Além das manifestações que em terra se deram, por ocasião da visita da família real ao porto de Leixões, uma outra se realizou, fervorosa e entusiástica. Esta manifestação foi de uma originalidade e de uma espontaneidade características.
Eram perto das 2 horas, quando o possante rebocador “Galgo”, embandeirado em arco, levantou ferro do cais da Estiva e se dirigiu, com vertiginosa velocidade, para a boca da barra.
A bordo do rebocador reuniu-se um grupo distinto da colónia inglesa, alguns alemães, russos e portugueses. Os seguintes nomes darão uma ideia das pessoas que se achavam no vapor: srs. Carlos Coverley, Roger Coverley, Hermann Burmester. A.J. Shore, George Mason, Otto Burmester, Franz Burmester, C.J. Schneider. J.D. Smith, Edouard Rumsey, Carlos Wengorovius, Alberto Kendall, J.S. Johnson, o engenheiro do Lloyd, Ennor; o vice-cônsul da Grã-Bretanha, Honorius Grant; o vice-cônsul da Rússia, Álvaro Smith de Vasconcelos; Ernesto José de Carvalho, Isaac Newton, Ellicot, John Teage, Henrique Delaforce, o engenheiro-civil W.P. Routh, Irineu Pais, Albino Pereira Soares, José Vicente Domingues, o capitão do vapor inglês “Mallard”, sr. Hayes; o capitão do “Minerva”, sr. Burrel; o capitão do “Lisbon”, sr. Mac-Nab; os capitães russos srs. J. Skuja e Noacki, José Luiz Gomes Sá e Carlos Lourenço da Cruz.
O “Galgo” atravessou rapidamente toda a distância que medeia entre o cais da Estiva e a barra. O mar mostrava-se um pouco picado, como se diz em linguagem marítima, mas o possante rebocador sulcava indiferente as ondas mais alterosas, espadanando em volta flocos de espuma que a proa e o hélice faziam surgir constantemente.
Bem depressa a povoação da Foz ficou à ré do vapor, distinguindo-se em seguida as casas de Matosinhos e Leça, assim como os dois molhes do porto de Leixões, em cujas extremidades se viam, na sua imobilidade, os grandes Titãs, semelhantes a dois enormes canhões Krupp. Momentos depois, o “Galgo” fundeava na espécie de enseada formada pelas pedras de Leixões e os dois paredões em construção, junto do molhe sul.
A família real ainda não havia chegado, mas por toda a extensão da praia via-se a multidão movendo-se e girando em todos os sentidos. O aspecto do porto, visto do ponto em que o “Galgo” se encontrava fundeado, era realmente belo e cativante.
Uma multidão de pequenas embarcações, canoas, caíques, botes, guigas, etc., singrava por aquelas águas em todas as direções, com bandeiras multicolores, tremulando agitadas ao impulso do vento. No meio destas embarcações destacava-se, pela real beleza das suas formas, pelo airoso do seu porte, a chalupa pertencente ao sr. Alão Pacheco, a bordo da qual se achava este cavalheiro com sua esposa. A chalupa embandeirava em arco. Além desta chalupa ainda cruzavam o porto dois pequenos vapores, o “Rápido” e o “Ligeiro”, tendo num deles sido visto a bordo o engenheiro sr. Guedes Infante e o lente da Escola Médico-cirúrgica sr. Cândido Augusto Correia de Pinho.
Entretanto, a bordo do “Galgo”, os srs. Roger e Carlos Coverley mandavam servir amavelmente um abundante e bem servido lanche. A brisa marítima, a pequena excursão através daquele limitadíssimo espaço do Atlântico, tornavam altamente amena aquela refeição em que todos mais ou menos fizeram honra às iguarias, ao vinho do Porto e ao Champanhe.
Pouco antes de terminar o “lunch”, o sr. Carlos Coverley brindou pelo rei de Portugal e sua real família, sendo este brinde entusiasticamente correspondido por entre vivas, hurrahs e aclamações. Neste comenos ouviu-se o silvo de uma locomotiva. Era o comboio real que se aproximava e que foi parar perto do Titã do molhe sul. Quando el-rei, a rainha e os príncipes se apearam da carruagem, e se dirigiram para mais próximo do enorme guindaste, todos os que se achavam a bordo do “Galgo”, empunhando taças cheias de Champanhe, irromperam em repetidos vivas e hurrahs, silvando nessa ocasião por três vezes a sirene do vapor. A mesma demonstração deu-se quando SS. MM. E AA., depois de verem trabalhar o gigantesco Titã, se retiraram, tomando o comboio a direcção do molhe norte.
O “Galgo” também se foi postar galhardamente em frente aquele molhe, repetindo as anteriores demonstrações, quando a família real chegou ali.
Por essa ocasião assistiu-se ao desfilar de uma esquadrilha de barcos de pesca que, içando as largas velas latinas que o vento entumecia com gracioso donaire, foi passando por diante da extremidade do molhe sul, fazendo uma longa e pitoresca curva, que maravilhosamente se ia prolongando e tinha todos os encantos de uma verdadeira e original surpresa.
Todos os olhos se haviam fixado naquele pitoresco quadro, formado por grande número de barcos, cujos nomes eram também tão pitorescos como os homens que os tripulavam. Eis alguns desses nomes recolhidos na rápida carreira com que passavam à vista, deixando-lhes a sua textual ortografia: “Aqui estou em Casa de Deus”, “Sra. Da Gonia”, Sra. da Juda”, “Sr. do Alivo”, “Paraiso Rial”, “D. Luiz”, “Erodes de S. João”, Sr. do Soreato”, ”Sra. do Bomsucesso”, etc.
E lá foram todos estes barcos para a sua faina da pesca, e decorridos alguns momentos, na amplidão do Oceano apenas eram uns pontos que se destacavam na nublada faixa do horizonte.
No porto, entretanto, a animação era cada vez maior; a família real passara ao pavilhão onde lhe fora servido o lanche; as pequenas embarcações pululavam e cortavam em todos os sentidos a ampla enseada; um outro vapor, o “Victória”, viera também juntar-se à festiva manifestação marítima; os foguetes estouravam nos ares, as músicas faziam ouvir o hino real; por toda a parte uma enorme expansão de alegria, de fervoroso entusiasmo, de festival júbilo.
Algumas das pequenas embarcações estavam cheias de senhoras, que não receavam arrostar as ondas do mar. E que variedade de formas e tamanhos tinham os barcos que animavam a ampla baía! Ali foi vista a pequena canoa tripulada por um homem só e movida por uma pequena pá; os caíques com dois remadores; um outro movido a rodas; os botes, as chalupas e as guigas, a quatro, seis e mais remos. Uma variedade difícil de descrever. E todos estes barcos se haviam reunido ao longo do molhe norte, e quando a família real deixou o pavilhão para se retirar, era maravilhoso contemplar o aspecto produzido por aquela esquadrilha de pequenas embarcações, donde irrompiam entusiásticos vivas, e donde se viam milhares de lenços brancos acenando, ao mesmo tempo que o silvo do “Galgo” parecia querer superar todos os ruídos com o seu som ronco, sonoro e penetrante.
A família real, no entanto, deixava o porto de Leixões, e a debandada era geral. Na praia via-se um movimento e um fervilhar continuo, de quem queria ainda uma vez ver os régios personagens. Estava finda a grande festa do trabalho, e os barcos que não temiam o embate do mar, preparavam-se para ir em demanda da barra.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 28 de Setembro de 1887)
O dia do porto de Leixões
Teve lugar no último sábado o dia do porto de Leixões, que lamentavelmente não teve o entusiasmo retratado anteriormente com a visita da família real, mas nem por isso deixou de ver manifestado igual brilhantismo, repetindo o êxito já alcançado nas edições anteriores.
Parabéns, porto de Leixões!