terça-feira, 2 de março de 2010

Dramas da IIª Grande Guerra Mundial


O paquete “Queen Mary” e o cruzador ligeiro “Curacoa”

I - O “Queen Mary” - Tab 80.750 to

O paquete "Queen Mary" - postal da Companhia

Este navio que integrou o grupo de paquetes de maiores dimensões, foi após a sua construção em 1936, o mais rápido do mundo. Apenas o alemão “Bremen” da Norddeutscher Lloyd e o francês ”Normandie” da Compagnie Generale Transatlantique rivalizaram a espaços, mas seguramente nenhum deles conseguiu melhorar o tempo recorde de 3 dias, 20 horas e 42 minutos, gastos na travessia do Atlântico, pelo menos até 1952, ano em que o paquete americano “United States”, bateu todos os recordes, ficando detentor da prestigiada “flâmula azul”.
A declaração de guerra da Alemanha à Inglaterra, encontrou o “Queen Mary” muito próximo do porto de Nova Iorque, onde permaneceu amarrado até à decisão do Almirantado Britânico ordenar a saída do navio a 21 de Março de 1940, com destino a Sidney, na Austrália, sendo convertido e adaptado ao transporte de tropas. Enquanto utilizado no serviço militar, começou por transportar soldados oriundos da Austrália e da Nova Zelândia para o Egipto e outros teatros de guerra. De regresso ao Atlântico, transportou um total estimado em 320.500 soldados Americanos, que embarcavam em Nova Iorque e desembarcavam no porto de Gourock, no rio Clyde.
Muitos dos militares estacionados na Europa, acabariam por regressar à América neste mesmo navio, numa longa operação que teve o seu final após a chegada ao porto de Southampton, no dia 27 de Setembro de 1946.

II - O cruzador ligeiro “Curacoa” - Deslocamento 4.200 to

O cruzador "Curacoa" - imagem Photoship.Uk

Este vaso de guerra da Marinha Britânica, 4º navio a integrar a classe “Ceres”, foi um dos navios construídos durante a Iª Grande Guerra Mundial, nos estaleiros Ingleses de Pembroke, tendo sido dado como pronto para entrar ao serviço no dia 18 de Fevereiro de 1918. Inicialmente desenvolveu uma actividade no serviço de vigilância costeira, tendo em 1939 sido destacado para dar escolta e cobertura aos porta-aviões. Teve, igualmente, um desempenho brilhante, em 1940, no ataque às tropas Alemãs, quando estas desembarcaram na Noruega. Desse período deve ser realçado o regresso a Inglaterra, muito danificado, depois de severamente sacrificado por bombas, durante vários raids da aviação germânica.

III - A notícia de desastre

«Em Outubro de 1942, o paquete “Queen Mary”, quando navegava a toda a velocidade, com 15.000 soldados americanos, cortou ao meio o cruzador Britânico “Curacoa”». Foram estas as palavras utilizadas no titulo da notícia publicada no jornal o “Comércio do Porto”, de 13 de Maio de 1945, cujo texto recupero agora, com o seguinte teor :

«Pode tornar-se conhecido um dos piores desastres navais ocorridos durante a guerra: o afundamento do cruzador Britânico “Curacoa”, pelo paquete “Queen Mary”, quando transportava tropas americanas para a Grã-Bretanha. O “Queen Mary” embateu com o cruzador em angulo recto, quando este realizava o trabalho de escolta. O cruzador foi cortado ao meio, sendo levado durante algum tempo com as duas metades, uma de cada lado do paquete gigante. Em cinco minutos o “Curacoa” afundou-se. Houve 338 baixas, entre as quais 25 oficiais.
Nessa altura havia 15.000 soldados americanos a bordo do “Queen Mary”, que viajava a toda a velocidade para o Clyde, com a escolta de dois cruzadores. O homem da vigia do paquete, deu o alarme suspeitando da presença de submarino pela proa do navio. Imediatamente o grande paquete mudou bruscamente de rumo para estibordo, para tomar acção conveniente. Ao mesmo tempo o “Curacoa” lançava-se sobre o submarino. Face às circunstâncias, todas as testemunhas afirmaram ter sido impossível evitar o acidente.»

Pintura de autor impossível de identificar
imagem Photoship.Uk

IV - Os elementos que a notícia não contempla :

Foram efectivamente destacados dois cruzadores para escoltar o paquete “Queen Mary”, quando este se encontrava a cerca de 200 milhas da costa Inglesa: o já citado “Curacoa” e o “Bramham”. Devido à suspeita da presença de submarino inimigo pela proa do paquete “Queen Mary”, cuja informação obtida posteriormente confirmou tratar-se da unidade Alemã U-407, o cruzador "Curacoa" toma a dianteira do paquete, começando a navegar em zig-zags largos em posição defensiva. Quando partiu para lançar o ataque ao submarino, sem contar com a manobra brusca do paquete, que navegava a 25 milhas, deu-se o abalroamento fatídico, provocando o corte do navio em duas metades, sendo que a parte da ré do cruzador afundou-se no curto espaço de 5 minutos, enquanto que a metade da proa ficaria ainda a flutuar por mais 15 minutos. O “Curacoa” tinha uma guarnição de 439 tripulantes, registando-se no desastre 338 vítimas mortais e 101 sobreviventes.

V - Repercussões

Por indicação do Almirantado Britânico, a notícia do desastre foi camuflada até à data da publicação nos jornais, três anos depois da colisão, que teve lugar no dia 2 de Outubro de 1942. Entretanto os sobreviventes ao abalroamento do “Curacoa”, foram transportados por outras embarcações e desembarcados em Londonderry, ficando retidos próximo deste porto Irlandês e de certa forma abandonados à sua sorte, sem qualquer hipótese de contacto com o exterior. Diversos pedidos de indemnização foram levados à barra dum tribunal militar, durante o ano de 1949, sob a acusação de ausência de apoio aos náufragos, considerando que o paquete “Queen Mary” e o cruzador “Bramham” não pararam a marcha, limitando-se a atirar parcos utensílios de salvamento à água. Com efeito as avarias verificadas na roda de proa do “Queen Mary”, apenas levaram o navio a reduzir a velocidade para valores entre as 13 e as 14 milhas por hora. O parecer do Júri presente nessa sala do tribunal, apoiou a decisão tomada por todos os intervenientes no desastre, como tendo agido de forma correcta, consoante as rigorosas instruções recebidas, para situações de perigo eminente, face à presença de navio inimigo nas proximidades. Nestas circunstâncias, ao serem ilibados de culpa tanto os oficiais do paquete “Queen Mary” como dos cruzadores “Curacoa” e “Bramham”, falta tão-somente imaginar o que o Almirantado terá dito às famílias dos inditosos marinheiros Ingleses, vitimados pela tragédia.

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