quarta-feira, 10 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXIX)


O afundamento do vapor “ Cascais “
1916 – 1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Imagem do vapor Cascais desenhado por Luís Filipe Silva

Nº Oficial: -?- - Iic.: H.C.A.S. - Porto de registo: Lisboa
Cttor: Grangemouth Dockyard, Grangemouth, Inglat. 02-1899
ex “Electra” - D.G. Neptun, Bremen, Alemanha, 1899-1916
Arqueação: Tab 834,57 tons - Tal 417,03 tons
Dimensões: Pp 60,30 mts - Boca 9,20 mts - Pontal 4,08 mts
Propulsão: Hutson & Co., 1898 - 1:Te - Veloc. 10 m/h

08/1914 - Amarrou em Lisboa
02/1916 - Requisitado para os Transportes Marítimos do Estado
10/1916 - Entregue à Furness, subcontrato com o Gov. Francês.
17.12.1916 - Afundado por canhoneamento pelo submarino alemão UC-18, sob o comando do capitão Wilhelm Kiel, à entrada do porto de La Pallice, na posição 45º53’N 01º32’W.

O torpedeamento do “Cascaes”
Um telegrama do Lloyds recebido hoje em Lisboa, confirma, infelizmente, a notícia do torpedeamento do vapor “Cascaes” por um submarino inimigo. Informações complementares, dizem que o torpedeamento se deu à entrada de um porto francês. O “Cascaes” era um navio de 850 toneladas, tendo saído do Tejo ao serviço do governo britânico em 30 de Setembro último.
Era comandado pelo capitão sr. Raul Jorge Carlos Pinto, natural da Figueira da Foz e na sua tripulação, constituída por 52 homens, figuravam Manso Chagas da Silva, de Rocio, Abrantes; João Pereira Tudela, de Ílhavo; Alexandre Rodrigues Lobato, de Rocio, Abrantes; 1º maquinista Sebastião Rodrigues, de Santarém; fogueiro-azeitador Francisco Amorim, dos Arcos de Valdevez; fogueiro Mário Nunes, de Santarém; chegadores José Lourenço, de Tábua e Bernardino António Simões, de Ferreira do Zêzere; azeitadores António Maria Russo, da Guarda, António Maria de Castelo Branco e António dos Santos, da Guarda; fogueiros Basílio Augusto Nunes, de Coimbra, António Cunha, de Vila Real, Augusto Costa, de Viseu e Américo dos Santos, da Foz do Arouce; chegadores António Carvalhinho, da Guarda, José da Costa Mário, de Coimbra e José Jorge Loureiro, de Vila Real; e o criado Agostinho da Silva, de Coimbra.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 22 de Dezembro de 1916)

A tripulação do vapor “Cascaes”
Notícias recebidas dão como salva toda a tripulação do vapor “Cascaes”., torpedeado e metido no fundo pelo inimigo, à entrada de um porto francês. O respectivo comandante é esperado chegar a Lisboa amanhã, devendo apresentar o seu relatório à comissão de transportes marítimos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 23 de Dezembro de 1916)

Entrevista com o capitão do “Cascaes”
O capitão do vapor “Cascaes”, afundado pelos alemães na costa francesa, tendo regressado com a sua tripulação, foi nesta data à capitania do porto, lavrar o respectivo protesto. Encontramo-nos com o jovem oficial, sr. Raul Jorge Pinto, momentos depois de haver cumprido essa formalidade, de quem recolhemos as seguintes declarações:
«O “Cascaes” saiu de La Pallice no dia 17 do corrente, às 7 horas e meia da manhã, com destino a Poucaut, que dista 160 milhas daquele porto. Cerca do meio-dia, navegando segundo as instruções recebidas do almirantado francês, passava próximo de Bordéus. Aproximava-se o navio das boias que se encontram a 18 milhas do porto, quando na alheta da popa, por estibordo, foi visto um submarino que navegava com grande velocidade, de forma a cortar a proa do “Cascaes”.
A primeira impressão foi de que se tratava de um submarino francês, tão próximo ele estava da costa. A dúvida, porem, desfez-se rapidamente, e, como o “Cascaes” não estava ainda armado, só havia um expediente a tomar: fugir e alcançar a costa. Era a única esperança; e, sem a menor hesitação, foi isso que se fez. O submarino, assim que deu pela manobra, abriu fogo contra o navio. A primeira granada passou-lhe a poucos metros da proa; as outras atingiram-no pela proa e na casa das máquinas.
Nesta altura foi dada ordem para que a tripulação saltasse para as baleeiras, enquanto o submarino continuava alvejando o barco. Não houve qualquer aviso e foram feitos 13 tiros. A tripulação, nas baleeiras, um pouco afastadas, assistiu ao afundamento do navio. No momento da imersão produziu-se uma explosão terrível, em consequência do resfriamento súbito da caldeira. O submarino mergulhou em seguida e, pouco depois, viu-se que ele afundava um vapor norueguês e um veleiro francês.
O submarino, que é o “U-8”, deve ter 75 metros de comprido e navegava com uma velocidade não inferior a 15 milhas. Vinha armado com dois canhões, um à popa e outro à proa, estando pintado de verde-mar.
A tripulação do “Cascaes” conservou-se nas baleeiras até às 3 da tarde, hora a que foi recolhida por uma chalupa, de cerca de 40 toneladas, que a transportou para Roian, à entrada da barra de Bordéus.
Os tiros do submarino foram feitos à distância de 10 metros, e o “Cascaes”, que se afundou de proa, deixou tremular até ao último instante a bandeira portuguesa. A tripulação foi carinhosamente recebida em Roian e alvo de todas as deferências em território francês.»
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 27 de Dezembro de 1916)

domingo, 7 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXVIII)


O afundamento da barca “ Porto “
1913 – 1918
Armador: Álvaro Gomes de Sá & Cª., Lda., Porto

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-174 - Iic.: H.K.G.B. - Porto de registo: Porto
Construtor: Archibald McMillan & Son, Dumbarton, Abril, 1885
ex “Gartmore”, Thomson, Dickie & Co., Deddington, 1885-1900
ex “Baden”, J. Wimmer & Co., Hamburgo, 1900-1913
Arqueação: Tab 1.128,26 tons - Tal 1.030,55 tons
Dimensões: Pp 70,80 mts - Boca 10,37 mts - Pontal 6,44 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 16 tripulantes
Capitães embarcados: Afonso Antero de Miranda Lemos (1913 a 1915) e José Tude de Oliveira da Velha (1915 a 1918)

Náufragos
A tripulação da barca “Porto”, da homónima praça do norte, naufragado a 600 milhas de Nova Iorque, aportou ali, tendo sido salva por um navio inglês.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 8 de Agosto de 1918)

A barca "Porto"
A barca “Porto” foi há tempos torpedeada e afundada no porto de Savannah por um submarino alemão. Esta barca era alemã e antes da requisição dos navios daquela nacionalidade, denominava-se “Baden” e, estando fundeada no rio Douro foi vendida, passando a chamar-se “Porto”. Tinha 1.035 toneladas de registo e pertencia agora à firma Álvaro Gomes de Sá & Comandita. Quando foi afundada vinha para o Porto com um carregamento de algodão.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 9 de Agosto de 1918)

O que realmente aconteceu com a barca “Porto” foi ter sido interceptada pelo submarino alemão U-140, que se encontrava sob o comando do capitão Waldemar Kophamel, quando o navio se encontrava a 550 milhas da costa americana a sul de Halifax, ou a 340 milhas na direcção do Cabo Sable. Em resultado do ataque, a barca foi mandada parar e levada a naufragar com cargas explosivas, no dia 27 de Julho de 1918, na posição 39º18’N 60º40’W. A barca “Porto” procedia do porto de Savannah, encontrando-se a navegar com um carregamento de aduela e 600 fardos de algodão, com destino ao rio Douro. A tripulação abandonou o navio nas baleeiras de bordo, sendo resgatada por um navio inglês, que a desembarcou no porto de Nova Iorque alguns dias depois, de acordo com o acima noticiado.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

História trágico-marítima (LXVII)


O afundamento do vapor “ Leça “
1916 – 1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Imagem do vapor "Leça" em Lisboa - Foto de autor desconhecido

Nº Oficial: -?- - Iic.: H.L.E.C. – Porto de registo: Lisboa
ex “Enos” - Deutsche Levante Linie, Hamburgo, 1902-1916
Construtor: Helsingor Vaerft, Elsinore, Dinamarca, 03.05.1902
Arqueação: Tab 1.911,18 tons - Tal 1.210,27 tons
Dimensões: Pp 85,60 mts - Boca 12,30 mts
Propulsão: Dinamarca, 1902 - 1:Te - Veloc. 9 m/h

Torpedeado pelo submarino UC-18, sob o comando do capitão Wilhelm Kiel, próximo a Saint Nazaire, na posição 46º57’N 02º41’W, em 14.12.1916.

A tripulação do vapor “Leça”
Segundo notícias recebidas no Ministério da Marinha, foi comunicado ter sido salva toda a tripulação do vapor “Leça”, antigo vapor alemão “Enos”, que se encontrava sob fretamento ao governo Inglês e atacado há dias por um submarino alemão.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 22 de Dezembro de 1916)

O que diz o capitão do “Leça”, acerca do ataque inimigo
Chegado com a sua tripulação a Lisboa, em pleno dia de Natal, fomos ao encontro do comandante do vapor “Leça”, capitão António Ferreira da Piedade, para que nos dissesse em que condições tinha sido afundado o navio sob o seu comando. O sr. capitão Piedade, que se apresenta ainda com a cabeça coberta de ligaduras, pois recebeu um grande ferimento a saltar para a baleeira, na ocasião do ataque do submarino, relata da seguinte forma os acontecimentos:
«O “Leça” saíra de Cardiff, carregado de carvão, com destino a Saint Nazaire. Observei rigorosamente as instruções do almirantado. Com prejuízo de tempo, alcançamos finalmente a costa francesa, dando-se o ataque, quando ele já nos parecia impossível.
A 14 do corrente encontrávamo-nos a 15 milhas do porto de destino. Subitamente o imediato chamou a nossa atenção, para qualquer coisa, que se assemelhava a uma boia. Não tivemos ilusões por muito tempo. Era um submarino, que fazia o seu aparecimento. Ao nosso lado navegava um vapor inglês, o “Glencoe”, por sinal.
O pirata, assim que surgiu, rodeou o vapor inglês, obrigando-o a parar. E, ao mesmo tempo, fez o primeiro tiro sobre nós. Era o aviso para o desembarque. Ambas as tripulações saltaram apara as baleeiras. Pouco depois disparou nove tiros sobre o “Leça” e, voltando-se para o inglês, enviou-lhe um torpedo. Como o nosso barco não tivesse submergido, disparou-lhe também um torpedo pela amura de estibordo. O encontro deu-se às 7 horas e meia da manhã e às 8 e tanto o nosso navio afundava-se completamente. Durante o ataque, dois outros submarinos pairavam a curta distancia.
Assim que presenciamos o completo afundamento do “Leça”, remamos com força, em direcção à costa, que se avistava. Depois de termos marchado algum tempo, veio ao nosso encontro o barco dos pilotos de Saint Nazaire, que tinham ouvido as detonações. Os 35 homens da tripulação do “Leça” foram imediatamente socorridos. Às 4 horas da tarde desembarcamos no porto, onde as autoridades marítimas nos dispensaram o mais cativante acolhimento. A oficialidade foi hospedada no hotel e o resto da tripulação recolhida no quartel de infantaria 147. Não se descreve a afetuosa receção que os soldados dispensaram à nossa gente. Os nossos homens, que tinham ficado sem roupas, receberam dos soldados aquilo de que careciam. E, quando deixamos a cidade, oficiais e soldados franceses acudiram à gare, fazendo-nos uma grande manifestação de simpatia.
O nome de Portugal foi aclamado entusiasticamente, e essa atmosfera de carinho compensou-nos bem do perigo que tínhamos corrido. De Saint Nazaire seguimos a Bordéus, daqui a San Sebastian e por último a Lisboa.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 26 de Dezembro de 1916)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pesca do bacalhau


O naufrágio do lugre-motor " Labrador "

Fotografia obtida pelos serviços de Defesa Aérea dos Estados Unidos, permite observar um pormenor do afundamento do lugre-motor “Labrador”, pertencente à praça de Lisboa, ocorrido em 25 de Agosto de 1958, quando o navio navegava a cerca de cem milhas do Cabo Race, na Terra Nova.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Agosto de 1958)

Nos mares da Terra Nova afundou-se o lugre “Labrador”,
salvando-se os quarenta homens da sua tripulação.
No Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, foi ontem recebido um telegrama do “Gil Eanes” comunicando que, por água aberta, se afundou nos bancos da Terra Nova o lugre-motor “Labrador” e que toda a sua tripulação composta de 40 homens, incluindo o capitão Júlio Pereira da Bela, de Ílhavo, foi salva e recolhida pelos navios bacalhoeiros que ali se encontram a pescar. O navio pertencente à Sociedade Lisbonenses de Pesca do Bacalhau, Lda., largou de Lisboa para a pesca em 12 de Abril e foi construído em Korsoer, em 1919. O já citado Grémio está a tratar da repatriação dos náufragos, os quais se encontram de boa saúde.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 27 de Agosto de 1958)

Histórico comercial do navio

Foto do lugre "Labrador" - Imagem de autor desconhecido

Construtor: Korsoer Skibsvaerft, Korsoer, Dinamarca, 1919

Lugre “SKJOLD”, 1919-1922 – Nacionalidade: Dinamarquesa
Armador: Rederi A/S Korsoer, Korsoer, Dinamarca
Nº Oficial: -?- - Iic.: N.B.G.H. - Porto de registo: Korsoer
Arqueação: Tab 292,00 tons - Tal 262,00 tons
Dimensões: Pp 36,49 mtrs - Boca 7,28 mtrs - Pontal 3,05 mtrs
Propulsão: À vela

Lugre “LYDIA”, 1922-1935 – Nacionalidade: Sueca
Armador: John Jeppsson, Skillinge, Suécia
Nº Oficial: -?- - Iic.: K.D.T.B. - Porto de registo: Skillinge
Arqueação: Tab 295,00 tons - Tal 258,00 tons
Dimensões: Pp 37,52 mtrs - Boca 8,81 mtrs - Pontal 4,02 mtrs
Propulsão: À vela

Lugre “LABRADOR”, - 1935-1945 - Nacionalidade: Portuguesa
Armador: Soc. Lisbonense de Pesca do Bacalhau, Lda.
Nº Oficial: 499-F - Iic.: C.S.G.I - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 307,44 tons - Tal 226,09 tons
Dimensões: Ff 43,20 m - Pp 38,40 m - Boca 8,80 m - Pontal 4,08 m
Propulsão: Volund, 1935 - 1:S/Di - 2:Ci - 170 Bhp - 6 m/h
Capitães embarcados: António Simões Picado (1935 a 1942) e Joaquim Pereira da Bela (1943 a 1944) 

Lugre “LABRADOR”, 1945-1958
Armador: Soc. Lisbonense de Pesca do Bacalhau, Lda.
Nº Oficial: LX-3-N - Iic.: C.S.G.I - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 307,44 tons - Tal 226,09 tons
Dimensões: Ff 43,20 m - Pp 38,40 m - Boca 8,80 m - Pontal 4,08 m
Propulsão: Volund, 1935 - 1:S/Di - 2:Ci - 170 Bhp - 6 m/h
Capitães embarcados: António Simões Picado (1945), Manuel de Oliveira (1946 a 1949) Júlio Pereira da Bela (1950 a 1958).

O lugre “Labrador” era um navio construído em madeira, tendo sido comprado ao anterior proprietário no decorrer do ano de 1935, pela quantia de 33.500 coroas suecas. Ainda nesse mesmo ano entrou em estaleiro onde foi remodelado, adaptado para a pesca do bacalhau e simultaneamente motorizado, recebendo um motor semi-diesel da marca Volund, de 2 cilindros, com a potência de 150/170 Bhp a 300 rpm., consumindo 210 grs/cavalo/hora, que lhe assegurava uma velocidade de 6 nós. Depois destes melhoramentos, o lugre foi avaliado em escudos 550.000$00. Tinha 3 mastros, proa de beque, popa redonda e o convés com salto à ré. Navegou com equipagens que variaram entre os 40 e os 45 tripulantes e estava preparado para poder carregar até 5.199 quintais de bacalhau.

sábado, 30 de março de 2013

História trágico-marítima (LXVI)


Na doca de Leixões
Um violento incêndio pôs em perigo o vapor português “Inhambane”, tendo sido empregues 25 agulhetas para dominar as chamas alterosas e ameaçadoras

O "Inhambane" à chegada ao porto de Leixões

A bordo do “Inhambane”, magnífico vapor de dez mil toneladas, que entrou, ante-ontem de manhã na doca Nº 1 de Leixões, declarou-se incendio, violento, com proporções inicialmente assustadoras. O “Inhambane” viera de Lisboa com 1.900 toneladas de nitrato de sódio e 250 toneladas de carga diversa, pertença da Companhia União Fabril, que é, também, proprietária do vapor.
Após a entrada na doca, acostando no lado sul, começaram os trabalhos de descarga. Os porões da ré foram os primeiros a ser aliviados. Quando a descarga estava bastante adiantada é que o incendio se manifestou.
Pouco passava das 13 horas. O pessoal retomava o serviço, suspenso pouco antes – foi quando o encarregado dos estivadores encontrou um saco de sódio a arder. Dado o alarme, recorreram ao extintor de bordo. Mas o fogo não cedeu. Pelo contrário – propagou-se a toda a mercadoria, e, dentro em pouco o porão Nº 5 era, igualmente, pasto de chamas. Mesmo antes de serem pedidos os socorros, compareceram no local, os Bombeiros Voluntários de Matosinhos.
O serviço de ataque ao fogo foi montado sob a direcção do Inspetor de Incêndios do Concelho de Matosinhos, sr. coronel Alberto Laura Moreira. Entretanto chegaram ao local do sinistro os corpos ativos dos Voluntários de Leixões, de S. Mamede de Infesta e de Moreira da Maia.
As chamas, crepitantes, saíam dos porões e elevavam-se a alguns metros, enquanto nuvens de fumo, compactas, subiam no espaço e – pode afirmar-se sem exagero – cobriam e escureciam o céu em Leixões e Matosinhos. Da vila e dos lugares distantes acorreu gente. Nas imediações da doca, contidas à distância pela guarda, viam-se milhares de pessoas.
O espectáculo, sinistro, trágico, chamava a atenção de todos. Aos olhos dos assistentes e até aos olhos dos bombeiros, afigurou-se tragédia de gravíssimas consequências. O fumo e o cheiro intoxicava os abnegados bombeiros, mas eles, heroicamente, obedecendo, disciplinados, ao comando do coronel Laura Moreira, com mascaras contra gás ou sem elas, combatiam, de agulheta em punho, as chamas, e desciam aos porões, resolutamente, sem medirem o perigo ameaçador que os envolvia. Se não fosse a inteligência posta à prova no ataque ao incendio e o heroísmo dos bombeiros, talvez o vapor se tivesse perdido.
Felizmente o fogo podia considerar-se extinto duas horas após o seu início, tendo ficado limitado aos dois porões, parcialmente inundados com a água das dezassete agulhetas utilizadas pelos bombeiros das quatro corporações antes referidas, duas do rebocador “Tritão”, uma do “Manolito”, e quatro de duas barcaças da Administração dos Portos do Douro e Leixões, no total de 25 agulhetas, alimentadas por uma autobomba e 12 motobombas.
Estiveram no local do incendio o presidente da Camara Municipal de Matosinhos e o Delegado Policial, srs. drs. Fernando Aroso e Sá Lima; o capitão do porto, sr. comandante João Pais e o gerente da Companhia União Fabril, nesta cidade, sr. engenheiro Manuel Domingues dos Santos. À noite começaram os trabalhos para estancamento dos porões inundados. Os prejuízos são importantes desconhecendo-se as causas que deram origem ao incêndio.
(In jornal “Comércio do Porto”, de sábado, 6 de Junho de 1942)

No blog, com data de 24 de Abril de 2009, encontra-se informação detalhada sobre este navio.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Estaleiros da Gafanha da Nazaré


Manuel Maria Bolais Mónica

Por força do tempo decorrido, quase 73 anos, lamento dizer não ter conhecido a figura do construtor naval, cuja homenagem, certamente merecida, lhe prestam os amigos e simultaneamente seus empregados. Lamento dizê-lo, também, não ter conhecido os estaleiros onde o construtor Mónica desenvolveu tão profícua actividade, ao longo de uma existência plena de sucesso. Mas, ainda cheguei a ver um ou outro cisne, ancorados no rio Douro, que a minha imaginação nessa época comparava a castelos flutuantes. A descoberta, agora, deste texto, permite-me viajar de regresso a esses locais de fantasia adolescente e a partilhá-lo no blog, com todos aqueles que, como eu, só tiveram a oportunidade de ouvir narrativas de histórias, com cheiros de maresia.

Honra – Mérito – Trabalho
A “Nau Portugal” e o seu hábil construtor

A "Nau Portugal" nos estaleiros da Gafanha
Foto da colecção de José Leite - Blog «Restos de Colecção»

Gafanha, a linda e ubérrima região que em tempos imemoriais foi banhada pelas águas do Atlântico e agora oferece, na majestosa amplidão da sua campina, um panorama cheio de luz, emoldurado pelas espelhentas águas do oceano e pela ria, onde brincam, como mariposas, mil barquinhos de velas brandas, a esvoaçar – como a descreve o rev. João Vieira Resende – é toda a região triangular tendo, pelo poente, o rio Mira e, pelo nascente, o rio Boco, afluentes da ria de Aveiro. E é, ali, que a indústria da construção naval tem uma das suas principais sedes. É, ali, que pontifica com o seu saber o considerado e conhecido construtor, sr. Manuel Maria Bolais Mónica.
A uns cinco metros apenas do local onde se efetuam estas construções – escreve, ainda, o rev. Resende – fica imediatamente o canal profundo. Sobre ele lança-se o navio impetuosamente no dia do bota-abaixo, e nestas manobras dirigidas pelo construtor Mónica, há certeza, e tem-se como princípio de que não haverá revés ou perigo de encalhe, que de algum modo ponha em cheque a manobra ou lance a perturbação no espírito dos espectadores.
O certo é que, na difícil arte da construção naval, Manuel Maria Bolais Mónica é um nome que todo o País conhece. Os navios saídos dos seus importantes estaleiros, cortam serenos as águas de todos os mares, como afirmações absolutas da técnica do seu construtor que lhes sabe imprimir, também, certo cunho de elegância, certo sentido artístico.
Seguindo as pisadas de seu pai, que desde 1889 até 1904, construiu mais de três mil toneladas, Manuel Maria Bolais Mónica mantem intacta a aureola que acompanha desde aquela data esta família de construtores navais. Desde 1916 que Manuel Maria Bolais Mónica vem construindo navios sobre navios, debaixo da sua experimentada orientação. E, servindo-nos dos dados recolhidos na interessante «Monografia da Gafanha», são já, até 1938, 7.410 toneladas saídas dos seus estaleiros.
Duma simplicidade cativante, o construtor Manuel Maria Bolais Mónica, não é o chefe que, apenas, vigia o trabalho dos seus subordinados. É, sim, o camarada amigo, acorrendo aqui e ali para ministrar os seus ensinamentos quando a dúvida surge.
Tanto a sua acção tem sido das mais notáveis no desenvolvimento da construção naval do País, contribuindo, assim, para a melhoria da economia nacional, que o Governo lhe galardoou seus méritos, em 19 de Abril de 1936. Foi na tarde do bota-abaixo do lugre “Brites” – diz o rev. Resende e assim disseram, também, os jornais do País inteiro. As músicas tocavam. Os navios embandeiravam, festivamente, em arco. E enquanto as palmas reboavam, em homenagem ao Mérito, o então Ministro do Comércio, dr. Teotónio Pereira, colocou ao peito do comovido Mónica a medalha de oiro de «Mérito Industrial e Agrícola». Justa homenagem essa prestada a quem tanto tem trabalhado para o prestígio de Portugal!
Assim, ninguém melhor do que Manuel Maria Bolais Mónica, para se encarregar da construção da “Nau Portugal” – a maravilhosa reconstituição das gloriosas naus portuguesas e que, terminada a Exposição do Mundo Português, irá a terras de além-fronteiras como embaixador extraordinário do nosso ressurgimento.
Já deslizou nas calhas do estaleiro, a imponente embarcação, serenamente já sulcou as águas do oceano, ancorando, majestosa, no Tejo. E assim se desfizeram, como as ondas de encontro à sua proa, as aleivosias de alguns derrotistas…
Manuel Maria Bolais Mónica mais uma vez – e agora de forma singular – está de parabéns. Na lista, numerosa, das embarcações saídas dos seus estaleiros, ficará a fulgir em letras de oiro, a “Nau Portugal”. Fixar, em letra de forma, o acontecimento, era, todavia, mais uma maneira de patentear ao inegável construtor toda a nossa admiração e a admiração daqueles que, aqui, o acompanham. E tanto a ideia foi imediatamente perfilhada que a ela, de início, se associaram os seus empregados, srs. Manuel Marques e Ernesto de Freitas, tendo, à cabeça, os srs. Américo de Oliveira e Américo Lopes Teixeira, o primeiro inteligente e devotado gerente comercial dos estaleiros, e o segundo, o consciencioso guarda-livros, e todos eles contribuindo com o melhor do seu saber para o progresso da casa de Manuel Maria Bolais Mónica.
É absolutamente justa esta homenagem a que o “Comércio do Porto” se associa incondicionalmente. Justa homenagem a um homem que, de tão modesta condição social e com modestos, também, conhecimentos científicos e literários, conseguiu ser, na indústria da construção naval, um dos primeiros – senão o primeiro – entre todos. (a) M.C.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 25 de Agosto de 1940)

sábado, 23 de março de 2013

“Amavida” e “Queen Isabel”


Inaugurações

"Amavida"

"Queen Isabel"

Julgo que desta vez não estarei enganado, ao dizer que o meio marítimo nesta última sexta-feira estava de perto ou longe, de olhos e ouvidos postos nas notícias das inaugurações dos dois novos brinquedos de luxo, representados no Porto pela empresa Douroazul. Porém, julgo que também não estarei equivocado, se disser que uma boa parte das pessoas presentes no cais de Gaia, para assistir à distância às respectivas cerimónias, estivessem mais interessadas em ver as atrizes Sharon Stone e Andie MacDowell, bem como o cantor Michael Bolton, do que propriamente para apreciar as novas construções.

Pormenor na ré do "Amavida"

Não tenho dúvida também, que as empresas internacionais Amawaterways e a Uniworld, que inteligentemente aderiram ao trafego de cruzeiros de luxo no Rio Douro, tem já a aposta ganha, em função da extensa agenda de reservas asseguradas para os próximos anos, num circuito turístico que engloba cinco zonas consideradas pela Unesco, como Património da Humanidade.

Detalhe lateral do "Amavida"

Convirá simultaneamente dizer, que a Douroazul através do seu administrador, sr. Mário Ferreira, muito tem contribuído para a divulgação da cidade do Porto. As excelentes programações turísticas, que a navegabilidade do rio Douro oferece, permitem perceber da sua capacidade e visão na gestão do património náutico que a empresa já tem disponível.

Pormenor da proa do "Queen Isabel"

E estão igualmente de parabéns os estaleiros da Navalria, de Aveiro, pela construção das duas novas e excelentes unidades, bem como a empresa de móveis Rodrigues, de Rebordosa, Paredes, que se esmeraram na construção do mobiliário colocado a bordo, respondendo com eficiência às exigentes necessidades de bordo.

Detalhe lateral do "Queen Isabel"

A festa, certamente vista ou televisionada por muitos foi seguramente um estrondoso sucesso, reunindo convidados nacionais e estrangeiros, ligados a indiferenciadas áreas de actividade. De lamentar apenas o custo em vista para os futuros cruzeiros fluviais, infelizmente incompatíveis para a maior parte dos nacionais, nestes tempos difíceis de crise no país.