terça-feira, 1 de maio de 2018

História trágico-marítima (CCLII)


O naufrágio do vapor Deister", na barra do rio Douro
1ª parte

Grande tragédia marítima
O mar engole um vapor e mata os seus 25 tripulantes
Como se deu a tragédia – Os socorros – Uma marcha para a morte
Derradeiras esperanças – A resignação estóica dos tripulantes
O chefe do distrito e o naufrágio – Consternação geral
Estão de luto todas as almas sós!
Pesam sobre nós, como abóbada de chumbo distendida por aí fora, o manto negro da morte! Vinte e cinco homens, vinte e quatro alemães e um português perderam a vida, ali na Foz, à entrada da barra, após uma luta titânica com os elementos em fúria!
Que se diga isto baixinho, como numa prece sentida, para bem se traduzir a enorme consternação que vai em todas as almas que assistiram, esmagadas, vencidas, ao pavoroso drama cuja visão será eterna nos olhos e na memória de toda a gente.
O oceano amigo, que tantos favores nos tem prestado; que nos deu o caminho da glória e que às vezes nos beija as praias de tão manso como um lago; esse mar sem fim que dá o pão das nossas gentes da costa e que sempre foi amigo, tem momentos de cólera insuperável e então infunde pânico e provoca as maiores tragédias da vida!
Domingo, ao amanhecer, o mar estava assim. As ondas, formadas em cordilheiras fantásticas, vinham de longe, rolando como monstros enraivecidos, até aos rochedos das margens, neles se desfazendo com espantoso fragor.
O vento assobiava, em fúria louca, como víbora picada, em todas as direcções; e a chuva, constante, ininterrupta, completava o quadro horrendo, que tinha como fundo a negridão distante do nevoeiro denso, donde vinha um rumor surdo que mais parecia a voz macabra de animal fabuloso do que a trágica expressão dos elementos em fúria!
Por entre este mar assim, como borboleta dourada atravessando uma fogueira crepitante, passa, a caminho do rio Douro, um vapor que leva dentro 25 homens.
A água enraivece-se. E, como que num desejo de vingança, atira-se aos inditosos mareantes, embrulhando-os nas suas ondas e matando-os todos, a dois passos de terra firme, como se tivesse havido a preocupação de os deixar ver terra e muita gente para a agonia ser maior e a saudade picar mais!
Há muito que não lembra uma tragédia assim. E cem tragédias que tenha havido, nunca se morreu em circunstâncias mais custosas do que agora! São 25 homens, a duas centenas de metros de terra, metidos num vapor a desfazer-se, com os olhos especados nas margens firmes, vendo milhares de pessoas – e não achando uma que lhes desse a mão, arrastando-os daquele cativeiro!
São 25 homens durante 6 horas e meia, naquelas circunstâncias, gelando no corpo e na alma, à espera da morte, sem a menor esperança! 25 homens que o mar engoliu, de um trago, e que, agora, vai vomitando, aos poucos, amachucados, mortos…
Que Deus, ao menos, tenha salvo as suas almas, já que o poder dos homens lhes não valeu aos corpos!

Como se deu a tragédia
No dia 31 de Janeiro entrou em Leixões, vindo de Antuérpia, com carga diversa consignada à firma W. Stuve & Cª., desta cidade, o vapor alemão “Deister”, que ali se recolheu para aliviar carga a fim de, em seguida, demandar a barra do Douro. Depois, no sábado passado, o “Deister” tentou entrar no Douro, tentativa que nem chegou a levar por diante em virtude do forte e denso nevoeiro que vedava o horizonte.
Mas, Domingo, manhã cedo, levantou ferro, dirigindo-se para a barra, com o piloto Jacinto José Pinto a bordo, tentando demandá-la por voltas das 8 horas e meia.
Porém, ao chegar em frente à «Ponta do dente», desgovernou para bombordo, tendo largado, então o ferro de estibordo. Pouco depois, obedecendo às manobras do seu comandante, o “Deister” endireitava para o canal, tendo de abandonar o ferro.
Mas, já quando vinha pela barra dentro, voltou a guinar para bombordo, largando, nesse momento o segundo ferro. E, então, todos os cuidados parece terem sido dirigidos no sentido de endireitar o vapor para o canal, operação essa em que se empregaram todos os esforços.
Quis a fatalidade que o navio, após manobras feitas nesse sentido, depois de terem suspendido o segundo ferro, fosse encalhar na restinga do Cabedelo, tendo, na ocasião, ao que parece, batido com fragor nalguns rochedos, que lhe abriram largo rombo na proa.
O mar estava em fúria. As ondas, enraivecidas, erguiam-se em montanhas colossais, agitando, no seu seio o “Deister”, como se tratasse dum brinquedo de folheta. Por seu turno a chuva, inclemente, completava aquele cenário de tragédia, caindo ininterruptamente. Então, o capitão, medindo o perigo, mandou pôr as máquinas a apitar, lugubremente, enquanto o telegrafista, à pressa, supõe-se, emitia desesperados S.O.S.
Os socorros
Logo que o “Deister” se localizou, com grave perigo, na restinga, foi dado alarme, para ele se dirigindo, a toda a pressa, por entre montanhas de ondas, o rebocador “Burnay II”, que se encontrava na Cantareira. Porém, a despeito da coragem dos seus tripulantes, o “Burnay II” nada conseguiu porque, a certa altura, os vagalhões redobraram de intensidade, a pontos que o barquito se tornou inútil.
Mais feliz, e beneficiando, de um momento em que as serras de água se haviam afundado, o rebocador “Júpiter”, que também apareceu logo, atreveu-se quanto pôde, conseguindo passar uma amarreta à proa do “Deister””. A fatalidade perseguia-os e, assim, a amarreta que podia ter sido uma tábua de salvação, partiu-se.
Ante este desespero, nova amarreta foi lançada. Esta vingou, tendo o rebocador puxado o vapor pela parte sul, conseguindo que ele desse de si. Mas, também esta amarreta, precisamente quando já era uma esperança alentadora, quebrou e com ela o entusiasmo de todos.
A esse tempo, o mar redobrava a sua fúria, erguendo mais e mais as suas ondas furiosas. Já não era possível uma terceira tentativa, e os rebocadores afastaram-se para não serem engolidos ou desfeitos contra o “Deister”, que já era pasto das águas.
Foi nesta altura que, de terra, os pilotos lançaram o primeiro foguetão, pelo qual foi estabelecido um cabo de arame para o cais do «Touro», sendo amarrado ao peoris que ali se encontra.
De bordo começaram a esticar esse cabo; e, a breve trecho, conseguiam desencalhar o “Deister”, que seguiu pela barra fora. E, então, a breve trecho, foi que o capitão e tripulantes perceberam que essa retirada era…
Uma marcha para a morte
Já fora da barra, safo, portanto, e entregue às ondas furiosas o “Deister” começou a afocinhar a prôa, motivo porque de lá começara a apitar, sem parar, num pedido de socorro que era já um grito de angústia, arrancado no estertor da morte.
E o monstro, qual paquiderme ferido de emborcada, ia abaixando a prôa, enquanto num desespero atroz, a tripulação tentava numa manobra habilidosa, na esperança de encalhar o vapor junto à praia do Ourigo, onde ficariam em lugar seguro. Era já tarde, infelizmente.
O “Deister”, que se supõe ter sofrido grandes rombos no costado, antes mesmo que disso se apercebesse os seus tripulantes, meteu-se de cabeça, para o fundo, deixando de fora apenas a ré e a mastreação, onde os seus 25 tripulantes se juntaram à espera de um salvamento que, afinal, nunca chegou.
Desfeita a esperança de atirar o vapor para a praia do Ourigo e impossibilitados de qualquer manobra, porque a ré estava tão empinada que a hélice já não apanhava a água, aqueles desgraçados viram, impotentes, o “Deister” a descair para sul até dar no cabeço de sudoeste da barra, onde ficou até ao momento de se submergir de vez.

Últimos socorros – Derradeiras esperanças
Após esta fatal retirada para o mar largo, que nunca devia ter acontecido, desde que o vapor esteve dentro da barra em perigo grave, a catástrofe avolumou-se, todas as almas começando, intimamente, a rezar pela sorte daqueles infelizes.
Num último arranco de humanitarismo, saíram de Leixões os rebocadores “Lusitânia” e “Júpiter”, este levando a reboque o salva-vidas, que tentaram aproximar-se ainda dos náufragos. Debalde. A natureza do mar, que parecia querer vomitar um mundo de água, em goles colossais, sobre tudo e contra todos, não consentiu, sequer, que aqueles barcos tentassem aproximar-se.
Simultaneamente, de terra, os Bombeiros Voluntários do Porto e de Matosinhos-Leça, atiravam, em direcção ao “Deister” foguetões, e mais foguetões, na esperança que algum pudesse levar às mãos dos pobres marinheiros a corda da salvação.
Tudo em vão. A raiva do mar, a impetuosidade das ondas e à inclemência da chuva outro contra se juntava: era o vento que, soprando forte e agreste, brincava com os foguetões, desviando-os de modo que nenhum atingiu o alvo.
Enquanto isto se fazia, lá longe, muito ao largo, o vapor alemão “Stahleck”, em resposta ao S.O.S. do “Deister”, tentava aproximar-se. Mas era impossível. Sós, o vapor e tripulantes, ficavam, resignadamente, de olhos postos na terra que branquejava ali perto com os corações alanceados.

A resignação estóica dos tripulantes
Desfeitas as últimas esperanças, quando já não restava a mais pequena ilusão, os 25 homens que se encontravam no “Deister”, com uma coragem espartana e uma resignação inaudita, despiram os seus casacos, vestiram os coletes de salvação e prepararam-se, enfim, para o último lance.
Ao tempo, as ondas, em cavalgadas ciclópicas que nos lembravam as investidas dos monstros fabulosos, atravessavam o “Deister”, de lado a lado, limpando tudo o que nele encontravam. E, então, os 25 inditosos, unidos como um só homem, numa disciplina que comove, juntaram-se na ré, único ponto, como foi dito, do vapor onde a água, se chegava, pelo menos não parava.
E, ali, batidos pela chuva inclemente, cortados pelo vento anavalhante e envolvidos, a espaços, pelos vagalhões medonhos que os fustigavam, esses desgraçados estiveram, horas e horas…

À espera da negra morte
Não há pena, seja ela a mais capaz, que possa interpretar aquele momento de angústia, aquelas horas de atrocíssima incerteza!
25 homens, cheios de vida, com as ilusões e sonhos de todos nós, ali, em pleno mar, apinhados num espaço de 3 ou 4 metros, sem um recurso, a mais leve esperança de salvamento! Bastava isto, para nos estalar os nervos e comover as almas mais duras.
Porém, se considerarmos que o desastre se deu à vista de terra, a dois passos do Passeio Alegre, pode dizer-se que a tragédia redobra, quintuplicando a angústia daqueles desgraçados!
Calcule-se o debate íntimo, a saudade compungente e o desespero atroz que não teria acometido esses pobres homens, ao olharem lá do mar, por entre os vagalhões medonhos que os iam comer, a terra linda da salvação, e os milhares de pessoas que, à beira mar, assistiam, desesperadas, à cena lancinante – sem nada poderem fazer, sem nada poderem tentar!
Que dor imensa, como poucas vezes se há-de ter sentido, deve ter sido a do pobre piloto, que era ali da Foz, e que, durante as longas horas em que aguardava a morte, pôde descobrir os contornos da casinha onde, às noites, repousava no seio abençoado de seus quatro filhinhos tão queridos e da esposa dedicada!
Pobre homem! Morrer a pouco e pouco, de pé, entre as ondas bravas, olhando a terra querida ali tão perto, fitando milhares de concidadãos e adivinhando os tectos do seu lar, - sem poder ao menos, fazer ouvir um derradeiro adeus! Que tragédia lancinante!

Um embrulho colossal e macabro
Pertence a Deus, neste momento, o segredo daquelas horas indescritíveis, que vão desde que o “Deister” encalhou até que desapareceu. Porque ninguém pôde estabelecer com ele o mais insignificante contacto, resultando, por conseguinte, meras hipóteses ou simples produtos de observações à distância, tudo quanto se diga dos últimos momentos daqueles pobres desgraçados.
Porém, graças às observações feitas, de local apropriado, com um óculo de grande alcance, reconstituir o drama dos 25 infelizes. Contemos, pois, o que nos foi posto ante os olhos assombrados, por um jogo de lentes poderosas.
Pouco depois dos tripulantes se fixarem na ré do navio, à espera da morte inevitável, o mar, agitando-se como víbora enraivecida desenleou duas ondas formidáveis, que se ergueram 5 ou 6 metros, avançando em direcção ao vapor, de aspecto horrendo. Ao verem aquele mar erguido, numa atitude ameaçadora, capaz de arrasar um mundo, os pobres homens contraíram-se, quebrando os joelhos, como para orar, e, de mãos erguidas, aguardaram o embate.
E os vagalhões medonhos, entrando pela ré, varreram-na de fora a fora, arrastando, num embrulho colossal e macabro, 21 homens, que foram aos trambolhões, nas dobras apertadas das ondas, pelo mar dentro.
Daí a pouco, o óculo ajustado mais para o largo, traria aos nossos olhos assombrados num misto de terror e emoção, aquelas 21 cabeças, debatendo-se com o mar, num esforço colossal, que só visto se acredita.
Mas, o seu estado de fadiga e o profundo abatimento moral em que deviam ter caído durante aquelas horas inigualáveis, em breve terminavam por os vencer de vez. Mais uns minutos e nunca mais se viram…
Uma atitude sintomática
Dos três desgraçados que se refugiaram na torre do mastro da proa, um ao ver os dois companheiros levados pelas vagas e compreendendo que igual sorte lhe cabia, dirigiu-se para a ré e, num rasgo de coragem e emoção, lançou a mão à adriça da bandeira da sua pátria, descendo-a até meia haste!
Depois, num gesto de desprezo pela vida e numa solidariedade formidável com os camaradas e compatriotas, atirou-se ao mar, juntando-se com os outros, com eles enfrentando, até à morte, as fúrias do mar! Este gesto, observado pela lente dum óculo poderoso, tinha qualquer coisa de heróico, comovendo profundamente.

O princípio do fim
Quando aquelas duas ondas formidáveis, caíram como duas montanhas sobre a ré do vapor, embrulhando 21 dos tripulantes do “Deister”, quis o destino que quatro escapassem a esse primeiro embate, para mais extenso ser o seu drama colossal. E, assim, três dos que ficaram subiram para a torre do mastro da popa, ficando o outro, que se presume ser o supercargo, de nome W. Elster, completamente isolado pela água no cimo da ponte de comando.
Nesses lugares, ultimo reduto duma batalha perdida e que a todos traria a morte, estiveram, gelados de corpo e alma, vendo os 21 camaradas a morrer aos poucos entre as ondas, até às 3 horas e 20 da tarde, portanto durante quase 5 horas e meia!
Calcule-se, se é possível, o sofrimento desses desgraçados! Mas, não obstante, nunca desistiram. Às vezes, os vagalhões cresciam para eles tentando abocanhá-los. Mas os valentes, num esforço heróico, colossal, sobre-humano, firmavam-se nas grades, e, de cabeça, enfrentavam a fúria das ondas, cortando-as de meio a meio.
A luta foi memorável. Por fim venceu o mais forte. Tinha que ser. Podia lá um homem, para mais exausto e sem esperanças, domar a fúria dos elementos! Não. E, assim, - eram 3 horas e 20 minutos, precisos! – uma serra de água que ao longe se ergueu veio até eles derreando a mastreação onde os três se refugiavam.
E, então, viu-se uma cena compungente. Enquanto a torre se desfazia e os homens iam tombando, o outro que estava em baixo, na torre de comando, erguendo um braço, disse aos companheiros num agitar de mãos fúnebres, comovente, o último adeus!... E ficou sozinho...

O fim da tragédia
Ficou, como se viu um homem só. 24 viu ele serem lambidos pelas vagas. Pois este homem singular, extraordinário, não perdeu o ânimo. Era o super-cargo, W. Elster, que fez a guerra, tendo perdido até uma perna, motivo porque usava uma de borracha.
Este infeliz, agarrou-se, como náufrago que era, às grades da torre de comando e aí se conservou até ao fim de tudo, vendo descer o pano sobre aquela enorme tragédia. Bateu-se com a chuva inclemente, lutou contra as ondas enraivadas e, de olhos postos em terra, como se estivesse à espera duma tabua de salvação, não saiu dali enquanto teve onde se fixar. Mas, às tantas, uma cordilheira pavorosa que se diria ter sido feita por toda a água do mar, desabou sobre a torre de comando, onde ele estava, escangalhando-a como se fôra uma caixinha de sabão.
E só então é que o desgraçado se rendeu ao mar. Vêmo-lo cair, de joelhos, e erguer ao céu os braços numa prece. E depois, sumiu-se para não ser mais visto.
Consumatum est! Caíra o pano. De um vapor, cheio de rica carga só havia, como sinais de excelência, alguns bidões de gasolina e caixotes de madeira, vomitados na ânsia da morte. E dos 25 tripulantes – restava uma saudosa e trágica lembrança.

A multidão dispersa, orando!
Mal se deu a última derrocada, a multidão que das margens assistia à tragédia, percebeu que havia descido o pano sobre o último acto. E, então, foi como se por entre essas centenas de pessoas passasse uma rajada de neve que gelasse as almas! Silenciou-se tudo. Tudo emudeceu. As senhoras choravam tragicamente e nos olhos dos homens desciam lágrimas sentidas.
E, por entre a multidão, corria um sussurro fúnebre: - eram os crentes a rezar por aquelas 25 almas perdidas de um modo tão cruel. E a chorar e a rezar intimamente, debandou aquela multidão que, decerto, jamais esquecerá a formidável cena que presenciou.

O mar começou a arremessar à praia os cadáveres
Às 3 horas da tarde de Domingo, quando andavam na praia da Aguda os pescadores Sebastião da Silva e Joaquim Gonçalves Paquete notaram que nas ondas que iam desfazer-se na praia traziam, como que embrulhados na espuma, dois cadáveres.
Logo se meteram ao mar tentando apanhá-los, pois eram, de facto, dois corpos de homens que o mar para acolá ia arremessar. Mas no movimento da maré, em breve viram sumir-se um dos corpos, lançando mão, não sem custo, que a maresia era forte, ao que não desaparecera.
Era o primeiro cadáver dos desditosos náufragos do “Deister” arrojado à costa. Vinha nu, trazendo apenas um pé calçado numa bota preta. O corpo, extraordinariamente inchado, tinha indícios de uma violenta luta – combate titânico de horas, de momentos, quem sabe? – com o mar e com a morte. Contusões aqui e acolá, sangue na face semi-coberta de areia.
Era um homem robusto, alto, espadaúdo, rosto largo e cheio, cabelo aloirado em brosse, sombreado de bigode à americana. Era o tipo perfeito alemão, que por aí encontramos como turista ou como tripulante desta navegação que frequenta o Douro.
A expressão, se não fôra os olhos muito cerrados, as pálpebras quase ligadas, não definia a tragédia que vivera aquele homem possante, atlético, de carnes endurecidas do norte. Aparenta 40 anos.
Estava, quando o vimos, deitado numa maca no Posto de Socorros a Náufragos da Aguda, para onde fôra conduzido depois de entregue ao regedor de Arcozelo, autoridade a quem ficou confiado.
O outro cadáver visto, que o mar repuxara, chamara de novo a si, para o guardar ainda por quanto tempo, dizem os pescadores que trazia calças pretas e suspensórios claros. E como esse, 24 corpos que o mar ainda retém avaramente – toda a tragédia de Domingo, arrepiantemente dolorosa, a dor do homem habituado a vencer e a triunfar e que sucumbe obrigado a reconhecer a sua impotência, a sua pequenez diante da força indomável dos elementos, do formidável poder da Natureza crua.
E como que a formar um cortejo sinistro, destroços da carga do “Deister”, arremessados à praia aqui e acolá, numa miscelânea que era como os despojos da luta travada – caixotes com carrinhos de linha, dois contadores de luz eléctrica, um relógio-contador, um pneumático, dois fardos de papel, cinco bandeiras, uma caixa com envelopes comerciais…
Eram certamente da carga do “Deister”. As bandeiras, essas, enroladas como que em funeral, talvez tenham seguido os cadáveres para os amortalharem. Eram pedaços da pátria que em terra estranha os vinham beijar, numa caricia de mãe compungida, alucinada ao saber dos filhos mortos…
Mas a gente do mar só tem este como pátria. As vagas embalam por vezes os seus primeiros sonos e o último… Seus irmãos são todos os que no mar vivem, que ele conhece, que dele fazem a existência e nele encontram a morte…Por isso os pescadores da Aguda derramaram as suas lágrimas sobre aquele cadáver do seu irmão fulminado, caído, vencido no seu posto…
Lágrimas benditas essas em que há dor e revolta, vagas que valem as que os esperam num dia de temporal desfeito como o de Domingo!
Ontem, de manhã, pelas 7 horas, o mar arrojou à praia de Paramos o cadáver de um dos infelizes marinheiros, o qual foi recolhido pelo piloto da barra do Porto, sr. Elísio Pereira, que andava percorrendo a costa a fim de ver se o cadáver do seu infeliz colega aparecia. O sr. Elísio reconheceu o náufrago como sendo o 2º engenheiro maquinista do “Deister”, pois que o conhecia, quando esteve a bordo, em Leixões, no referido navio naufragado.
O sr. regedor de Paramos, logo que teve conhecimento do aparecimento do náufrago, que estava completamente nu, arranjou roupas para o vestir e mandou fazer o caixão, onde se encontra, para amanhã ser enterrado, mas só o será depois daqui vir o sr. cônsul da Alemanha no Porto, que telefonou ao cabo do mar sr. Silva, para não ser realizado o enterro antes da sua chegada.
A Guarda-fiscal encontra-se a vigiar a costa, por motivo deste triste naufrágio.

No consulado da Alemanha identificam-se os mortos
Com o intuito de obter informações, dirigimo-nos ao consulado alemão, sito nos escritórios da firma W. Stuve & Cª., firma comercial que, simultaneamente, é a agência da Neptun Linie, companhia de navegação que fretara o vapor “Deister”.
O sr. W. Stuve Júnior, filho do sr. cônsul da Alemanha, e procurador da citada agência, recebe-nos dispensando a mais apreciável gentileza, e esclarece:
O vapor “Deister” foi construído em 1921, nos estaleiros Howaldstwerke, em Kiel, e pertencia à firma Rabien & Stadtlander, do porto de Bremen. Esta é a terceira vez que, transportando mercadorias, vinha a Leixões e ao Douro, havendo, para esta viagem sido fretado pela Neptun Linie, de que somos agentes. Partira de Bremen, fazendo escala por Antuérpia, e transportava carga avulsa diversa, na maioria quinquilharias, brinquedos, gramofones e mais miudezas, toda ela destinada a Leixões – onde ainda descarregou uma pequena parte – depois seria o Porto, Lisboa e Setúbal.
A tão inesperada como lamentável tragédia veio surpreender-nos, logo às primeiras horas da manhã de Domingo e, pode crer, que a impressão dolorosa que conservo das cenas lancinantes não mais me passará da memória. Também a colónia alemã está profundamente consternada e de luto pela fatal ocorrência, que custou a vida a tantos compatriotas meus. E, não sei se já reparou, que somos acompanhados neste doloroso transe pela população do Porto e por todas as demais agencias das Companhias de Navegação estrangeiras, que conservam nas suas sedes as bandeiras a meia-haste. Creia, não me lembro haver assistido a catástrofe tão horrorosa como a de Domingo. Foi horripilante…
- E sobre as causas do sinistro, que opinião tem V.Exª.?
- Que quer que eu pense?! Ninguém poderá, com absoluta certeza, precisar quais os motivos que a tal levaram!
Nesta altura, o sr. Stuve Júnior, confirma a opinião corrente acerca das causas do desastre. E, acrescenta:
- Porque creio que a hélice do navio se tenha partido, eis aqui a causa principal, pois se assim não fosse o “Deister” podia ter apanhado a corrente e safar-se à primeira tentativa.
- E a tripulação?
- Era toda constituída por alemães, e não se encontravam a bordo mulheres algumas, como por aí pretendem propalar, dando à tragédia ainda maior valor do que ela, realmente e muito lamentavelmente já tem. Além da tripulação viajava a bordo, como encarregado da Companhia fretadora, o super-cargo Walter Elster.
- E da Alemanha, que dizem?
- Da triste nova imediatamente transmitida para o nosso país, ainda não tivemos resposta. E nada mais nos pode dizer o nosso simpático entrevistado.
Segundo a lista que nos foi gentilmente franqueada no consulado alemão, a tripulação do “Deister” era assim composta:
Capitão, August Becken; 1º oficial, Hermann Lerch; 2º oficial, Heinrich Behlmer; 1º maquinista, Georg Behrmann; 2º maquinista, Hermann Krag; 3º maquinista, Karl Radbrock; telegrafista, Fritz Gringmann; super-cargo da Neptun, Walter Elster; cozinheiro, Fritz Schildmuller; criado, Georg Muller; groom, Ernst Dura; carpinteiro, Friedrich Nitsch; marinheiros: Walter Reinke, Augustin Selitsch, Fritz Dorgeloh, Emil Horn e Arthur Kuhn; untador, Johann Fenska; fogueiros: Paul Tiebe, Max Steinle, Johann Hohmann, Leon Koralewski e Hinrich Bruns; e o moço, Georg Delfs.

A viúva e filhos do inditoso piloto
Como se depreende, a pobre esposa do infeliz piloto, fica agora, se dela não se cuida, nas mais penosas dificuldades. Com quatro encantadoras crianças, verdadeiros botões de rosa mal desabrochados ainda, o mais velho dos quais tem apenas 6 anos, sem o braço protector do pai amigo e extremoso que o mar lhes roubou, que será dos pobres inocentinhos!?
O sr. coronel Nunes da Ponte, zeloso chefe do distrito, já recebeu, ontem, uma comissão de pilotos, que lhe foi pedir a sua valiosa interferência no sentido de que à inditosa viúva seja arbitrada uma pensão, desde já, pelo cofre da sua Corporação, o que o sr. Nunes da Ponte ficou de recomendar, com empenho, ao sr. ministro da Marinha.

O chefe do distrito e o naufrágio
O sr. governador civil do Porto, esteve no consulado da Alemanha, a apresentar condolências pelo falecimento dos náufragos, que compunham a tripulação do vapor “Deister”. O sr. tenente-coronel Nunes da Ponte também recomendou, a todas as autoridades, as maiores facilidades para o transporte dos cadáveres que venham a dar à costa, tendo igualmente telegrafado ao sr. governador civil de Aveiro solicitando iguais facilidades.
Consternação geral – Notas de sentimento
É geral, na cidade, Foz e Matosinhos, como, de resto, a este tempo, em toda a parte, a consternação causada pelo horrível naufrágio. Nas ruas, nos cafés, em todos os locais, só se fala com os termos mais saudosos, do trágico acontecimento, com toda a gente a curtindo a mágoa do sofrimento atroz, que dominou esses 25 desgraçados. Na Foz, em Leixões, no Porto e em todos os vapores surtos nas nossas águas colocaram-se bandeiras, a meia adriça, em sinal de sentimento.

Nota final
O conhecido armador sr. José Maria da Silva, está encarregado dos funerais dos náufragos que aparecerem.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 5 de Fevereiro de 1929)

2 comentários:

António disse...

Sobre este naufrágio, vejam-se as recordações de Ruben A, então com 8 anos e vivendo no Campo Alegre - in O mundo à minha procura - I. Este livro abre precisamente com um excelente relato deste acontecimento testemunhado pelo menino. Algumas imprecisões ténues, uma das quais na indicação do nome do navio - Deinster.
A. Vilas-Boas.

reimar disse...

Sr. A. Vilas-Boas,
Realmente iria apreciar o relato escrito por Ruben A., citado no comentário, porque tem todo o interesse saber da história contada por quem a viveu presencialmente. Porque não é meu caso, recorri às páginas dos jornais, que permitem ajuizar com algum rigor a dimensão da ocorrência.
Será que o livro está disponível para compra? Quanto às imprecisões, ainda que ténues, podem advir do facto de Ruben A. ter 8 anos quando aconteceu o naufrágio, e ter escrito o livro vários anos depois, o que pode ter originado lapsos de memória. Supostamente, tal como se constata através do nome do navio, cuja foto ilustra a continuação da história do sinistro.
Fico grato pelo seu comentário e muitos cumprimentos,
Reinaldo Delgado