terça-feira, 2 de junho de 2015

Leixões na rota do turismo!


Sequência de navios que escalaram o porto em Maio

No dia 20, o navio de passageiros "Horizon"
Chegado procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 23, o navio de passageiros "Sea Cloud II"
Chegado procedente de Lisboa, saiu com destino a Vigo~

No dia 25, o navio de passageiros "Bremen"
Chegado procedente de Puerto Limon, saiu com destino à Corunha

No dia 28, o navio de passageiros "Costa Fortuna"
Registo de mais uma primeira visita ao porto

No dia 30, o navio de passageiros "Silver Cloud"
Chegado procedente de Lisboa, saiu com destino a Bilbao

E no dia 31, o navio de passageiros "Seven Seas Voyager"
Chegado procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

domingo, 31 de maio de 2015

Pesca do bacalhau


Conversas improváveis! (II)

O “Santa Regina” chegou dos mares da Gronelândia
No cais de Massarelos, tem estado, à descarga, o “Santa Regina”, lugre da frota bacalhoeira, pertencente à praça de Aveiro. Comanda-o o capitão António dos Santos, oficial sabedor, enérgico, decidido, arcaboiço de lutador dos mares, homem experimentado nas lides da pesca do bacalhau, que aos bancos conta já uma boa dezena de viagens.
É na amurada de bombordo do seu navio, que o capitão Santos descreve, com a maior simplicidade, em conversa, a sua viagem deste ano à pesca do fiel amigo.
- O “Santa Regina” entrou a barra do Douro, carregado, até à cinta, em princípio de Outubro, tendo saído em Abril para os bancos da Terra Nova – diz o capitão Santos. Mas, como o peixe ali falhasse, levantei ferro para a Gronelândia, onde me demorei até completar o carregamento.
- E a pesca na Gronelândia é abundante como na Terra Nova?
- A pesca, no geral, abunda, mas também falha, quando desaparece o sandilho, peixe parecido com o nosso lingueirão, de que o bacalhau se alimenta e que nós aproveitamos para o isco dos anzóis. A pesca é pelo mesmo processo, nos dóris, à linha e à zagaia, sendo trazido o peixe para bordo, onde é escalado e salgado.
- E tem horas certas de trabalho, os homens?
- Têm, mas, quando é preciso aproveitar a maré, aproveita-se. É para benefício de todos…
- E demais, como é sempre dia…
- Assim é, mas, em meados de Agosto, já se acende o farol do tope e luz na câmara. E, depois, as noites vão aumentando, gradualmente. Uma faina de mil diabos, esta vida! Ninguém imagina os trabalhos que a gente passa, quando comem, regaladamente, uma posta de bacalhau assado ou um prato de bacalhau à Gomes de Sá…
- As montanhas de gelo não são lá frequentes, capitão?
- São, sim, senhor. Os icebergues.
- E são grandes?
- Às vezes são maiores e bem maiores do que um grande edifício. Outros são rasos à água, e formam o que nós chamamos “campos de gelo”. A parte submergida é, também, grande e funda, pois chegam a encalhar. E o mar, ali, tem umas quarenta braças de profundidade…
- São perigosos, decerto, os icebergues?
- Vê acolá aquela racha? - e aponta uma enorme fenda aberta no cobre do casco. Aquilo foi, só, de roçar por um campo de gelo. Uma manobra demorada demais para o evitar.
- E como procurar evitar esse perigo?
- É conforme. Se o navio tem motor levanta-se ferro e cava-se. Se não tem como este, então suspende-se e deixa-se ir à rola, ao sabor da corrente, até que, a reboque dos dóris, se vai fugindo obliquamente e se dá passagem ao bicho. Outras vezes, é como Deus quer. Olhe, em 11 de Agosto, estivemos nós na iminência duma grande catástrofe. Estava uma tarde de temporal desfeito. A neblina a custo nos deixava ver as montanhas de gelo que, ao largo, se deslocavam. O vento arrancava-lhes blocos enormes de gelo, verdadeiras avalanches! Se, por fatalidade, o vento virasse a nordeste, dos doze navios fundeados nem um só escapava! Seria a maior tragédia a registar, nesta vida malfadada!...
- E nessas circunstâncias em último recurso…
- Entregamo-nos à Providência - concluiu o capitão - que desta vez, como de tantas outras, foi a nossa boa protectora.
- É certo os esquimós visitarem os vossos navios?
- Eu não os vi, pois pesquei a 64 graus. Mas, aos que fundeiam mais para o Norte, a 68 graus, têm aparecido, a trocar peles de animais por aguardente. O meu colega do “Viajante 2º”, que pescou pelas alturas da ilha de Disko, teve este ano, a bordo, a visita de seis mulheres esquimós.
E, num olhar malicioso, num desabafo de inveja, o capitão rematou:
- Que rico dia de pesca! Uma marésada assim, não a apanha cá o velho…
- É toda de Ílhavo, a tripulação do “Santa Regina”?
- Não. Trago também homens da Figueira, da Afurada e da Póvoa.
- Todos pescadores?
- Todos! Mas, acabada a faina, em viagem, os ílhavos passam a ser os homens da manobra. Quando o temporal se desencadeia, nas horas de luta com as tempestades - e tantas vezes com a morte! - é com eles que contamos para safar a rascada. Grandes marinheiros, os homens da minha terra!
Verdadeiros heróis! – exclamou, entusiasmado e orgulhoso, o capitão. E, depois com desalento, concluiu:
- Heroísmo ainda tão desconhecido e mal avaliado, quando o Mar lhes não abre a sepultura, espera-os uma velhice cheia de necessidades e misérias…
- E nos dias bonançosos e noites serenas, que fazem os seus marinheiros?
O capitão não responde. Fica pensativo, olhos fitos para além da barra. Mas, compreendendo-lhe o seu pensar, ouvimo-lo dizer:
- Nas noites luarentas almas resignadas dedilham a guitarra, a recordar a sua terrinha tão longe adormecida, tantas milhas distante dos seus olhos saudosos… Nas horas vagas de brisa fagueira, ou calmaria podre, dão largas ao seu instinto artístico. E à revessa do castelo da proa, pegam num madeiro, num canivete, modelam um casco, aparelham-no num requinte de gosto e apuro, sem a mínima falta dum pormenor e das suas mãos, cortadas da linha da zagaia, gretadas da salga e dos ventos glaciais, saem essas embarcações miniaturas, verdadeiras maravilhas de arte, que são o pasmo e encanto de quem visita a sala marítima do Museu de Ílhavo.
Estava terminada a visita. Que os trabalhos da descarga exigiam a presença do capitão. E, já na prancha do cais ainda lhe ouvimos dizer, com aquela franqueza rude, característica da gente do mar:
- Apareça mais vezes. Os amigos são sempre bem-vindos.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 7 de Novembro de 1934)

sábado, 23 de maio de 2015

Pesca do bacalhau


O "Gil Eannes" no Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau
A primeira viagem na marinha mercante aos grandes bancos

O transporte “Gil Eannes” deixa de pertencer à Marinha de Guerra
Foi ontem publicado na folha oficial um decreto que autoriza o Ministério da Marinha a entregar a utilização, ao serviço da economia nacional, de qualquer navio da sua esquadra naval a uma entidade oficial, corporativa ou armadora de carácter privado, mas portuguesa, conforme fôr julgado mais conveniente.
O primeiro navio cuja transferência para a Marinha Mercante será feita, ao abrigo deste decreto, é o transporte de guerra “Gil Eannes”, que passa para o serviço do Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 4 de Fevereiro de 1942)

Foto do "Gil Eannes" à chegada ao porto de Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos - Minha colecção

A fim de prestar assistência aos pescadores do bacalhau vai
partir, em breve, para a Terra Nova e Gronelândia, o “Gil Eannes”
Pelo Ministério da Marinha, vai ser nomeado para embarcar no transporte “Gil Eannes”, ao serviço do Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca do Bacalhau, o sr. capitão-de-fragata António José Martins, que vai com as atribuições de capitão de porto.
Este navio segue, brevemente, para os mares da Terra Nova e Gronelândia a prestar assistência aos pescadores empregados na pesca do bacalhau.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 17 de Junho de 1942)

O navio-hospital “Gil Eannes”, entrou, ontem, em Leixões, com
15 feridos e com o carregamento de 35 mil quintais de bacalhau
Procedente dos bancos da Gronelândia e da Terra Nova, aonde esteve a prestar assistência aos pescadores do bacalhau, durante a safra deste ano, entrou, ontem, de manhã, em Leixões o navio-hospital “Gil Eannes”.
Este vapor trás a bordo 15 tripulantes pertencentes a vários navios que estiveram na pesca.
Além disso, conduz um carregamento de cerca de 35 mil quintais de bacalhau, adquiridos na Terra Nova para o Grémio dos Armazenistas do Bacalhau e que será descarregado em Leixões.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 10 de Novembro de 1942)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Dia da Marinha 2015


A "Briosa" este ano homenageia a capital


Afastados pela distância não nos é possível estar presentes nas comemorações do Dia da Marinha, este ano a decorrer em Lisboa, tanto quanto gostaríamos.
Mais uma vez é recordado um dos principais navegadores portugueses, o lendário Vasco da Gama, e a extraordinária façanha que foi ter chegado à Índia, neste mesmo dia 20 de Maio, mas em 1498.

Quadro relativo ao acontecimento de autor não identificado
A chegada de Vasco da Gama à Índia - Imagem Wikipedia

Bem a propósito, recordo com especial carinho a visita há alguns anos a um navio, cujo nome não me ocorre, de transporte de gás (LGP), no terminal do porto petrolífero de Sines, por sugestão do respectivo comandante de origem indiana, residente em Bombaim.
Conversa de amigos durante algum tempo, com alguns negócios à mistura e naturalmente o convite para jantar com ele, num restaurante no centro da cidade, onde foi servido uma iguaria local, um assado de carne de porco preto, regado a rigor com uma excelente reserva alentejana.
Durante o percurso passamos por uma estátua e noto um ligeiro lacrimejar nos olhos do meu amigo indiano, que me indaga se estava na terra onde nasceu Vasco da Gama.
Respondi afirmativamente e reparo nas lágrimas, que lhe cobrem o rosto. E comenta:
"Que orgulho tenho em estar aqui, na terra que o viu nascer!
Enquanto viver, este é um dia que nunca irei esquecer..."

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Navios nos portos do Douro e Leixões


Escalas verificadas nos últimos dias

Navio de passageiros "Prinsendam"
Dia 13, chegou procedente da Corunha, saiu para Lisboa
Foto do distinto colega José Modesto

Navio de passageiros "Mein Schiff I"
Dia 13, chegou procedente de Lisboa, saiu para a Corunha

Navio de passageiros "Empress"
Dia 14, chegou procedente de Lisboa, saiu para a Corunha

Navio hidrográfico português "D. Carlos I"
Dia 14, chegou procedente de Lisboa, saiu de regresso à capital
Presente no porto para participar no exercício Anémona 2015

Lugre português "Santa Maria Manuela"
Dia 15, no rio Douro em viagem redonda de/ e para Aveiro

Navio de passageiros "Seabourne Quest"
Dia 17, chegou procedente da Corunha, saiu para Lisboa

Navio de passageiros "Costa Favolosa"
Dia 17, eventualmente na sua primeira visita a Leixões

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Memorativo da Armada


O navio tanque "Sam Braz"

O navio “Sam Braz” construído no Arsenal do Alfeite
é lançado à água na próxima terça-feira
Com a assistência dos membros do Governo e altos comandos militares e navais, efectua-se no próximo dia 17, pelas 17 horas, no Arsenal do Alfeite, a cerimónia do lançamento à água do primeiro petroleiro português, que é também o maior navio até hoje construído no nosso País, pois desloca 7 mil toneladas e mede cerca de 109 metros de comprimento por 15,5 de largura.
Começado a construir em Fevereiro do ano passado, o ritmo da sua construção atesta bem as possibilidades industriais do Arsenal, apesar das inevitáveis dificuldades que a guerra tem trazido ao problema dos transportes e da aquisição de materiais.
Dentro de cinco meses o novo navio deve estar em condições de empreender a sua primeira viagem. Foi-lhe dado o nome de “Sam Braz” – a pequena baía à qual aportou Bartolomeu Dias para fazer aguada, depois de ter dobrado o Cabo das Tormentas.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Março de 1942)

O lançamento à água do petroleiro “Sam Brás”,
que se realiza depois de amanhã
Foram convidados os oficiais da Armada a assistir ao lançamento do petroleiro “Sam Braz”, que se realiza depois de amanhã, às 16 e 50, no Arsenal do Alfeite, com a assistência do sr. ministro da Marinha.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 15 de Março de 1942)

Foto do navio "Sam Braz" por Roiz, Lda., Lisboa
Imagem da minha colecção

O petroleiro português “Sam Brás”, construído no Arsenal
do Alfeite, foi ontem lançado à água, tendo presidido à
cerimónia o sr. Ministro da Marinha
O Arsenal do Alfeite lançou ontem à água a quarta unidade naval ali construída, desde o começo da sua apreciável laboração: primeiro, um navio hidrográfico, depois duas vedetas de fiscalização da costa e, agora, um petroleiro – o “Sam Braz”.
Incluído na segunda fase do programa de reconstrução naval, a sua quilha foi assente em Fevereiro de 1941, pelo que o belo navio foi para a água com pouco mais de um ano de permanência na carreira.
O lançamento deste navio – o primeiro petroleiro construído em Portugal – reveste-se de uma importância especial se fôr considerado o problema dos transportes de combustível depois da eclosão da guerra e, especialmente, depois da entrada dos Estados Unidos no conflito.
Como é sabido, a nossa importação de gasolina tem diminuído consideravelmente. A média anual de importação desse produto no triénio 1937-38-39 andou à volta de 73.000 toneladas, baixando no ano de 1940 para menos de metade, ou seja para 35.000 toneladas. Quanto ao fim de 1941, não há ainda números que permitam avaliar a nova percentagem de redução, mas é conhecido que ela se acentuou muito mais.
A entrada deste novo navio em serviço, dentro de quatro a cinco meses, vem contribuir para aliviar a escassez de gasolina, ao mesmo tempo que dota a Armada com uma nova e utilíssima unidade.
Trata-se de um navio que, deslocando 7.000 toneladas, tem tanques com capacidade para 3.500 toneladas de combustível. Accionado por um motor diesel a dois tempos, tem 2.700 cavalos de força e pode atingir a velocidade de 12 milhas horárias.
À cerimónia do lançamento presidiu o sr. Ministro da Marinha que chegou ao Arsenal do Alfeite acompanhado pelo seu chefe de gabinete, sr. capitão de mar-e-guerra Américo Tomaz, também presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante e pelos seus ajudantes srs. comandante Jerónimo Jorge e 2º tenente Evaristo Gonçalves.
O chefe da Armada foi recebido pelos almirantes com funções de comando, pelo comodoro comandante da Força Naval da Metrópole e pelos srs. engenheiro Perestrelo de Vasconcelos, administrador do Arsenal; dr. Pereira Coutinho, director comercial; engenheiro Moniz Vargas, director técnico e por outros engenheiros civis e navais, bem como por diversos convidados.
Estavam também presentes deputações de oficiais dos navios de guerra actualmente em beneficiação no Arsenal do Alfeite, da esquadrilha de submersíveis, do Corpo de Marinheiros da Armada e da Escola Naval.
O sr. Ministro da Marinha, acompanhado por todos os presentes, dirigiu-se para a tribuna de honra erguida junto à proa do novo navio, na qual tomou lugar também o rev. Dr. Tomaz de Aquino, prior da Armada, solicitado para dar a bênção ao “Sam Braz”. Para madrinha foi convidada a filha do operário-arvorado Salvador António Pacheco, um dos mais antigos operários de construção naval no nosso país.
O navio, embandeirado e muito bem pintado, oferecia, com os seus 108 metros de comprimento, um belo aspecto sobre a carreira onde foi construído e pela qual irá deslizar dentro de alguns minutos.
Dos dois lados da carreira faziam a guarda de honra uma companhia de Marinha com bandeira e banda, e uma lança da Brigada Naval, constituída por pessoal arsenalista.
Logo que o sr. Ministro da Marinha chegou à tribuna, foram retiradas as últimas escoras que auxiliavam a manutenção do navio na carreira, após o que o representante da igreja lançou a bênção ao novo navio, precedido da oração do ritual.
O sr. engenheiro Perestrelo de Vasconcelos convidou então a madrinha a proceder à cerimónia simbólica, enquanto a guarda de honra apresentava armas e a banda da Armada executava o hino Nacional. Uma assistência constituída por centenas de pessoas sublinhou a entrada do navio nas águas do Tejo com entusiásticas manifestações.
O sr. Ministro da Marinha, antes de se retirar, transmitiu ao sr. engenheiro Perestrelo de Vasconcelos as suas felicitações, extensivas a todo o pessoal do Arsenal, pela nova e importante construção, que acabavam de realizar.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 18 de Março de 1942)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

História trágico-marítima (CL)


O incêndio a bordo do "Inhambane"

Na doca de Leixões
Um violento incêndio pôs em perigo o vapor português
“Inhambane” tendo sido empregadas 25 agulhetas para
dominar as chamas alterosas e ameaçadoras
A bordo do “Inhambane”, magnifico vapor de dez mil toneladas, que acostou, ante-ontem de manhã na doca nº 1 de Leixões, declarou-se incêndio, violento, com proporções inicialmente assustadoras. O “Inhambane” viera de Lisboa com 1.900 toneladas de nitrato de sódio e 250 toneladas de carga diversa, pertença da Companhia União Fabril, que é, também, proprietária do navio.
Após a entrada na doca, amarrado no lado Sul, começaram os trabalhos de descarga. Os porões da ré foram os primeiros a ser aliviados. Quando a descarga estava bastante adiantada é que o incêndio se manifestou.
Pouco passava das treze horas. O pessoal retomava o serviço, suspenso pouco antes – foi quando o encarregado dos estivadores encontrou um saco de nitrato de sódio a arder. Dado o alarme, recorreram aos extintores de bordo. Mas o fogo não cedeu. Pelo contrário – propagou-se a toda a mercadoria, e, dentro em pouco, o porão nº 5 era, igualmente, pasto das chamas.
Mesmo antes de serem pedidos os socorros, compareceram, no local, os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça. O serviço de ataque ao fogo foi montado sob a direcção do Inspector de Incêndios do concelho de Matosinhos sr. Coronel Alberto Laura Moreira. Entretanto chegaram ao local do sinistro os corpos activos dos Bombeiros Voluntários de Leixões, de S. Mamede de Infesta e Moreira da Maia.
As chamas, crepitantes, saíam dos porões e elevavam-se a alguns metros, enquanto nuvens de fumo, compactas, subiam no espaço e – pode afirmar-se sem exagero – cobriam e escureciam o céu em Leixões e Matosinhos.

Foto do vapor "Inhambane" a chegar a Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Características do vapor "Inhambane"
Armador: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes
Nº Oficial: 446-E - Iic: H.I.N.B. - Registo: Lisboa, 21.07.1925
Construtor: J. C. Tecklemborg, Geestemunde, Alemanha, 08.1912
ex “Essen”, Deutsch-Australische D.G., Hamburgo, 1912-1916
ex “Inhambane”, Transp. Marítimos do Estado, Lisboa, 1916-1925
Propulsão: J.C. Tecklemborg, 1912 - 1:Te - 3.600 Ihp - 12,5 m/h
2º Registo
Nº Oficial: 446-E - Iic: C.S.A.V. - Porto de Registo: Lisboa, 1933
Arqueação: Tab 5.943,84 tons - Tal 3.684,48 tons
Dimensões: Ff 142,92 mt - Pp 137,57 mt - Bc 17,44 mt - Ptl 8,14 mt
Equipagem: 45 tripulantes - 9 passageiros
Vendido ao armador Grego A. Frangistas Manessis em 1955, alterando-lhe o nome para “Vassiliki”, passando a navegar com registo Costa-riquenho. Foi finalmente vendido para demolição em Hong-Kong, em 23 de Maio de 1959.

Do local e dos lugares distantes acorreu gente. Nas imediações da doca, contidas à distância pela guarda, viam-se milhares de pessoas. O espectáculo, sinistro, trágico, chamava a atenção de todos. Aos olhos dos assistentes e até aos olhos dos bombeiros, afigurou-se tragédia de gravíssimas consequências. O fumo e o cheiro intoxicava os abnegados bombeiros, mas eles, heroicamente, obedecendo, disciplinados, ao comando do coronel Laura Moreira, com mascaras contra gás ou sem elas, combatiam, de agulheta em punho, as chamas, e desciam aos porões, resolutamente, sem medirem o perigo ameaçador que os envolvia.
Se não fosse a inteligência posta à prova no ataque ao incêndio e o heroísmo dos bombeiros, talvez o vapor se tivesse perdido.
Felizmente o fogo pôde considerar-se extinto duas horas após o seu início, tendo ficado limitado aos dois porões, parcialmente inundados com a água das dezassete agulhetas empregadas pelos bombeiros das quatro corporações atrás referidas, duas do rebocador “Tritão”, uma do “Manolito”, e quatro de duas barcaças da Administração dos Portos do Douro e Leixões, no total de vinte e cinco agulhetas, alimentadas por uma auto-bomba e doze moto-bombas.
Durante o incêndio ficaram ligeiramente feridos alguns bombeiros e trabalhadores. Entre outros, receberam curativo na ambulância dos Voluntários de Leixões, dirigida pelos enfermeiros Enio Sampaio Batista e José Beleza de Pinho: Carlos Ribeiro Moreira, de 52 anos, 2º maquinista da Administração dos Portos, com escoriações nas mãos e dedos; Manuel Marques, de 43 anos, motorista da Administração dos Portos, com contusão nos dedos da mão esquerda, e o guarda-fiscal nº 284, da 2ª Companhia, com escoriações no joelho esquerdo e nos cotovelos.
Estiveram no local do incêndio o presidente da Câmara de Matosinhos e o Delegado Policial, srs. dr. Fernando Aroso e Sá Lima; o capitão do porto sr. comandante João Pais e o gerente da Companhia União Fabril, no Porto, sr. engenheiro Manuel Domingues dos Santos.
À noite começaram os trabalhos para estancamento dos porões inundados. Os prejuízos são importantes, sendo ainda desconhecidas as causas que deram origem ao incêndio.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 6 de Junho de 1942)