segunda-feira, 10 de junho de 2013

Resumo histórico do vapor "Ganda"


Efeméride
1ª Parte

Junho de 1941. A história do torpedeamento e afundamento do vapor “Ganda”, cujo relato publicamos nos posts seguintes, parece que aconteceu há muito tempo, mas quando apreciado em termos históricos, verifica-se que decorreram apenas 72 anos sobre o incidente, portanto a poder considerar-se plenamente contemporâneo. Trata-se de um episódio ocorrido durante a IIª Grande Guerra Mundial, e por conseguinte verdadeiramente aterrador, pela certeza da existência de muitas pessoas que o viveram de perto, perfeitamente capazes de recordá-lo e penosamente incapazes de o esquecer!
Os textos são elucidativos quanto ao sinistro. São, na minha perspetiva melhores ainda, pelo retrato revelador da paz podre e enganosa de como se vivia na época, de falsos moralismos e engenhosos pseudonacionalismos. De tal forma, que a espaços, torna-se difícil entender se os pêsames oficiais apresentados ao Conselho de Administração da Companhia, eram dirigidos às eventuais vítimas do naufrágio - ainda sob confirmação -, ou se por outro lado visavam tão-somente um vivo lamurio pela perda do navio. E o pior de tudo, era a incapacidade oficial do Governo Português reagir ou ripostar, face à colaboração camuflada, quando não descarada, com os principais países em conflito.

O vapor “ Ganda “
 1930 – 1941
 Armador: Companhia Colonial de Navegação, Lisboa

Foto da vapor "Ganda" em Lisboa
Imagem da colecção de Francisco Cabral

Nº Oficial: 682 - Iic.: C.S.F.W. - Porto de registo: Luanda
Construtor: Flensburger Schiffsbau Ges., Flensburg, 1907
ex “Plauen”, Deutsch-Australische, Hamburgo, 1907-1919
ex “Plauen”, Governo Inglês, Londres, 1919-1920
ex “City of Milan”, City Line, Liverpool, 1920-1930
Arqueação: Tab 4.332,87 tons - Tal 2.704,38 tons
Dimensões: Pp 118,54 mts - Boca 15,55 mts - Pontal 7,70 mts
Propulsão: Flensburger, 1:Te - 3:Ci - 2.237 Ihp - 12 m/h

O vapor português “Ganda” foi torpedeado, ao largo da costa
de Marrocos, por um submarino de nacionalidade desconhecida
tendo morrido alguns dos tripulantes no momento em que
embarcavam num escaler
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O arrastão de pesca “Fafe” da praça do Porto, radiografou ontem, de manhã, para Lisboa, uma comunicação informando que tendo ido pescar para o Cabo Branco, na costa de Marrocos, havia recolhido uns náufragos do vapor português “Ganda”, em número de 26, compreendendo o capitão, tripulantes e três passageiros, e que navegava com rumo a Lisboa, onde devia chegar pelas 16 horas.
Para o cais do frigorífico a aguardar a chegada do “Fafe” dirigiram-se, antes daquela hora, diversas entidades oficiais, entre as quais o sr. Bernardino Correia, presidente do Conselho de Administração da Companhia Colonial – empresa proprietária do “Ganda”, e dr. Soares da Fonseca, representante do Governo, junto da Companhia.
Para o referido cais dirigiu-se uma ambulância e no posto médico do Grémio dos Armadores de Pesca de Arrasto tudo se preparou para receber os náufragos de que houve conhecimento estarem feridos. Às 16 horas e trinta minutos o “Fafe” atracava, iniciando-se o desembarque dos náufragos.
O capitão do “Ganda” sr. Paião, natural de Ílhavo, contou que no dia 20, às 17 horas e 15 minutos o “Ganda” foi atingido por um torpedo, na altura do tanque da água. Julgou-se a princípio, que se tratava de um choque e o carpinteiro de bordo desceu a ver o que acontecera.
Entretanto, apareceu o periscópio dum submarino de nacionalidade desconhecida, e ao compreender o que se passava o capitão do “Ganda” mandou arrear as baleeiras e o escaler a motor. O mar, porém, estava em cachão e algumas das baleeiras voltaram-se, tendo a que depois foi recolhida pelo “Fafe”, de salvar alguns dos respectivos tripulantes, e o escaler a motor de recolher mais de 40 pessoas.
Devido a isto morreram alguns dos náufragos do “Ganda”, entre os quais o imediato sr. Francisco Leite e o terceiro-maquinista sr. José Pereira da Costa, não se sabendo se há mais vítimas. Pouco depois um novo torpedo atingiu o porão Nº 3 e o “Ganda” começou a afundar-se enquanto a baleeira e o escaler se afastavam. Ao anoitecer o submarino emergiu e disparou contra o “Ganda” diversas granadas para apressar o seu afundamento.
Os tripulantes e passageiros depois de receberem os primeiros curativos no posto médico do Grémio dos Armadores da Pesca de Arrasto, seguiram para suas casas, à excepção de José Clara, de 31 anos, e de Caetano Rodrigues, de 52 anos, que recolheram à enfermaria do Hospital da Liga dos Amigos dos Hospitais. Além do comandante, sr. Paião chegaram mais 22 tripulantes e três passageiros.
São estes: José Pereira, Mário Fernandes, José Clara, Luís Nascimento, Chappa Andy, José Fernandes Silva, José da Silva Abegão, Vítor Ferreira, Caetano Rodrigues, José Amarelo, Vidaúl de Andrade, Luís Miranda, José Pereira Júnior, Sad Konstur, José Albino, Faustino Moreira, Guilherme Morais, Joaquim Serra, Ubaldo Alves, Joaquim Boavida e Pedro António de Oliveira.
O “Ganda” havia saído de Lisboa para os portos de África no dia 19. Era um navio mixto para carga e passageiros, estes, porém, em pequeno número, e saíra com 50 tripulantes, 16 passageiros e cinco negros repatriados. O “Ganda “ tinha 6.770 toneladas e era um dos nossos melhores navios de carga. Não se sabe até ao momento, 23 horas e trinta minutos, do paradeiro do escaler a motor que recolheu 40 dos náufragos.
Completando acima publicadas, de madrugada chegaram ainda os seguintes pormenores: Faltam 37 náufragos, contando-se entre estes 6 a 7 senhoras. Morreram, além do imediato e terceiro-maquinista um azeitador.
Esta madrugada, vai sair para pesquisas um navio de guerra e ontem de tarde partiram aviões que percorreram a costa, procurando a lancha-motor. Presume-se que os náufragos tenham arribado à costa de Marrocos.
Para uma Nação que, como Portugal, tem observado a mais estrita neutralidade no actual conflito, o facto que se relata causa a mais profunda estranheza. O nosso Governo tem sabido cumprir, admiravelmente, as afirmações solenes que diversas vezes fez de manter o País neutral. E por isso, o facto passa de estranho a deplorável, pois deve ser levada em conta, por qualquer dos beligerantes, a forma lealíssima como Portugal tem cumprido os seus deveres como país neutral. Espera-se, por conseguinte, que tão lamentável facto se não repita, pois o nosso País não é disso merecedor.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 23 de Junho de 1941)

De Lisboa – O afundamento do vapor português “Ganda”,
sem aviso prévio, causou profunda indignação.
Efetuam-se diligências para encontrar a lancha-motor do “Ganda”,
cujo paradeiro se ignora
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(…) Continua a ignorar-se o paradeiro da lancha-motor do “Ganda” que transporta 41 náufragos. Há grande ansiedade em Lisboa em saber-se notícias dos infelizes passageiros e tripulantes. O torpedeamento causou grande indignação.
Ao edifício da Companhia Colonial de Navegação que tem a bandeira a meia adriça em sinal de luto, acorreram logo de manhã numerosas pessoas das famílias dos passageiros e tripulantes do “Ganda” que estão no escaler, cujo paradeiro se desconhece.
Muitas entidades oficiais e outras relacionadas com a indústria de transportes marítimos apresentaram condolências ao sr. Bernardino Correia, presidente do Conselho de Administração da C.C.N. e aos seus colegas da Administração.
Os corpos gerentes da Companhia Nacional de Navegação, acompanhados pelo seu presidente, sr. prof. Ruy Ulrich, e pelo delegado do governo, sr. tenente-coronel Mendes do Amaral, estiveram pelas 11 horas na sede da C.C.N.
A apresentar condolências para o mesmo efeito também compareceram ali o industrial sr. Alfredo da Silva e representantes de outras empresas de navegação, firmas coloniais, diversos oficiais da Armada e do Exército, carregadores, etc. O sr. Bernardino Correia, acompanhado pelo sr. dr. Soares da Fonseca, delegado do governo junto da C.C.N., conferenciou hoje sobre o assunto com o Chefe do Estado-maior Naval, sr. contra-almirante Sousa Ventura, o qual recebeu também o comandante do “Ganda”, sr. capitão Manuel Paião, que concluiu já o seu relatório oficial da ocorrência.
Pode, assim, precisar-se que o “Ganda” navegava na latitude 34º10’ Norte, e na longitude 11º40’ Oeste, quando, exactamente às 19 horas e trinta minutos (hora de Lisboa) foi tocado pelo primeiro torpedo. Confirma-se que já ao crepúsculo, o submarino emergiu e utilizou granadas incendiárias contra o “Ganda”, conseguindo largar-lhe o fogo e afundá-lo mais depressa.
Se o submarino agressor não tivesse utilizado este último meio de destruição e se se tivesse afastado confiado em que o navio se afundaria, o comandante Paião teria voltado a bordo, porque estava convencido de que o seu navio se manteria à superfície, pelo menos até receber assistência.
A companhia Colonial de Navegação expediu um telegrama ao seu agente em Casablanca, encarregando-o de fazer todas as diligências para saber se o escaler a motor terá chegado a alguma praia ou a qualquer outro ponto da costa marroquina donde fosse difícil comunicar. A bordo havia bastante gasolina, mas os náufragos não tinham tido tempo para trazer quaisquer alimento, nem um litro de água.
Parece poder admitir-se já que além do 3º maquinista do “Ganda” morreram afogados um fogueiro do navio e, possivelmente, um passageiro.
Na sede da Companhia Colonial de Navegação foram prestadas as seguintes informações: O fogueiro-azeitador que morreu chamava-se José Luís Caldeira, e residia na rua de S. Bernardo, em Lisboa; e os tripulantes que estão possivelmente a bordo do escaler a motor são:
Manuel da Silva Saldanha, praticante de piloto; José Pereira, contra-mestre; António Filipe Alexandre, Paulo das Neves, Júlio da Silva Reverendo, marinheiros; José Arsénio, moço; José Azevedo, 2º maquinista; José Maria Rodrigues, 3º maquinista; Abílio Esteves, paioleiro; Manuel Pereira, fogueiro-azeitador; Manuel Fernandes, João Rego, José da Silva Valente e Joaquim Augusto, todos fogueiros; António Maria da Silva, António Fernandes e Paulo da Silva, chegadores; José Azevedo Almeida, despenseiro; João Ferreira, Jaime Carvalho e António Fernandes, criados; André Francisco e Alfredo António, criados auxiliares; André Alfredo, António, Alfredo Custódio, Caomela e Paulino, negros tratadores de gado que iam repatriados.
Reuniu o Conselho Geral da C.C.N.
Reuniu, ontem, à tarde, o Conselho Geral da Companhia Colonial de Navegação com a assistência do delegado do Governo, que estudou demoradamente a situação criada à Companhia pelo torpedeamento do “Ganda”. O navio estava a 220 milhas a Sudoeste do Cabo de S. Vicente quando foi torpedeado. O “Ganda” saiu de Lisboa com 50 tripulantes, 15 passageiros e 5 negros no total de 70 pessoas. Foi construído na Alemanha em 1910 e pertenceu à companhia inglesa City Line, tendo, então o nome de “City of Milan”, e em 1930 foi adquirido pela Companhia Colonial, passando, então, a denominar-se “Ganda”.
As pesquisas tem sido infrutiferas
Uma patrulha de hidroaviões da base do Bom Sucesso que, ontem, de manhã, tinha levantado voo para pesquisas, até às 18 horas não tinha sido recebido em Lisboa qualquer radio comunicando o aparecimento da lancha a motor. Nos escritórios da C.C.N. estiveram a deixar cartões, manifestando pesar pela perda do “Ganda” os srs. Subsecretário de Estado das Colónias, Adido Naval Britânico, Sindicato dos Oficiais da Marinha Mercante, etc.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 24 de Junho de 1941)

Os náufragos do vapor português “Ganda” foram recolhidos, a
300 milhas do porto de Huelva por um pesqueiro espanhol,
depois de terem vivido quatro dias, à mercê das águas
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Respiram, finalmente, com alívio, aqueles a quem a sorte dos náufragos do vapor português “Ganda” preocupou. O aparecimento dos quarenta e um portugueses de quem não se sabia o paradeiro e cujo destino emocionara Portugal causou verdadeira alegria – a natural alegria dum povo humanitário e sensível como o nosso, que, nestes tempos de egoísmo desenfreado, sabe ainda comover-se com a desgraça do próximo – quantos tiveram já conhecimento de tão importante facto. Não só a família dos náufragos, mas também todos aqueles que recearam por essas dezenas de vidas confiadas à frágil embarcação que, durante quatro dias, andou à mercê das águas, louvaram, intimamente, a Providencia pelo bom desfecho desse drama do mar.
A congratulação geral pelo aparecimento dos náufragos não logrou, porém, fazer desvanecer a geral repulsa provocada na alma nacional pelo atentado de que foi vitima – e vitima inocente – uma unidade da marinha mercante portuguesa, digna, porque pertencia a uma nação que observa a mais exemplar neutralidade, do respeito das nações beligerantes. As circunstâncias em que foi perpetrada esta proeza inqualificável, já suficientemente conhecidas no país, provam que o submarino agressor agiu do modo mais condenável.
Não se deve, agora que o mal não tem remédio, insistir numa acusação que está ou deve estar no espirito de todos os portugueses, mas que não pode dirigir-se, concretamente, a quem quer que seja, desconhecida como é – e continuará, por certo, a ser – a nacionalidade daqueles que, menosprezando a bandeira dum país neutro e, mais do que neutro, escrupulosíssimo das atitudes da sua neutralidade, não recuaram ante a prática dum atentado nefando, com prejuízo de vidas e bens consideráveis.
Devemos, contudo, e não nos cansaremos de o repetir, sempre que for mister, chamar a atenção dos beligerantes para o respeito devido à neutralidade portuguesa. A absoluta segurança das nossas vias de comunicação por mar, é indispensável à nossa subsistência. A nenhuma das nações em guerra deve ser indiferente a vida de Portugal, nação que a todas as outras respeita e a nenhuma das outras prejudica. As nossas actividades estão, como se sabe, organizadas de modo que a mais pequena interrupção é susceptível de causar perdas incalculáveis. Um país que, como o nosso, não dispõe de grande número de unidades de transporte marítimo e que tem um império ultramarino com que importa manter, para bem de Portugal e do mundo, comunicações tanto quanto possível regulares, não pode sofrer, sem os mais veementes protestos, atentados como aquele de que o “Ganda” foi vítima. Não se trata – note-se bem – de rogar benevolência àqueles que, hoje, dispõe das estradas marítimas que servem Portugal e o seu império de além-mar. Trata-se, sim, de exigir justiça – e a justiça consiste em os outros nos respeitarem como nós respeitamos os outros. Portugal, modelo de nações corretas, impõe esse respeito – e não prescinde dos seus direitos e prorrogativas de nação independente e soberana.

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