quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A barca "Foz do Douro", o primeiro amor...


A barca " Foz do Douro "

" Hawaiian Isles - foto de autor desconhecido

Construtor : C. Connel & Co., Ltd., Glasgow, Escócia, Fev., 1892
Tonelagens : Tab 2.345 to > Tal 1.966 to > Pmorto 3.087 to
Cpmts.: Ff 88,20 mt > Pp 81,40 mt > Bc 13,10 mt > Ptl 7,20 mt

1892 / 1893 - O estaleiro entrega o navio ao 1º armador, a empresa Hawaiian Construction Co., de Honolulu, para ser empregue no transporte de açucar entre Honolulu e portos na costa Oeste da América Latina. Fica registado no Hawaii e é baptizado "Hawaiian Isles".
1893 / 1900 - Após venda a A. Nelson, também de Honolulu, permanece no mesmo tráfego.
1900 / 1901 - Surgem dificuldades no comércio do açucar. O navio é posto à venda sendo comprado pela empresa Welsch Co., de São Francisco. Começa a navegar com a bandeira dos Estados Unidos.
1901 / 1906 - Aumentam os problemas de transporte entre o Norte e o Sul do continente americano. Concretiza-se nova venda ao capitão Walter M. Mallet, ainda de São Francisco, que inicia viagens para a Austrália e para o continente europeu.
1906 / 1909 - O navio apresenta os primeiros sinais a pedir reparação urgente. Como a despesa promete ser considerável, é mais uma vez colocado à venda. Muda de dono. O novo armador, a Matson Navigation Co., também com sede em São Francisco recupera o navio, que desde então estabelece uma linha regular directa para portos ingleses.
1909 / 1910 - Regressa à propriedade do capitão Walter M. Mallet.
1910 / 1926 - O capitão aceita a proposta de aquisição do navio em favor da companhia Alaska Packer's Association, igualmente de São Francisco, pelo valor de 60.000 dólares. A barca mantém a bandeira Americana, porém altera o nome para "Star of Greenland".

" Star of Greenland " - foto de autor desconhecido

1926 / 1929 - O navio perde utilidade. Amarra em Alameda, São Francisco, onde aguarda a melhor proposta para venda.
1929 /1942 - Aparece como comprador interessado a Escola Náutica de Stiftelsen Abraham Rydberg, de Estocolmo, que adquire o navio por 19.000 dólares. Atravessa o Atlântico, muda o registo para a Suécia e é rebaptizado "Abraham Rydberg III". Para que a Escola Náutica possa suportar as despesas do serviço de instrução, o navio utiliza os instruendos para trabalhar a bordo, enquanto combina a utilização dos porões para o transporte de graneis sólidos, em viagens à volta do mundo.

" Abraham Rydberg III " - imagem de autor desconhecido

Durante este período por não ser normal, comenta-se uma viagem em Janeiro de 1930, de um transporte de carga a granel, com saída de São Francisco e chegada a Inglaterra 124 dias depois. No dia 10 de Maio de 1936, foi vitima de uma colisão com o vapor "Koranton", a cerca de 45 milhas a Sul de Eddystone. Do choque sofrido resultou que as chapas do casco por bombordo tivessem ficado muito danificadas, tal como o 2º mastro de vante (traquete) cuja substituição foi inevitável. Depois do acidente, o navio seguiu para o porto de Blyth, a fim de efectuar as necessárias reparações.

" Abraham Rydberg III " - notícia em revista inglesa de 1936

1942 / 1943 - Regressa aos Estados Unidos, outra vez ficando à espera de nova proposta de aquisição. Mantem-se durante meses amarrada no porto de Baltimore.
1943 / 1951 - Volta a cruzar o Atlântico, agora em viagem para Lisboa (apesar do nome, estamos em crer que o navio nunca entrou no rio Douro), chegando a 11 de Setembro. É agora propriedade do armador Júlio Ribeiro de Campos, faz registo na Capitania do Porto e começa a navegar com a bandeira Portuguesa, com o nome "Foz do Douro".

" Foz do Douro " - a navegar durante a II Grande Guerra Mundial
Imagem de autor desconhecido

Desde então passa a realizar viagens comerciais com destino ao Brasil, carregando algodão e carga diversa. Entretanto fica célebre a viagem com o Almirante Gago Coutinho, que embarcando no navio em Santos, a 21 de Dezembro de 1943, foi utilizado apenas um astrolábio quinhentista para navegar, na tentativa de recrear a viagem de Pedro Álvares Cabral. Terminada a viagem, o Almirante desembarcou em Leixões no dia 31 de Março de 1944.
Ainda no decorrer desse ano de 1944, o navio recebe grande reforma nos estaleiros americanos Kensington Shipyards, de Filadélfia, que incluem a instalação de 2 motores diesel, modelo 37E14 da Fairbanks, altura que procede à alteração da mastreação.

" Foz do Douro " - imagem (c) Foto Mar

1951 / 1956 - Completamente desactualizada para a época, o navio foi negociado e confirmada a compra pela Sociedade Industrial Ultramarina, de Lisboa, para quem efectuou algumas viagens. Apesar de ter sido projectada a completa modernização da embarcação, para operar comercialmente no Mediterrâneo, gorou-se essa possibilidade levando à paralização do navio no cais de Pedrouços, em Lisboa, onde amarrou por largos meses a aguardar destino.

A "Foz do Douro " - desenho de Luís Filipe Silva

1957 - Segue-se nova venda durante o mês de Fevereiro, mas desta feita para sucateiros italianos, em La Spezia, ponto final nas navegações dum navio absolutamente memorável.

5 comentários:

Rui Amaro disse...

Reimar aí vai uma pergunta para ti e para outros prezados Colegas.

Alguém me sabe dizer se a Foz do Douro, como navio-motor alguma vez escalou Port Wellington, Nova Zelândia. O fundamento da pergunta é que um Camone do SNostalgia, nas suas viagens pelo Extremo-Oriente, julga ter visto naquele porto, Julho de 1950, um antigo navio de velas de bandeira Portugiuesa, ao qual em tempos lhe foram instalados motores.
Ora navios de vela de grande porte, que sofreram conversão para navios-motor foram a Foz do Douro e o Nacala (ex galera Leyland Brothers). Muito provavelmente seria o navio-escola Sagres (II) (actual Rickmer Rickmers) ao qual lhe foram instalados motores e que nos seus cruzeiros de instrução é muito possível que tenha escalado aquele porto da Oceânia.
Já agora, do mesmo armador da Foz do Douro, o meu conterrâneo Júlio Ribeiro Campos, havia o lugre de seis mastros Cidade do Porto, 102m/3.102tb, ex Hans, ex Mary Dollar, Tango(barca de quatros mastros), Tango (Patacho de 6 mastros) e Cidade do Porto (lugre de 6 mastros), constou-me que veio da Durban para Lisboa a reboque de um vapor português, a fim de ser desmantelada para sucata. Alguém sabe o nome desse vapor e se alguém que tenha uma foto a possa anexar?
Muito obrigado e saudações navegantes.

neptuno disse...

Parabéns pelo seu excelente blogue.
Só uma pequena nota:O desenho é de Luis Filipe Silva e não de Robert Jackson.
Nem só no mar há pirataria.


Luis Filipe Silva

Manuel d'Oliveira Lima disse...

Caro Rui Amaro

Para complementar a informação que possui do veleiro, barca de 4 mastros, «FOZ DO DOURO», adquirido por Júlio Ribeiro Campos, natural da freguesia de Foz do Douro, Porto, industrial têxtil e Cônsul Honorário da Dinamarca, onde também tinha negócios, bem como em Inglaterra, Suécia, Bélgica, Guiné Bissau, Brasil, Estados Unidos da América e outros países. Também navegou para Port Wellington, na Nova Zelândia.
Digo isto com toda a clareza, dado ser filho de Natália Ribeiro Campos d'Oliveira Lima, irmã do armador do «FOZ DO DOURO», igualmente natural da Foz, onde também vivi, mas anteriormente, meus pais, eu e meus irmãos, meu tio Júlio Ribeiro Campos, a tia Rosário Gallis Campos e meus primos, vivemos vários anos na casa comum da Quinta do Brás-Oleiro, em Ermesinde, Porto, casa onde também passou as suas férias o Almirante Gago Coutinho, que se serviu da «FOZ DO DOURO» para a realização de estudo relacionado com as navegações portuguesas no séc. XV.
Na garagem de recolha dos vários automóveis da família, situada dentro da Quinta do Brás-Oleiro, foi reparado um dos motores do «FOZ DO DOURO», trabalho realizado pelo meu pai, ex-aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade do Porto, coadjuvado por alguns dos empregados da quinta. Meu pai era filho do Comendador Prof. Dr. José d'Oliveira Lima, professor catedrático de farmacologia e de cirurgia da Universidade do Porto, onde também foi reitor, foi ainda proprietário e fundador do Instituto Moderno, na Quinta da Bela Vista, S. Roque da Lameira, Porto, onde com projecto do arquitecto José Teixeira Lopes (filho e irmão dos conceituados escultores), mandou construir de raiz o palácio escolar, o ginásio (primeiros edifícios em betão armado no Porto), as instalações de apoio e internato, habitações dos professores, piscina, picadeiro de equitação, etc., tendo para esse empreendimento adquirido três quintas que juntou numa só. Posteriormente, o meu avô vendeu tudo ao estado que ali instalou a GNR, na actualidade a PSP. Quando os edifícios mandados construir pelo meu avô foral alvo de processo de classificação de interesse público forneci ao IGESPAR cópias de diversa documentação e um filme documentário da famosa INVICTA FILM, do Porto, realizado em 1916 sobre este estabelecimento de ensino.
Sou detentor de muita documentação e registos fotográficos sobre a «FOZ DO DOURO» em diversas ocasiões e situações, sobre o meu tio Júlio Ribeiro Campos e minha família na época, o Almirante Gago Coutinho a bordo daquela barca e em nossa casa.
Oportunamente, poderei colocar alguns para consulta livre.
Cordialmente
Manuel José Campos d'Oliveira Lima

Manuel d'Oliveira Lima disse...

Esclarecimento:
Entrada da barca «FOZ DO DOURO» no Rio Douro

Existe o desconhecimento de que a Barca «FOZ DO DOURO» alguma vez tenha entrado no porto do Rio Douro.
Para que conste, a «FOZ DO DOURO» fundeou pela primeira vez em Portugal, precisamente no Rio Douro, junto ao cais da extinta Companhia Arrozeira Mercantil, do lado de Vila Nova de Gaia, para aí ser pintada de negro e eliminada a denominação ABRAHAM RYDEBERG III, sendo pintada a branco a nova denominação «FOZ DO DOURO».
Entretanto, também esteve fundeado no rio douro em frente ao Cais do Bicalho, junto da Companhia Arrozeira Mercantil, Vila Nova de Gaia, também junto do Estaleiro do Ouro, no Porto.

Unknown disse...

Para Manuel d'Oliveira Lima
Boa noite
Sendo neta de Júlio Ribeiro Campos, portanto filha do Abel, gostei muito de ler as informações que acrescentou ao artigo da barca "Foz do Douro".
Meu nome é Maria Helena vivo no Porto (Foz) e caso seja possível, gostaria de poder ver a documentação e registos fotográficos que possui sobre a barca.
Felizmente herdei a maquete da "Foz do Douro" que estava no escritório do meu avô e alguns dos seus documentos pessoais.
Aguardo que me contacte para o mail para mhcampos@sapo.pt
Desde já agradeço a sua disponibilidade
Maria Helena Campos