terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Efeméride


O naufrágio do paquete “Veronese”
1906 - 1913

Cumprem-se nesta data (16 de Janeiro de 1913) exactamente 100 anos sobre aquele que é considerado o segundo maior naufrágio ocorrido na costa portuguesa – o mais grave terá sido o naufrágio do vapor “Porto”, na barra do rio Douro a 28 de Março de 1852, no qual resultou a morte de 37 passageiros e 29 tripulantes.

Anúncio da companhia - As carreiras para a América do Sul

O paquete “Veronese” era um navio inglês pertencente à companhia Lamport & Holt Line, construído nos estaleiros de Workman, Clark & Co., Ltd., de Belfast, durante o ano de 1906 e representado em Leixões pela agência Garland, Laidley & Cª., Lda. Posicionado inicialmente nas carreiras que a empresa mantinha para o extremo oriente, estava esperado entrar no porto de Leixões numa segunda escala, com destino aos portos do Rio de Janeiro, Santos, Buenos Aires e Montevideu, para onde devia receber alguma carga e completar o embarque de mais alguns passageiros para o Brasil.

A comunicação com o navio através de sinais de bandeiras

O navio que navegava com uma equipagem composta por 93 tripulantes, tinha 7.039 toneladas de arqueação bruta, quase 142 metros de comprimento, 18 metros de largura, um motor de tripla-expansão que lhe assegurava uma capacidade para navegar a 12 milhas por hora e dispunha de camarotes para 1ª., 2ª. e 3ª. classes, já parcialmente ocupados por 20 passageiros embarcados em Liverpool e ainda 119 passageiros, na sua maioria espanhóis, entrados a bordo na antevéspera do sinistro, no porto de Vigo.

Fotos dos patrões Aveiro e Lagoa dos salva-vidas
de Leixões e da Póvoa de Varzim

As causas do encalhe repartem-se por diversos aspectos; o mau tempo que se fazia sentir, com chuva intensa, vento forte do quadrante oeste, algum nevoeiro dificultando em larga medida as condições de visibilidade e a completa ausência de iluminação no litoral. Daí que a aproximação à costa, durante a noite (o navio encalhou às 4 horas da madrugada), enfrentando a referida adversidade climatérica a que se junta vaga alterosa, propiciaram o acidente, levando o navio a cair sobre o fundo rochoso do baixo do “Lenho”, a cerca de 250 metros da praia, um pouco a norte do local onde está actualmente instalado o farol de Leça.

O paquete "Veronese" condenado à destruição pelo mar

Todas estas condicionantes levaram até à praia da Boa Nova, uma enorme quantidade de meios de salvamento, com largo contingente de bombeiros ali colocados pelas Corporações da Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Leça da Palmeira, Matosinhos, Porto e Vila Nova de Gaia, forças militares (com destaque para a Marinha) e paramilitares (Polícia de Segurança, Guarda-Republicana e Guarda-Fiscal). Além destes participantes, revelaram-se fundamentais para o sucesso das operações de salvamento os salva-vidas “Porto”, de Leixões e o “Cego do Maio” da Póvoa de Varzim, bem como um considerável número de populares.
Resta acrescentar da importância da Cruz Vermelha no apoio aos náufragos, tendo igualmente estado presentes no local do naufrágio três equipas médicas em permanência, apoiados por grupos de enfermeiros e assistidos por diversas senhoras da melhor sociedade local, cujos sentimentos altruístas foram grandemente elogiados.
No rescaldo do naufrágio, apesar de todos os esforços registaram-se 40 vítimas mortais, 5 das quais pertenciam à tripulação do navio. Do paquete que se encontrava seguro no Lloyds em 100 mil libras e o carregamento em 150 mil, pouco foi possível salvar. Apenas nalguns casos foi recuperada parte da bagagem dos passageiros e alguns equipamentos de bordo, transportados de regresso a Inglaterra num outro paquete da companhia, vindo a Leixões para esse efeito.

Os interessados que pretendam visualizar um pequeno filme deste sinistro através da internet, poderão fazê-lo acedendo ao sítio «Cinemateca- Naufrágio Veronese».

domingo, 13 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (4)


Os lugres-patachos “Labrador” / “Sado”
1885 - 1916

Com uma história comercial muito semelhante à referida no episódio anterior, também este navio foi construído em Inglaterra, num estaleiro situado na área do porto de Goole, durante o ano de 1872 e baptizado com o nome “Unity”. Todavia, lamenta-se ainda não ter sido possível identificar o construtor e os seus primeiros proprietários. Como sucedeu com o navio “Navegador” é de supor que este lugre-patacho tenha estado matriculado no porto onde foi construído, até cerca do ano de 1885, período a que corresponde a respectiva aquisição por Abraão Bensaúde, para igualmente operar na pesca do bacalhau. Aquando do embandeiramento no registo português, foi-lhe dado o nome “Labrador”, encontrando-se já nos últimos anos do século XIX matriculado na Capitania do porto de Lisboa, sob a propriedade da Parceria Geral de Pescarias, com as seguintes características:

Imagem sem correspondência ao texto

Lugre-patacho “Labrador”
1885 - 1916

Nº Oficial: n/t – Iic.: H.G.W.V. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 216,04 tons – Tal 206,00 tons
Dimensões: Pp 31,27 mts – Boca 6,95 mts – Pontal 3,90 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 31 tripulantes (28 dóris)
Após transformado e armado convenientemente para operar na pesca longínqua e eventualmente preparado para uma ou outra viagem de comércio, percebem-se com maior rigor os detalhes do navio conforme apresentado na lista de 1914, como segue:

Nº Oficial: 490 – Iic.: H.G.W.V. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 216,04 tons – Tal 205,06 tons
Dimensões: Pp 31,78 mts – Boca 7,28 mts – Pontal 3,95 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 32 tripulantes
E mais uma vez se repete a situação do navio anterior, face à decisão da administração da empresa proprietária a vender o lugre-patacho, negócio que se confirmou durante o ano de 1916, em nome de António P. da Costa, para a Empresa Portuguesa de Navegação para Marrocos, de Lisboa, por um valor que rondou os 4 mil escudos. O novo armador confirmou a matrícula na Capitania do porto de Lisboa, onde o navio ficou registado com os seguintes detalhes:

Lugre-patacho “Sado”
1916 – 1917

Nº Oficial: 464-C – Iic.: H.S.D.O. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 196,21 tons – Tal 164,74 tons
Dimensões: Pp 32,40 mts – Boca 7,24 mts – Pontal 3,95 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 11 tripulantes
O navio entretanto colocado a efectuar viagens para o norte de África, também não foi bafejado pela sorte na fase final da sua existência, porque já próximo do porto de armamento, no culminar de mais uma derrota, foi interceptado no dia 14 de Setembro de 1917 pelo submarino alemão U-50, sob o comando do capitão Franz Becker, quando este se encontrava a cerca de 15 milhas a sudoeste do Cabo de Sines. Em resultado desse encontro, o lugre-patacho “Sado”, dinamitado com cargas explosivas abriu vários rombos no casco, seguindo-se o seu afundamento.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (3)


Os lugres-patachos “Navegador” / “Tejo”

Navio construído em Inglaterra, nos estaleiros de A.B. Gowan, em Berwick, no ano de 1877, correspondeu à encomenda de uma escuna para Andrew Thompson, também de Berwick, visando a sua utilização no serviço comercial, sendo baptizada “Border Queen”. Supostamente matriculada no porto do mesmo nome, a escuna foi mantida a operar com regularidade até ao ano de 1885, época em que foi comprada por Abraão Bensaúde, por 2:800$000 (dois milhões e oitocentos mil réis), com a finalidade de aumentar a frota de navios então utilizados na pesca do bacalhau, ficando a navegar com o nome “Navegador”, dispondo inicialmente das seguintes características:

Lugre “Navegador”
1885 - 1916

Imagem sem correspondência ao texto

Nº Oficial: n/t – Iic.: H.J.M.L. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 218,02 tons – Tal 207,03 tons
Dimensões: Pp 32,26 mts – Boca 6,65 mts – Pontal 3,85 mts
Propulsão: À vela
Por força de exemplos semelhantes ocorridos com outros navios do mesmo proprietário, as transformações e o aumento de capacidade de carga, levadas a cabo em estaleiro nacional, eram fruto da necessária preparação para viagens mais exigentes, até aos bancos da Terra Nova. Em 1902 o lugre é de novo matriculado como lugre-patacho, em nome da Parceria Geral de Pescarias. Tinha popa redonda, navegava com uma equipagem de 31 tripulantes e dispunha de 28 dóris para a pesca. Depois de várias campanhas ao bacalhau e provavelmente depois de diversas viagens de comércio, consta na lista de navios de 1914 com melhor e mais completa informação, como segue:

Nº Oficial: 489 – Iic.: H.J.M.L. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 218,02 tons – Tal 207,03 tons
Dimensões: Pp 32,52 mts – Boca 7,12 mts – Pontal 3,93 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 36 tripulantes
A mais que provável fragilização na estrutura do navio para operar na pesca longínqua, deve ter motivado a administração da empresa proprietária a vender o lugre-patacho, negócio que se confirmou durante o ano de 1916, em nome de António P. da Costa, para a Empresa Portuguesa de Navegação para Marrocos, de Lisboa. O novo armador renova a matrícula na Capitania do porto de Lisboa, onde o navio ficou registado com os seguintes detalhes:

Lugre-patacho “Tejo”
1916 - 1917

Nº Oficial: 459-C – Iic.: H.T.J.P. – Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 201,00 tons – Tal 167,74 tons
Dimensões: Pp 33,45 mts – Boca 7,12 mts – Pontal 3,86 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes
O navio agora colocado a efectuar viagens para África, não teve sorte na fase final da sua existência, porque quase no culminar de mais uma derrota, que previa ligar Bissau a Valencia, com um carregamento de copra, foi interceptado por volta das 23 horas do dia 14 de Maio pelo submarino alemão U-34, sob o comando do capitão Johannes Klasing, quando este se encontrava a cerca de 9 milhas a norte do Cabo de Santo António (província de Alicante). Em resultado desse encontro, na posição Lat 38º58’N Long 00º16'E o lugre-patacho “Tejo”, dinamitado com cargas explosivas, explodia com violência e mergulhava para sempre nas águas temperadas do Mediterrâneo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (2)


O lugre “António Júlio” / “Minho”

Penso estar chegada a hora em que me posso debruçar com mais profundidade, relativamente aos veleiros que estiveram ao serviço do país, entre finais do século XIX e princípios do século XX, dos quais pouco se sabe, porque infelizmente os registos são escassos. Ocasionalmente encontra-se um ou outro episódio, notas num ex-voto e pouco mais. Depois, lamento a dificuldade em encontrar testemunhos vivos, que se revelariam fundamentais para completar uma história cuja memória é ainda, mais de cem anos depois, importante preservar.

O lugre “António Júlio”
1910 – 1916

Imagem sem correspondência ao texto

Este navio foi um lugre de madeira com 3 mastros, construído em Harwich, Inglaterra, no estaleiro de John H. Vaux, durante o ano de 1887. Foi batizado com o nome “Jubilee” e registado no porto de Harwich com o Nº Oficial 91329, cabendo-lhe as letras K.L.Q.T., do indicativo internacional. Ficou inicialmente ao serviço da empresa do construtor, pelo menos até 1896, desde quando passa a ser operado pela firma de John Mann, até cerca de 1900, tendo amarrado devido a greve prolongada. Só em 1903 o navio volta a navegar, sob operação da empresa de Walter Thos. Howard, até 1907, ano em que volta a amarrar. Em 1910 o lugre é colocado à venda, ainda em Harwich, tendo atraído o interesse de António dos Santos Sá, do Porto, que lhe efectua a respectiva matricula na Capitania do porto do Douro, embandeirando em português com as seguintes características:
Nº Oficial: A-153 – Iic.: H.B.C.L.- Registo: Porto
Arqueação: Tab 177,64 tons – Tal 142,55 tons
Dimensões: Pp 38,90 mt – Boca 7,53 mt – Pontal 2,65 mt
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes
Capitães embarcados: Luiz Teiga Júnior (1910) e Tito dos Santos Marnoto (1911 a 1915)

O lugre “Minho”
1916 – 1917

Em 1916 o navio foi novamente colocado à venda, sendo adquirido pela empresa J. Mourão & Cª., também do Porto, que mantém o lugre matriculado na Capitania do Douro, sem alteração nas características.
Nº Oficial: A-153 – Iic.: H.B.C.L.- Registo: Porto
Arqueação: Tab 177,64 tons – Tal 142,55 tons
Dimensões: Pp 38,90 mt – Boca 7,53 mt – Pontal 2,65 mt
Propulsão: À vela
Equipagem: 5 tripulantes
Capitães embarcados: Júlio Francisco Bichão (1916 e 1917)
O lugre “Minho” naufraga por motivo de ataque do submarino alemão U-57, que se encontrava sob o comando do cap. Carl-Siegfried Ritter von Georg, no dia 22 de Janeiro de 1917, com cargas explosivas, quando o navio se encontrava à distância de 250 milhas de Cardiff, porto para onde seguia viagem, que teve início no rio Douro. O lugre foi abandonado pela tripulação por força do violento incêndio registado a bordo, em consequência das explosões e considerado perda total, muito embora tivesse demorado diversas horas a desaparecer, eventualmente por acção da carga transportada. A tripulação chegou a salvamento no escaler do navio.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Divulgação


Postais de navios – 1930/ 1950

Fui contactado por um amigo próximo, que disponibiliza para venda alguns postais da sua colecção. Não há um preço previamente estipulado e os postais tanto podem ser vendidos à unidade como o lote completo, dependendo das ofertas dos eventuais interessados. Os pedidos devem ser feitos por e-mail ou através do espaço definido para os comentários no blog.

# Brasil – Frota do Lloyd Brasileiro
ss Afonso Penna, ss Aspirante Nascimento and ss Ibiapaba
# Inglaterra – Frota da Blue Funnel
ss Aeneas, ss Anchises, ss Patroclus and ss Ulysses
# Inglaterra – Frota da Booth Line
ss Hilary x2 (ship and ship´s dining room), ms Hildebrand x2 (ship and First class lounge) and ms Hubert x3 (First class smoking room, Tourist class lounge and First class lounge)
# Inglaterra – Frota da Royal Mail Lines
ms Alcantara, ss Almanzora x2, ss Arlanza, one “D” class steamer, ms Atlantis (at Lisbon), ms Aragon x2, ms Highland Brigade x2 and ms Highland Monarch
# Inglaterra – Frota da Union Castle
ss Edinburgh Castle and ss Garth Castle
# França – Frota da Fabre Line
ss Providence
# França – Frota da French Line
ss de Grasse
# Alemanha – Frota da Hamburg-Sud
ss Cap Norte, ss Madrid and ss Monte Sarmiento x2
# Alemanha – Frota da Norddeutscher Lloyd
ss Bremen, ss Fulda and ss Weser
# Alemanha – Frota de Peter Deilmann
ms Berlin
# Grécia – Frota da Greek Line
ms Arkadia, ss Nea Hellas and ms Olympia
# Grécia – Frota da Chandris Lines
ms Amerikanis, ms Ellinis and ms Queen Frederica
# Holland – Frota da Holland America Line
ms Dalerdyk
# Itália – Frota da Costa Line
ms Anna C, ms Andrea C, ms Eugenio C, ms Federico C, ms Giovanna C and ms Italia
# Itália – Frota da Navigazione Generale Italiana
ss Augustus x2, ss Giulio Cesare, ss Orazio, ss Roma x2 and ss Romolo
# Itália – Frota da Consulich Line (Trieste)
ss Neptunia x2, ss Saturnia x2
# Itália – Frota da Italia Line
ss Tuscania
# Itália – Frota do Lloyd Triestino
ss Assiria, ms Ausonia, ss Campidoglio, ss Cittá di Bari, ss Dalmatia, ss Diana, ss Esperia, ss Fiume L, ss Gastein, ss Gange, ss Stella d’Italia and ss Vienna
# Japão – Frota da N.Y.K. Line
ms Asama Maru, ss Fushimi Maru, Hakozaki Maru, ss Haruna Maru and ms Tatsuta Maru
# Polónia – Frota da Polish Ocean Lines
ms Koszalin
# Espanha – Frota da Cia. Transatlantica
ss Argentina x2 (1st Class Music saloon and 3rd class Bar), ss Cristobal Colon x4 (1st class Dining room, the main hall, the balcony coffee room and a pax 1st class cabin), ms Juan Sebastian Elcano, Magallanes x2 (ship and 3rd class Dining room), ms Marquês de Comillas x2
# Espanha – Frota das Linhas Ibarra
ms Cabo San Roque, ms Cabo San Sebastian, ms Cabo San Sebastian and Cabo San Jorge
# Portugal – Frota da Cia. Colonial de Navegação
ms Benguela, ms Ganda, ms Luanda, ms Patria, ms Santa Maria and ms Uige
# Portugal – Frota da Cia. Nacional de Navegação
ms Niassa and ms Príncipe Perfeito x2
# Portugal – Frota da Emp. Insulana de Navegação
ms Funchal x2

Obrigado

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (1)


O lugre “ Lídia “ (II)
Armador: José Joaquim Gouveia - Parceria Marítima Douro, Porto
1918 – 1935
= 2ª Parte =

Imagem do navio correspondente à data do bota-abaixo em Fão
Foto do construtor sr. Borda Júnior, na Ilustração Portuguesa

Este lugre cuja construção orçou em Escudos 10.000$00 foi sistematicamente utilizado em viagens de longo curso, no serviço comercial, não havendo confirmação de alguma vez ter participado em campanhas na pesca longínqua. Na ausência de pormenores dignos de registo nos anos seguintes, o que antecipa ter tido uma existência sem incidentes, foi apenas noticiado a 9 de Novembro de 1927, por motivo de encalhe na barra do porto de Setúbal, onde havia chegado procedente das Canárias, para naquele porto carregar uma partida de sal. Recupero essas mesmas notícias, como segue:
1 - Ontem à noite foi recebido um telegrama da Capitania do porto de Lisboa, comunicando que em frente à Torre do Outão, Setúbal, encalhou o lugre “Lídia”, da praça de Lisboa, pertencente à firma Bagão, Nunes & Machado, Lª. Em seu socorro saiu do Tejo pela meia-noite o rebocador “Cabo da Roca”, da Exploração do porto de Lisboa.
(In jornal “O Século”, de 11 de Novembro de 1927)
2 - O lugre “Lídia” encalhou na praia da Rainha, Torre do Outão, local que serve de recreio e curas de sol aos pequenos internados no Sanatório. Não é crítica a situação do navio, visto que está enterrado na areia, em ponto que só poderá ser batido pelo mar, desde que volte o mau tempo. Informa o capitão Sr. José Gonçalves Dias, que o lugre trazia 15 dias de mar, em viagem desde as Canárias. Tinha a bordo apenas o lastro de areia e destinava-se a Setúbal para receber um carregamento de sal. Aquando do ciclone, na madrugada de 5 do corrente, o veleiro encontrava-se a cerca de 20 milhas ao largo de Sines. Apanhado de surpresa, o tempo correu com ele em árvore seca, até em frente de S. Martinho do Porto, tendo o navio aguentado firme até ser possível fazer rumo a Sul, com destino a Setúbal. Na barra deste porto, depois de meter a bordo o piloto Sr. Salvador José Matias, singrou sem novidade até ao mar do Outão. Nessa altura o vento contrário e a força da corrente dificultaram a manobra, sendo levado a pouco e pouco para terra, impelido pelo mar. O lugre pertence à praça do Porto e é propriedade do Sr. José Joaquim Gouveia, que já se encontra no local, em representação da Parceria Marítima Douro.
(In jornal “O Século”, de 15 de Novembro de 1927)
Apesar de não ter encontrado referências à operação de desencalhe do navio, o facto de apresentar novas características a partir de 1928, sugere que o lugre terá ido a estaleiro, para ser sujeito a obras de reparação e beneficiação, que tanto podem ter tido lugar em Setúbal, como no rio Douro. Depois de completados os trabalhos, o lugre ficou matriculado de acordo com os seguintes detalhes:

Características do navio em conformidade com a lista de 1929
Nº Oficial: B-122 - Iic.: H.L.I.D. - Registo: Capitania do Douro
Arqueação: Tab 455,36 tons - Tal 405,05 tons – Porte 800 tons
Dimensões: Pp 41,21 mts - Boca 9,70 mts - Pontal 4,29 mts
Propulsão: À vela, sem motor auxiliar
Equipagem: 11 tripulantes

De regresso ao serviço comercial navegou até ao ano de 1935. No ano anterior foi-lhe modernizado o Indicativo Internacional de Chamada, cabendo-lhe as iniciais C.S.J.U. Após 1936, o lugre deixa de constar na lista dos navios nacionais, supostamente por ter sido considerado inavegável. Todavia, já desmastreado, reaparece com nova matrícula, agora como fragata de carga a operar no rio Douro e em Leixões, até que se lhe perde definitivamente o rasto.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Veleiros Portugueses (1)


O lugre “ Lídia “ (II)
Armador: José Joaquim Gouveia - Parceria Marítima Douro, Porto
1918 - 1935
= 1ª Parte =

Imagem do navio correspondente à data do bota-abaixo em Fão
Foto do construtor sr. Borda Júnior, na Ilustração Portuguesa

Características do navio em conformidade com a lista de 1926
Nº Oficial: B-122 - Iic.: H.L.I.D. - Registo: Capitania do Douro
Construtor: José Dias dos Santos Borda Júnior, Fão, 17.01.1919
Arqueação: Tab 453,36 tons - Tal 401,30 tons - Porte 800 tons
Dimensões: Pp 46,00 mts - Boca 9,70 mts - Pontal 4,35 mts
Propulsão: À vela, sem motor auxiliar
Equipagem: 10 tripulantes
Capitães embarcados: João Reinaldo da Rocha (1920 a 1922), Manuel dos Santos Marnoto (1923 a 1926), José Gonçalves da Silva (1927) e João José Lopes (1928 a 1930). Não está disponível informação relativamente ao comando do lugre nos anos posteriores.

Muito embora já me tenha ocupado da história comercial deste navio anteriormente, como entretanto encontrei imagens e outros elementos que julgo interessantes, decidi corrigir e melhorar o texto anterior, como segue:
Parece haver concordância de opinião no estudo já feito sobre este navio, que a encomenda de José Joaquim Gouveia ao referido estaleiro de Fão, visou a substituição de um outro lugre, que havia sido construído no mesmo estaleiro e pelo mesmo construtor, com bota-abaixo em 12 de Outubro de 1916. Esse navio também batizado “Lídia”, embora mais pequeno e com um custo de cerca de Esc. 8.000$00, fora encontrado a sul do Faial durante uma viagem que efectuava entre os portos de Nova Orleães e o Porto, pelo submarino alemão U-157, que se encontrava sob o comando do capitão Max Valentiner, provocando-lhe o afundamento a 26 de Dezembro de 1917.
Aprontada a construção do lugre, foi inicialmente vistoriado com toda a atenção e minuciosidade, no dia 18 de Novembro de 1918, por uma equipa presidida pelo construtor naval José de Azevedo Linhares, tendo igualmente tomado parte o capitão João Dias dos Santos Borda, na qualidade de Patrão-Mor, em representação da Capitania de Esposende. Tratava-se de um navio de 3 mastros, proa de beque, popa redonda, com 1 pavimento. Uma segunda vistoria foi efectuada com o navio já sobre as águas do Cávado, no dia 23 de Janeiro de 1919, solicitada oficialmente pelo construtor. A Comissão nomeada para o efeito declarou que o navio se achava solidamente construído, fechado e estanque, munido de todo o aparelho e sobressalentes necessários para empreender viagens de longo curso. Acredito que o navio deve ser saído da barra de Esposende no dia 4 de Abril de 1919, com destino ao rio Douro, de onde partiu em viagem inaugural logo depois, a 12 de Maio, para Nova Orleães, regressando ao Porto no dia 10 de Outubro seguinte.