quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Medo e morte a bordo do paquete “Moçambique”


1 a 20 de Outubro de 1918 - Os dias da peste

A permeio de muitas histórias nas navegações nacionais, umas conhecidas e outras tantas por contar, não me ocorre um acontecimento mais trágico, como o que teve lugar a bordo do paquete “Moçambique”, na viagem de Lourenço Marques para Lisboa, com escala na Cidade do Cabo, durante os vinte primeiros dias do mês de Outubro de 1918. Para que conste, já existe referência ao navio no blog, todavia estou a crer justificar-se a lembrança das principais características, recorrendo agora à imagem do navio para uma melhor identificação do mesmo, como segue:

n/m “ Moçambique “
1913 - 1939
Empresa Nacional de Navegação, Lisboa

Postal da E.N.N. do paquete "Moçambique"
M/ colecção

Nº Oficial: 399-C - Iic: H.B.W.F. - Porto de registo: Lisboa
Cttor.: Alexander Stephen & Sons, Linthouse, Escócia, 04.1909
Ex “Bruxellesville”, Cie. Belge Maritime du Congo, 1909-1913
Arqueação: Tab 6.535,61 tons - Tal 4.160,26 tons
Dimensões: Pp 122,00 mts - Boca 15,58 mts - Pontal 9,95 mts
Propulsão: Alex. Stephen, Glasgow - 2:Te - 770 Nhp - 14,5 m/h
Vendido para demolir em Génova, Itália, a 22.06.1938

A trágica viagem do “Moçambique”
O navio navegava dias e noites, só, isolado do resto do mundo, levando a morte a bordo e pior, sob a eventual presença ameaçadora dos submarinos. A epidemia irrompe, subitamente, após a partida do navio do Cabo e com uma tão extraordinária virulência, que se propaga a todas as classes.
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Dia 1 - Às 23.30 horas do dia 30 de Setembro largamos do cais, e sob as indicações do prático manobramos a deitar fora o porto. Às 23.35 horas passamos a porta da doca e às 23.45 horas desembarcamos o prático. Navegamos a toda a força, praticamente até às 00.55 horas em que obtivemos o ponto de partida na posição 33º53’5”S e 18º14’E. Navegamos com bom tempo e mar.
Dia 2 - Navegamos com bom tempo e mar chão.
Dia 3 - Navegamos com tempo de aguaceiros, mar chão e horizonte curto.
Dia 4 - Navegamos com bom tempo e mar de pequena vaga com céu encoberto.
Dia 5 - Navegamos com tempo encoberto e mar de pequena vaga.
Dia 6 - Navegamos com bom tempo, mar de pequena vaga e céu encoberto. Às 12.00 horas faleceu o 1º Cabo Nº 691 António Gouveia, da 9ª Companhia do 29º Regimento.
Dia 7 - Navegamos com bom tempo e mar de pequena vaga. Às 17.00 horas foi lançado ao mar o corpo do passageiro de 3ª classe John Baptist Paulus, prisioneiro de guerra de nacionalidade alemã, falecido às 10.00 horas da manhã, conforme consta da certidão de óbito que fica junta. Às 23.30 horas faleceu o soldado de infantaria Nº 337, João António d’Araújo, também do 29º Regimento.
Dia 8 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 08.00 horas foi lançado ao mar o corpo do soldado Nº 337, João António d’Araújo, na posição 80º28’0”S 51º18’W. às 21.00 horas faleceu um soldado expedicionário e às 22.00 horas faleceu a menor Amélia Olga de 14 meses, filha de Emílio Augusto Neves Guerreiro, passageiro de 2ª classe.
Dia 9 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje o número de falecimentos aumentou duma maneira alarmante, sendo opinião do médico de bordo, que se trata de casos de pneumonia infecciosa. Faleceram 14 soldados e 3 civis, sendo dois deles alemães, prisioneiros de guerra.
Dia 10 - Navegamos com bom tempo, mar chão e céu encoberto. Continua agravando-se a situação, tornando-se mesmo aflitiva a condição dos doentes, que falecem em torno dos médicos, sem que eles lhes possam acudir. Temos apenas 2 médicos para tratar cerca de 1.000 criaturas, caindo algumas com casos fulminantes, tornando-se realmente tétrica e dilacerante esta situação. Hoje faleceram 35, sendo 1 passageiro de 3ª classe, 1 alemão e 33 soldados.
Dia 11 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje atingiu o número de 43 óbitos, havendo ainda algumas centenas de doentes. Visitei as cobertas que se conservam tão limpas como as circunstancias o permitem. As enfermarias estão repletas, não havendo lugar onde acomodar os doentes. Em Lourenço Marques, insisti para que a 3ª classe fosse reservada somente para doentes, como nas anteriores viagens, nisto mesmo insistiu o médico de bordo, mas tudo foi debalde, alegando a autoridade, que eram ordens do Ministério das Colónias, que se tinham de cumprir. A 3ª classe fica contígua com os alojamentos dos soldados e a enfermaria está completamente cheia, havendo ali famílias civis com mulheres e crianças, não nos sendo possível melhorar as condições destas desgraçadas criaturas, sendo a sua condição moral verdadeiramente dilacerante.
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Os casos fatais aumentam dia a dia, num crescendo pavoroso, havendo um dia, o 11 de Outubro, em que morreram 43 passageiros. E num lúgubre e horrível espectáculo, que ainda mais apavora os sobreviventes, os cadáveres são logo lançados ao mar, envoltos num pedaço de pano. Pouco a pouco, o receio, o medo começa a apoderar-se de muitos, ainda os mais animosos e, por fim, o terror, o pânico horrível, cego. Mas há três homens, de coração magnânimo e temperado de aço, que conseguem, no meio de tanta desorientação e terror, encontrar fontes de energia para se dominarem, vencendo-se a si mesmos, animando uns, acudindo aos doentes, impondo-se a outros, multiplicando-se, passando noites e dias em claro na faina sublime de salvar os que ainda podem ser salvos. Esses três homens, de tão rara coragem moral, são o comandante do paquete, sr. Harberts, o médico de bordo dr. Peão Lopes e o capitão médico dr. Rola Pereira.
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Dia 12 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Houve hoje 23 óbitos, tendo melhorado um pouco o estado geral dos doentes. Os médicos, dr. Peão Lopes, médico do navio e o dr. Alexandre Rola Pereira, tem sido de uma dedicação aos doentes, que não há palavras que o possam expressar. Hoje reuni os meus oficiais e os médicos e disse-lhes que era chegado o momento de decidirmos se convinha arribar a S. Vicente ou não. Expus-lhes as condições em que estávamos, isto é, que tínhamos somente 10 dias de carvão, estando a 800 milhas de S. Vicente, que, segundo as instruções que tinha, me diziam não haver carvão em Cabo Verde, nem em Dakar. Que como era natural, aquele porto poucos socorros poderia oferecer, pois tendo em vista o carácter infeccioso da doença existente a bordo, estariam limitados a dar a assistência carecida. Face a essa contingência, não podíamos sujeitar-nos pois que à mínima demora ali, nos faltaria o combustível, que não podíamos refazer naquele porto. Nesta conformidade disse-lhes que tinha resolvido fazer a viagem directamente para Lisboa, poupando na derrota directa cerca de 500 milhas, tendo em consideração que os avisos de todas as estações Radiotelegráficas davam estas zonas presentemente livres de submarinos. Os meus oficiais e os médicos concordaram com a minha resolução, soltando rumo directo a Lisboa.
Dia 13 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje houve 20 óbitos, mas continuam a aparecer casos novos.
Dia 14 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 20.50 horas faleceu o Comissário deste vapor de nome Francisco António da Fonseca. Houve 16 óbitos, continuando o número de doentes a ser bastante numeroso.
Dia 15 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 07.00 horas foi lançado ao mar o corpo do Comissário do vapor Francisco António da Fonseca. Houve ainda durante este dia 9 óbitos, sendo 7 soldados.
Dia 16 – Navegamos com tempo claro, vento fresco e mar de pequena vaga. Houve 4 óbitos, sendo 2 civis e 2 militares. Apareceram ainda alguns casos novos, mas devido às medidas que temos tomado, que são limitadíssimas devido às circunstâncias, parece querer tomar um carácter mais benigno.
Dia 17 – Navegamos com bom tempo, mar de pequena vaga e céu encoberto. Houve 10 óbitos.
Dia 18 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje melhorou muito o estado dos doentes. Houve 4 óbitos.
Dia 19 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje houve 6 óbitos, sendo 4 militares e 2 civis.
Dia 20 – À 01.05 horas avistamos o Cabo Espichel. À 01.20 horas estava à vista o Cabo da Roca por 44ºNE. Às 02.45 horas obtivemos o ponto de chegada na posição 38º23’0”N 9º41’6”W. Navegamos praticamente até às 04.40 horas em que recebemos o piloto em Cascais. Às 05.35 horas passamos entre Torres e às 06.10 horas fundeamos próximo a Belém.
aa) A. Harberts
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A doença propagou-se com tão extraordinária virulência, que pode-se dizer, das mil pessoas que vinham a bordo, a maioria foi mais ou menos atacada, ainda que na 1ª e 2ª classes os seus efeitos fossem mínimos, atentas as medidas de higiene e de isolamento postas rapidamente em vigor. Mas o terror que se apoderou a certa altura de todos os passageiros, incluindo mesmo os de 1ª classe, onde viajavam oficiais, foi tal que queriam à viva força, que o navio aportasse a Cabo Verde, para desembarcarem. Cabo Verde, onde aliás a epidemia também grassa com grande intensidade, é uma terra sem recursos médicos, farmacêuticos e mesmo de alimentação, nem sequer tendo um edifício próprio para alojar tantas pessoas. A aquiescência a tal desejo teria, inevitavelmente, como resultado tornar ainda maior a catástrofe; mas o comandante tomou a heróica resolução de prosseguir a viagem e, desprezando a ameaça dos submarinos, cortou em linha recta para Lisboa, encurtando dessa forma a viagem dois dias e meio, o que, nas circunstâncias, representou, talvez, a salvação de muitas vidas.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 30 de Outubro de 1918

O texto tem intercalado um extracto dos apontamentos efectuados diariamente no Diário de Bordo do “Moçambique”, pelo capitão Alberto Harberts e faziam parte do espólio pertencente ao digmo. Sr. António Cid, distinto colaborador da empresa proprietária do navio. Neste transporte o paquete transportava à saída de Lourenço Marques 819 passageiros e 133 tripulantes, tendo sucumbido durante a viagem 191 passageiros e 2 tripulantes, vitimados pela doença. Ao navio foi estabelecida uma quarentena obrigatória no ancoradouro, pelo período de 3 dias, findos os quais foi permitido o respectivo desembarque para o Lazareto de Porto Brandão.

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