terça-feira, 20 de maio de 2014

Dia da Marinha 2014


A chegada do contra-torpedeiro “Vouga”, em 1933

Nesta ocasião festiva em que se celebra a passagem de mais um Dia da Marinha, surgiu a oportunidade para recordar a passagem pelo Porto, daquele que pode ser considerado o primeiro grande navio, construído com base no plano de renovação da esquadra da Marinha de Guerra Portuguesa, de 1930.

O contra-torpedeiro “Vouga”

Uma das primeiras imagens do navio
Foto-postal do construtor - minha colecção

Visita oficial da Imprensa
A convite do distinto comandante do “Vouga”, Sr. Carvalho Crato,
visitaram ontem aquele magnífico navio os representantes
da imprensa, a quem foi oferecido um «Porto de Honra»
O “Vouga” continua ali em baixo, no Bicalho, quieto e sereno, na sua imponência rígida, - a incendiar o patriotismo indígena! Tem passado por aquela nova unidade da marinha de guerra milhares de pessoas. E se o portaló não se fecha, não se sabe quando seria possível a bordo tratar de vida…
E não se condene o povo por esta ansiedade fremente, que chega a ser maçadora. Ele tem – como ontem gentilmente nos dizia o comandante Carvalho Crato – ali os seus direitos! Cabe-lhe o direito de ver, de observar no que foi transformado o seu dinheiro! Por isso, apesar de expiado o prazo das visitas, o Sr. comandante ainda encolhe, com um sorriso nos lábios, os ombros – quando se encosta à carcaça do “Vouga” algum barquito de curiosos.
Ontem foi o dia da imprensa. Acedendo, gostosamente, ao convite gentil do Sr. comandante Carvalho Crato, os representantes da Imprensa visitaram, ontem, à tarde, o “Vouga”.

Do eléctrico ao “Vouga”
O carro deixa-nos ali em baixo, no Bicalho, a dois passos do vapor. Da linha ao “Vouga” são dois passos… sobre as águas verde-mar do rio Douro. Duas remadelas fortes, e já lá estamos. Escada acima, - eis-nos no portaló.
Aí, altivo e senhoril, mas fidalgo e gentil, aguarda-nos o comandante Carvalho Crato. A sua figura aprumada, de gentleman e atleta, num uniforme corretíssimo, é a nossa primeira impressão. No peito, amontoadas por falta de espaço – medalhas e condecorações. É a biografia do comandante escrita com insígnias em pleno coração! África, Timor, a Grande Guerra, Aviz, Cristo, - uma série de recompensas que definem toda a vida deste ilustre e valoroso marinheiro, que agora comanda o “Vouga”.
O comandante, como todos os comandantes que se prezam, tem paixão pelo seu navio. Recebe-nos com sumo prazer. Tem o maior gosto em, por este intermédio, dizer ao público o que é o “Vouga”. Para isso, nos chamou ali. Ele mesmo vai ser o nosso guia através dos mais recônditos recantos daquela fortaleza flutuante.

A fisionomia do “Vouga”
O “Vouga” visto de fora, muito limpo e muito airoso, novo em folha, impressiona, logo, agradavelmente. Infunde respeito. E faz-nos pensar, através das suas peças assestadas para o espaço, em dias angustiosos, dias de metralha, por esses mares em fora…
Lá dentro, a impressão redobra, quando a gente se debruça sobre as bocarras infernais daquelas peças diabólicas! Tudo, ali dentro, são engenhos de guerra. Instrumentos de destruição. E tudo está construído e montado com os requintes do progresso.
Por sobre toda aquela massa cinzenta, onde os aços rebrilhantes põem, aqui e ali, notas de entusiasmo, ao sol quente da tarde – ergue-se, planando ao vento, a bandeira da Nação! É como que uma grande manta cobrindo e acarinhando o navio inteiro.
A tripulação anda alegre, radiante. Percebe-se-lhe o orgulho de pertencerem ao “Vouga”. Os oficiais estão contentes. Aquilo, assim, dá gosto. É navio a sério – para o que der e vier. Ali não se apanha. Dá-se… E de que forma! É cada torpedo, que parecem torres! E as peças têm 12cm…

Para o que der e vier…
Estamos na popa. O Sr. comandante, gentil e bem-disposto, preleciona-nos, passe o dizer. A sua figura aprumada, de marinheiro de velhas águas, parece um símbolo – erguido, à ré!
- De quantas peças dispõe, comandante?
- São 4, de 12 cm. Tem uma velocidade inicial de 940 metros por segundo e atingem uma longura de 22 quilómetros.
- E aquelas mais pequenas?
- Aquilo é o «pão-pão».
- ?
- As peças anti-aéreas, conhecidas por «pão-pão», por onomatopeia… Tem 4 cm estas peças e são duma actividade espantosa.
Ficamos, instantes, a olhá-las. Viradas ao céu, silenciosas e quedas, parecem guardas avançadas dum castelo roqueiro. Adiante, encontramos os torpedos. Dois grupos, de quatro lança-torpedos cada um. Oito engenhos diabólicos que, na hora própria, enviam para o alvo carradas de metralha, - de metralha imparável.
A explicação do comandante, sobre a acção daqueles brutos, arrefece-nos a coluna vertebral… Vem uma esquadra, derrota em fora. Envia-se-lhe um punhado de torpedos, - e tudo aquilo se desorienta, perdendo o rumo, fugindo desaustinadamente. Nisto é grande o “Vouga”. Tem oito, e dos melhores do mundo.
Encontramos ainda, a bombordo e estibordo, dois lança-bombas, armas de segunda vantagem – mas que, quando calha de se poder aplicá-las bem, deixam tudo em cisco! Além disto, o “Vouga” corre. Corre 36 milhas por hora, sendo preciso.

Foto mais recente do "Vouga" já com numeração NATO
Imagem publicada no blog Área Naval

Identificação do contra-torpedeiro “Vouga”
Em comissão de serviço entre 1933 (entrado no rio Douro, pelas 17 e cinquenta minutos do dia 24 de Agosto de 1933 e mandado abater ao efectivo dos navios da Armada, pela portaria Nº 22703, por proposta ao Governo apresentada pelo Exmo. Ministro da Marinha, Almirante Fernando Quintanilha Mendonça Dias, em 3 de Junho de 1967.
Nº Of.: “V” (1933) - D334 (1946) - Iic: C.T.B.K. - Reg: Lisboa
Construtor: Yarrow & Co. Ltd., Scotstoun, (Glasgow) G.B., 1933
Arqueação: Tab 1.438,55 tons - Tal 450,98 tons
Deslocamento: St 1.238,54 ts - Mx 1.588,45 ts - Nm 1.411,05 ts
Dimensões: Pp 93,58 mts - Boca 9,50 mts - Pontal 5,71 mts
Propulsão: Do construtor - 3:Tv - 3x10.000 Shp - 36,5 m/h
Guarnição: 171 tripulantes

Uma frase do Marquês de Pombal
Como vêem, o “Vouga” em matéria de armamento, está completo. Parece, mesmo, que não podia ter mais. Está até aos dentes, como soi dizer-se.
- E a qualidade?
Aqui fala, respondendo, a autoridade comprovada do comandante Carvalho Crato:
- Pode dizer aos seus leitores que as peças são tudo quanto há de melhor e mais perfeito no mundo!
- ?
- É como lhes digo: são melhores, mesmo, que as da marinha inglesa.
- E o resto?
- É tudo assim. Trata-se de um vapor construído segundo os mais recentes conhecimentos. É, por assim dizer, a última palavra.
E mudando de rumo, o Sr. comandante procura explicar-nos a razão do valor e da bondade do “Vouga”:
- Agora: os srs. imaginam quanto custa cada torpedo?
Parece que ninguém, dos presentes, fazia ideia do preço por que fica cada um desses grandes canudos de metralha.
E o Sr. comandante afirma: - 240 contos, cada um!
Alguém, ao lado, comenta, em graça:
- Há inimigos que não valem o preço do torpedo…
E o Sr. comandante acaba, evocando a figura do grande ministro de D. José I:
- Já o Marquês de Pombal dizia que o mar não é para pelintras. E tinha razão. Tudo isto, depois de pronto, só para funcionar, representa milhares de contos!

O judeu “X” e a Ordem da Jarreteira…
Discute-se, agora, sobre coisas de guerra. Querem uns que as peças do “Vouga” fiquem toda a vida por estrear. Outros falam de grandes guerras, anunciadas por esse mundo de Cristo…
Todos sentem, naturalmente, a curiosidade do futuro que espera as grandes peças do “Vouga”. O Sr. comandante sorri. Parece que não pensa nisso. Deixa esses cuidados aos que andam sobre terra firme. E conta a história do judeu “X”, proprietário da maior fábrica de guerra do mundo inteiro, na Inglaterra. Esse homem, que juntou e está juntando cada vez mais milhões a fabricar instrumentos e engenhos de morte, tem uma actualidade tão pequena ou tão grande, - que entrou na Ordem da Jarreteira!
- Mas a Jarreteira não é dada, apenas, aos monarcas?
- E então ele não é o rei da guerra? Esta raça de Israel, de quem Hitler é o anti-Cristo, parece que não descansará mais enquanto o mundo não estiver transformado num saco imenso, de que eles sejam donos e nós outros, pobres filhos de Adão, simples tributários…

Maravilha de precisão!
O “Vouga” tem, além do que fica relatado, embora ao de leve, outra qualidade digna de registo. É a precisão matemática de tudo aquilo. Toda a ciência de electricidade está ali aplicada. Calculem: as peças podem ser disparadas da ponte do comando, como quem, sentado numa cadeira desanda o interruptor da luz eléctrica!
A casa de navegação é mostruário do “Vouga”. As velhas artes de marear, que vem dos tempos do Vasco da Gama até hoje, usando-se, ainda, em todo o mundo, - foram banidas do “Vouga”. Ali é tudo novo, moderno, eléctrico, de precisão, - a última palavra!
- Até a tripulação!, segreda-nos alguém.
De facto, o “Vouga” tem 120 praças aprumadas, garbosas, que honram a casa. Conta 21 sargentos, dignos da oficialidade. E 11 oficiais que são onze figuras distintas formando, à volta do comandante, - uma só verdadeira: que é a Marinha Portuguesa!

A «casa», em si…
Se nos esquecermos de que estamos dentro dum vaso de guerra, poderemos ter, aqui e ali, a impressão de andarmos visitando um palacete magnífico. Há luxo e elegância em toda a parte. Os aposentos dos oficiais e sargentos são apetitosos. Há salas, ricamente decoradas, onde apetece estar. E os soldados têm as suas acomodações amplas, arejadas, elegantes – como raras vezes se encontra em navios assim.
Fomos encontrar, num desses aposentos, o Tenente Bastos, um homem em plena mocidade, que o comandante nos apresenta assim:
- Este é o piloto. Ele e um irmão tem o futuro marcado!
Olhamos, com curiosidade, aquele oficial tão novo, mal saído das escolas. E o Sr. comandante insiste:
- O pai do Tenente Bastos pode orgulhar-se de ter dois filhos que hão-de ser alguma coisa na Marinha Portuguesa!
O Tenente Bastos, modesto e comprometido, agradece discretamente. E nos olhares dos circunstantes há um desejo de boa sorte. Um cliché. Com os oficiais e imediato, Sr. Capitão Góis. Um friso alegre e distinto, ao sol claro que ilumina o deck.
E descemos à sala dos oficiais.

Um «Porto de Honra» oferecido à Imprensa
A sala dos oficiais é uma caixinha de veludo. Cómoda e elegante. Sobre uma mesa, um vistoso cestinho de cravos, com uma legenda doce: À tripulação do “Vouga”, duas portuenses.
- ?
- São duas meninas que vem cá, todos os dias, visitar o navio. E tem estas gentilezas.
O marinheiro António, que foi polícia-sinaleiro vai enchendo os cálices com vinho do Porto. Treme-lhe a mão, por falta de hábito, decerto. E o Sr. comandante, gracioso e simples:
- Vá lá, António: parece que ainda estás a fazer sinais, lá fora…
(Lá fora, é esta terra dura que nós, os terrestres, habitamos.)
Estão cheios os copos. Vai brindar o Sr. comandante Carvalho Crato. Dirige-se aos jornalistas: Tenho muito prazer em recebê-los neste vapor. Um marinheiro gosta sempre que lhe conheçam o navio. E os srs. não vem aqui, como simples visitantes.
São observadores e, por isso, irão dizer, por terem visto, aquilo que eu lhes digo. Este vapor é, na verdade, bom. Assisti à sua construção e sei quanto ela foi cuidadosa e perfeita. Podem dizer em toda a parte que o “Vouga”, como de resto todos os navios a fazer em Inglaterra, corresponde às nossas ansiedades. Não se esbanjou, mas também não se apertou. Fez-se um navio como era preciso.
A casa construtora merece elogios. Cumpriu bem e não se julgue que ganhou mundos e fundos. A crise, lá fora, é fenomenal. Os estaleiros estão 70% parados. Por isso, trabalha-se com certas vantagens. Concluindo: Desejo que os srs. jornalistas levem boas impressões desta visita e reafirmo-lhes que o “Vouga” é um navio digno da casa construtora e da nossa marinha.
O jornalista Costa Brochado, agradeceu este brinde, em nome da Imprensa e o distinto repórter fotográfico Sr. José Gonçalves, ofereceu ao Sr. comandante Carvalho Crato uma esplêndida colecção de óptimas fotografias do “Vouga”, à chegada ao Douro.

Acabaram as visitas ao “Vouga”
A visita de ontem encerrou as visitas. O Sr. Presidente da Câmara, que ontem teve de acompanhar o Sr. Ministro das Obras Públicas, não pode ir. Foi o Sr. Vereador Sr. Jorge Ferreira em sua representação. E pôs-se um ponto final nas visitas ao “Vouga” – porque agora, é preciso trabalhar.
Começou a instrução das praças. Começa a vida do navio. Entram agora no regime militar. Quem não foi nesta ocasião, tem de esperar outra maré. A vida é longa e o “Vouga”, se Deus quiser, está aí para durar.

A despedida
Deixamos o “Vouga”, ao cair da tarde. Tarde de sol rebrilhante e vitorioso. O metal das peças, duma brancura agressiva, chispava centelhas de luz, reflexos desse sol vivo da tarde cálida. Descemos a escadinha…
No alto, a figura imponente do comandante Carvalho Crato, curva-se, numa última despedida. À ponta, no mastro firme, bamboleia-se ao vento suave que vem do mar amigo, a bandeira da Nação!
A sentinela no portaló, de baioneta calada, está firme como rocha viva. Tocou um clarim! Seria a reunir? A reunir as almas portuguesas em torno deste navio forte e majestoso – feito com o sangue do povo para fazer respeitar o mesmo sangue sagrado vertido noutras eras, por esses mares nunca dantes navegados
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Setembro 1933)

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