sexta-feira, 12 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XXX)


O ataque ao " Desertas "

Ílhavo, 5 – Um submarino alemão, que apareceu à vista da barra de Aveiro, canhoneou o vapor “Desertas”, ali encalhado desde 16 de Novembro de 1916, sem ter conseguido atingir o alvo. Imediatamente, da base naval francesa voaram dois hidroaviões, que procuraram bombardear o submarino, mas este submergiu, sendo perdido de vista.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 6 de Setembro de 1918)

O vapor "Desertas" encalhado na Costa Nova
Foto de Henrique Ramos - Arquivo Digital de Aveiro

Ílhavo, 6 – Ontem, cerca das 4 horas da tarde, um submarino alemão bombardeou o vapor “Desertas”, há tempo encalhado perto da Costa Nova e que em breve será posto a navegar, depois de custosos e arriscados trabalhos hidráulicos. Do ataque foram ouvidos fortes detonações de canhão, vindos do lado do mar. As pessoas que acorreram a ver do que se tratava, puderam distinguir perfeitamente um grande submarino, que navegava a pouca distancia da praia. Pouco depois o bombardeamento recomeçou intensamente, sendo alvejado o vapor “Desertas”, as dragas que trabalhavam no seu salvamento e as oficinas provisórias ali instaladas. O numeroso pessoal que ali trabalha, talvez perto de 200 pessoas, tomadas de um pânico indescritível, procuraram salvar-se, umas fugindo numa correria vertiginosa, outras lançando-se por terra. Dentro em pouco, todo o local se achava envolto por densas nuvens de fumo e areia, que as granadas produziam.
Os banhistas da Costa Nova, que tinham acorrido a presenciar o estranho acontecimento, tiveram rapidamente a visão de uma grande catástrofe, tal era o espectáculo horroroso e imprevisto a que estavam assistindo. E, assim, aterrados, gritos aflitivos se ouviam por toda a praia, aquela hora extraordinariamente concorrida. Receando que o bombardeamento atingisse os prédios, todos procuraram pôr-se a salvo, tomando a estrada da Barra em direcção a Aveiro e a maior parte embarcando para fazer a travessia da ria, em direcção à margem da Gafanha, para alcançarem Ílhavo. Como tudo foi feito sobre uma forte impressão de terror, aconteceram desmaios, cenas lancinantes e pequenos desastres, chegando a cair algumas pessoas à água na precipitação da fuga. Mas, decorrida talvez meia hora, o bombardeamento parou e pode verificar-se que os seus resultados não tinham sido como antecipadamente se previra. Apenas uma das dragas sofreu pequenas avarias, não havendo desastres pessoais de grande importância.
Decorrida cerca de 1 hora, da estação naval francesa de S. Jacinto elevaram-se alguns hidroaviões que seguiram em direcção ao mar, procurando atacar o submarino, chegando até a lançar algumas bombas, mas sem resultados práticos Receia-se que novo ataque venha a dar-se, pois há fortes razões para julgar que os alemães sabem que o “Desertas” vai, finalmente, ser posto a navegar e procuraram, antes disso, inutilizá-lo. Convém tomar medidas que contrariem o seu empenho. O caso é que este não esperado incidente, aliás de bastante gravidade, veio alarmar toda a colónia de banhistas da linda praia da Costa Nova, tendo-se dado nestes dias um verdadeiro êxodo. Mas a serenidade deve regressar em breves dias, tudo voltando ao estado primitivo, continuando o entusiasmo e animação, que são tradicionais naquela ridente praia.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de Domingo, 8 de Setembro de 1918).

O vapor “ Desertas “
1916 - 1921
Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

O "Desertas" a aguardar maré propícia para sair de Aveiro
Foto-postal na Costa Nova - Imagem de autor desconhecido

Ctr.: Flensburger Schiffsbau AG, Flensburg, Alemanha, 10.1895
ex “Thekla”, Kingsin Linie, Bremen, Alemanha, 1895-1898
ex “Wittenberg“, Norddeutscher Lloyd, Bremen, 1898-1912
ex “Hochfeld », Continentale Reederei, Hamburgo, 1912-1916
Arqueação : Tab 3.689,00 tons - Tal 2.363,00 tons
Dimensões: Pp 108,10 mts - Boca 12,80 mts - Pontal 7,98 mts
Propulsão: Flensburger, 1895 - 1:Te - 10 m/h

O “Desertas” foi um navios requisitados pelo governo português à Alemanha, em Fevereiro de 1916, quando este se encontrava amarrado na baía do Funchal, desde o decorrer de 1914, para evitar a sua captura por qualquer das marinhas dos países aliados. Posto ao serviço do estado, foi fretado ao governo inglês, através da empresa Furness, Withy, até encalhar a 18 de Novembro, na Costa Nova, cerca de 4 milhas a sul do farol de Aveiro, por motivo de forte agitação marítima. Tentado o seu desencalhe, foi aberto um canal de ligação à ria de Aveiro, tendo os trabalhos sido concluídos a 20 de Março de 1920, data em que o vapor reflutuado saiu com destino a Lisboa. Ainda nesse ano o navio sofreu uma considerável reparação, regressando ao serviço do governo do país. Em 1921 alterou o nome para “Mendes Barata”, em agradecimento ao engenhoso comandante do mesmo nome, responsável pela sua recuperação.
Entre os anos de 1926/ 1927 foi adquirido pela Companhia Colonial de Navegação, que lhe manteve o nome, até à sua venda para demolição em Scheveningen, na Holanda, durante Outubro de 1927.

Decorridos quase 100 anos sobre o incidente, não encontro referência ao submarino, que levou a cabo o surpreendente e esporádico canhoneamento ao “Desertas”, pela não existência do relatório correspondente. Essa omissão sugere que o episódio de guerra, foi deliberado pela estrutura militar e meticulosamente preparado, visando a total ou parcial destruição do navio. Só assim se entende a aproximação do submarino a curta distancia da linha de costa, sabendo estar numa área perigosa de fácil acesso a uma fatal retaliação.

3 comentários:

Pedro disse...

É com muito interesse que vou lendo os artigos aqui neste seu blog e, confesso, louvo a trabalheira de regularmente reunir tanta informação sobre tanto barco já esquecido.

Lembrei-me de hoje comentar (creio que pela 1ª vez) pois a história do "Desertas" interessa-me particularmente.

Ouvi-a pela primeira vez de um local de Aveiro quando uma vez tive oportunidade de lá passar um fim de semana com uns camaradas velejadores, por curiosidade a fim de irmos à barra de barco participar na recepção ao Santa Maria Manuela.

Quando voltei decidi investigar mais um pouco e publiquei a história do Desertas, tal como a aprendi lá em Aveiro, no meu blogue.

Se estiver interessado:

http://utrimaran.blogspot.com/2010/05/fantastica-epopeia-do-vapor-desertas.html

http://utrimaran.blogspot.com/2010/05/fantastica-epopeia-do-vapor-desertas_05.html



Quanto ao torpedeamento, não sabia, curiosos esses alemães...

Um abraço!

reimar disse...

Olá Pedro,
Grato face ao interesse demonstrado pelo blog. Tentarei descobrir o seu mail para lhe dar umas dicas sobre o desencalhe do navio. Aproveitarei também para lhe falar do lugre "Maria da Glória" e principalmente para lhe explicar o porquê dos ataques dos submarinos alemães.
Um abraço,
Reinaldo Delgado

EstivadoresAveiro disse...

Ola colega bloguista,
recentemente descobri o seu blog e devo dizer que é uma verdadeira fonte de informação. E como nós aqui por Aveiro estamos sempre dispostos promover a nossa história e tentar fazer com que o nosso porto seja sempre mais divulgado, aproveito este seu artigo para o publicar no nosso blog, claro que sempre com a fonte divulgada, espero que não seja contra esta publicação.
Obrigado
Orlando Miguel08