Esta é a outra versão… Como sempre, a verdade apresenta vários aspectos. Neste caso há dois; o do náufrago e o do tripulante.
Não se entendem, não tem pontos de contacto, para dar o sinistro, na espessura do nevoeiro, noite ainda, sugerindo-o na sua grandeza trágica, que tão vivamente impressionou o país. Os oficiais do “Highland Hope” estão divididos por vários hotéis. É difícil encontrar um que fale à vontade, claramente, não evitando os escolhos, como se usa na boa navegação… O mutismo dos ingleses é um lugar-comum, que nem por isso honra a superioridade daquela raça.
Neste caso até podia ser ou supor-se uma desculpa. Depois de várias tentativas infrutíferas, foi possível falar com o engenheiro-chefe do navio, no Hotel Borges. Estava comendo um bife, rodeado de uma dezena de oficiais, que ouviram toda a conversa, sublinhando gravemente certas passagens, com inclinações de cabeça.
Começamos pelo princípio que não é paradoxo, porque muitas vezes começa-se pelo meio, ou pelo fim, abrindo assim situações de continuidade, que alteram a lógica. Desta vez, a opção recaiu por questões directas. Perguntas e respostas cabais. A mais importante de todas – que agora parece estar esclarecida – era esta:
- Como se deu o encalhe do transatlântico?
Sem uma
nuance.
- O “Highland Hope” encalhou de vante, ficando na posição de «cavalo». Isto é, a proa, cravando-se nos rochedos, levantou-se ao mesmo tempo que a ré, encontrando fundo no mar mergulhava, ameaçando o navio de ir a pique. O encalhe produziu um forte ruído, sendo os outros que se ouviram devidos à oscilação do navio.
- Qual a razão por que o comandante deu ordem para abandonar o “Highland Hope”?
- Por temer, em virtude das circunstâncias, que ele fosse a pique. O perigo parecia iminente, tanto mais que o mobiliário era fortemente sacudido contra as paredes.
- Reparou nisso?
- Reparei e acordei. Imediatamente ocupei o meu posto, assim como parte do pessoal de máquinas, que estava em período de descanso.
- A que horas se deu o sinistro?
- Minutos antes das 5 horas, procedendo-se logo ao salvamento dos passageiros, que apenas demorou um quarto de hora.
- E o desembarque foi feito em boas circunstâncias?
- Tudo em ordem, com a maior calma e sem grandes confusões. Não é verdade que os tripulantes do “Highland Hope” tenham preterido os passageiros nos salva-vidas, que estes não tivessem pessoal de remo, e ainda que se tenha dado preferência aos viajantes ingleses.
- Quem desembarcou, então, primeiro?
- A terceira classe, quase toda composta por espanhóis. Cada baleeira levava quatro ou cinco marinheiros. Os oficiais conservaram-se a bordo até final, com o seu comandante que, apesar de ser já idoso, é considerado como um dos mais cuidadosos e competentes da Companhia.
«Pessoalmente, conheço-o há mais de vinte anos».
- Mas, diz-se que ainda havia passageiros a bordo, depois do comandante sair…
- Não é verdade! A ronda fez-se e, tanto assim, que um dos oficiais aqui presentes – confirmado – teve tempo de salvar cinco cães.
- A causa do sinistro?
- O nevoeiro.
- Há esperanças de salvar o navio? Tem algum rombo?
- Suponho que deve ter aberto água na proa. No meu entender é possível safá-lo, embora com dificuldade.
- Como se portaram os pescadores portugueses?
- Admiravelmente. O seu auxílio foi precioso, coadjuvando os nossos esforços.
- O que esperam agora?
- Estamos a aguardar ordens de Inglaterra, devendo esta tarde avistar-mo-nos com o cônsul do nosso país.
Apesar da insistência, o entrevistado, muito à inglesa, despediu-se, dizendo:
- Nada mais tenho a declarar.
Informações do comandante do “Patrão Lopes”
Do vapor de salvamentos “Patrão Lopes”, que está a prestar assistência ao “Highland Hope”, o seu comandante enviou hoje ao Ministério da Marinha um rádio, dizendo que o navio encalhara ao norte do Farilhão e a nordeste, entre Farilhão e a rocha Ferreiro de Barlavento, tendo adernado uns 10 graus a estibordo e à popa, na direcção nordeste.
Pela sondagem feita na baixa-mar, do lado de bombordo, avante para ré, 4 a 7 braças. Esta última altura ao portaló, havendo pois de altura no poço avante da 3ª classe e na alheta, 8 braças. A estibordo, devido ao estado do mar, só permite obter a altura de água na proa, na altura da 1ª classe, variando de 3 a 5 braças, tendo-se encontrado 7 braças na altura do poço à ré.
Informa que a bordo do vapor viu muitos marítimos de Peniche, que declararam que estavam ali a salvar roupas e bagagens, tendo verificado pelo convés que as malas se achavam arrombadas e as roupas dispersas, dando todo o aspecto de haver pilhagem, mandando retirar os marítimos, que deviam estar ali por ordem superior.
Em vista do navio não ter ninguém a bordo, passou o comando do “Patrão Lopes” a exercer uma aturada vigilância, tendo sido mandada para bordo do navio naufragado uma força do seu navio, comandada por um oficial e o referido comandante vai de novo inspeccionar o vapor, a fim de observar se o navio pode ser desencalhado.
Junto ao navio acha-se também o navio de salvamentos dinamarquês “Valkyrien”, que, segundo uma nota do armador, se propõe ocupar o navio, mas que o comandante do “Patrão Lopes” não permitirá, em virtude de se opor o direito marítimo.
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A duquesa Mary Hamilton seguiu hoje para Paris no «sud-express».
Os passageiros da 1ª e 2ª classes seguem viagem no vapor “Asturias” e os de 3ª classe no vapor “Darro”.
Amanhã chega a Lisboa o capitão Howe, representante do Lloyds.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 20 de Novembro de 1930)