sexta-feira, 25 de maio de 2018

Histórias do mar português!


Caça à baleia gerou incidente
“Sierra” e “Sea Shepherd” permanecem em Leixões

Guardo ainda na memória, a presença dos navios referidos na abaixo mencionada notícia, em Leixões, muito embora só me tivesse parecido merecer algum relevo a segunda e terceira parte do episódio, do qual fiz algumas fotos.
A segunda parte da história está relacionada com o arresto do “Sea Shepherd”, pelo juiz do Tribunal de Matosinhos, que conduziu o processo, e a longa demora para decidir sobre a venda do navio em hasta pública, no sentido de serem ressarcidas as despesas com a reparação do navio-baleeiro “Sierra”. Esta ideia, antecipada ao parecer judicial, era voz corrente por corresponder à decisão habitual.
Daí que a pouca tripulação a bordo do “Sea Shepherd”, optando não esperar mais pela decisão judicial, agravada pelo facto de não lhes ser favorável, abriram as válvulas dos tanques do navio, provocando-lhe o afundamento. E, lá ficou durante muito tempo, a ocupar espaço junto ao cais, privando outros navios de efectuar operações portuárias, num local que privilegia a descarga de graneis sólidos.
Obviamente, já numa fase posterior, havia que dar solução a este embaraço e para tal foi contratada uma empresa para remover o destroço do “Sea Shepherd” e levá-lo para demolir. Apesar desta situação, que levou à total destruição do navio, há também notícias publicadas sensivelmente na mesma época, a dar conhecimento do afundamento do navio-baleeiro “Sierra”, em Lisboa, devido a explosão.
Em função deste resultado, perfeitamente descrita e explicada na notícia, não terá sido do agrado de nenhum dos intervenientes, resumindo-se tudo apenas a mais uma história, das muitas que há para descobrir, passadas no mar português.

Imagem do navio-baleeiro "Sierra"

Permanecem em Leixões os dois navios que recentemente, há pouco mais de um mês, foram intérpretes de um incidente estranho e curioso pelas formas de que se revestiu: não é, com efeito, habitual pelo menos desde que a pirataria deixou de sulcar os mares, uma embarcação abalroar propositadamente uma outra. Mas foi exactamente isso que aconteceu e por razões que se situam no campo da defesa da natureza, concretamente na preservação da fauna marinha.
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O caso passou-se a cerca de 200 milhas do porto de Leixões, em 16 de Julho. O “Sea Shepherd” (Pastor do Mar), tripulado normalmente por 17 homens provenientes de cinco países diferentes, mas naquela investida reduzido a três elementos, zarpou de Leixões a toda a velocidade para abalroar um baleeiro cipriota, de origem espanhola, o “Sierra”, pertencente a um armador sul-africano.
Tratava-se, afinal, de um velho ajuste de contas. De há muito que a embarcação analisava a actividade do “Sierra”, concentrada na pesca da baleia, que o considerava «pirata» e como tal definia-a como um inimigo a abater.
Daí, a acção de represália empreendida pelo “Sea Shepherd” em nome da salvação dos cetáceos que ainda restam nos oceanos. Mas nem toda a tripulação esteve de acordo com o abalroamento proposto.
Apenas três elementos, com efeito, entre os quais Paul Watson, jornalista canadiano que abandonou a profissão para se dedicar de corpo e alma à luta contra os navios, que fazendo tábua rasa da regulamentação internacional, pescam baleias em diferentes pontos do globo, aceitaram a operação.
A «vingança» acabaria, pois, por suceder com o abalroamento do navio cipriota que, após a colisão propositada, ficou com um rombo na proa junto à linha de água, que o fez vir até Leixões com água aberta.
O «Pastor do Mar», entretanto, apesar de se dirigir para o alto mar seria, algumas horas mais tarde, apresado pelo navio-patrulha “Limpopo”, mandada sair logo que a tripulação do “Sierra”, reclamando socorro, alertaram as autoridades marítimas portuguesas.
A partir de então, o “Sea Shepherd”, ficaria aprisionado em Leixões onde ainda se encontra, aguardando o desenrolar do processo judicial que lhe foi movido pelos representantes do armador do navio baleeiro abalroado. Este, por seu turno, espera também em Leixões que sejam reparados os danos que o impedem de navegar.

Imagem do afundamento do "Sea Shepherd"

«Tentativa de homicídio»
Arrestado em Matosinhos como «fiança» pelos prejuízos que provocou, o “Sea Shepherd” também sofreu alguns danos, o que não lhe impedem contudo, de navegar, devido à colisão havida. Os seus tripulantes responsáveis pela «vingança» ecológica ficaram com os passaportes apreendidos e tiveram que pagar caução para esperar em liberdade o julgamento do caso. Só que, mesmo sem passaportes, acabariam por deixar o nosso país continuando ausentes.
O «Pastor do Mar» terá que responder por uma acção movida pelo “Sierra”, que aguarda a sua vez no Tribunal de Matosinhos, por «tentativa de homicídio».
Objectivamente, a embarcação que provocou propositadamente o abalroamento incorreu em franca ilegalidade que a obrigará, certamente, a pagar uma pesada indemnização. Mas terá o crime de Watson e companheiros compensado?
Para eles, o importante era denunciar o desrespeito flagrante, a cumplicidade do silêncio com que conta um baleeiro como o “Sierra”, despertar a atenção da opinião pública e de organismos internacionais para a necessidade de proteger certas espécies em vias de extinção. Tê-lo-ão, de facto, conseguido, mas agora quem paga os prejuízos?

O “Sierra” transforma-se em arrastão
Embora o armador não se encontre actualmente entre nós, é provável que o “Sierra” abandone as suas actuais características para ser transformado em arrastão. O que deixa pressupor uma certa vitória para o “Sea Shepherd” que, assim, não voltará a ter que denunciar a actividade pouco clara da embarcação registada em Chipre. Esta, para já, terá de ser reparada antes de se dirigir rumo a um estaleiro nacional para ser concretizada a sua transformação. A sua reparação que irá processar-se em Matosinhos, foi objecto de concurso, prevendo-se que o orçamento para reparar os danos provocados pela colisão ultrapassarão os mil contos.
Para Paul Watson, o antigo jornalista que comandou o abalroamento, o “Sierra” é pertença de duas companhias, a Taiyo, japonesa com 75 por cento do capital e uma outra norueguesa, o Banco Furrentnings, que não se quer assumir como tal, pois esse facto traria problemas internacionais aos governos dos respectivos países, que assinaram convenções que não se preocupam em cumprir.
O “Sea Shepherd”, capitaneado por Lavis Sellers, um dos 14 elementos que se recusou a participar na operação de abalroamento, que tem na sua torre a inscrição «salvem as Baleias», um apelo que lhe serve de palavra de ordem, é um navio oceanográfico que sulca os mares para estudar e proteger a fauna, denominando-se por isso, de «Pastor do Mar». Desta vez, porém, a sua função sofreu um ligeiro desvio, para punir pelas suas próprias mãos um navio «inimigo»… das baleias!

Imagens do "Sea Shepherd" reposto a flutuar

Deve ser proibida!
Enquanto o director das Pescas Portuguesas afirmava, pouco depois do incidente, que o nosso país nada tinha a ver com este escândalo, o Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem defendia em comunicado que «a caça às baleias deve ser proibida nas águas portuguesas, assim como a entrada de baleeiros nos nossos portos».
«Mas não podemos concordar com o processo de contestação agora usado pelo “Sea Shepherd” em relação ao baleeiro “Sierra”» – esclarece o NPEPVS no seu comunicado.
Acrescentando que «é, no entanto, sintomático que um organismo profundamente empenhado na conservação das baleias, depois de usar todos os processos de actuação possíveis, se veja obrigado a recorrer a um abalroamento para ser ouvido».
Apesar das reservas feitas no caso presente o núcleo exprime o seu «apoio global» ao referido organismo, a Greenpeace Foundation (Fundação Paz Verde), proprietária do “Sea Shepherd”, «que só em 1978 – diz-se no comunicado – salvou mais de 1.400 baleias».
O NPEPVS observa «que nos últimos 50 anos foram mortas mais de dois milhões de baleias, o que significa mais de cem por dia ou quatro a cinco por hora». «É necessário alterar esta situação, no sentido de não provocar mais uma catástrofe ecológica de consequências imprevisíveis» - salienta o comunicado.
Ao enumerar as «medidas mais urgentes a tomar» a nível internacional, o Núcleo indica a proibição total da captura de baleias até melhor se conhecerem os efectivos destas, uma resolução da Comissão Baleeira Internacional (IWC – International Whaling Comission) que proíba a caça à baleia durante dez anos e a criação de reservas internacionais para aqueles animais.
A caça à baleia á actualmente controlada, a nível mundial, pela IWC, que estabelece os limites anuais de captura para cada espécie. Porém, o NPEPVS afirma serem os critérios em vigor «puramente teóricos» e «incapazes de proteger a espécie».
Em abono desta crítica, o NPEPVS argumenta que «em 1972 foram abatidas 38.600 baleias, ao passo que em 1977 apenas se chegou a 17.830, e as baleias capturadas eram, em regra, mais pequenas».
O comunicado do NPEPVS termina revelando estatísticas que indicam ser a baleia boreal e a baleia branca, duas espécies, aliás, hoje totalmente protegidas, as mais atingidas. Quanto à primeira, cujos efectivos antes da comercialização e da caça eram de 50 mil exemplares, está hoje reduzida a dois mil. No caso da segunda espécie, o decréscimo foi de 50 mil para quatro mil.
A situação das restantes espécies traduz-se pelos seguintes quantitativos, também respeitantes aos efectivos antes da comercialização e da caça e aos estimados actualmente: cachalote fêmea, 570 mil/ 390 mil; baleia anã, 360 mil/ 300 mil; cachalote macho, 530 mil/ 230 mil; baleia ordinária, 450 mil/ 100 mil; rorqual boreal, 200 mil/ 75 mil; porqual de bryde, 100 mil/ 40 mil; baleia azul, 210 mil/ 13 mil; baleia cinzenta, 15 mil/ 11 mil e jubarte, 100 mil/ 7 mil.
Jornal Comércio do Porto, Setembro de 1979

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