domingo, 21 de fevereiro de 2021

Divulgação


Conferência virtual sobre "A vida e obra do Vice-Almirante
Avelino Teixeira da Mota, com destaque para o seu relacionamento
com a Sociedade de Geografia


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Emigração açoriana para o Brasil (III)


O naufrágio do vapor brasileiro “Lidador”
 
Protesto completo de naufrágio ocorrido na baía de Angra do Heroísmo, na forma processual típica e acostumada de narrar oficialmente o acontecimento.
Termo de protesto a fls. 156 do livro respectivo, por naufrágio, que faz Augusto Borges Cabral, capitão do vapor brasileiro “Lidador”, o qual se acha encalhado junto ao cais da Figueirinha, no porto desta cidade, desde ontem, 8 de Fevereiro de 1878.
António Menezes Pamplona, fidalgo d’antiga linhagem, comendador da Real Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo em Portugal, e Vice-cônsul do Império do Brasil na Ilha Terceira, declara que:
Por este público instrumento de Protesto se faz saber a todos que o presente virem, que perante mim, pessoalmente, compareceram neste Vice-consulado do Império do Brasil, Augusto Borges Cabral, capitão do vapor brasileiro “Lidador”; João Vieira de Faria, imediato; Luís Machado Brasil, piloto; Alexandre Henderson, chefe engenheiro; William Jones, segundo engenheiro; James Smith, terceiro engenheiro; Teófilo Atanásio de Sequeira Pereira, facultativo (i.e. médico); Maximino Dias Rego, comissário; João Raulino de Medeiros, contra-mestre; João Jacinto da Luz, carpinteiro; António Rodrigues Bexiga, despenseiro; e os marinheiros António da Rosa; António José Fernandes; Manoel José de Oliveira; António Luís de Sousa; e Francisco da Cunha, declarando sob juramento que ontem, dia sete do corrente mês de Fevereiro, achando-se o referido vapor brasileiro “Lidador”, de oitocentas e noventa e duas toneladas, do porto do Rio de Janeiro, propriedade da Companhia de Navegação Transatlântica, no ancoradouro da baía desta cidade, desde as 8 horas da manhã do dia antecedente, no lugar indicado pelo prático do porto, com o fim de receber passageiros e carga desta ilha para o porto do Rio de Janeiro, com escala pela ilha de São Miguel, tendo chegado procedente da ilha do Faial, onde já embarcara oitenta e sete passageiros, que estavam a bordo, e tendo também já recebido neste porto e no dia anterior mantimentos e parte da carga e das bagagens dos passageiros desta ilha, durante todo esse dia e parte da noite o tempo se conservou sereno e o mar bonançoso.
Da meia-noite para a uma hora o vento começou a soprar de S.S.O. (Su-sudoeste) e às quatro horas da manhã principiou a crescer; e quando amanheceu, conheceu o primeiro abaixo assinado que prometia conservar-se com a mesma violência, pelo que conhecedor das circunstâncias do porto, muito desabrigado contra o vento que soprava, depois de reunidos os seus oficiais lhes comunicou a resolução de levantar âncora e seguir para o mar, e de lá esperar que o tempo melhorasse para depois regressar ao porto.
Foi por todos deliberado que assim se praticasse pelo risco que corria o navio, demorando-se no ancoradouro. Neste sentido se deram as primeiras ordens, e quando se achavam já recolhidas umas quinze braças de corrente, pouco mais ou menos, o navio atravessou receando-se que pudesse descair sobre a ponta denominada «O Castelinho», pela pouca distância a que se achava. Por esse motivo ordenou imediatamente seguir avante e tentar aproar o vapor ao vento para sair da baía. Nesta ocasião, porém, o vento e o mar cresceram com tal violência, por acção das vagas que dominaram o navio, pelo que este foi impelido com toda a força sobre a ponta mencionada, e apesar de ter a máquina a toda a força, correu até à rebentação do mar, encalhando num recife próximo aquela ponta, mandando largar por mão a corrente e continuando a dar-se a máquina a toda a força. Assim, pode afinal ser conseguido aproar ao vento e sair para fora da baía, valendo a todos a prontidão com que o navio seguia, porque se no mesmo ponto o assaltasse uma outra vaga, a perda do navio e vidas era imediata e inevitável, pela impossibilidade de serem prestados quaisquer socorros.
Seguindo o navio, o abaixo assinado capitão já esperançado de poder conservar-se no mar alto até serenar o tempo, foi-lhe participado pelo primeiro maquinista que sabendo haver água na casa da máquina, apesar de não a ter encontrado à saída do porto, deitara a trabalhar todas as bombas para a esgotar, como é costume, mas passados poucos minutos voltou de novo o mesmo maquinista a avisar o capitão que as bombas não davam vencimento, continuando por aquele modo a crescer a água, que já chegava às chapas do quarto do fogo, não se responsabilizando por poder manter a máquina a trabalhar por mais de quinze minutos.
Em vista desta declaração, ouvidos todos os oficiais e atendendo-se ao perigo imediato para o navio e vidas, pois era de recear-se que o navio submergisse, deliberaram todos os oficiais, engenheiros e principais da tripulação aproar imediatamente a terra e demandar a baía. Para este efeito foi necessário largar algum pano, e passados alguns minutos efectivamente parou de todo a máquina, seguindo o navio apenas com o pano que trazia largo e que era uma polaca, um bolso de latino e velacho amurado por bombordo, por ter o vento levado toda a parte de estibordo.
Logo que se entrou na baía fez-se sinal de socorro para terra e aproveitando-se o impulso do vento e a boa posição a que se achava o navio, foi possível conseguir procurar o melhor lugar para fundear, escolhendo-se para esse efeito o ponto da baía mais próximo do cais denominado a «Figueirinha», único ponto da costa donde podia tentar-se o salvamento dos passageiros e tripulantes. Viu-se pouco depois que sem dúvida conhecidos de terra a necessidade dos socorros reclamados, se empregaram apesar da grande dificuldade, com que tinham de lutar todos os meios próprios de salvação, tendo sido conseguido transportar-se a terra todos os passageiros e tripulantes.
Às seis horas da tarde achava-se o navio completamente cheio de água, pelo que ele, comandante, me pediu lhe tomasse este protesto contra o mar e vento, ou contra quem de direito seja, declarando que todos os prejuízos resultantes do naufrágio do dito navio, sua carga e bagagens de passageiros, e quaisquer outros daqui emergentes, devem ser por conta dos interessados do dito navio e carga, ou seguradores, pelos meios legais e segundo os princípios de direito aplicado, tendo acontecido o referido naufrágio como antes mencionado, e não porque o navio se achasse em mau estado quando saiu do porto, obrigado pela força maior do vento e mar, ou por negligência dele ou da tripulação.
Em consequência dos ditos acontecimentos os comparecentes requereram um Auto que servisse para eles e todos os interessados, onde e quando fôr necessário, e por isso em virtude do seu requerimento, lhes ratifiquei o presente protesto, que o comandante e todos os mais acima mencionados assinam comigo, indo assim deferido o requerimento apresentado pelo comandante e que é do seguinte teor:
Excelentíssimo Senhor, – Diz Augusto Borges Cabral, casado, de profissão marítimo, que na qualidade de comandante do vapor “Lidador”, brasileiro, actualmente encalhado na baía desta cidade, que no dia de ontem, sete do corrente mês, pelas 11 horas da manhã, lançou âncora neste porto, por ter reconhecido a impossibilidade de sustentar-se no mar alto, para onde se dirigiu, para evitar o temporal que se levantara, em consequência da água que abrira no navio, como tudo detalhadamente consta no relatório ou protesto lavrado pelo suplicante, com os oficiais e principais da tripulação, em que se narram as circunstâncias ocorridas no sinistro.
O navio está seguro na companhia Lloyd´s de Inglaterra (não juntando o suplicante a respectiva apólice por se achar em poder da direcção da companhia a que pertence o vapor).
Pede a Vossa Excelência, Excelentíssimo Senhor Vice-cônsul do Império do Brasil neste distrito, se sirva para todos os efeitos legais aceitar ao suplicante o seu relatório ou protesto, que acompanha o processo à sua rectificação, tomando-se-lhe termo desta apresentação, e de protesto que faz contra quem de direito fôr por todos os riscos, avarias e deteriorações do referido navio e sua carga; procedendo-se ao inquérito das testemunhas infra nomeadas, julgando-se por sentença e protesto, procedendo-se igualmente com a maior urgência à vistoria no referido navio, a fim de ser reconhecido o seu estado. (a) Augusto Borges Cabral
Testemunhas: João Vieira de Faria, imediato; Luiz Machado Brasil, piloto; Alexander Henderson, primeiro-engenheiro; William Jones, segundo-engenheiro; James Thom Smith, terceiro-engenheiro; Teophile A. de Sequeira e Pereira, facultativo; Maximino Dias Rego, comissário; João Ralino de Medeiros, contra-mestre; António Rodrigues Bexiga, despenseiro; António da Rocha, António José Fernandes, Manoel José de Oliveira, António Luiz de Souza, e francisco José da Cunha, estes últimos marinheiros.
Em fé dos testemunhos, fiz lavrar o presente termo de protesto, que aceito e ratifico, depois de ser confirmada a verdade de tudo relatado sob juramento de todos os signatários.
Vice-Consulado do Império do Brasil na Ilha Terceira, às onze horas da manhã do dia oito do mês de Fevereiro do Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e setenta e oito. Eu, António Mendonça Menezes Pamplona, Agente Comercial do mesmo Império o escrevi e assino.

Quadro com desenho do vapor "Lidador"
realizado por autor não identificado

Características do vapor “Lidador”
1873-1878
Armador: Companhia Transatlântica, Rio de Janeiro
Construtor: Walker Shipyard, Londres, Março de 1873
Arqueação: Tab 1.397,00 tons - Tal 1.208,00 tons
Dimensões: Pp 78,77 mts - Boca 9,45 mts - Pontal 6,86 mts
Capitão embarcado em 1877: G. de Castro

Auto de vistoria ao vapor brasileiro “Lidador”
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e setenta e oito, aos oito dias do mês de Fevereiro, sendo nesta cidade de Angra do Heroísmo, e no Vice-Consulado do Império do Brasil, nesta Ilha Terceira, perante o Vice-cônsul, do mesmo Império, António de Mendonça Menezes Pamplona, servindo de Chanceller, compareceram João Read, na qualidade de Agente da Companhia de Seguros Lloyd´s, e bem assim os peritos nomeados para a vistoria do navio, Manoel Alves de Bettencourt, João de Deus Severino, William Varael, e Alexandre Philips, todos capitães de navios, e Germano Augusto da Silva, Capitão do Porto desta cidade, aos quais o dito Vice-cônsul deferiu juramento, para que debaixo examinassem o vapor “Lidador”, que se acha encalhado junto ao cais da Figueirinha, nesta mesma cidade, e dessem o seu parecer sobre o estado de navegabilidade do navio, circunstâncias a que deva atender-se na possibilidade de reparação neste porto, e tudo o mais que depois de realizado o exame e com são consciência acharem digno de notar-se em ordem a conhecer-se o estado do navio.
Sendo pelos peritos aceite o dito juramento, e passando a bordo do referido vapor, vieram depois declarar o seguinte:
Que pela observação feita ao estado do navio, o achavam em completo estado de inavegabilidade, pois se acha encalhado e cheio de água, faltando absolutamente neste porto os meios e recursos indispensáveis para o fazer reparar e flutuar. Mais declararam os mesmos peritos que, considerando o navio totalmente perdido, a sua opinião é que se empreguem todos os meios para salvar o que fôr ainda possível a benefício de quem pertencer. Finalmente, que eram também de opinião que fossem passadas duas correntes à popa do navio, a fim da ressaca não o afastar mais da costa inutilizando o porto.
Neste acto foi também requerido pelo comandante do navio ao Vice-cônsul, se servisse apresentar aos peritos os seguintes quesitos, que entende da sua responsabilidade propôr:
Primeiro:- Se em vista das circunstâncias enunciadas no seu relatório, a arribada a este porto, depois de ter levantado ferros para evitar o perigo de permanecer no ancoradouro, era ou não indispensável para salvação do casco, carga e vidas?
Segundo:- Se em vista do mesmo relatório o naufrágio do vapor do seu comando, pode ser imputado por falta ou negligência sua, ou dos seus tripulantes?
Pelos peritos foi unanimemente respondido, que reconhecendo a necessidade que teve o comandante de levantar do seu ancoradouro, para evitar o perigo que ali corria, em consequência das condições do porto e do tempo, a arribada era indispensável para a salvação do casco, carga e vidas. E ao segundo responderam, que o sinistro foi devido a força maior e não à culpa ou negligência do comandante, ou tripulantes.
E não havendo mais que tratar sobre o objecto desta vistoria, dá-se este Auto por findo, que depois de lido e por todos ratificado, o assinam o respectivo Vice-cônsul, António de Mendonça Menezes Pamplona; o Agente do Seguro da Companhia Lloyd´s e Vice-cônsul Inglês João Read; o Capitão do Porto, capitão-tenente Germano Augusto da Silva; e peritos Manoel Alves de Bettencourt, Alexandre Phillips e William Farwell, capitão do “Zeburia”.
O documento foi selado com o selo das Armas Imperiais do Brasil.

Termo de Abandono
Aos onze dias do mês de Fevereiro de mil oitocentos e setenta e oito, no Vice-Consulado do Império do Brasil na Ilha Terceira, e perante mim António de Mendonça Menezes Pamplona, Vice-cônsul do mesmo Império e as testemunhas abaixo nomeadas, compareceu Augusto Borges Cabral, súbdito brasileiro, de quarenta e quatro anos de idade, comandante do vapor brasileiro “Lidador”, propriedade da Companhia de Navegação Transatlântica, com sede no Rio de Janeiro, e matriculado no porto da mesma Corte, de oitocentas e noventa e duas toneladas brasileiras; por ele me foi declarado, que tendo no dia sete do corrente mês levantado do ancoradouro do porto desta cidade, para evitar o perigo que ali corria o navio do seu comando, em consequência do mau tempo, que se levantara, fôra obrigado, pouco depois, a demandar o mesmo porto e ancoradouro, por reconhecer que o navio abrira água, correndo o risco de submergir-se, para tentar salvar pelo menos as vidas dos passageiros e tripulantes, e que tendo conseguido felizmente voltar ao ancoradouro, todavia o navio se achava em tal estado, que depois, em poucas horas, se enchera de água, tendo apenas podido salvar a muito custo a vida das pessoas embarcadas.
Pelo que após lavrado o seu ratificado protesto, perante este Vice-Consulado nos termos da lei, no dia oito do corrente mês, e efectuado nesse mesmo dia um exame e vistoria por peritos nomeados por este Vice-Consulado, prestado por eles o devido juramento, com a assistência do Capitão do Porto desta cidade, autoridade marítima e do Vice-cônsul Inglês João Read, que é também o Agente da Companhia de Seguros Lloyd´s nesta localidade, declararam os mesmos peritos unanimemente que o navio se achava em completo estado de inavegabilidade.
Sem embargo do que ele comandante com a assistência deste Vice-Consulado, reclamou do Director da Alfândega desta cidade, autoridade também competente para a verificação de sinistros marítimos nesta localidade, que por esta Repartição da Alfândega procedessem também à vistoria e exame, a fim de se reconhecer o estado do navio, entretanto concretizado, resultando de tais exames e vistorias a impossibilidade do sobredito vapor poder sair deste porto, pelo que com base nestes fundamentos e havendo já empregadas as diligências legais, segundo o direito comercial marítimo e as leis vigentes portuguesas e brasileiras, tendentes a assegurar os direitos dos respectivos interessados, forçado pelas circunstâncias particulares em que se acha e da maneira mais solene e conforme as ditas leis, faz abandono do referido vapor “Lidador”, para o efeito do navio e seus salvados serem vendidos em hasta pública, com os direitos legais por conta e risco de quem pertencer.
Assim o declarou o comandante e em fé do testemunhado se lavrou o presente Auto, que vai ser selado com o selo deste Vice-Consulado, sendo testemunhas presentes os negociantes António Gil, casado, e Ernesto da Rocha Ferreira, solteiro, que todos assinam depois de lido e ratificado comigo, António de Mendonça Menezes Pamplona.
O documento foi selado com o selo das Armas Imperiais do Brasil.
Martins, Francisco Ernesto de Oliveira, Dos Açores e do Brasil, nos 500 anos, pp. 105-112, SerSilito – Empresa Gráfica, Lda., Maia, ISBN 972-96922-2-x

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Divulgação


SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA
Conferência do Seminário do Mar (Modo virtual)
A Nova Economia Azul e a Governança do Espaço Marítimo:
De Portugal ao Atlântico Tropical

sábado, 9 de janeiro de 2021

Emigração açoriana para o Brasil


Da leitura do texto publicado anteriormente ressalta a informação de navios naufragados, devido às más condições de tempo e mar revolto, nas ilhas do grupo central açoriano, que seguidamente se relatam para resgate da memória histórica, relacionados com o intenso movimento marítimo dessa época, e ainda em função do importante tráfego de passageiros e comércio existente no arquipélago.
Termo de protesto do naufrágio da barca brasileira “Providência”, de 279 toneladas, do porto do Rio de Janeiro, sendo capitão e proprietário João Lopes da Costa, ocorrido no porto de Angra do Heroísmo, em 15 de Novembro de 1851, e conta da venda dos salvados da dita barca.
Conforme consta deste protesto por virtude do temporal que originou este naufrágio, sabe-se que naufragaram no porto de Angra do Heroísmo no dia deste sinistro e nos anteriores, além da dita barca “Providência”, mais 7 navios de nacionalidade inglesa.
(Termo de protesto e conta exarada a fls.31 e seguintes
do livro de «Registo dos diferentes actos praticados no
Vice-Consulado do Império do Brasil na ilha Terceira»).
Por este público instrumento de protesto se faz saber a todos que o presente virem, que perante mim, pessoalmente, compareceram neste Vice-Consulado do Império do Brasil na ilha Terceira, João Lopes da Costa, capitão e proprietário da barca brasileira “Providência”, de duzentas e setenta e nove toneladas, conforme o registo Nº 1641, procedente do Rio de Janeiro por Pernambuco e ilha de S. Miguel, e bem assim o primeiro piloto da dita barca e os respectivos marinheiros, todos abaixo assinados, os quais declararam ter o navio entrado no porto de Angra de Heroísmo em 14 de Setembro do corrente ano, com carga de géneros do Brasil, em cujo dia foi a mencionada barca ancorada como é costume neste dito porto, por ordem do Patrão-mor, com quatro amarras de ferro e ferros correspondentes, onde procedeu à descarga até ao dia 22 do mesmo mês de Setembro, ocasião em que foi visitada pela Repartição da Alfândega; e como a mencionada barca “Providência” estivesse destinada a regressar ao Rio de Janeiro, com passageiros colonos, tornou-se por isso indispensável ter pelo menos dois meses de demora, fundeada no porto, para a prontificação de mantimentos e aprestos necessários, passaportes de passageiros, etc.
Acrescentou o sobredito capitão haver solicitado ao Capitão do Porto desta cidade de Angra do Heroísmo, mandar-lhe um prático do serviço do porto, para novamente ancorar o navio em ancoradouro onde ficasse menos exposto à força do mar e ventos, que costumam reinar nesta estação, o que efectivamente se verificou sem inconveniente, até ao dia 28 de Outubro do corrente ano, em que aparecendo a atmosfera carregada, mandara reforçar a amarração de proa da barca com mais uma amarra de ferro, ficando desta forma muito bem ancorada com três boas amarras de ferro e ferros pela proa, e dois pela popa; não obstante, principiando no dia 5 do corrente mês de Novembro a refrescar com ventos de Leste e Sueste, que se mantiveram pelo espaço de 10 dias, e de dia em dia aumentando de velocidade, com o mar cada vez mais agitado e encapelado, ficando os navios incomunicaveis de terra para o mar e deste para terra; aconteceu que no dia 14 deste mês de Novembro, crescendo fortemente o temporal, deu este motivo ao funesto acontecimento de se verem naufragar três chalupas inglesas, denomidadas “Pearl”, “Speedy” e “Adelaide”, salvando-se a maior parte das suas tripulações e de outras embarcações inglesas que haviam abandonado os seus navios, permanecendo a bordo da mencionada barca “Providência”, até às 9 horas da manhã do dia 15, porque tendo sido reconhecido o eminente perigo de vida das pessoas que estavam a bordo, por razão de haverem rebentado na noite de 14 as duas amarras de ferro da popa, devido à escuna inglesa “Susan”, que garrando-lhe as suas âncoras, foi aguentar-se aos ferros das correntes da popa da “Providência”, partindo-as, pelo que veio a naufragar à meia-noite desse dia; e em seguida, já na madrugada do dia 15, às 3 horas da manhã naufragou a escuna inglesa “Miranda”.
À vista de tão tristíssimos incidentes, foi forçoso e de extrema necessidade lançar-se mão do feliz meio de se salvarem as vidas das muitas pessoas, que se achavam a bordo da “Providência”, sendo sete tripulantes da referida barca, e quatorze ingleses pertencentes às tripulações das chalupas naufragadas na véspera; conseguido o fim de se salvarem as vidas de todos à referida hora, realizado por meio dos cabos que se passaram de um dos mastros para a muralha do Castelo de S. João Baptista, no Monte Brasil, assim como a mais 16 ingleses, que à vista daquele benéfico socorro se passaram dos seus navios a ameaçar naufrágio, para bordo da “Providência”, o que felizmente conseguiram, cerca das 10 horas da manhã, continuando ainda à mesma hora fundeadas na baía do porto seis embarcações inglesas abandonadas, a barca “Providência” e o patacho português “Respeito”, unico navio que conservou a bordo, não só parte da tripulação, como a de três navios ingleses; todavia, sendo meio-dia, deitou o mesmo patacho bandeira a pedir socorro para terra, para que fosse salva a vida das pessoas embarcadas, o que foi conseguido por meio dos cabos de salvação, ficando igualmente abandonado.
Sensívelmente à mesma hora naufragaram mais duas escunas inglesas, das seis que permaneciam ancoradas às 9 horas da manhã; a “Spratley” e a “Ellen-Tane”. À 1 hora e meia da tarde foi visto de terra, haver-se rebentado uma das amarras da proa da barca “Providência”, perdendo de seguida o leme, ao colidir com a cortina do Monte Brasil, e próximo das 2 horas, o cadaste da popa ameaçava dentro em pouco ficar destruido, presumindo-se acharem-se os mastros seguros pelas amarras, tal como estavam antes de se dar o naufrágio.
Por este sinistro protesta o capitão e proprietário contra quem direito tiver, podendo ratificar o protesto, onde e perante qualquer autoridade se necessário, para que possa haver dos seguradores a importância respectiva. Em consequência do dito acontecimento, os comparecentes requereram um Auto, que servisse para eles e outros interessados, onde e quando seja necessário; por isso em virtude do seu requerimento lhes tomei o protesto, que ele capitão e todos comigo assinaram, em Angra do Heroísmo - Ilha Terceira, 17 de Novembro de 1851.
Conta da venda dos salvados da barca brasileira
“Providência”, capitão e proprietário João Lopes da
Costa, naufragada na baía do porto de Angra do
Heroísmo, ilha Terceira, no dia 15 de Novembro de
1851, e arrematados em hasta pública na Alfândega
da mesma cidade no dia 27 do dito mês.
Lote 1º - Resto do casco, mastros, vergas, pano, três correntes e duas ancoras, e todos os mais fragmentos pertencentes ao navio, avaliados em 480 mil reis. Foi arrematado por Júlio Teófilo de Noronha por 513 mil reis.
Lote 2º - Uma porção de madeira salva no Porto-novo avaliada em 50 mil reis. Foi arrematada por João Lopes da Costa por 80 mil reis.
Lote 3º - Mastro da gata, dois cadernais, uma jarra vazia, uma pequena porção de cabos e outra de cobre, e madeira no cais, avaliada em 20 mil reis. Foi arrematado por António Carlos Xilberg, por 25 mil e cem reis.
Da venda dos salvados resultou um produto liquido orçado em quinhentos e dezasseis mil, cento e cinquenta reis, entregues ao capitão e proprietário da barca, sr. João Lopes da Costa. Angra do Heroísmo, 2 de Dezembro de 1851
Fonte consultada
Martins, Francisco Ernesto de Oliveira, Dos Açores e do Brasil, nos 500 anos, pp. 95/98, SerSilito – Empresa Gráfica, Lda., Maia, ISBN 972-96922-2-x

Também por força do temporal verificado nas ilhas do grupo central, registaram-se igualmente no dia 14, o naufrágio do iate brasileiro “Amizade”, sendo que a tripulação estava em terra, e no dia 15, deu-se o encalhe e subsequente destruição do brigue português “Cruz”, ambos os sinistros ocorridos na ilha do Faial.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Emigração açoriana para o Brasil


Movimento de navios portugueses e brasileiros com destino ou procedentes do Brasil, de que há notícia no porto de Angra do Heroísmo, até ao naufrágio do vapor “Lidador”. 

O êxodo descontrolado de emigração para o Brasil, provocou junto das autoridades locais um violento mal estar, como segue:
«O Administrador Geral do Distrito de Angra do Heroísmo, faz público o que seguinte:
Tendo-se tornado um objecto grave, e da mais séria ponderação, o extraordinário embarque dos moradores desta ilha, e das de S. Jorge e Graciosa para o Império do Brasil, tal como o que ultimamente se realizou a bordo do bergantim brasileiro “Nova Sociedade”:
E tendo mostrado a experiência que não há conselhos que tendo asas de força para demoverem qualquer pessoa do intento uma vez formado de ir visitar as praias do novo mundo; pois que nem os incómodos e perigos duma viagem longa, nem o receio da privação da liberdade, nem a apreensão duma sorte desgraçada, nem a perda da Pátria, nem a separação da família, dos parentes e dos amigos, nem os rigores dum clima abrasador – nada pode desvanecer as ilusões de fortuna e de bens sem conta que a imaginação mais exaltada oferece em perspectiva aqueles infelizes...
E sendo do dever dos Magistrados Administrativos considerar com o maior escrúpulo e circunspecção tudo quanto directa ou indirectamente pode diminuir a população, prejudicar a agricultura, as artes, o comércio, atenuar as rendas do Estado, e tornar mais pesados e onerosos os encargos públicos – inconvenientes estes que além de outros se verificam na funestíssima Emigração Açoriana:
Por todos estes motivos, e outros, consultou o Governo de Sua Majestade, pedindo instruções, as mais terminantes, sobre um assunto tão melindroso, a fim de proceder a semelhante respeito com toda a segurança, e bons termos – decidido a negar passaportes para o referido Império do Brasil, enquanto não baixarem a esta Administração Geral as solicitadas instruções.
E para que a todos os moradores do Distrito de Angra do Heroísmo, ou a quem convier, conste que não se dão passaportes para o Brasil até serem recebidas as ordens de Sua Majestade a Rainha – se mandou fazer este Alvará, que será publicado em todos os Concelhos e Freguesias – bem como se farão mais tarde publicar as ordens de Sua Majestade logo que chegarem.
Palácio da Administração em Angra, 23 de Outubro de 1840
O Administrador Geral, José Silvestre Ribeiro»
Quanto ao pedido de instruções para ajudar à resolução do problema, parto do pressuposto que após implantada a “Lei da Rolha”, anulando a possibilidade dos locais continuarem a emigrar para o Brasil, volvidos dez anos, o tráfego marítimo pode ter inclusivamente aumentado, como a seguir se explica:
Janeiro de 1851
- Barca “Maria 2ª”, de nacionalidade brasileira, arqueando 246 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao porto de origem, conduzindo a bordo 21 tripulantes. Embarcaram em Angra 62 colonos, mantimentos e mercadoria diversa.
Maio de 1851
- Brigue-escuna “Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 169 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao porto de origem, conduzindo a bordo 28 tripulantes. Embarcaram 48 colonos, mantimentos e mercadoria diversa. - Brigue “Visconde de Bruges”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 120 toneladas, chegou procedente da ilha Terceira, tendo saído com destino ao Rio de Janeiro, conduzindo a bordo 18 tripulantes.
Julho de 1851
- Brigue “Prenda”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 177 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao porto de origem, conduzindo a bordo 28 tripulantes. Embarcaram 8 colonos, mantimentos e mercadoria diversa.
Setembro de 1851
- Galera “Sophia”, de nacionalidade brasileira, arqueando 380 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo efectuado escala no Faial. Na viagem de regresso ao Brasil passou por S. Miguel seguindo depois com destino à Bahia.
Outubro de 1851
- Brigue-escuna “Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 169 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao Rio. Embarcaram 41 colonos, e mercadoria diversa.
Dezembro de 1851
- Barca “Providência”, de nacionalidade brasileira, arqueando 298 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, por Pernambuco e S. Miguel. Naufragou em Angra do Heroísmo.
Março de 1852
- Brigue “Athelante”, de nacionalidade brasileira, arqueando 313 toneladas, chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino ao Rio de Janeiro. Embarcaram 45 colonos, e mercadoria diversa.
Abril de 1852
- Brigue “Prenda”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 177 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao porto de origem. Embarcaram em Angra 25 colonos, mantimentos e mercadoria diversa.
Agosto de 1852
- Galera “Sophia”, de nacionalidade brasileira, arqueando 380 toneladas, chegou a Angra procedente do Rio de Janeiro, tendo efectuado escalas em Lisboa e no Faial.
Março de 1853
- Patacho “Desengano”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 161 toneladas, chegou procedente do Rio de Janeiro, tendo saído de regresso ao porto de origem. Embarcaram em Angra 36 colonos, mantimentos e mercadoria diversa.
Maio de 1853
- Brigue “Amizade”, de nacionalidade brasileira, arqueando 251 toneladas, chegou procedente dos portos do Rio de Janeiro e Pernambuco. Saiu apenas em Junho devido a eventuais condições de mau tempo. Transportou 25 colonos.
Outubro de 1853
- Galera “Sophia”, de nacionalidade brasileira, arqueando 380 toneladas, chegou a Angra procedente de Ponta Delgada, e do Faial.
Novembro de 1853
- Barca “Novo Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 257 toneladas, partiu com destino ao Rio de Janeiro. Embarcaram em Angra 70 colonos, mantimentos e mercadoria diversa.
Junho de 1854
- Brigue “Prenda”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 177 toneladas, saiu para o Rio de Janeiro, transportando 63 colonos.
- Barca “Novo Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 257 toneladas, saiu para o Rio de Janeiro. Embarcaram 139 colonos.
Dezembro de 1854
- Brigue “Prenda”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 177 toneladas, saiu para o Rio de Janeiro, transportando 88 colonos.
Março de 1855
- Barca “Novo Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 257 toneladas, partiu para o Rio de Janeiro. Embarcaram 110 colonos.
Agosto de 1855
- Brigue “Prenda”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 177 toneladas, saiu para o Rio de Janeiro, transportando 177 colonos.
Setembro de 1855
- Barca “Novo Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 257 toneladas, partiu para o Rio de Janeiro. Embarcaram 126 colonos.
Outubro de 1855
- Patacho “D. Pedro V”, de nacionalidade brasileira, arqueando 228 toneladas, saiu para o Rio de Janeiro. Transportou 132 colonos.
Maio de 1856
- Patacho “D. Pedro V”, de nacionalidade brasileira, arqueando 228 toneladas, chegou procedente do Faial. Saiu com destino ao Rio de Janeiro. Transportou 250 colonos.
Junho de 1856
- Barca “Novo Rival”, de nacionalidade portuguesa, arqueando 257 toneladas, partiu para o Rio de Janeiro. Embarcaram em 112 colonos.
Agosto de 1873
- Vapor “Lidador”, de nacionalidade brasileira, arqueando 892 toneladas, seguiu viagem no dia 2 deste mês com destino a Pernambuco, levando a bordo 180 casais.
Fevereiro de 1878
- Vapor “Lidador”, de nacionalidade brasileira, arqueando 892 toneladas, chegou à ilha Terceira no dia 7, procedente do Faial, tendo agendada a partida com destino ao Rio de Janeiro, com escala na ilha de S. Miguel. Porém, como depois explicaremos, por motivo de mau tempo, o vapor naufragou junto ao cais da Figueirinha, no dia seguinte, vindo por esse motivo a ser considerado perda total.
Fonte consultada
Martins, Francisco Ernesto de Oliveira, Dos Açores e do Brasil, nos 500 anos, pp. 86-103/104, SerSilito – Empresa Gráfica, Lda., Maia, ISBN 972-96922-2-x
- Continua -