quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Companhias Portuguesas - A Gil Conde, Lda.


Domingos António Gil Conde, Lda.
Rua de S. Francisco, 25, Porto

A empresa Gil Conde que durante muitos anos esteve associada ao agenciamento de embarcações, tanto no rio Douro como em Leixões, foi igualmente proprietária de navios, que operaram na cabotagem nacional e internacional. Revelou-se igualmente importante no serviço de abastecimento de bacalhau ao país, carregado directamente a partir dos portos dos principais países exportadores. O "Portucale" a que agora nos reportamos foi um dos seus principais navios.

Pelo interesse demonstrado por alguns seguidores do blog, que perderam familiares no naufrágio, decidi acrescentar ao texto inicial e respectivos comentários, o teor das notícias publicadas na época, colaborando na divulgação dos elementos relacionados com o naufrágio, para seu conhecimento e analise dos factos.

O navio-motor “ Portucale”
1944-1947

O n.m."Portucale" no rio Douro - Cais do Bicalho
foto J. Gouveia Marques - colecção de Francisco Cabral

Nº Oficial: G-465 – Iic.: C.S.S.A. – Porto de registo: Lisboa
Cttor.: Peter (Petrovski) Werft A.G., Reval, Alemanha, 1922
Reconstruído e transformado para n/m em Portugal, 1944
Arqueação: Tab 591,81 tons - Tal 471,24 tons
Dim.: Ff 57,60 mts - Pp 51,36 mts - Bc 8,80 mts - Ptl 3,71 mts
Prop.: Gebr. Körting A.G., Hannover - 1:Di - 300 Bhp - 12,5 m/h
Equipagem: 15 tripulantes

ex lugre-escuna “Virumaa” – Tallin Shipping Ltd., 1922-1940
Reg.: Tallin, Estónia > Nº Of. 615 > Iic.: E.S.F.O.
Tonelagens: Tab 604,00 to > Tal 483,00 to
Cpmts.: Pp 50,78 mt > Boca 8,75 mt > Pontal 3,69 mt
Vendido, alterou o nome para “Les Gemeaux”

ex lugre escuna “Les Gemeaux” – R.& J. Fromal & Co., 1940-1944

Naufragou ao largo do Cabo de S. Vicente, em 13.05.1947

Comentários prévios no blog:

Rui Amaro disse...
Reimar
A foto mostra o Portucale atracado à prancha dos armazéns da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau, mais conhecido por Frigorífico do Bacalhau, Lugar do Bicalho, Massarelos, Porto, na descarga do "Fiel Amigo", carregado em vários portos costeiros da Terra Nova ou Groenlândia. Esses armazéns, que estavam instalados num bonito edifício, tinha na sua frontaria motivos esculturais representativos da dura "Faina Maior" daqueles Heróis do mar, que foram os Capitães, Pilotos, Maquinistas e Pescadores, etc. Felizmente o edifício está a ser recuperado para habitação e comércio, tendo os referidas esculturas sido preservadas.
Um abraço
Rui Amaro
5 de Abril de 2008 05:10

Abilio disse...
Gostei de ver a notícia sobre a Empresa que o meu avô Domingos António Gil Conde fundou. Desde criança ouvi sempre falar nos navios da Companhia e na actividade bacalhoeira.
Maria da Luz Gil Conde Tavares Cardoso
26 de Março de 2010 08:03

luis.castrolima disse...
Tenho dois jornais da época a noticiarem o naufrágio, identificando todos os tripulantes. Foi a minha avó que mos deixou. Um desses tripulantes, José Madeira, de 22 anos, era meu tio-avô e faleceu neste naufrágio sem que alguma vez tenha sido recuperado o corpo.
20 de Abril de 2011 15:51

... disse...
Caro Luís Castro Lima
Fico lhe muito agradecido se me pode ver se entre os nomes dos tripulantes que faleceram no naufrágio do Portucale constam pelo menos dois com o apelido COUTEIRO. Agradeço que me contacte para o meu email:
origens.genealogia@gmail.com
Fernando Lourenço
16 de Maio de 2011 14:30

O naufrágio

Ter-se-ia afundado um vapor, da praça do Porto,
cujo capitão lançou, ontem, um S.O.S.
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Partiu, ante-ontem (12.05.1947), do Tejo, com destino às ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, o vapor “Portucale”, da praça do Porto, propriedade do sr. Domingos António Gil Conde, cujos tripulantes, na sua maior parte, são naturais de Ílhavo. Ontem, pelas 15 horas, o capitão daquele barco, sr. José Simões Bixirão, lançou um S.O.S., dizendo que o “Portucale”, que deslocava 292 toneladas, estava a afundar-se a 40 milhas de Cascais. Por determinação das autoridades marítimas, seguiram para o local indicado o barco de guerra “João de Lisboa” e dois hidro-aviões da base do Bom Sucesso, que exploraram uma grande área, não encontrando nada em virtude do mar estar muito encapelado.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 14 de Maio de 1947)

O “Portucale” afundou-se com toda a sua tripulação?
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Não obstante todos os esforços das autoridades marítimas para obter informações sobre o navio-motor “Portucale”, continua a ignorar-se a sorte do barco e da sua tripulação.
Conforme noticiado, foi na manhã de ante-ontem que as estações radio-telegráficas da Marinha e da Marconi receberam um dramático S.O.S. de bordo do navio-motor “Portucale”, a pedir urgentíssimo auxílio, pois que o barco estava prestes a afundar-se. O Ministério da Marinha ordenou, imediatamente ao aviso “João de Lisboa”, que andava em experiência de máquinas, nas proximidades de Sesimbra, que tomasse o rumo indicado pelo capitão do barco em perigo. Para auxiliar as pesquisas, saiu um hidro-avião da base do Bom Sucesso, que regressou ao Tejo, bem como o “João de Lisboa”, sem terem encontrado vestígios do navio ou da sua tripulação.
O “Portucale”, propriedade de Domingos António Gil Conde, do Porto, estava fretado à Empresa Insulana de Navegação para transporte de mercadorias entre a metrópole e as ilhas adjacentes. O navio saiu segunda-feira do Tejo, com adubos e milho para os Açores. A tripulação era constituída por quinze homens, incluindo o capitão António Simões Bixirão, natural de Ílhavo. As autoridades da Marinha prosseguiram, durante a madrugada e parte do dia de hoje, a interrogar a navegação que passa no local onde desapareceu o “Portucale”.
A Empresa Insulana de Navegação e a firma Bagão, Nunes & Machado, não receberam, até ao meio da tarde de ontem, qualquer informação sobre a sorte dos tripulantes do navio que desapareceu no oceano, depois de ter lançado o S.O.S., em que o respectivo capitão, sr. António Simões Bixirão, dizia, angustiosamente: «Estou a afundar-me».
Presume-se que a causa do desastre tenha sido avaria no motor, que já há tempo se tinha desarranjado, obrigando um barco a ir em socorro do “Portucale”, que se julgava correr, então, grave perigo. Com o motor avariado, o “Portucale” ter-se-ia atravessado à vaga e, como fosse muito carregado, um ou mais golpes de mar sobre as escotilhas mal fechadas, terão provocado o rápido afundamento do navio.
Quanto à tripulação, resta uma leve esperança: a de haver sido recolhida por algum navio. Todavia, é de admitir também a perda daquelas quinze vidas, pois que a pequena baleeira de bordo não devia ter resistência suficiente para aguentar um mar que os navios de maior calado dificilmente suportam.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 15 de Maio de 1947)

Continua a ignorar-se a sorte do navio-motor “Portucale”
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Nada se sabe ainda da sorte do navio-motor “Portucale” que, segundo tudo faz supor, se perdeu no Atlântico, devido ao temporal. Admite-se a hipótese do mar ter impelido vários bidões que iam sobre o convés, os quais teriam arrombado a braçola da escotilha do porão, ocasionando o alagamento do navio, se este embarcasse alguns «mares» sucessivos. A hipótese de avaria no motor e do barco atravessado à vaga estaria assim posta de parte.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 16 de Maio de 1947)


Nem todos se perderam nesse lance trágico do navio-motor “Portucale”, cujo capitão, no passado dia 13, lançou angustioso S.O.S., quando se encontrava na posição 38º e 40’ Norte e 10º Oeste, entre Lisboa e os Açores. Três dos tripulantes - António Belo de Carvalho, Luciano da Encarnação Rola e Uriel Gonçalves Leite - foram recolhidos, depois de terem andado dezassete horas numa baleeira, pelo veleiro espanhol “Nuevo Ortiguera”, que os transportou para Sevilha. A notícia do salvamento, divulgada de manhã, provocou viva emoção, tendo os agentes na capital da firma armadora pedido, logo, para o consul de Portugal naquela cidade espanhola mais informações sobre o caso, as quais não tardaram. Ciente da inquietação que havia, não só entre as famílias dos náufragos mas, também, nas pessoas que com eles convivem, o sr dr. António de Certima detalhou a primeira informação, que lhe foi pedida pelo telefone.

Os náufragos foram tratados com o maior carinho
Na tarde de quinta-feira – disse o representante de Portugal em Sevilha - ter sido avisado que, a bordo dum veleiro que subia o Guadalquivir, vinham três tripulantes dum barco português que havia naufragado. Tomei, desde logo, as providências necessárias, para que fossem prestados socorros, visto terem-me dito que os náufragos careciam deles. De facto, por volta das 17 horas chegou a Sevilha o veleiro “Nuevo Ortiguera”, da praça da Corunha, que transportava: António Baptista Belo Carvalho, da rua dos Birbantes, nº 37-1º D. e Luciano da Encarnação Reis, da rua Augusto Rosa, nº 7-4º D., respectivamente piloto e radio-telegrafista do navio-motor “Portucale”, ambos de Lisboa e, ainda, o marinheiro Uriel Gonçalves Leite, de Ílhavo. Com excepção do segundo, que foi transportado para a clinica «La Salud», por se julgar que tenha a coluna vertebral fracturada, devido a ter ficado entalado entre o vapor e a baleeira, quando descia daquele, os outros estão bem. Todos afirmam que foram recolhidos e tratados com o maior carinho pelos tripulantes do barco espanhol, que, na ocasião do salvamento, lhes forneceram refeições que os reconfortaram e, ainda, roupas.

Como se deu o afundamento do “Portucale”
Entretanto, novas informações chegavam sobre o afundamento, motivado, segundo os três sobreviventes, por tremendo temporal. As águas, tendo invadido, por volta das duas horas da madrugada, o convés e o porão, impeliram contra o tombadilho, arrombando alguns bidões de óleo, que faziam parte da carga. Depois disso, o barco afundou-se em poucos angustiantes minutos…
Os três náufragos, que andaram, depois, dezassete horas sobre as ondas, supõe que os restantes homens tenham morrido. A bordo - informaram - havia apenas duas baleeiras. Nesta em que se salvaram, tinham tomado lugar mais dois tripulantes, que se afogaram, depois dum deles ter enlouquecido. Quanto à outra baleeira, espatifou-se contra o costado do “Portucale”. A violência do mar e o frio a todos aterrou. De longe, avistaram o aviso “João de Lisboa” bem como um navio inglês e aparelhos da nossa aviação, mas nem aqueles nem estes os distinguiram, tão altas eram as ondas. O piloto e o marinheiro, que também foram socorridos numa clinica, devem regressar nesta data, a Lisboa, em viagem por Vila Real de Santo António.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 17 de Maio de 1947)

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