O lugre-motor “Aviz”
1939 - 21.09.1965
Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., Porto
1939 - 21.09.1965
Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., Porto
«Incêndio e afundamento nos bancos da Terra Nova do lugre-motor “Aviz”, cuja tripulação foi salva.»
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Segundo informação fornecida pelo Grémio dos Armadores dos Navios da Pesca do Bacalhau, por um telegrama do navio-hospital “Gil Eanes”, ontem recebido em Lisboa, o lugre-motor “Aviz”, que andava a pescar nos bancos da Terra Nova, foi abandonado devido a incêndio, impossível de dominar. Toda a tripulação foi salva pelos navios que pescavam nas proximidades, não se registando quaisquer desastres pessoais. O “Aviz” pertencia à Companhia de Pesca Transatlântica, do Porto e fora construído na Gafanha, em 1939. Era de madeira e deslocava 523 toneladas brutas, tendo capacidade para 8.814 quintais de bacalhau.
(In “Jornal de Notícias”, de 23 de Setembro de 1965)
(In “Jornal de Notícias”, de 23 de Setembro de 1965)
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O "Aviz" ancorado em Lisboa, embandeirado para a cerimónia
da benção dos bacalhoeiros
Imagem (c) foto da minha colecção
da benção dos bacalhoeiros
Imagem (c) foto da minha colecção
A inesperada notícia do naufrágio apanhou a cidade marítima completamente desprevenida, notando-se à posteriori um enorme vazio no rio Douro. Não é por acaso que a presença costumeira e marcante do navio em Massarelos, seu principal ancoradouro, durante os meses de Inverno e na Primavera, dando ares de imponência, altivez e graciosidade, foi depois substituída por um compreensível lamento de perda e ausência.
Lembro-me do lugre desde muito jovem. Inicialmente, a minha ingenuidade levou-me a pensar tratar-se dum iate de recreio, pertença de gente abastada. Mais tarde, explicaram-me ser um lugre da pesca do bacalhau e chamaram-me a atenção para o facto daquele ser um dos últimos a navegar à vela. Na realidade existiam outros e ainda alguns mais modernos, completamente motorizados, que se encontravam dispersos pelo rio, cumprindo a mesma finalidade. A esses achei-os também interessantes, mas o “Aviz”, sem conseguir explicar a razão, era aquele que mais admirava, por ser muito mais bonito.
Lembro-me do lugre desde muito jovem. Inicialmente, a minha ingenuidade levou-me a pensar tratar-se dum iate de recreio, pertença de gente abastada. Mais tarde, explicaram-me ser um lugre da pesca do bacalhau e chamaram-me a atenção para o facto daquele ser um dos últimos a navegar à vela. Na realidade existiam outros e ainda alguns mais modernos, completamente motorizados, que se encontravam dispersos pelo rio, cumprindo a mesma finalidade. A esses achei-os também interessantes, mas o “Aviz”, sem conseguir explicar a razão, era aquele que mais admirava, por ser muito mais bonito.
O "Aviz" durante a cheia do Douro em 1962
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos
Cada vez que revejo as fotos da cheia do Douro em 1962, lembro-me do navio, que apenas com mastros mochos, sem mastaréus e sem pau da bujarrona, desafiava com ousada elegância e serenidade, a corrente vertiginosa das águas, que corriam furiosas em direcção ao mar.
Acho que posso afirmar, que o construtor Manuel Maria Bolais Mónica, no seu estaleiro da Gafanha da Nazaré, em 1939, conseguiu finalmente colocar a navegar com extraordinário sucesso, uma embarcação de 4 mastros, rompendo a inépcia das diversas construções anteriores em madeira, que se revelaram autênticos fracassos.
Acho que posso afirmar, que o construtor Manuel Maria Bolais Mónica, no seu estaleiro da Gafanha da Nazaré, em 1939, conseguiu finalmente colocar a navegar com extraordinário sucesso, uma embarcação de 4 mastros, rompendo a inépcia das diversas construções anteriores em madeira, que se revelaram autênticos fracassos.
Sequência de imagens do "Aviz" a navegar para os bancos e
durante uma escala para abastecer em S. João da Terra Nova
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes
durante uma escala para abastecer em S. João da Terra Nova
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes
O capitão Vitorino Ramalheira, último da lista dos oficiais que teve a seu cargo o comando do lugre, recorda em entrevista recente:
«Filho de pescadores, Vitorino Ramalheira foi aconselhado pelo pai a manter-se afastado da pesca do bacalhau. "Nunca gostei de pescar, mas sim de andar à procura de peixe", diz, depois de contar a estranha atracção que a pesca do bacalhau exerceu sobre ele: "Um dia, no Gil Eanes, desci a bordo de um barco onde estavam a fazer a escala do peixe. O cheiro a sangue era indescritível. Aquilo entusiasmou-me."
Em 1952 embarcou como piloto no “Elisabeth” porque queria casar-se e se ganhava mais no bacalhau - "E nunca mais saí." Comandou depois várias escunas, com as suas quatro velas, muito elegantes, "como gaivotas". Em 1960 tornou-se capitão do Aviz e, cinco anos depois, viu-o arder como uma tocha nos mares da Terra Nova. "Havia muitas gambiarras para se poder pescar à noite e, sendo um barco de madeira, impregnado de óleos, pouco mais havia a fazer do que deixar arder. Felizmente era Setembro, não estava muito frio, o tempo estava bom, e não se perdeu ninguém", conta.»
(In Jornal “Público”, Marmelo, Jorge, 02.01.2010)
«Filho de pescadores, Vitorino Ramalheira foi aconselhado pelo pai a manter-se afastado da pesca do bacalhau. "Nunca gostei de pescar, mas sim de andar à procura de peixe", diz, depois de contar a estranha atracção que a pesca do bacalhau exerceu sobre ele: "Um dia, no Gil Eanes, desci a bordo de um barco onde estavam a fazer a escala do peixe. O cheiro a sangue era indescritível. Aquilo entusiasmou-me."
Em 1952 embarcou como piloto no “Elisabeth” porque queria casar-se e se ganhava mais no bacalhau - "E nunca mais saí." Comandou depois várias escunas, com as suas quatro velas, muito elegantes, "como gaivotas". Em 1960 tornou-se capitão do Aviz e, cinco anos depois, viu-o arder como uma tocha nos mares da Terra Nova. "Havia muitas gambiarras para se poder pescar à noite e, sendo um barco de madeira, impregnado de óleos, pouco mais havia a fazer do que deixar arder. Felizmente era Setembro, não estava muito frio, o tempo estava bom, e não se perdeu ninguém", conta.»
(In Jornal “Público”, Marmelo, Jorge, 02.01.2010)
Sequência de imagens do "Aviz" com os quetes a abarrotar
de peixe e o capitão Pascoal a exibir um magnífico exemplar
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes
de peixe e o capitão Pascoal a exibir um magnífico exemplar
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes
Como sempre acontece, são muitas as histórias que se contam, de quem viveu as agruras e os sacrifícios da pesca nos bancos. Pela voz de quem por lá passou, fiquei a saber que ao contrário do que seria expectável, as tripulações e pescadores sofriam muito durante as viagens, receosos pela possibilidade de naufrágio, cada vez que os bordos do lugre por acção do mar alteroso, se inclinavam em demasia, beijando as ondas com total desprezo. Nessas ocasiões, escondidos para não mostrar as lágrimas no rosto, abnegadamente ofereciam preces aos seus dilectos santos protectores. Isto até ao momento em que cada um, sorteado o dóri que lhe cabia em sorte, se aventurava nas águas geladas, firmes e estóicos, capitães letrados das suas frágeis embarcações, envergonhavam Neptuno, com rasgos de temeridade e audácia.
O "Aviz" à chegada a Leixões para aliviar parte do pescado,
antes de seguir para o Douro
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos
antes de seguir para o Douro
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos
As características do navio, como segue :
Nº Oficial: C-127 > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Porto
Construtor: Manuel Maria Bolais Mónica, Gafanha, 1939
Arqueação : Tab 523,05 > Tal 350,54 > Pm 750 to > 8.814 qts
Cpmts.: Ff 51,48 mt > Pp 45,42 mt > Bc 10,30 mt > Ptl 5,06 mt
Máq.: Otto-Deutz, Hamburgo, 1938 > 1:Di > 480 Bhp > 7-9 m/h
Equipagem: 12 tripulantes
Em 1941 - 16 tripulantes > 49 pescadores > 57 dóris
Em 1943 - 13 tripulantes > 47 pescadores > 58 dóris
Após 1945 o navio alterou a matrícula para:
Nº Oficial: P-418-N > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Douro
Nº Oficial: C-127 > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Porto
Construtor: Manuel Maria Bolais Mónica, Gafanha, 1939
Arqueação : Tab 523,05 > Tal 350,54 > Pm 750 to > 8.814 qts
Cpmts.: Ff 51,48 mt > Pp 45,42 mt > Bc 10,30 mt > Ptl 5,06 mt
Máq.: Otto-Deutz, Hamburgo, 1938 > 1:Di > 480 Bhp > 7-9 m/h
Equipagem: 12 tripulantes
Em 1941 - 16 tripulantes > 49 pescadores > 57 dóris
Em 1943 - 13 tripulantes > 47 pescadores > 58 dóris
Após 1945 o navio alterou a matrícula para:
Nº Oficial: P-418-N > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Douro
Capitães embarcados: Manuel Nunes Guerra (1939 até 1946), João da Silva Peixe (1947), Manuel Santos Labrincha (1948 até 1952), António Morais Pascoal (1953 até 1959) e Vitorino Paulo Ramalheira (1960 até 1965).
O navio naufragou devido a incêndio, quando se encontrava a cerca de 94 milhas a Sul do porto de St. John’s, a 21 de Setembro de 1965.
Uma última notícia adiantava ainda mais pormenores do naufrágio: «Parte dos tripulantes do lugre “Aviz”, regressa a Portugal de avião»
O navio naufragou devido a incêndio, quando se encontrava a cerca de 94 milhas a Sul do porto de St. John’s, a 21 de Setembro de 1965.
Uma última notícia adiantava ainda mais pormenores do naufrágio: «Parte dos tripulantes do lugre “Aviz”, regressa a Portugal de avião»
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S. João da Terra Nova, 23 – Setenta e um pescadores do lugre português “Aviz”, foram salvos antes do barco se afundar na terça-feira, no Atlântico, após ter-se incendiado - revelou o seu comandante, Vitorino Ramalheira, ao chegar a esta cidade. Ramalheira disse ainda que ninguém ficara ferido. Trinta tripulantes do “Aviz” seguirão ainda esta semana de avião para Portugal. O comandante Ramalheira acrescentou que os restantes 41 tripulantes foram cedidos para prestarem serviço em outros barcos da frota de pesca portuguesa.
(In “Jornal de Notícias”, 24.09.1965)
(In “Jornal de Notícias”, 24.09.1965)