terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Piadas de mau gosto - o naufrágio do " Reijin "


Piadas de mau gosto ;
Compre um Toyota, ganhe uma lagosta

Esta foi curiosamente a piada de mau gosto, que correu a cidade aquando do naufrágio do navio transporte de automóveis " Reijin ", próximo à barra do rio Douro, na praia da Madalena, em 26 de Abril de 1988. Simultaneamente os jornalistas classificariam o navio de "Titanic" dos carros, certamente pelas semelhanças nas circunstâncias dos acidentes, o que prova da extraordinária capacidade imaginativa dos repórteres, que na ocasião assinaram as reportagens.

Disseram-me em determinado momento, que o navio é como um filho, pois dificilmente se saberá o que vai ser dele, sem que previamente ele dê provas do que é capaz, a justificar as esperanças nele depositadas. Para isso é preciso acarinhá-lo, conhece-lo e verificar se responde ao que dele se espera. Quantas e quantas vezes um puxão de orelhas, quer dizer, um botão trocado, ou uma válvula errada, desencadeia situações, que no limite levam a consequências absolutamente imprevisíveis.

O navio - (IMO Nº 8708842)

O "Reijin" à chegada a Leixões - imagem (c) Fotomar

Nome : "Reijin" > Registo : Panamá > Nacionalidade : Panamiana
Construtor : Estaleiro Shin Kurushima, Onishi, Japão
Armador : Nippon Yusen Kaisha (ou apenas N.Y.K.), Tóquio, Japão
Equipagem : 22 trip. Sul-Coreanos > Capitão : Chang Dong Pak
Tonelagens: Tab : 58.128 to > Peso morto : 17.469 to
Comprimentos Ff : 199,5 mts > Pp : 190 mts > Boca : 32,3 mts

Que o navio tenha sido privilegiado com requinte às exigências técnicas de fabrico em curso no Japão, ninguém tem dúvidas. Acreditamos inclusive que estivesse munido com o melhor equipamento possível e disponível na época. Computadores localizados, prontos a dar resposta rápida e adequada às situações, pessoal supostamente treinado e preparado para as missões a cumprir, enfim perfeito. Acabou por falhar quando foi necessário proceder à reposição de lastro nos tanques respectivos, manobra essencial para contribuir na segurança do próprio navio.

O "Reijin" adorna na abertura de portas - imagem (c) Fotomar

O que é que pode levar um navio em águas planas, tais como a das instalações portuárias a criar pontos de instabilidade, como se observa na imagem, com um simples abrir de portas ?
Atende duas respostas, levando em linha de conta que a construção era muito recente, ou seja com 1 a 2 meses (fabrico Nº 2535, com data de Março de 1988), como segue :

1º A avaria no sistema de deslastragem, por deficiência de fabrico, considerando tratar-se de uma viagem inaugural, mas somos levar a pensar que o navio fez testes e provas de mar, sendo libertado através da conclusão de ter tudo a funcionar, conforme as regras internacionais ;
2º Os tanques terem sido castigados com excesso de lastro, levando à existência duma toalha de água, de difícil observação sob a 1º coberta, devido a erro humano, por má interpretação da operação correspondente.
Como acontece habitualmente neste tipo de transporte, a 1ª mercadoria a ser descarregada, deverá ser a última a ser carregada, no convés superior, para isso mantendo sempre livre o acesso às rampas entre cobertas, evitando-se desta forma oscilações em termos de estabilidade.

O "Reijin" deitado no seu leito de morte - imagem (c) Fotomar

Chegado a Leixões após viagem directa desde Nagóia, no Japão, o navio descarregou 334 carros, dum total de 5.770 automóveis que se encontravam a bordo. À saída para Vigo, porto definido como escala seguinte e à entrada em mar aberto, sujeito à ondulação, o navio adorna agora por bombordo, ficando desgovernado e incapacitado de recuperar o rumo e o reposicionamento.
Pela demora do Capitão a pedir auxílio às Autoridades e colocado lateralmente contra o vento, a imensa parede funciona como um pano vélico, levando o navio à costa, para cair sobre as pedras da praia, que lhe provocam rombos e o adorno final sobre bombordo, face à exígua quantidade de água onde se encontra.


O navio foi por isso considerado perda total, bem como os 5.436 veículos embarcados. Antes de terem levado a efeito o desmantelamento do navio, todos os automóveis foram descarregados por uma grua flutuante, amarrada lado a lado com o navio, directamente para batelões, sendo depois transportadas as carcaças para uma área a 40 milhas do local, onde hoje jaz o maior e único sucateiro do mundo, completamente submerso.

2 comentários:

Lauda disse...

Lembro me perfeitamente deste acidente mesmo em frente á casa da minha irmã e na altura passei la imenso tempo e acompanhei 1 grande parte dos trabalhos de remoção deste gigantesco navio e creio na altura ser mesmo o maior do mundo na categoria RO-RO.
Pena não conseguir encontrar mais material na internet ácerca deste naufragio talvez por ser 1 notícia ja com 20 anos.
No entanto kem encontrar mais material acerca do Reijin pode me informar através do meu mail: felichella@clix.pt.
Obrigada

Isabel disse...

Se me lembro! Estive directamente envolvida neste caso por ser agente do armador/navio. Foi um período terrível em trabalho e stress, muita emoção à mistura. O que me trouxe de muito bom foram as amizades que desde então mantenho com representantes dos armadores, já lá vão quase 22 anos.
Só quem esteve tão de perto com este triste caso é que pode sentir na alma toda a tragédia que envolveu tanta gente na altura.