terça-feira, 4 de março de 2014

Histórias da pesca e do comércio


Retratos Figueirenses!

Figueira da Foz, 15 de Dezembro – Uma grande desgraça ia enlutando ontem muitas famílias desta vila (hoje cidade). A Providência Divina, com o auxílio de alguns arrojados pescadores, permitiram, porém, que de tantos desgraçados só houvesse a lamentar uma vítima, que deixou a esposa na viuvez e os filhos órfãos! Eis o que aconteceu:
Fora da barra, que está má (é difícil saber quando esteve boa), já andavam há dias uma galeota inglesa, a “My Queen", com ferro para a ponte do Mondego, e os dois iates do abastado comerciante da praça figueirense, o sr. Manoel José de Souza, denominados “Libania & Adelaide”, vindo de Lisboa, e o “Voador do Mondego”, procedente da ilha de S. Miguel.
O tempo era medonho: os sucessivos aguaceiros de O.N.O. (Oeste-noroeste) – pura travessia – parecia que tudo levavam pelo ar, e as vagas do mar, que se encapelavam umas sobre as outras, mostravam a quase impossibilidade de qualquer navio lhes resistir!
Nestas circunstâncias em ambos os iates resolveram, em consulta, entrar a barra, visto que fora dela lhes era duvidoso sobre-estarem, principalmente o “Libania & Adelaide”, que já o pano de proa trazia em estilhaços. Por volta da 1 hora ambos deitaram a proa à barra; pouco depois estava o “Libania & Adelaide”, sobre o banco, onde uma montanha de água lhe partiu o traquete, atravessando-o e levando consigo o infeliz Isaac Rodrigues, capitão do mesmo.


Identificação do iate “Libania & Adelaide”
Armador: Manoel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/T - Iic.: H.C.W.S. - Registo: Figueira da Foz
Construtor: Desconhecido
Arqueação: 113,000 m3
Propulsão: À vela
Naufragou no dia 14 de Dezembro de 1872

Que quadro horrível e de desespero para os espectadores, que lhe não podiam valer! O navio desgovernado e sem pano sobre o banco de areia, onde quase se confundia com as próprias ondas! Pouco depois o mar safou-o daquele precipício, arremessando-o de encontro ao cabedelo, onde já se encontravam postados uma porção de pescadores do lugar, que com a maior coragem, dedicação e sangue-frio salvaram com um cabo de vai-vem não só todos os tripulantes que restavam como até o cão!
Cabe na oportunidade dizer que se lamenta e lamentará que o governo de Sua Majestade, a Câmara Municipal ou mesmo a Associação Comercial não criem um prémio pecuniário para estes infelizes, que, mortos de fome, exaustos de forças, não vacilam em arriscar as suas vidas em socorro dos seus semelhantes! E não foi só isto: a alguns, que não tinham mais que o gabão e o fato do corpo, vimos tirá-los e com eles cobrirem os corpos dos náufragos!
A carga deste navio era importante; constava de açúcar, aduela, madeira de Flandres e encomendas; quase toda está segura, ainda que não no seu valor; o barco não. Durante a maré da noite salvou-se bastante, bem como parte do aparelho; na enchente, porém, o mar levou o fundo do iate, perdendo-se o resto. Os interessados devem aos proprietários muita dedicação e óptimos serviços, sem os quais as perdas seriam talvez completas.
O “Voador do Mondego”, que vinha para a barra na popa do outro, encalhou também sobre o banco, e ali, como o “Libania & Adelaide”, sofreu mil baldões, mas felizmente não perdeu o governo nem pano, o que fez com que, livre do banco, viesse fundear no Mondego sem mais avaria que a falta de algumas folhas de cobre, que deve ter perdido. Este navio estava seguro, mas a carga não. Este quadro horroroso fez recordar muita gente do drama «Pedro Sem». Em tempo, convém sublinhar que as guarnições destes dois navios, composta de 17 pessoas, eram quase todos da Figueira.

Identificação do brigue “Voador do Mondego”
Armador: Manoel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/T - Iic.: H.F.R.V. - Registo: Figueira da Foz
Construtor: Desconhecido, Figueira da Foz, 23.10.1870
Arqueação: 289,306 m3
Propulsão: À vela

Ontem de manhã entrou no porto, também com muito risco o caíque “Senhor Jesus das Almas”, mestre Manuel da Cruz, procedente de Lagos com pescaria. Na proa deste vinha da mesma procedência e com a mesma carga o pequeno caíque “Flor de Maria”, mestre João Gomes, mas que se não viu. O mestre Manuel da Cruz, que é proprietário de ambos os caíques, supõe-no em Viana ou então perdido.
A galeota “My Queen”, que estava à vista, mas distante, não devem ter visto a bandeira de franca entrada que lhe içaram, creio que unicamente com o intuito de salvar as vidas. Este navio teve uma viagem mais atribulada do que se pode imaginar: saiu há cem dias da Suécia, bateu num banco no canal de Inglaterra, arribou a Plymouth, onde, para reparar as avarias, fez avultadíssima despesa, motivos esses que levaram ao suicídio do seu capitão; depois veio para a Figueira e nas águas da barra tem apanhado todo o temporal, que já dura há vinte dias! No dia 8 do corrente a galeota já esteve quase perdida próximo do Cabo Mondego; para não se perder valeu-lhe o mar não ser mau e o salva-vidas ir espiá-la para fora até poderem continuar a velejar. Insistirá o seu novo capitão pela entrada do navio neste porto?
Sei que não consigo evitar o reconhecimento público pela minha impertinência, portanto fiquem crentes que não hesitarei em continuar a pedir os aprestes para transmitir de terra os cabos de vai-vem. Se o fundão permitiu que o “Libania & Adelaide” encalhasse tão próximo que dele pudessem dar o cabo para terra, não sucede outro tanto a maior parte das vezes. E quando, devido a tal incúria, haja vitimas a lamentar, com o meu humilde brado protestarei e rogarei a quem mais autorizado o faça, contra aqueles que tem obrigação de prevenir desastres desta natureza.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 17 de Dezembro de 1872)

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