quarta-feira, 10 de abril de 2019

História trágico-marítima (CCCIX)


O incêndio a bordo do vapor brasileiro “Santarém”

Entrou, em Leixões, com incêndio a bordo, o vapor brasileiro,
de carga e passageiros “Santarém” (1)
Alguns tripulantes sofreram intoxicação e ficaram inutilizadas
diversas mercadorias
Vindo de Lisboa, onde efectuou reparações nas caldeiras, entrou em Leixões, às 13 horas e 15 minutos, com incêndio a bordo, o vapor “Santarém”, pertencente à Companhia Lloyd Brasileiro.
É um magnifico navio de 6.757 toneladas, que anda no serviço de transporte de passageiros e mercadorias. A bordo vinham 18 passageiros e 112 tripulantes.
O incêndio declarou-se nas carvoeiras, após a saída, a duas milhas da capital, propagando-se ao segundo porão da proa. São frequentes os incêndios nas carvoeiras dos vapores e fácil a extinção, motivo porque o “Santarém” não retrocedeu para o porto de partida, continuando, portanto, a marcha em direcção à barra de Leixões.
Durante a viagem, o fogo aumentou consideravelmente, atingindo algumas mercadorias – café, amendoim, óleo, algodão e couros -, o que produziu fumarada negra, intoxicante, a que nem as mascaras contra gases resistiam.
Apesar da importância que o sinistro prometia atingir e do número elevado de tripulantes atacados pelo fumo e com princípio de intoxicação e asfixia, os 18 passageiros em transito conservaram a máxima serenidade, e, a bordo, os trabalhos para localizar o fogo, embora infrutíferos, correram metodicamente e ordeiramente, orientados pelo comandante Sr. Hamlet Victor Boissou e demais oficialidade do “Santarém”.
Após a entrada em Leixões, seguiram para bordo do vapor incendiado os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça e Leixões, bem como as autoridades marítimas e o delegado policial de Matosinhos.
O ataque ao incêndio foi continuado pelos bombeiros das corporações indicadas, mas com precauções recomendadas pelo comandante do “Santarém”, que pretendia evitar a inundação do porão, a fim de poupar, à acção da água, as mercadorias.
Os trabalhos foram suspensos para continuarem mais tarde. Devido às proporções grandiosas do fogo e à qualidade das mercadorias, que eram inflamáveis, os bombeiros fizeram apertado ataque, sem atenderem à mercadoria, que, se não fosse inutilizada pela água, seria sacrificada pelas labaredas que irrompiam do porão.
Pouco depois das 21 horas, o “Santarém” foi encalhado em frente à praia do pescado, trabalhando diversas bombas dos Voluntários de Leixões, Matosinhos-Leça e dos rebocadores “Mercúrio”, “Neiva” e “Mars”, para completa inundação do vapor. Estes trabalhos são dirigidos pelo Inspector de Incêndios de Matosinhos, Sr. coronel Laura Moreira e pelo chefe Neves, dos Voluntários de Matosinhos-Leça.
O acontecimento causou alarme em Leixões e Matosinhos, sendo numerosas as pessoas que durante a tarde e a noite se conservaram na praia, a assistirem ao combate ao incêndio.
Às 4 horas e meia da madrugada de hoje, o fogo lavrava ainda e os bombeiros continuavam a trabalhar na sua extinção, o que devem conseguir por todo o dia de hoje.

Cartão postal do armador com a imagem do navio "Santarém"
Minha colecção

Características do vapor “Santarém”
Armador: Cª de Navegação Lloyd Brasileiro, Rio de Janeiro
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Rio de Janeiro
Construtor: Bremer Vulkan, Vegesack, Alemanha, 1908
ex “Eisenach”, Norddeutscher Lloyd, Bremen, 1908-1922
ex “Santarém”, Governo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1922-1927
Arqueação: Tab 6.757,00 tons - Tal 4.212,00 tons
Dimensões: Pp 127,86 mts - Boca 16,59 mts - Pontal 8,43 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Qe - 4:Ci - 387 Nhp
Equipagem: 112 tripulantes
Demolido em 1962
O incêndio a bordo do “Santarém” (2)
A bordo do “Santarém” ninguém dormiu. A noite de ante-ontem para ontem foi passada em claro, trabalhando, na extinção do incêndio, numerosos bombeiros das corporações de Matosinhos-Leça e Leixões e duas equipas de estivadores na descarga de mercadorias, uns e outros auxiliados pelo pessoal de bordo.
Na tarde de ontem, o vapor, com a quilha pousada no fundo da bacia, adernou bastante para bombordo, tornando-se perigosa a posição para a segurança das pessoas que estavam a bordo do navio.
O vapor tem «resistido heroicamente»
O comissário de bordo, Sr. José Artur Pereira, recebeu, ao fim da tarde, no seu camarote alguns membros da imprensa. À sua frente, sobre a escrivaninha em equilíbrio, para respeito dos mais elementares princípios da física, via-se, amontoada, papelada diversa, manifestos, cartas e impressos. O navio inclinado de maneira impressionante, ocasionava mau estar e falta de estabilidade, forçando todos a tomar precauções.
Dois sorrisos, palavras de mútua apresentação, comodas cadeiras e a conversa fluiu, despretensiosa, quase familiar. O Sr. José Artur Pereira, que trabalha a bordo dos vapores do Lloyd Brasileiro há mais de 24 anos, afirmou:
- Não há memória de um incêndio nestas condições. O porão parece uma fornalha. A que atribuir o incêndio? Quem o poderá adivinhar?
Sempre com o melhor sorriso a aflorar-lhe às faces, gentilíssimo, o comissário de bordo esclareceu:
- Se não fosse as excelentes provas de segurança dadas pelo “Santarém”, que se tem portado heroicamente, já tudo teria findado; as chapas que estiveram em brasa ter-se-iam torcido, os rebites desprender-se-iam e o meu querido vapor, desconjuntado, partido, seria já um montão de destroços.
- O encalhe não terá avariado o casco?
- Não senhor. O encalhe foi mau. Como vê, o navio continua a flutuar. O que nos vale é o auxílio dos rebocadores, que, trabalhando a todo o vapor, forçam a proa contra a areia.
- Esta inclinação não é prejudicial?
- Estamos inclinados quase a 13 graus. Com pouco mais, será difícil o vapor manter-se. Mas nós confiamos. Enchendo a maré, o navio deve normalizar a posição, e a água, empossada a bombordo, refrescará, então, toda a mercadoria, fazendo diminuir a intensidade do fogo.
E ao terminar:
- A posição do “Santarém” é má e não pode ser garantido que o navio esteja livre de perigo… que se salve… mas eu - eu e o comandante, acentuou, estamos optimistas.
Os bombeiros e demais pessoal que trabalham a bordo
O fogo já foi extinto na primeira coberta do porão, informou o inspector dos incêndios de Matosinhos, Sr. coronel Laura Moreira.
Os bombeiros intensificaram os seus esforços, enquanto 30 estivadores, com a colaboração dos tripulantes, se empregaram, denodadamente, na remoção das mercadorias queimadas e encharcadas pela água despejada pelas agulhetas. Mas o fogo ainda lavra com violência, a 12 metros de profundidade.
Durante o dia estiveram a dirigir o ataque ao incêndio, além do coronel Laura Moreira, os Srs. Cesário Bento e António Neves, dos Voluntários de Matosinhos-Leça e José Luiz de Araújo e Francisco José dos Reis, dos Voluntários de Leixões.
Além dos tripulantes, trabalham a bordo, por turnos, 30 estivadores e 100 bombeiros, aproximadamente. Na inundação do porão são empregadas 4 moto-bombas e um estanca rios, que alimentam numerosas agulhetas.
De bordo do vapor dos pilotos, “Afonso de Carvalho”, tem estado, em permanência, a refrescar, com uma agulheta, a chapa de estibordo do vapor sinistrado. Entre outras embarcações, estão junto do “Santarém”, a prestar auxílio, os rebocadores “Neiva”, “Mercúrio” e “Mars”.
A carga do “Santarém”
O vapor incendiado, que devia seguir para Vigo e Bordéus, foi construído em 1910 e desenvolve a força de 3.300 cavalos-motor. Transportava nesta viagem, 3.000 toneladas de carga, composta por 34.000 sacos de café, cerca de 2.000 fardos de algodão e grande quantidade de óleos para motores, amendoins e couros em cabelo. Parte das mercadorias destinava-se à cidade do Porto.
Durante o dia estiveram a bordo o Srs. conde de Vilas Boas, capitão do porto de Leixões, Manuel de Oliveira Mourinho, Patrão-mor, e tenente Mendes de Sousa, chefe da Polícia Marítima. O Sr. cônsul do Brasil também esteve a bordo do “Santarém”, devendo iniciar, hoje, um inquérito, para apuramento das responsabilidades no sinistro.
. . . . . . . . . .
Ao principio da noite, com a maré cheia, o vapor tomou a sua posição normal. Os trabalhos continuam, sendo ignorado quando será sufocado o incêndio.
. . . . . . . . . .
À noite, alguns fardos de algodão, que eram transportados numa camioneta para o edifício da Alfândega, incendiaram-se, sendo necessária a intervenção dos bombeiros. Compareceram os Voluntários de S. Mamede de Infesta, que extinguiram o fogo. Os fardos ficaram guardados pela Guarda-fiscal.

Imagem do "Santarém", durante as operações de ataque ao incêndio
Foto de autor desconhecido - Minha colecção

Já foi dominado o incêndio a bordo do “Santarém” (3)
O vapor será desencalhado hoje, na maré da tarde
O incêndio, que, desde sábado, consumia as mercadorias do segundo porão da proa, do vapor “Santarém”, ficou extinto, ontem, às 17 horas e meia, de pois de incansáveis esforços dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça e Leixões, de colaboração com todo o pessoal de bordo e auxílio de numerosos estivadores.
Durante o resto da tarde e noite continuou a descarga das mercadorias avariadas, tendo retirado os bombeiros. Só ficou a bordo, de prevenção, um piquete de ambas as corporações.
O vapor será desencalhado na maré da tarde de hoje. As bombas que trabalharam para inundar o porão incendiado, serão novamente montadas, a fim de escoarem a água nos porões atingidos.
O cônsul do Brasil, no Porto, e o comandante da companhia Lloyd Brasileiro, em Portugal, estiveram a bordo do “Santarém”, a proceder ao inquérito, para apuramento de responsabilidades.

Notícias publicadas no jornal “Comércio do Porto”, de: (1) Segunda-feira, 6 de Maio; (2) terça-feira, 7 de Maio; e (3) quarta-feira, 8 de Maio de 1940

Sem comentários: