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domingo, 8 de março de 2009

Histórias do Portugal marítimo


Chegaram os Russos!…
3ª parte

O tanque “Neftesyndicat S.S.S.R.“ era um navio novo, encontrando-se a realizar uma das suas primeiras viagens, com um carregamento completo de benzina, previsto para ser descarregado no porto de Amesterdão. Mantendo-se na rota programada, o capitão do navio aproximou-o ligeiramente de terra, no sentido de estabelecer a posição com rigor, através da localização dos faróis espalhados ao longo da costa. Depois de passar por Vigo, avistou ao largo o iate “Famalicão III“, sensívelmente em frente ao porto da Corunha, estabelecendo contacto com ele face aos insistentes apelos de socorro. Depois de manobrar e passar cabo de reboque, interrompeu a viagem rumando a sul, com destino a Leixões, para trazer o iate até ao porto nacional mais próximo, onde deixaria a embarcação em segurança.
Contactadas as autoridades portuguesas, meteu o respectivo piloto para ser auxiliado na manobra portuária e ancorou. Conforme solicitado, seguiu para bordo o Oficial Adjunto do Capitão do Porto, 2º Tenente Benigno de Carvalho, dois agentes da Polícia Marítima e o Sr. Diniz Leuschner, com funções de interprete, logo se estabelecendo uma rigorosa incomunicabilidade com o navio e seus tripulantes. Pretendia o capitão Russo ter assinado, local e oficialmente o respectivo protesto de mar. Preenchidas as formalidades, o capitão deu por findo o motivo que o trouxe até ao porto, pelo que logo que possível o navio estaria preparado para sair, retomando a viagem.
Apesar de muita gente ter acorrido ao anteporto de Leixões para observar o vapor, a muralha de incomunicabilidade montada para o efeito, também em terra, manteve afastados todos os curiosos. Não conseguiram contudo as autoridades impedir que esta escala do navio russo, tomasse foros de acontecimento de vulto, marcando um facto histórico digno de menção. Disse quem esteve perto da tripulação russa, terem ficado bem impressionados pelo seu aprumo e apresentação, achando que o navio era moderno, poderoso e com muito boa aparência.
Na hora da despedida o capitão do navio sublinhou ter ficado surpreendido pela inusitada falta de cortesia e pela forma grosseira como foi evitado o contacto com a tripulação do iate, que tinham acabado de salvar. Não somos selvagens, adiantou, selvagens foram os outros que lhes recusaram o direito de serem assistidos…
Com o navio já em marcha para sair, à passagem pelo iate, ouviu-se a sirene do tanque soar várias vezes, em sinal de despedida, cumprimento retribuído pelo apito do “Famalicão III”. Todos os tripulantes desceram à coberta, acenando com os seus lenços, num adeus particularmente singelo e sentido. Nesse momento foi quebrada a barreira política de ambos os países e levantado bem alto os grandes valores da solidariedade e amizade, que um pouco à volta do mundo é ainda apanágio dos valorosos trabalhadores do mar.