No campo orgânico da administração central, foi aprovado pela Assembleia Nacional um conjunto de propostas e projetos. Uma proposta, sobre todas fundamental, porque interessa à própria organização do Estado, criou o Conselho Superior de Defesa Nacional e os seus órgãos de estudo e de trabalho. Com essa medida mostrou o Governo quanto toma a peito dotar o país com os elementos indispensáveis da defesa e quanto deseja que esta defesa assente em bases sólidas, filhas de uma política de defesa nacional, conscientemente definida e seguida, e não seja criada ao sabor de ideias ou caprichos de ocasião.
A criação dos dois organismos paralelos, no exército e na marinha, a Majoria General do Exército e a Majoria General da Armada, assegura a efectivação das directrizes da defesa dadas pelo Conselho Superior de Defesa Nacional e entrega os respectivos meios de acção a entidades efectivamente responsáveis pela eficiência do seu emprego.
O Secretariado Geral da Defesa Nacional, que centraliza as iniciativas em matéria de defesa e assegura que as directrizes do Conselho sejam levadas aos órgãos de execução respectivos, encontra-se já a funcionar. Resta nomear os membros de um organismo também criado e que deve concorrer para facilitar a coordenação militar e naval no estudo dos problemas técnicos de defesa que interessam simultaneamente ao exército e à marinha, que mal se compreenderia que fossem estudados separadamente; tantos e tão importantes são eles, que o funcionamento da comissão mixta entre inter-estados-maiores do exército e naval, se não fará seguramente esperar.
Para pôr a organização da administração central da marinha de acordo com os princípios que orientaram a criação dos órgãos acima citados, foi publicada e começa a entrar em funcionamento uma nova organização daquela administração. Nela se atribui ao Major General da Armada a missão de orientar a preparação da marinha em tempo de paz e de comandá-la em tempo de guerra, tendo como seus assistentes imediatos, de um lado o Chefe do Estado-maior Naval, para os assuntos de carácter operativo, do outro o Superintendente dos Serviços Técnicos, a quem cabe executar tudo o que diz respeito à preparação técnica, tanto do pessoal como do material.
A actividade de carácter mais civil do que militar, que cabe ao Ministério da Marinha, isto é, relativa à marinha mercante e de pescas, e aos serviços de polícia e segurança da navegação, continua dirigida pelo Director Geral de Marinha. Ao ministro compete, naturalmente, coordenar esta actividade com a militar, da Majoria Geral da Armada.
Na primavera intensificou-se a preparação orgânica e militar dos navios da nova marinha, primeiro em unidades isoladas, depois em agrupamentos.
Em Junho foi ordenada a concentração nas águas das ilhas adjacentes, para exercícios tácticos, de uma força constituída por uma esquadrilha de contra-torpedeiros, outra de submarinos e ainda outra de hidro-aviões. A concentração fez-se com facilidade na Madeira, onde o grupo das três esquadrilhas realizou alguns exercícios tácticos, com temas relacionados com a defesa do arquipélago. Dali seguiram, navios e aviões, para os Açores, em cujas águas igualmente levaram a efeito numerosos exercícios, dos quais foram colhidos consideráveis ensinamentos.
Na ida, como no regresso, os aviões fizeram a travessia pelos seus próprios meios, utilizando-as para proveitoso exercício de navegação e treino para mais largas viagens. Durante os exercícios tácticos a sua cooperação com as outras esquadrilhas foi habilmente realizada e manifestou-se muito útil à defesa, como ao ataque.
Duraram estes exercícios cerca de seis semanas. Depois de reabastecidos de nafta, os navios da esquadrilha de contra-torpedeiros seguiram para a costa do Algarve, onde continuaram as exercitações, realizando interessantes exercícios de tiro de artilharia, que duraram cerca de quatro semanas. Finalmente realizaram-se exercícios igualmente proveitosos de lançamento de torpedos.
Os submersíveis prosseguiram também nos seus treinos e exercícios, que duram todo o ano.
Os avisos, que, pela sua natureza, se não reúnem em agrupamentos, realizaram proveitosos exercícios e viagens, como a do aviso “Gonçalves Zarco”, que regressou de uma instrutiva volta pelos mares e colónias do Oriente e a do “Afonso de Albuquerque”, para instrução de aspirantes no Mediterrâneo.
Em resumo, em toda a marinha se nota um espírito novo, uma nova vontade de fazer o mais possível por tirar dos navios também novos todo o rendimento militar do que são capazes.

Navio-motor "Gorgulho" da extinta Empresa Insulana
Foto de autor desconhecido - minha colecção
Crise da marinha mercante
Progressivo desenvolvimento da marinha de pesca
Aos progressos da marinha de guerra não corresponderam semelhantes da marinha mercante. A crise em que a marinha mercante se debate há nos, não melhorou, antes se agravou com o desaparecimento da proteção que lhe concedia o diferencial de bandeira. Resta, como única protecção directa, o subsídio ao combustível, verba insignificante, comparada com a importância que a indústria do transporte marítimo tem na economia nacional.
Uma comissão nomeada em 24 de Outubro de 1934, concluiu os seus trabalhos na parte referente ao problema da navegação para as colónias de África, cuja solução não poderá protelar-se por muito tempo.

Os trabalhos preparatórios para a criação do grémio dos armadores não tiveram o seu natural seguimento. Em compensação, a marinha de pesca progrediu apreciavelmente durante o ano.
A publicação do decreto nº 24.614, que regulamentou a pesca de arrasto, teve como resultado o registo e matricula para esta pesca do vapor “Alcoa” e de três navios mais pequenos. No Porto registaram-se nove parelhas para a pesca de arrasto, além de dois outros barcos para o mesmo fim. Desta lei esperam-se resultados benéficos. Encontra-se também em preparação a regulamentação das lotas em todos os portos do Continente.

Lugre-motor "José Alberto" da praça da Figueira da Foz
Foto de autor desconhecido - minha colecção
A pesca do bacalhau teve um incremento importante no ano findo. Foram adquiridos os seguintes navios: “Labrador”, “Groenlândia”, “Terra Nova”, “José Alberto” e “Normandie”.
Para os bancos da Terra Nova e Groenlândia foram este ano 47 navios, dos quais 22 com motor, comparados com 34 e 10, respectivamente, em 1934. O número total de tripulantes foi de 1.969, comparado com 1.317 no ano anterior.
A distribuição pelos portos de armamento foi a seguinte:
1935 – Viana 3, Porto 7, Aveiro 16, Figueira 8 e Lisboa 13.
1934 – Viana 3, Porto 5, Aveiro 14, Figueira 3 e Lisboa 9.
Pelo Ministério do Comércio foi criado o Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau.
(a) Botelho de Sousa
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 1 de Janeiro de 1936)