quarta-feira, 11 de junho de 2014

História trágico-marítima (CXXXIX)


O naufrágio do lugre bacalhoeiro "Maria Carlota"

O lugre “Maria Carlota” naufragou ao largo da Terra Nova
O “Queen Elizabeth” alterou a sua rota no objectivo de
socorrer a tripulação de trinta homens, que veio a ser
recolhida por um transporte das forças armadas americanas
Halifax (Nova Escócia), 4 – Do paquete de luxo britânico “Queen Elizabeth”, em viagem de Nova Iorque para Southampton, foi recebida uma mensagem pela rádio, ontem à noite, dizendo que alterara a rota e apressara a marcha para auxiliar o lugre portugues de três mastros “Maria Carlota”, de 230 toneladas, matriculado na praça do Porto, que enviara um pedido de socorro em que dizia que estava prestes a afundar-se, depois de acossado por violenta tempestade. A mensagem interceptada pela estação de vigilância da costa dava a posição do lugre português a mil quilómetros a Noroeste de Ponta Delgada, arquipélago dos Açores.

Foto do naufrágio do lugre "Maria Carlota"
Imagem da Photoship.Uk

Pouco depois das 3 horas da madrugada de hoje o “Queen Elizabeth” encontrava-se a 288 quilómetros do lugre. Do paquete, foram enviadas urgentes mensagens pela rádio a todas as estações anunciando que alterara a sua rota para socorrer o lugre português, que se encontrava nesse momento a cerca de vinte quilómetros a Leste-Sueste de Argentia, Terra Nova. Entretanto, as autoridades da costa dos Estados Unidos anunciavam que ia partir um hidro-avião equipado com um salva-vidas para socorrer a tripulação do navio. Ao mesmo tempo, do porto norte-americano de Brooklyn partiam um navio costeiro e um «aviso» da Marinha de Guerra, com o mesmo objectivo de socorrer o navio português em perigo.
Sabia-se que o Atlântico estava a ser açoitado por fortíssimo vendaval, e o Departamento de Meteorologia da Terra Nova anunciava, pela rádio, que a visibilidade era apenas de três milhas.

Postal ilustrado do navio "Queen Elizabeth",
citado no texto - Postal da minha colecção

Até que surgiu a notícia do salvamento em que mais três navios da rota Halifax – Southampton desviavam o seu curso para socorrerem o pequeno lugre.
Foi o transporte da Marinha de Guerra dos Estados Unidos “Charles A. Stafford”, que lançou a almejada mensagem, logo recolhida pelos postos de vigilância costeira norte-americana: «Foram recolhidos a bordo deste navio os trinta tripulantes do lugre português “Maria Carlota”, que está prestes a afundar-se a mil quilómetros a Leste-Sueste de Argentia, Terra Nova».
E, por fim, nova mensagem revelava novos pormenores, esta proveniente de São João da Terra Nova: «O quartel general da Guarda Costeira informa que o lugre português “Maria Carlota” fôra incendiado e abandonado, depois de salva a tripulação». – U.P. e Reuter

Foto do navio-hospital americano "Charles A. Stafford"
Imagem da Photoship U.K.

O naufrágio do lugre “Maria Carlota”
As informações recebidas em Lisboa
Foi da estação rádio-telegráfica da Armada, na Horta, que informaram o Ministério da Marinha de que o “Maria Carlota”, que vinha dos bancos da Terra nova com um carregamento de bacalhau, pedia socorro por ter água aberta e estar a afundar-se.
O capitão do lugre emitiu vários rádios informando que o seu navio começou a sofrer forte temporal e, por esse motivo, produziram-se dois rombos pelos quais esta a entrar muita água.
As bombas de bordo conseguiram esgotar a água, de modo a não deixar que o navio corresse o risco de se afundar. As vagas alterosas, porém, punham o navio em perigo. A tripulação portara-se corajosamente.
Além do “Queen Elizabeth”, outros navios navegaram em direcção ao “Maria Carlota”, entre os quais o “Caramulo”. O arrastão “Álvaro Martins Homem” também estivera em contacto com o navio sinistrado. Notícias posteriores informam que a tripulação tivera de abandonar o lugre.
O último rádio recebido em Lisboa dizia que o “Maria Carlota” estava raso com a água e, que seguia à deriva, levado pelas vagas e pelo vento, na direcção Sul-Sudoeste.
O “Maria Carlota” pertencia ao armador sr. João Gonçalves Guerra e era um navio construído em madeira, em 1918, nos estaleiros da Nova Escócia. Deslocava 230 toneladas e tinha capacidade para recolher 4.632 quintais de peixe. Fizera diversas viagens à Terra Nova, contribuindo para o abastecimento do País na medida da capacidade dos seus porões. Desta vez, trazia a bordo um carregamento apreciável de bacalhau.

Lista de tripulantes embarcados no “Maria Carlota”
Capitão            António Fernandes Matias,              de Ílhavo
Imediato           Jorge Fort’ Homem,                        de Ílhavo
Cozinheiro        Tomé dos Santos Ferreira Gordo,   de Ílhavo
Aj. Cozinheiro  Celestino Esteves de Figueiredo,      de Ílhavo
Pescador          António Maria Valente,                    de Matosinhos
Pescador          Bartolomeu da Silva Boia,                de Lavos
Pescador          Domingos Lucas,                             da Fuzeta
Pescador          Francisco Serrano,                           da Nazaré
Pescador          Joaquim Fernandes Parracho,          de Ílhavo
Pescador          José Rodrigues Romão,                   de Ctº. Branco
Pescador          Manuel José Inácio,                         da Fuzeta
Pescador          Manuel Portugal,                             da Nazaré
Pescador          Paulo de Jesus Figueira,                   da Nazaré
Pescador          Silvério Antunes Fialho,                   da Nazaré
Pescador          Silvestre Soares Zabumba,              da Nazaré
Pescador          Sebastião Simões,                           de V.P. Âncora
Pescador          Francisco Pires Oliveira,                  de V.P. Âncora
Pescador          João Francisco Gateira,                   de Ílhavo
Pescador          Manuel Maria Valente,                    de Matosinhos
Pescador          João Aires da Silva,                         de Ílhavo
Pescador          Manuel Dinis Faria,                          de V. do Conde
Pescador          Manuel Gonçalves Puga,                  de V. Castelo
Pescador          José da Silva e Sá,                           de Ílhavo
Pescador          Paulino Figueira,                              da Fuzeta
Pescador          António Pedrosa Luís,                     da Cova
Pescador          João Baptista Barbosa Carvalho,     da Nazaré
Pescador          Joaquim António Carreira,               de Portimão
Pescador          João Saraiva Verdade,                    de Ílhavo
Pescador         Abílio da Serrana Gandaio,               da Nazaré
Pescador         António Martins Júnior,                     da Fuzeta
Pescador          José Canas Júnior,                           de Setúbal
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 5 de Novembro de 1947)

Postal ilustrado do navio "Nea Hellas",
citado no texto - Postal da minha colecção

Já estão em Nova Iorque os náufragos do “Maria Carlota”
com o seu gato de bordo, que teve de viajar
«clandestinamente» no navio americano que os recolheu.
Nova Iorque, 10 – Trinta e um portugueses membros da tripulação do lugre bacalhoeiro português “Maria Carlota”, naufragado, recentemente, no Atlântico, assim como o gato mascote de bordo, salvos pelo transporte de guerra americano “Charles A. Stafford”, a seiscentas milhas a Leste de Argentia, Terra Nova, chegaram ontem a este porto.
O consulado português procura obter transporte de repatriação para os náufragos.
O gato viajou oculto e disfarçado numa dependência do transporte, até à chegada à Ilha de Staten, em consequência dos regulamentos militares americanos proibirem a presença de animais a bordo.
Um membro da tripulação, chamado António Pedrosa Luís, declarou à U.P. que o gato lhes deu boa sorte e não pôde, por isso, ser abandonado no Atlântico. (United-Press).
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 11 de Novembro de 1947)

Os náufragos do “Maria Carlota”
estão de saúde, em Nova Iorque
O Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau informa que segundo notícias telegráficas ontem recebidas, os náufragos do lugre “Maria Carlota” estão de boa saúde, instalados em Nova Iorque, devendo dali partir para Portugal em 14 do corrente, abordo do vapor grego “Nea Hellas”. Os náufragos pedem para saudar as respectivas famílias.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 12 de Novembro de 1947)

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