 m/h
Equipagem : 80 tripulantes
Capitães embarcados : Joaquim F. Água-Luza (1939 e 1940)
Naufragou por encalhe nos baixos à saída do porto de Faeringerhavn, na Gronelândia, em 13 de Agosto de 1959.

4 comentários:

Rui Amaro disse...

O Santa Madalena do mestre Zé Cadilha, de Viana do Castelo, perdeu-se nas Berlengas, julgo devido à névoa, finais da década de 40. Era um lugre de três mastros.
Quanto ao lugre de três mastros Senhora das Areias foi reconstruido em 1943 em Aveiro e parece que foi para Cabo Verde. Em 1945 ainda ostentava o mesmo nome, tendo sido alterado mais tarde para Senhor das Areias. Em 1968 foi demolido. O seu perfil foi cunhado numa moeda de 50$00 de Cabo Verde. Pesquisar em(http://www.bcv.cv/_conteudo/dinheiro/moeda/navio/50.htm )
Saudações maritimo-entusiásticas
Rui Amaro

Rui Amaro disse...

Conheci o Santa Luzia, 126tb, de Viana do Castelo. Era um iate, embora pintado de preto, possuia linhas muito airosas e já lhe tinham retirado os mastaréus, caso contrário continuaria como palhabote. Dizia o meu pai e outros pilotos que fora o Luisa Covão, também de Viana do Castelo. Em 16/05/1933 pilotou-o de entrada em Leixões, atracando ao molhe Sul para descarregar sal, e a tonelagem bruta nos registos do meu pai era de 91tb, se bem que as tonelagens por vezes são alteradas.
Era de comprimento razoável
Saudações Maritimo-entisiasticas
Rui Amaro

Rui Amaro disse...

OS DÓRIS DO N/M SANTA MARIA MADALENA.
Há uns três anos um "shiplover" das Ilhas Faroe dizia-me que o bote com que ele, nas horas vagas, se entretinha a pescar, fora um dóri daquele navo de Viana do Castelo, que se perdera em Faeringhavn em 1959. Fora trazido pelo seu pai, motorista de um arrastão islandês, que o tentara safar, e trouxeram mais dóris.Como tal nas Ilhas Faroe hé pelo menos um dóri do malogrado Santa Maria Madalena.
Pena foi eu lhe ter pedido uma foto!
Saudações Maritimo-entusiásticas
Rui Amaro

José Petinga Bizarro disse...

Boa Noite
Gostei muito de passar um bom par de horas de volta do deu site pq o meu Avô de nome José Bizarro andou muitos anos à pesca do bacalhau penso que no São Ruy como também no Santa Maria Manuela a minha pergunta é haverá algum registo em algum documento ou Site das tripulações destes dois Navios onde eu possa procurar.
Será que me pode ajudar???
O meu Email é jospetingabizarro@gmail.com
Muito Obrigado
José Petinga Bizarro