sábado, 16 de abril de 2011

A divulgação da pesca do bacalhau


O afundamento do lugre "Gamo"

De uns tempos a esta parte, tenho notado um considerável aumento de interesse, no que concerne à divulgação da pesca do bacalhau à linha, com retratos de exemplos multi-disciplinares. Torna-se evidente o acréscimo de edições de livros sobre o tema, no continente e nas ilhas e simultaneamente através de notícias publicadas em jornais e revistas. Refiro uma das facetas mais recentes, na vã esperança de não ter passado despercebida e que está relacionada com o ataque ao lugre “Gamo”, no já longínquo ano de 1918, pelo submarino alemão U-155. O relato que se apresenta assinado pelo jornalista Jorge Fonseca, que contou com o apoio histórico do neto do capitão Agualusa, vem uma vez mais salientar as dificuldades duma actividade, notoriamente agravada em tempos de guerra.
A publicação em causa é a revista “em Foco”, que acompanhou o jornal “Público”, de 15 de Fevereiro último, eventualmente um resumo extraído do texto publicado pelo jornalista Costa Júnior, na sua obra “Ao Serviço da Pátria”, de 1944, com alguns detalhes então desconhecidos e que actualmente estão disponíveis, pelas facilidades obtidas através duma informação mais globalizada. Esta ideia que poderá vir a ter continuação, face à curiosidade que estes episódios merecem, vai seguramente agradar aos apaixonados pela história marítima e aos mais jovens, pelo que na minha opinião, justifica plenamente a inclusão do texto no blog.


O referido submarino U-155, nas diversas patrulhas efectuadas em diferentes teatros de guerra, durante o ano de 1918, teve como comandantes os capitães de fragata Erich Eckelmann, entre Janeiro e Maio e Ferdinand Studt, desde 1 de Junho até 24 de Novembro, data em que se apresentou à Marinha Inglesa, com a rendição da sua tripulação, no final do conflito armado da Iª Grande Guerra mundial. Contabilizou nos seus registos 43 navios afundados e 3 danificados, de diferentes nacionalidades. No que respeita à frota nacional, foi carrasco do iate “Rio Ave”, da Parceria de Pesca Portuense, Porto, em 25 de Março de 1918, quando em viagem dos Açores para Lisboa; do lugre “Lusitano”, da Companhia União Fabril, Lisboa, a 1 de Abril de 1918; do lugre “Gamo”, da Parceria Geral de Pescarias, Lisboa, a 31 de Agosto de 1918 e do lugre “Sofia”, da Empresa de Pesca Boa Esperança, de Aveiro, a 7 de Setembro de 1918, ambos durante a campanha de pesca na Terra Nova, finalizando com o vapor “Leixões”, dos Transportes Marítimos do Estado, Lisboa, em 12 de Setembro de 1918.
A rigorosa verificação das notícias nos jornais da época, montada pela censura militar, evitava que chegasse ao conhecimento das pessoas o número e o nome das vitimas, que ocorriam durante os ataques de submarinos, próximo ou longe da nossa costa. Se na maior parte dos casos os submarinistas se limitavam à destruição dos navios, poupando a vida às tripulações, as más condições de tempo e mar abriram sepulturas, que o tempo não conseguiu ainda apagar.
Tal foi o caso do “Gamo”, que registou 5 mortos, durante a cavalgada heróica sobre as vagas, ao encontro dum local de acostagem, que levasse as pequenas jangadas, baleeiras ou doris a salvamento. Recuperei apenas uma notícia não anulada pela censura, com origem em Viana do Castelo, a 15 de Setembro desse mesmo ano. Dizia o jornal “O Comércio do Porto”, que um dos marinheiros falecidos era natural de Viana. Chamava-se Joaquim Gonçalves Mota, tendo deixado viúva e filhos menores. Para os marinheiros dos submarinos alemães, muitos deles mortos durante o conflito e tendo muitos outros passado por campos de concentração, até ao regresso ao seu país, deram por terminada a inglória e nefasta noção do dever cumprido. Por outro lado, o grosso volume das vítimas nacionais, suas viúvas e órfãos, obriga-nos a reflectir sobre a nossa memória colectiva, não nos permitindo deixar cair no esquecimento, um rio de lágrimas perdidas, com sabor a sal.

4 comentários:

fangueiro.antonio disse...

Caro Reinaldo,

Fez muito bem em colocar estas páginas "online". É mais uma das muitas grandes histórias da Grande Faina. Tal como é narrado num dos conhecidos filmes sobre esta nossa pesca, "They were heroes of a kind... . May their sons remember them!"

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

marmol disse...

Bonito apontamento amigo Reinaldo.
Todas as informações sobre a «Epopeia do bacalhau» são um valioso contributo para a sua história.
Um abraço,
Martins

Fernando Rogério disse...

Obrigado, Reinaldo, por esta menção. É sempre bom e a "emFoco" promete voltar ao tema sempre que possa.
Abraço
Fernando

wwwjoaotome disse...

Vejam as revistas do jornal do pescador do Luis Vale. O que não faltam lá são infelizes tragédias
Um abraço

www.joaotome.sapo.pt