segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Memorativo da Armada


O draga-minas “S. Roque”
Efeméride de há 60 anos

Numa brilhante cerimónia a que assistiram os ministros da Defesa
e da Marinha, foi ontem lançado à água o draga-minas “S. Roque”

Foto do draga-minas M401 - NRP "S. Roque"
Imagem da Photoship.Uk

Numa cerimónia que se revestiu de grande solenidade, foi lançado ontem à água o draga-minas “S. Roque”, a primeira das quatro unidades encomendadas aos estaleiros navais da CUF (Companhia União Fabril), dentro do plano «Off-Shore» de auxílio americano.
Assistiram à cerimónia da bênção do novo navio, os srs. ministros da Defesa Nacional e da Marinha, embaixador dos Estados Unidos, general Willard K. Liebel, chefe da missão M.A.A.G.; capitão-de-fragata Hugh B. Sutherland, adido principal para a cultura e imprensa; Sylvester Olsen, director da missão da U.S.O.N. em Portugal; capitão de mar-e-guerra Ranson Fullinweder, chefe da secção naval da M.A.A.G.; capitão-de-fragata Alton Waldron, e capitães Anton Frade e Burton Davis, da M.A.A.G.
Da Companhia União Fabril, estiveram presentes, os srs. D. Manuel de Melo, presidente do Conselho da Administração; engº Eduardo Madail, Nicolas Gouri e José Manuel de Melo, administradores; engº Vasco de Melo, director-delegado do Estaleiro Naval, e engº João Rocheta, director-técnico.
Assinalando o acontecimento da construção do novo draga-minas, concebido inteiramente por técnicos e operários portugueses, o sr. embaixador dos Estados Unidos usou da palavra para acentuar que o “S. Roque” é um símbolo da era em que vivemos, «uma era, talvez sem paralelo na História, de interdependência e cooperação entre os povos unidos por um propósito comum». Disse que, desde o princípio, o plano de construção das quatro unidades irmãs «constituiu um empreendimento de conjunto».
Nas suas futuras funções, bem como nas suas próprias origens – afirmou – o “S. Roque” simboliza a colaboração dos povos livres. Ele desempenhará o seu honrado papel como elemento da Marinha Portuguesa. Mas, em cada missão em que, porventura, tomar parte, servirá também a segurança e o bem-estar de toda a comunidade atlântica.
Dizendo que a ameaça de agressão «ainda não foi dissipada apesar da esperança causada por recentes acontecimentos, salientou que a N.A.T.O. é – e deve continuar a ser – uma aliança forte e viva» e terminou, referindo-se ao «navio admiravelmente construído» afirmando: «admirámo-lo – e com toda a justiça – como o mais jovem produto da renovada e tradicional arte portuguesa de construção naval».
Agradeceu as referências feitas aos seus estaleiros, o sr. D. Manuel de Melo, presidente do Conselho de Administração da CUF, que dirigiu também palavras de saudação aos membros do Governo, que ali se encontravam presentes.
E, por último, falou o sr. almirante Américo Tomás, ministro da Marinha, que felicitou os estaleiros pela obra realizada e disse que, embora não se trate de um navio grande, ele era de difícil construção e honrará os estaleiros nacionais e dará conhecimento de que a construção naval do nosso país atingiu um alto nível.
Acentuando, depois, que este era o primeiro de cinco navios que os Estados Unidos, nos encomendaram, disse poder este país estar certo de que cumpriremos a missão de que nos incumbiram e honraremos a confiança depositada nos nossos estaleiros.
Depois de ter feito largas referências ao progresso técnico da nossa indústria de construção naval, o sr. ministro da Marinha, disse que à N.A.T.O. se fica devendo a paz de que disfrutamos, a qual tem que perdurar para que os benefícios colhidos continuem a ser a razão da força dessa organização.
E terminou:-
– Portugal tem de ser forte para ser respeitado e se é certo que os sacrifícios se têm sucedido por parte de todos, não é menos certo que o clarão da esperança que ora se nos apresenta, tem de ser acompanhado dos sacrifícios de todos para que a paz seja possível.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 17 de Agosto de 1955)

sábado, 8 de agosto de 2015

Memorativo da Armada


O patrulha "Porto Santo"
Assistência no mar e vigilancia costeira

Imagem do navio-patrulha "Porto Santo"
Desenho de Luís Filipe Silva

Foi apresada, nas Selvagens,
uma embarcação com contrabando
Funchal, 8 - Uma embarcação com contrabando foi apresada nas Selvagens, pelo navio patrulha “Porto Santo”, em missão de serviço na Madeira. Trata-se de um barco denominado “Palo Azul”, comandado por Juan Rodriguez, de 43 anos, que interrogado, disse ter estado em Lisboa em Novembro de 1954.
A embarcação apreendida vinha de Tanger, com uma carga de 60 toneladas. Da tripulação, composta por mais quatro homens, consta um português.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 9 de Fevereiro de 1959)

Por uma questão de proximidade, já no dia anterior a notícia tinha vindo publicada no Jornal da Madeira, com o seguinte texto:

1ª página do Jornal em questão

Foi aprisionada anteontem, nos mares das Selvagens pelo
patrulha “Porto Santo” uma embarcação costa-riquenha
O patrulha “Porto Santo” sob o comando do oficial José Paulo da Costa Santos, que esteve no Funchal, fez-se ao largo quinta-feira passada e a bordo levava um botânico inglês que desejava colher elementos científicos, na ilha Selvagem Pequena, onde desembarcara acompanhado dum marinheiro do patrulha e ali ficara, enquanto este foi até à Selvagem Grande.
Ontem, cerca das 18 horas, o marinheiro e o estrangeiro viram aproximar-se uma embarcação de nacionalidade desconhecida e logo se esconderam a fim de não despertar as atenções dos estranhos, enquanto a patrulha voltava, aproximadamente nessa hora, conforme o estabelecido.
Em dado momento a referida embarcação fundeou, distanciada a cerca de 50 metros do litoral. Fez descer um pequeno bote com dois tripulantes, que logo começaram a analisar a costa da ilha.
Nesta altura, surge o patrulha “Porto Santo” e o marinheiro e o estrangeiro puderam denunciar ao patrulha a presença de estranhos. Depois o patrulha intimou o desconhecido a identificar-se, tendo este logo hasteado a bandeira da Costa Rica e chamar-se “Palo Azul”.
Entretanto num gasolina do patrulha dirigiram-se ao “Palo Azul” três praças e um sargento, sob o comando do oficial Duarte Costa. A bordo, após as formalidades da praxe, realizou-se a busca, tendo sido encontrada alguma carga indocumentada.
O “Palo Azul” com as três praças e o sargento tiveram de vir para o Funchal, escoltado pelo patrulha para onde, em momentos antes, regressara o oficial Duarte Costa acompanhado do capitão do “Palo Azul”, chegando ao Funchal cerca das 17 horas.
As autoridades locais que previamente haviam sido informadas, do bordo do patrulha acerca do sucedido, compareceram a bordo. Depois das formalidades requeridas, a tripulação e a mercadoria indocumentada deram entrada na Alfandega do Funchal, onde se procedeu à instauração dum processo iniciado com o auto levantado e apresentado pelo comandante do patrulha “Porto Santo”, 1º tenente José Paulo da Costa Santos.
O “Palo Azul” trazia como capitão Juan Venceslau Rodriguez; 1º motorista Belgeiveis, natural da Letónia, de 43 anos de idade, que diz ter estado em Lisboa há cinco anos, no mês de Novembro, durante três dias, como passageiro a bordo do navio britânico “Lenabee”. Residia há dez anos em Tanger, onde deixou mulher e filhos. Falava corretamente o inglês e o espanhol, além da sua língua natal; 2º maquinista Domingo Martinez, natural de Reynes, Vila Carla, Baleares, de 26 anos; um marinheiro Miguel Gomez, natural de Valleres, Espanha, de 35 anos e o cozinheiro Miguel Castilho, natural de Tanger, de 42 anos de idade. Estava ainda a bordo um português, que apenas se sabe chamar-se Manuel, natural de Olhão.
O navio procedia de Tanger e seguiam para a África Central. Eram 9 os volumes de mercadoria encontrados. A embarcação é de 60 toneladas e tem a velocidade máxima de 9 milhas e a mínima de 5.
(In “Jornal da Madeira”, Domingo, 8 de Fevereiro de 1959)

Para aquilatar com segurança dos factos noticiados, foi auscultada a opinião do distinto comandante Francisco Duarte Costa, que recorda este acontecimento com a nostalgia dos anos passados em serviço na Armada, como segue:
«Naquele ano a Marinha decidiu reativar as comissões dos Patrulhas na Madeira e destacou para esse efeito o PC “Porto Santo”, onde embarquei como 3º Oficial.
Algum tempo depois de termos chegado, numa saída para patrulha e fiscalização das águas do Arquipélago que nos levou às Selvagens, fomos encontrar fundeada uma embarcação de aspecto indefinido, um misto de embarcação de pesca e de carga, pintada de uma cor acinzentada. O aspecto e a situação levantaram suspeitas da sua actividade e Comandante mandou-me a bordo para a inspecionar.
Os seus papéis não estavam em ordem e não tinha manifesto de uma pequena carga estivada a bordo que parecia ser o resto de um transbordo de contrabando que teria ficado para os tripulantes.
Em face da situação o foi decidido apresá-la e comboiá-la para o Funchal. Entretanto após comunicar com a Capitania, que por sua vez contactou as autoridades judiciais, todos deram o seu acordo à acção do comandante.
Chegados ao Funchal a embarcação foi entregue às autoridades mas, como nota da eficiência da organização a que pertencia, já tinha no cais um advogado para sua defesa, pois “parada estava a causar prejuízo”!
Passado muito pouco tempo a Marinha, segundo constou, fez uma revisão do seu dispositivo e decidiu retirar o “Porto Santo” da Madeira e enviá-lo para os Açores. Nada nos tinha feito prever essa alteração e foram-nos dados muito poucos dias (+/-3) para resolver toda a situação administrativa, que naturalmente nos ligava a terra, dada uma previsão de comissão de alguns meses.
Lembro também uma curiosidade da época, relacionada com a chegada dos navios da Marinha para comissão na Madeira, um responsável do Marítimo (se a memória não me falha) ia a bordo ver se havia “habilidosos” para jogar na equipa. Nos navios encontrava-se muitas vezes pessoal que tinha jogado no clube da sua terra e lá ficava o “Marítimo” com uns reforços, quando o serviço o permitia. Estávamos muito longe “dos ronaldos e das transferências milionárias”!
Um apontamento final:
- Quanto à embarcação parece-me que pagou uma multa e lá foi “à sua vida”. Possivelmente não será difícil encontrar a história da sua “passagem forçada” pelo Funchal nos Arquivos Judiciais.»
Estamos muito gratos ao digníssimo comandante Francisco Duarte Costa, pela partilha de informações relacionadas com este episódio, acreditando tenha saído diretamente de um extenso rol das histórias de vida e de bons momentos, no cumprimento das suas funções, que certamente lhe deixaram saudosas recordações.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A história do “Clemencia" (2º)
1919-1926
2ª Parte

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Características do navio
Armador: Viúva de C. Dupin & Cª., Anadia
Nº Oficial: 494-D - Iic: H.E.L.C. - Porto de registo: Porto
Construtor: Manuel Gonçalves Amaro, Póvoa, 27.08.1919
Arqueação: Tab 295,98 tons - Tal 216,69 tons
Dimensões: Pp 45,41 mts - Boca 8,80 mts - Pontal 4,08 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes
Capitães embarcados: Joaquim Rodrigues (1919-1920) e Marciano de Vasconcelos (1925 e 1926)

O lugre foi vendido durante o ano de 1926 à empresa José da Silva Maia & Cª., Lda., do Porto. Nessa época alterou a matrícula na Capitania do Douro, sendo rebatizado com o nome “Nossa Senhora da Lapa”, mantendo os mesmos detalhes. Em 1928, através de nova medição, foram-lhe aumentados os valores da arqueação.

Novas características do navio
“Nossa Senhora da Lapa”
1926-19.09.1933
Armador: José da Silva Maia & Cª., Lda., Porto
Nº Oficial: B-191 - Iic: H.N.S.L. - Porto de registo: Porto
Arqueação: Tab 334,45 tons - Tal 284,99 tons
Dimensões: Pp 39,08 mts - Boca 8,77 mts - Pontal 4,22 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes
Capitães embarcados: Francisco Bichão (1927) e Lopo de Oliveira (1928 a 1930)

No alto mar
Lugre incendiado - Salva-se a tripulação
Ontem, por alturas de Faro, no mar alto, ficou destruído por um incêndio o lugre português “Nossa Senhora da Lapa”, que, segundo informações obtidas, pertence à praça de Ílhavo.
Lançados os S.O.S. foi em seu socorro o vapor de carga inglês “Carterside”, que procedia de Cadiz em direcção ao Porto, salvando e recolhendo todos os náufragos do lugre incendiado.
Este lugre seguia de Viana do Castelo para Las Palmas, levando um carregamento de madeira.
O “Carterside”, que vem consignado à firma portuense J.T.P. Vasconcelos, Lda., deve chegar hoje ao rio Douro, onde desembarcará os tripulantes do lugre “Nossa Senhora da Lapa”.
(In jornal “Comércio do Porto”, 20 de Setembro de 1933)

Entretanto, por outras vias, foi possível confirmar que o lugre “Nossa Senhora da Lapa” era da praça do Porto, tendo efectivamente naufragado devido a incêndio, na posição latitude 36º41’5”N longitude 7º48’5”W a cerca de 60 milhas do Cabo de S. Vicente. O vapor inglês “Carterside” era propriedade da «The Side Shipping Co., Ltd.», com registo em Newcastle, tendo navegado com este nome entre 1922 até 1936.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A história do “Clemencia" (2º)
1ª Parte

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Barco à Água
O “Clemencia” (2º)
Estava prestes a dizer-nos adeus, e nem sabíamos. Indicaram-lhe a quarta-feira última para fazer a sua abalada e ele, como escravo do dever obedeceu à imposição. Antes de nos deixar ataviou-se, embonecou-se num coquetismo sedutor, como para nos mostrar na pujança da sua beleza, o orgulho da sua garridice.
Fez-se amar por todos quantos o conheciam para mais vincar de saudades na hora da sua partida. Deixou-nos não por ingratidão mas por obediência.
Se assim não fôra, ele preferiria ficar eternamente sobranceiro ao mar, preso no carcere de tábuas com que o cintaram. Era esbelto e elegante na estrutura das suas formas, gracioso e bem proporcionado na beleza das suas linhas. Não admira, pois, que milhares de olhos pousassem embevecidamente na ondulação das suas curvas e no talhe airoso da sua estética.
E lá partiu. Nos preparativos da sua viagem gastou alguns meses, e para se afamosear precisou de hábeis artífices que o toucaram com a graça do seu saber. Vestiram-no de branco como para os esponsais dum noivado. E que deslumbrante cerimonial e imponentíssimo cortejo! Recebeu o batismo no balaço verde das nossas águas e foi sua madrinha a distinta, e que formosíssima madrinha - a Dª Clemencia Dupin Seabra.
À volta do seu gigantesco berço, fervilhava uma multidão imensa que o cumulava de profecias, e o enchia de elogios. Pela praia ao paredão, na esplanada do Castelo, em todas as janelas fronteiriças ao mar, milhares e milhares de pessoas espreitavam ansiosamente a hora da partida.
No mar, junto à fimbria da costa dezenas de barcos, alguns empavesados de bandeiras. Grave e majestoso pela missão que tinha a cumprir um rebocador, lançando para o ar, de espaço a espaço, rolos de fumo como que, a entreter a demora. Ainda bem juntas, como irmãzinhas que veem radiantes ao encontro de um irmão querido, duas traineiras baloiçam-se na crista das águas, também todas tafuis no seu traje domingueiro, fazendo bambolear as suas bandeiras ao sabor do vento.
Aproxima-se a hora da partida do “Clemencia”…
Os artífices, uma a uma arrancaram-lhe as peias com que o enfaixaram. A sua bondosa madrinha amorosamente corta-lhe o último elo que o prendia à gargalheira do seu cativeiro! Então ele, como se despertasse dum pesado letargo, sacode os membros num súbito arranco, e vai descendo suavemente numa marcha de triunfo até abrir clareira no dorso das águas que ansiosamente o espera para cobrir de beijos e aljofrar de espuma as suas lindas formas.
O instante supremo, do mais supremo e indiscritível entusiasmo aconteceu. Milhares de lenços brancos, como se fosse o bater de asa das pombas, agitam-se nos ares. Momento de delírio, uma trovoada de palmas e uma breve prece: Senhora de Guia te guie. E de todos os corações freme o mesmo anseio, uma perene felicidade para tão lindo barco. As sirenes das traineiras silvam numa aleluia de júbilos e dezenas de foguetes lançados dos barcos do Clube Naval atroam os ares, juntando-se ao clamor vitorioso da multidão.
E ele, como enorme garça de asas abertas pousadas docemente sobre a superfície das águas tenta aproximar-se, para um gentil cumprimento do austero rebocador que lhe foge envergonhado de ter de juntar o seu costado encarquilhado e sujo à face mimosa e linda do sedutor efebo.
Como séquito de honra vão-lhe na sua esteira os pequenos barcos, enquanto os silvos das sirenes festejam alegremente a companhia do “Clemencia”.
Espectáculo imponente se avista do mar para a terra. Aqui é um viveiro humano que se estende pelo areal e cobre os flancos do Paredão. Todos os olhos e todos os corações poisam com devoção e enternecimento sobre o magnífico barco, agora presa cruel do rebocador.
A meia barra passam-lhe à bujarrona uma amarra que lhe torce a proa para o sul. Mais familiar, o rebocador volteia-se e admira-lhe a construção, passando de bombordo a estibordo e toma posições à sua frente como a impor-lhe a condição de refém. De pouca duração foi esta paragem. Mais uma lançada e o rebocador leva-o preso a rumo de nordeste para depois o forçar a seguir a rota de sudoeste.
Apesar da guisa cortante que então fazia e do tempo ameaçador de vento e chuva, a multidão, a pé quedo, não desfitava os olhos das evoluções do elegante barco que, mesmo lá ao longe, conservou a guarda de honra dos seus pequeninos irmãos na labuta do mar.
Mas a irrisão do Destino quis cortar esse preito de admiração da mole do povo. Como imensa toalha de gaze que se desdobrasse na curva do horizonte, vem distendida cobrir numa nevoa esbranquiçada o enlevo daqueles fugidios momentos. E lá ficou sepultado na densa neblina o “Clemencia”, roubado à contemplação de milhares de olhos, envolvendo-o mais e mais na nossa saudade, e o nosso anseio por uma rota feliz.
Que o patrono dos mareantes te proteja, bom veleiro, foi o nosso último voto e o desejo de todos que de ti se despediram.
(a) Leopoldino Loureiro (jornalista e presidente do Clube Naval)

Notas
O navio pertence à empresa C. Dupin & Cª., cuja principal sócia é a Exma. Srª Dª Clemencia Dupin Seabra. A largada que ocorreu às 5 horas e 20 minutos foi, como dissemos, felicíssima.
O barco comboiado pelo rebocador “Beatriz” deu entrada no rio Douro às 9 horas da manhã do dia seguinte fazendo uma travessia acidentada devido ao temporal que desencadeou pela noite dentro.
O “Clemencia” custou aproximadamente 120 contos e tinha dimensões entre perpendiculares 46 metros, de pontal 4,35 metros e de boca máxima 8,70 metros.
Foi seu construtor o hábil artista e nosso conterrâneo, sr. Manuel Gonçalves Amaro, que mais uma vez confirmou os seus créditos, quer na factura do barco, quer na alisagem da carreira, que por bem lançada deu o magnifico resultado duma feliz largada.
O comando do “Clemencia” foi confiado ao capitão da marinha mercante, sr. Joaquim José Rodrigues que, desde o princípio do levantamento da quilha presidiu a todos os trabalhos da construção.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 31 Agosto de 1919)

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Dos estaleiros da Póvoa de Varzim desceu ao mar, no dia 27 deste mês, o lugre “Clemencia" (2º), da firma Dupin & Cª. A praia estava coalhada com milhares de pessoas que assistiam aquele espectáculo sugestivo e impressionante; - a enseada cheia de embarcações de pesca e algumas traineiras, davam uma nota festiva, alegre, duma rara jovialidade, com os silvos das suas sirenes como que dando as boas vindas à nova embarcação, que singrou as águas do oceano coberta de bênçãos e de bons desígnios.
Madame Dupin, senhora de rasgos de abnegação e génio varonil, de rara envergadura, estava radiante e desvanecida no êxito completo da sua empresa e na perícia e denodo do seu pessoal técnico que se pode jactar de ter construído um dos melhores vasos que a marinha mercante possui nos estaleiros do Norte.
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

O Lugre “Clemencia" (2º)
...
Pessoas idosas com quem tenho conversado lembram-se de se construírem navios na nossa Ribeira, e eu recordo-me do lançamento à água do lugre “Clemencia”, em 19 de Dezembro de 1918, navio que o mar destruiu depois contra a costa, por naufrágio, ao sair da carreira, facto ocasionado por sabotagem do rebocador, que não o puxou ou arrastou convenientemente para o largo; recordo-me também de, com inteiro sucesso, em 27 de Agosto de 1919, uma quarta-feira, ter sido lançado à água o “Clemencia" (2º), bonito navio de três mastros, pertencente à sociedade C. Dupin & Cª., da Anadia, e construído pelo mestre Manuel Amaro, no seu estaleiro no areal da praia de Ribeira, em frente e talvez um pouco a sul da fábrica de conservas “A Poveira”, Lda. - Às quartas-feiras e sábados realizavam-se as feiras da lenha, até ainda há poucos anos!
...
(in “Boletim Cultural” Nº 1, Volume 9, Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1970)

domingo, 2 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A insólita história do lugre "Clemencia"!

Lugre “Clemencia”
Está marcado o dia 27 do corrente, quarta-feira próxima, para o lançamento à água, do magnífico navio “Clemencia”, construído nos estaleiros da Póvoa de Varzim, sob a hábil direcção do mestre naval sr. Manuel Amaro e pertencente à conceituada firma C. Dupin & Cª., de Anadia.
(In jornal “Comércio da Póvoa de Varzim, Dezembro de 1918)

Imagem do lugre "Clemencia"
(In revista "Ilustração Nacional", Nº1, Póvoa de Varzim, 1919)

Navio “Clemencia”
Ontem, pelas 15 e meia horas, foi lançado à água, no estaleiro desta praia, o navio “Clemencia”, da casa Dupin & Cª., de Anadia. O navio era um belo barco de três mastros, grande e bem feito, sob a hábil direcção do mestre construtor naval sr. Manuel Amaro.
Centenas de pessoas acorreram à praia para o admirar e assistir ao bota-abaixo. Quase toda a Póvoa deixou de trabalhar para assistir ao interessante espectáculo, e muita gente veio das aldeias e Vila do Conde.
A descida, pela carreira, decorreu maravilhosa e o barco correu à água no meio de entusiásticas saudações. Ao largo, na enseada, o rebocador que o havia de levar ao Porto.
Mas – tudo, tudo tem o seu mas – o navio começou de aproar a terra, certamente arrastado, pouco a pouco, pelas vagas (vento e mar picado) até que atravessou na praia, oscilando, e depois de salva, por meio de cordas, a gente que fôra dentro e a tripulação, o navio adornou com os mastros sobre a água e o casco virado para terra, na praia, começando as ondas na faina da sua destruição!
Foi uma decepção e uma mágoa o triste acontecimento, que se deve, sem dúvida, ao fraco ou mau serviço de amarras, por uma imprevidência imperdoável.
O navio estava no seguro e não houve, felizmente, desastres pessoais. Diz-se que, não obstante este insucesso, o estaleiro continuará avante; todavia é necessário que se apurem responsabilidades para que, por causa duns, não venha a sofrer a Póvoa, dando destes tristes espectáculos e perdendo essa nova indústria – o estaleiro, que tanto beneficia a terra.
(In jornal “O Intransigente”, de 20 de Dezembro de 1918)

O navio “Clemencia”
Parece-nos que nunca, nesta praia, se construiu navio maior do que este, que na última quinta-feira foi lançado ao mar. Barco lindo e magnificamente construído pelo sr. Manuel Amaro, hábil industrial de construções navais.
A tarde de quinta-feira foi um dia de festa para a gente desta vila. Todos queriam ir ver o deita ao mar do belo “Clemencia”. Clemencia é o nome próprio da Exma. proprietária do navio que o quis batizar com o seu nome.
Das três para as quatro horas, meia Póvoa e muita gente das aldeias e de Vila do Conde acorreu ali, à praia, para ver deslizar o barco. Eram quatro horas, menos vinte minutos, quando a Exma. proprietária cortou as amarras.
Na alma daquele povoléu enorme passou; então, um trémito de alegria. O barco desliza belamente e fica no mar flutuando donairosamente, esplendidamente. Todos vitoriam o bom sucesso e a alegria vê-se a bailar em todos os olhos.
Passam-se dez minutos e ninguém olha pelo barco. Só o mar toma conta dele. E em muito pouco tempo lhe vira a proa para o norte e o apanha de bombordo. Depois, como a brincar, atirou-o para a areia fazendo-o tombar quase logo. Isto passou-se em breve tempo, em 15 ou vinte minutos, o máximo.
Não queremos nem podemos acusar ninguém. Só afirmamos que saímos dali, magoados, como todos os espectadores. Uma coisa ficou provada à evidência: é que o nosso estaleiro é magnífico, o construtor hábil e perito na arte.
O navio desceu belamente, magnificamente, e ficou na água flutuando donairosamente. Ele não tinha caldeira, nem velas, nem remos. Era preciso rebocá-lo. E lá estava para isso o rebocador, que não rebocou nada.
Em conclusão: se porventura se quis fazer uma experiência sobre a viabilidade de construções navais na nossa praia, o resultado não podia ser mais favorável, nem mais concludente.
Ficou evidentemente demonstrado que o nosso estaleiro é magnifico e que os barcos, de grande tonelagem, deslizando bem nas calhes, ficam no mar flutuando, como um cisne num lago. Depois, depois… é rebocá-los; que eles, sem caldeiras, sem remos, sem velas, não podem seguir viagem.
À Exma. Sociedade C. Dupin & Cª., agradecemos o convite que teve a amabilidade de nos enviar.
(In jornal “Estrela Povoense”, 22 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
Triste sina!
Narra o "Janeiro" (jornal "Primeiro de Janeiro", do Porto) de sábado p.p. o lançamento, à água na nossa bacia dum navio, o “Clemencia”, navio pertencente à firma C. Dupin & Cª., que o mandara construir.
Transcrevemos essa notícia na íntegra, apenas com uns leves comentários nossos, os quais não podemos abafar em nosso peito, tão grande foi a tristeza e desgosto que sentimos e toda aquela multidão de pessoas, que viram perder esse navio duma forma que não sabemos explicar.
«Ante-ontem de tarde, foi lançado ao mar, perante numerosíssima assistência na praia da Póvoa de Varzim, o magnífico navio “Clemencia”, de 1.200 toneladas, mandado construir pela firma C. Dupin & Cª.
Como o lançamento se fazia directamente para o mar, foi tratado o rebocador “Mars”, da casa Garland, Laidley & Cª., para o rebocar até ao rio Douro, onde devia receber um carregamento de vinho para a Inglaterra.
O “Clemencia”, cujas amarras foram cortadas por M.me Clemencia Dupin de Seabra, entrou bem na água por entre as aclamações da multidão.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 24.Dezembro.1918)

Edital da Delegação Aduaneira de Leixões,
pela Alfândega do Porto, que se entende por si.
(In jornal "Comércio do Porto", 26 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
O lindo navio que saiu na última semana do nosso estaleiro e que por uma fatal imprevidência arrojou à praia vinte minutos depois, lá continua a desfazer-se pelas maresias.
Cada destroço arrojado é como que uma lançada no nosso coração bairrista, que teceu de simpatias por aquele barco, que nos trazia uma nova esperança numa indústria que dando-nos interesses, nos dava por igual muita honra.
A Póvoa sentiu e compartilhou largamente do desgosto da empresa, mormente da sua ilustre diretora, Exma. srª. Dª. Clemencia Dupin, a quem este jornal apresenta os protestos da sua muita consideração.
Os arrojos já lançados à praia pelo mar foram arrematados no último dia 24 por 680 escudos.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

O Desastre do “Clemência”
Continua o Nosso Estaleiro?
O desastre do navio “Clemencia”, que tão aflitivamente entristeceu todos os povoenses fez nascer naturalmente a pergunta: continuará o estaleiro?
É que o nosso bairrismo de sustentar todas as fontes de riqueza que possam fazer prosperar a terra fez criar o receio de que o triste sucesso do “Clemencia” desanimasse a empresa a prosseguir nas construções dos seus navios, se bem que em nada concorresse para o desastre quer a carreira, quer qualquer outro serviço da parte do pessoal construtor.
Isto nos forçou a colher esclarecimentos e a trocar impressões com quem alguma coisa pudesse elucidar os leitores.
É o mestre construtor sr. Manuel Gonçalves Amaro, nosso amigo, que afavelmente nos recebe no seu próprio estaleiro:
- Que quer que lhe diga? Não me magoaria tanto com uma perca minha exclusivamente.
- Mas a que atribuir o desastre?
- Eu sei lá! Não sou técnico no mar. Daqui, como viu, saiu o “Clemencia” por uma carreira fora, lindo, formoso, que me fez soltar as lágrimas de contentamento! Aquelas palmas, milhares de palmas, recebias com gratidão, tanto mais que assim eu via a Exma. srª Dª Clemencia e todos os patrões tinham a paga da confiança que em mim depositaram. Para um construtor, o deslizar dum navio é a maior das comoções porque nisso está o complemento duma obra, que é alguma coisa de nós mesmo. Afinal…
- Deixemos as tristezas. O que lá vai, já não tem remédio. Toda a gente sabe que a culpa não é sua…
- Sim, mas aquele casco, ali, a rolar…
- Vamos ao que importa: o estaleiro continua?
O mestre Amaro, perante esta pergunta, reanima-se, toma novo alento, nova vida e diz-nos com vivacidade:
- Se continua? Sempre. Enquanto eu tiver quem me encomende barcos hei-de construir aqui! E hão-de deslizar bem por aí fora!
- Não é isso. A empresa Dupin & Cª. continua a construir?
- Sim, senhor. A sua ilustre diretora não é pessoa para desanimar. Não a conhece? Que energia, que vontade! Ela sentiu bem no dia do desastre como a Póvoa se comoveu com ela e o facto mais a animou.
Continua e para já com mais dois navios.
- Dois navios?
- Sim, senhor. Dois lugres, de 700 toneladas cada um. São essas duas quilhas que para aí vê.
- Bravo! A Póvoa recebe com a maior satisfação essa notícia. Mas diga-me ainda: já tem nome?
- Não sei bem. Creio, no entanto, que outro “Clemencia” há-de surgir radioso a navegar triunfante!
- Diga-me para terminar: o barco que se perdeu estava seguro?
- Estava, segundo o que me disse um empregado superior da casa. Creio que pagaram 3.000 escudos só pelo seguro de carreira, e mar, até ao Porto.
De junto a uma quilha dos novos barcos chamaram o mestre Amaro. Era tempo de o deixarmos entregue aos seus novos trabalhos, que são os seus novos amores e para toda a Póvoa a esperança! Eles hão-de sair por aí fora a flutuar galhardamente com os afetos de todos nós!
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

Navio “Clemencia”
Parece que não; que há pleito sobre o caso. É o que logicamente depreendemos de ter corrido à revelia, sem reclamação, a arrematação do mesmo navio, - o que não se daria se houvesse harmonia entre a empresa construtora e as companhias, que reclamariam, então, o que lhes pertencia.
Assim, questionando, nem elas nem aquela lhes convinha reclamar - a empresa, para ter direito ao seguro, e as companhias para não perderem o direito das suas alegações.
Ou não será assim?
(In jornal “O Intransigente”, de 12 de Janeiro de 1919)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Leixões, o porto em 1919!


(In revista "Ilustração Nacional, Nº 4, 1919, Póvoa de Varzim)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLIV)


O naufrágio da galera “Santa Maria”
(7 de Setembro de 1918 - posição 13º25'S 15º00'W)

Características do navio
1916-1918
Armador: Transportes Marítimos do Estado

Desenho da galera "Santa Maria" por Luís Filipe Silva

Nº Oficial: 352-E - Iic: H.S.A.N. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Oswald, Mordannt & Co., Ltd., Southampton, 1886
ex “Schiffbek”, Knor & Burchard, Hamburgo
ex “Ellesmere”, Sailing Ship Ellesmere Co., Londres
Arqueação: Tab 2.662,94 tons - Tal 2.526,62 tons
Dimensões: Pp 104,76 mts - Boca 15,37 mts - Pontal 8,40 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 17 tripulantes

Pernambuco, 30 de Setembro – Chegaram em 19 deste mês ao porto do Recife dois botes à vela, conduzindo 17 homens da tripulação da galera portuguesa “Santa Maria”, que de Glasgow se dirigia ao Lobito, em África.
A barca incendiou-se no alto mar, a 120 milhas de Pernambuco, por efeito da explosão de umas bombas que trazia a bordo, com carregamento de carvão.
Salvou-se toda a tripulação em três botes, gastando onze dias desde o lugar do sinistro até ao porto de Recife. Um dos botes aportou por alturas da Baía. O cônsul português providenciou dando mantimentos e vestuário aos náufragos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Dezembro de 1918)