terça-feira, 14 de outubro de 2008

Comp. Portuguesas - A Progresso Marítimo


Empresa Progresso Marítimo do Porto
Rua dos Ingleses, Nº 42-1º, Porto
(actualmente rua Infante D. Henrique

1872 - 1890

Esta empresa constituída no Porto, por iniciativa de Henrique Carlos Meireles Kendall, tinha como objectivo estabelecer um serviço marítimo utilizando vapores de carga e passageiros, que ligaria portos nacionais com destino a portos no Brasil. A nova sociedade foi constituída conforme escritura publicada no Diário do Governo de 3 de Abril de 1872, com o capital de 500 mil reis. Após concretizada a respectiva oficialização, foi lançada a emissão duma primeira série de acções, no valor de 250 mil reis.


O programa da sociedade previa que os navios a entrar em serviço teriam o início das viagens no Porto, fazendo escala em Lisboa e no Funchal, em concorrência aberta com as companhias estrangeiras, proprietárias de vapores de grande porte, sem condições para frequentar o porto do Douro, evitando dessa forma aos passageiros as despesas de deslocação por terra até Lisboa. Nesse sentido Henrique Kendall viajou para Inglaterra, acompanhado pelo Capitão da Marinha Mercante Luís Ascêncio Tommasini, para examinar diversos navios que se encontravam à venda, que provaram não ter interesse. A opção alternativa levou à encomenda de dois navios novos, com cerca de 1.200 toneladas, do tipo “Spardeck”, que viriam a receber o nome de dois nótaveis homens de letras portuenses, Júlio Diniz e Almeida Garrett, estando prevista lotações para 30 passageiros em 1ª., 20 em 2ª e 200 em 3ª classe.

O primeiro vapor a entrar em serviço foi o “Júlio Diniz”, com chegada ao Douro a 26 de Julho de 1873, sob o comado de Joaquim José Rodrigues Contente, trazendo a bordo Henrique Kendall, no regresso da cerimónia de entrega do navio. Também presente nessa cerimónia, o Capitão Tomasini manteve-se em Inglaterra a acompanhar a construção do “Almeida Garrett”, do qual viria a ser o seu primeiro comandante. Data de 6 de Agosto de 1873 a viagem inaugural do “Júlio Diniz” ao Brasil, transportando 162 passageiros, com as escalas previstas em Lisboa e no Funchal. Entretanto o “Almeida Garrett” foi finalmente entregue a 1 de Dezembro, ainda em 1873, chegando ao Douro no dia 8 e largando a 20 para o Brasil.

Apesar da regularidade mantida durante os dois primeiros anos, tornou-se cada vez mais difícil competir com as companhias francesas e inglesas, face à velocidade dos navios empregues neste tráfego. Ainda foi pensado colocar no serviço mais 2 navios, decisão substituída por um transporte maior e mais rápido, ficando tudo sem efeito devido às dificuldades de ordem financeira. Em Julho de 1885, é dado conhecimento público que o “Almeida Garrett” cancela a viagem ao Brasil, para ser transferido para um novo serviço e a 2 de Agosto é anunciada uma viagem com destino a Marselha.

Quase em simultâneo a Companhia Thetis, também do Porto, anuncia a reestruturação dos serviços para o norte da Europa, integrando o vapor “Júlio Diniz” nas suas ofertas de transporte. Passa a assegurar um serviço regular com destino ao Havre e Bordéus, Antuérpia, Roterdão, Hamburgo e Ilhas Britanicas. Apesar de um ou outro regresso esporádico ao Brasil, o “Almeida Garrett”, entra em operação directa de ligação a portos no Mediterrâneo.

Em Junho e Julho de 1876 ambos os navios fundearam no Douro, aguardando lhes fosse dado novo destino, que chegou breve. Saíram do Porto juntos com destino a Marselha, adquiridos por armadores Franceses. Já sem frota própria a firma foi mantida em actividade até Dezembro de 1890, altura em que vem publicada na imprensa a convocatória para uma reunião da assembleia geral para deliberar sobre a liquidação da empresa.


Em seguimento à reunião marcada para o dia 8 de Janeiro de 1881, foi convocada nova Assembleia para o dia 17, na qual foi declarada a liquidação da empresa. No jornal “O Comércio do Porto” encontra-se publicado o relato da última Assembleia Geral, realizada no dia anterior, com o seguinte teor:
“Reuniu ontem a Assembleia Geral dos Accionistas desta empresa a fim de apreciar o Relatório e contas do Gerente Liquidatário, bem como o parecer do Conselho Fiscal, documentos de que já temos extracto. Presidiu o Sr. António Joaquim de Lima, ocupando os lugares de Secretários os Srs. José Augusto de Magalhães Leite e Manuel Tavares de Pinho. Lida e aprovada a acta da sessão anterior, entraram em discussão o Relatório e pareceres. O Gerente Sr. Henrique Kendall, declarou que depois de fechadas as contas do Relatório se havia feito as despesas de 190$360 (mil reis) com impressos e anúncios, sendo portanto o saldo de 3.755$955 (mil reis), o que permite a distribuição de 1.150 reis por acção. O Sr. Ezequiel Ribeiro Vieira de Castro disse que não ia discutir o Relatório e contas, mas que desejava que o Sr. Gerente lhe explicasse como era que dizendo-se no Relatório que a venda dos vapores havia sido feita por 26.000 libras esterlinas livres de todos os encargos para os vendedores, aparecia na conta geral uma verba de 3.490$910 (mil reis) de comissão de venda dos mesmos. E vendo na mesma conta o produto da venda de três caixas de rendas de linho apreendidas, que fora de 86$040 (mil reis) tinha a declarar que o valor daqueles objectos, que conhecia, era de 370$000 (mil reis), por isso desejava saber como se procedeu à liquidação.O Sr. Henrique Kendall respondeu que a comissão dada pela venda dos vapores fora a usual em tal situação e que as rendas a que o Sr. Accionista se referia tinham sido vendidas no Rio de Janeiro, havendo a comprová-lo o respectivo recibo. Renovou no fim a proposta que fazia no seu relatório para que a Assembleia nomeasse uma comissão aos seus actos, pedindo que dessa comissão fizesse parte o Sr. Ezequiel Ribeiro Vieira de Castro. Este Sr. declarou não poder fazer parte da comissão, acrescentando que a achava inútil. Apesar da insistência do Sr. Henrique Kendall pela nomeação da comissão, o Sr. Francisco José de Araújo, no uso da palavra, disse que não só pela respeitabilidade do carácter do Sr. Gerente, como dos cavalheiros que haviam composto o Conselho Fiscal, julgava desnecessária essa comissão, votando portanto contra ela. Em seguida o Presidente da Mesa em exercício declarou liquidada a Empreza Progresso Marítimo do Porto.


Divido a responsabilidade deste trabalho com o amigo Francisco Cabral, meu professor de assuntos navais, brilhante investigador das companhias e dos navios a vapor do século XIX e início do século XX, que orgulhosamente levaram aos quatro cantos do mundo a bandeira nacional.

Os navios
Escunas de 2 gáveas, proa de beque, 2 convés e spardeck

“ Júlio Diniz “
1873 - 1876



Construtor : J. & R. Swan, Dumbarton, Inglaterra
Lançamento da quilha a 29.03.1873, entregue 21.07.1873
Tonelagens : Tab 1.221,00 to > Tal 748,00 to
Cpmts.: Ff 75,0 mt > Pp 72,0 mt > Bc 8,90 mt > Ptl 7,5 mt
Máq.: Kincaid, Donald & Co., Greenock > Compound > 150 Ihp > 10,5 m/h
Vendido à Comp. Navigation Arménienne & Marrocaine (C. Paquet & Cie.) em 1876, alterou o nome para “Les Vosges”. Naufragou em 1894.

Efectuou as seguintes viagens ao Brasil :
Saída do Douro 06.08.1873 > regresso ao Douro 17.10.1873
Saída do Douro 23.10.1873 > regresso ao Douro 22.12.1873
Saída do Douro 29.07.1874 > regresso ao Douro 19.04.1875
Saída do Douro 30.04.1875 > regresso ao Douro 23.07.1875
Saída do Douro 30.07.1875 > regresso ao Douro 13.10.1875
Saída do Douro 22.10.1875 > regresso ao Douro 08.02.1876
Saída do Douro 21.02.1876 > regresso ao Douro 16.03.1876
Saída do Douro 29.03.1876 > regresso ao Douro 28.05.1876


A foto que ilustra o navio “Júlio Diniz” pertence a um quadro exposto na sala Minho, no Palácio da Bolsa do Porto. É da autoria do Capitão Tommasini, que foi em determinados períodos seu comandante, tendo-se igualmente revelado como um notável pintor de motivos marítimos. Foi-me cedida para publicação no blog, pela Direcção da Associação Comercial do Porto, a quem obviamente endereço os meus agradecimentos.

“ Almeida Garrett “
1873 - 1876


Construtor : J. & R. Swan, Dumbarton, Inglaterra, 01.12.1873
Tonelagens : Tab 1.169,00 to > Tal 647,00 to
Cpmts.: Ff 75,0 mt > Pp 71,0 mt > Bc 8,90 mt > Ptl 7,6 mt
Máq.: Kincaid, Donald & Co., Greenock > Compound > 200 Ihp > 10 m/h
Vendido à Comp. Navigation Mixte em 1876, alterou o nome para “Cheliff”. Naufragou em 1886.

Efectuou as seguintes viagens ao Brasil :
Saída do Douro 20.12.1873 > regresso ao Douro 05.03.1874
Saída do Douro 14.03.1874 > regresso ao Douro 31.05.1874
Saída do Douro 16.06.1874 > regresso ao Douro 31.08.1874
Saída do Douro 08.09.1874 > regresso ao Douro 27.01.1875
Saída do Douro 07.02.1875 > regresso ao Douro 21.04.1875
Saída do Douro 01.05.1876 > regresso ao Douro 04.07.1875

1 comentário:

Nuno Cruz disse...

Excelente artigo.

Encontrei este post à procura de mais informação sobre esta companhia pois esta semana num Comercio do Porto de 1873 que consultei vem publicada a Assembleia Geral que dava conta do estado da encomenda dos vapores, e das dificuldades até ao acordo com os estaleiros; o que aguçou a curiosidade.

Cumprimentos
Nuno Cruz