sábado, 12 de maio de 2018

História trágico-marítima (CCLIII)


O naufrágio do navio-motor “Sea Star”, no Cabo Raso

Salvos os sete tripulantes de um cargueiro dinamarquês
encalhado ao largo do Guincho
Pelas 12 horas e 30 minutos de ontem, encalhou nos rochedos, junto do farol do Cabo Raso, ao largo do Guincho, o cargueiro dinamarquês “Sea Star”, de 980 toneladas, que era aguardado no porto de Lisboa.
Trazendo um carregamento de peças de automóvel para serem montadas em Portugal, aquele navio era tripulado por sete marítimos, dois dos quais portugueses. Às 14 horas, estes homens já se encontravam em terra, sãos e salvos.
O alarme foi dado pelo chefe do farol do Cabo Raso, João Félix Francisco, tendo avançado brigadas de socorro, o barco salva-vidas de Paço de Arcos, e, por terra, pessoal e material do serviço de Socorros a Náufragos dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Foi, também, solicitado o auxílio do barco dos pilotos da barra.
Apesar do mar bravio, foi possível estabelecer um cabo de comunicação com o navio, processando-se a operação de salvamento dos tripulantes.
O “Sea Star” vinha de Bordéus com um comandante novo, escalando, habitualmente, os portos de Leixões, Lisboa e Setúbal. Com 59 metros de comprimento, foi construído em 1968 e está registado em Hundested, na Dinamarca. Vinha consignado à agência Orey Antunes, e, pela posição crítica em que ficou, considera-se perdido.
Os náufragos portugueses são: António Augusto Marques, de 37 anos, da Torreira; e Fernando Correia dos Santos, de 32 anos, de Aveiro.
(In jornal “Comércio do Porto”, 27 de Dezembro de 1972)

Imagem do navio encalhado, publicada no referido jornal

Características do navio-motor “Sea Star”
Armador: Starcoast K/S, Hundested, Dinamarca
Construtor: Oberwinter Ship Works, Oberwinter, Alemanha, 1968
Arqueação: Tab 400,00 tons
Dimensões: Pp 59,30 mts - Boca 10,80 mts
Propulsão: 1:Di - 12 m/h
Equipagem: 7 tripulantes

O sinistro no farol do Cabo Raso
Agravou-se a situação do cargueiro dinamarquês – Só esta
tarde deve ser bombado para terra o combustível do navio
Orientadas pela Comissão de Defesa contra a Poluição Marítima do Ministério da Marinha, foram iniciados, ontem, as operações com vista a bombear 30 toneladas de gasóleo do cargueiro dinamarquês “Sea Star”, de 399 toneladas, encalhado junto ao farol do Cabo Raso, como foi ontem noticiado.
A situação do navio piorou, na medida em que avançou bastante para terra e estabilizou de tal maneira, sobre os rochedos, que, no entender dos técnicos, a sua recuperação é impossível. Com a maré baixa, quase se torna viável uma visita, a pé, ao navio encalhado.
Entretanto, as reservas de combustível do “Sea Star” tornaram-se altamente perigosas para os lagosteiros vizinhos, aliás já atingidos pelo óleo derramado pelo navio. Se não fôr possível retirar o gasóleo armazenado nos tanques, aquela zona da costa portuguesa – que alimenta em mariscos uma série de conhecidos restaurantes numa das mais intensas zonas turísticas do País – ficará de tal modo poluída que condenará a existência de viveiros por largos anos.
As operações para a bombagem tiveram início ontem de manhã, com o auxílio de um helicóptero da Força Aérea e dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Dois elementos desta Corporação foram colocados a bordo do “Sea Star”, por aquele aparelho, permitindo assim a remontagem de um cabo de vai-vem e a ligação de mangueiras a um tanque da Sonap. Técnicos da Gazlimpo tem colaborado na tentativa. Porém, surgiu um grave problema: os depósitos de combustível encontram-se sob a carga transportada pelo navio, sendo quase certo terem de recorrer ao processo de ar comprimido para fazerem a bombagem.
Estas operações foram interrompidas ao cair da noite, por falta de algum material julgado necessário, esperando-se que recomecem ao princípio da tarde de hoje.
A empresa à qual o navio vinha consignado, Orey Antunes, informou, ontem à noite, que, logo que o tempo melhore, irá ser feita nova tentativa – aliás sem esperanças – para salvar o navio. Depois, o problema pertence às companhias seguradoras, que decidirão, inclusivamente, sobre o destino a dar à carga que puder ser recuperada.
Uma boa parte do carregamento era constituído por peças para as linhas de montagem dos automóveis «Peugeot» em Portugal.
Os tripulantes – 5 dinamarqueses e dois portugueses da região de Aveiro, que ontem foram identificados – encontram-se hospedados num hotel de Lisboa, até ao cumprimento das formalidades legais. Depois tratarão da sua vida.
(In jornal “Comércio do Porto”, 28 de Dezembro de 1972)

Começou a ser retirado o gasóleo do “Sea Star”
Adernado sobre bombordo, quase «encostado» à costa, o cargueiro dinamarquês “Sea Star” agoniza junto ao farol do Cabo Raso, preso de morte nos rochedos onde encalhou.
A iniciativa da Comissão de Defesa contra a Poluição Marítima, no sentido de retirar o combustível dos depósitos existentes no navio, começou, ontem, a dar os seus frutos, mas já era tarde pois uma ruptura num dos depósitos fizera derramar muito gasóleo.
Como último recurso, foi espalhado um detergente antitóxico para minorar os estragos nos viveiros de lagostas vizinhos. Agora, o maior perigo para estes reside na destruição do navio, que segundo os entendidos, não resistirá muito mais tempo à violência das ondas.
Entretanto, na Capitania do porto de Cascais, prestaram, ontem, declarações o maquinista e o 1º oficial do “Sea Star”, no auto de averiguações acerca do encalhe.
(In jornal “Comércio do Porto”, 29 de Dezembro de 1972)

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