quinta-feira, 6 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A história do “Clemencia" (2º)
1919-1926
2ª Parte

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Características do navio
Armador: Viúva de C. Dupin & Cª., Anadia
Nº Oficial: 494-D - Iic: H.E.L.C. - Porto de registo: Porto
Construtor: Manuel Gonçalves Amaro, Póvoa, 27.08.1919
Arqueação: Tab 295,98 tons - Tal 216,69 tons
Dimensões: Pp 45,41 mts - Boca 8,80 mts - Pontal 4,08 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes
Capitães embarcados: Joaquim Rodrigues (1919-1920) e Marciano de Vasconcelos (1925 e 1926)

O lugre foi vendido durante o ano de 1926 à empresa José da Silva Maia & Cª., Lda., do Porto. Nessa época alterou a matrícula na Capitania do Douro, sendo rebatizado com o nome “Nossa Senhora da Lapa”, mantendo os mesmos detalhes. Em 1928, através de nova medição, foram-lhe aumentados os valores da arqueação.

Novas características do navio
“Nossa Senhora da Lapa”
1926-19.09.1933
Armador: José da Silva Maia & Cª., Lda., Porto
Nº Oficial: B-191 - Iic: H.N.S.L. - Porto de registo: Porto
Arqueação: Tab 334,45 tons - Tal 284,99 tons
Dimensões: Pp 39,08 mts - Boca 8,77 mts - Pontal 4,22 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes
Capitães embarcados: Francisco Bichão (1927) e Lopo de Oliveira (1928 a 1930)

No alto mar
Lugre incendiado - Salva-se a tripulação
Ontem, por alturas de Faro, no mar alto, ficou destruído por um incêndio o lugre português “Nossa Senhora da Lapa”, que, segundo informações obtidas, pertence à praça de Ílhavo.
Lançados os S.O.S. foi em seu socorro o vapor de carga inglês “Carterside”, que procedia de Cadiz em direcção ao Porto, salvando e recolhendo todos os náufragos do lugre incendiado.
Este lugre seguia de Viana do Castelo para Las Palmas, levando um carregamento de madeira.
O “Carterside”, que vem consignado à firma portuense J.T.P. Vasconcelos, Lda., deve chegar hoje ao rio Douro, onde desembarcará os tripulantes do lugre “Nossa Senhora da Lapa”.
(In jornal “Comércio do Porto”, 20 de Setembro de 1933)

Entretanto, por outras vias, foi possível confirmar que o lugre “Nossa Senhora da Lapa” era da praça do Porto, tendo efectivamente naufragado devido a incêndio, na posição latitude 36º41’5”N longitude 7º48’5”W a cerca de 60 milhas do Cabo de S. Vicente. O vapor inglês “Carterside” era propriedade da «The Side Shipping Co., Ltd.», com registo em Newcastle, tendo navegado com este nome entre 1922 até 1936.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A história do “Clemencia" (2º)
1ª Parte

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Barco à Água
O “Clemencia” (2º)
Estava prestes a dizer-nos adeus, e nem sabíamos. Indicaram-lhe a quarta-feira última para fazer a sua abalada e ele, como escravo do dever obedeceu à imposição. Antes de nos deixar ataviou-se, embonecou-se num coquetismo sedutor, como para nos mostrar na pujança da sua beleza, o orgulho da sua garridice.
Fez-se amar por todos quantos o conheciam para mais vincar de saudades na hora da sua partida. Deixou-nos não por ingratidão mas por obediência.
Se assim não fôra, ele preferiria ficar eternamente sobranceiro ao mar, preso no carcere de tábuas com que o cintaram. Era esbelto e elegante na estrutura das suas formas, gracioso e bem proporcionado na beleza das suas linhas. Não admira, pois, que milhares de olhos pousassem embevecidamente na ondulação das suas curvas e no talhe airoso da sua estética.
E lá partiu. Nos preparativos da sua viagem gastou alguns meses, e para se afamosear precisou de hábeis artífices que o toucaram com a graça do seu saber. Vestiram-no de branco como para os esponsais dum noivado. E que deslumbrante cerimonial e imponentíssimo cortejo! Recebeu o batismo no balaço verde das nossas águas e foi sua madrinha a distinta, e que formosíssima madrinha - a Dª Clemencia Dupin Seabra.
À volta do seu gigantesco berço, fervilhava uma multidão imensa que o cumulava de profecias, e o enchia de elogios. Pela praia ao paredão, na esplanada do Castelo, em todas as janelas fronteiriças ao mar, milhares e milhares de pessoas espreitavam ansiosamente a hora da partida.
No mar, junto à fimbria da costa dezenas de barcos, alguns empavesados de bandeiras. Grave e majestoso pela missão que tinha a cumprir um rebocador, lançando para o ar, de espaço a espaço, rolos de fumo como que, a entreter a demora. Ainda bem juntas, como irmãzinhas que veem radiantes ao encontro de um irmão querido, duas traineiras baloiçam-se na crista das águas, também todas tafuis no seu traje domingueiro, fazendo bambolear as suas bandeiras ao sabor do vento.
Aproxima-se a hora da partida do “Clemencia”…
Os artífices, uma a uma arrancaram-lhe as peias com que o enfaixaram. A sua bondosa madrinha amorosamente corta-lhe o último elo que o prendia à gargalheira do seu cativeiro! Então ele, como se despertasse dum pesado letargo, sacode os membros num súbito arranco, e vai descendo suavemente numa marcha de triunfo até abrir clareira no dorso das águas que ansiosamente o espera para cobrir de beijos e aljofrar de espuma as suas lindas formas.
O instante supremo, do mais supremo e indiscritível entusiasmo aconteceu. Milhares de lenços brancos, como se fosse o bater de asa das pombas, agitam-se nos ares. Momento de delírio, uma trovoada de palmas e uma breve prece: Senhora de Guia te guie. E de todos os corações freme o mesmo anseio, uma perene felicidade para tão lindo barco. As sirenes das traineiras silvam numa aleluia de júbilos e dezenas de foguetes lançados dos barcos do Clube Naval atroam os ares, juntando-se ao clamor vitorioso da multidão.
E ele, como enorme garça de asas abertas pousadas docemente sobre a superfície das águas tenta aproximar-se, para um gentil cumprimento do austero rebocador que lhe foge envergonhado de ter de juntar o seu costado encarquilhado e sujo à face mimosa e linda do sedutor efebo.
Como séquito de honra vão-lhe na sua esteira os pequenos barcos, enquanto os silvos das sirenes festejam alegremente a companhia do “Clemencia”.
Espectáculo imponente se avista do mar para a terra. Aqui é um viveiro humano que se estende pelo areal e cobre os flancos do Paredão. Todos os olhos e todos os corações poisam com devoção e enternecimento sobre o magnífico barco, agora presa cruel do rebocador.
A meia barra passam-lhe à bujarrona uma amarra que lhe torce a proa para o sul. Mais familiar, o rebocador volteia-se e admira-lhe a construção, passando de bombordo a estibordo e toma posições à sua frente como a impor-lhe a condição de refém. De pouca duração foi esta paragem. Mais uma lançada e o rebocador leva-o preso a rumo de nordeste para depois o forçar a seguir a rota de sudoeste.
Apesar da guisa cortante que então fazia e do tempo ameaçador de vento e chuva, a multidão, a pé quedo, não desfitava os olhos das evoluções do elegante barco que, mesmo lá ao longe, conservou a guarda de honra dos seus pequeninos irmãos na labuta do mar.
Mas a irrisão do Destino quis cortar esse preito de admiração da mole do povo. Como imensa toalha de gaze que se desdobrasse na curva do horizonte, vem distendida cobrir numa nevoa esbranquiçada o enlevo daqueles fugidios momentos. E lá ficou sepultado na densa neblina o “Clemencia”, roubado à contemplação de milhares de olhos, envolvendo-o mais e mais na nossa saudade, e o nosso anseio por uma rota feliz.
Que o patrono dos mareantes te proteja, bom veleiro, foi o nosso último voto e o desejo de todos que de ti se despediram.
(a) Leopoldino Loureiro (jornalista e presidente do Clube Naval)

Notas
O navio pertence à empresa C. Dupin & Cª., cuja principal sócia é a Exma. Srª Dª Clemencia Dupin Seabra. A largada que ocorreu às 5 horas e 20 minutos foi, como dissemos, felicíssima.
O barco comboiado pelo rebocador “Beatriz” deu entrada no rio Douro às 9 horas da manhã do dia seguinte fazendo uma travessia acidentada devido ao temporal que desencadeou pela noite dentro.
O “Clemencia” custou aproximadamente 120 contos e tinha dimensões entre perpendiculares 46 metros, de pontal 4,35 metros e de boca máxima 8,70 metros.
Foi seu construtor o hábil artista e nosso conterrâneo, sr. Manuel Gonçalves Amaro, que mais uma vez confirmou os seus créditos, quer na factura do barco, quer na alisagem da carreira, que por bem lançada deu o magnifico resultado duma feliz largada.
O comando do “Clemencia” foi confiado ao capitão da marinha mercante, sr. Joaquim José Rodrigues que, desde o princípio do levantamento da quilha presidiu a todos os trabalhos da construção.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 31 Agosto de 1919)

Imagem do lugre "Clemencia" (2º) de autor desconhecido
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

Dos estaleiros da Póvoa de Varzim desceu ao mar, no dia 27 deste mês, o lugre “Clemencia" (2º), da firma Dupin & Cª. A praia estava coalhada com milhares de pessoas que assistiam aquele espectáculo sugestivo e impressionante; - a enseada cheia de embarcações de pesca e algumas traineiras, davam uma nota festiva, alegre, duma rara jovialidade, com os silvos das suas sirenes como que dando as boas vindas à nova embarcação, que singrou as águas do oceano coberta de bênçãos e de bons desígnios.
Madame Dupin, senhora de rasgos de abnegação e génio varonil, de rara envergadura, estava radiante e desvanecida no êxito completo da sua empresa e na perícia e denodo do seu pessoal técnico que se pode jactar de ter construído um dos melhores vasos que a marinha mercante possui nos estaleiros do Norte.
(In revista “Ilustração Nacional”, Nº 3, Póvoa de Varzim, 1919)

O Lugre “Clemencia" (2º)
...
Pessoas idosas com quem tenho conversado lembram-se de se construírem navios na nossa Ribeira, e eu recordo-me do lançamento à água do lugre “Clemencia”, em 19 de Dezembro de 1918, navio que o mar destruiu depois contra a costa, por naufrágio, ao sair da carreira, facto ocasionado por sabotagem do rebocador, que não o puxou ou arrastou convenientemente para o largo; recordo-me também de, com inteiro sucesso, em 27 de Agosto de 1919, uma quarta-feira, ter sido lançado à água o “Clemencia" (2º), bonito navio de três mastros, pertencente à sociedade C. Dupin & Cª., da Anadia, e construído pelo mestre Manuel Amaro, no seu estaleiro no areal da praia de Ribeira, em frente e talvez um pouco a sul da fábrica de conservas “A Poveira”, Lda. - Às quartas-feiras e sábados realizavam-se as feiras da lenha, até ainda há poucos anos!
...
(in “Boletim Cultural” Nº 1, Volume 9, Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1970)

domingo, 2 de agosto de 2015

História trágico-marítima (CLV)


A insólita história do lugre "Clemencia"!

Lugre “Clemencia”
Está marcado o dia 27 do corrente, quarta-feira próxima, para o lançamento à água, do magnífico navio “Clemencia”, construído nos estaleiros da Póvoa de Varzim, sob a hábil direcção do mestre naval sr. Manuel Amaro e pertencente à conceituada firma C. Dupin & Cª., de Anadia.
(In jornal “Comércio da Póvoa de Varzim, Dezembro de 1918)

Imagem do lugre "Clemencia"
(In revista "Ilustração Nacional", Nº1, Póvoa de Varzim, 1919)

Navio “Clemencia”
Ontem, pelas 15 e meia horas, foi lançado à água, no estaleiro desta praia, o navio “Clemencia”, da casa Dupin & Cª., de Anadia. O navio era um belo barco de três mastros, grande e bem feito, sob a hábil direcção do mestre construtor naval sr. Manuel Amaro.
Centenas de pessoas acorreram à praia para o admirar e assistir ao bota-abaixo. Quase toda a Póvoa deixou de trabalhar para assistir ao interessante espectáculo, e muita gente veio das aldeias e Vila do Conde.
A descida, pela carreira, decorreu maravilhosa e o barco correu à água no meio de entusiásticas saudações. Ao largo, na enseada, o rebocador que o havia de levar ao Porto.
Mas – tudo, tudo tem o seu mas – o navio começou de aproar a terra, certamente arrastado, pouco a pouco, pelas vagas (vento e mar picado) até que atravessou na praia, oscilando, e depois de salva, por meio de cordas, a gente que fôra dentro e a tripulação, o navio adornou com os mastros sobre a água e o casco virado para terra, na praia, começando as ondas na faina da sua destruição!
Foi uma decepção e uma mágoa o triste acontecimento, que se deve, sem dúvida, ao fraco ou mau serviço de amarras, por uma imprevidência imperdoável.
O navio estava no seguro e não houve, felizmente, desastres pessoais. Diz-se que, não obstante este insucesso, o estaleiro continuará avante; todavia é necessário que se apurem responsabilidades para que, por causa duns, não venha a sofrer a Póvoa, dando destes tristes espectáculos e perdendo essa nova indústria – o estaleiro, que tanto beneficia a terra.
(In jornal “O Intransigente”, de 20 de Dezembro de 1918)

O navio “Clemencia”
Parece-nos que nunca, nesta praia, se construiu navio maior do que este, que na última quinta-feira foi lançado ao mar. Barco lindo e magnificamente construído pelo sr. Manuel Amaro, hábil industrial de construções navais.
A tarde de quinta-feira foi um dia de festa para a gente desta vila. Todos queriam ir ver o deita ao mar do belo “Clemencia”. Clemencia é o nome próprio da Exma. proprietária do navio que o quis batizar com o seu nome.
Das três para as quatro horas, meia Póvoa e muita gente das aldeias e de Vila do Conde acorreu ali, à praia, para ver deslizar o barco. Eram quatro horas, menos vinte minutos, quando a Exma. proprietária cortou as amarras.
Na alma daquele povoléu enorme passou; então, um trémito de alegria. O barco desliza belamente e fica no mar flutuando donairosamente, esplendidamente. Todos vitoriam o bom sucesso e a alegria vê-se a bailar em todos os olhos.
Passam-se dez minutos e ninguém olha pelo barco. Só o mar toma conta dele. E em muito pouco tempo lhe vira a proa para o norte e o apanha de bombordo. Depois, como a brincar, atirou-o para a areia fazendo-o tombar quase logo. Isto passou-se em breve tempo, em 15 ou vinte minutos, o máximo.
Não queremos nem podemos acusar ninguém. Só afirmamos que saímos dali, magoados, como todos os espectadores. Uma coisa ficou provada à evidência: é que o nosso estaleiro é magnífico, o construtor hábil e perito na arte.
O navio desceu belamente, magnificamente, e ficou na água flutuando donairosamente. Ele não tinha caldeira, nem velas, nem remos. Era preciso rebocá-lo. E lá estava para isso o rebocador, que não rebocou nada.
Em conclusão: se porventura se quis fazer uma experiência sobre a viabilidade de construções navais na nossa praia, o resultado não podia ser mais favorável, nem mais concludente.
Ficou evidentemente demonstrado que o nosso estaleiro é magnifico e que os barcos, de grande tonelagem, deslizando bem nas calhes, ficam no mar flutuando, como um cisne num lago. Depois, depois… é rebocá-los; que eles, sem caldeiras, sem remos, sem velas, não podem seguir viagem.
À Exma. Sociedade C. Dupin & Cª., agradecemos o convite que teve a amabilidade de nos enviar.
(In jornal “Estrela Povoense”, 22 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
Triste sina!
Narra o "Janeiro" (jornal "Primeiro de Janeiro", do Porto) de sábado p.p. o lançamento, à água na nossa bacia dum navio, o “Clemencia”, navio pertencente à firma C. Dupin & Cª., que o mandara construir.
Transcrevemos essa notícia na íntegra, apenas com uns leves comentários nossos, os quais não podemos abafar em nosso peito, tão grande foi a tristeza e desgosto que sentimos e toda aquela multidão de pessoas, que viram perder esse navio duma forma que não sabemos explicar.
«Ante-ontem de tarde, foi lançado ao mar, perante numerosíssima assistência na praia da Póvoa de Varzim, o magnífico navio “Clemencia”, de 1.200 toneladas, mandado construir pela firma C. Dupin & Cª.
Como o lançamento se fazia directamente para o mar, foi tratado o rebocador “Mars”, da casa Garland, Laidley & Cª., para o rebocar até ao rio Douro, onde devia receber um carregamento de vinho para a Inglaterra.
O “Clemencia”, cujas amarras foram cortadas por M.me Clemencia Dupin de Seabra, entrou bem na água por entre as aclamações da multidão.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 24.Dezembro.1918)

Edital da Delegação Aduaneira de Leixões,
pela Alfândega do Porto, que se entende por si.
(In jornal "Comércio do Porto", 26 de Dezembro de 1918)

Navio “Clemencia”
O lindo navio que saiu na última semana do nosso estaleiro e que por uma fatal imprevidência arrojou à praia vinte minutos depois, lá continua a desfazer-se pelas maresias.
Cada destroço arrojado é como que uma lançada no nosso coração bairrista, que teceu de simpatias por aquele barco, que nos trazia uma nova esperança numa indústria que dando-nos interesses, nos dava por igual muita honra.
A Póvoa sentiu e compartilhou largamente do desgosto da empresa, mormente da sua ilustre diretora, Exma. srª. Dª. Clemencia Dupin, a quem este jornal apresenta os protestos da sua muita consideração.
Os arrojos já lançados à praia pelo mar foram arrematados no último dia 24 por 680 escudos.
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

O Desastre do “Clemência”
Continua o Nosso Estaleiro?
O desastre do navio “Clemencia”, que tão aflitivamente entristeceu todos os povoenses fez nascer naturalmente a pergunta: continuará o estaleiro?
É que o nosso bairrismo de sustentar todas as fontes de riqueza que possam fazer prosperar a terra fez criar o receio de que o triste sucesso do “Clemencia” desanimasse a empresa a prosseguir nas construções dos seus navios, se bem que em nada concorresse para o desastre quer a carreira, quer qualquer outro serviço da parte do pessoal construtor.
Isto nos forçou a colher esclarecimentos e a trocar impressões com quem alguma coisa pudesse elucidar os leitores.
É o mestre construtor sr. Manuel Gonçalves Amaro, nosso amigo, que afavelmente nos recebe no seu próprio estaleiro:
- Que quer que lhe diga? Não me magoaria tanto com uma perca minha exclusivamente.
- Mas a que atribuir o desastre?
- Eu sei lá! Não sou técnico no mar. Daqui, como viu, saiu o “Clemencia” por uma carreira fora, lindo, formoso, que me fez soltar as lágrimas de contentamento! Aquelas palmas, milhares de palmas, recebias com gratidão, tanto mais que assim eu via a Exma. srª Dª Clemencia e todos os patrões tinham a paga da confiança que em mim depositaram. Para um construtor, o deslizar dum navio é a maior das comoções porque nisso está o complemento duma obra, que é alguma coisa de nós mesmo. Afinal…
- Deixemos as tristezas. O que lá vai, já não tem remédio. Toda a gente sabe que a culpa não é sua…
- Sim, mas aquele casco, ali, a rolar…
- Vamos ao que importa: o estaleiro continua?
O mestre Amaro, perante esta pergunta, reanima-se, toma novo alento, nova vida e diz-nos com vivacidade:
- Se continua? Sempre. Enquanto eu tiver quem me encomende barcos hei-de construir aqui! E hão-de deslizar bem por aí fora!
- Não é isso. A empresa Dupin & Cª. continua a construir?
- Sim, senhor. A sua ilustre diretora não é pessoa para desanimar. Não a conhece? Que energia, que vontade! Ela sentiu bem no dia do desastre como a Póvoa se comoveu com ela e o facto mais a animou.
Continua e para já com mais dois navios.
- Dois navios?
- Sim, senhor. Dois lugres, de 700 toneladas cada um. São essas duas quilhas que para aí vê.
- Bravo! A Póvoa recebe com a maior satisfação essa notícia. Mas diga-me ainda: já tem nome?
- Não sei bem. Creio, no entanto, que outro “Clemencia” há-de surgir radioso a navegar triunfante!
- Diga-me para terminar: o barco que se perdeu estava seguro?
- Estava, segundo o que me disse um empregado superior da casa. Creio que pagaram 3.000 escudos só pelo seguro de carreira, e mar, até ao Porto.
De junto a uma quilha dos novos barcos chamaram o mestre Amaro. Era tempo de o deixarmos entregue aos seus novos trabalhos, que são os seus novos amores e para toda a Póvoa a esperança! Eles hão-de sair por aí fora a flutuar galhardamente com os afetos de todos nós!
(In jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 29.Dezembro.1918)

Navio “Clemencia”
Parece que não; que há pleito sobre o caso. É o que logicamente depreendemos de ter corrido à revelia, sem reclamação, a arrematação do mesmo navio, - o que não se daria se houvesse harmonia entre a empresa construtora e as companhias, que reclamariam, então, o que lhes pertencia.
Assim, questionando, nem elas nem aquela lhes convinha reclamar - a empresa, para ter direito ao seguro, e as companhias para não perderem o direito das suas alegações.
Ou não será assim?
(In jornal “O Intransigente”, de 12 de Janeiro de 1919)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Leixões, o porto em 1919!


(In revista "Ilustração Nacional, Nº 4, 1919, Póvoa de Varzim)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLIV)


O naufrágio da galera “Santa Maria”
(7 de Setembro de 1918 - posição 13º25'S 15º00'W)

Características do navio
1916-1918
Armador: Transportes Marítimos do Estado

Desenho da galera "Santa Maria" por Luís Filipe Silva

Nº Oficial: 352-E - Iic: H.S.A.N. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Oswald, Mordannt & Co., Ltd., Southampton, 1886
ex “Schiffbek”, Knor & Burchard, Hamburgo
ex “Ellesmere”, Sailing Ship Ellesmere Co., Londres
Arqueação: Tab 2.662,94 tons - Tal 2.526,62 tons
Dimensões: Pp 104,76 mts - Boca 15,37 mts - Pontal 8,40 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 17 tripulantes

Pernambuco, 30 de Setembro – Chegaram em 19 deste mês ao porto do Recife dois botes à vela, conduzindo 17 homens da tripulação da galera portuguesa “Santa Maria”, que de Glasgow se dirigia ao Lobito, em África.
A barca incendiou-se no alto mar, a 120 milhas de Pernambuco, por efeito da explosão de umas bombas que trazia a bordo, com carregamento de carvão.
Salvou-se toda a tripulação em três botes, gastando onze dias desde o lugar do sinistro até ao porto de Recife. Um dos botes aportou por alturas da Baía. O cônsul português providenciou dando mantimentos e vestuário aos náufragos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Dezembro de 1918)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Leixões na rota do turismo!


O navio de passageiros "The World"


Depois de mais uma escala de dois dias em porto, a frase escolhida pela administração portuária faz todo o sentido, quando diz que «O mundo passa por Leixões».

Navio de passageiros "The World"

Chegado procedente de Lisboa, tem a saída agendada para esta noite, com destino a Gijon.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

História trágico-marítima (CLIII)


O encalhe do vapor “Mormugão”

No encalhe do vapor “Mormugão”,
não resultou perigo para os passageiros
Segundo um telegrama recebido nos Transportes Marítimos do Estado, o vapor “Mormugão”, da carreira da América, encalhou à entrada de Newbedford, devido ao nevoeiro.
O navio, que conduzia grande número de passageiros, conseguiu safar-se pouco depois, sem avaria de importância e prosseguiu viagem, não carecendo de entrar em doca seca para reparar.
Esta informação, conquanto diversa de outras chegadas do estrangeiro, deve ser a mais exacta. No entanto, quer esta quer as outras, dão, felizmente, como livres de perigo os passageiros.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 1 de Maio de 1921)

Imagem do vapor "Mornugão" dos T.M. do Estado
Desenho de Luís Filipe Silva

Características do vapor “Mormugão”
Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa
1916-1924
Nº Oficial: 412-E - Iic: H.M.O.R. - Registo: Lisboa
Construtor: Blohm & Voss, Steinweder, Alemanha, 11.09.1904
ex “Esne” – D.D.G. Kosmos, Hamburgo, 1904-1910
ex “Kommodore” – Deutsch Ost-Afrika, Hamburgo, 1910-1916
Arqueação: Tab 6.064,00 tons - Tal 3.849,70 tons
Dimensões: Pp 125,32 mts - Boca 15,51 mts - Pontal 8,70 mts
Propulsão: Blohm & Voss, 1904 - 1:Qe - 2.800 Ihp - 10 m/h
Vendido a Lara Sousa & Cª. em 1924, ficou ao serviço da Companhia de Açucares de Angola com o nome “Infante de Sagres”. Foi ainda vendido à Companhia Nacional de Navegação, em 1927, sendo rebaptizado “Zaire” e naturalmente utilizado nas carreiras para África.

Os passageiros do “Mormugão”
Black-Island, 2 – Todos os passageiros do vapor “Mormugão” foram esta tarde transferidos para terra, sãos e salvos.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 2 de Maio de 1921)