Arribou há três dias a Setúbal o iate “Famalicão”, que no dia 19 de Outubro tinha levantado ferro de Viana do Castelo, para Santa Cruz de Tenerife, com 220 toneladas de madeira.
Em consequência da demora por falta de notícias, o barco e a tripulação já haviam sido dados como perdidos, devido ao temporal.
O Sr. António de Oliveira da Velha, comandante do “Famalicão”, que é um barco de vela, com 7 homens de tripulação, conta assim a triste odisseia porque passaram:
- Em quantos dias fez a viagem? - perguntou-lhe um jornalista.
- Em 5 meses.
- Apanhou muito temporal?
- Se tivesse feito as derrotas com tempo favorável, devia ter gasto uns 45 dias, na ida e na volta. Sou marítimo há 29 anos, e não me lembro de apanhar um temporal como este último.
- Onde o apanharam?
- Próximo da Madeira. O barco abriu água, que me obrigou a deitar metade da carga ao mar, a fim de evitar que o “Famalicão” soçobrasse e a tripulação perecesse. As bombas de esgotamento não deram vencimento à invasão da água.
- E depois?
- Consegui chegar a Santa Cruz de Tenerife, com 16 dias de viagem e 6 pés de água no porão. Em 9 de Novembro levantei ferro em direcção a Setúbal, com mantimentos para 15 dias. No dia 18, tinha a ilha da Madeira à vista. Aí começou outra tragédia. Faltaram-me os víveres no dia 28, à vista do Cabo de S. Vicente.
- E não tinham maneira de se abastecerem?
- Valeu-nos um vapor francês, que de uma forma cativante nos forneceu mantimentos. Em 6 de Dezembro pudemos alcançar o Cabo de S. Vicente.
A tripulação estava exausta de fadiga e de fome, tendo-nos valido um vapor italiano, que nos forneceu viveres para 3 dias. No dia 9 tivemos que pedir mantimentos a um vapor paraguaio, que nos deu uma cabeça de porco, tendo eu recusado mais géneros, por me encontrar próximo de terra.
Aqui, aumentou o nosso tormento. O navio começou a andar para trás, devido aos ventos contrários e a um tremendo temporal. Andamos três dias perdidos, sem uma pinga de água para beber, nem uma côdea de pão para comer. Mas Deus, não nos desamparou. No dia 15, conseguimos chegar à fala com um navio dinamarquês, que nos deu um saco cheio de pão e um barril com água.
- E a tripulação conseguiu vencer todas essas privações?
- Só por milagre voltamos. O pessoal já deitava sangue pela boca, devido ao constante trabalho, de estar dias e noites sem comer. Em 19 de Dezembro, encontrávamo-nos na latitude do Cabo de S. Vicente e na longitude da Madeira. Em 21, voltamos a pedir socorro a um vapor inglês, que nos deu 6 quilos de batatas e um barril de água. Disseram-nos, que se lhes déssemos vinho ou aguardente, nos davam mais viveres em troca.
Não quero nem recordar as privações, e o que foi essa viagem. Passei depois a não saber onde estava. Só no dia 26 veio um vento favorável, que me levou à Madeira, tendo os tripulantes recolhido ao hospital.
- Quando chegaram a Setúbal?
- Há 3 dias. As nossas famílias já se encontravam vestidas de luto, por nos considerarem mortos há muito tempo.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 27 de Dezembro de 1927)