quinta-feira, 29 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXXI)


O ataque e afundamento do vapor “S. Nicolau”

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão nacional.

O vapor “S. Nicolau”
Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.
A tripulação deste navio era assim constituída:
Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo
(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

Características do vapor “S. Nicolau”
1916-1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905
ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916
Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons
Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h
Equipagem: 37 tripulantes

Os náufragos do “S. Nicolau”
No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:
Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

Os sobreviventes do “S. Nicolau”
O que diz o capitão sobre o naufrágio
A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.
Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.
Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:
«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.
Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.
Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.
Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.
A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.
O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.
Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.
Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.
Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.
Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.
Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.
O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.
Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W. A segunda baleeira relatada nas notícias, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Leixões na rota do turismo!


Escalas de navios em porto durante o mês de Outubro

No dia 2, navio de passageiros "Corinthian"
Chegou procedente de Lisboa, saiu para Barcelona

No dia 8, navio de passageiros "Seven Seas Voyager"
Chegou proveniente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 13, navio de passageiros "Braemar"
Chegou procedente de Southampton, saiu para Malaga
Fotografia de José Modesto

No dia 26, navio de passageiros "Hanseatic"
Chegou proveniente da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 28, navio de passageiros "Ventura"
Chegou procedente de Lisboa, seguiu viagem para o Havre

E também no dia 28, o navio de passageiros "Boudicca"
Chegou proveniente do Funchal, saiu com destino a Newcastle
Fotografia do Arqtº Fernando Paiva Leal

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXX)


O vapor português “Cunene” abalroou no Mar do
Norte com o vapor inglês “Effra” que se afundou

Segundo informação chegada de Londres, quando o vapor de carga português “Cunene”, da Companhia União Fabril, se dirigia de Roterdão para Rosthshield, onde ia receber beneficiações nas caldeiras e aparelhar com fornalhas novas, devido ao intenso nevoeiro abalroou, a duas milhas a noroeste de Flamborough Head, com o navio inglês “Effra”.


Foto do navio "Cunene" da Sociedade Geral
Imagem da Photoship.Uk

Características do vapor “Cunene”
1924-1954
Armador: Sociedade Geral, Sarl., Lisboa
Nº Oficial: N/s - Iic: M.D.K.F. – Porto de registo: Lisboa, 1927
Construtor: Flensburger Schiffsbau, Flensburg, Alemanha, 1911
ex “Adelaide” - Deutsche Australische, Hamburgo, 1911/1916
ex “Cunene” - Transportes Marítimos Estado, Lisboa, 1916/1924
Arqueação: Tab 5.875,28 tons - Tal 3.688,34 tons - Pm 9.800 tons
Dimensões: Pp 137,13 mts - Boca 17,69 mts - Pontal 8,19 mts
Propulsão: Flensburger, 1911 - 1:Te - 4.000 Ihp - Veloc. 10,5 m/h
Equipagem: 45 tripulantes
Vendido para demolição à empresa Clayton & Davie, de Dunston, Inglaterra, em 31.12.1954.

Foto do navio inglês "Effra"
Imagem da Photoship.Uk

Características do vapor inglês “Effra”
1915-1936-1941
Armador: South Metropolitan Gas Co., Ltd., Londres, 1915
Nº Oficial: N/s - Iic: M.D.K.F. – Porto de registo: Londres
Construtor: Greenock & Grangemouth Dockyard, Co., 09-1910
ex “Broompark” - J. & J. Denholm Ltd, Glasgow, 1910-1915
Arqueação: Tab 1.446,00 tons - Tal 847,00 tons
Dimensões: Pp 74,27 mts - Boca 11,33 mts - Pontal 5,01 mts
Propulsão: Dunsmuir & Jackson - 1:Te - 3:Ci - 132 Nhp - 9 m/h

Com a violência do choque o “Effra” ficou completamente arrombado, pelo que teve de ser abandonado pela tripulação, que foi recolhida a bordo do “Cunene”.
Pelo posto de T.S.F. do navio português, soube-se da ocorrência ficando assim avisados todos os navios que singrem naquelas paragens do perigo que constitui para a navegação o casco semi-submerso do “Effra”. (a)
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Janeiro de 1936)

(a) Apesar de estar referido no texto que o navio naufragou, a informação sobre o casco ter ficado semi-submerso, permite-nos aquilatar a possibilidade do vapor ter sido recuperado, tendo posteriormente regressado ao serviço comercial. Nessa conformidade, o navio perde-se ao ser atacado por uma lancha canhoneira alemã na posição 54º44’N 01º58’E, em 17 de Abril de 1941, quando em viagem do rio Tyne (Newcastle) para Londres, carregado com carvão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXIX)


O naufrágio do caíque S. João

Tripulantes salvos – Os náufragos vem para Leixões
Pouco antes das 10 horas da manhã, de ontem, entrou no porto de Leixões o vapor de pesca francês “Stella 2.º”, conduzindo cinco tripulantes do caíque português “S. João” que, tendo apanhado forte temporal, naufragara ante-ontem a 20 milhas do Cabo Mondego, sendo toda a tripulação salva pelo navio francês.
O caíque “S. João”, que se afundou, por ter água aberta, seguia de S. Martinho do Porto, com um carregamento de fruta para o Algarve, a cuja praça pertence.
O “Stella 2.º” veio de propósito a Leixões deixar os náufragos, que deverão seguir para o Algarve.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 7 de Outubro de 1920)

Não foram encontrados detalhes deste navio, além das informações que se apreciam referidas nos textos das notícias.

Um naufrágio – Para o hospital
Foi ontem transportado para o hospital da Misericórdia, onde ficou em tratamento na enfermaria n.º 3, o marítimo José Lopes Casaca, de 43 anos, casado, natural de Olhão, que num naufrágio, além de ficar contuso pelo corpo, fôra vitima de congestão.
Este marítimo é o proprietário e mestre do caíque português “S. João”, que naufragou, na terça-feira última, a 20 milhas do Cabo Mondego, devido ao forte temporal que apanhara.
Como foi previamente dito, os náufragos, em número de cinco, foram salvos pelo vapor de pesca francês “Stella 2.º”, que os trouxe para o porto de Leixões.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 10 de Outubro de 1920)

Morte de um náufrago
No hospital da Misericórdia morreu ontem o marítimo José Lopes Casaca, de 43 anos, casado, natural de Olhão.
Este individuo era o proprietário e mestre do caíque português “S. João”, que na noite de 5 do mês findo, tendo apanhado forte temporal próximo do Cabo Mondego, naufragara, vindo os seus cinco tripulantes para Leixões a bordo do vapor de pesca francês “Stella 2.º”, que os socorreu.
O caíque “S. João” pertencia à praça do Algarve.
O José Lopes Casaca, tendo andado muito tempo na água, foi vítima de uma congestão, que o obrigou a recolher ao referido hospital.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 20 de Outubro de 1920)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A decadência da Marinha Mercante


Ontem, tal como hoje, com um "Despacho 100" pelo meio!...

Lisboa, 6 de Fevereiro – Uma comissão composta pelos srs. Joaquim Antunes Ferreira, armador de Lisboa; Antero Ferreira de Araújo e Silva, presidente do Conselho Regional da Liga Naval do Porto; António Eduardo Glama e Bernardino Vareta, armadores da praça do Porto, conferenciou com o sr. ministro da Marinha, expondo a situação decadente em que se encontra a marinha mercante, reduzida a amarrar os seus navios por não poder suportar a concorrência estrangeira nos seus próprios portos.

Foto do vapor "Loanda" da Empresa Nacional
Imagem retirada do blog "Restos de colecção"

Verificada a lista de navios portugueses relativa a 1903, apenas constam 14 vapores, todos eles paquetes para transporte de carga e passageiros, a operar para destinos diversos. Dois dos armadores estavam sediados em Lisboa; a Empresa Nacional tinha uma frota de navios utilizados na ligação com as colónias em África, enquanto a Empresa Insulana cobria o tráfego para os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Dois outros armadores tinham sede no Porto; a Companhia Progresso Marítimo, apenas com um navio nesta altura, realizava durante um pequeno período de tempo viagens para o Brasil e a casa Andresen, com dois vapores, mantinha com alguma regularidade a ligação com portos nos Estados Unidos. Depois, há uma quantidade de outros navios de dimensão média, tais como barcas, galeras, lugres, patachos, escunas, iates, etc., etc., privilegiando a navegação à vela. Os vapores de ferro e aço eram construídos na sua maioria em Inglaterra. Por cá e ainda por muitos anos a construção de navios continuou a ser feita em madeira. Porque o carvão era caro, o vento barato e o atraso em relação aos países do norte da Europa, enorme!...

Ponderou a comissão que, sendo a marinha mercante uma das indústrias mais importantes e protegidas em todos os países, é a única que não tem protecção entre nós. A sua perda acarretará enormes prejuízos para a economia nacional e para as muitas famílias que vivem desta indústria.
Além das medidas a adoptar, que exigem largo e demorado estudo, alguma coisa se deve fazer já, imediatamente, sendo a primeira medida que a comissão julga absolutamente necessária a abolição completa dos direitos de carga para navios portugueses, que já foi reduzida a 50 p.c., por decreto de 21 de Maio de 1897, e que não pode subsistir de maneira alguma para a navegação nacional.
Expôs ainda a comissão que a navegação estrangeira, nos nossos portos, paga uma insignificância para o Estado, relativamente ao que se paga lá fora, onde os nossos navios são sobrecarregados com despesas extraordinárias, não havendo, portanto, reciprocidade entre os encargos que a navegação tem em portos estrangeiros e os encargos que a navegação estrangeira tem em portos nacionais.
O sr. ministro da Marinha patenteou à comissão o grande interesse que lhe inspira a marinha mercante nacional, a favor da qual fará quanto esteja na medida das suas forças.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 7 de Fevereiro de 1903)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXVIII)


O naufrágio do vapor “Mira”

Segundo comunicação recebida no ministério da Marinha, o vapor português “Mira”, antigo navio alemão, que se encontra fretado pelo governo inglês, foi abalroado pelo vapor holandês “Arundo” (a), quando seguia viagem de Huelva para Inglaterra.
A colisão deu-se em ocasião de nevoeiro espesso e toda a tripulação do “Mira” foi salva pelo “Arundo”, que desembarcou os 27 tripulantes do navio português no porto de Corcubion.

O sr. ministro da Marinha não recebeu telegrama algum com pormenores do naufrágio do vapor “Mira”, ocorrido no dia 26.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

(a) O vapor holandês “Arundo” (1913-1928) era propriedade da companhia Zeevaart Maatschapij sendo operado pela firma W.C. Hudig & J.C. Veder, encontrando-se registado no porto de Roterdão. Tinha 3.196 toneladas de arqueação bruta e 101 metros de comprimento.

Imagem do vapor "Mira" conforme registo fotográfico
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Mira”
1916-1916
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Construtor: J.C. Tecklenborg, Geestemunde, Alemanha, 11.1912
ex “Rolandseck”, D.D.G. Hansa, Bremen, Alemanha, 1912-1916
Arqueação: Tab 1.663,16 tons - Tal 756,78 tons
Dimensões: Pp 83,70 mts - Boca 12,30 mts
Propulsão: Máquina do construtor - 1:Di - 11,5 m/h

Imagem do vapor "Mira"
(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

Os sobreviventes do “Mira”
Chegaram a Lisboa, vindos de Vigo, os náufragos do navio “Mira”, ex-alemão “Rolandseck”, que a 80 milhas do Cabo Finisterra abalroou há dias com um vapor holandês, afundando-se.
O comandante do “Mira”, sr. Carlos Pinto diz o seguinte:
«O meu navio ia de Huelva para Gladston, com minério. No dia 24 navegava com todas as cautelas, apitando consecutivamente, porque a cerração era densíssima, acusando a derrota do “Mira” apareceu a curta distancia outro vapor, que depois se soube ser o “Arundo”. Ambos manobraram no sentido de evitar o choque, mas a máquina do “Mira” negou-se à marcha à ré. Parou e a colisão deu-se terrível, abrindo o “Mira” enorme rombo por onde a água entrou em cachão. As bombas de bordo não esgotavam a água, pelo que se abandonou o navio».
«O “Arundo” de 1.978 toneladas dirigia-se de Roterdão para Buenos-Aires, e, apesar de muito avariado, parou e não abandonou o local, a 74 milhas da costa, senão depois de recolher todos os náufragos, desembarcando-os em Corcubion, próximo de Vigo».
«Salvaram-se todos os homens, o cão e os coelhos de bordo. Alguns homens salvaram pequenas trouxas de roupa; mas a maioria trouxe apenas a roupa que trazia vestida».
«Três horas depois de abandonado, o “Mira” desapareceu. Depois de todos salvos, voltei a bordo, já quando o navio se afundava, e consegui retirar a palamenta, o cronómetro e o dinheiro».
«O sinistro deve-se ao facto do “Arundo” não apitar, como é da praxe quando há nevoeiro».
Três maquinistas e cinco azeitadores do “Mira” ficaram em Vigo, donde seguem, repatriados, para a Inglaterra.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Dezembro de 1916)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

História trágico-marítima (CLXVII)


O naufrágio do vapor "Ilha do Fogo"

Na Espanha
Choque de vapores
Cadiz, 2 – O vapor italiano “Amalia Campechi” (a), que saiu de Glasgow com carregamento de carvão para a Itália, chocou com um navio português, também carregado com carvão para Itália. O navio português ficou com grandes avarias, receando-se que vá a pique. O vapor italiano recolheu a tripulação do navio português, conduzindo-a a Cadiz.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 3 de Dezembro de 1916)

(a) O vapor “Amelia Campisi” (1912-1918) era propriedade de Luciano Campisi, encontrando-se registado no porto italiano de Siracusa. Tinha 1.517 toneladas de arqueação bruta e 75 metros de comprimento.

Imagem do vapor "Ilha do Fogo"
(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

Naufrágio do vapor “Ilha do Fogo”
Telegramas de Cadiz, com data de ontem, dizem ter-se perdido o vapor português “Ilha do Fogo” que abalroou à entrada do estreito com o vapor italiano “Amelia Campecchi”, morrendo o capitão Custódio Rocha, o piloto, o contra-mestre e oito marinheiros. O “Ilha do Fogo” ia com carga de carvão e óleo lubrificante para Génova.
O “Amelia Campecchi” que ficou com a proa destruída navegava a toda a força da máquina, perseguido por um submarino alemão e daí o abalroamento.
Ao local do naufrágio chegou o navio de guerra espanhol “Bonifaz”. Trinta tripulantes do “Ilha do Fogo”, que se salvaram, estiveram na capitania do porto de Cadiz.
Outro telegrama de Cadiz refere o seguinte:
«Regressaram a canhoneira “Bonifaz” e o vapor “Cornelli” que não encontraram vestígio algum do vapor português “Ilha do Fogo”. Os tripulantes trazidos pelo vapor italiano “Amelia Campecchi” são o 1º maquinista, Miguel da Silva; o 2º maquinista, António Vicente Freitas Júnior; o 3º maquinista, José Manoel Lopes; o praticante de máquinas, Manoel dos Santos Lima; o moço praticante, Manoel Gomes da Silva; um fogueiro, o dispenseiro, Teófilo Rodrigues e outros, num total de 30 homens.
O 1º maquinista conta que o vapor saiu de Lisboa em 2 de Setembro e esteve 40 dias em Glasgow, carregando 7.500 toneladas de carvão, azeite para máquinas e madeira, tudo consignado ao governo italiano. No dia 23 de Novembro, saiu o “Ilha do Fogo” com rumo a Sabona. Na madrugada de 27, próximo do Finisterra, os tripulantes viram um submarino alemão.
Na madrugada de ontem, vinha o navio do Cabo de S. Vicente para o estreito de Gibraltar, navegando a nove milhas à hora, quando foi abalroado pelo “Campecchi” que ia carregado de carvão de Glasgow para Itália. O italiano investiu com a proa sobre o navio português e quase que o partiu pelo meio. Então, os maquinistas despejaram as caldeiras para explosões, depois embarcaram em botes com alguns homens da tripulação.
Supõe o 1º maquinista que o navio se tenha afundado em poucos momentos, e julga que morreram o capitão Custódio Rocha, de 28 anos, casado, natural da Ilha Brava, arquipélago de Cabo Verde; imediato Barreto de Carvalho, de 24 anos; contra-mestre Ernesto Ramos e marinheiros Teófilo Manoel Duarte, Vicente António da Silva, José Jesus Nascimento, Manoel Lourenço Fortes, António Roberto Lima, e o criado praticante João Monteiro.
O cônsul português atende com solicitude os náufragos que aqui se encontram e a estação radiográfica não cessa de perguntar se há notícia dos restantes tripulantes.»

Segundo comunicação recebida no Ministério da Marinha, o 1º Maquinista e 29 homens da tripulação do navio “Ilha do Fogo”, fretado pelo governo inglês, foram salvos por um vapor italiano.
Acerca do capitão e mais dez tripulantes que ficaram a bordo e ainda sobre o destino do navio, aguarda o sr. ministro da Marinha as devidas informações.

A tripulação do vapor “Ilha do Fogo” era assim composta: Capitão, Custódio Rocha, 28 anos; imediato, Ruy Barreto Carvalho, 24 anos; contra-mestre, Ernesto Ramos Évora, 33 anos; marinheiros, Teófilo Manoel Duarte, Vicente António da Silva, José Jesus Nascimento, Geraldo Forte Lobato, Manoel Lourenço Fortes, António Roberto Lima; moços praticantes, Manoel Gomes da Silva, Pedro Taumaturgo de Brito, António Teófilo Duarte, Álvaro Vera Cruz Pinto; moços, Pedro Leitão, Gualdino Gomes Delgado, António Miguel Lima; 1º maquinista, Miguel Mateus da Silva; 2º maquinista, António Vicente de Freitas Júnior; praticante de máquinas, Manoel dos Santos Lima; 3º maquinista, José Manoel Lopes; fogueiros azeitadores, Fortunato José Andrade, João Fortes, Vicente de Lima; fogueiros, João Claro dos Santos, Domingos da Luz, Teodoro André de Oliveira, Abel João Campos, João Paes, Pedro Ignez, João Lourenço do Paraíso, António Nascimento, Vitor Lopes; chegadores, Manoel Mariano Roque da Silva Barros, António João Brito, João José dos Santos; dispenseiro, Teófilo Alfredo Rodrigues; cozinheiro, Alberto da Silva Lejo; ajudante de cozinha, João Manoel Lopes; criado praticante, João Monteiro Cléofas dos Santos; criado Joaquim Gomes Faria Rocha.

Um telegrama recebido no Ministério dos Estrangeiros, vindo de Gibraltar, diz estarem salvos todos os tripulantes do vapor “Ilha do Fogo”.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Dezembro de 1916)

Imagem do vapor "Ilha do Fogo" conforme registo fotográfico
Desenho (excelente) de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Ilha do Fogo”
1916-1916
Nº Oficial: ?-E - Iic: H.I.D.F. – Porto de registo: Lisboa
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
Construtor: Craig Taylor, Stockton-on-Tees, Inglaterra, 08.1901
ex “Burgermeister Hachmann”, G.J.H. Siemers & Co., 1901/1916
Arqueação: Tab 4.315,00 tons
Dimensões: Pp 109,70 mts - Boca 14,80 mts
Propulsão: Craig Taylor, 1901 - 1:Te - Veloc. 9,5 m/h

A chegada da restante tripulação do “Ilha do Fogo”
Com o imediato, contra-mestre e oito marinheiros, chegou hoje aqui o sr. Custódio Rocha, comandante do vapor “Ilha do Fogo”, abalroado e metido a pique à entrada do Mediterrâneo por um navio italiano.
Aquele oficial apresentou-se à Comissão de Transportes Marítimos, onde lhe foi notificado que estava investido no comando do vapor “Ilha Brava”.
Hoje, de tarde, houve ocasião de apresentar ao valoroso marinheiro felicitações pelo seu feliz regresso e dos seus companheiros, que se supunha tinham sido vítimas do desastre.
O capitão Custódio Rocha é uma criatura insinuante, que rapidamente conquista as simpatias de quantos lhe falam. Sem a mais leve jactancia, narra as circunstâncias em que se deu o abalroamento e o propósito que o levou a ficar a bordo do navio depois de verificar o grande rombo que o navio tinha.
«O vapor italiano que veio chocar com o “Ilha de Fogo” vinha, como nós – diz aquele capitão – da Inglaterra e dirigia-se também ao Mediterrâneo. Fizemos a viagem sempre na mesma linha e, na noite do desastre, o nosso companheiro de derrota parecia ter avançado um pouco. Pelas duas horas deu-se o choque. Ao terrível embate, o navio italiano deu toda a força à ré e afastou-se».
«Verifiquei que o “Ilha do Fogo” tinha 20 pés de água e tornando-se impossível a intervenção do pessoal de máquinas, dei ordem para que ele tomasse a primeira baleeira e que partissem em direção ao navio italiano, dando ali parte das circunstâncias em que se encontrava o navio, para que nos viessem dar reboque».
«Com o restante pessoal fiquei a bordo para tomar as providências que o caso requeria. A tripulação que seguira na baleeira não voltou porque o comandante do navio italiano afirmara que tinha pressa e nas condições em que o nosso navio estava já não o podia rebocar».
«O navio ainda se aproximou e fez-me saber quais as suas resoluções e, por fim, afastou-se de vez, levando a bordo os nossos camaradas».
«Entretanto, o “Ilha de Fogo” ia metendo cada vez mais água e mandei que o resto da tripulação saltasse para a outra baleeira».
«Conservei-me a bordo até à última, isto é, até às 8 horas da manhã, ocasião em que o vapor perdeu o equilíbrio, começando a afundar-se mais rapidamente. Metidos na baleeira, arvoramos a vela à espera que a boa fortuna nos deparasse um barco salvador».
«Navegamos até às 9 horas e meia e então apareceu o lugre inglês “Milyh Patten” (b), que, descobrindo-nos, se apressou a socorrer-nos».
«Fomos recebidos a bordo com todo o carinho. A nosso pedido, o comandante do lugre atravessou o navio, podendo eu assistir ao afundamento total do “Ilha do Fogo”. Depois retomou o seu caminho, desembarcando-nos, a mim e aos meus camaradas, em Gibraltar».
«Ao entrar em Portugal tive ocasião de ver o que a imprensa escreveu acerca da nossa aventura. Estou deveras sensibilizado com as referências que nos fizeram».
O capitão Custódio Rocha, antes de assumir o comando do “Ilha do Fogo”, em S. Vicente de Cabo Verde, tinha já comandado seis navios, não sendo, portanto, esse o primeiro, como por aí se afirmou.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 10 de Dezembro de 1916)

(b) Não foi encontrado qualquer lugre que tenha correspondência ao nome citado no texto.

A tripulação do “Ilha do Fogo”
Chegaram hoje a Cadiz os tripulantes do vapor “Ilha do Fogo”, que foi a pique à entrada do Mediterrâneo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 12 de Dezembro de 1916)