segunda-feira, 24 de março de 2008

Frotas nacionais - Alonso Gomes & Cª


Alonso Gomes & Cª
A Empresa de Navegação por vapor para
o Algarve e Guadiana

1870 - 1905

Alonso Gomes nasceu e viveu em Mértola, destacando-se na actividade mineira. Através desse trabalho, descobriu e explorou a sua mina de manganésio, na freguesia de Alcaria, situada bem dentro dos limites do Concelho.
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Tendo Alonso Gomes requerido Diploma do descobrimento legal da mina de manganésio da Cruz do Peso, na Freguesia de Alcaria, Concelho de Mértola;
Vistos os documentos que demonstram ter o requerente satisfeito todos os preceitos do Artº 12º do Decreto com força de Lei, de 31 de Dezembro de 1852;
Visto o relatório do Engenheiro, que por ordem do Governo, verificou a existência do depósito para o Consultor da Junta Consultiva, das Obras Públicas e Minas;
Há por bem S.M. El Rei, confirmando-se com a mencionada consulta;
- Que o requerente é reconhecido como proprietário legal da mina;
- Confrontações e limites da mina, conforme o Diário do Governo Nº 149, de 6 de Julho de 1883;
- Que dispõe da quantia de 3.000.000 reis, mínimo necessário para lavrar a terra.
Paço, 4 de Julho de 1883 a) Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro
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Alonso Gomes deveria ter imaginado anos antes, que tendo a mina a trabalhar, o difícil não seria tirar o minério da terra, mas sim retirá-lo de Mértola, abrindo perspectivas de mercado, no país e no estrangeiro. Daí que optou por antecipar a fundação de uma Companhia de Navegação, que lhe facilitasse o transporte do minério. Por esse motivo deu os primeiros passos, com a aquisição do primeiro navio, o "Gomes", em 1870, para estabelecer uma carreira regular no rio Guadiana, entre Mértola e Vila Real de Santo António.
Como este tráfego de mercadoria e passageiros foi bem sucedido, o Governo achou que havia condições para aumentar e melhorar essa ligação, confirmado pelo acordo entre ambas as partes, em 6 de Outubro de 1874. Esse acordo previa o estabelecimento de um serviço de navegação regular, entre Lisboa e portos no Algarve, com escala em Sines, além do serviço fluvial já iniciado. Na cerimónia oficial da assinatura do acordo, estiveram presentes o Ministro da Marinha e Ultramar, Conselheiro João Andrade Corvo e o Ministro e Secretário de Estado das Obras Públicas, Conselheiro António Cardoso Avelino, em representação do Governo. Ficava assim Alonso Gomes obrigado perante o Reino, de dois serviços dentro das seguintes condições:

1º- Carreira de Lisboa para o Algarve
Com vapores de pelo menos 200 toneladas e um mínimo de 40 passageiros, em 1ª e 2ª classes e 60 em 3ª, com saídas regulares de Lisboa todos os dias 1 e 16 de cada mês. Para a efectivação deste serviço, teria a comparticipação do Estado através de um subsídio anual de 10 contos de reis.
2º- Carreira de Mértola para Vila Real de Santo António
Vapor com dimensões que permitisse a navegação no rio Guadiana, com lotação para 100 passageiros a distribuir por 3 classes. Viagens redondas diárias entre Mértola e Vila Real de Santo António, exceptuando os Domingos. No entanto essa excepção perdia a regra, sempre que a mala do correio entre Lisboa e o Algarve seguisse pelo Guadiana. Pelo trabalho assegurado nesta carreira, teria igualmente um subsídio anual do Estado, no valor de 4.000,000 reis.

Fica desde então estabelecido, que os subsídios vigoram durante o período de validade do contrato, conforme publicado no Diário do Governo, Nº 241, de 26 de Outubro de 1874. Para fazer face ao acordo com o Estado, ainda nesse mesmo ano de 1874, foi comprada uma segunda unidade de maior porte, destinada à ligação entre os portos da costa Algarvia, sendo baptizado "Gomes 2º". Dois anos mais tarde a frota é aumentada com mais um navio, o "Gomes 3º", seguindo-se a alteração do nome do primeiro vapor para "Gomes 1º".
Com a entrada ao serviço do "Gomes IV", fica com carácter definitivo a representação em Lisboa a cargo do Despachante Oficial Alberto B. Centeno & Cª, que passa a integrar a sociedade, participando na compra dos navios seguintes. Enquanto isso é decidido que no Porto, a representação será da responsabilidade da firma José de Sousa Faria, com sede no Nº 85 do Muro dos Bacalhoeiros, actuando na qualidade de agentes.
Com o alargamento natural da actividade, a Companhia leva os navios a escalar outros portos nacionais, incluindo uma linha regular para o rio Douro. Esse maior fluxo de escalas nos vários portos, serve para dar resposta aos acordos entretanto firmados com a Empreza Nacional de Navegação, que recebia os passageiros e as mercadorias de cabotagem em transito para as Colónias em África, mantendo contrato similar com a Companhia Francesa Charguers Reúnis, relativamente a portos com destino no Brasil e em Moçambique.
Depois da compra do "Gomes 5º", do "Gomes VI", do "Gomes 7º" e do "Gomes VIII" e também muito por causa dos naufrágios de que foram vitimas, a Companhia começa a entrar em declínio, situação agravada pela deterioração do estado de saúde de Alonso Gomes, que viria a falecer em 1904. No decorrer de 1904 e durante o ano de 1905, por via das dissidências dos sócios da Companhia e por indiscriminada ausência de entendimento, o seu legal representante Alberto B. Centeno decidiu-se pela venda dos navios ainda a operar, até à final e completa dissolução da empresa.

Os navios

" Gomes " e - ou " Gomes 1º "
Porto de registo: Lisboa, 26.11.1876

Construtor: Hugh Parry & Genros, Ginjal, 1867
ex "Princípe D. Carlos" - 1867-1876
Armava em escuna, casco de ferro, movido por rodas.
Tonelagens: Tab 78,- to > Tal 45,- to
Comprimentos: Ff 33 mt > Pp 21 mt > Bc 3,7 mt > Ptl 2,- mt
Ignora-se qual o destino.

Postal de Mértola com o "Gomes 1º" fundeado no Guadiana

Detalhe do postal anterior

" Gomes 2º "
Porto de registo: Lisboa, 10.02.1875

Construtor: Roberts & Cº., Seacombe, Inglaterra, ??
ex "Ballina" - Irish Sea Passenger Steamers, ??-1875
Armava em iate, casco de ferro, proa direita e popa redonda.
Tonelagens: Tab 78,- to > Tal 166,- to
Comprimentos: Pp 41,50 mt > Boca 5,80 mt > Pontal 3,00 mt
Adquirido por Alberto B. Centeno, nome "Algarve", 1885-1886
Vendido à Armada- Alfândega Lisboa, nome "Açor", 1886-1934
Vendido para demolição em 1934


O "Açor" ex "Gomes 2º" na Horta - postal da Armada

" Gomes 3º "
Porto de registo: Lisboa, 21.10.1876

Construtor: Winsford, Colchester, Inglaterra, 1875
Aquisição directa ao estaleiro pelo preço de 2.400 libras.
Convés com salto, casco de madeira, movido por rodas.
Tonelagens: Tab 56,- to
Comprimentos: Ff 25,0 mt > Boca 3,60 mt > Pontal 1,60 mt
Em Julho de 1910, o casco do navio encontrava-se encalhado na praia de Vila Real de Santo António, à venda para demolição.


" Gomes IV "
Porto de registo: Lisboa, Maio de 1884

Construtor: Dobson & Charles, Grangemouth, Inglaterra, 1882
ex "Strathcarron" - 1882-1884
Tonelagens: Tab 420,- to > Tal 292,- to
Comprimentos: Pp 47,40 mt > Boca 4,90 mt > Pontal 3,20 mt
Vendido a José de Sousa Maciel (Empreza de Navegação do Rio de Janeiro), em 1901. Mudou o nome para "Murupy", tendo ainda navegado por mais de 20 anos.


" Gomes 5º "
Porto de registo: Lisboa, 04.01.1887

Construtor: Burrel & Son, Dumbarton, Escócia, 1883
ex "Toreador" - Baird & Brown (W. Cunlife - W. Yeoman), 1883-86
Tonelagens: Tab 435,- to > Tal 310,- to
Comprimentos: Ff 55,90 mt > Boca 9,00 mt > Pontal 4,00 mt
Naufragou após encalhe nas pedras Sorlingas, devido a denso nevoeiro em 09.07.1888. Os 18 tripulantes salvaram-se.


" Gomes VI "
Porto de registo: Lisboa, 26.04.1889

Construtor: John Elder & Co., Glasgow, Escócia, 1875
ex "Barnsley" - Manchester, Sheffield & Lincolnshire, 1875-1889
Tonelagens: Tab 575,- to > Tal 327,- to
Comprimentos: Pp 56,40 mt > Boca 8,20 mt > Pontal 4,60 mt
Vendido a J. Soares Franco, 16.02.1905-06.03.1905
Vendido a João Fonseca e Sá, 06.03.1905-Dezembro de 1905
Vendido à Emp. Nac. de Navegação, nome "Lobito", 1906-1909
Naufragou após encalhe no Sul da Ilha do Maio, em Cabo Verde, em 04.02.1909. Não há registo de vitimas.


O "Lobito" ex "Gomes VI" no serviço de cabotagem em Angola
imagem editada por Eduardo Osório , Luanda


" Gomes 7º "
Porto de registo: Lisboa, 1891

Construtor: Hall Russel & Co., Aberdeen, Escócia, ??
ex "Banchory" - Grampian Steamship Co., Ltd., ??-1891
Tonelagens: Tab 576,- to > Tal 372 to
Comprimentos: Ff 53,20 mt > Boca 7,90 mt > Pontal 4,40 mt
Naufragou após encalhe na barra do rio Douro, em 01.03.1893, salvando-se a tripulação.


" Gomes VIII "
Porto de registo: Lisboa, 01.05.1893

Construtor: Edwards Shipbuilding Co. Ltd., Newcastle, Ing., 1891
ex "Montague" - Merchant Banking Corp., 1891-1893
Tonelagens: Tab 645,- to > Tal 485,- to
Comprimentos: Ff 53,90 mt > Boca 8,50 mt > Pontal 4,30 mt
Naufragou após encalhe no baixo Chaldrão, meia milha a Norte das Berlengas devido a nevoeiro cerrado, em viagem do Porto para Lisboa, sob o comando do Capitão Manuel da Costa. O navio transportava 32 passageiros que se salvaram, havendo contudo a lamentar a morte de 1 tripulante.


O "Gomes VIII" a entrar na doca do primitivo porto comercial
de Viana do Castelo


Documentos


O título de transporte, vulgarizado como conhecimento de embarque

A publicidade através dos vespertinos, publicitando a chegada dos navios, quantas vezes enchendo por completo as páginas dos principais jornais.


O bilhete postal com o aviso da chegada do navio, avisando ter espaço disponível para meter mercadoria, sistema adaptado por muitas companhias e que foi prática comum durante muitos anos.

6 comentários:

José Decq Mota disse...

Exmº Senhor: A descoberta do seu blogue foi para mim um achado muito valioso. Trata-se de um excelente trabalho com interesse para todos os amantes do mar e dos navios. Peço-lhe que continue.
Permito-me entretanto observar que a legenda da bela foto da Canhoneira Açor (ex- Gomes II)diz que ela está ancorada em Lisboa, quando na verdade está ancorada no porto da Horta-Açores, que é a minha terra. Com os meus cumprimentos e irreprimivel admiração pela altissima qualidade do "Navios e Navegadores". José Decq Mota

reimar disse...

Caro Sr Josá Mota,
É com prazer que o vejo a navegar neste mar. Entretanto já efectuei a respectiva correcção quanto à localização no navio "Açor". Pura distração a merecer a chamada de atenção, principalmente porque fiz diversos passeios na Espalamaca, no Cruzeiro e no Expresso, sempre com destino a São Roque e às Velas, meus paraísos de eleição.
Um grande abraço, Reimar

JOEL MACHADO disse...

Boa tarde.
Estou a produzir um documentário de vídeo subaquático sobre o naufrágio do Gomes VIII.
Já tenho a recolha de imagens subaquáticas quase pronta, mas necessito de mais fundamentação teórica sobre a sua história.

Por isso, venho por este meio solicitar-lhe que me envie os dados que possui sobre o mesmo e as fontes de onde os retirou.

O meu e-mail: joelfmachado@gmail.com

Desde já agradeço o seu contributo.

Mariana Alcoforado disse...

Venho agradecer-lhe a vastissima informação que divulga no seu blogue sobre Alonso Gomes e a sua companhia de navegação "Frotas nacionais - Alonso Gomes & Cª". Já em tempos escrevi sobre Alonso Gomes e as peripécias "nauticas" dos seus herdeiros na carreira do Guadiana e, sinceramente, desconhecia a origem e a dimensão do negócio desse grande empresário do século XIX. Interessar-me-ia, por agora, saber onde se encontra a documentação que consultou, se é sua ou de algum outro colecionador ou de arquivo oficial. Cordiais cumprimentos e muito obrigado pelo seu excelente estudo. Atentamente Leonel Borrela

Pedro Pinto disse...

Bom dia, apreciei muitíssimo a qualidade da informação. Sabe se no Porto o José de Sousa Faria já estava activo naquela morada antes de 1884? Tem conhecimento de outros agentes nesse Muro dos Bacalhoeros? Obrigado. Pedro Pinto (CEH-UNL)

reimar disse...

Caro Sr. Pedro Pinto,
Para sua informação é de supor que a firma de José de Sousa Faria já estivesse activa antes de 1884. Para ter a certeza absoluta teria de pesquisar nos jornais da época, o que poderei fazer, mas não saberei dizer quando. Havia efectivamente outros agentes de navegação sediados no Muro dos Bacalhoeiros, que é ainda hoje um local privilegiado de observação sobre o rio Douro.
Muitos cumprimentos,
Reinaldo Delgado