segunda-feira, 3 de março de 2008

Há navios com sorte


O " Cuyabá " do Lloyd Brasileiro

1927 - 1963


Muito raro terá acontecido um navio encalhar no mar Português e ter tido a sorte de continuar a navegar, ainda por muitos anos. Então se o mesmo navio encalha por duas vezes, merece estar na galeria dos felizes, na prateleira do impensável.


O "Cuyabá" - imagem Photoship.Uk

Nº 102 da frota do Lloyd Brasileiro
Cttor.: Bremer Vulkan, Vegesack, Alemanha, 11.10.1906
ex "Hohenstaufen" - Hapag (Hamburg Amerika Linie), 1907-1917
Devido à I Grande Guerra amarrou Rio de Janeiro, 08.1914
Capturado pelo Governo Brasileiro, nome "Cuyabá", 01.06.1917
Navega sob operação do Lloyd Brasileiro, entre 1917 até 1927
O Lloyd Brasileiro passa de operador a armador a partir de 1927
Caract.: Tab 6.489 to > Cpp 124,80 mt > Boca 16,1 mt
Máq.: Bremer Vulkan > 1:Qe > Velocidade 13 m/h


O "Cuyabá" encalhado nas Berlengas em 21.07.1937

Vitima do nevoeiro ficou encalhado nas Berlengas, até que lhe foi prestado auxílio através de várias embarcações, seguindo a reboque para Lisboa onde efectuou reparações.


O "Cuyabá" - encalhado em Leixões em 15.02.1941

Vitima de um violento ciclone com rajadas de vento na ordem dos 130 km/ hora, garrou do ancoradouro indo encalhar no cabeço Sul da nova doca ficando adornado. Com a ajuda de rebocadores foi levado a atracar no cais Norte, sendo apresentado nessa noite um requintado cardápio de furacão com sabores tipicamente brasileiros. Não inaugurou oficialmente as docas, mas também não teve avarias. E continuou a cruzar o Atlântico por muitos anos, até à ordem de demolição no Brasil, em 1963.

6 comentários:

Rui Amaro disse...

Reimar
Olha que foi um ciclone valente. O Cuyabá (piloto Tito dos Santos Marnoto) e o grego Hadiotis, 121m/4.386tb, (piloto Francisco Evangelista), que também encalhou a 15/02/1941 junto do Senhor do Padrão e por lá ficou, até ser safo a 15/04/1941 graças a um engenheiro e aos salvadegos da AGPL. Apesar de fundeados a dois ferros na Bacia do porto de Leixões e das máquinas a trabalhar em toda a força avante, ambos os vapores foram levados como cascas de noz e graças à perícia dos dois experimentados práticos não chegaram a colidir. Lembro-me de pela mão de meu pai ter visto aquele monstro do Hadiotis todo em seco. Sabias que o piloto Francisco Evangelista fora em tempos imediato do paquete brasileiro Bagé!? O vapor Pádua depois de ter garrado, lá se aguentou atracado ao cais do molhe Sul e o iate-motor Judith foi abandonado pela tripulação, mas lá conseguiu suportar o ciclone. No rio Douro, Massarelos, cinco bacalhoeiros foram uns contra os outros, garrando e ficaram adornados, tendo o Paços de Brandão submergido. É que no rio além do ciclone havia a situação de grande cheia. Nos anos 40 eram ciclones uns atrás dos outros. Se calhar era por causa da guerra!
Um abraço
Rui Amaro

Luis Filipe Morazzo disse...

Caro Reimar

A espectacular foto do navio “Cuyába” encalhado nas Berlengas fala por si. Quando você afirma, e bem, que há navios bastante “sortudos”, está cheio de razão. A sorte realmente embarcou neste navio e por lá se deixou ficar. Uma prova disso, foi quando em plena segunda grande guerra, estava o bom do “Cuyába” na noite de 24-8-43 a navegar em comboio, na companhia de outros navios brasileiros ao longo da costa nordeste brasileira, quando numa manobra improvisada foi embater no vapor “Siqueira Campos” também propriedade do LLoyd Brasileiro. Este com um deslocamento da ordem das 6500 toneladas, e após várias tentativas infrutíferas de salvamento, foi dado como perdido, ficando abandonado aos elementos na praia de Aruaru perto de Fortaleza. Quanto ao “Cuyába”, embora registasse estragos de monta a bordo, conseguiu chegar ao porto de Fortaleza pelos seus próprios meios, onde depois de ter sido devidamente reparado, lá continuou a transportar a sua ilustre passageira, a “fortuna”, por mais uns bons anitos.

Um abraço amigo

Luís Filipe Morazzo

reimar disse...

Sr. Morazzo,
Muito obrigado pelos seus comentários. Terei muito gosto em utilizar a sua informação relativa à colisão entre o Cuyabá / Siqueira Campos num próximo post na continuação da história dos navios do Lloyd Brasileiro. Aí terei oportunidade de colocar mais uma dúzia de fotos, incluíndo alguns "bombas" de construção americana / canadiana que são lindos de tão feios.
Cumprimentos, Reimar

Ney Nogueira Lourenço disse...

Ontem, pesquisando por esta extraordinária ferramenta chamada INTERNET, descobri a data de chegada de meu avô, no Brasil. Tinha então 11 anos de idade e veio com os pais e irmãos de Portugal. Fato ocorrido em 20 de outubro de 1911. Ainda extasiado pela descoberta e com os olhos desde então com um brilho teimoso e ingovernável, voltei hoje à INTERNET e, continuando as pesquisas, descobri que o Vapor que o trouxe, Hohestaufen, anos depois seria apreendido pelo Brasil (1ª guerra mundial) e incorporado à frota nacional com o nome Cuyaba.
Não bastando as imensas alegrias que já me tomavam o peito, descubro até fotos do navio disponibilizadas na rede, como, v.g., neste blogger.
Atenciosamente Ney Nogueira Lourenço

Fábio disse...

Caros, o Cuyabá, de acordo com vários passageiros a bordo, encalhou na madrugada de 20 de julho de 1937 no arquipélago das Berlengas não em razão do nevoeiro, mas em razão do porre em que estava quase toda a tripulação. As condições da 3ª classe eram terríveis e a tripulação, entre outras atitudes deploráveis, explorava os pobres coitados exigindo gorjetas até para servir comida...
O capitão demorou muitas horas para deixar os quase 100 passageiros desembarcar. Respondeu o pânico deles ordenando que a banda do navio tocasse sem parar e os ameaçando de violência.
Em agosto de 1939 a conclusão (Acórdão) do Tribunal Marítimo Administrativo absolveu o capitão Abílio Raymundo de Oliveira (conhecido como "Passarinho", que faleceria em 1945) de qualquer responsabilidade, apesar das pesadas críticas que dirigiram a representação consular do Brasil em Hamburgo as autoridades alemãs. Alegou o Tribunal que não dispunha de informações suficiente para qualquer outra decisão.
Quem acha que o navio tinha "sorte", precisa ler um pouco mais a respeito da história do navio. O capitão Jorge Lyra de Azevedo que substituiu Abílio no comando, em sua 2a viagem em 1938, foi apunhalado e morto, juntamente com o imediato, por um cozinheiro zangado por ter sido punido e suspenso por dez dias. E não é só isso. Em 1919 o Cuyabá deu uma "trombada" no porto do Recife e os prejuízos não foram pequenos. E por aí vai. Se isso é ter sorte...

Cordialmente, Fábio.

reimar disse...

Olá Fabio,
Continuo a achar que apesar de todas as peripécias e ocorrências, este é um navio com sorte. Face ao seu apontamento, fica a nota de sentido contrário para tripulantes e pessoas que nele viajaram!...
Saudações atlânticas,
Reinaldo Delgado