sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A barca "Bella Vista"


Ocorrência marítima

Estava dando sérios cuidados a demora desta barca, saída de Nova Orleães há 74 dias, com um carregamento de aduela e ferro para a firma B. Vareta & Santos, Limitada.
A barca pertence ao armador sr. Joaquim Eduardo Milhomens (a), da praça de Lisboa, e é seu capitão o sr. Manoel José Peres Ramos.
Ontem, pelas 7 horas da manhã, a “Bella Vista” apareceu a descoberto do porto de Leixões, a reboque do vapor grego “Panaghi Vagliano” (b), que a encontrou ante-ontem, às 2 horas e trinta minutos da tarde, na latitude 40º47’30”N, longitude 8º55’W, com avaria na mastreação, velame e aparelho respectivo, devido ao temporal que apanhou.
O mar destruiu-lhe ainda parte da borda falsa, tanto do lado de bombordo como de estibordo, correndo a barca grande perigo, por se encontrar próximo do costa e o estado do tempo não permitir, com facilidade, a reparação das avarias recebidas no massame.
O capitão pediu então reboque ao “Panaghi Vagliano”, o qual às 5 e 20 p.m., passou um cabo à barca, a 30 milhas a sudoeste de Leixões, rebocando-a até à entrada deste porto.
Para dentro da bacia foi depois a “Bella Vista” rebocada pelo rebocador “Mondego”.
O “Panaghi Vagliano” entrou depois no referido porto. É de 1.878 toneladas de registo e vem de Rosário (Republica Argentina), em 30 dias, com um importante carregamento de trigo para diversas casas da praça do Porto e consignado à firma Kendall, Pinto Basto & Cª.
A barca “Bella Vista” aguarda a melhor ocasião de entrar a barra da Foz para fundear no rio Douro.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

(a) No Lloyd's Register of Shipping é considerado como armador deste navio a Companhia de Navegação de Portugal, Lda. Por sua vez na lista de navios mercantes portugueses aparece o nome de Francisco Silvério da Silva, todos de Lisboa. Levantada a dúvida e sem melhor opinião, parte-se do princípio que ambas as pessoas mencionadas individualmente, possam ter sido sócios da referida Companhia. 

(b) O vapor “Panaghi Vagliano” foi um navio construído por R. Cruggs & Sons, Ltd., em Middlesbrough, Inglaterra, em Julho de 1904, sendo propriedade de A.S. Vagliano. Estava registado no porto de Argostoli, Grécia, tinha 2.979 toneladas de arqueação bruta e 1.878 toneladas de arqueação liquida, com 101 metros de comprimento.

Desenho de uma barca sem referência ao texto

Características da barca “Bella Vista”
Armador: Francisco Silvério da Silva, Lisboa
Nº Oficial: 404-C - Iic: H.D.F.G. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: G. Olsen, Lillesand, Noruega, 1895
ex "Guldregn", Henriksen Hansen, Lillesand, Noruega
Arqueação: Tab 550,15 tons - Tal 522,64 tons
Dimensões: Pp 44,60 mts - Boca 9,66 mts - Pontal 4,70 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 15 tripulantes

Muito embora o naufrágio deste navio não conste na página oficial de sinistros publicada na lista de navios mercantes portugueses, existe a indicação da barca ter desmastreado em pleno Atlântico, no dia 2 de Abril de 1924, eventualmente por motivo de forte temporal. A tripulação abandonou o navio, em mais de um escaler, porque apenas sete tripulantes foram resgatados e salvos pelo navio “Starlight” (c), no dia 5 de Abril, sendo desconhecido o paradeiro dos oito restantes.

(c) O vapor “Starlight” foi um navio construído por Irvine & Co., Ltd., em West Hartlepool, Inglaterra, em Abril de 1902, sendo propriedade da firma Regier Shipping Co., Ltd. Estava registado no porto de Leith, Inglaterra, tinha 2.944 toneladas de arqueação bruta e 1.891 toneladas de arqueação liquida, com 96 metros de comprimento.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

História trágico-marítima (CLXXIII)


O ataque e afundamento da barca "Emília"

Correu ontem na cidade que nas alturas das Canárias tinha sido torpedeada, por um submarino alemão, uma barca portuguesa, da praça do Porto, tendo-se salvo a tripulação.
Tratando de indagar se realmente se dera o torpedeamento da barca em questão, soube-se pelos seus proprietários, os srs. Francisco Estevão Soares & Cª., estabelecidos na alameda de Massarelos, o seguinte:
A barca que tem o nome de “Emília” saiu do Douro no dia 10 do corrente para Nova Orleães, com escala por Las Palmas (Canárias). Levava um carregamento importante de madeira e lastro, sendo o seu capitão o sr. João Francisco dos Santos e compondo-se a sua tripulação de 16 homens.
Por um telegrama que os seus proprietários receberam, souberam então que a barca “Emília” havia sido torpedeada por um submarino alemão nas alturas de Las Palmas, a dez milhas desta povoação, salvando-se toda a tripulação nos escaleres de bordo, e sendo entregues ao cônsul português ali.
O capitão do submarino tomou conta de todos os papéis de bordo, metendo em seguida a barca no fundo.
O submarino alemão tinha 25 metros (a) de comprido, não podendo a tripulação descobrir-lhe o número. Os alemães retiraram também de bordo muitas provisões.
A barca “Emília” recebeu 25 tiros de peça, afundando-se de seguida. Os tripulantes portugueses foram transferidos para o cruzador espanhol “Princesa das Astúrias”, onde lhes forneceram comida e vestuário, sendo dali entregues ao cônsul português em Las Palmas.
A barca “Emília” está segura na Companhia Atlântica, do Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

A barca "Emília" na Ilustração Portuguesa
Imagem de autor não identificado

Características da barca “Emília”
Lisboa 18?? a 1912 - Porto 1912 a 1916
Armador: Francisco Estevão Soares & Cª., Porto
Nº Oficial: 388-C - Iic: H.C.D.P. - Porto de registo: Porto
Construtor: R. Duncan, Co., Port Glasgow, Escócia, 1869
ex “Otago”, O. Banck, Helsingborg, Suécia, 1869-18??
ex “Emília”, Francisco Estevão Soares, Lisboa, 18??-1911
Arqueação: Tab 1.041,35 tons - 937,08 tons
Dimensões: Pp 62,60 mtrs - Boca 10,50 mtrs - Pontal 6,16 mtrs
Propulsão: À vela
Equipagem: 16 tripulantes
Capitães do navio: Francisco dos Santos Lé (1912) e João Francisco dos Santos (1913 a 1916)

Navio português afundado
Las Palmas, 17 – Acaba de chegar aqui toda a tripulação do navio de vela português “Emília”, composta de 16 homens. O navio foi torpedeado esta manhã por um submarino alemão, a dez milhas de Las Palmas e vinha aqui carregar madeira. Las Palmas, 18 - A tripulação do navio de vela português “Emília” diz que o submarino concedeu alguns minutos para salvamento dos marinheiros. O submersível tinha 25 metros de comprimento, mas desconhecem o número. Os alemães retiraram de bordo numerosas provisões. A “Emília” recebeu 25 tiros de peça. Os marinheiros portugueses foram transferidos para o cruzador “Princesa das Astúrias”, onde lhes forneceram comida e vestuário.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916

(a) O submarino responsável pelo ataque e respectivo afundamento, no dia 17 de Novembro de 1916, foi o UC-20, que se encontrava sob o comando do capitão Franz Becker (embarcado neste submarino de 08.09.1916 até 08.05.1917). Os submarinos da classe UC-II, na qual estava integrado o UC-20, tinham um deslocamento de 545 toneladas, 49,35 metros de comprimento fora a fora e podiam navegar a 7 nós por hora quando em imersão ou 11,6 nós à superfície. A guarnição do submersível era composta por 26 tripulantes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

História trágico-marítima (CLXXII)


O incêndio a bordo do vapor "Gaza", em Lisboa

Cerca das 4 horas da tarde rebentou um violento incêndio a bordo do vapor “Gaza”, que se encontrava fundeado em frente do posto marítimo de desinfecção, carregado de gasolina e água-raz, destinadas a França.
O “Gaza” havia chegado no dia 4 ao Tejo com carga diversa, que descarregou rapidamente para meter nova carga.
O fogo manifestou-se no porão da ré, desenvolvendo-se com grande violência. Acudiram vários rebocadores e material dos incêndios, sendo necessário rebocar o “Gaza” para a Cova da piedade, onde ficou fundeado.
(In jornal ”Comércio do Porto”, sexta, 30 de Novembro de 1917)

Imagem do incêndio a bordo do vapor "Gaza"

Características do vapor “Gaza”
1916-1925
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Nº Oficial: ? - Iic.: H.G.A.Z. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Schiffswerft Neptun, Rostock, Alemanha, 03.1914
ex “Hof”, Deutsche-Australische D.G., Hamburgo, 1914-1916
Arqueação: Tab 6.036,87 tons - Tal 3.802,37 tons
Dimensões: Pp 122,00 mts - Boca 16,51 mts - Pontal 7,92 mts
Propulsão: Neptun A.G., 1914 - 1:Te - 3.250 Ihp - 12,5 m/h
Vendido à Sociedade Geral em 1925. Manteve o mesmo nome

Incêndio a bordo
Por imprevidência de um carregador, que entrou com um fósforo aceso num dos porões onde se armazenava água-raz e outros produtos de fácil explosão, houve a bordo do vapor “Gaza”, surto no Tejo, um valente incêndio que, só a muito custo, conseguira ser dominado.
O vapor estava recebendo carga composta de água-raz, óleo de palma, cacau e conservas com destino a França. Felizmente, devido à perícia e energia dos bombeiros e outras pessoas que acudiram, os prejuízos não foram de grande monta.
(In “Ilustração Portuguesa”, segunda,10 de Dezembro de 1917)

O incêndio a bordo do “Gaza”
São muito importantes os prejuízos causados pelo incêndio ocorrido a bordo do vapor “Gaza”. Os estragos materiais sofridos pelo vapor exigem um fabrico que demora pelo menos 30 dias.
Consta que as Companhias seguradoras das mercadorias embarcadas e deterioradas pelo fogo recusam-se a pagar a correspondente indemnização, alegando que a carga do navio não estava nas devidas condições, sendo o Estado o responsável pelos prejuízos sofridos.
No porão onde principiou o incêndio, segundo todas as indicações obtidas, apontam no sentido do vapor ter a bordo 1.000 caixas de gasolina, por cima das quais se encontravam outras mercadorias.
(In jornal ”Comércio do Porto”, terça, 4 de Dezembro de 1917)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Veleiro "Eendracht"


Escala do navio em Leixões

Muito sinceramente não esperava ter tido a oportunidade de ver de perto e tão cedo o "Eendracht", pela curiosidade despertada através de filmagens realizadas durante o encontro de grandes veleiros, que decorreram recentemente em Amsterdão.


Tenho ideia de ter visto referenciado este navio construído em 1989 como escuna, que julgo não seja, muito embora veleiros do tipo lugre, que até muito bem pode ser um hibrido, a ser classificado dessa forma. Em qualquer dos casos é irrelevante, porque basicamente é um barco com formas elegantes e bem preparado para grandes viagens.


Já está em porto faz alguns dias. Chegou procedente de Brest e faz-me acreditar que espera melhoria nas condições de tempo para sul, pois deverá seguir viagem com destino a Las Palmas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXXI)


O ataque e afundamento do vapor “S. Nicolau”

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão nacional.

O vapor “S. Nicolau”
Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.
A tripulação deste navio era assim constituída:
Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo
(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

Características do vapor “S. Nicolau”
1916-1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905
ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916
Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons
Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h
Equipagem: 37 tripulantes

Os náufragos do “S. Nicolau”
No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:
Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

Os sobreviventes do “S. Nicolau”
O que diz o capitão sobre o naufrágio
A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.
Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.
Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:
«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.
Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.
Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.
Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.
A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.
O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.
Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.
Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.
Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.
Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.
Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.
O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.
Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W. A segunda baleeira relatada nas notícias, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Leixões na rota do turismo!


Escalas de navios em porto durante o mês de Outubro

No dia 2, navio de passageiros "Corinthian"
Chegou procedente de Lisboa, saiu para Barcelona

No dia 8, navio de passageiros "Seven Seas Voyager"
Chegou proveniente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 13, navio de passageiros "Braemar"
Chegou procedente de Southampton, saiu para Malaga
Fotografia de José Modesto

No dia 26, navio de passageiros "Hanseatic"
Chegou proveniente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 28, navio de passageiros "Ventura"
Chegou procedente de Lisboa, seguiu viagem para o Havre

E também no dia 28, o navio de passageiros "Boudicca"
Chegou proveniente do Funchal, saiu com destino a Newcastle
Fotografia do Arqtº Fernando Paiva Leal

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXX)


O vapor português “Cunene” abalroou no Mar do
Norte com o vapor inglês “Effra” que se afundou

Segundo informação chegada de Londres, quando o vapor de carga português “Cunene”, da Companhia União Fabril, se dirigia de Roterdão para Rosthshield, onde ia receber beneficiações nas caldeiras e aparelhar com fornalhas novas, devido ao intenso nevoeiro abalroou, a duas milhas a noroeste de Flamborough Head, com o navio inglês “Effra”.


Foto do navio "Cunene" da Sociedade Geral
Imagem da Photoship.Uk

Características do vapor “Cunene”
1924-1954
Armador: Sociedade Geral, Sarl., Lisboa
Nº Oficial: N/s - Iic: M.D.K.F. – Porto de registo: Lisboa, 1927
Construtor: Flensburger Schiffsbau, Flensburg, Alemanha, 1911
ex “Adelaide” - Deutsche Australische, Hamburgo, 1911/1916
ex “Cunene” - Transportes Marítimos Estado, Lisboa, 1916/1924
Arqueação: Tab 5.875,28 tons - Tal 3.688,34 tons - Pm 9.800 tons
Dimensões: Pp 137,13 mts - Boca 17,69 mts - Pontal 8,19 mts
Propulsão: Flensburger, 1911 - 1:Te - 4.000 Ihp - Veloc. 10,5 m/h
Equipagem: 45 tripulantes
Vendido para demolição à empresa Clayton & Davie, de Dunston, Inglaterra, em 31.12.1954.

Foto do navio inglês "Effra"
Imagem da Photoship.Uk

Características do vapor inglês “Effra”
1915-1936-1941
Armador: South Metropolitan Gas Co., Ltd., Londres, 1915
Nº Oficial: N/s - Iic: M.D.K.F. – Porto de registo: Londres
Construtor: Greenock & Grangemouth Dockyard, Co., 09-1910
ex “Broompark” - J. & J. Denholm Ltd, Glasgow, 1910-1915
Arqueação: Tab 1.446,00 tons - Tal 847,00 tons
Dimensões: Pp 74,27 mts - Boca 11,33 mts - Pontal 5,01 mts
Propulsão: Dunsmuir & Jackson - 1:Te - 3:Ci - 132 Nhp - 9 m/h

Com a violência do choque o “Effra” ficou completamente arrombado, pelo que teve de ser abandonado pela tripulação, que foi recolhida a bordo do “Cunene”.
Pelo posto de T.S.F. do navio português, soube-se da ocorrência ficando assim avisados todos os navios que singrem naquelas paragens do perigo que constitui para a navegação o casco semi-submerso do “Effra”. (a)
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Janeiro de 1936)

(a) Apesar de estar referido no texto que o navio naufragou, a informação sobre o casco ter ficado semi-submerso, permite-nos aquilatar a possibilidade do vapor ter sido recuperado, tendo posteriormente regressado ao serviço comercial. Nessa conformidade, o navio perde-se ao ser atacado por uma lancha canhoneira alemã na posição 54º44’N 01º58’E, em 17 de Abril de 1941, quando em viagem do rio Tyne (Newcastle) para Londres, carregado com carvão.