terça-feira, 14 de janeiro de 2014

História trágico-marítima (CXV)


O encalhe do vapor português “Lagoa”, ontem
(18.12.1928), na barra de Esposende, perdendo-se.

Viana, 19 – O vapor “Lagoa” passou ontem em frente ao porto de Viana do Castelo, às 10 horas e meia da manhã. Navegava bastante acostado e saudou, com três silvos, a corporação dos pilotos, arvorando também a bandeira nacional, no que foi correspondido.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 20 de Dezembro de 1928)

Notícia da chegada do vapor a Leixões
(In jornal "Comercio do Porto", quarta, 07.01.1926)

Correndo para a morte – Um choque violento seguido dum estrondo formidável - Como se teria dado o desastre – Após o desastre – O que traz o vapor - Salvar-se-há a carga? – Como é o “Lagoa”? – Quem é o comandante? – A tripulação
Ontem, a meio da tarde, chegou a notícia de que o considerável vapor “Lagoa”, um dos melhores barcos da frota que foi dos alemães, com 1.963 toneladas, tinha naufragado ao largo da barra de Esposende.
No local do sinistro lá estava, ao largo da praia dos Cavalos de Fão, apertado entre as rochas bravas do «Forcadinho», o “Lagoa”, que, ao tempo, era já um brinquedo para as ondas rumorejantes que o varriam de lés a lés, enquanto a água, aos poucos, lhe invadia o dorso, fazendo-o submergir quase até ao convés.
Na praia, olhando o monstro que, numa quietude enervante, avultava lá ao longe, a umas duas milhas, aproximadamente, andava, desde o começo da tarde um formigueiro de gente.
Todos queriam saber o que fôra, inteirar-se da sorte dos tripulantes, da carga, do vapor, - e das causas do desastre. E, faziam roda, em torno dos pescadores que contavam e recontavam tudo quanto tinham visto.

Correndo para a morte
O “Lagoa” deu nos calhaus aí pelas 11 horas e meia da manhã. E o pescador Feliz Fernandes Gaifém, que fala desembaraçadamente, explica:
- «Eu andava ali (e ao dizê-lo apontava, lá longe, no mar, como ponto de referência, uns escolhos que se vêem à flor d’água quase junto ao local onde o “Lagoa” se encontra), com as redes, quando dei com o vapor lá para cima, no «mar de Viana». «Vinha terreirinho que eu sei lá!». E não fugia da terra, cada vez metia mais à costa, de modo que entramos de ver o desastre…
- Depois…
- Quando o vimos assim, começamos todos a acenar com lenços e, alguns, éramos de tão perto que até admira como não viam…
Um grupo de pescadores, numa só voz:
- Estava o tempo tão bom! Tão lisinho e o mar tão brando!
Eis como os pescadores de Fão, que andavam no mar aquela hora, relatam a aparição do “Lagoa” – que vinha «no mar de Viana, terreirinho, que eu sei lá!», no dizer original de um deles. De modo que, vindo o “Lagoa” junto à costa, como vinha, e trazendo razoável velocidade, como trazia nada admira que sofresse

Um choque violento seguido dum estampido formidável
O vapor sempre correndo junto à costa salpicada de rochedos, com velocidade – corria para a morte. E, assim, ao passar no ponto conhecido pelo «Forcadinho» meteu-se nuns rochedos que os pescadores dali chamam «pedra brava» - colidindo violentissimamente com as pedras. E de tal força fôra o choque que o estampido que se lhe seguiu, cortando as águas, veio até à praia, estendendo-se por ali fora!
Imediatamente dirigiram-se para o local barcos de pescadores e o salva-vidas de Esposende, no intuito de prestarem os primeiros socorros. Felizmente, sem embargo do aniquilamento do vapor, a tripulação não corria perigo, visto que o “Lagoa” assapara sobre as rochas, motivo porque o respectivo capitão se limitara a agradecer, tratando, acto continuo, de ordenar a emissão de rádios para Leixões.

Vejamos como se teria dado o desastre
Cada desastre ocasiona sempre, antes da verdade surgir, um número considerável de hipóteses. E este não foge à regra. Segundo uns, que pretendem ter arrancado a confissão ao comandante do vapor, o desastre foi consequência da destruição do gualdrope do leme. Segundo outros, a grande maioria, diga-se, o desastre não se explica, com um dia tão claro e numa costa perigosa mas muito conhecida.
De modo que, até agora, o que se sabe, de positivo, é que o vapor vinha, já de longe, navegando junto à costa, dando a impressão de demandar a barra. E, assim, entrou nas rochas, abrindo, como se supõe, largas brechas na quilha.

Após o desastre
Pedido socorro para Leixões, como foi dito, logo para ali se dirigiram os rebocadores “Júpiter” e “Vouga Iº” que comunicaram com o “Lagoa”, tendo sido verificado, em breve, a impossibilidade de agir, no sentido de o safar. O “Lagoa” estava já, segundo as melhores hipóteses, perdido, restando, apenas, a esperança de salvar a carga que, é riquíssima, importando em milhares e milhares de contos. Por isso mesmo, trataram de garantir a assistência ao vapor, procedendo ao desembarque de parte da tripulação e salvamento de toda a sua bagagem. Estes trabalhos, que foram desenvolvidos ao fim da tarde, demoraram até ao anoitecer. Depois, 19 dos tripulantes, entre os quais alguns oficiais, tomaram lugar no rebocador “Vouga Iº”, e vieram para Leixões onde chegaram por volta das oito horas da noite. Os 12 restantes ficaram no mar, a bordo do rebocador “Júpiter” que se conserva junto do “Lagoa”, para ser prestada toda a assistência necessária. No “Lagoa” continuam ainda, ocupando os seus postos, o respectivo comandante, o maquinista e o telegrafista.

O que traz o vapor
A carga do “Lagoa” é preciosíssima e variada. Vinha cheio. Traz centenas e centenas de sacos com açúcar; muitos com cacau; caixas de bombons; quinquilharias de bazar, próprias para o Natal; resmas e resmas de papel de impressão; harmónicas; muitos pianos; discos para gramofones; cânhamo e uma infinidade de artigos diversos que fazem elevar o valor de toda a carga a muitos milhares de contos.
Logo em cima, no convés, trás o “Lagoa” 30 automóveis «Citroen», carregados no Havre. A carga procede dos portos de Hamburgo, Londres e Havre, de onde o navio vinha com destino a Leixões, e consignado à firma David José de Pinho, da praça do Porto.
Salvar-se-há a carga?
Ontem não se sabia, O mar, ali, é cheio de surpresas. E o vapor está numa posição deveras melindrosa. Uma agitação mais forte, uma pequena alteração do mar – e tudo pode ficar perdido. Todavia, se o mar, hoje, mantiver a calma, relativa, de ontem, é natural que consigam arrancar ao abismo já aberto uma riqueza tão apreciável.
Para isso, para fazerem tal tentativa, lá ficou, ao lado do “Lagoa” o rebocador “Júpiter” e metade da tripulação daquele. De qualquer forma, porém, já não será´ possível salvar toda a carga, pois a água liquidou, ontem mesmo, parte dela e ficou, durante a noite, a estragar tudo quanto é sensível ao seu contacto. De modo que, os prejuízos, sem falar no vapor, serão avultadíssimos.

Como é o “Lagoa”?
O “Lagoa” é um vapor de 1ª classe, de 1.993 toneladas brutas, passando por ser um dos melhores vasos apreendidos aos alemães. Está, segundo consta, seguro na companhia «Veritas» e pertence à Companhia dos Carregadores Açoreanos, da praça de Ponta Delgada. Face aos elementos apurados, facilmente se pode deduzir, da importância e grandeza deste transporte, que se acaba de liquidar em circunstâncias deveras lamentáveis.

Quem é o comandante? – A tripulação
O comandante do “Lagoa” deve ser o decano dos oficiais da marinha mercante portuguesa. É o sr. Carlos Pereira Vidinha, que conta 67 anos de idade e 42 de mareante! Tem uma prática extraordinária e nunca lhe aconteceu qualquer acidente desta espécie, sendo este o primeiro.
Os maquinistas, 1º., 2º. e 3º., respectivamente, são os srs. António Cândido da Silva, 49 anos, de Ponta Delgada; Alberto Deslandes, 33 anos, da Guarda, e José Dias de Oliveira, de 26 anos, de Lisboa. O telegrafista é o sr. Arnaldo Rodrigues, 33 anos, de Lisboa.
O imediato é o antigo oficial da marinha mercante alemã, sr. Francisco José de Brito, 34 anos, de S. Vicente de Cabo Verde. Os 2º. e 3º pilotos, são, respectivamente, os srs. Cunha Silveira, 24 anos, e Armando Soares, 24 anos, ambos dos Açores. Depois, há ainda mais 24 homens – e eis a tripulação do “Lagoa”.

Varias notas
- O acidente não causou a bordo, a despeito da sua violência, pânico. Sofreram-no a sangue frio, como verdadeiros mareantes.
- Como se depreende, não houve qualquer acidente pessoal, achando-se todos os tripulantes de boa saúde. - Os tripulantes que vieram para Leixões, como antes referido, hospedaram-se no Hotel do Castelo, tendo alguns telegrafado à família, sossegando-a. Ali estão, a aguardar ordens da Companhia.
- O naufrágio causou, como é natural, em Esposende e Fão, certo constrangimento fazendo afluir à praia muita gente, durante o dia.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 19 de Dezembro de 1928)

Imagem do vapor "Lagoa" - colecção Francisco Cabral

Identificação do vapor “Lagoa”
Armador: Comp. Naveg. Carregadores Açoreanos, Ponta Delgada
Nº Oficial: 940 - Iic.: H.L.G.O. - Registo: Ponta Delgada
Cttor.: Neptun Aktien Geselschaft, Rostock, Alemanha, 07-1911
ex “Mailand”, R.M. Sloman Jr., Hamburgo, 1911-1916
ex “Viana”, Transportes Marítimos do Estado, Lisboa, 1916-1924
Arqueação: Tab 1.922,39 tons - Tal 1.363,47 tons
Dimensões: Ff 91,50 mt - Pp 87,17 mt - Bc 12,52 mt - Ptl 5,12 mt
Propulsão: Neptun A.G., Rostock, 1911 - 1:Te - 1.870 Ihp - 10 m/h

O naufrágio do vapor "Lagoa", na barra de Esposende
- O vapor perdeu-se e com ele toda a carga
- A tripulação abandonou de vez o “Lagoa”
O “Lagoa” perdeu-se. Se é certo que lá longe ao pé dos «Cavalos de Fão», se lhe avista a proa, pode afirmar-se irremediavelmente perdido, como já ontem se antecipava. Está inundado, quase totalmente submerso. E, se de todo não desapareceu ainda, foi porque galgou os cachopos que dão começo aos «Cavalos de Fão» e o convés assentou neles. De resto, é um vapor abatido à nossa frota mercante – um dos nossos melhores vapores de carga provindo das reparações alemãs.

O “Lagoa” e o “Júpiter”
O “Lagoa”, conquanto, ao que parece, deixasse de interessar a alguns entendidos nestes acidentes marítimos – porque puseram de parte a esperança de o fazer de novo flutuar – continuou a ser até ontem à tarde vigiado pelo “Júpiter”, à distância, um pouco ao norte, abeirando-se por vezes dele para de novo se afastar, chegando a perder-se de vista durante mais de uma hora.

A carga do “Lagoa” não se salvou
Ao contrário do que se esperava, o “Vouga Iº” não apareceu ontem na barra de Esposende. Como a sua falta se sentisse notada, foram indagados os motivos, sendo recebida a informação que esse reboque aguardava, para isso, instruções de uma Companhia francesa de seguros.
Como era de prever, a beira-mar de Esposende coalhou-se ontem de gente, sobretudo depois que ali chegou a caminheta da firma Duarte & Filhos, que diariamente faz carreiras entre Esposende e o Porto. Foi por meio dos jornais que a notícia do sinistro do “Lagoa” chegou ao conhecimento não só das gentes de Vila do Conde, Póvoa, Barcelos e Viana, como até de bastantes pessoas de Esposende, que até aí, nada sabia!
O mar, de neblina, com um dia de sol quase primaveril, parecia convidar até a um passeio, próximo da praia, onde os ventos poucas vezes se apresentam agrestes. Chamam-lhe os esposendenses, desde longa data, praia de suave mar, e com razão.
Em face disso e sabendo-se que no “Lagoa” existia, em mercadorias diversas, uma grande riqueza, notou-se, por parte de muitos marítimos daquela vila, Fão e Viana, decidida vontade de se fazerem ao mar para trazer a carga para terra.
- «É fácil – deve ser muito fácil salvar tudo ou quase tudo», comentavam.
- Mas o vapor está quase submerso – observamos.
- Embora; não faz vento, as ondas lá ao largo não são de meter medo, e aquilo ala para terra – atalhavam.
Os empregados aduaneiros, porém, não permitem que para o mar vá quem quer que seja. Só mais tarde o salva-vidas de Esposende foi até junto do “Lagoa”, levando a bordo o comandante, chefe da respectiva companhia, o 3º piloto e mais 3 homens, que logo voltaram para terra. É que a essa hora o mar alterou-se um pouco e os «Cavalos de Fão» obrigam a cuidado, muito cuidado.
E foi previdente a tripulação do salva-vidas, pois que, tendo voltado a terra, formaram-se próximo da barra dois vagalhões, que poderiam tê-lo posto em risco. O mar tem destas coisas…

Os automóveis do “Lagoa”
As horas decorrem e o mar invade por fim o “Lagoa” de lado a lado com mais violência. Parece um mar extraordinário em Esposende, um mar diferente daquele q que ali se está habituado. Foi então que os automóveis que constituem a principal carga do convés do vapor se deslocam, e por forma tal, que o “Lagoa” começou a ceder à vaga, que sucedeu, de tarde, ao mar chão da manhã.
E toda a carga se perdeu
Vendo estes efeitos do mar, o capitão do “Lagoa”, a bordo do “Júpiter”, transmitiu para terra um sinal, que os pescadores dali traduziram e em voz alta disseram: perdeu-se tudo; a carga já é só do mar.
A tripulação abandona o vapor
Efectivamente tudo se perdeu: o “Lagoa” e a mercadoria. A tripulação do vapor naufragado, deu nesta altura por finda a sua obrigação e abandonou definitivamente o “Lagoa”, ao mesmo tempo que o povo que afluiu à barra começou também a debandar.
A tripulação veio para Leixões
Ao cair da noite, o “Júpiter” largou de regresso a Leixões, trazendo a bordo toda a tripulação do vapor que se perdeu.
E, à semelhança do “Moneyspinser” que em 1926, numa tarde tempestuosa, encalhou na restinga do Cabedelo e ali foi desfeito pelas vagas – o “Lagoa”, com toda a sua riqueza a bordo, lá ficou pertença exclusiva do mar, mesmo num dia de sol. Ainda bem que não houve perda de vidas a lamentar. O mar começou já ontem, de tarde, a arrojar à praia fragmentos das embalagens, bem como algumas mercadorias avariadas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 20 de Dezembro de 1928)

Sem comentários: