terça-feira, 5 de maio de 2015

Memorativo da Armada


O contra-torpedeiro "Dão"

O lançamento do “Dão” será radiodifundido
pela Emissora Nacional
É depois de amanhã que se realiza, pelas 17 horas, nos estaleiros da Sociedade de Construções Navais, a cerimónia do lançamento à água do novo contra-torpedeiro “Dão”. A partir das 16 e 30 a Emissora Nacional estará ligada aos estaleiros para fazer a transmissão dos discursos e de toda a cerimónia.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 27 de Julho de 1934)

Foto do contra-torpedeiro "Dão" de autor desconhecido
Minha colecção

Ressurgimento da Marinha de Guerra Portuguesa
Foi hoje lançado à água o contra-torpedeiro “Dão”
Revestiu-se de grande brilhantismo a cerimónia, que hoje se realizou para o lançamento à água do contra-torpedeiro “Dão”, nos estaleiros da Sociedade de Construções Navais.
Milhares de pessoas acorreram ao vasto recinto, que se encheu completamente, sendo rigoroso o serviço de Polícia, em face do grande número de convidados.
A partir das 15 horas, a multidão começou a entrar nos estaleiros. Ao longo da carreira onde o novo navio de guerra aguardava embandeirado em arco, à hora do lançamento, formou uma companhia do Corpo de Marinheiros da Armada, com a banda da Marinha, para prestar honras. Em outros locais viam-se as bandas de Caçadores 5, de Sapadores de Caminho-de-ferro e da Escola Profissional D. Maria Pia.
Em talhões reservados agrupavam-se delegações de vanguardistas e o Orfeão Académico de Lisboa, bem como outros estudantes.
As entidades estiveram presentes em grande número; Oficiais Generais da Armada e do Exército, funcionalismo superior, União Nacional, organismos económicos, etc. Entre a assistência viam-se centenas de senhoras e muitos oficias uniformizados.
Pouco depois das 16 horas foram encerrados os portões dos estaleiros, a fim de ser feita a conveniente arrumação do povo nos recintos disponíveis.
Nessa altura já se encontravam presentes os membros do governo, que aguardavam junto da tribuna de honra a chegada do sr. presidente do ministério. Com o governo estavam também os srs. engenheiro Maurício Tabar, director da Sociedade de Construções Navais e António Ferro, director do Secretariado da Propaganda, departamento que organizou a cerimónia.
O sr. dr. Oliveira Salazar chegou pouco antes das 17 horas, recebendo as honras da ordenança e subindo imediatamente para a tribuna de honra a fim de dar ao “Dão” o tradicional impulso.
O chefe do Governo fez, nesta altura, ao microfone da Emissora Nacional, o seguinte discurso:
A oferta do Governo à Nação, presente de operários portugueses aos seus irmãos marinheiros, mais um navio da Armada que vai começar a sua vida de mar, não deixemos que as águas o beijem sem que algumas gotas de vinho do Dão, de que leva o nome e o sentimento bem portugueses, correm em sinal de alegria e sinceridade, por onde um ano de árduo trabalho já fez correr o suor de portugueses também. Assim, pouco a pouco, a pano lento mas firme reentramos dentro do possível para bem da tradição.
Antes que enfunassem com o vento, rasgassem as águas patrióticas, vicejaram na nossa terra, cresceram pelos vales e encostas as velas, os mastros, as quilhas das naus que deram voltas ao mundo.
Glória ao Trabalho Nacional! Glória à Armada Portuguesa! Glória a Portugal!
Em seguida quebrou uma garrafa de vinho do Dão e o navio deslizou pela carreira, por entre manifestações de regozijo.
O “Carvalho Araújo”, que seguiu para o Porto, salvou com 21 tiros a nova unidade da Marinha de Guerra. O Orfeão Académico cantou no final uma estrofe dos «Lusíadas».

Telegramas de saudação

A propósito do lançamento ao mar do contra-torpedeiro “Dão”, o sr. presidente do Conselho recebeu hoje o seguinte telegrama:
Santa Comba – Ao ser lançado à água o contra-torpedeiro “Dão”, a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, saúda em Vª.Exª. o português ilustre, a quem a Pátria tanto deve e faz votos para que a obra de ressurgimento integral à qual Vª.Exª. consagra todo o esforço da sua vida tenha plena realização.
O presidente da Câmara (a) Alfredo Ferrão

Santa Comba Dão – No dia jubiloso do lançamento ao mar do contra-torpedeiro “Dão”, nome que lhe foi dado como justa homenagem aos altos méritos, virtudes, serviços patrióticos e relevantes de Vª.Exª. – A bem da Nação, a Associação Comercial e Industrial de Santa Comba Dão tem a honra de apresentar a Vª.Exª. as suas respeitosas saudações e cumprimentos.
Pela direcção (a) Caetano Figueiredo

Viseu – Excelência - Na ocasião em que é lançada ao mar a nova unidade da nossa marinha, que ostentará o nome de um rio da nossa Beira, a Associação Comercial e Industrial de Viseu congratula-se por tal facto e apresenta a Vª.Exª. os seus melhores cumprimentos de homenagem.
Pela direcção (a) Mário Marques, presidente
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Julho de 1934)

Nova unidade naval - O contra-torpedeiro "Dão"
Deve efectuar-se no fim da corrente semana, possívelmente no sábado, a cerimónia da entrega do navio ao governo e da incorporação na esquadra do novo contra-torpedeiro "Dão".
A bordo haverá a formatura regulamentar à leitura dos documentos oficiais respeitantes ao acto e no final será içada, com todas as honras militares a bandeira nacional, seguindo depois o navio da muralha dos estaleiros para o quadro dos navios de guerra.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 18 de Dezembro de 1934)

Nova unidade naval
O contra-torpedeiro “Dão”
Foi assinada uma portaria que manda passar a completo armamento com lotação provisória o novo contra-torpedeiro “Dão”, a qual se compõe de um comandante, capitão-de-fragata Moura Braz; imediato, capitão-tenente Galião Roma; chefe de maquinistas, 1º tenente engenheiro maquinista Vitor Feio; 4 tenentes, 1 oficial de administração naval, 9 sargentos condutores de máquinas, um sargento de manobra, 1 sargento enfermeiro, 3 sargentos de artilharia, 1 sargento torpedeiro, 1 sargento eletricista, 1 sargento radio-telegrafista e 82 praças.
Este navio é entregue ao Governo no próximo sábado, pelas 15 horas, assistindo ao acto os srs. ministro da Marinha, comandante geral da Armada e demais autoridades de marinha, não assistindo o sr. Presidente do Ministério, como tencionava, devido ao seu estado de saúde.
A guarnição do navio embarca na sexta-feira à tarde.
Para solenizar a entrega, foram mandados comparecer a banda de música da Armada, uma força e um terno de clarins.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 3 de Janeiro de 1935)

O contra-torpedeiro “Dão”
Foram convidados os oficiais da Armada a assistir ao acto de entrega do novo contra-torpedeiro “Dão”.
Este navio depois de entregue à comissão de recepção presidida pelo sr. capitão-de-fragata Azevedo França, irá amarrar à boia em frente do Arsenal, sendo a partir daí incorporado na esquadrilha de torpedeiros e contra-torpedeiros.
Findo este acto, a casa construtora oferece ao sr. ministro da Marinha um “Porto de Honra”.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Janeiro de 1935)

Marinha de Guerra
Foi hoje incorporado na esquadra portuguesa
o contra-torpedeiro “Dão”
Mais um belo navio de guerra foi hoje incorporado na Armada: o contra-torpedeiro “Dão”, entregue esta tarde ao governo português.
Pouco antes da hora marcada para a cerimónia oficial da entrega, juntaram-se no cais da Sociedade de Construções Navais, onde a nova unidade se encontra atracada, alguns oficiais da Armada, entre os quais figuravam os srs. comandante Carvalho Crato, director do Material de Guerra; Santos Fradique, chefe do Estado Maior do Comando Geral da Armada; Afonso de Carvalho, comandante do contra-torpedeiro “Vouga”; Rodrigues, chefe do Departamento Marítimo do Centro e Botelho de Sousa, comandante da flotilha ligeira.
Às 15 e 15 horas chegou ao cais o sr. comandante Mesquita Guimarães, acompanhado pelos srs. almirante Muzanty, chefe do Estado Maior Naval e Castro Ferreira, intendente do Arsenal, Pinto Basto, Maurice Tabar, director dos estaleiros e outras individualidades.
Recebido ao portaló pelo comandante da nova unidade, sr. capitão-de-fragata Moura Braz, pelo imediato sr. capitão-tenente Galeão Roma e por toda a restante oficialidade, o sr. comandante Mesquita Guimarães passou em seguida revista à guarnição, alinhada no convés de bombordo.
Na câmara do navio procederam, em seguida, à leitura dos autos de entrega e recepção do navio, que foram assinados respectivamente pelos srs. Marriner, da casa Yarrow, e Pinto Basto, e comandante Azevedo Franco, presidente da comissão de recepção da nova unidade.
Depois de assinados estes documentos usou da palavra o sr. ministro da Marinha, que afirmou que o dia de hoje é de duplo regozijo para o governo, por receber um navio novo e todo ele feito por operários portugueses. O sr. comandante Mesquita Guimarães terminou por pedir ao director dos estaleiros, sr. Maurice Tabar, que transmitisse a todas as pessoas que trabalharam na construção do navio as saudações da Armada Portuguesa.
Usou depois da palavra o sr. Marriner, que em inglês, saudou o governo português e se congratulou com a entrega do contra-torpedeiro “Dão”.
Por fim, o sr. Maurice Tabar recordou a dedicação com que todos os operários portugueses trabalharam na construção do novo contra-torpedeiro enaltecendo as qualidades dos novos trabalhadores. Ao concluir, afirmou que toda a guarnição do navio vai ter certamente em conta o facto de ele ter sido construído inteiramente em Portugal, pois que isso deve constituir um estímulo para melhor cumprirem ainda o seu dever.
Finda a pequena série de discursos, o sr. Pinto Basto ofereceu um lindo centro de mesa, para o navio e o sr. Marriner ergueu um «viva» ao sr. ministro da Marinha, que foi correspondido pela oficialidade.
O sr. comandante Mesquita Guimarães, acompanhado por todos os oficiais presentes, dirigiu-se em seguida para a popa do “Dão”, a fim de assistir à cerimónia do içar da bandeira, pela primeira vez, no mastro da ré.
O imediato da nova unidade, sr. capitão-tenente Galeão Roma procedeu aí à leitura das portarias que mandam passar o navio ao estado de completo armamento e nomear o respectivo comandante.
Finda a leitura, o sr. comandante Santos Fradique, chefe do Estado Maior do Comando Geral da Armada, pronunciou um breve discurso, em que enalteceu as vantagens que para a Armada advirão da execução do programa naval, elogiou as qualidades do oficial escolhido para comandar o “Dão” e afirmou que aos esforços da nação para realizar a obra do ressurgimento da Marinha saberão os marinheiros corresponder, tirando o maior rendimento do material que lhes é confiado.
O sr. capitão-de-fragata Moura Braz, comandante do navio, proferiu também algumas palavras dizendo que procurará corresponder inteiramente à confiança nele depositada. Afirmou ter absoluta confiança na guarnição do “Dão” e que esta unidade é a última palavra da técnica naval. Dirigindo-se ao ministro da Marinha, declarou que o governo e a Nação podem confiar em que o “Dão” será aproveitado com a maior eficiência.
Voltando-se para a guarnição acrescentou:
- E tomemos todos o compromisso formal de que honraremos sempre o símbolo sagrado da bandeira que vai ser içada pela primeira vez, neste navio.
Entretanto, ao som da «portuguesa» e do toque de sentido, um sargento procedeu ao içar da bandeira nacional, que fôra conduzida numa salva de prata.
Terminada esta cerimónia, o sr. comandante Mesquita Guimarães ergueu dois vibrantes «vivas» à Pátria e à República, ao chefe de Estado, ministro das Finanças e ao trabalho nacional, que foram calorosamente correspondidos pelas pessoas que se encontravam a bordo e no cais, entre os quais figuravam os operários que construíram a nova unidade naval.
O “Dão”, com o sr. ministro da Marinha a bordo e alguns convidados, abandonou em seguida o cais em direcção ao quadro de marinha de guerra, onde todos os navios estavam embandeirados no tope.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 6 de Janeiro de 1935)

A nova esquadra
Cumprimentos do comandante do contra-torpedeiro “Dão”
O comandante do novo contra-torpedeiro “Dão”, sr. capitão-de-fragata Moura Braz foi hoje apresentar-se e cumprimentar o sr. ministro da Marinha, comandante Geral da Armada, chefe do Estado Maior Naval, intendente do Arsenal, comandante superior das Forças Navais surtas no Tejo e comandante em chefe da esquadrilha de contra-torpedeiros, em cuja unidade fica incorporado.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 8 de Janeiro de 1935)

A nova esquadra
O contra-torpedeiro “Dão”
O sr. ministro da Marinha conferenciou hoje com o sr. Marriner, engenheiro representante do estaleiro construtor Yarrow. Também o sr. engenheiro Sir Arald Yarrow enviou àquele titular um telegrama felicitando-o pela construção do nosso contra-torpedeiro “Dão”.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 9 de Janeiro de 1935)

domingo, 3 de maio de 2015

História trágico-marítima (CXLIX)


O naufrágio da canhoneira “Liberal”

Naufragou a canhoneira “Liberal”
Lisboa, 25 de Junho – Foram recebidos telegramas de Luanda informando que a canhoneira “Liberal” foi a pique, no Ambriz, no dia 22 do corrente, em consequência de ter batido nuns cachopos. Por felicidade a catástrofe não causou vítimas.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 26 de Junho de 1910)

A canhoneira "Liberal" - Pintura de autor desconhecido
Imagem da colecção do Arqtº. António Meneres

O naufrágio da canhoneira “Liberal”
Poucos dias depois do lançamento ao mar de um novo navio da armada portuguesa, era recebido em Lisboa um telegrama por via de Londres, dando notícia de ter ido a pique, no Ambriz, a canhoneira “Liberal”, em consequência de ter batido nuns cachopos. Triste coincidência.
Felizmente a perda foi só material, pois conforme o mesmo telegrama, salvaram-se todas as vidas que iam a bordo. A “Liberal”, além da sua guarnição, de cerca de cem pessoas entre oficialidade e praças, levava a bordo o governador geral de Angola, sr. tenente coronel Roçadas, o herói do Cuamato, e uma força militar que ia fazer a ocupação de alguns postos ao sul do Ambriz, visando principalmente as regiões dos cuamatos e dos cuanhamas.
Os náufragos foram todos salvos pelo vapor “Vilhena” e conduzidos para bordo do transporte “África”, que há tempos se encontra no porto de Luanda, servindo de depósito de guerra.
A “Liberal” era ainda um navio válido, pois fora construída em 1884, em Inglaterra, nos estaleiros de Laydrs, conjuntamente com a “Zaire”, do mesmo tipo e muito elegante em suas linhas gerais. Armava em lugre-barca, com mastreação e velame, além da máquina de força de 500 cavalos. Media em comprimento 42,60 metros, com 7,50 metros de boca e 5,20 metros de pontal. A sua deslocação era de 604 toneladas. Armava duas peças Armstrong, duas Hotckiss de tiro rápido e duas metralhadoras.
À construção destas canhoneiras assim como a da corveta “Afonso de Albuquerque” e rebocador “Lidador”, tudo feito na mesma ocasião, assistiram o tenente sr. Alfredo Maia, que com os srs. Carlos Testa e Alfredo Diniz compunha a missão nomeada para esse fim.
O sinistro que acaba de destruir a canhoneira “Liberal” e que tão abruptamente pôs termo à sua existência, não foi o primeiro no género sucedido àquele vaso de guerra, que parecia fadado para os encalhes. De entre os vários encalhes por ela sofridos, embora sem graves consequências, dois deles devemos recordar; um, que deve estar ainda na memória dos leitores, foi o sucedido no Baixo de Pinda, na costa norte de Moçambique, em Março de 1902, devendo-se então o salvamento do navio ao bom estado do mar e aos infatigáveis esforços da sua guarnição; o outro, sucedido nesse mesmo ano, em Outubro, foi no Geyserbank, a noroeste de Madagáscar, quando o navio seguia viagem da Ilha Maurícia, onde tinha ido limpar o fundo e sofrer reparações de que carecia, para Majunga, tendo sido arrastado pelas violentas correntes marítimas, que existem naquelas paragens; desta vez o navio apenas bateu num banco de coral, não encalhando e não tendo felizmente resultado do choque qualquer consequência funesta, que a dar-se um naufrágio naquelas paragens, pela distância que fica de terra, toda a guarnição seria vitimada.
Não é conhecido em que circunstâncias se deu o actual sinistro, mas pelo conhecimento, embora imperfeito, que temos da costa de Angola, supomos que o navio, quando em viagem entre alguns dos portos do norte daquela província, tenha batido, muito provavelmente, no baixo conhecido pelo nome de “Cabeça de Cobra” e que fica mais ao norte do Ambriz.
Foi aí que se deu o sinistro? Não temos dados para o afirmar!
A existência da canhoneira “Liberal” como navio de guerra, só se podia explicar actualmente pela pobreza do nosso material naval, pois não possuía nenhum dos requisitos requeridos para navios destinados àquele fim. Outro tanto diremos das suas condições de habitabilidade, que eram muito precárias.
Parece mesmo que as estações superiores de marinha já tinham resolvido não autorizar grandes fabricos, de que por ventura o navio viesse a necessitar, atentas ao seu nenhum valor militar, e, pela força das circunstâncias, dentro de poucos anos devia ser riscado da lista dos nossos navios de guerra, como forçosamente tem de suceder à maior parte do nosso velho e gasto material naval, que tem de ser renovado, se quisermos possuir marinha de guerra, que mereça esse nome.
In Revista “O Ocidente”, nº 1134, de 30 de Junho de 1910
(Reis, A. Estácio dos, Os Navios d’O Occidente, Edições Culturais de Marinha, Gradiva Publicações, Lda., Lisboa, 2001)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

História trágico-marítima (CXLVIII)


O afundamento do vapor "Alpha"

O vapor de carga português “Alpha” foi afundado
Lisboa, 24 – A Sociedade Luso-Marítima recebeu comunicação telegráfica de que o seu vapor de carga “Alpha” se perdeu em viagem para o Norte, ignorando a causa do naufrágio.
Depois de ter recebido aquela informação a empresa armadora do “Alpha” foi informada que 23 dos náufragos tinham seguido ontem de manhã, em comboio, de S. Sebastião para Lisboa.
A tripulação chegou a Vilar Formoso, ontem, às 23 e 30, chegando hoje no correio do Norte, às 7 e 50, à estação do Rossio.
O “Alpha” seguia para Liverpool, com um carregamento de bananas. Perto do porto de Brest foi afundado. A tripulação salvou-se em duas baleeiras, que andaram à deriva durante dois dias, até que avistaram a costa da Bretanha, desembarcando os náufragos num porto francês, de onde seguiram para S. Sebastião.
O “Alpha é o antigo vapor “Ibo”, da Companhia Nacional de Navegação, fazendo carreiras costeiras como navio de carga entre o Porto e Lisboa.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 25 de Julho de 1940)

Imagem do vapor "Ibo", da Companhia Nacional de Navegação
Pormenor em postal ilustrado, sobre a Ribeira no Rio Douro

Características do vapor “Ibo”, em Dezembro de 1939
anteriores à venda do navio, que ocorreu em Fevereiro de 1940
Armador: Sociedade Luso-Marítima, Lda., Lisboa
Construtor: Raylton Dixon & Co. Ltd., Middleborough, 1907
Arqueação: Tab 852,84 tons - Tal 421,55 tons
Dimensões: Ff 63,88 mt - Pp 60,97 mt - Bc 9,16 mt - Ptl 4,93 mt
Propulsão: Marine Engines, Newcastle - 1:Te - 3:Ci - 584 Ihp
Equipagem: 23 tripulantes

Ocorrência
No dia 15, pelas 6 horas e 40 minutos, foi avistado uma avião militar, vindo de sueste, voando na direcção do navio, situação entendida face à passagem por uma área identificada como teatro de guerra. Mais tarde às 08 horas e 20 minutos dois aviões semelhantes sobrevoaram o navio e às 10 horas e 15 minutos outros dois aviões passaram na área e desapareceram.
Os aviões em questão eram trimotores, pintados de verde-escuro, ostentando uma cruz preta sobre fundo branco. Todos eles limitaram-se a observar o vapor português, até que pelas 13 horas e 10 minutos, foi avistada uma esquadrilha composta por oito aviões, idênticos aos anteriores, que, sem aviso prévio, deram início a um ataque planeado, lançando bombas, enquanto simultaneamente disparavam rajadas de metralhadora.
Por força do ataque, e na firme convicção de que o navio estava seriamente danificado, a tripulação não teve alternativa senão tratar de abandonar o navio, pelas 15 horas, quando se encontravam na posição 48º51’N e 06º43’W.
Verificando que o navio submergia-se, os aviões retiraram e por sua vez os náufragos acondicionados nas respectivas baleeiras rumaram em direcção a terra, até encontrarem uma chalupa de pesca francesa, que os rebocou para o porto francês de Audierne.

Os náufragos do vapor português “Alpha”
chegaram ontem a Lisboa
Lisboa, 25 – Chegaram esta manhã a Lisboa, num dos comboios correios da noite, os náufragos do vapor português “Alpha”, que se perdeu quando navegava para Inglaterra com um carregamento de bananas.
Na estação do Rossio eram os náufragos aguardados por familiares e por um funcionário superior da empresa Luso-Marítima, proprietária do navio.
Os náufragos são os seguintes: José Ferreira de Oliveira, comandante; José Dias Laranjeira, imediato; Francisco Silvestre, 2º piloto; Cândido Cruz, contra-mestre; José Cageira, António de Oliveira e Pedro Lopes, marinheiros; João Charrão e Renato Ricardo, moços; António Cruz Paiva, 1º maquinista; Horácio Santos Simões, 2º maquinista; Álvaro Santos Alves, 3º maquinista; António Pedroso, António Cunha e José Santos, fogueiros; Francisco Beato e António Silva, chegadores; João Brito Namorado, cozinheiro; José Maria, ajudante de cozinheiro; Henrique dos Reis e João Silva, criados.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 26 de Julho de 1940)

Aos náufragos do vapor “Alpha” foram concedidas passagens
para as suas terras e um subsídio pecuniário
No Instituto de Socorros a Náufragos apresentaram-se, ontem, os náufragos do vapor “Alpha” que se afundou no mar do Norte, em 15 do corrente. Foram-lhes dadas passagens para as suas terras e um subsídio pecuniário.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 28 de Julho de 1940)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pesca do bacalhau


Conversas improváveis! (I)
O “Paços de Brandão”, que chegou, ontem, dos bancos da Terra Nova, aguarda, em frente do cais, que lhe aliviem o porão dos 3.000 quintais de bacalhau, que muitos provarão, mais tarde, com certeza… E o moço da câmara e o moço do convés, companheiros de lufa e bons amigos, olham o Douro que cintila e esperam, ansiosos a hora do regresso à terra natal, onde elas os esperam, tão fiéis como o fiel amigo…

Em busca do “fiel amigo”…
O primeiro lugre que voltou da Terra Nova e o que conta Samuel Sacramento Salvadorinho, moço de câmara, que conhece os «bancos», o bacalhau e a pescaria como os seus dedos tisnados…

Quatro horas da tarde, em Massarelos, frente ao rio. O Douro cintila. Parece uma chapa metálica, pintada de azul escuro, manchada, aqui e ali, de borrões mais claros, mais sombrios.
- Deve ser aquele…
É. De longe, do cais, em que o vulto sonolento dum guarda-fiscal põe uma vaga nota de fronteira, o barco parece enterrado no rio.
Deve estar carregadíssimo. E no casco, de que só emerge muito pouco, estão bem impressos, bem flagrantes, bem nítidos, os sinais de derrota longa, por águas salgadas e violentas.


Um caíque põe-nos a bordo, num ápice. Uma escada de corda, muito curtida pelo mar, muito poída pela serventia.
- Está alguém a bordo? Quem daí pode falar connosco?
Duma trincheira de barquitos, erguida a meio do lugre, irrompe um rapagão crestado, tresandando a maresia e bramindo:
- Pronto!
E a conversa começa, sem outro preâmbulo que não seja o de defender o nariz, por um momento, do odor fortíssimo que sobe do porão e invade toda a coberta…
O lugre chama-se “Paços de Brandão”. Pertence à praça do Porto e ao armador Silva Rios.
Foi o primeiro a regressar dos bancos da Terra Nova, atulhado de bacalhau – e eis a origem de tanta curiosidade. Chegou, ontem, em frente a Massarelos, fundeadouro clássico dos lugres que vão, todos os anos, para a faina da pescaria.
O capitão, - um verdadeiro lobo do mar, na frase do rapagão crestado que nos fala – chama-se João Francisco Bichão e é natural de Ílhavo, terra de pescadores, de alguns dos melhores pescadores de Portugal. O piloto dá pela graça de João Pereira Campos e é de Ílhavo, também. O contra-mestre, Humberto Grilo, nasceu na mesma terra. Todos os altos comandos deste comprido navio de três altos mastros, que está cheio como um ovo, estão entregues a ilhavenses. É Ílhavo que dita, ali dentro, a lei.
- E você de onde é?
Samuel Sacramento Salvadorinho, o rapagão de botas altas e camisa de quadrados à escocesa que temos pela proa, responde, com um gesto largo, que tem o seu quê de glorioso, de triunfante, de épico:
- Eu cá sou de Ílhavo, também!
- E o resto da companha?
- É consoante… Alguns são de Setúbal. É, também, temos algarvios, mas a maior parte é de Ílhavo!
- Quantos são, ao todo?
- 28, com os oficiais, comigo e, aqui, com o João São Marcos – e amigo Samuel levanta a dextra até ao pescoço do único companheiro de bordo que está presente, que é moço do convés, que tem 22 anos de idade e que tem o carão mais sardento e o ar mais marítimo deste mundo.
E o Samuel continua, sacudido de voz como todo o marujo que se preza, a esclarecer quanto à vida de bordo e à actividade da tripulação.
Partiu o “Paços de Brandão” em 19 de Maio, do mesmo sítio em que está, agora, ancorado. Ao cabo de 12 dias de mar bom chegava ao banco. Por ali se demorou, na lufa da pesca, até 4 deste mês (Setembro). E ei-lo que está de volta, ao fim de uma viagem tão calma como a de ida. Pomos umas reticências, que não chegam a ser interrogação:
- Para cá levou mais dias…
- Pois… É que vinha carregadinho! Nestes quatro meses de mar o “Paços de Brandão” não perdeu tempo.
- Quantos quintais trazem, aí dentro?
- O Samuel Sacramento Salvadorinho, que não tem papas na língua, grita, simplesmente:
- Coisa para 3.000!
E o São Marcos, que lembra certas figuras de certas histórias nórdicas, corrobora, do lado, enterrando mais o gorro de lã que o viu limpar, durante meses, o convés encardido:
- Deve ser isso.

Foto do lugre "Paços de Brandão"
Imagem de autor desconhecido

Depois, quando a informação cronológica e mercantil está esgotada, o Samuel fala, mais pachorrentamente, da vida, das coisas, dos prazeres e das tristezas de bordo.
Quando não pescavam, passavam à brisa – a brisa é o tempo de puro lazer – de papo para o ar, chalaceando, rindo, gozando a paz imensa do Atlântico, que é pitoresco, a valer, junto dos bancos…
Uma santa comunidade a daqueles homens que andavam à cata do fiel amigo. Comia-se e bebia-se, para ter forças. Se elas faltassem…
- Nunca foi preciso médico?
O Samuel sorri:
- Isso é coisa que não há. Se algum tem qualquer maleita, bota-se-lhe tintura de iodo.
Conformado:
- O mar é que é o médico. E se algum virar, borda fora…
Depois, conta como se faz a pesca. É uma descrição pormenorizada, dum grande relevo técnico, que enfadaria o leitor. Os pescadores saem naqueles barquitos que se empilham sobre o tombadilho e passam horas e horas, deitando a linha.
Se o peixe não cai, há ralho do capitão, pela certa. E o pescador, que é, sempre, brioso, que tem, sempre, o culto da sua profissão arriscada, faz tudo o que pode para marcar a sua posição, para se impôr, para ter jus ao louvor do capitão que se traduz – findo o prazo da matricula, em remuneração mais quantiosa.
- Quantos barcos ficaram?
- Para a Terra Nova foram 7. Não tardam aí…
E o Salvadorinho explica que os outros barcos vão para a Gronelândia, onde o peixe não falta e é muito bom, também.
Depois, como não há mais por onde segurar as escoras da conversa, o rapagão, tostado do sol que apanhou, no cruzeiro da pesca, anuncia que finda a descarga, irá para Ílhavo, a sua terra querida, onde o esperam dois olhos muito meigos que se perdem, todos os dias, na visão do mar largo…
- E, depois, até ao ano, que é que se faz?
- Nada. Está-se à boa vida… Em Maio, torna-se.
E anda nisto o Samuel, que desempenha as funções de moço da câmara, há dois anos bem puxados. Já navegou no “Funchalense”, um naviozito de carga que o iniciou na vida do mar.
- Gosta dessa vida?
- A gente afaz-se. Não há remédio… E sentou-se na amurada, olhando os batéis do bacalhau, frágeis como a vida de quem anda no mar. Do porão vinha, entretanto, o cheiro forte a peixe fresco… E o Douro continuava a cintilar, alheio a tudo aquilo…
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 21 de Setembro de 1934)

Para o Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau o Samuel Salvadorinho, que estaria nos próximos meses prestes a completar 100 anos, se por fortuna estivesse vivo, era antes de mais o Nº 1084, conforme consta na respectiva ficha, cuja cópia me foi gentilmente cedida pelo Museu Marítimo de Ílhavo.
Mas a realidade é distinta. O moço de câmara, tal lobo do mar retratado através do texto, revelou-se ser um elemento indispensável a bordo de todos os navios onde esteve embarcado, e foram vários durante muitos anos, tais como: 1936- lugre “Palmeirinha”, moço; 1938- lugre “Argus”, pescador; 1939/1940/1941- lugre “Creoula”, 1ª linha; 1942/1943/1944- lugre “Creoula”, especial; 1945- arrastão “Pedro de Barcelos”, maduro; 1946/1947/1948/1949/1959/1951- lugre “Creoula”, especial; 1952/1953- navio-motor “Capitão João Vilarinho”, especial e 1ª linha; 1954/1955- navio-motor “Conceição Vilarinho”, 1ª e 2ª linha; 1956/1957/1958- navio-motor “Capitão João Vilarinho”, 1ª e 2ª linha e 1959/1960- navio-motor “Neptuno”, 3ª linha.
Espero que esta história se recorde por muito tempo, brilhante exemplo de pescador, mas acima de tudo, permito-me ao direito de considerá-lo como um notável “homem do mar”.

domingo, 26 de abril de 2015

Memorativo da Armada


O torpedeiro "Liz"
1921-1934

O desarmamento do “Liz”
O velho torpedeiro “Liz”, que se encontra encalhado junto à carreira do Arsenal, onde estão a construir o aviso “Infante D. Henrique”, deve ficar dentro de um mês completamente despojado de todo o seu recheio aproveitável, que recolherá aos Depósitos de Marinha. O casco do navio será depois vendido em hasta pública, para sucata.
O “Liz” foi um dos torpedeiros recebidos como indemnização de guerra. Pertencia à esquadra austríaca e veio para Portugal com os outros, a reboque do navio de salvação “Patrão Lopes”. O “Liz” esteve então, como os três restantes que com ele vieram, largo tempo abandonado, até que o sr. comandante Pereira da Silva, quando ministro da Marinha, mandou aparelhar os navios e incorporou-os na esquadra.
Estes navios têm aprovado sempre bem, demonstrando uma velocidade apreciável – 30 milhas por hora – pecando apenas por terem um pequeno raio de acção.
O “Liz” fez parte da divisão que prestou honras ao largo da costa aos restos mortais do falecido rei D. Manuel II, aquando da sua vinda para Portugal, a bordo do cruzador inglês “Concord”.
Este navio é o primeiro, destes quatro, a ser desarmado, pois os restantes – “Ave”, “Mondego” e “Sado” – continuam ao serviço em condições satisfatórias.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 15 de Agosto de 1934)

Foto do torpedeiro "Ave", navio igual ao "Liz"
Postal da Marinha Portuguesa - minha colecção

O casco do torpedeiro “Liz” foi vendido em leilão
No Arsenal de Marinha foi hoje vendido em leilão o casco do torpedeiro “Liz”, que foi um dos navios recebidos como indemnização de guerra, após o armistício.
Presidiu ao acto o director dos Serviços Marítimos, sr. capitão de mar-e-guerra Monteiro de Macedo, tendo o casco sido comprado por escudos 25.509$00, pela União de Sucatas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 4 de Outubro de 1934)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

História trágico-marítima (CXLVII)


O afundamento do arrastão "Cabo de S. Vicente"

A 23 milhas da Ericeira, um avião desconhecido afundou
o vapor de pesca português “Cabo de S. Vicente”
Ante-ontem, de manhã, saiu de Lisboa, para a faina da pesca, o vapor “Cabo de S. Vicente”, que deslocava cerca de cem toneladas e pertencia à firma Sociedade Comercial Marítima Lda. Comandava-o o capitão sr José Atebrêdo de Morais e levava 18 homens de tripulação. Pouco depois das 18 horas, o “Cabo de S. Vicente” pairava a 23 milhas da Ericeira. Surgiu, então, um avião de nacionalidade desconhecida, que, após ter sobrevoado o navio durante algum tempo, começou por fazer contra ele uma rajada de metralhadora.
Este súbito ataque foi tomado pelos tripulantes do pesqueiro como um aviso para abandonar o navio e meteram-se, imediatamente, dentro de um escaler, dirigindo-se ao vapor “Açor”, da Companhia Portuguesa de Pesca, comandado pelo capitão sr. Samuel Marques Damas, que estava a pescar no local. Recolhidos a bordo, foram transportados para Lisboa, onde desembarcaram ontem, de manhã.
Do avião foram lançadas, ao mesmo tempo que isto sucedia, duas potentes bombas, de forma oblonga, que rebentaram a bombordo e a estibordo do “Cabo de S. Vicente”, provocando o seu afundamento tão rápido que os tripulantes não tiveram tempo de voltar para recolher os seus haveres. Os náufragos do pesqueiro desembarcaram, ontem, de manhã, no cais do Frigorífico de Santos, onde o “Açor” atracou.

Foto do arrastão "Cabo de S. Vicente", com legenda,
conforme está publicado no jornal "Comércio do Porto"

Este atentado, tão insólito como inexplicável, que nada justifica, levou à perda de mais uma unidade, embora de pequena tonelagem, da nossa Marinha de Pesca. Eleva-se, assim, a seis, o número de navios que o País já perdeu – quatro afundados por submarinos e dois por aviões – durante o actual conflito.
O novo atentado, revoltante manifestação de força, violência injustificável, não pode passar sem o nosso veemente protesto, tanto mais que foi praticado contra gente humilde, que não se podia defender e, confiadamente trabalhava pelo abastecimento da população.
A nossa posição de neutralidade, que tem sido cumprida escrupulosamente, tem de ser reconhecida e respeitada por todos os beligerantes, para que não tenhamos a lamentar qualquer outra agressão desta natureza.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 12 de Março de 1942)

Características do navio de pesca “Cabo S. Vicente”
1924-1942
Nº Oficial: 431-E - Iic: C.S.F.S. - Porto de registo: Lisboa
Armador: Sociedade Comercial Marítima, Lda., Lisboa
Construtor: Cochrane & Sons Ltd., Selby (Glasgow), 1910
ex “H.A.L. Russel”, P. & Haldanes Steam, Hull, 1910-1913
ex “Darracq”, Equitable Steam Fishing, Grimsby, 1913-1923
ex “Cabo Carvoeiro”, -?-, 1923-1924
Arqueação: Tab 269,48 tons - Tal 103,31 tons
Dimensões: Pp 39,86 mts - Boca 6,78 mts - Pontal 3,58 mts
Propulsão: Amos & Smith 1:Te - 3:Ci - 80 Rhp - 10 m/h
Equipagem: 18 tripulantes
Capitão embarcado: José Atebrêdo de Morais

Foto do navio de pesca "Alvôr", construído no mesmo estaleiro
em Selby, em data posterior, mas muito idêntico ao "C.S.Vicente"
Imagem retirada do excelente blog "Restos de Colecção"

O capitão do navio de pesca “Cabo de S. Vicente”, criminosamente afundado na passada terça-feira, a 23 milhas a noroeste do Cabo da Roca, esteve ontem novamente na Capitania do porto de Lisboa, para relatar o sucedido.
Os tripulantes do navio residentes na Ericeira e em Cascais chegaram ante-ontem mesmo às suas terras. Devem vir a Lisboa hoje, a fim de se avistarem com os armadores do navio sinistrado para saberem da sua situação.
Os prejuízos sofridos pela Sociedade Comercial Marítima, Limitada, foram importantes. O navio havia custado cerca de 1.500 contos, mas presentemente valia muito mais, dado o aumento do preço dos materiais. O “Cabo de S. Vicente” tinha, na altura do afundamento, seis redes de pesca, que valiam hoje cerca de 100 contos, com a agravante de não haver presentemente redes no mercado. Com o afundamento do vapor, são seis os navios portugueses metidos no fundo.
O primeiro foi o “Alpha”, da Sociedade Luso-Marroquina, em 22 de Julho de 1940; depois foi o “Exportador I”, da firma Novo Horizonte, em 1 de Junho do ano findo; o “Ganda” da Companhia Colonial de Navegação, em 20 de Junho; o “Corte Real”, da Companhia Carregadores Açoreanos, em 12 de Outubro, e o “Cassequel”, em 14 de Dezembro, pertencente também à Companhia Colonial de Navegação.
O ataque de agora ao “Cabo de S. Vicente” foi feito em condições totalmente diferentes dos que têm sido feitos aos outros navios portugueses. De todos os vapores nacionais afundados, só o “Alpha” foi atacado por um avião que varreu o navio a tiro de metralhadora. O “Cabo de S. Vicente” foi atacado com bombas magnéticas e quase simultaneamente metralhado.
Duas bombas caíram no mar, uma de cada lado do navio e a pequena distância. Enquanto as bombas eram atraídas pelo pesqueiro e rebentavam contra ele, o avião varria o convés, com o firme propósito, não só de destruir o navio, como de matar os seus tripulantes.
Por isso o capitão ainda ontem confessou às autoridades: «Não sei como conseguimos escapar. As balas caíam aos nossos pés!».
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 13 de Março de 1942)

O afundamento do “Cabo de S. Vicente”
Uma nota da Embaixada Britânica
Dos serviços de imprensa da Embaixada Britânica foi recebido, com pedido de publicação, a seguinte nota:
«Com referência ao afundamento do navio português “Cabo de S. Vicente”, na tarde do passado dia 10, as autoridades navais britânicas de Gibraltar informam que nenhum avião inglês ou aliado se encontravam naquelas paragens nessa ocasião».
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Março de 1942)

P.S.- Com a publicação do ataque aéreo, que ocasionou o afundamento do navio de pesca “Cabo de S. Vicente”, fica quase completa a transcrição e narração no blog dos seis navios abatidos, de acordo com a informação referida no texto.

terça-feira, 21 de abril de 2015

História-trágico-marítima (CXLVI)


O naufrágio do lugre " Ilda "
1934-1934

Encalhou o lugre “Ilda” à saída da barra de Aveiro
Aveiro, 13 – Hoje, na praia-mar, da manhã, quando o lugre “Ilda” carregado de sal, com 11 pés de calado, saía a barra rebocado pelo rebocador “Vouga”, um violento estoque de água lançou-o para um banco de areia a leste da barra, onde encalhou.
Este navio destinava-se aos Açores e pertencia ao sr. Daniel da Silva, de Angra do Heroísmo.
A barra mantém, como calado 17 pés.
A tripulação, que foi salva por barcos de pescadores, pertence à vila de Ílhavo, bem como o seu comandante, sr. António de Oliveira Abelha, e piloto o sr. José Russo.
O lugre estava seguro numa companhia inglesa e foi encalhar na praia, ao sul do farol de Aveiro. Foi perdido, também, um gasolina que se empregava no salvamento da tripulação do navio.
O lugre começa amanhã a desaparelhar, pois o casco considera-se perdido.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 14 de Agosto de 1934)

O "Ilda" encalhado sobre o banco de areia
Foto de autor desconhecido - imagem do A.D. de Aveiro

Dia de romaria na barra para ver o navio encalhado, com escada a permitir o acesso fácil aos proprietários, tripulantes e seus familiares para eventualmente avaliar e ajuizar dos prejuízos. Muito provavelmente terá sido, também, o tempo e a oportunidade da tripulação, para recuperar os equipamentos e as bagagens deixadas a bordo.

Características do "Ilda"
Armador: Daniel da Silva, Angra do Heroísmo
Nº Oficial: B-221 - Iic: N/s - Registo: Angra do Heroísmo
Construtor: António Dias dos Santos, Fão, 04.1906
ex “Argonauta”, Soc. Nacional Pescarias, Lisboa, 1906-1921
ex “Argonauta”, Soc. Argonauta, Lda., Aveiro, 1921-1926
ex “Elzira”, Soc. de Navegação e Pesca, Aveiro, 1926-1934
Arqueação: Tab 225,27 tons - Tal 189,30 tons
Dimensões: Pp 36,75 mts - Boca 8,40 mts - Pontal 3,47 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: António de Oliveira Abelha

Foto do encalhe do "Ilda" de autor desconhecido
Imagem (c) da colecção de Francisco S. Cabral

Em Aveiro – O encalhe do lugre “Ilda”
O lugre português “Ilda”, da praça de Angra do Heroísmo, encalhou num banco de areia, pelo sul do farol de Aveiro. O encalhe deu-se, no dia 13 do corrente, quando o lugre saía aquela barra a reboque do rebocador “Vouga I”, tendo o sinistro sido provocado por um estoque de água.
(In jornal “Comercio do Porto”, quinta, 16 de Agosto de 1934)