terça-feira, 4 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXVI)


O naufrágio do vapor alemão “Borussia”

Sinistro marítimo no rio Tejo
Lisboa, 22 de Outubro - Hoje de tarde, o vapor alemão “Borussia”, procedente de Santos com 44 passageiros em transito e 10 com destino a Lisboa, na ocasião em que se encontrava em frente do posto de desinfecção, metendo carvão, um golpe de mar, inundando de repente o navio, não deu tempo a que a tripulação fechasse as agulhas.
Com a força da água o navio garrou, indo rio abaixo, levado depois pela corrente para a Trafaria. Foram-lhe atirados foguetões e partiram em socorro rebocadores do Arsenal e outros barcos, que não conseguiram atracar ao vapor, que tinha muita carga e que, com a grande quantidade de água que lhe inundara os porões, começou a afundar-se lentamente desaparecendo cerca das nove horas da noite naquele local.
Ignora-se se há mortes, constando que, na ocasião do sinistro se atiraram ao mar quatro tripulantes, não se sabendo se eles se salvaram.
No paquete embarcaram aqui cinco passageiros.
Consta mais que os passageiros, bem como a maioria dos tripulantes, conseguiram salvar-se nos barcos que acorreram logo ao local do sinistro. Entretanto, há quem presuma que dentro do navio ainda ficou gente, que não se conseguiu aproveitar dos socorros.
Salvaram-se as malas do correio.
(Jornal “Comércio do Porto, quarta-feira, 23 de Outubro de 1907)

Imagem do "Borussia" - postal da Companhia proprietária do navio

Características do vapor “Borussia”
1905 - 1907
Armador: Hamburg-Amerikanische Packetfahrt A.G., Hamburgo
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Hamburgo
Construtor: Germaniawerft, Kiel, Alemanha, 15 de Julho de 1905
Arqueação: Tab 6.951,00 tons
Dimensões: Ff 128,40 mts - Boca 16,50 mts - Pontal 6,95 mts
Propulsão: Do construtor - 2:Qe - 3.600 Bhp - 12,5 m/h
Equipagem: 115 tripulantes

O naufrágio do vapor “Borussia”
Lisboa, 23 - Acerca do naufrágio do “Borussia”, sabe-se que há apenas duas mortes: a de um interprete russo e a de um tripulante, também russo. Dois passageiros, que se julgavam afogados, estão vivos e hospedados no Hotel Viziense.
A Companhia proprietária do paquete vai tentar pô-lo a flutuar. O vapor tem os mastros fora da água.
Seguiram para o norte os indivíduos que do Brasil vinham a bordo do “Borussia”, em regresso às terras da sua naturalidade.
(Jornal “Comércio do Porto, quinta-feira, 24 de Outubro de 1907)

O naufrágio do vapor “Borussia”
Lisboa, 24 - Os náufragos do paquete “Borussia”, que seguiram de Lisboa para as terras de suas naturalidades, são os seguintes:
- Francisco António Aires, com a mulher e 8 filhos. É natural de Argana, freguesia de Vialonga, concelho de Macedo de Cavaleiros, e tem 41 anos. Perdeu tudo o que trazia, ganho em lavouras de café e que avaliava em 1:700$000 réis, ficando reduzido à miséria.
- António Gomes Pinto, de 29 anos, solteiro, natural de Arouca. Voltava do Brasil, aonde fora três vezes, empregando-se no mister de cozinheiro de restaurante. Para esta última viagem de regresso teve que valer-se de dinheiro que um seu primo lhe emprestou.
- Vitorino José Gomes, de 72 anos, solteiro, natural de Cabeceiras de Basto. Esteve por cinco vezes no Brasil, onde conta ainda voltar. Declarou não ter família e que estes passeios pelo mar são o seu maior prazer. De resto, não tem modo de vida definido. Trabalhava em tudo que se lhe deparava para ganhar a vida. No naufrágio perdeu apenas um saco com roupa. O dinheiro, uns 80$000 réis, tinha-os com ele, num bolso do colete.
- Albino Francisco Regato, de 25 anos, solteiro, da freguesia de Vilar de Andorinho, concelho de Vila Nova de Gaia. Ficou sem duas malas com roupas e objetos, que trazia no valor de 100$000 réis, e uma caderneta com 500$000 réis. Por sete vezes, após o naufrágio, saltou do “Borussia” para os vapores que foram em socorro dos passageiros, procurando as suas malas; como as não encontrasse, salvou bastantes outras, pertencentes a diversos dos seus companheiros de viagem.
- Deocleciano Augusto Cunha, de 24 anos, de Moncorvo. Deixou mulher e uma filha no Rio de Janeiro, para onde conta voltar brevemente. Perdeu uma mala com dinheiro – uns 150$000 réis.
- Germano dos Santos, de 34 anos, filho de Manoel dos Santos e Maria Cândida dos Santos, natural do Porto. Tendo ido há 18 anos para o Rio de Janeiro, é com esta a terceira vez que vem a Portugal. Perdeu alguma roupa, mas conseguiu salvar a mala.
- António Alves Moreira, de 46 anos, casado e com dois filhos. Foi já ao Rio de Janeiro por três vezes. Perdeu duas malas, numa das quais tinha 50$000 réis em dinheiro.
- Domingos José Gonçalves, de 42 anos, casado e com uma filha. É natural da freguesia de S. Pedro, concelho de Chaves.
- Maria de Sá Mendes Ribeiro, de 36 anos, natural de Olho Marinho, concelho de Óbidos. Deixou no Rio de Janeiro o marido, Constantino Augusto Ribeiro, para vir despedir-se de sua mãe, que numa carta lhe disseram estar a morrer.
- António de Sousa, de 40 anos, filho de João de Sousa e de Maria Penedo, casado, natural de Braga. Já foi três vezes ao Brasil. Perdeu duas malas com roupa, relógios de ouro e prata e dinheiro.
- Joaquim da Costa, de 40 anos, de Castro d’Aire. Ficaram-lhe a bordo duas malas, numa das quais tinha 20 libras em ouro.
- Manuel Gonçalves, de 36 anos, casado, sapateiro, de Mourão. Perdeu valores de 200$000 réis e 15 libras em ouro. Declarou este náufrago, que um seu companheiro de trabalho no Rio de Janeiro, e que era também natural de Mourão, viera com ele, e, na ocasião do naufrágio se atirara ao Tejo, não tornando a aparecer. Chamava-se Serapião Afonso de Oliveira, e tinha 42 anos.
(Jornal “Comércio do Porto, sexta-feira, 25 de Outubro de 1907)

domingo, 2 de setembro de 2018

História trágico-marítima (CCLXV)


A construção e naufrágio do lugre "Maria José"

Lugre "Maria José"

Este excelente navio, construído nos estaleiros da Empresa de Construções Navais, Lda., está quase concluído e deve ser lançado à água no dia 3 de Maio próximo.
É um lindo navio, que mede de comprimento entre a face de vante da roda de proa, por baixo do gurupés e a face de ré do cadaste exterior 41 metros, boca máxima, exteriormente, 8,35 metros, pontal 3,50 metros. A sua cubicagem é de 728,52 m3, ou sejam 251,42 toneladas; a cubicagem líquida e de 586,19 m3 ou 208,75 toneladas. Na primeira oportunidade irá receber matrícula definitiva na praça de Lisboa.
(Jornal "Aurora do Lima", quinta-feira, 29 de Abril de 1920)

Desenho de navio do tipo lugre, sem correspondência ao texto

Lugre “Maria José”
Este excelente barco não foi lançado à água no dia 3 conforme estava anunciado, em consequência do mau tempo, que fez assorear e danificar a carreira.
Espera-se que possa ser lançado à água amanhã, na maré da tarde.
(Jornal “Aurora do Lima”, quarta-feira, 5 de Maio de 1920)

Naufrágio de um navio português
Londres, 16 – O lugre português “Maria José” que ia em viagem de Lisboa para Barry Dock, perdeu-se ontem por causa do temporal na costa de Maurogan.
O mastro, caindo, matou o cozinheiro António Mendim, feriu o capitão e destruiu a máquina. Os restantes tripulantes salvaram-se.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 17 de Novembro de 1920)

O naufrágio do lugre “Maria José”
Acerca do naufrágio do lugre “Maria José”, no dia 15 de Novembro, vem noticiado no jornal Daily Mirror, de Londres, o seguinte:
«Fortes temporais causaram ontem o pânico nas costas do sul e oeste.
O navio português “Maria José”, com a tripulação de 10 marinheiros portugueses naufragou em Dunraven (Porthcawl - Glamorgan) durante uma terrível tempestade, ontem, de manhã cedo.
O mastro da frente partiu e tombou sobre o cozinheiro de bordo, matando-o instantaneamente, e o capitão ficou com uma perna partida. Os restantes tripulantes foram salvos».
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 30 de Novembro de 1920)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLXIV)


O naufrágio do iate "Glória de Portugal"

Naufrágio
Por comunicação telegráfica dirigida à alfândega do Porto, soube-se que ante-ontem às 3 horas da tarde, naufragara ao sul da barra de Aveiro o iate “Glória de Portugal”, procedente de Sevilha em lastro. A tripulação foi salva. Este barco pertencia à praça de Aveiro e era propriedade do sr. António Pereira Júnior.

Aveiro 3 – Mais um naufrágio teve ontem lugar à entrada do porto desta cidade. Pouco depois do meio-dia foi avistado fora da barra e à distância de muitas milhas um navio com bandeira arvorada no mastro da ré. Pelas manobras que fazia dava a entender que desejava entrar no porto. A pilotagem da barra recusou-se, com justíssimo motivo, a levantar bandeira de assentimento porque o estado do mar era temível, a rebentação furiosa e o perigo certíssimo.
Apesar disso o navio cada vez mais se aproximava de terra, notando-se que trazia a bandeira amarrada em sinal de socorro. Incessantemente da torre respectiva os práticos faziam sinal para que o navio navegasse para norte. A nada parecia obedecer.
Pelas 2 horas foi-lhe disparado do forte um tiro de peça, a que não correspondeu. Às 3 horas e um quarto, já quando o navio se aproximava do banco, foi disparado um segundo tiro. De proa à terra, e sobre enormes vagalhões de um mar encapeladíssimo, o débil baixel tentava a todo o transe galgar o banco.
Testemunha presencial de todas estas peripécias, achávamo-nos por acaso sobre a extremidade do molhe da barra, junto ao oceano, ao lado do sr. Duarte Pinto Basto, ilustre director da fábrica da Vista Alegre.
Seriam 3 horas e meia quando o navio se tornou presa das ondas furibundas do banco, sobre as quais horrorosamente oscilava, mostrando alternadamente, ora toda a ré, ora toda a proa mesmo até à quilha. À mercê das vagas e sem vento nos panos sofreu o embate das tremendas pancadas de mar com tanta felicidade para a tripulação, que, arrastado pela corrente da costa, foi encalhar junto ao férreo esqueleto do vapor “Kate Forster”, naufragado o ano passado.
Para vergonha do nosso país, cumpre dizer aqui que no porto de Aveiro não há nem barco nem cabos de salva-vidas, não há bóias de salvação, não há marriate, não há nada, na mais genuína expressão da verdade, para socorrer a náufragos. Não sabemos até como os infelizes pilotos da barra se sujeitam a um serviço, muitas vezes violento, pelo misérrimo ordenado de 80 réis por dia! Isto seria incrível se não fosse simplesmente verdade!
Quando o navio bateu na praia nós e o nosso amigo Duarte Pinto Basto propúnhamo-nos fazer as honras da casa porque ninguém com caracter oficial ali estava. Por fortuna o navio encalhou bem e como a maré vazava muito fácil foi possível, depois de meia hora, aos tripulantes tocar em seco. Nesta ocasião já estavam a bordo dois práticos da barra, que foram guindados por um cabo.
O navio é o iate “Glória de Portugal”, pertencente ao sr. António Pereira Júnior, da praça de Aveiro. Vinha em lastro de volta de Espanha onde fora levar um carregamento de travessas de caminho-de-ferro para Sevilha. A tripulação compunha-se de 8 pessoas, que nada sofreram, sendo o capitão o sr. Joaquim de Oliveira e o piloto o sr. Bandarra. À excepção deste último, que é de Aveiro, todos os demais são ilhavenses.
Segundo palavras do próprio capitão, a quem não faltavam lágrimas, não foi possível desde muitas milhas governar o iate, não só por falta de vento como pela agitação do mar, que constantemente o veio impelindo para a costa. Tendo lançado ferro nada conseguiu, por se lhe ter partido a corrente. Lutando sem resultado e extremo recurso, tentou dirigir o iate para a em-bocadura da barra, mas infelizmente naufragou. O navio ainda hoje se conserva direito, mas é provável que a maré da noite o desfaça. Estava seguro.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 4 de Setembro de 1883)

Desenho de navio do tipo iate, sem correspondência ao texto

Características do navio
Armador: António Pereira Júnior, Ílhavo
Nº Oficial: N/ tem - Iic.: H.C.L.P. - Porto de registo: Aveiro
Arqueação: 149,000 m3
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes

Iate "Glória de Portugal" - (Do jornal "Campeão das Províncias)
Aveiro, 19 de Setembro – O agente da Companhia Seguradora do iate “Gloria de Portugal”, o sr. Manuel dos Santos Vitorino, do Porto, tentou nas marés vivas na tarde de Domingo e segunda-feira, e com o auxílio de numeroso pessoal safar o navio do seco para o mar, visto que este anteriormente havia levado grande porção de areia, que o obstruía.
No primeiro dia conseguiram movê-lo bastante, mas, rebentando o bolinete, começou o trabalho braçal a ser mais difícil e moroso, e o mar, quebrando de encontro ao iate, foi-o aluíndo de tal modo que no segundo dia, quando conseguiram pô-lo a nado, afundou em razão da muita água que metia, sendo impossível esgotá-la; de sorte que se julga o casco inteiramente perdido. Conforme já se admitia, o mar ontem despedaçou completamente o casco.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 21 de Setembro de 1883)

(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 25 de Setembro de 1883)

Iate “Gloria de Portugal” - (Do jornal "Campeão das Províncias)
Aveiro, 22 de Setembro – O iate “Gloria de Portugal”, que há dias encalhou na restinga ao sul da barra, desapareceu totalmente há quatro dias. E, contudo, havia esperança de pô-lo a nado.
Ao vê-lo com a quilha na areia, ereto, perfilado, com os seus mastros levantados e aprumados, julgava-se que com as marés grandes o mar fá-lo-ia ainda navegar. Pois não sucedeu assim.
Na manhã de segunda-feira nem vestígios havia do iate. Já na véspera inclinara para fora; depois foi alquebrando, até que arrebentou, e apesar de não haver grande vaga, abriu em duas metades, que flutuaram ao capricho das ondas.
Alguma madeira arrolou à praia. O navio estava seguro.
(Jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 26 de Setembro de 1883)

domingo, 26 de agosto de 2018

Leixões na rota do turismo! (6/2018)


Navios de passageiros em porto no mês de Julho

Apenas três navios estiveram de visita ao porto de Leixões, muito embora dois deles duplicaram as escalas.
Não me ocorre uma tão parca utilização das instalações portuárias, durante os meses de verão, nos últimos anos.
Obviamente, esta ausência de navios durante o mês não deverá causar qualquer tipo de apreensão,  ou constrangimento, porém, far-se-á sentir nas estatísticas, que vem apresentando números muito satisfatórios e em ascenção progressiva a cada ano que passa.

Navio de passageiros "Marella Spirit"
No dia 3, chegou procedente de Vigo, saíu com destino a Lisboa
No dia 24, repetiu a viagem, com escalas nos mesmos portos

Navio de passageiros "Azura"
No dia 5, chegou procedente da Corunha, saindo para Lisboa
No dia 23, tal como o navio anterior, repetiu as mesmas escalas

Navio de passageiros "Arcadia"
No dia 24, chegou procedente da Corunha, saindo para Lisboa

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLXIII)


O encalhe do vapor "Açor", no rio Douro

Vapor “Açor”
Cerca das 2 horas da tarde de ante-ontem, vindo a entrar a barra o vapor português “Açor”, procedente das ilhas dos Açores, por Lisboa, com vários géneros e consignado aos srs. W. e Geo. Tait, guinou ao sul e bateu nas pedras denominadas «Folga-manada», abrindo água.
Largou um ferro e ciou a toda a força à ré, até que veio outra vez para o canal, suspendeu o ferro e seguiu barra dentro, vindo fundear em Santo António do Vale da Piedade, onde encalhou ontem para examinar os rombos e uma chapa que tem aluída.
(Jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 29 de Março de 1895)

Imagem do vapor "Açor"
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Açor”
1877-1905
Armador: Empresa Insulana de Navegação, Lisboa
Nº Oficial: N/d - Iic: H.G.K.S. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Earle’s Shipbuilding Co., Ltd., Hull, 1877
Arqueação: Tab 1.204,17 tons - Tal 753,36 tons
Dimensões: Pp 72,63 mts - Boca 9,26 mts - Pontal 7,90 mts
Propulsão: 1 motor compound - 180 Ihp - 11,5 m/h

Vapor “Açor”
Este navio, que sofreu vários rombos quando vinha a entrar a barra, por motivo de ter batido nas pedras «Folga-manada», foi ontem vistoriado por peritos em Santo António do Vale da Piedade, onde se acha fundeado, informando o respectivo mergulhador que o vapor tem quatro rombos no costado, a estibordo, debaixo dos tanques de lastro, rombos que vão ser vedados com cunhas de madeira para depois ser esvaziada a água dos tanques, permitindo examinar as avarias sofridas e resolver as reparações a executar.
A carga está toda descarregada e não sofreu avaria.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Março de 1895)

O vapor “Açor”
Está praticamente concluída a vedação da água, que entrava pelas fendas nas chapas do costado do vapor “Açor”. Esperam que hoje fique completamente vedado, provisoriamente.
Depois de passar o tempo necessário para o cimento estar perfeitamente petrificado, o vapor seguirá para Lisboa ou Cadiz, a fim de receber novas chapas de ferro.
O sinistro sofrido pelo vapor “Açor” torna cada vez mais evidente a necessidade de ser construído o dique de reparações projectado para o porto de Leixões.
O dique de Cadiz está sendo constantemente utilizado por vapores que precisam de reparações, limpeza do fundo, etc., e por isso um dique em Leixões deveria ser também muito procurado para o mesmo fim. Basta mencionar que muitos vapores portugueses, quando precisam de limpar o fundo têm de ir a Cadiz, resultando em despesa e sacrifícios.
(Jornal “Comércio do Porto”, segunda-feira, 1 de Abril de 1895)

O vapor “Açor”
Este vapor, que já se acha provisoriamente reparado das avarias que sofreu quando entrou a barra do rio Douro, talvez saia depois de amanhã para Lisboa, indo para o dique do Arsenal da Marinha, a fim dali ser devidamente reparado.
Hoje realizar-se-á uma vistoria ao vapor, para ser verificado se está em condições de seguir para o Tejo.
(Jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 2 de Abril de 1895)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLXII)


O naufrágio do brigue inglês "Jane & Mary"

(Jornal "Comércio do Porto", Domingo, 14 de Abril de 1907)

Desenho de navio do tipo brigue, sem correspondência ao texto

Características do brigue “Jane & Mary”
Armador: Crawford, Sunderland
Nº. Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Sunderland
Construtor: Não identificado, Sunderland, 1832
Arqueação: Tab 200,00 tons - Tal 184,00 tons
Dimensões: Informação indisponível
Propulsão: À vela
Equipagem: 5 tripulantes

Mais um naufrágio
Há hoje a registar mais um naufrágio nessa terrível voragem a que chamam barra do Porto. O brigue inglês “Jane & Mary”, capitão John Greny, ao entrar ontem a barra foi encalhar no Cabedelo e ficou completamente perdido.
O naufrágio teve lugar às 3 horas e 20 minutos da tarde, mas por felicidade poucos momentos depois estava salva a tripulação pelas catraias. O brigue vinha de Sunderland em 44 dias, com carvão para a Companhia do Gaz.
Segundo a parte do piloto que abaixo se reproduz, na ocasião em que o “Jane & Mary” vinha a entrar, afrouxou o vento, e o brigue desgovernado bateu na pedra «Folga-manadas», e começando a meter água foi encalhar no Cabedelo.
Porém, diz-se por aí, que concorrera para o naufrágio o ter sido necessário seguir na entrada um rumo muito tortuoso, para se desviar do casco do vapor “Bacchante”. Não asseveramos, referindo simplesmente estes comentários, para evitar reclamações.
O barco salva-vidas ainda chegou a sair, mas os serviços que ele poderia prestar no salvamento dos náufragos, já haviam sido prestados pelas catraias.

O ofício do piloto é o seguinte:
«Ontem, vindo a entrar os brigues “Star” e “Jane & Mary”, este dentro do banco, o vento abonançou, desgovernando o navio, pelo que foi bater na «Folga-manadas». Pude conseguir salvar toda a tripulação, e este brigue foi depois encalhar no Cabedelo cheio de água. O “Star” como estivesse mais um pouco por fora deste, pôde sair pelo canal do sul sem novidade. Foz do Douro, 13 de Abril de 1857 M.L. Monteiro – Piloto-mor».

Os dois últimos naufrágios, que foram presenciados nesses escolhos, que deveriam já estar destruídos, não despertaram ainda o letargo em que jaz! Tanta indiferença é na verdade altamente censurável.
Pelo menos deem a esse imposto, que o comércio da cidade está a pagar indevidamente, a aplicação que ele deve ter. Dos trezentos contos que os nossos governos terão já recebido para obras na barra, quanto se terá gasto no seu melhoramento?
Se não se pode conseguir tudo, quebrem-se ao menos algumas dessas pedras mais notáveis, e para isso chegará decerto a soma que já lá tem. Só em Portugal é que se vê tanta indiferença, descurando-se de uma obra da mais instante necessidade, e já não seria sem tempo se se fizesse alguma coisa.
(Jornal “Comércio do Porto”, segunda-feira, 13 de Abril de 1857)

domingo, 19 de agosto de 2018

História trágico-marítima (CCLXI)


Encalhe do lugre-escuna "Felix", na praia de Matosinhos

Momentos de ansiedade – Salvamento da tripulação
Não só em terra o mau tempo se tem feito sentir. Também no mar o temporal tem causado grossas avarias a diversas embarcações. O mar, de há dias a esta parte, está agitadíssimo, sendo uma temeridade as embarcações tentarem aproximar-se de terra.
Ontem, pelas 11 horas e meia da manhã, o lugre dinamarquês “Felix”, que se encontrava ao largo do porto de Leixões, tentou aproximar-se para via ancorar na baía, fugindo assim ao temporal. Na ocasião em que demandava o porto, ao chegar à embocadura, as vagas grossas e alterosas e a falta de vento fizeram com que fosse direito à praia.
Na iminência do perigo, a tripulação largou os ferros, conseguindo assim que a embarcação se aguentasse durante algum tempo. Como fosse grande a agitação do mar, as amarras rebentaram, vindo o navio encalhar na praia da República (antiga praia de D. Carlos).
De terra logo prestaram socorro aos náufragos, sendo, depois de alguns esforços, salva a tripulação, composta de 5 homens, incluindo o capitão, pelo barco salva-vidas, vindo desembarcar na praia.
O lugre “Felix” procedia da Terra Nova, trazendo um carregamento de bacalhau para a Sociedade Mercantil Industrial, Lda. Vem consignado aos srs. Blackett & Magalhães e pertence à praça de Marstal. O “Felix” é um lugre de 99 toneladas.

Imagem do lugre-escuna "Felix" na praia de Matosinhos
Foto de autor desconhecido - minha colecção

Matosinhos-Leça, 3 – Pelas 10 horas e meia da manhã foi dada ordem, pela Capitania do porto de Leixões para a Estação de Bombeiros de Leça para avançarem com o barco salva-vidas e o material de socorros a náufragos para o navio de vela que estava em perigo pela parte de fora do molhe sul de Leixões, defronte da praia da República.
O salva-vidas “Leixões” saiu logo, tripulado pelo patrão José Rabumba, o «Aveiro», com 12 homens de guarnição, rebocado pelo salva-vidas a gasolina, até à entrada do porto de Leixões, indo nele o sr. capitão do porto, o patrão-mor José Amaral e mais tripulação.
Não obstante a vaga alterosa e ser uma verdadeira temeridade a saída do salva-vidas, o «Aveiro», homem experiente e arrojado que é, aproveitando ocasião propícia, saiu a doca.
Neste tempo já tinham chegado ao molhe sul os bombeiros voluntários com o carro porta-cabos nº 2 da estação de Matosinhos, que iniciavam o serviço de salvamento. Quando estava pronto para ser lançado o foguetão, dobrava o salva-vidas a curva do molhe sul, pelo que foi suspenso o lançamento do foguetão até ver se o salva-vidas conseguia abordar o navio.
Depois de várias tentativas frustradas, pelo muito mar, espectáculo imponente, presenciado por milhares de pessoas, o salva-vidas sempre conseguiu encostar-se ao navio, recolhendo a sua tripulação, que era de 5 homens. A dificuldade agora era trazer o salva-vidas para terra, pois voltar pela entrada do porto era um grande perigo para os salvadores e para os salvados.
Então, com um grande lance de audácia, o salva-vidas foi levado à força de remos para a praia, o que foi feito em tais condições de coragem pela tripulação. Já próximo da praia, uma vaga muito alterosa, quase virou o salva-vidas que ficou inundado de água por uma borda, não ficando voltado completamente, por ter seguido no dorso dessa onda, que o depositou na areia.
Após um momento de indiscritível regozijo para todos quantos presenciaram o arrojado salvamento, a multidão saudou calorosamente o intrépido «Aveiro» e os seus valentes companheiros, dirigindo-se ao salva-vidas, de onde retiraram os náufragos e tripulantes, trazendo o barco para lugar seguro.
Acções desta natureza honram quem as pratica e não há recompensas que possam premiar tanto arrojo e tanta abnegação.
O sr. capitão do porto acompanhou todos esses serviços, do molhe sul, onde desembarcou o salva-vidas motorizado, que estava pronto a socorrer o outro, caso fosse preciso.
O serviço do carro porta-cabos, dos bombeiros voluntários foi dirigido pelo seu prestigioso comandante, sr. coronel Alberto Laura Moreira.
Prestou, também apreciados serviços o condutor Manuel Augusto Valente, com a camionete da Fabrica de Conservas de Casebre & Cª., Lda., de Matosinhos, prestando-se espontaneamente, a rebocar para o molhe sul o carro porta-cabos, e conduzir para a capitania e para o hotel, aonde foram mandados hospedar os náufragos, e a conduzir da estação o salva-vidas e o material para o seu encalhe na praia.
O navio, que pouco depois das 2 horas da tarde, foi arrojado à praia, defronte da Fabrica de Conservas de Brandão, Gomes & Cª., por se ter partido a corrente de ferro que tinha no fundo, era o lugre-escuna dinamarquês “Felix”, que está completamente perdido bem como a sua carga, que era de bacalhau.
Consta que da tripulação do navio faltam dois homens, que há dias uma volta de mar arrebatou sendo um deles o capitão. O “Felix”, cujo casco é de madeira, vinha da Terra Nova. É da praça de Marstal, Dinamarca, e tem 99 toneladas brutas de registo.
Vinha consignado à firma desta praça Blackett & Magalhães e a carga era destinada à Sociedade Industrial Mercantil, Lda.
(Jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Fevereiro de 1922)

O naufrágio do lugre “Felix”
Pormenores
Matosinhos-Leça, 4 – O lugre-escuna “Felix”, naufragado ontem ao sul do porto de Leixões, mantem-se no mesmo estado. Em vista do mar o permitir, foram já hoje retirados, por ordem da Alfândega, vários apetrechos de bordo, como sejam velas, barricas, etc., ficando tudo na praia, convenientemente arrumado, sob a vigilância da Guarda-fiscal.
Como constasse que o mar tinha arrojado à praia o bacalhau, que constituía o carregamento do navio, apareceram lá diversos indivíduos que se tornaram suspeitos e que a guarda-fiscal tratou de dispersar.
Durante o dia tem ido à praia muitas pessoas que são mantidas à distância pela guarda-fiscal, esperando-se que amanhã a concorrência seja maior em virtude de ter terminado a greve da Carris.
(Jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Fevereiro de 1922)

O navio foi posteriormente desencalhado, seguindo para o rio Douro em 21 de Junho, a reboque da traineira “Mediterrâneo”, entrando em estaleiro a fim de realizar os necessários trabalhos, pelo que depois de reparado regressou ao serviço comercial.