quinta-feira, 31 de março de 2016

Leixões na rota do turismo!


A primeira escala em porto do "Astoria"





Em boa verdade, esta é a primeira visita de um velho conhecido, o navio de passageiros "Azores", que muito recentemente trocou de nome, sem que fossem visíveis outras alterações.
Chegou a Leixões procedente do porto de Avonmouth, tendo saído a meio da tarde com destino a Lisboa.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Histórias do mar português!


Vicissitudes do mar

Desenho de um patacho, sem correspondência ao texto

O patacho “Maria Camila” da praça de Lisboa, pertencente ao sr. José Maria Camilo de Mendonça navegava de Santos para Falmouth a receber ordens e com um carregamento completo de café.
No dia 8 de Dezembro, na altura da ilha das Flores e depois de 49 dias de viagem sofreu um tremendo temporal de O e ONO (Oeste e Oeste-Noroeste). A violência do vento e a fúria das ondas aterraram por tal modo a tripulação, que, julgando-se perdida, prometeu a vela de estai do convés a Nossa Senhora da Bonança, se pudesse escapar a tão medonho temporal.
Nesta ocasião o patacho deitava doze milhas por hora só com o velacho nos últimos rinzes e um punho do traquete.
Abonançando o tempo e estando já sossegada a tripulação, foi avistado um bote carregado com 17 pessoas, lutando com as ondas ainda encapeladas. Era a tripulação de uma galera inglesa que se submergira na véspera em consequência do temporal.
O sr. António Sabino Gonçalves, capitão do patacho, logo que avistou os pobres náufragos, tratou imediatamente de os salvar e recebeu-os a bordo.
Infelizmente, tornando-se os ventos ponteiros e prolongando-se a viagem, os mantimentos e aguada começaram a faltar. Quando faltaram de todo, a tripulação do patacho e a tripulação naufragada viam-se em grande apuro e cruel aflição.
Depois de vinte e dois dias de cruelíssímas privações, os últimos dos quais haviam já desesperado todos os maritímos, chegou o “Maria Camila” a Falmouth com a sua tripulação e a da galera inglesa, extenuadas de forças e quase mortas de fome e de sede.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 18 de Janeiro de 1862)

segunda-feira, 28 de março de 2016

História trágico-marítima (CLXXXVI)


O encalhe do vapor " Beiriz "

Pelas 12 horas do dia 31 de Agosto de 1933, depois de demandar a barra do Douro, seguindo rio acima com destino ao fundeadouro, devido ao nevoeiro desviou-se do canal, encalhando na areia, em frente a Sobreiras e muito próximo de terra. Para o local avançaram logo os rebocadores “Mars 2º” e o “Lusitânia”, que não chegaram a prestar serviço, pelo motivo do navio não correr perigo. No entanto os rebocadores conservaram-se por algum tempo fundeados no local na eventualidade de, ainda, se revelarem necessários.
Como depois de alguns esforços feitos com as máquinas do próprio vapor, e com muitas espias lançadas pela popa se tivesse verificado ser impossível nesse momento o seu desencalhe, tanto mais que a maré vazava, foi resolvido proceder-se ao alívio de alguma carga, utilizando-se para o efeito algumas barcaças, que ficaram atracadas à proa e à popa. O trabalho de descarga, que principiou às 14 horas, terminou próximo à preia-mar da noite. Depois deu-se início a novas tentativas para o desencalhe, sem sucesso.
Contudo não se descansou; esperou-se pela preia-mar e, às 11 horas e meia da noite, com o auxílio das máquinas do próprio navio e com espias passadas à popa, obrigaram o vapor a endireitar-se ao canal, conseguindo-se assim safar-se do banco de areia e seguir para o seu fundeadouro, no Vale da Piedade, a Massarelos, sem mais novidade. Durante a noite foi alijada muita carga do barco.
As manobras foram dirigidas pelo Sota-piloto-mor, Sr. António Matos e pelos Cabos dos pilotos Srs. Alexandre Meireles e Pereira, coadjuvados por alguns pilotos. Também prestaram serviços as lanchas motores da Corporação.
O vapor “Beiriz” procedia de Hamburgo com carga geral para o Porto e Lisboa, bem como mercadoria com destino a África, a ser transbordada em Lisboa. O navio é representado pela Sociedade Mercantil e Industrial, sita à rua Infante D. Henrique, na cidade do Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 1 de Setembro de 1933)

Imagem do vapor "Beiriz"
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Beiriz”
1932-1936
Armador: Companhia Atlântica de Navegação, Lda.
Nº Oficial: 480-F - Iic: C.S.F.I. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Wood Skinner & Co Ltd., Newcastle, Escócia, 05-1902
ex “Paris”, London & Paris S.S. Co Ltd., Swansea, 1902-1912
ex “Willy”, W.H. Berhuys Coal Trade, Amesterdão, 1912-1932
Arqueação: Tab 1.275,85 tons - Tal 739,97 tons
Dimensões: Pp 76,58 mts - Boca 9,82 mts - Pontal 5,32 mts
Propulsão: Northeast M.E., Newcastle, 1902 - 1:Te - 1.100 Nhp
Equipagem: 22 tripulantes

Vapor adquirido em 1932, foi a primeira unidade a integrar a frota da Companhia Atlântica, com o objectivo de estabelecer um serviço regular de transporte de mercadorias entre Portugal e portos do Norte da Europa, designadamente Antuérpia, Roterdão e Hamburgo.
No dia 1 de Agosto de 1932, os agentes no Porto mandaram publicar o primeiro anúncio relacionado com a viagem inaugural do vapor, entrando posteriormente em Leixões no dia 3 de Agosto. No dia seguinte, o vapor, sob o comando do capitão Sr. Brito, deixou o porto com destino a Antuérpia e Hamburgo.
Acabou vendido para demolição a A. Andrade & Cª., de Lisboa, no último trimestre de 1936.

O caso do vapor “Beiriz”
A Capitania do porto de Lisboa não recebeu qualquer comunicação
de Tenerife sobre a fuga, dali, do navio português
A Capitania do porto de Lisboa ainda não recebeu qualquer comunicação das autoridades marítimas de Tenerife sobre o caso passado com o vapor “Beiriz”, que desapareceu daquele porto sem que fossem pagas às autoridades marítimas locais as despesas regulamentares.
O vapor é propriedade da Companhia Atlântica de Navegação, Limitada, a que pertence, também, o vapor “Aviz”, que se encontra fundeado no «mar da palha», próximo à Cova da Piedade, navio onde têm sido praticados sucessivos roubos.
O “Beiriz”, devido a dificuldades financeiras da Companhia, estava entregue ao Tribunal do Comércio, por falta de pagamento de várias contas a credores. Consentiu o Tribunal que o vapor fizesse uma viagem a Las Palmas, para levar com o seu material os elementos duma companhia que apresentou várias atracções no Luna-Parque. Segundo parece, o caso tem de ser tratado pelas vias diplomáticas.
O “Beiriz” deve chegar ao Tejo durante a próxima semana.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 17 de Janeiro de 1936)

sexta-feira, 25 de março de 2016

Leixões na rota do turismo!


O regresso ao porto do navio de passageiros "Ventura"





Sequência de imagens do navio "Ventura"

Nesta escala do "Ventura" em Leixões, que teve lugar na última quinta-feira, dia 24, o navio chegou procedente de Lisboa, continuando a viagem de cruzeiro com destino ao porto de Cherbourg.

segunda-feira, 7 de março de 2016

História trágico-marítima (CLXXXV)


A explosão e afundamento do couraçado "Aquidabã"


A explosão a bordo do couraçado brasileiro “Aquidabã”,
na enseada de Jacuecanga, perto de Angra dos Reis
Rio de Janeiro, Janeiro 21 – Os cruzadores “Almirante Barroso” e “Tiradentes” e o couraçado “Aquidabã” estavam na enseada de Jacuecanga, perto de Angra dos Reis, tendo conduzido a missão de estudar o local para o porto militar e o novo Arsenal de Marinha. Esta comissão era composta por oficiais superiores da armada e o próprio ministro da marinha, Vice-almirante Noronha, estava a bordo do “Almirante Barroso”.
O “Aquidabã” servia de dormitório a muitos oficiais superiores e entre eles os almirantes Rodrigo Rocha, Cândido Brazil, Calheiros da Graça, capitão de mar-e-guerra Alves de Barros, dois capitães de corveta, capitão Santos Porto, sub-chefe da casa militar do presidente da República, Ribeiro da Silva, lente da Escola Naval, o comandante do navio, capitão-de-fragata Serra Pinto, o imediato, capitão-de-corveta Luiz de Noronha, doze 2ºs tenentes e guardas-marinhas, oito oficiais maquinistas e doze ajudantes e praticantes de máquinas, sendo de 400 homens toda a tripulação, dos quais pereceram com os oficiais acima citados 223, isto em virtude da explosão do paiol do couraçado, pelas 10 horas e meia da noite.
De bordo dos outros navios não puderam fazer mais do que a salvação dos que por milagre não foram mortos pela explosão e que andavam nadando desesperadamente, estando entre eles alguns gravemente feridos que foram recolhidos ao cabo de muitos esforços. O couraçado submergiu-se em cinco minutos. Foram ordenadas exéquias nacionais. O Brasil esta de luto e nós, portugueses, estamos com ele de alma e coração na sua dor como costumamos estar nas suas alegrias.
O “Aquidabã” foi construído em 1882 pela casa Brothers de Londres e tinha as seguintes dimensões: comprimento 250 pés (76,20 mts), boca 52 pés (15,85 mts), pontal 27 pés (8,23 mts), com deslocamento de 5.000 toneladas. Custara 345.000 libras esterlinas e foi o navio a bordo do qual Custódio de Mello comandou a insurreição no tempo do governo de Floriano Peixoto.
(In “Ilustração Portuguesa”, 29 de Janeiro de 1906)

A explosão a bordo do couraçado "Aquidabã"
(Gravura na Ilustração Portuguesa, Nº 117 de 29.1.1906)
A catástrofe do “Aquidabã”
O ilustre cônsul do Brasil no Porto tomou a iniciativa de promover um espectáculo num dos teatros da cidade, cujo produto reverterá em favor das famílias dos marinheiros que pereceram na catástrofe.
Está assente que as exéquias se verifiquem na igreja da Trindade, em 21 de Fevereiro próximo, 30º dia após a pavorosa hecatombe.
Pelo comando da 3ª divisão militar foi dirigido ao sr. dr. Alberto Conrado um ofício de condolências, em nome do sr. general Luciano Cibrão e no da divisão militar do seu comando. Os srs. comandante e oficiais do 2º grupo de artilharia 5, aquartelados na Serra do Pilar, também enviaram pêsames.
Foram recebidos no consulado ofícios de varias colectividades e estiveram ali apresentando sentimentos pela grande desgraça que enlutou o Brasil, o presidente do Centro Comercial sr. Ezequiel Vieira de Castro, cônsul do México, vice-cônsules da França, da Bélgica e da Espanha; generais srs. Luciano Cibrão e Guedes Bacelar, coronel de artilharia sr. Brandão de Melo, administrador do bairro ocidental, etc.
O ministro do Brasil em Lisboa transmitiu ao sr. dr. Alberto Conrado as informações que sobre a catástrofe recebeu do ministro do exterior, que são, em parte identicas às recebidas por telegrama, já publicadas.
- A Sociedade de Beneficência Brasileira no Porto recebeu do ministro do Brasil em Lisboa o seguinte despacho:
«Agradeço e retribuo, vivamente penhorado, os sentimentos manifestados no vosso telegrama de ontem pelo motivo da nossa grande desgraça nacional». (ass.) Alberto Fialho
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 27 de Janeiro de 1906)


A catástrofe do “Aquidabã”
Lisboa, 27 - Tem continuado a afluência de pessoas à legação e consulado do Brasil a fim de apresentar os seus pêsames.
Por comunicação oficial recebida hoje na legação, sabe-se que morreram na catástrofe do “Aquidabã”, os seguintes oficiais: 1ºs tenentes Jovino Dias e Valle Cabral; 2º tenente Moraes Silva; guardas-marinhas Celestino Cardoso, Magalhães Braga, Moraes silva, Horácio Guimarães, Óscar Suzano, Mário Noronha, Óscar Vianna, Dias Aguiar, Pereira Camargo e Arruda Câmara; sub-comissário Costa Pereira, farmacêutico Luiz Santos; maquinistas Luiz Santa Anna, Gomes da Silva, Gonzaga de Souza e Eneias Cadaval.
Feridos ou queimados e que se encontram em tratamento: médico Prudêncio Brandão; capitão-tenente Benjamim Goulart; 1ºs tenentes Luiz Belart, Raul Daltro e Guilherme Ricken; 2ºs tenentes Gonçalves Camillo e Cunha Lima; e maquinista Barbosa Sant’Anna. O único oficial que ficou ileso, tendo-se salvo a nado, foi o 2º tenente Raul Rosse.
A comissão da colónia brasileira reuniu hoje no consulado, resolvendo que a subscrição entre a colónia continue aberta até 10 de Fevereiro. As exéquias no Rio de Janeiro são no dia 21 de fevereiro.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 27 de Janeiro de 1906)

terça-feira, 1 de março de 2016

História trágico-marítima (CLXXXIV)


O torpedeamento do vapor “Lapa”

Na sequência dos ataques e afundamento dos vapores "Rio Grande", "Paraná" e "Tijuca", por submarinos alemães no decurso da Iª Grande Guerra, de acordo com os relatos previamente publicados no blog, o "Lapa" foi a quarta unidade abatida à frota mercante brasileira.

Rio de Janeiro, 27 – Foi torpedeado o vapor de carga brasileiro “Lapa”, pertencente ao Lloyd, sendo a sua tripulação composta de 31 homens, todos brasileiros. O vapor salvou-se.
O ministro dos negócios externos declarou esperar mais torpedeamentos.
A uma comissão de estudantes disse que o governo está resolvido a proceder energicamente e pediu que houvesse sossego.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 29 de Maio de 1917)

Imagem sem correspondência ao texto

Características do vapor “Lapa”
1917-1917
Armador: Companhia Lloyd Nacional, Rio de Janeiro
Construtor: Newcastle Engineering (Cole Brothers), 09.1872
ex “Tagus”, H. Bucknall & Sons, Newcastle, 1872-1890
ex “Tagus”, H. Bucknall Nephews, Newcastle, 1890-1897
ex “Tagus”, A. Gardella y Cia., Buenos Aires, 1897-1900
ex “Tagus”, S.N. Navas y Cia., Buenos Aires, 1900-1904
ex “Tagus”, Nicolas Mihanovic, Buenos Aires, 1904-1905
ex “Sparta”, C. Ortelli, Buenos Aires, 1905-1908
ex “Sparta”, Nicolas Mihanovic, Buenos Aires, 1908-1909
ex “Sparta”, Naviera Sud-Atlantica, Buenos Aires, 1909-1915
ex “Lapa”, F.A. Marcallo, Antonina, Brasil, 1915-1917
Arqueação: Tab 1.366,00 tons - Tal 805,00 tons
Dimensões: Pp 69,80 mts - Boca 9,25 mts - Pontal 7,11 mts
Propulsão: 1 motor compósito - 95 Hp
Equipagem: 31 tripulantes

Em sentido contrário à notícia acima transcrita, o vapor “Lapa” foi mandado parar e provavelmente dinamitado - as informações disponíveis não definem a forma utilizada no ataque -, na posição 35º28’N 08º03’W, i.e. a cerca de 130 milhas (240 km) a Oeste-Sudoeste de Gibraltar, pelo submarino alemão U-47, a navegar sob o comando do capitão Heinrich Metzger, no dia 22 de Maio de 1917. O navio encontrava-se no decorrer de uma viagem que teve origem em Santos, seguindo com destino a Marselha, com um carregamento de café.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXXIII)


O naufrágio da escuna “Madeleine” na barra do Douro

Um sinistro marítimo ocorrido ontem, ao princípio da tarde, na barra do Douro, em que se perdeu por completo a escuna francesa “Madeleine”, morrendo dois homens, assinalou tristemente o dia de ontem na cidade.
Foi um drama que se desenrolou à vista da população da Foz e que teve passagens pungentes, de intensa comoção e rasgos de abnegação, quando se empregaram os meios mais extremos para se salvar a vida àqueles que estavam em iminente risco, numa situação aflitiva.
A escuna “Madeleine”
A escuna francesa “Madeleine” pertence à praça de Saint Brieux, de 139 toneladas de registo, era um navio velho, mas em muito boas condições de navegabilidade.
Era a terceira visita que fazia ao rio Douro, tendo entrado pela última vez no rio no dia 11 do corrente, vinda de Swansea com um carregamento de carvão, consignada a M. de Almeida & Santos. Demorou-se algum tempo neste porto onde recebeu um carregamento de toros de pinheiro para Swansea. Além do capitão, sr. Chelveder Toutsaint, o navio tinha mais cinco homens de tripulação.
Ontem, por volta das duas horas da tarde a “Madeleine” levantou ferro e foi rio abaixo, rebocada pelo vapor “Liberal”, a fim de seguir para o seu destino.
O sinistro - Os socorros
Quando o vapor “Liberal” que rebocava a “Madeleine” passou em frente a umas pedras denominadas «Ponta do Dente», foi forçado a parar porque o cabo dado para a escuna se prendeu à cadeia da bola de marcação da barra.
Durante os esforços empregues para safar o cabo, este a certa altura rebentou, ou foi largado do “Liberal”, deixando a escuna à deriva, e daí a pouco foi seguindo rio abaixo levada pela corrente da água, indo bater violentamente nas pedras junto ao molhe do farolim da Foz.
De terra havia presenciado o que se passava o guarda civil nº.83, António Soares Pinho, de sentinela à esquadra da Foz, o qual depois de participar o sinistro ao chefe sr. Vilaça, agarrou num cabo e boia que havia no cais e, acompanhado do piloto da Foz, sr. Alexandre Cardoso Meireles correu com toda a urgência para o molhe do farolim. O mar era muito e por vezes as vagas faziam cair ali grandes massas de água, que varriam o molhe.
Os dois lutando com muita dificuldade conseguiram prender o cabo ao farolim e dali arremessaram a boia para o navio, que tinha água aberta e que, pouco a pouco, ia adernando para bombordo.
O mar, inquieto em demasia, fazia balouçar imensamente o navio encalhado, o que era um enorme exercício para os pobres náufragos, que, com muitíssima dificuldade se agarraram ao cabo, e, à maneira que se lhes proporcionava o melhor ensejo, iam subindo pelo cabo e saltavam para o molhe.
Dois dos infelizes tripulantes não se aguentaram quando tomaram o cabo e caíram ao mar, não tornando a ser vistos, morrendo afogados. O último náufrago a sair do navio foi o capitão e pode dizer-se que se não consegue retirar-se tão rápido, seria uma das vítimas, porque a escuna fortemente sacudida pelas vagas, afastou-se um pouco e começou a soçobrar, voltando-se por completo, largando desde logo bastantes toros de pinheiro, que, ao lume de água iam desaparecendo pela barra fora.
Enquanto o guarda civil nº.83 e o piloto Cardoso Meireles tratavam dos salvamentos, o chefe Vilaça com alguns agentes, prestou um importante serviço, não deixando que as numerosas pessoas que se juntaram no local avançassem para perto do farolim, evitando não só o embaraço dos socorros, como algum desastre para os imprudentes, que podiam ser apanhados pelas vagas que galgavam o molhe.
Os náufragos sobreviventes
Os náufragos sobreviventes foram levados para a Estação de Socorros a Náufragos, que fica junto da esquadra de polícia ao fundo do jardim do Passeio Alegre.
Algumas pessoas bondosas, moradoras na Foz, ofereceram roupas e reconfortantes aos quatro náufragos salvos, que são: o capitão Chelveder Toutsaint, de 35 anos; o segundo-piloto Eugène Gulin, de 38 anos; o cozinheiro Roger La Croux, de 16 anos e o criado Joseph Bornin, de 18 anos.
Os pobres homens detiveram-se ali bastante tempo, tendo sido verificado que o capitão estava ferido numa perna e num pé. Segundo informação colhida no local, este marítimo perdeu uma carteira com alguns papéis importantes e 2.200 francos em notas e uma bolsa contendo algumas moedas de ouro e prata.
A Cruz Vermelha - Remoção dos náufragos para o Porto
Na Estação de Socorros a Náufragos, à Foz, compareceu um automóvel e uma ambulância da Cruz Vermelha, com o médico dr. Ramos Pereira e mais pessoal, sendo prestados aos náufragos os cuidados de que necessitavam, nomeadamente ao capitão, que está ferido.
Depois compareceram no local os consignatários do navio, que se inteiraram do que tinha acontecido, sendo os 4 sobreviventes transportados no mesmo automóvel para o Hotel Malhão, à rua do Comércio do Porto. O capitão deitou-se imediatamente e declarou estar indisponível para receber qualquer pessoa.
Os cadáveres dos dois infelizes náufragos
Pouco tempo depois de se haver submergido a escuna “Madeleine”, o mar sempre alteroso, arrojou à praia das Pastoras os cadáveres dos dois tripulantes, que não lograram salvar-se. São eles Julien Le Beux, de 37 anos e Henri Maudin, de 19 anos.
A polícia fez conduzir os dois cadáveres ao Hospital da Misericórdia, onde o clínico de serviço verificou os óbitos, sendo depois removidos para o depósito do cemitério de Agramonte.
Notas diversas
No local do sinistro esteve o sr. Capitão do Porto e no Departamento Marítimo está sendo levantado um auto acerca deste acontecimento.
- A Guarda-fiscal estabeleceu um serviço especial na Foz, por causa dos salvados.
- Os tripulantes, além das suas roupas de uso, perderam o dinheiro que levavam.
- Foi muito elogiado o bom serviço prestado pela polícia da esquadra da Foz.
- O navio naufragado estava seguro numa companhia estrangeira.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 31 de Março de 1915)

Naufrágio - o desastre de ante-ontem
Pelo comissariado de polícia foi dado conhecimento ao juízo de instrução criminal da catástrofe marítima ocorrida ante-ontem, na barra do Douro, onde se perdeu a escuna francesa “Madeleine” e onde morreram dois tripulantes e comunicando que os cadáveres serão removidos para o necrotério do Instituto Médico-Legal, a fim de serem autopsiados.
No Departamento Marítimo do Norte estão a ser recolhidos elementos para servir de base a um inquérito, com o fim de se apurarem responsabilidades.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 1 de Abril de 1915)

Naufrágio - Valores perdidos pelo capitão da escuna “Madeleine”
O capitão Chelveder Toutsaint, da escuna francesa “Madeleine”, que naufragou no dia 30 do mês findo, à entrada da barra do rio Douro, perdeu os seguintes valores, na lamentável catástrofe:
24 libras esterlinas em notas inglesas de uma libra e «bons» da defesa nacional francesa: um de mil francos e outro de quinhentos, uma nota de vinte e duas de cinco francos do Banco Francês. Tudo fechado numa pasta cartonada, preta, amarrada com uma fita branca.
Numa bolsa de couro negro, cerca de dez francos em moedas de dois francos, mais um franco e cinquenta cêntimos; uma chave com a marca «Fichet Paris», com os números 3 e 9 ou 1 e 9.
Numa outra pequena bolsa de couro escuro uma moeda de ouro de dez shillings ingleses e cerca de dez shillings em moeda de prata inglesa e um pequeno rosário de criança.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Abril de 1915)

Ainda o naufrágio da escuna “Madeleine”
No comboio do Douro, de ante-ontem de manhã, seguiram pela Barca de Alva, para a França, o 2º piloto Eugène Gulin, o cozinheiro Roger La Croux e o criado Joseph Bornin, náufragos sobreviventes da escuna francesa “Madeleine”, que, na tarde de 30 do mês findo se perdeu à entrada da barra, como foi oportunamente noticiado. O capitão do mesmo navio, sr. Chelveder Toutsaint, ainda se demora alguns dias no Porto.
Como foi dito, por ocasião do sinistro, prestou relevantes serviços de socorro à tripulação o guarda civil nº.83, António Soares de Pinho, e ao que consta o sr. comissário geral de polícia propôs ao sr. governador civil, que ao referido agente seja concedida uma gratificação de 10$000 réis e um louvor na ordem da corporação.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 6 de Abril de 1915)