terça-feira, 23 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXX)


O vapor “ Bayern “
1921 – 1936
Armador: Hamburg America Line, Hamburgo, Alemanha

Imagem do vapor "Bayern" - Postal da Companhia

Nº Oficial: -?- - Iic.: R.B.P.D. – Porto de registo: Hamburgo
Construtor: Bremer Vulkan, Vegesack, 1921
Arqueação: Tab 9.014,00 tons – Tal 5.288,00 tons
Dimensões: Pp 142,04 mts – Boca 17,68 mts – Pontal 9,97 mts
Propulsão: Bermer Vulkan - 1:Te – 3:Ci – 536 Nhp – 12 m/h

O encalhe do vapor “Bayern” em Leixões
Cerca da uma hora da madrugada do dia 3 de Março, quando o vapor alemão “Bayern”, da companhia Hamburg America Line, pretendia demandar o porto de Leixões, ao aproximar-se da entrada para receber piloto, devido à forte ventania, que soprava nessa ocasião e ao facto do vapor vir bastante leve, foi impelido de encontro às pedras do enrocamento do cais do Molhe Sul, fazendo um rombo à proa, por onde começou a meter água no porão Nº 1.
Após o acidente, o vapor “Bayern” movimentou-se à ré, tendo então recebido a bordo o piloto, que havia de dirigir a entrada do vapor no porto, o que se efectuou, pouco depois, sem mais novidade.
Dado conhecimento do ocorrido às autoridades marítimas e ao agente da Companhia a que o barco pertence, foram, desde logo, tomadas as providências necessárias a fim de avaliar a gravidade do caso.
Assim, cerca das 9 horas da manhã, foi o vapor vistoriado por um mergulhador, que mais tarde voltou a proceder a nova vistoria, para concretizar melhor as avarias encontradas no casco.
Também foi para bordo uma bomba estanca-rios, no sentido de ser feito o escoamento da água existente no porão. Durante o dia de hoje, é esperado, em Leixões, o vapor salvadego “Max Barendet”, que vem dar assistência ao “Bayern”.
Este vapor chegou procedente de Hamburgo, com 89 passageiros em trânsito, vindo receber neste porto cerca de 40 passageiros e alguma carga, a seguir com destino aos portos do Brasil.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 4 de Março de 1941)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Amigos, amigos, negócios à parte...


O encalhe do cruzador “Adamastor” no dia 4 de Outubro de 1929

Imagem do cruzador "Adamastor" - Postal ilustrado

O cruzador “Adamastor” foi construído no estaleiro dos Irmãos Orlando, em Livorno, na Itália, em 1896, em resultado duma subscrição pública efectuada no país, para possibilitar a respectiva compra. Entrou ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa em 3 de Agosto de 1897, tendo realizado um incontável número de missões, até ser abatido aos efectivos da Armada em 1934. Deslocava 1.757 toneladas, tinha 73,80 metros de comprimento e 10,70 metros de largura. A guarnição era composta por 206 tripulantes, oficiais, sargentos e praças. Podia navegar à velocidade de 18 nós, dispondo de uma autonomia na ordem das 5.400 milhas náuticas à velocidade de 10 nós.
A notícia do sinistro, cuja ocorrência é referida no texto abaixo transcrito, não justifica outros comentários, além da compreensão de uma determinada época, não muito distante, perfeitamente elucidativa da eterna disputa entre o privado e o público.

Foi julgada procedente a acção movida por motivo do seu salvamento
Terminou ontem o julgamento, no Tribunal do 7º Juízo, em audiência presidida pelo juiz dr. Vasco Borges, do processo que a Sociedade de Comércio, Industria e Transportes, Lda., moveu contra o Estado ao qual exigiu 500 contos pelo auxílio que o vapor “Maria Amélia” prestou ao cruzador “Adamastor”, quando este navio de guerra encalhou em Outubro de 1924, na Ilha de Bolama. A audiência abriu pelos debates. O sr. dr. Humberto Pelágio advogado da Sociedade, com uma notável concisão começou as suas alegações descrevendo com copiosa soma de factos os esforços empregados pelo “Maria Amélia” para salvar o “Adamastor”.
Dirigindo-se aos júris disse:
«Em quatro de Outubro de 1929, dirigindo-se o cruzador “Adamastor”, para a Ilha de Bolama, encalhou na ponte oeste da mesma ilha e não podendo safar-se pelos seus próprios meios, foi ordenado pelo Chefe dos Serviços da Marinha da Guiné, que o vapor “Maria Amélia” fosse em seu auxílio. Este encontrava-se, então, em Bissau pronto a seguir viagem para Lisboa, carregado completamente com 1.533 toneladas de «mendobi» e à hora a que lhe foi dada ordem para ir em auxílio do cruzador, estava aguardando a chegada dos papéis de bordo para iniciar a sua viagem para Lisboa.
Embarcando a bordo, o chefe de Serviços da Marinha, o “Maria Amélia” dirigindo-se desde logo para o local do encalhe e, após uma conferência entre os respectivos comandantes dos navios, assistente e assistido, o “Maria Amélia” cerca das 17 e 30 horas, fundeou o mais próximo possível do “Adamastor” em 10 braças de água, pois os fundos ali passam de 9 braças para 3, e o navio achava-se em 17 pés e 9 polegadas de calado.
Estabeleceu-se o primeiro cabo de reboque que rebentou às 20 horas, devido à forte corrente de água, lançando-se o segundo, que logo a seguir rebentou pelo mesmo motivo. Eram 22 horas.
Como não houvesse tempo para ser passado novo cabo, visto ser preia-mar, o “Adamastor” tentou safar-se com o auxílio das suas máquinas e do rebocador “Bissau”, mas todas as tentativas foram inúteis.
No dia 5, pelas 08 horas e 5 minutos fundeou o “Maria Amélia” novamente a cerca de 500 metros do “Adamastor”, sendo estabelecido o terceiro cabo de reboque. Às 11 horas o “Adamastor” começou a trabalhar com as suas máquinas ajudado pelo rebocador “Bissau” e pelo “Maria Amélia” até que às 11 horas e 12 minutos, em virtude da força da corrente, o cabo de reboque deu um violento esticão, partindo-se mas desencalhando o “Adamastor” poucos minutos depois. A situação do “Adamastor” era em verdade assaz critica».
Dada a palavra ao sr. dr. Sousa Costa, o ilustre magistrado começou por tecer os melhores elogios ao seu colega, entrando depois no estudo da prova produzida, que reputou insuficiente para habilitar o tribunal a julgar a acção procedente.
Reunido o tribunal, este respondeu, dando a acção como procedente e provada, que o encalhe colocou o “Adamastor” na impossibilidade de safar-se pelas suas próprias forças e recursos, e na situação de perigo: que foi às 11 horas e 12 minutos que rebentou o terceiro cabo de reboque lançado pelo “Maria Amélia”, dando na ocasião um forte esticão ao “Adamastor”: que quando rebentou o segundo cabo o cruzador não conseguiu safar-se apesar de ser na ocasião máxima da preia-mar, apesar dos esforços do rebocador “Bissau” e apesar do esforço das suas próprias máquinas, actuando simultaneamente e em conjunto todos estes fatores: que o “Maria Amélia” prestou um útil serviço contribuindo para o desencalhe, etc.
Porém, atenta a dificuldade de determinar o valor do cruzador, e outras verbas, ficou o seu montante para se liquidar em execução de sentença.
(In jornal "Comércio do Porto", quarta, 18 de Julho de 1934)

terça-feira, 16 de abril de 2013

O comércio do bacalhau


Lugres da Terra Nova

Face à necessidade permanente de haver no mercado bacalhau para consumo, muitos navios da pesca e do comércio, nacionais e estrangeiros, passaram pelos nossos portos com o fim de descarregar o precioso alimento, ora comercializado na origem, ora vendido cá pela melhor oferta aos mercadores instituídos, como relata com muito a propósito Ramalho Ortigão, num texto critico e simultaneamente pleno de oportunidade, escrito em 1871, onde denuncia a mafia dos comerciantes e o monopólio do negócio que detinham. E tudo isso acontecia, porque, por mais se a frota nacional pescasse, o peixe era sempre insuficiente para satisfazer a procura interna e paralelamente dar resposta às necessidades contratuais de exportação.
Um entre os muitos armadores que trazia os seus lugres ao nosso país, até porque devia usufruir de forte influencia, por estar sediado em St. John’s era J.T. Moulton. A cada viagem, os lugres transportavam quantidades superiores a cinco mil quintais de peixe, assegurando para as viagens de regresso o transporte de sal, certamente negociado a preços muito satisfatórios.
A memória relativa ao transporte de bacalhau prende-se simultaneamente aos sinistros que ocorreram com três dos seus navios, que a fortuna ou infortúnio deixou como legado, em três situações completamente distintas. Foram protagonistas os lugres “Reginald R. Moulton”, que pode ser encalhado a tempo, por ter aberto um considerável rombo no casco por estibordo, sendo salvo em condições extremas, após encalhe nas areias da praia que existiu junto ao enrocamento interior do molhe norte, regressando à Terra Nova depois de efectuar as necessárias reparações; o “Margaret Moulton” que se virou em virtude do peso da água que lhe entrou nos porões, por ter garrado do ancoradouro e caído sobre o enrocamento oeste do porto de Leixões, igualmente salvo após encalhe no local referido anteriormente, junto ao enrocamento interior do molhe norte; e, o “Catherine M. Moulton”, afundado ao largo de Leixões, em viagem para o rio Douro, por motivo de forte vendaval.

O lugre de 3 mastros “Margaret M. Moulton”
1918 - 1918
Armador: J. T. Moulton, Nova Escócia, Canadá

O lugre "Margaret M. Moulton" encalhado em Leixões
Imagem de autor desconhecido - colecção da Fotomar

Nº Oficial: 188840 – Iic.: -?- - Registo: St. John’s, Terra Nova
Construtor: M. Leary, Dayspring, Nova Escócia, 1918
Arqueação: Tab -?- tons – Tal 174,00 tons
Dimensões: -?- Propulsão: À vela
Equipagem: 6 tripulantes Capitão: Thomas Rose
O lugre afundou-se conforme acima se explica, por ter partido as amarras devido a forte temporal, no dia 8 de Dezembro de 1918, transportando no porão 6.200 quintais de bacalhau, carregados nos portos de Rose Blanche e Burgeo, na Terra Nova. Os tripulantes foram salvos pelo salva-vidas. Depois de completada a descarga foi reparado provisoriamente, tendo navegado para o rio Douro. Já no Porto foi posto à venda e posteriormente reconstruído, passando a integrar a frota de pesca nacional com o nome “Maria Carlota”.
Naufrágio
Devido ao temporal da noite de sábado para Domingo, garraram os ferros do lugre inglês “Margaret Moulton”, que se encontrava fundeado no porto de Leixões, e, batendo nas pedras, começou a meter água. Pelas 9 horas da manhã de Domingo, a tripulação do lugre, vendo o perigo que corria, saltou para o bote de bordo, ao mesmo tempo que em seu socorro iam um salva-vidas e uma catraia dos pilotos.
A tripulação, composta de 6 homens, veio para terra e, pelas 9 horas e meia, o lugre afundava-se por bombordo. Ontem, aparecendo o lugre a boiar, foi rebocado para outro ponto pelo “Mars”.
O lugre, consignado à firma J.P. Pinto Basto & Cª., tinha vindo da Terra Nova, com bacalhau para a firma Lind & Couto e preparava-se para entrar a barra do Douro e fundear no rio. É de 174 toneladas de registo, tem matrícula de St. John’s, Newfoundland, sendo seu capitão mr. Rose.
Do lugre foram salvos alguns haveres, o livro de bordo e aparelhos náuticos. Ontem ainda a carga não tinha saído dos porões do lugre, que, segundo consta, parece considerar-se perdido.
(In jornal “Comércio do Porto, 9 de Dezembro de 1918)

O lugre de 3 mastros “Reginald R. Moulton”
1918 - 1919
Armador: J. T. Moulton, Nova Escócia, Canadá
Nº Oficial: 140086 – Iic.: -?- - Registo: St. John’s, Terra Nova
Construtor: M. Leary, Dayspring, Nova Escócia, 1917
Arqueação: Tab 141,00 tons - Tal 112,00 tons
Dimensões: Pp 34,63 mts - Boca 7,92 mts - Pontal 3,41 mts
Propulsão: À vela
O lugre por força do sinistro ocorrido no dia 17 de Fevereiro de 1919 foi de igual modo reparado em estaleiro no rio Douro, regressando posteriormente a St. John’s.
Em Leixões – lugre encalhado
Na madrugada de ontem, devido ao forte temporal, ao lugre inglês “Reginald R. Moulton”, fundeado no porto de Leixões, rebentaram as correntes dos ferros, vindo o lugre encalhar no enrocamento norte, próximo ao posto de serviço, correndo certo perigo.
O lugre tinha entrada naquele porto no dia 6 do corrente, vindo da Terra Nova, com um carregamento de bacalhau. Pelas 11 horas da manhã de ontem teve início a descarga do bacalhau, sendo também retirados de bordo os panos e vários utensílios. A tripulação nada sofreu.
(In jornal “Comércio do Porto, 18 de Fevereiro de 1919)

O lugre de 3 mastros “Catherine M. Moulton”
1919 – 1926
Armador: J. T. Moulton, St. John’s, Canadá
Nº Oficial: 141402 – Iic.: -?- - Registo: St. John’s, Terra Nova
Cttor.: J.N. Rafuse & Sons, Conquerall Bank, Nova Escócia, 1919
Arqueação: Tab 194,00 tons – Tal 155,00 tons
Dimensões: Pp 36,33 mts - Boca 7,92 mts - Pontal 3,47 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 4 tripulantes
O lugre foi abandonado pela tripulação com água aberta, a cerca de 15 milhas ao largo de Leixões, no dia 18 de Novembro de 1926.
Navio perdido – Tripulação salva
Ante-ontem pelas 4 horas e meia da tarde, entrou em Leixões o iate “Cândida”, procedente de Setúbal. O seu capitão deu conhecimento de ter visto o lugre inglês “Catherine M. Moulton” abandonado, a cerca de 15 milhas a oeste da barra, e que a sua tripulação fora recolhida por uma traineira espanhola, que seguia para Vigo.
A tripulação ainda pediu que de bordo do “Cândida” fossem arreados os escaleres para os trazer para Leixões, mas devido ao forte temporal, o capitão não o permitiu.
Ontem a meio da tarde, na praça do Porto foi recebido um telegrama do referido capitão dizendo estar em Vigo e confirmando a notícia, de acordo com a informação do capitão do iate “Cândida”. O “Catherine M. Moulton” vinha da Terra Nova, com bacalhau para o Porto.
(In jornal “Comércio do Porto, 23 de Novembro de 1926)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXIX)


O afundamento do vapor “ Cascais “
1916 – 1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Imagem do vapor Cascais desenhado por Luís Filipe Silva

Nº Oficial: -?- - Iic.: H.C.A.S. - Porto de registo: Lisboa
Cttor: Grangemouth Dockyard, Grangemouth, Inglat. 02-1899
ex “Electra” - D.G. Neptun, Bremen, Alemanha, 1899-1916
Arqueação: Tab 834,57 tons - Tal 417,03 tons
Dimensões: Pp 60,30 mts - Boca 9,20 mts - Pontal 4,08 mts
Propulsão: Hutson & Co., 1898 - 1:Te - Veloc. 10 m/h

08/1914 - Amarrou em Lisboa
02/1916 - Requisitado para os Transportes Marítimos do Estado
10/1916 - Entregue à Furness, subcontrato com o Gov. Francês.
17.12.1916 - Afundado por canhoneamento pelo submarino alemão UC-18, sob o comando do capitão Wilhelm Kiel, à entrada do porto de La Pallice, na posição 45º53’N 01º32’W.

O torpedeamento do “Cascaes”
Um telegrama do Lloyds recebido hoje em Lisboa, confirma, infelizmente, a notícia do torpedeamento do vapor “Cascaes” por um submarino inimigo. Informações complementares, dizem que o torpedeamento se deu à entrada de um porto francês. O “Cascaes” era um navio de 850 toneladas, tendo saído do Tejo ao serviço do governo britânico em 30 de Setembro último.
Era comandado pelo capitão sr. Raul Jorge Carlos Pinto, natural da Figueira da Foz e na sua tripulação, constituída por 52 homens, figuravam Manso Chagas da Silva, de Rocio, Abrantes; João Pereira Tudela, de Ílhavo; Alexandre Rodrigues Lobato, de Rocio, Abrantes; 1º maquinista Sebastião Rodrigues, de Santarém; fogueiro-azeitador Francisco Amorim, dos Arcos de Valdevez; fogueiro Mário Nunes, de Santarém; chegadores José Lourenço, de Tábua e Bernardino António Simões, de Ferreira do Zêzere; azeitadores António Maria Russo, da Guarda, António Maria de Castelo Branco e António dos Santos, da Guarda; fogueiros Basílio Augusto Nunes, de Coimbra, António Cunha, de Vila Real, Augusto Costa, de Viseu e Américo dos Santos, da Foz do Arouce; chegadores António Carvalhinho, da Guarda, José da Costa Mário, de Coimbra e José Jorge Loureiro, de Vila Real; e o criado Agostinho da Silva, de Coimbra.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 22 de Dezembro de 1916)

A tripulação do vapor “Cascaes”
Notícias recebidas dão como salva toda a tripulação do vapor “Cascaes”., torpedeado e metido no fundo pelo inimigo, à entrada de um porto francês. O respectivo comandante é esperado chegar a Lisboa amanhã, devendo apresentar o seu relatório à comissão de transportes marítimos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 23 de Dezembro de 1916)

Entrevista com o capitão do “Cascaes”
O capitão do vapor “Cascaes”, afundado pelos alemães na costa francesa, tendo regressado com a sua tripulação, foi nesta data à capitania do porto, lavrar o respectivo protesto. Encontramo-nos com o jovem oficial, sr. Raul Jorge Pinto, momentos depois de haver cumprido essa formalidade, de quem recolhemos as seguintes declarações:
«O “Cascaes” saiu de La Pallice no dia 17 do corrente, às 7 horas e meia da manhã, com destino a Poucaut, que dista 160 milhas daquele porto. Cerca do meio-dia, navegando segundo as instruções recebidas do almirantado francês, passava próximo de Bordéus. Aproximava-se o navio das boias que se encontram a 18 milhas do porto, quando na alheta da popa, por estibordo, foi visto um submarino que navegava com grande velocidade, de forma a cortar a proa do “Cascaes”.
A primeira impressão foi de que se tratava de um submarino francês, tão próximo ele estava da costa. A dúvida, porem, desfez-se rapidamente, e, como o “Cascaes” não estava ainda armado, só havia um expediente a tomar: fugir e alcançar a costa. Era a única esperança; e, sem a menor hesitação, foi isso que se fez. O submarino, assim que deu pela manobra, abriu fogo contra o navio. A primeira granada passou-lhe a poucos metros da proa; as outras atingiram-no pela proa e na casa das máquinas.
Nesta altura foi dada ordem para que a tripulação saltasse para as baleeiras, enquanto o submarino continuava alvejando o barco. Não houve qualquer aviso e foram feitos 13 tiros. A tripulação, nas baleeiras, um pouco afastadas, assistiu ao afundamento do navio. No momento da imersão produziu-se uma explosão terrível, em consequência do resfriamento súbito da caldeira. O submarino mergulhou em seguida e, pouco depois, viu-se que ele afundava um vapor norueguês e um veleiro francês.
O submarino, que é o “U-8”, deve ter 75 metros de comprido e navegava com uma velocidade não inferior a 15 milhas. Vinha armado com dois canhões, um à popa e outro à proa, estando pintado de verde-mar.
A tripulação do “Cascaes” conservou-se nas baleeiras até às 3 da tarde, hora a que foi recolhida por uma chalupa, de cerca de 40 toneladas, que a transportou para Roian, à entrada da barra de Bordéus.
Os tiros do submarino foram feitos à distância de 10 metros, e o “Cascaes”, que se afundou de proa, deixou tremular até ao último instante a bandeira portuguesa. A tripulação foi carinhosamente recebida em Roian e alvo de todas as deferências em território francês.»
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 27 de Dezembro de 1916)

domingo, 7 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXVIII)


O afundamento da barca “ Porto “
1913 – 1918
Armador: Álvaro Gomes de Sá & Cª., Lda., Porto

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-174 - Iic.: H.K.G.B. - Porto de registo: Porto
Construtor: Archibald McMillan & Son, Dumbarton, Abril, 1885
ex “Gartmore”, Thomson, Dickie & Co., Deddington, 1885-1900
ex “Baden”, J. Wimmer & Co., Hamburgo, 1900-1913
Arqueação: Tab 1.128,26 tons - Tal 1.030,55 tons
Dimensões: Pp 70,80 mts - Boca 10,37 mts - Pontal 6,44 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 16 tripulantes
Capitães embarcados: Afonso Antero de Miranda Lemos (1913 a 1915) e José Tude de Oliveira da Velha (1915 a 1918)

Náufragos
A tripulação da barca “Porto”, da homónima praça do norte, naufragado a 600 milhas de Nova Iorque, aportou ali, tendo sido salva por um navio inglês.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 8 de Agosto de 1918)

A barca "Porto"
A barca “Porto” foi há tempos torpedeada e afundada no porto de Savannah por um submarino alemão. Esta barca era alemã e antes da requisição dos navios daquela nacionalidade, denominava-se “Baden” e, estando fundeada no rio Douro foi vendida, passando a chamar-se “Porto”. Tinha 1.035 toneladas de registo e pertencia agora à firma Álvaro Gomes de Sá & Comandita. Quando foi afundada vinha para o Porto com um carregamento de algodão.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 9 de Agosto de 1918)

O que realmente aconteceu com a barca “Porto” foi ter sido interceptada pelo submarino alemão U-140, que se encontrava sob o comando do capitão Waldemar Kophamel, quando o navio se encontrava a 550 milhas da costa americana a sul de Halifax, ou a 340 milhas na direcção do Cabo Sable. Em resultado do ataque, a barca foi mandada parar e levada a naufragar com cargas explosivas, no dia 27 de Julho de 1918, na posição 39º18’N 60º40’W. A barca “Porto” procedia do porto de Savannah, encontrando-se a navegar com um carregamento de aduela e 600 fardos de algodão, com destino ao rio Douro. A tripulação abandonou o navio nas baleeiras de bordo, sendo resgatada por um navio inglês, que a desembarcou no porto de Nova Iorque alguns dias depois, de acordo com o acima noticiado.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXVII)


O afundamento do vapor “ Leça “
1916 – 1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Imagem do vapor "Leça" em Lisboa - Foto de autor desconhecido

Nº Oficial: -?- - Iic.: H.L.E.C. – Porto de registo: Lisboa
ex “Enos” - Deutsche Levante Linie, Hamburgo, 1902-1916
Construtor: Helsingor Vaerft, Elsinore, Dinamarca, 03.05.1902
Arqueação: Tab 1.911,18 tons - Tal 1.210,27 tons
Dimensões: Pp 85,60 mts - Boca 12,30 mts
Propulsão: Dinamarca, 1902 - 1:Te - Veloc. 9 m/h

Torpedeado pelo submarino UC-18, sob o comando do capitão Wilhelm Kiel, próximo a Saint Nazaire, na posição 46º57’N 02º41’W, em 14.12.1916.

A tripulação do vapor “Leça”
Segundo notícias recebidas no Ministério da Marinha, foi comunicado ter sido salva toda a tripulação do vapor “Leça”, antigo vapor alemão “Enos”, que se encontrava sob fretamento ao governo Inglês e atacado há dias por um submarino alemão.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 22 de Dezembro de 1916)

O que diz o capitão do “Leça”, acerca do ataque inimigo
Chegado com a sua tripulação a Lisboa, em pleno dia de Natal, fomos ao encontro do comandante do vapor “Leça”, capitão António Ferreira da Piedade, para que nos dissesse em que condições tinha sido afundado o navio sob o seu comando. O sr. capitão Piedade, que se apresenta ainda com a cabeça coberta de ligaduras, pois recebeu um grande ferimento a saltar para a baleeira, na ocasião do ataque do submarino, relata da seguinte forma os acontecimentos:
«O “Leça” saíra de Cardiff, carregado de carvão, com destino a Saint Nazaire. Observei rigorosamente as instruções do almirantado. Com prejuízo de tempo, alcançamos finalmente a costa francesa, dando-se o ataque, quando ele já nos parecia impossível.
A 14 do corrente encontrávamo-nos a 15 milhas do porto de destino. Subitamente o imediato chamou a nossa atenção, para qualquer coisa, que se assemelhava a uma boia. Não tivemos ilusões por muito tempo. Era um submarino, que fazia o seu aparecimento. Ao nosso lado navegava um vapor inglês, o “Glencoe”, por sinal.
O pirata, assim que surgiu, rodeou o vapor inglês, obrigando-o a parar. E, ao mesmo tempo, fez o primeiro tiro sobre nós. Era o aviso para o desembarque. Ambas as tripulações saltaram apara as baleeiras. Pouco depois disparou nove tiros sobre o “Leça” e, voltando-se para o inglês, enviou-lhe um torpedo. Como o nosso barco não tivesse submergido, disparou-lhe também um torpedo pela amura de estibordo. O encontro deu-se às 7 horas e meia da manhã e às 8 e tanto o nosso navio afundava-se completamente. Durante o ataque, dois outros submarinos pairavam a curta distancia.
Assim que presenciamos o completo afundamento do “Leça”, remamos com força, em direcção à costa, que se avistava. Depois de termos marchado algum tempo, veio ao nosso encontro o barco dos pilotos de Saint Nazaire, que tinham ouvido as detonações. Os 35 homens da tripulação do “Leça” foram imediatamente socorridos. Às 4 horas da tarde desembarcamos no porto, onde as autoridades marítimas nos dispensaram o mais cativante acolhimento. A oficialidade foi hospedada no hotel e o resto da tripulação recolhida no quartel de infantaria 147. Não se descreve a afetuosa receção que os soldados dispensaram à nossa gente. Os nossos homens, que tinham ficado sem roupas, receberam dos soldados aquilo de que careciam. E, quando deixamos a cidade, oficiais e soldados franceses acudiram à gare, fazendo-nos uma grande manifestação de simpatia.
O nome de Portugal foi aclamado entusiasticamente, e essa atmosfera de carinho compensou-nos bem do perigo que tínhamos corrido. De Saint Nazaire seguimos a Bordéus, daqui a San Sebastian e por último a Lisboa.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 26 de Dezembro de 1916)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pesca do bacalhau


O naufrágio do lugre-motor " Labrador "

Fotografia obtida pelos serviços de Defesa Aérea dos Estados Unidos, permite observar um pormenor do afundamento do lugre-motor “Labrador”, pertencente à praça de Lisboa, ocorrido em 25 de Agosto de 1958, quando o navio navegava a cerca de cem milhas do Cabo Race, na Terra Nova.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Agosto de 1958)

Nos mares da Terra Nova afundou-se o lugre “Labrador”,
salvando-se os quarenta homens da sua tripulação.
No Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, foi ontem recebido um telegrama do “Gil Eanes” comunicando que, por água aberta, se afundou nos bancos da Terra Nova o lugre-motor “Labrador” e que toda a sua tripulação composta de 40 homens, incluindo o capitão Júlio Pereira da Bela, de Ílhavo, foi salva e recolhida pelos navios bacalhoeiros que ali se encontram a pescar. O navio pertencente à Sociedade Lisbonenses de Pesca do Bacalhau, Lda., largou de Lisboa para a pesca em 12 de Abril e foi construído em Korsoer, em 1919. O já citado Grémio está a tratar da repatriação dos náufragos, os quais se encontram de boa saúde.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 27 de Agosto de 1958)

Histórico comercial do navio

Foto do lugre "Labrador" - Imagem de autor desconhecido

Construtor: Korsoer Skibsvaerft, Korsoer, Dinamarca, 1919

Lugre “SKJOLD”, 1919-1922 – Nacionalidade: Dinamarquesa
Armador: Rederi A/S Korsoer, Korsoer, Dinamarca
Nº Oficial: -?- - Iic.: N.B.G.H. - Porto de registo: Korsoer
Arqueação: Tab 292,00 tons - Tal 262,00 tons
Dimensões: Pp 36,49 mtrs - Boca 7,28 mtrs - Pontal 3,05 mtrs
Propulsão: À vela

Lugre “LYDIA”, 1922-1935 – Nacionalidade: Sueca
Armador: John Jeppsson, Skillinge, Suécia
Nº Oficial: -?- - Iic.: K.D.T.B. - Porto de registo: Skillinge
Arqueação: Tab 295,00 tons - Tal 258,00 tons
Dimensões: Pp 37,52 mtrs - Boca 8,81 mtrs - Pontal 4,02 mtrs
Propulsão: À vela

Lugre “LABRADOR”, - 1935-1945 - Nacionalidade: Portuguesa
Armador: Soc. Lisbonense de Pesca do Bacalhau, Lda.
Nº Oficial: 499-F - Iic.: C.S.G.I - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 307,44 tons - Tal 226,09 tons
Dimensões: Ff 43,20 m - Pp 38,40 m - Boca 8,80 m - Pontal 4,08 m
Propulsão: Volund, 1935 - 1:S/Di - 2:Ci - 170 Bhp - 6 m/h
Capitães embarcados: António Simões Picado (1935 a 1942) e Joaquim Pereira da Bela (1943 a 1944) 

Lugre “LABRADOR”, 1945-1958
Armador: Soc. Lisbonense de Pesca do Bacalhau, Lda.
Nº Oficial: LX-3-N - Iic.: C.S.G.I - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 307,44 tons - Tal 226,09 tons
Dimensões: Ff 43,20 m - Pp 38,40 m - Boca 8,80 m - Pontal 4,08 m
Propulsão: Volund, 1935 - 1:S/Di - 2:Ci - 170 Bhp - 6 m/h
Capitães embarcados: António Simões Picado (1945), Manuel de Oliveira (1946 a 1949) Júlio Pereira da Bela (1950 a 1958).

O lugre “Labrador” era um navio construído em madeira, tendo sido comprado ao anterior proprietário no decorrer do ano de 1935, pela quantia de 33.500 coroas suecas. Ainda nesse mesmo ano entrou em estaleiro onde foi remodelado, adaptado para a pesca do bacalhau e simultaneamente motorizado, recebendo um motor semi-diesel da marca Volund, de 2 cilindros, com a potência de 150/170 Bhp a 300 rpm., consumindo 210 grs/cavalo/hora, que lhe assegurava uma velocidade de 6 nós. Depois destes melhoramentos, o lugre foi avaliado em escudos 550.000$00. Tinha 3 mastros, proa de beque, popa redonda e o convés com salto à ré. Navegou com equipagens que variaram entre os 40 e os 45 tripulantes e estava preparado para poder carregar até 5.199 quintais de bacalhau.