domingo, 9 de maio de 2010

Navios bacalhoeiros da frota do Porto (IV)


O lugre-motor “Aviz”
1939 - 21.09.1965
Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., Porto

«Incêndio e afundamento nos bancos da Terra Nova do lugre-motor “Aviz”, cuja tripulação foi salva.»
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Segundo informação fornecida pelo Grémio dos Armadores dos Navios da Pesca do Bacalhau, por um telegrama do navio-hospital “Gil Eanes”, ontem recebido em Lisboa, o lugre-motor “Aviz”, que andava a pescar nos bancos da Terra Nova, foi abandonado devido a incêndio, impossível de dominar. Toda a tripulação foi salva pelos navios que pescavam nas proximidades, não se registando quaisquer desastres pessoais. O “Aviz” pertencia à Companhia de Pesca Transatlântica, do Porto e fora construído na Gafanha, em 1939. Era de madeira e deslocava 523 toneladas brutas, tendo capacidade para 8.814 quintais de bacalhau.
(In “Jornal de Notícias”, de 23 de Setembro de 1965)
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O "Aviz" ancorado em Lisboa, embandeirado para a cerimónia
da benção dos bacalhoeiros
Imagem (c) foto da minha colecção

A inesperada notícia do naufrágio apanhou a cidade marítima completamente desprevenida, notando-se à posteriori um enorme vazio no rio Douro. Não é por acaso que a presença costumeira e marcante do navio em Massarelos, seu principal ancoradouro, durante os meses de Inverno e na Primavera, dando ares de imponência, altivez e graciosidade, foi depois substituída por um compreensível lamento de perda e ausência.
Lembro-me do lugre desde muito jovem. Inicialmente, a minha ingenuidade levou-me a pensar tratar-se dum iate de recreio, pertença de gente abastada. Mais tarde, explicaram-me ser um lugre da pesca do bacalhau e chamaram-me a atenção para o facto daquele ser um dos últimos a navegar à vela. Na realidade existiam outros e ainda alguns mais modernos, completamente motorizados, que se encontravam dispersos pelo rio, cumprindo a mesma finalidade. A esses achei-os também interessantes, mas o “Aviz”, sem conseguir explicar a razão, era aquele que mais admirava, por ser muito mais bonito.

O "Aviz" durante a cheia do Douro em 1962
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos

Cada vez que revejo as fotos da cheia do Douro em 1962, lembro-me do navio, que apenas com mastros mochos, sem mastaréus e sem pau da bujarrona, desafiava com ousada elegância e serenidade, a corrente vertiginosa das águas, que corriam furiosas em direcção ao mar.
Acho que posso afirmar, que o construtor Manuel Maria Bolais Mónica, no seu estaleiro da Gafanha da Nazaré, em 1939, conseguiu finalmente colocar a navegar com extraordinário sucesso, uma embarcação de 4 mastros, rompendo a inépcia das diversas construções anteriores em madeira, que se revelaram autênticos fracassos.

Sequência de imagens do "Aviz" a navegar para os bancos e
durante uma escala para abastecer em S. João da Terra Nova
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes

O capitão Vitorino Ramalheira, último da lista dos oficiais que teve a seu cargo o comando do lugre, recorda em entrevista recente:
«Filho de pescadores, Vitorino Ramalheira foi aconselhado pelo pai a manter-se afastado da pesca do bacalhau. "Nunca gostei de pescar, mas sim de andar à procura de peixe", diz, depois de contar a estranha atracção que a pesca do bacalhau exerceu sobre ele: "Um dia, no Gil Eanes, desci a bordo de um barco onde estavam a fazer a escala do peixe. O cheiro a sangue era indescritível. Aquilo entusiasmou-me."
Em 1952 embarcou como piloto no “Elisabeth” porque queria casar-se e se ganhava mais no bacalhau - "E nunca mais saí." Comandou depois várias escunas, com as suas quatro velas, muito elegantes, "como gaivotas". Em 1960 tornou-se capitão do Aviz e, cinco anos depois, viu-o arder como uma tocha nos mares da Terra Nova. "Havia muitas gambiarras para se poder pescar à noite e, sendo um barco de madeira, impregnado de óleos, pouco mais havia a fazer do que deixar arder. Felizmente era Setembro, não estava muito frio, o tempo estava bom, e não se perdeu ninguém", conta.»
(In Jornal “Público”, Marmelo, Jorge, 02.01.2010)

Sequência de imagens do "Aviz" com os quetes a abarrotar
de peixe e o capitão Pascoal a exibir um magnífico exemplar
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes

Como sempre acontece, são muitas as histórias que se contam, de quem viveu as agruras e os sacrifícios da pesca nos bancos. Pela voz de quem por lá passou, fiquei a saber que ao contrário do que seria expectável, as tripulações e pescadores sofriam muito durante as viagens, receosos pela possibilidade de naufrágio, cada vez que os bordos do lugre por acção do mar alteroso, se inclinavam em demasia, beijando as ondas com total desprezo. Nessas ocasiões, escondidos para não mostrar as lágrimas no rosto, abnegadamente ofereciam preces aos seus dilectos santos protectores. Isto até ao momento em que cada um, sorteado o dóri que lhe cabia em sorte, se aventurava nas águas geladas, firmes e estóicos, capitães letrados das suas frágeis embarcações, envergonhavam Neptuno, com rasgos de temeridade e audácia.

O "Aviz" à chegada a Leixões para aliviar parte do pescado,
antes de seguir para o Douro
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos

As características do navio, como segue :

Nº Oficial: C-127 > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Porto
Construtor: Manuel Maria Bolais Mónica, Gafanha, 1939
Arqueação : Tab 523,05 > Tal 350,54 > Pm 750 to > 8.814 qts
Cpmts.: Ff 51,48 mt > Pp 45,42 mt > Bc 10,30 mt > Ptl 5,06 mt
Máq.: Otto-Deutz, Hamburgo, 1938 > 1:Di > 480 Bhp > 7-9 m/h
Equipagem: 12 tripulantes
Em 1941 - 16 tripulantes > 49 pescadores > 57 dóris
Em 1943 - 13 tripulantes > 47 pescadores > 58 dóris
Após 1945 o navio alterou a matrícula para:
Nº Oficial: P-418-N > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Douro
Capitães embarcados: Manuel Nunes Guerra (1939 até 1946), João da Silva Peixe (1947), Manuel Santos Labrincha (1948 até 1952), António Morais Pascoal (1953 até 1959) e Vitorino Paulo Ramalheira (1960 até 1965).
O navio naufragou devido a incêndio, quando se encontrava a cerca de 94 milhas a Sul do porto de St. John’s, a 21 de Setembro de 1965.

Uma última notícia adiantava ainda mais pormenores do naufrágio: «Parte dos tripulantes do lugre “Aviz”, regressa a Portugal de avião»
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S. João da Terra Nova, 23 – Setenta e um pescadores do lugre português “Aviz”, foram salvos antes do barco se afundar na terça-feira, no Atlântico, após ter-se incendiado - revelou o seu comandante, Vitorino Ramalheira, ao chegar a esta cidade. Ramalheira disse ainda que ninguém ficara ferido. Trinta tripulantes do “Aviz” seguirão ainda esta semana de avião para Portugal. O comandante Ramalheira acrescentou que os restantes 41 tripulantes foram cedidos para prestarem serviço em outros barcos da frota de pesca portuguesa.
(In “Jornal de Notícias”, 24.09.1965)

5 comentários:

Rui Amaro disse...

Caro Reinaldo
Agora SIM! Chegaste à CIDADE INVICTA. Porto! Porto! Porto! Mais uma.....
e trouxeste um dos "meninos queridos" da nossa cidade, o quatro mastros AVIZ, um dos últimos "windjammers" da Portuguese White Fleet e um dos heróis da cheia de Janeiro de 1962que se aguentou a ferros firmes no meio do rio até as águas do monte baixarem. Era perto da meia-noite, eu estava em Massarelos, as águas já estavam a invadir a estrada, o INVICTA e outros navios já tinham idoa barra fora, o SENHORA DO MAR já estava "estatelado" contra a prancha do Frigorifico do Peixe, e o LANRICK e a traineira DIAMANTE em cima da estrada do CAVACO, os pilotos tentavam reforçar as amarras, e se me lembro estavam a preparar uma "paixão", isto é um ancorote ou uma estaca de ferro ou msdeira metida sobre o piso da estrada, de forma a serem passadas amarras para melhor segurar as embarcações, quando se ouve um estrondo ensurdecedor das amarrações de terra do AVIZ a rebentarem, que até levou o peoriz. Valeu-lhe os ferros. Dado que os bacalhoeiros ivernavam,à chegada os pilotos tratavam de reforçar as suas amarrações para eles suportarem eventuais cheias, por vezes os ferros e o ancorote de popa ficavam assoreados e por conseguinte melhor aguentavam os navios, já o INVICTA, no Cais das Pedras como não ia ivernar estava mais folgado, mas mesmo assim os pilotos trataram de reforçar as suas amarras, apresentava uma enorme inclinação, pois havia receio que se voltasse, e os navios do cais de Gaia, esses estavam com os ferros a prumo, que só lhes serviu para servir de leme na sua ida rio abaixo, a fazer estragos nas amarrações de outros navios, e herói foi o ANGLIA, que no pior lugar, o cais do Terreiro, esteve quase a vir para cima do cais,valeu-lhe um cabo virador do barqueiro Venancio, que segurou o navio até a corrente do rio diminuir, assim como o MANELICA no Vale da Piedade. E tudo isto se deu porque de Espanha houve falha de cominicação a avisar que a chaeia is recrudescer, se o aviso tivesse chegado a tempo os pilotos tratavam de depschar os navios para Leixões, e os estragos teriam sido diminutos.
E mais não digo porque não sei ler nem escrever.
Saudações maritimo-entusiásticas
Rui Amaro

JOSÉ MODESTO disse...

Amigo Reinaldo.
Continua a ensinar-nos a noss arte.
Boas imagens, relatos super-interessantes.

Saudações Marítimas
José Modesto

ILHAVO PORTUGAL CIMO DE VILA disse...

SOU NETO DO COMTE MANOEL DOS SANTOS LABRINCHA 1906....FIQUEI FELIZ EM SABER ALGO DO MEU AVO ILHAVENSE....MEU PAI FLAVIO SILVA LABRINCHA FALECEU EM 17/05/2006 COMANDANTE DA MARINHA MERCANTE BRASILEIRA....E SOU FILHO DELE FLAVIO SILVA LABRINCHA FILHO, SOU DESENHISTA.....PARABENS PELA LINDA PAGINA DO BLOG

ILHAVO PORTUGAL CIMO DE VILA disse...

parabens pela linda pagina flavio labrincha from rio de janeiro Brasil

Manuel Leão disse...

Sou neto do dono deste maravilhoso barco AVIZ, o empresário JOSÉ da CUNHA TEIXEIRA da Companhia Transatlântica. A Família tem em sua posse uma miniatura deste lindíssimo navio de 4 velas.