segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Leixões na rota do turismo!


A primeira escala em porto do navio "AidaMar"






Sequência de imagens do navio de passageiros "AidaMar", durante a primeira visita ao porto de Leixões. O navio chegou de manhã bem cedo, procedente de Ponta Delgada e saiu a meio da tarde para o porto da Corunha. A presente viagem de cruzeiro está prevista terminar no próximo fim de semana, em Hamburgo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXXII)


Portugal e a guerra
Escuna portuguesa “Loanda” afundada

Um submarino, que se supõe ter sido o mesmo que ontem se mostrou, por momentos, próximo do Cabo da Roca, tendo desaparecido à perseguição das nossas patrulhas, afundou, ao final da tarde, a 50 milhas do referido Cabo, a pequena escuna portuguesa “Loanda”, cuja tripulação foi recolhida por um dos barcos patrulhas.
O submarino passou para o bote, em que a tripulação foi salva, quatro tripulantes de um vapor norueguês, afundado na costa espanhola, que estavam prisioneiros a bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 15 de Julho de 1917)

Imagem da escuna "Loanda" na Figueira da Foz
Foto na Ilustração Portuguesa Nº 230 de 18 de Julho de 1910

Características da escuna “Loanda”
1907-1917
Nº Oficial: 274 - Iic: H.D.Q.V. - Porto de registo: F. da Foz
Armador: Sociedade de Pesca Africana, Figueira da Foz
Construtor: Labourer, Paimpol, 1894
ex escuna “Pierrette”, Proprietário desconhecido, 1894-1907
Arqueação: Tab 141,22 tons - Tal 134,16 tons
Dimensões: Pp 30,42 mts - Boca 7,04 mts - Pontal 3,51 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 7 tripulantes

O torpedeamento da escuna “Loanda”
O comandante da escuna “Loanda”, afundada por um submarino alemão e que saíra de Lisboa com carregamento completo de vinho, deu sobre esse acontecimento estes esclarecimentos:
A escuna saíra de Lisboa, de facto, no dia 10, navegando sem novidade até ao dia 13. Quando se encontrava, porém, a 45 milhas a noroeste do Cabo da Roca, às 11 e três quartos sentiu uma detonação. Procurando informar-se do que havia, nada viu de suspeito, só avistando a grande distância o submarino alemão depois de trepar a um dos mastros.
Mandou, por isso, arriar a baleeira, ordenando aos sete homens da tripulação que entrassem para ela. O pirata mergulhou, surgindo pouco depois a três metros da escuna. Era de grandes dimensões, talvez de mais de 1.000 toneladas e ficou tão próximo da baleeira que o redemoinho que fez a obrigou a encostar-se-lhe. O capitão obrigou o sr. Bingre a subir para o submarino com os papéis de bordo, interrogando-o através de um artilheiro, que parecia espanhol pela maneira como falava esta língua.
Quando soube que a escuna levava um carregamento de vinho, o capitão do submarino soltou uma gargalhada, por não ser talvez aquele o primeiro navio com essa carga que conseguia afundar. Depois comunicou ao sr. Manoel Bingre que ia confiar-lhe quatro tripulantes de um barco russo que afundara, sendo três noruegueses e um russo. O capitão desse navio continuou, porém, prisioneiro a bordo. Ficavam assim na baleeira 12 homens, sendo então esta rebocada pelo submarino, que foi colocar-se a uns 100 metros a bombordo da escuna, contra a qual disparou 5 tiros, com um canhão de 15 centímetros.
Como o sol lhe batesse de frente, os tiros não acertaram, pelo que o submarino foi colocar-se a estibordo, disparando mais 13 tiros. Ao décimo terceiro, a escuna adernou, entregando o comandante do pirata aos tripulantes da baleeira, além de três latas de conserva e de um pão de centeio muito escuro, a bússola do navio russo torpedeado, para se orientarem.
Ao submarino juntou-se depois um outro das mesmas dimensões, desaparecendo então ambos. Remando para terra, avistaram às 7 horas da tarde o Cabo da Roca, chegando a Cascais às 3 da manhã.
Recolhidos pelo barco dos pilotos, aguardaram durante algum tempo que passasse para o Tejo algum dos barcos patrulhas da divisão naval; mas como isso não sucedesse, entraram de novo na baleeira e vieram desembarcar no Terreiro do Paço, às 9 horas do dia 14.
O sr. Manoel Bingre contou ainda várias particularidades do caso, terminando por afirmar que está pronto para realizar outra viagem.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 17 de Julho de 1917)

A escuna “Loanda” foi mandada parar e posteriormente afundada pela artilharia do submarino alemão UC-54, no dia 13 de Julho de 1917, quando este se encontrava sob o comando do capitão Heinrich XXXVII Prinz Reuss zu Koestritz, a cerca de 45 milhas náuticas ao largo do Cabo da Roca, quando em viagem de Lisboa para França.
Quanto ao navio russo citado no texto, trata-se da escuna “Maija”, de 164 toneladas e registada no porto de Riga, afundada na véspera, ao largo da costa portuguesa, durante a viagem deste navio para Teignmouth, Inglaterra.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXXI)


Portugal e a guerra
O afundamento do vapor “Caminha” e da escuna “Três Macs”

Nota oficiosa:
Por notícias recebidas no ministério da Marinha, sabe-se que foi afundado por um submarino inimigo, próximo de Bordéus, o vapor “Caminha”, de 2.760 toneladas.
Em breves dias devem chegar a Lisboa 20 tripulantes, a bordo de um vapor francês, tendo ficado em La Rochelle o capitão e 18 marinheiros.
Houve uma vítima: o cozinheiro, de côr.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Abril de 1917)

Imagem do vapor "Caminha" em Lisboa
Foto de autor desconhecido

Características do vapor “Caminha”
1916-1917
Nº Oficial: N/s - Iic: H.C.A.M. - Porto de registo: Lisboa
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Construtor: Schiffswerft Neptun A.G., Rostock, 05.1907
ex “Minna Horn”, F. Dampfer (H.C. Horn), Lubeca, 1907-1911
ex” Euripos”, Deutsche Levante Linie, Hamburgo, 1911-1916
Arqueação: Tab 2.763,00 tons - Tal 1.747,00 tons
Dimensões: Pp 89,60 mts - Boca 13,30 mts
Propulsão: Neptun A.G., 1907 - 1:Te - 9,5 m/h
Equipagem: 40 tripulantes

O vapor “Caminha” foi afundado pela artilharia do submarino alemão UC-71, no dia 7 de Abril de 1917, sob o comando do capitão Hans Valentiner, na baía da Biscaia, i.e. 30 milhas náuticas ou cerca de 56 km a Su-sudoeste do Cabo Ferrat, posição 45º22’N 02º48’W, quando em viagem de Lisboa para Rochefort.

Nota fornecida pelo ministério da Marinha: «O capitão e tripulantes do vapor “Caminha”, torpedeado na costa francesa, estiveram no Instituto de Socorros a Náufragos, onde lhes foram fornecidos socorros em dinheiro e guias de passagem para as terras das suas naturalidades.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 17 de Abril de 1917)
.....

Escuna "Três Macs"

Nota fornecida pelo ministério da Marinha:
«O navio torpedeado na costa espanhola é a escuna “Três Macs”, que saíra de Lisboa para Gibraltar com um carregamento de petróleo. Alguns dos tripulantes já vem a caminho de Lisboa.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça. 17 de Abril de 1917)

Características da escuna-motor “Três Macs”
1904-1917
Nº Oficial: 433 - Iic: H.F.M.P. - Porto de registo: Lisboa
Armador: J.M. da Silva Teles, Lisboa
Construtor: H. Parry & Son, Ginjal, Lisboa, 1904
Arqueação: Tab 130,03 tons - Tal 101,43 tons
Dimensões: Pp 28,21 mts - Boca 5,53 mts - Pontal 2,90 mts
Equipagem: 8 tripulantes

Escuna construída em aço e equipada com um motor de 60 cavalos, integrava a frota lisboeta de pequena cabotagem. Durante um serviço a contrato da Vacuum Oil Co., para o transporte de combustível, foi lhe dada ordem para parar pelo submarino alemão U-52, que se encontrava sob o comando do capitão Hans Walther, em 14 de Abril de 1917. Acto contínuo, a tripulação do submarino meteu a escuna a pique, com explosivos, na posição 36º39’N 07º22’W.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXX)


Portugal e a guerra
O afundamento do vapor “Barreiro”

Nota oficiosa do ministério da Marinha:
«Informações recebidas no ministério da Marinha dizem que foi afundado por um submarino inimigo, nas proximidades da costa espanhola, o vapor “Barreiro”, há poucos dias saído do Tejo, com um carregamento de vinho para França. Houve uma vítima, o criado Martinho. A restante tripulação desembarcou em Espanha.»
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 3 de Maio de 1917)

O vapor "Barreiro"
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Barreiro”
1916-1917
Nº Oficial: N/s - Iic: H.B.A.R. - Porto de registo: Lisboa
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Construtor: Schiffswerft Henry Koch A.G., Lubeca, 08.1911
ex “Lubeck”, O.P.D.R., Oldemburgo, Alemanha, 1911-1916
Arqueação: Tab 1.737,96 tons - Tal 1.054,75 tons
Dimensões: Pp 84,60 mts - Boca 12,00 mts
Propulsão: Henry Koch A.G., 1911 - 1:Te - 9,5 m/h
Equipagem: 37 tripulantes
Capitão embarcado: José Gomes de Pina

Na Espanha – Náufragos portugueses
Santander, 1 – Chegaram 17 náufragos portugueses do vapor “Barreiro”, ex “Lubeck”, torpedeado no dia 29 do corrente. Três dos náufragos foram transportados para o hospital por terem sido feridos por tiros de canhão do submarino.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 3 de Maio de 1917)

Na Espanha – A guerra submarina
Santander, 2 – Os náufragos do vapor “Lubeck” declaram que o torpedeamento se deu no dia 1 do corrente há 1:30 horas da tarde.
O submarino apareceu a 50 metros do navio e fez fogo várias vezes sobre o “Lubeck”, matando um homem da tripulação, chamado Inácio Martins.
O capitão e a tripulação embarcaram e foram ao submarino, a fim de visarem os papéis de bordo. Os alemães perguntaram nessa ocasião, em português, pela carga, declarando estes que era cacau e vinhos. Os alemães transportaram para o submarino as provisões, metendo então o navio no fundo, por meio de bombas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 3 de Maio de 1917)

Vítimas de torpedeamentos
São esperados amanhã em Lisboa os náufragos do vapor “Barreiro”, torpedeado na costa norte de Espanha.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 6 de Maio de 1917)

Portugal e a guerra - Os náufragos do “Barreiro”
Chegaram esta manhã a Lisboa os náufragos do vapor “Barreiro”, torpedeado na costa espanhola, a 4 milhas de terra.
No hospital de S. Rafael, em Santander, ficaram em estado pouco satisfatório João Manoel Miranda, Herminio Agostinho e José Libório. Como se sabe, um tripulante morreu. Eram ao todo 37.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 8 de Maio de 1917)

O comandante do vapor “Barreiro”
Ao contrário do que constou, o capitão do navio ultimamente torpedeado, não ficou prisioneiro a bordo do submarino alemão. O sr. José Gomes de Pina encontra-se já em Lisboa.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 11 de Maio de 1917)

O vapor “Barreiro” foi afundado no dia 1 de Maio de 1917, de acordo com o processo descrito no texto, pelo submarino alemão UC-69, que se encontrava sob o comando do capitão Erwin Wassner, a cerca de 4 milhas náuticas de Suances, costa espanhola da Cantábria, quando o navio se encontrava em viagem de Lisboa para Rouen, França.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXIX)


O naufrágio por encalhe do iate “Adelaide 3º”

Caracteristicas do iate “Adelaide 3º”
Indisponíveis nos anos de 1935-36 nas listas nacionais. Por exclusão de partes é provável que possa tratar-se do iate “Alentejo Primeiro”, que no ano de 1935 apresentava as seguintes características:

Nº Oficial: 690 - Iic: C.S.C.Z. - Porto de registo: Faro
Armadores: J. Ramos Jr. e D. S. Nunes, Odemira, 1931-1936
Construtor: Sebastião G. Amaro, Murraceira, F. Foz, 29.06.1919
ex “Nereida”, Soc. «A Industrial», Lda., F. Foz, 1919-1924
ex “Alentejo”, Soc. Santos & Neves, F. Foz, 1924-1929
ex “Alentejo Primeiro”, Pedro L. Neves, Lisboa, 1929-1931
Arqueação: Tab 87,30 tons - Tal 45,93 tons
Dimensões: Pp 26,20 mts - Boca 6,70 mts - Pontal 2,87 mts
Propulsão: 1:Me origem EUA - 3:Ci - 6 Bhp
Equipagem: 7 tripulantes

No passado dia 25 de Janeiro, à tarde, deu-se, em Peniche, o naufrágio do iate “Adelaide 3º”, da praça da Figueira, pertencente à firma Ferreira & Cª.
Apesar do pronto socorro prestado por duas traineiras, o iate, devido ao mar forte que fazia, foi de encontro à praia de banhos, onde se tem despedaçado a pouco e pouco.
A sua tripulação, composta por 7 homens, foi salva, mas o carregamento de cimento, que transportava, foi totalmente perdido.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 15 de Fevereiro de 1936)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXVIII)


O afundamento do vapor “Cysne”

Vapor português torpedeado
A casa Glama & Marinho, da praça do Porto, recebeu notícia que o seu vapor “Cysne”, que seguira em 26 de Maio findo deste porto para Newport com um carregamento de toros de pinheiro, fôra torpedeado por um submarino alemão, entre o Cabo Finisterra e as ilhas Scilly, sendo afundado.
A equipagem composta pelo capitão sr. José Francisco Corujo e 14 tripulantes, foi salva por um navio francês que, a seu turno, a entregou no alto mar a um dos torpedeiros da flotilha francesa ali em vigilância, sendo depois desembarcada em Brest.
O “Cysne”, que era empregado na carreira entre o Porto e Lisboa, no transporte de mercadorias para África, estava seguro nas Companhias Ultramarina, Mundial e Comércio e Indústria.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 1 de Junho de 1915)

O torpedeamento do vapor “Cysne”
De Brest dizem que o capitão do vapor “Cysne” declara que a 65 milhas ao sul do cabo Newport fôra acossado por um submarino, do qual subiu a bordo um oficial falando francês, que apreendeu os víveres e algumas peças de máquina, dando ordem para em 5 minutos serem postos os botes no mar. Em seguida o navio foi metido a pique, por meio de dinamite.
Dois navios ingleses, dos quais um a vapor, foram pela mesma forma metidos a pique à vista do capitão e da sua gente, ignorando, porém, a sorte das tripulações.
De Brest dizem ainda que a tripulação do vapor “Cysne” saiu ante-ontem para o Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 2 de Junho de 1915)

Características do vapor “Cysne”
1912-1915
Nº Oficial: A-125 - Iic: H.B.F.C. - Porto de registo: Porto
Armador: Glama & Marinho, Porto
Construtor: W.H. Potter & Sons, Ltd., Liverpool, 03.06.1879
ex “Whimbrel”, Cork Steam Shipping Co. Ltd., Cork, 1879-1897
ex “Whimbrel”, Sollas & Sons Co. Ltd., Cork, 1897-1902
ex “Whimbrel”, Garston Stem Shipping Ltd., Liverpool, 1902-1912
Arqueação: Tab 623,15 tons - Tal 380,13 tons
Dimensões: Pp 55,06 mts - Boca 8,35 mts - Pontal 4,20 mts
Propulsão: 1 motor compósito
Equipagem: 15 tripulantes
Capitães embarcados: José São Marcos (1912-1913) e José Francisco Corujo (1914-1915)

Ecos da guerra
Ainda o torpedeamento do vapor “Cysne”
A este respeito, escreve em data de ontem, o correspondente do jornal em Ílhavo:
Procedentes de Brest, chegaram aqui os nossos patrícios tripulantes do vapor “Cysne”, há pouco torpedeado nas costas de Inglaterra por um submarino alemão.
Contam eles que o submarino navegava com bandeira francesa, como disfarce, só a substituindo pela alemã, quando intimaram o capitão do “Cysne” a atravessar o navio.
Nem mesmo em face dos documentos de bordo que lhes foram apresentados quiseram respeitar a nacionalidade do navio, intimando os tripulantes a abandoná-lo no prazo de cinco minutos!
Estes assim fizeram, passando todos, em número de quinze, para um bote.
Em seguida, os alemães levaram do “Cysne” tudo o que lhes convinha, mantimentos, roupas, peças das máquinas, metais, sinos de alarme, etc., acabando por meter o vapor no fundo.
Enquanto o comandante do “Cysne” parlamentava com os alemães, os portugueses conseguiram salvar algumas coisas suas e uma porção de bolacha, que passaram para o bote. Mas a precipitação era tanta, que não se lembraram da água.
Remaram, por isso, em direcção ao submarino, pedindo que lhes dessem um barril de água com que matassem a sede. Foi-lhes negada terminantemente!
À mercê andaram os pobres náufragos durante doze horas, até que avistaram uma chalupa francesa, para a qual se dirigiram. Ali foram recolhidos juntando-se a mais cerca de 40 tripulantes ingleses de dois outros vapores, que o mesmo submarino afundara naquele dia.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 12 de Junho de 1915)

Comentário e conclusão:
1. Dúvidas, nenhuma!
2. Certezas, muitas. A informação relacionada com o ataque, que culminaria com o afundamento do vapor “Cysne” respeita com rigor os métodos ultrajantes utilizados por largo número das guarnições dos submarinos alemães, no contacto com as tripulações dos navios mercantes abordados, independentemente do facto de pertencerem ou não às nações em conflito.
Neste caso existe a confirmação da ocorrência de acto de guerra, perpetrado pelo submarino alemão U-41, classificado como unidade do tipo “VII-A”, quando este se encontrava sob o comando do capitão Claus Hansen, no dia 29 de Maio de 1915.
Confirma-se igualmente a presença em local próximo ao afundamento do vapor “Cysne”, dos vapores ingleses “Dixiana” e “Glenlee”, afundados no mesmo dia, pelo mesmo submarino, conforme se aprecia corretamente referido no texto.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

História trágico-marítima (CLXXVII)


O afundamento do lugre “Douro”

A guerra submarina
Navio português metido no fundo
Lisboa, 9 - Um navio português foi torpedeado e metido no fundo na costa de Inglaterra por um submarino alemão, sabendo-se apenas que se trata de uma escuna com o nome “Douro”, desconhecendo-se por enquanto a que praça pertence. A tripulação, como foi noticiado, desembarcou em Swansea e vai ser repatriada pelo nosso consulado em Cardiff.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 10 de Abril de 1915)

O lugre “Douro”
O lugre “Douro”, que saiu de Cardiff para o Porto em 31 de Março findo, pertencia à Parceria Marítima Douro, de que é gerente o sr. José Joaquim Gouveia, e empregava-se ordinariamente na pesca do bacalhau.
Foi por mero acidente que o navio empreendera a sua última viagem, carregando em Viana do Castelo toros de pinheiro que transportou para aquele porto inglês, de onde trazia um carregamento de carvão, na importância avaliada em 3 a 4 contos de reis, consignado à casa Vareta & Comandita.
O sr. José Joaquim Gouveia recebeu até esta data, apenas dois telegramas em que era noticiado o naufrágio do navio e a salvação da tripulação desembarcada em Swansea, onde espera embarcar para voltar ao Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 11 de Abril de 1915)

Características do lugre “Douro”
Nº Oficial: A-165 - Iic: H.F.M.G. - Porto de registo: Porto
Armador: Parceria Marítima “Douro”, Porto
Construtor: António Dias dos Santos, Fão, 10.10.1911
Arqueação: Tab 248,08 tons - Tal 168,13 tons
Dimensões: Pp 37,70 mts - Boca 8,55 mts - Pontal 3,68 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 9 tripulantes
Capitães embarcados: Vitorino Fernandes Mano (1912), António Gonçalves Vilão (1913 e 1914) e José São Marcos (1915)

O lugre “Douro
Conta, na sua linguagem pitoresca, o capitão do lugre
“Douro” como o navio foi torpedeado pelos alemães.
Uma noite tormentosa sobre as águas do canal de Bristol
O capitão São Marcos
O lugre “Douro”, que foi ao fundo no canal de Bristol, torpedeado por um submarino alemão, era um navio pequeno, português, navegando sobre as vagas alterosas do mar…
Um torpedo traiçoeiro atingiu-o no seu costado e em pouco tempo a frágil embarcação submergia-se, salvando-se a custo a sua tripulação.
Os nossos corações estremeceram com esse sentimento de solidariedade que une todos os filhos da mesma pátria, habituados à mesma doce língua, a embriagarem os olhos com o mesmo sol e a beleza do mesmo céu azul.
Era um sentimento de receio, de piedade, de horror por esses portugueses perdidos ao longe, no meio das vagas, pensando talvez na aldeia florida, na velhinha que os espera, desfiando pelos seus dedos trémulos o rosário de contas grossas.
Pois ontem, tivemos uma agradável surpresa. Entra-nos, no momento febril desta lufa-lufa de jornal, desta viva grilheta de todas as horas, pela redação dentro, o sr. José São Marcos, capitão do lugre “Douro”, do navio português torpedeado. Figura simpática, de fisionomia bronzeada de homem que nasceu embalado ao ritmo suave e cadente das ondas, o capitão São Marcos conta-nos, na sua linguagem pitoresca de marítimo, que por vezes tem o som gutural do grito rouco das gaivotas, a sua odisseia, que escutamos enternecidos.

O lugre “Douro” - Como foi torpedeado
Foi no dia 3 de Abril à saída do canal de Bristol, pelas 3 horas da tarde, que o lugre “Douro” foi torpedeado por um submarino alemão. Vinham navegando com um carregamento completo de carvão de pedra, com destino para o Porto. A viagem era feita com bom tempo. Pedaços de azul apareciam por vezes, de entre os rasgões das nuvens. Um vento fresco fazia inchar as velas pardas. E as vagas embalavam docemente o navio, esbelto nas suas linhas de ave, correndo sobre a superfície espelhada do mar.
Súbito, quando o navio navegava pela latitude 50º51’ norte e longitude 6º34’ oeste, a gente de bordo ouviu uma forte explosão, seguida de um choque violento por bombordo, acompanhado por um enorme jacto de água. O primeiro momento foi de pasmo. Todos ficaram suspensos, interrogando-se ansiosamente. O capitão compreendera imediatamente que o navio fôra torpedeado. Ainda chegou a ver o dorso negro do monstro submarino que se afastava lentamente, fazendo espadanar a água com a sua hélice.
Fôra um momento angustioso aquele diz-nos o capitão São Marcos. Não havia um minuto a perder. A tripulação foi posta às bombas, procurando extinguir a água que entrava valentemente por um rombo feito a bombordo abaixo da marca do seguro. Duas tábuas tinham sido arrancadas pelo efeito da explosão. Durante uma hora fizeram esforços sobre-humanos.
Na imensidade do horizonte nenhum navio se via que pudesse socorrê-los. Era a morte diante dos olhos, naquelas vagas que momentos antes embalavam docemente com brandas carícias o costado do navio agora ferido como uma ave que o tiro de um caçador detém no seu voo rápido.
Quem lhes acudiria? Quem se importaria ali da sua mesquinha situação e da prece que os seus lábios elevavam para o azul luminoso do céu?

O abandono do navio - Horas de angústia
Vendo que não podia salvar o navio, o capitão ordenou então à tripulação, uns 9 homens, que o abandonassem, saltando para uma balieira de bordo.
Assim o fizeram, não sem que o último olhar fosse para o barco que no meio das águas desaparecia lentamente, tendo a tremular no topo do mastro grande a bandeira que parecia despedir-se deles, dizer-lhes ainda adeus! Içaram então a vela cerca das 5 horas da tarde do mesmo dia, seguindo derrota como o rumo este-nordeste, navegando à mercê do mar e do vento, enquanto eles alongavam pelo mar a vista na esperança de descobrirem ao longe o fumo de um vapor, a vela de um navio que representasse a salvação. Às 9 horas da noite avistaram enfim um vapor.
- Como o coração, diz-nos, ainda com a voz tremula o capitão do lugre “Douro”, se alvoroçou de contentamento, enquanto as suas mãos se erguiam fazendo sinais de socorro! O vapor, porém, afastou-se e eles voltaram a sentir a angústia atroz do isolamento, ali sozinhos, sobre as ondas do mar imenso, soturno, vendo fugir-lhes a esperança de salvação com a noite que se aproximava.

O salvamento – Até Swansea
A volta para a Pátria
Continuaram assim sob a chuva e cerração que caíra sobre o mar, molhados, cheios de fome e frio, quase mortos de fadiga, até que às 3 horas do outro dia avistaram a barca “Helwich”, que os recolheu, passando-os depois para o vapor “Tudval”, que os transportou para Swansea, onde chegaram às 10 horas da noite do dia 4. Estavam salvos! O contentamento daquela pobre gente!
E o capitão José São Marcos, estendendo-nos a sua larga mão de homem do mar, despediu-se referindo-nos a viagem de volta dos seus marinheiros na barca “Felisbela” e a sua a bordo do vapor norueguês “Naagall”, para este porto onde, chegou ontem.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 24 de Abril de 1915)

Comentário e conclusão:
1. Certezas - Infelizmente poucas porque não se entende a explicação do capitão São Marcos relativamente ao ataque do submarino, face ao conhecimento da forma utilizada pelos alemães para afundarem os navios construídos em madeira.
A realidade permite colocar na área do afundamento do navio o submarino UC-24, mas no diário de bordo do submersível, correspondente à data em questão, não consta qualquer referência ao ataque.
Não se percebe também qual seria o motivo que levaria os oficiais do submarino a não identificar o lugre português, recolher os documentos do navio e o manifesto de carga, já que na ocasião Portugal não era um dos países beligerantes, ainda que isso possa ser considerado irrelevante, como ficaria comprovado em data próxima com o ataque e afundamento do vapor “Cysne”.
2. Dúvidas - Com efeito, algumas! Passo a citar: «a gente de bordo ouviu uma forte explosão, seguida de um choque violento por bombordo, acompanhado por um enorme jacto de água.» e «O capitão compreendera imediatamente que o navio fôra torpedeado. Ainda chegou a ver o dorso negro do monstro submarino que se afastava lentamente, fazendo espadanar a água com a sua hélice.»
Porque o lugre "Douro" foi o primeiro caso de eventual agressão militar a um navio português na Iª Grande Guerra, o capitão São Marcos não devia imaginar duas circunstâncias fundamentais; primeiro, os alemães não utilizavam torpedos para afundar navios com cascos de madeira, porque os guardavam para navios maiores e mais resistentes e segundo, o efeito da detonação de um torpedo num casco de madeira teria deixado o lugre de tal forma depauperado, que inevitavelmente causaria vitimas, senão mesmo de toda a tripulação, caso a sorte ou o acaso não viesse a permitir a possibilidade do recurso à balieira, que foi usada para o salvamento após o naufrágio.
Depois há ainda a confirmação de ter sido visto o submarino afastando-se lentamente, a espadanar a água com a sua hélice. Esta é outra circunstância pouco plausível porque, volto a citar: «A viagem era feita com bom tempo.»
Apesar das explicações dadas pelo capitão José São Marcos, que se apresentam fora de contexto, poderia ainda supor que o lugre “Douro” pudesse ter sido canhoneado e atingido por uma ou outra granada, porque o dano verificado a bordo consistia, e cito novamente: «Duas tábuas tinham sido arrancadas pelo efeito da explosão.», mas também nesta situação revela-se improvável a tripulação do lugre não se ter apercebido dos disparos, desde o contacto inicial para, como era hábito, ficaram sujeitos à imediata paralisação do navio.
Todas estas indicações analisadas decorridos mais de 100 anos sobre o afundamento do lugre “Douro”, muito provavelmente em completa contradição ao protesto de mar apresentado pelo capitão São Marcos, devidamente avalisado pela tripulação, dão-lhe o direito de veracidade perante a lei, mas simultaneamente abrem uma janela de oportunidade para a ocultação dos factos, omitindo a realidade e confundindo o grande valor histórico da presença portuguesa no mar, nesse período.