sábado, 2 de fevereiro de 2013

História trágico-marítima (LXIII)


O encalhe do vapor português “Oevenum”
1ª Parte

Mais um caso de naufrágio, um pouco mais antigo, constatando-se de novo o perigo que resultava em navegar numa costa mal sinalizada, sempre que sucediam situações de bom tempo (ausência do ruído da ondulação junto às praias), nas noites de pouca ou nenhuma visibilidade, sempre que o litoral era acometido por exagerados mantos de nevoeiro.

O anúncio da empresa, publicado durante o mês de Abril de
1900, com a indicação da última viagem do vapor a Nova Iorque.

A história do naufrágio
Devido à cerração que havia no mar de madrugada (4 de Junho de 1900), o vapor “Oevenum”, pertencente à considerada casa comercial J.H. Andresen Sucessores, da praça do Porto, bateu, pela 1 hora, na pedra denominada «Mouro», próxima à praia de Angeiras, em Lavra, a pouca distância de Matosinhos.
Foi desde logo verificado que o vapor estava completamente perdido, porque o rombo era grande, ficando a popa bastante submergida e estando a proa levantada, na direcção leste-nordeste. Por esse rombo, que ficava à proa, metia o barco muita água. Houve no momento o natural pânico entre a tripulação, tanto mais que a densa névoa impedia de tomar medidas rápidas, tais como chamar socorros de terra, ou mesmo de quaisquer embarcações que por ventura singrassem por perto. O comandante, todavia, ordenou as providências da ocasião, fazendo arriar os escaleres para o caso de ser necessário abandonar totalmente o barco.
Às 6 horas e 45 minutos da manhã chegava à Associação Comercial do Porto o primeiro telegrama do sinistro, ocorrido à 1 hora da madrugada, e às 7 horas e 50 minutos chegava à bacia do porto de Leixões um barco de pescadores, levando o imediato do vapor, sr. Arnaldo Soares, que desde logo confirmou o encalhe, manifestando a opinião que o “Oevenum” estava completamente perdido, motivo pelo qual se encontrava ali pedindo socorro. A primeira notícia do naufrágio trouxeram-na uns pescadores de Lavra a pedido do comandante do vapor.
Em socorro dos tripulantes saiu logo o vaporzinho “Ligeiro”, rebocando uma catraia dos pilotos e um barco com gente destinada a prestar qualquer serviço. A esse tempo, porém, já a leste andavam com alguns dos tripulantes cinco escaleres do “Oevenum”. Só o comandante ficara a bordo com vários dos seus subordinados.
Eram cerca das 10 horas quando os cinco escaleres entraram em Leixões, conduzindo parte da tripulação, bagagens e diversos utensílios de bordo. Às 11 horas era dada a notícia que todos os tripulantes estavam salvos. O total destes era de 34.
O rebocador “Veloz” e o vapor “Tritão” seguiram também para o local do naufrágio, que dista uns trezentos metros de terra. O “Oevenum”, mercê da macieza do mar, ficou até ontem na posição primitiva, com a diferença apenas de que a popa se tinha submergido um pouco mais. Por isso, ontem, por uma das escotilhas da proa, que ficara em seco, puderam retirar algumas sacas de trigo e milho para barcaças, que eram rebocadas até Leixões pelo “Ligeiro”. Este trabalho tem sido infatigável e aturado, continuando até onde for possível.
O “Oevenum” era comandado pelo sr. Augusto da Costa e Silva, que fazia a sua primeira viagem neste navio. Era de 1.507 toneladas de registo e vinha de New York em 15 dias, com um importante carregamento de trigo e milho avaliado em 100:000$000 réis, que estão cobertos pelo seguro em várias Companhias estrangeiras. O vapor estava avaliado em 120:000$000 réis, achando-se metade desta importância segura em Companhias estrangeiras.
A outra metade tinha seguro na própria casa Andresen. O recém-empossado capitão sr. Augusto da Costa e Silva desempenhara por alguns anos o cargo de 2º piloto e imediato do vapor “Dona Maria”, pertencente à mesma empresa. O sr. Emílio Ferreira dos Santos, empregado da casa Andresen, contratou o salvamento do que for possível tirar de bordo. No local do sinistro compareceu o sr. João Andresen, bem como diverso pessoal da Capitania de Leixões e da Guarda-Fiscal, que desde logo tomou precauções para ser arrecadado o que vier à praia.
In (jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 5 de Junho de 1900)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História trágico-marítima (LXII)


O encalhe do vapor espanhol “António Ferrer”

Muito pouco tempo depois de ter acontecido o naufrágio do navio grego “Athina”, conforme referido no relato anterior, um outro navio encalhava no mesmo local, igualmente vitimado por denso manto de nevoeiro.
A história do naufrágio
Viana do Castelo, 4 - Encalhou próximo de Castelo de Neiva o vapor espanhol “António Ferrer”. A tripulação e os passageiros estão salvos. O comandante, que está a bordo, pede um rebocador com material e bombas. O navio que esteve encalhado no banco de S. Bartolomeu safou e foi encalhar na praia. O vapor “António Ferrer” pertence à praça de Valencia, foi construído em 1882, tem cerca de 1.000 toneladas de registo e é actualmente propriedade da firma A. Ferrer Peret y Hermanos (*).
(In jornal “Comércio do Porto”, de 5 de Maio de 1917)
(*) Na realidade já não era propriedade deste armador, por ter sido adquirido alguns meses antes pela nova  Companhia Transmediterrânea, de Barcelona.

O “António Ferrer”
 1917 – 1918
 Armador: Companhia Transmediterrânea, Barcelona, Espanha

Foto de autor desconhecido
Imagem retirada do sítio «trasmeships.es»

Construtor: W. B. Thompson, Dundee, Escócia, 1882
ex “Goya”, Comp. de Navegação La Betica, Sevilha, 1882-1914
ex “Goya”, Comp. Marítima de Barcelona, 1914-1914
ex “António Ferrer”, Ferrer Peset Hermanos, Valencia, 1914-1917
Arqueação: Tab 975,00 tons - Tal 766,00 tons
Dimensões: Pp 64,16 mtrs - Boca 9,08 mtrs - Pontal 6,52 mtrs
Propulsão: W. B. Thompson, - 1:Cp - 2:Ci – 92 Nhp – 8,5 m/h
Equipagem: 24 tripulantes e 30 passageiros

Viana do Castelo, 4 de Maio - Por ordem do chefe do Departamento Marítimo do Norte seguiu de Leixões para o local do sinistro o rebocador “Lusitânia”, com pessoal e bombas, a fim de prestar os socorros pedidos e mais tarde seguiu um outro rebocador, estando o mar muito calmo.
Esposende, 4 de Maio - Na praia do Beijinho naufragou durante a noite o vapor espanhol “António Ferrer”, da praça de Valencia. Vinha de Cadiz e destinava-se a Vigo. É comandado pelo capitão Honorato Bonet e traz um carregamento com géneros diversos. Informações colhidas no local fazem constar que o vapor bateu nas pedras do Corveiro, junto do Belinho, em Esposende, por volta das 10 horas da noite, sendo rebocado por embarcações de pesca para a praia de Castelo de Neiva, limite do concelho de Viana do Castelo. A tripulação e os passageiros em trânsito salvaram-se todos. Os bombeiros voluntários locais, logo que tiveram conhecimento do sinistro seguiram para o local com o material respectivo, não sendo, porém, utilizados os seus serviços, dado o bom estado do mar e estarem já salvas todas as vidas.

Segue-se um aditamento com correção à notícia anterior:
Viana do Castelo, 4 de Maio - Pelas 11 horas da noite de ontem encalhou numas pedras, em frente à freguesia de Castelo de Neiva, deste concelho, ao sul da barra, o vapor espanhol “António Ferrer”, de 1.200 toneladas, da matrícula de Valencia. Vinha de Cadiz e dirigia-se a Vigo e outros portos, com vários géneros e 30 passageiros em trânsito de Montevideu e Buenos Aires. É capitão do vapor Honorato Bonet. A tripulação e passageiros, ao todo 54 pessoas, vieram para Viana do Castelo, hospedando-se no restaurante Miranda, em frente às Almas. O capitão conserva-se a bordo.
Trabalha-se no salvamento da carga e há esperanças de salvar o navio, para o que se espera um rebocador do Porto, que será auxiliado pelo “Mosquito”. O encalhe foi devido ao nevoeiro. Foi também participado que a lancha a gasolina, da Corporação dos Pilotos, conseguiu tirar de sobre as pedras o vapor “António Ferrer”, rebocando-o depois para a praia. Este serviço foi importantíssimo.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 5 de Maio de 1917)
Viana do Castelo, 6 de Maio - Vapor Encalhado - Continua encalhado na praia de Castelo de Neiva, ao sul de Viana do Castelo, o vapor espanhol “António Ferrer”. Ontem, à tarde, regressaram a Leixões os rebocadores “Douro” e “Lusitânia”, por não ter sido combinado nenhuma tentativa de salvamento com os rebocadores portugueses, dizendo aguardar a chegada de dois vapores salvadegos espanhóis para esse efeito.
Em frente à referida praia também esteve posicionado o vapor salvadego português “Cotolino”, que igualmente retirou. É opinião unânime  que se o mar se conservar bonançoso, o navio será posto a flutuar.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 7 de Maio de 1917)
Viana do Castelo, 7 de Maio - Na praia do Moinho do Bispo trabalham para ver se conseguem tirar o vapor “António Ferrer”. Para isso, estão fundeados próximo do mesmo dois rebocadores portugueses e um espanhol.
Nos armazéns da delegação aduaneira acham-se depositados oito sacos de farinha, 13 caixas com velas de estearina e outras miudezas, que foram arrojadas à praia, fazendo parte da carga do referido vapor.
Do porto de Leixões saíram ontem os rebocadores “Lusitânia” e “Mondego”, conduzindo a bordo bombas de grande pressão, para serviço de escoamento da água nos porões do vapor espanhol “António Ferrer”, que se encontra encalhado na praia de Castelo de Neiva, ao sul de Viana do Castelo.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 8 de Maio de 1917)
Viana do Castelo, 8 de Maio - Desencalhou e seguiu para Vigo o vapor “António Ferrer”, que teve de alijar muita carga ao mar. Estava tudo preparado para que o navio entrasse na doca do porto de Viana, onde estava previsto fazer os necessários reparos, mas o vapor a reboque seguiu viagem rumo a norte.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 9 de Maio de 1917)

Quadro de autor desconhecido com o vapor "Goya"
Museu Marítimo da Ria de Bilbao
Imagem retirada do sítio «trasmeships.es»

Depois da reparação realizada em Vigo, regressando ao serviço comercial, o “António Ferrer”, que foi um dos primeiros vapores adquiridos aquando da inauguração da recente companhia Transmediterrânea, não teve uma carreira feliz, porque simultaneamente correspondeu ao primeiro navio considerado perda total da empresa. Com efeito, o vapor naufragou na restinga da Punta dos Buxeirados, no Cabo Toriñana, situado na costa galega, a 23 de Março de 1918, durante o transporte de um lote completo de carvão, carregado em Avilés. Em função das circunstâncias em que o navio se encontrava, o capitão ordenou à tripulação o seu abandono, permitindo-lhes a chegada a salvamento sem dificuldade na costa de Muxia.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

História trágico-marítima (LXI)


O naufrágio do navio grego “Athina”

Em continuação aos últimos relatos de naufrágios, retomo a informação de outros sinistros que ocorreram no litoral da costa norte do país. Como se constata, nem sempre aconteceram acidentes derivados por situações de mau tempo. Outros inimigos dos navegadores, tais como a neblina e o nevoeiro facilitaram a completa perda de navios na costa, todavia porque uma boa parte desses sinistros acontecia durante condições de calmaria, o mar possibilitava que fosse prestada assistência aos náufragos, tanto por terra como pelo mar.
O relato do naufrágio
Pelas alturas de Fão, próximo de Esposende, encalhou ontem (3 de Maio de 1917), por volta das 8 horas da manhã, o vapor grego “Athina”, que dentro em pouco soçobrou, não havendo, felizmente, vitimas a lamentar. (In jornal “Comércio do Porto”, de 4 de Maio de 1917)
O “Athina”
1915 – 1917
Armador: Nav. à Vapeur 'Ionienne' G. Yannoulato Frères, Piréu, Grécia
Construtor: Richardson Duck & Co., Thornaby, Escócia, Jan/1879
ex “New York City”, Chas. Hill & Sons, Bristol, 1879/1883
ex “New York City”, S.S. Co. Ltd. (Scrutton, Sons & Co.), Londres, 1883/1895
ex “Braila”, Nav. à Vapeur Egée (P. M. Courtgi & Co.), Istambul, Turquia, 1895/1912
ex “Athina”, M. Rigo, Piréu, Grécia, 1912/1914
ex “Athina”, A. Yannoulatos, Piraeus, Grécia, 1914/1915
Arqueação: Tab 1.724,00 tons
Dimensões: Pp 79,30 mtrs – Boca 10,50 mtrs
Propulsão: T. Richardson & Sons, Hartlepool - 1:Te - 2:Ci - 10 m/h
Equipagem: 21 tripulantes

Esposende, 3 de Maio - Ao norte de Esposende encalhou esta manhã, devido ao intenso nevoeiro, o vapor grego “Athina”, que bateu pelo lado sul nas pedras denominadas “S. Bartolomeu”, metendo água nos porões e na casa das máquinas.
À praia afluíram muitas pessoas dispostas, algumas delas, a prestar auxilio aos náufragos, se lhes fosse possível. Entretanto foram chamados socorros, quer dos bombeiros voluntários locais, quer de Leixões, tendo sido participado o desastre ao departamento marítimo do norte. O mar estava bom e os tripulantes salvaram-se, sendo o último a vir para terra o respectivo capitão.
O “Athina” que se perdeu por completo, pertencia à casa Tamndato Fratel (!), da praça do Pireu (Grécia). Vinha de Newport com carregamento completo de carvão para a Argélia. Os Bombeiros Voluntários, que saíram com o carro porta-cabos, chegaram ao local do sinistro; mas os seus serviços não foram necessários.
Viana do Castelo, 3 de Maio – Foi esta manhã conhecido na cidade, que nas pedras de «S. Bartolomeu», nas proximidades de Esposende, encalhou o vapor grego “Athina”, procedente de Newport para a Argélia. Transportava 1.000 toneladas de briquetes, 1.004 toneladas de carvão e 100 cascos vazios. A tripulação salvou-se mas o navio e a carga perderam-se. No local do sinistro compareceram o chefe da delegação aduaneira de Viana, sr. tenente Lara e o escriturário sr. Castro.
A notícia do encalhe do “Athina” foi conhecida no departamento marítimo do norte cerca das 11 horas da manhã, sendo o capitão de mar-e-guerra sr. Cunha Lima prevenido telefonicamente a partir da estação telegráfica central, de que se acabava de dar um naufrágio na costa de Esposende. Apesar de não ter ainda comunicação oficial, nem recebido qualquer telegrama nesse sentido, o chefe do departamento marítimo fez seguir imediatamente para o local do sinistro um caça-minas português, que estava em Leixões, levando a reboque um barco salva-vidas.
Esposende, 3 às 14,50 horas – Encalhou nos baixios de S. Bartolomeu, às 8 horas, o vapor “Athina” da praça do Pireu, Grécia, com carga de carvão, procedente de Newport, com destino à Argélia. O navio abriu água no primeiro e segundo porão e na máquina. Não pode sair da posição em que se encontra e é difícil o auxílio de rebocador, porque submerge. A tripulação está toda em terra, mas o capitão ficou ainda a bordo.
Esposende, 3 às 15,33 horas – O navio acaba de soçobrar. O capitão veio para terra. O primeiro destes telegramas foi recebido no departamento marítimo cerca das 3 horas e meia da tarde e o segundo às 4 horas e meia.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 4 de Maio de 1917)
Depois destas notícias, foi comunicado oficialmente que iria ser tentado salvar alguma da carga transportada, durante os períodos de maré baixa. Também, que toda a tripulação chegou ao Porto durante o dia 4 de Maio, tendo sido apresentada ao sr. Cônsul da Grécia, a fim de este providenciar à respectiva repatriação dos mesmos.
Viana do Castelo, 8 – Do vapor grego “Athina”, naufragado nas pedras de S. Bartolomeu, têm sido retirados aprestos e vai proceder-se ao salvamento da carga, visto o navio ter sido abandonado.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 8 de Maio de 1917)

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

História trágico-marítima (XXX)


O ataque ao vapor “Desertas”, na ria de Aveiro

No dia 12 de Agosto de 2011 ocorreu-me escrever sobre o ataque efectuado por um submarino alemão ao vapor “Desertas”, quando este se encontrava encalhado sobre um banco de areia na ria de Aveiro, a coberto do título acima referenciado. Termino o texto então publicado, lamentando a falta de documentos com informação sobre o assunto, tendo à data especulado que o ataque tinha sido deliberado e meticulosamente preparado, com vista a destruir o navio, nos seguintes termos:
Transcrição
Decorridos quase 100 anos sobre o incidente, não encontro referência ao submarino que levou a cabo o surpreendente e esporádico canhoneamento ao “Desertas”, pela não existência do relatório correspondente. Essa omissão sugere que o episódio de guerra foi deliberado pela estrutura militar e meticulosamente preparado, visando a total ou parcial destruição do navio. Só assim se entende a aproximação do submarino a curta distância da linha de costa, sabendo estar numa área perigosa e de fácil acesso a uma fatal retaliação.
Fim de transcrição
Afinal, volvido um ano e alguns meses, ganhei de presente a página do «Diário de bordo» do submarino alemão, que participou no ataque ao “Desertas”, que serve para provar estar completamente errado, tal como o jornalista do “Comércio do Porto” que assina a reportagem, já que o episódio teve contornos completamente diferentes.

Folha do Diário de Bordo, do submarino alemão U-22

Em função deste documento, confirma-se que o submarino em questão foi o U-22, sob o comando do capitão Hinrich Hermann Hashagen, durante uma patrulha a navegar ao longo da costa, de sul para norte, no dia 4 de Setembro de 1918. Durante a manhã o submarino atacou e afundou o barco de pesca “Santa Maria”, quando este se encontrava ao largo de Peniche. Continuando a viagem para norte, já durante a tarde, à passagem pelo novo molhe de Aveiro, avistaram um vapor no interior do porto, pelo que decidiram mover-lhe um ataque à granada. Entretanto, forçada a aproximação à costa, puderam constatar que o navio se encontrava encalhado, pelo que face à hipótese do navio nunca vir a ser recuperado, optaram no sentido de dar por findo o ataque, evitando dessa forma o desperdício de munições. Algum tempo depois, foi averiguada a presença de pequenos aviões, levando o submarino a mergulhar, para evitar o ataque dos mesmos, muito embora tenham sido sentidas a bordo já a alguma distância três deflagrações provocadas por cargas de profundidade, sem que tivessem provocado qualquer dano no navio.
Nessa mesma tarde o submarino foi também sujeito a novo ataque, desta feita levado a cabo por um navio patrulha, cujas granadas caíram a cerca de 300 metros, sem que o submarino tivesse ripostado, devido à forte ondulação que se fazia sentir. Novamente a navegar em imersão manteve o rumo de navegação para norte.
Face à explicação da ocorrência, verifica-se ter acontecido um acto de guerra espontâneo, até porque era inviável o aprisionamento do vapor e a identificação do mesmo, razão pela qual se percebe a ausência de mais detalhes no respectivo diário. Posto isto, fica apenas por saber-se qual a draga que foi atingida pelos estilhaços de duas ou três granadas, que lhe terão provocado pequenas avarias, conforme descrito na notícia previamente publicada.

Foto do navio “Desertas”, encalhado na manhã de 19 de Novembro de 1916 e dos oficiais a bordo no convés do vapor. Da esquerda para a direita, José Domingos da Rosa, Imediato; José Guerreiro Jorge, Comandante; António Gomes Ferreira, 1º Maquinista e Belmiro Fernandes Morais, 2º Piloto.
(Imagens de Arnaldo Ribeiro para a Ilustração Portuguesa)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

História trágico-marítima


O encalhe do cargueiro “Merle”

Escolhi o dia de hoje para ir ver o navio encalhado. Podia ter ido ontem, mas o tempo ainda não se apresentava agradável para percorrer a estrada oeste da ria de Aveiro e depois já imaginava, por ser Domingo, que iria ser dia de São Navio. Acho que acertei no dia e na hora, meio da tarde, pois não havia muito transito, mas mesmo assim não consegui evitar a inconveniência de um ou outro aguaceiro.
Seguindo o caminho para S. Jacinto, alguns quilómetros depois da Torreira, revelou-se fácil encontrar a entrada que dava acesso à praia na zona do Muranzel, em virtude da quantidade de carros estacionados na berma da estrada. Percorrido o carreiro de terra e areia, com água e lama à mistura, durante uma boa meia hora, lá estava o navio solidamente plantado na areia, levemente acossado pelo mar e apresentando uma ligeira inclinação sobre a proa, enterrada cerca de 1,30 metros, conforme verificação através da escala do calado. Ambas as âncoras e respectivas correntes estão também enterradas na areia e os orifícios onde operam as hélices de proa, estão igualmente quase cobertas, certamente deixando de serem vistos nos próximos dias, face à natural acumulação de areia trazida pelo mar.
Depois de circundar o casco do navio, que se encontra em bom estado, não se revela perceptível entender por onde possa ter entrado água na casa da máquina, provocando a avaria da mesma, segundo explicação dada como causa do naufrágio, até porque o navio navegava vazio, mas lastrado, com uma altura de bordos consideravelmente superiores ao habitual quando completamente carregado. O que também não entendo é o motivo do cargueiro estar a navegar numa linha paralela à costa na ordem das seis milhas, quando as condições atmosféricas aconselhariam uma navegação mais ao largo, onde provavelmente encontraria uma ondulação significativamente inferior. Enfim…


Analisado o histórico comercial do “Merle”, constato ser um navio que conheci muito bem, enquanto batizado com o nome “Freya”, durante os meus anos ligados à actividade portuária. Com efeito, houve um período durante os anos 90, que recebia a visita praticamente quinzenal deste navio em Leixões, num tráfego direto estabelecido com o porto de Roterdão. E fazia escalas igualmente em Lisboa e em Aveiro. Transportava para Portugal diversos tipos e embalagens com chapa de aço, de origem francesa, belga e alemã, carregados em Vlaardingen, regressando ao mesmo porto completamente carregado de granito e madeira. Esta mercadoria era depois transferida para barcaças, que por sua vez seguiam Reno acima com destino a vários portos e entrepostos na Alemanha.

Navio-motor “Merle”
2007-? (em serviço)
Nacionalidade: Ilhas Cook


Nº Imo: 8918306 - Iic.: E5U2648 - Registo: Avatiu
Construtor: Werf Vervako, Heusden, Holanda, Jan/1991
ex "Freya", Pistoor Schiffahrts KG., Leer, 1991/1996
Arqueação: Tab 1.548 tons - Peso morto 2.412 tons
Dimensões: Ff 79,60 mt - Pp 74,90 mt - Boca 11,30 mt
Propulsão: Deutz - 1:Di - 6:Ci - 816 Bhp - 10 m/h
Equipagem: 6 tripulantes

O encalhe do navio ocorreu no último sábado de manhã, dia 19, considerando as condições de mau tempo, tendo sido apenas participado às autoridades que o navio se encontrava em dificuldades, quando este se encontrava a cerca de 600 metros da costa, já sem possibilidade de assistência ou de socorro local. O “Merle” encontrava-se em viagem entre os portos espanhóis de El Ferrol e de Huelva, tendo os tripulantes conseguido chegar a terra salvos, pelos próprios meios.
Não considero o navio perdido, por se encontrar em zona de praia limpa (fundos de areia) e por não ser batido pelo mar com exagerada violência. Desde que o armador ou a companhia seguradora se decidam pela recuperação do navio, quando as condições de tempo e mar o permitam, pode ser efectuada a limpeza das areias através da abertura dum ligeiro canal, saindo o navio para o mar rebocado por equipamento adequado. Convém no entanto salientar que tanto a hélice como o leme estão severamente danificados, obrigando à necessária docagem para reparação.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (6)


O iate “Correio de Sines”
1897 - 1917
 Armador: J.M. Rodrigues & Cª., Lisboa

O texto escrito relativamente ao navio anterior serve de igual forma para definir este iate, que coincidentemente foi vítima de ataque efectuado pelo mesmo submarino, no mesmo dia e muito próximo do mesmo local. Tratando-se de um iate, entre vários outros, que navegaram com o nome «Correio», permito-me especular na perspectiva que estes navios possam ter sido utilizados durante largos anos no transporte das malas de correio, embarcadas em Lisboa para entrega nos portos visitados, em conjunto com outros tipos de mercadorias, cujo transporte era indispensável, por motivos óbvios, para satisfazer as necessárias cobranças de frete.

Imagem sem correspondência ao texto

Nº Oficial: 430-B – Iic.: H.F.D.W. – Porto de registo: Lisboa
Construtor: Não identificado, Setúbal, durante o ano de 1847
Arqueação: Tab 31,85 tons - Tal 30,26 tons
Dimensões: Pp 18,14 mts - Boca 5,20 mts - Pontal 1,81 mts
Equipagem: 9 tripulantes

Conforme se menciona acima, o iate foi afundado com cargas explosivas a norte do Cabo de Sines, pelo submarino alemão U-50, sob o comando do capitão Franz Becker, no dia 13 de Setembro de 1917. E também não há registo de vítimas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (5)


O iate “Gomizianes da Graça Odemira”
1897 - 1917
Armador: J.G. Gouveia & Cª., Lda., Lisboa

A maior parte dos navios empregues na pequena cabotagem, termo actualmente substituído pelo anglicismo «short sea shipping», eram iates ou caíques de tonelagem e dimensões reduzidas. Navegavam desde o norte de Espanha até ao norte de África e escalavam com regularidade as ilhas dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Apesar da sua pequenez, há igualmente registo de iates - navios de transporte de mercadorias com dois mastros à vela -, a efectuar viagens à Terra Nova nos primeiros anos do século XX, inseridos nas campanhas da pesca do bacalhau e a viajar até ao Brasil e a Moçambique.
Não é certamente o caso do navio em causa, por ser muito pequeno, porém deve atender-se à importância dos serviços que prestava, sempre que havia necessidade de navegar em cursos de água pouco profundos.

Imagem sem correspondência ao texto

Nº Oficial: 463-A – Iic.: H.K.L.M. – Porto de registo: Lisboa
Construtor: Não identificado, em S. Martinho do Porto, 1897
Arqueação: Tab 32,56 tons - Tal 30,94 tons
Dimensões: Pp 18,50 mts - Boca 5,62 mts - Pontal 1,73 mts
Equipagem: 4 tripulantes

Este iate na época em que cumpria a sua segunda década de existência ao serviço da frota mercante nacional, foi afundado com cargas explosivas ao largo do Cabo de Sines, pelo submarino alemão U-50, sob o comando do capitão Franz Becker, no dia 13 de Setembro de 1917, quando em viagem de Odemira para Lisboa. Não há registo de vítimas.