sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quebra-cabeças ( I )


O ex-voto do palhabote “Ealco”


Tenho vindo a pesquisar alguns ex-votos, que fazem parte do acervo guardado na Igreja Matriz da Paróquia de São Salvador de Ílhavo. Estive lá a apreciar o conjunto das peças representadas, algumas das quais de belo efeito, tendo decidido fotografa-las, mas como o resultado dessas fotos revelou-se um verdadeiro fiasco, tinha decidido abandonar esse projecto até uma melhor oportunidade.
Tive um primeiro conhecimento desses ex-votos, através dum livro que comprei em Lisboa, em visita ao Museu de Marinha, sob o título “Painéis votivos do rio, do mar e do além-mar”, publicado pelo museu em 1983, a culminar uma exposição, que certamente terá tido imenso sucesso. Da mesma forma e para minimizar a frustração resultante do fracasso fotográfico na ocasião da viagem a Ílhavo, optei igualmente por comprar o caderno “Senhor Jesus dos Navegantes, Mar e Devoção” da responsabilidade do Dr. Hugo Cálão e de Isabel Cachim Madail, mandado publicar pela Comissão de Festas do Senhor Jesus, em Agosto de 2007. Para minha felicidade o Dr. Hugo Cálão achou por bem incluir algumas dessas imagens no seu blog, autorizando-me o seu usufruto, para que pudesse identificar os navios desenhados e na medida do possível acrescentar um pouco das suas histórias. E o primeiro navio em questão é o palhabote “Ealco”, do qual imagino pouco se sabia.
Depois desta introdução a justificar o meu interesse pelos painéis votivos, consegui averiguar que o palhabote foi construído nos estaleiros de Vila do Conde, por Jeremias Martins Novais, tendo sido lançado às águas do Ave no dia 16 de Março de 1918. Foi inicialmente baptizado “Fortunato dos Santos”, sendo o seu comprador o sr. António Fortunato Simões dos Santos, eventualmente comerciante em Odemira. Por um qualquer motivo ainda não investigado o navio foi vendido, ainda no decorrer de 1918, à firma E.A. Lopes & Cª., do Porto, razão pela qual nos permite perceber a alteração do novo baptismo para “Ealco”, sendo que compreensivelmente o navio tenha igualmente transferido a matrícula para a praça do Porto. Terá portanto navegado com este nome e este registo entre meados a finais de 1918 até 1922, ano em que recebe novo baptismo, novo proprietário e a matrícula é de novo transferida de regresso ao Algarve.
A partir desta altura, torna-se quase impossível garantir com absoluta certeza, qual o novo nome escolhido para o palhabote e quem foi o respectivo comprador, o que se lamenta, pois poderíamos apreciar melhor o navio através das suas características. Resta portanto presumir em função dos poucos dados conhecidos, que possa tratar-se do palhabote ou iate de pequena cabotagem “Costa Segundo”, matriculado em Olhão, em nome de João da Costa. Nessas circunstâncias o navio terá o Nº Oficial A-740 e por indicativo internacional as letras "H.C.S.E.". A arqueação será de 70,76 toneladas brutas e 67,22 toneladas líquidas. O navio devia ser pequeno, como era costume na armação algarvia, com 21,00 metros de comprimento entre perpendiculares, 6,00 metros de largura e 2,50 metros de pontal. Depois perde-se-lhe o rasto após 1926.
Para terminar pergunto-me se haverá ainda descendentes da família Pellicas, certamente com origem em Ílhavo, cujo nome me aparece repetido no comando da galera “Joven Thomás”, perdida por encalhe na barra do rio Douro, a 9 de Outubro de 1874 e da barca “Germania”, que navegou no mesmo período, ambos os navios da propriedade do armador portuense J.H. Andresen. Exactamente como podem constatar o nome de Manuel Pellicas, que subscreve a autoria do ex-voto e que terá sido mestre do palhabote, no período acima referido, correspondente à exploração comercial do navio com o nome em causa.
 

2 comentários:

Ana Maria Lopes disse...

Bom dia:

Bem, já vi que conseguiu, então, enveredar com sucesso pelos ex-votos. Ainda bem!

josemaria disse...

Relativamente ao Ealco, ex-Fortunato dos Santos,meu bisavô, e Antonio Fortunato Simões dos Santos, meu avô. Foram proprietários e negociantes em Odemira, descendentes de gente do mar de Almada, que faziam a cabotagem entre Lisboa e Odemira, entre outros destinos.Localizo o meu 4º avô António dos Santos em 1830, mestre de barcos,já metido nessas andanças. Os barcos Rio Mira e Milfontes também lhes pertenceram.
José Maria Simões dos Santos