sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Paquetes Portugueses - o " Serpa Pinto "


" Serpa Pinto "
O navio da amizade

Mais um dos navios notáveis da Companhia Colonial de Navegação, cuja passagem pelo país foi registada com as seguintes características :

Nº Oficial : G-407 > Iic: CSBA > Matrícula : Lisboa a 08.05.1940
Tonelagens : Tab 8.076,76 > Tal 4.957,63 > Peso morto : 5.412
Comp. : Ffora 142,47 m > Pp 137,20 m > Bc 17,61 m > Ptl 6,85 m
Máquina : 2:QE > 4 Cil > 6.000 Ihp > Vel. máx 15,5 serv. 14 m/h
Contrutor do motor : Workman, Clark & Co., Ltd., Belfast, Escócia
Acomodações para Cerca de 600 pax. com cerca de 160 tripulantes

O paquete " Serpa Pinto " - foto de autor desconhecido

O navio foi construído em Belfast, na Escócia, tendo sido baptizado " Ebro " entrando ao serviço da Mala Real Inglesa. Lançado ao mar em Setembro de 1914, era considerado navio de tonelagem média, ficando colocado numa linha regular entre a Inglaterra e as Ilhas Ocidentais Britânicas, nas Caraíbas.
Como se tratou de uma construção praticamente coincidente ao início do primeiro conflito mundial, só teve oportunidade de realizar a viagem inaugural, pois segue novamente para um estaleiro militar, após requisição do Almirantado Inglês, para actuar como cruzador auxiliar armado. Reaparece integrado no 10º Esquadrão de cruzadores, também conhecido por Força de Cruzadores B, em Abril de 1915, apresentando sinais de blindagem, armado com 8 canhões de 6 polegadas e diversas rampas para lançamento de cargas de profundidade, face à mais do que eminente ameaça submarina.
Manteve-se ao serviço da Marinha Inglesa durante 4 anos, operando em múltiplos teatros operacionais, tendo por missão principal manter as linhas de bloqueio naval no Mar do Norte, em conjunto com outros 41 navios de comércio transformados, com a mesma finalidade. A partir de meados de 1917, depois da introdução do sistema de comboios marítimos pelas nações aliadas, foi ainda responsável por um considerável número de escoltas.

Foto da tripulação a bordo do H.M.S." Ebro " - numa escala feliz no Rio de Janeiro
Foto de autor desconhecido

A seguir a muitas aventuras de guerra, terminado o conflito mundial, a Marinha Inglesa devolve o navio ao seu legítimo proprietário, a Mala Real Inglesa, que tendo dificuldade em enquadrar o navio na restante frota de paquetes, opta pela venda à Pacific Steam Navigation Co., que trata em estaleiro da respectiva reforma, sendo redireccionado para transporte de passageiros na rota entre Nova Iorque e o Chile, com escalas em portos do percurso, via Canal do Panamá.
E é já com as cores da P.S.N.C., que passa pela primeira vez no Canal, rumo a Sul, a 28.10.1919, mantendo com extrema regularidade o tráfego nesta rota, durante dez anos consecutivos.
Data de 14.11.1930, a última viagem pelo Canal, até ao porto de destino final em Nova Iorque.

O " Ebro " - postal da Mala Real Inglesa

A substituição do navio era inevitável. É por esse motivo desactivado ficando amarrado no rio Avon, em Inglaterra, durante os próximos 5 anos, até à compra em Fevereiro de 1935, pelo Lloyd Jugoslavo (Jugoslavensla LLoyd), que lhe muda o registo e rebaptiza com o nome de " Princesa Olga ", operando entre Dubrovnik e Haifa (na época Palestina, depois Israel).
Leva a cargo uma operação combinada de carga e passageiros, como aliás foi prática comum na companhia P.S.N.C., até à venda posterior em 1940, em antecipação à invasão dos países Balcãs pelas tropas Alemãs, viajando para Lisboa a caminho do registo nacional.

O " Princesa Olga " - postal da Companhia

Completando 18 anos de operação com viagens a todas as Colónias em África, a Administração da Colonial, apesar da Europa estar a ser varrida pela guerra e com o país a usufruir duma relativa imunidade por se manter neutro, decide em 1940 criar uma carreira com saídas de Lisboa para Santos, no Brasil. Essa linha vai privilegiar o largo movimento migratório da altura e funcionar como porta de saída da Europa aos emigrantes europeus, que se comprimiam desesperados por uma passagem segura, até ao continente Sul-Americano.
Mesmo assim o navio faz a sua viagem inaugural com destino a Moçambique, em Maio de 1940, contando 8 portos de escala intermediários, transportando mercadoria diversa e cerca de 260 passageiros.
Com a entrada na Itália no 2º conflito mundial, fica apenas a concorrência dos navios Espanhóis da Companhia Ybarra, de Sevilha, seguindo o " Serpa Pinto " de imediato para o Brasil, em Setembro de 1940, repetindo por mais 10 vezes a viagem redonda, com alguns intervalos, face à necessidade de escalar portos com destino nos Estados Unidos e outras tantas vezes, nos portos da África Ocidental. Na carreira para o Brasil, o navio efectuava viagens relativamente rápidas, com escalas na Ilha da Madeira, S. Vicente (Cabo Verde) e ainda no Rio de Janeiro.
A partir de Agosto de 1948 o aparelho propulsor, começa a acusar o natural sinal de desgaste, levando às necessárias reparações, que obrigaram à paralização do navio até Janeiro do ano seguinte. Trocado no tráfego do Brasil pelas novas e maiores unidades da Companhia, é colocado num serviço entre Lisboa e Havana, efectuando entre Agosto de 1953 e Junho de 1954, doze viagens redondas para a América Central, escalando Vigo, Funchal, Tenerife, La Guaira e Curaçao, nas Antilhas Holandesas. O dia 9 de Julho de 1954, marca a última viagem para Santos, antes do definitivo regresso a Lisboa, a 7 de Agosto do mesmo ano.
Contando 15 anos de actividade com a bandeira Portuguesa e tornando-se num mito de grande popularidade, pelos passageiros e pelas pessoas em geral dos países visitados, sai de Lisboa cansado, a reboque, vazio e silencioso, com destino a Antuérpia, desaparecendo a pouco e pouco, através do implacável maçarico dos demolidores de navios.

O " Serpa Pinto " - postal da Companhia

10 comentários:

A VER NAVIOS disse...

Mas que riqueza de história e de conhecimentos.

Maria Navarro disse...

Gostaria de saber quantas viagens Lisboa-Brasil foram feitas pelo paquete Serpa Pinto, entre 1940 e 1945. Alguém me pode dar essa informação?

Tovar disse...

Que bela historia revivida com muito carinho,pois muitas "historias" me lembro o meu bisavo contar sobre as peripecias e viagens do Serpa Pinto.
Ele é "apenas" o ultimo sobrevivente desse navio!!!
Que orgulho!!

Um bem haja a todos....

Oliveira disse...

Minha familia veio para Brasil de Portugal, aqui chegando em 7 de setembro de 1952. Lembro que foi dificil a viagem pois vomitei toda viagem, tinha então 4 anos de idade.
Parece que não consta esta viagem neste texto.

Maria Lucia Ferreira Coutinho disse...

Gostaria de saber se há nomes do pessoal que viajou neste paquete na década de 20 do século passado e se posso sabê-los.

paulo disse...

gostava que me esclarecem-se.vim em 76 de Moçambique num navio chamado "serpa pinto",já era contentorizado,e não consigo descobrir informação nenhuma desse navio.sei que se chamava serpa pinto,vez a viajem de beira p lisboa no ano de 1976.agradeço informaçoes,obrigado

Celso disse...

Meus pais vieram para o Brasil com minha irmã, então com 4 anos, a bordo do Serpa Pinto no ano de 1952. Ao ler o comentário postado pelo Oliveira, fico a imaginar se eles não viajaram juntos na mesma ocasião de Lisboa para o Rio.

lucinha disse...

fiquei emocionada com estas fotos do Serpa Pinto foi nesse navio que viajei , de Portugal para o Brasi com meu irmão Anthony, e tinhamos 10 anos de idade isto em 1948 Embarcamos em lisboa e desembarcamos no Rio de janeiro no dia 17 de Maio de 1948 . essa viagem foi Muito marcante pra mim
Lucy mary ferreira

Rui disse...

Era considerado o Navio da Saudade. Ronceiro, como todos os navios da sua época, deixou bem marcada a sua passagem pelos tantos mares navegados. Foi nele que viajei para o Rio em 15 de Dezembro de 1950. Regressei a Portugal,dando-lhe preferencia, no mesmo camarote e na mesma mesa, em 51. O convívio era optimo. Que boas amizades,nos proporcionava aquele " velhote ",nos dias passados no bar do Salão Nobre e os bailaricos no Deck ao som de uma orquestra simpática, nas noites quentes dos trópicos. Lembro-me dessa mesma orquestra, tocar durante o jantar, música de salão, também acompanhada de um suave balancear de um mar de azeite, como se dizia...! Hoje, tudo é diferente, talvez para melhor, mas nem tudo...!

dani ela disse...

Bom dia,

Eu ando a pesquisar pois o meu avô( Joaquim Caetano ) trabalhou no Serpa Pinto, embarcou a 2-9-54 e desembarcou em Lisboa a 5-6-55. Infelizmente o meu avô faleceu antes de eu nascer e a minha mãe não sabe muito sobre este assunto.Gostava de poder encontrar alguém que o tivesse conhecido e me contasse algumas coisas sobre ele e sobre estas histórias maravilhosas.
Atentamente,
Marisa