quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pesca do bacalhau


Conversas improváveis! (I)
O “Paços de Brandão”, que chegou, ontem, dos bancos da Terra Nova, aguarda, em frente do cais, que lhe aliviem o porão dos 3.000 quintais de bacalhau, que muitos provarão, mais tarde, com certeza… E o moço da câmara e o moço do convés, companheiros de lufa e bons amigos, olham o Douro que cintila e esperam, ansiosos a hora do regresso à terra natal, onde elas os esperam, tão fiéis como o fiel amigo…

Em busca do “fiel amigo”…
O primeiro lugre que voltou da Terra Nova e o que conta Samuel Sacramento Salvadorinho, moço de câmara, que conhece os «bancos», o bacalhau e a pescaria como os seus dedos tisnados…

Quatro horas da tarde, em Massarelos, frente ao rio. O Douro cintila. Parece uma chapa metálica, pintada de azul escuro, manchada, aqui e ali, de borrões mais claros, mais sombrios.
- Deve ser aquele…
É. De longe, do cais, em que o vulto sonolento dum guarda-fiscal põe uma vaga nota de fronteira, o barco parece enterrado no rio.
Deve estar carregadíssimo. E no casco, de que só emerge muito pouco, estão bem impressos, bem flagrantes, bem nítidos, os sinais de derrota longa, por águas salgadas e violentas.


Um caíque põe-nos a bordo, num ápice. Uma escada de corda, muito curtida pelo mar, muito poída pela serventia.
- Está alguém a bordo? Quem daí pode falar connosco?
Duma trincheira de barquitos, erguida a meio do lugre, irrompe um rapagão crestado, tresandando a maresia e bramindo:
- Pronto!
E a conversa começa, sem outro preâmbulo que não seja o de defender o nariz, por um momento, do odor fortíssimo que sobe do porão e invade toda a coberta…
O lugre chama-se “Paços de Brandão”. Pertence à praça do Porto e ao armador Silva Rios.
Foi o primeiro a regressar dos bancos da Terra Nova, atulhado de bacalhau – e eis a origem de tanta curiosidade. Chegou, ontem, em frente a Massarelos, fundeadouro clássico dos lugres que vão, todos os anos, para a faina da pescaria.
O capitão, - um verdadeiro lobo do mar, na frase do rapagão crestado que nos fala – chama-se João Francisco Bichão e é natural de Ílhavo, terra de pescadores, de alguns dos melhores pescadores de Portugal. O piloto dá pela graça de João Pereira Campos e é de Ílhavo, também. O contra-mestre, Humberto Grilo, nasceu na mesma terra. Todos os altos comandos deste comprido navio de três altos mastros, que está cheio como um ovo, estão entregues a ilhavenses. É Ílhavo que dita, ali dentro, a lei.
- E você de onde é?
Samuel Sacramento Salvadorinho, o rapagão de botas altas e camisa de quadrados à escocesa que temos pela proa, responde, com um gesto largo, que tem o seu quê de glorioso, de triunfante, de épico:
- Eu cá sou de Ílhavo, também!
- E o resto da companha?
- É consoante… Alguns são de Setúbal. É, também, temos algarvios, mas a maior parte é de Ílhavo!
- Quantos são, ao todo?
- 28, com os oficiais, comigo e, aqui, com o João São Marcos – e amigo Samuel levanta a dextra até ao pescoço do único companheiro de bordo que está presente, que é moço do convés, que tem 22 anos de idade e que tem o carão mais sardento e o ar mais marítimo deste mundo.
E o Samuel continua, sacudido de voz como todo o marujo que se preza, a esclarecer quanto à vida de bordo e à actividade da tripulação.
Partiu o “Paços de Brandão” em 19 de Maio, do mesmo sítio em que está, agora, ancorado. Ao cabo de 12 dias de mar bom chegava ao banco. Por ali se demorou, na lufa da pesca, até 4 deste mês (Setembro). E ei-lo que está de volta, ao fim de uma viagem tão calma como a de ida. Pomos umas reticências, que não chegam a ser interrogação:
- Para cá levou mais dias…
- Pois… É que vinha carregadinho! Nestes quatro meses de mar o “Paços de Brandão” não perdeu tempo.
- Quantos quintais trazem, aí dentro?
- O Samuel Sacramento Salvadorinho, que não tem papas na língua, grita, simplesmente:
- Coisa para 3.000!
E o São Marcos, que lembra certas figuras de certas histórias nórdicas, corrobora, do lado, enterrando mais o gorro de lã que o viu limpar, durante meses, o convés encardido:
- Deve ser isso.

Foto do lugre "Paços de Brandão"
Imagem de autor desconhecido

Depois, quando a informação cronológica e mercantil está esgotada, o Samuel fala, mais pachorrentamente, da vida, das coisas, dos prazeres e das tristezas de bordo.
Quando não pescavam, passavam à brisa – a brisa é o tempo de puro lazer – de papo para o ar, chalaceando, rindo, gozando a paz imensa do Atlântico, que é pitoresco, a valer, junto dos bancos…
Uma santa comunidade a daqueles homens que andavam à cata do fiel amigo. Comia-se e bebia-se, para ter forças. Se elas faltassem…
- Nunca foi preciso médico?
O Samuel sorri:
- Isso é coisa que não há. Se algum tem qualquer maleita, bota-se-lhe tintura de iodo.
Conformado:
- O mar é que é o médico. E se algum virar, borda fora…
Depois, conta como se faz a pesca. É uma descrição pormenorizada, dum grande relevo técnico, que enfadaria o leitor. Os pescadores saem naqueles barquitos que se empilham sobre o tombadilho e passam horas e horas, deitando a linha.
Se o peixe não cai, há ralho do capitão, pela certa. E o pescador, que é, sempre, brioso, que tem, sempre, o culto da sua profissão arriscada, faz tudo o que pode para marcar a sua posição, para se impôr, para ter jus ao louvor do capitão que se traduz – findo o prazo da matricula, em remuneração mais quantiosa.
- Quantos barcos ficaram?
- Para a Terra Nova foram 7. Não tardam aí…
E o Salvadorinho explica que os outros barcos vão para a Gronelândia, onde o peixe não falta e é muito bom, também.
Depois, como não há mais por onde segurar as escoras da conversa, o rapagão, tostado do sol que apanhou, no cruzeiro da pesca, anuncia que finda a descarga, irá para Ílhavo, a sua terra querida, onde o esperam dois olhos muito meigos que se perdem, todos os dias, na visão do mar largo…
- E, depois, até ao ano, que é que se faz?
- Nada. Está-se à boa vida… Em Maio, torna-se.
E anda nisto o Samuel, que desempenha as funções de moço da câmara, há dois anos bem puxados. Já navegou no “Funchalense”, um naviozito de carga que o iniciou na vida do mar.
- Gosta dessa vida?
- A gente afaz-se. Não há remédio… E sentou-se na amurada, olhando os batéis do bacalhau, frágeis como a vida de quem anda no mar. Do porão vinha, entretanto, o cheiro forte a peixe fresco… E o Douro continuava a cintilar, alheio a tudo aquilo…
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 21 de Setembro de 1934)

Para o Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau o Samuel Salvadorinho, que estaria nos próximos meses prestes a completar 100 anos, se por fortuna estivesse vivo, era antes de mais o Nº 1084, conforme consta na respectiva ficha, cuja cópia me foi gentilmente cedida pelo Museu Marítimo de Ílhavo.
Mas a realidade é distinta. O moço de câmara, tal lobo do mar retratado através do texto, revelou-se ser um elemento indispensável a bordo de todos os navios onde esteve embarcado, e foram vários durante muitos anos, tais como: 1936- lugre “Palmeirinha”, moço; 1938- lugre “Argus”, pescador; 1939/1940/1941- lugre “Creoula”, 1ª linha; 1942/1943/1944- lugre “Creoula”, especial; 1945- arrastão “Pedro de Barcelos”, maduro; 1946/1947/1948/1949/1959/1951- lugre “Creoula”, especial; 1952/1953- navio-motor “Capitão João Vilarinho”, especial e 1ª linha; 1954/1955- navio-motor “Conceição Vilarinho”, 1ª e 2ª linha; 1956/1957/1958- navio-motor “Capitão João Vilarinho”, 1ª e 2ª linha e 1959/1960- navio-motor “Neptuno”, 3ª linha.
Espero que esta história se recorde por muito tempo, brilhante exemplo de pescador, mas acima de tudo, permito-me ao direito de considerá-lo como um notável “homem do mar”.

domingo, 26 de abril de 2015

Memorativo da Armada


O torpedeiro "Liz"
1921-1934

O desarmamento do “Liz”
O velho torpedeiro “Liz”, que se encontra encalhado junto à carreira do Arsenal, onde estão a construir o aviso “Infante D. Henrique”, deve ficar dentro de um mês completamente despojado de todo o seu recheio aproveitável, que recolherá aos Depósitos de Marinha. O casco do navio será depois vendido em hasta pública, para sucata.
O “Liz” foi um dos torpedeiros recebidos como indemnização de guerra. Pertencia à esquadra austríaca e veio para Portugal com os outros, a reboque do navio de salvação “Patrão Lopes”. O “Liz” esteve então, como os três restantes que com ele vieram, largo tempo abandonado, até que o sr. comandante Pereira da Silva, quando ministro da Marinha, mandou aparelhar os navios e incorporou-os na esquadra.
Estes navios têm aprovado sempre bem, demonstrando uma velocidade apreciável – 30 milhas por hora – pecando apenas por terem um pequeno raio de acção.
O “Liz” fez parte da divisão que prestou honras ao largo da costa aos restos mortais do falecido rei D. Manuel II, aquando da sua vinda para Portugal, a bordo do cruzador inglês “Concord”.
Este navio é o primeiro, destes quatro, a ser desarmado, pois os restantes – “Ave”, “Mondego” e “Sado” – continuam ao serviço em condições satisfatórias.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 15 de Agosto de 1934)

Foto do torpedeiro "Ave", navio igual ao "Liz"
Postal da Marinha Portuguesa - minha colecção

O casco do torpedeiro “Liz” foi vendido em leilão
No Arsenal de Marinha foi hoje vendido em leilão o casco do torpedeiro “Liz”, que foi um dos navios recebidos como indemnização de guerra, após o armistício.
Presidiu ao acto o director dos Serviços Marítimos, sr. capitão de mar-e-guerra Monteiro de Macedo, tendo o casco sido comprado por escudos 25.509$00, pela União de Sucatas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 4 de Outubro de 1934)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

História trágico-marítima (CXLVII)


O afundamento do arrastão "Cabo de S. Vicente"

A 23 milhas da Ericeira, um avião desconhecido afundou
o vapor de pesca português “Cabo de S. Vicente”
Ante-ontem, de manhã, saiu de Lisboa, para a faina da pesca, o vapor “Cabo de S. Vicente”, que deslocava cerca de cem toneladas e pertencia à firma Sociedade Comercial Marítima Lda. Comandava-o o capitão sr José Atebrêdo de Morais e levava 18 homens de tripulação. Pouco depois das 18 horas, o “Cabo de S. Vicente” pairava a 23 milhas da Ericeira. Surgiu, então, um avião de nacionalidade desconhecida, que, após ter sobrevoado o navio durante algum tempo, começou por fazer contra ele uma rajada de metralhadora.
Este súbito ataque foi tomado pelos tripulantes do pesqueiro como um aviso para abandonar o navio e meteram-se, imediatamente, dentro de um escaler, dirigindo-se ao vapor “Açor”, da Companhia Portuguesa de Pesca, comandado pelo capitão sr. Samuel Marques Damas, que estava a pescar no local. Recolhidos a bordo, foram transportados para Lisboa, onde desembarcaram ontem, de manhã.
Do avião foram lançadas, ao mesmo tempo que isto sucedia, duas potentes bombas, de forma oblonga, que rebentaram a bombordo e a estibordo do “Cabo de S. Vicente”, provocando o seu afundamento tão rápido que os tripulantes não tiveram tempo de voltar para recolher os seus haveres. Os náufragos do pesqueiro desembarcaram, ontem, de manhã, no cais do Frigorífico de Santos, onde o “Açor” atracou.

Foto do arrastão "Cabo de S. Vicente", com legenda,
conforme está publicado no jornal "Comércio do Porto"

Este atentado, tão insólito como inexplicável, que nada justifica, levou à perda de mais uma unidade, embora de pequena tonelagem, da nossa Marinha de Pesca. Eleva-se, assim, a seis, o número de navios que o País já perdeu – quatro afundados por submarinos e dois por aviões – durante o actual conflito.
O novo atentado, revoltante manifestação de força, violência injustificável, não pode passar sem o nosso veemente protesto, tanto mais que foi praticado contra gente humilde, que não se podia defender e, confiadamente trabalhava pelo abastecimento da população.
A nossa posição de neutralidade, que tem sido cumprida escrupulosamente, tem de ser reconhecida e respeitada por todos os beligerantes, para que não tenhamos a lamentar qualquer outra agressão desta natureza.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 12 de Março de 1942)

Características do navio de pesca “Cabo S. Vicente”
1924-1942
Nº Oficial: 431-E - Iic: C.S.F.S. - Porto de registo: Lisboa
Armador: Sociedade Comercial Marítima, Lda., Lisboa
Construtor: Cochrane & Sons Ltd., Selby (Glasgow), 1910
ex “H.A.L. Russel”, P. & Haldanes Steam, Hull, 1910-1913
ex “Darracq”, Equitable Steam Fishing, Grimsby, 1913-1923
ex “Cabo Carvoeiro”, -?-, 1923-1924
Arqueação: Tab 269,48 tons - Tal 103,31 tons
Dimensões: Pp 39,86 mts - Boca 6,78 mts - Pontal 3,58 mts
Propulsão: Amos & Smith 1:Te - 3:Ci - 80 Rhp - 10 m/h
Equipagem: 18 tripulantes
Capitão embarcado: José Atebrêdo de Morais

Foto do navio de pesca "Alvôr", construído no mesmo estaleiro
em Selby, em data posterior, mas muito idêntico ao "C.S.Vicente"
Imagem retirada do excelente blog "Restos de Colecção"

O capitão do navio de pesca “Cabo de S. Vicente”, criminosamente afundado na passada terça-feira, a 23 milhas a noroeste do Cabo da Roca, esteve ontem novamente na Capitania do porto de Lisboa, para relatar o sucedido.
Os tripulantes do navio residentes na Ericeira e em Cascais chegaram ante-ontem mesmo às suas terras. Devem vir a Lisboa hoje, a fim de se avistarem com os armadores do navio sinistrado para saberem da sua situação.
Os prejuízos sofridos pela Sociedade Comercial Marítima, Limitada, foram importantes. O navio havia custado cerca de 1.500 contos, mas presentemente valia muito mais, dado o aumento do preço dos materiais. O “Cabo de S. Vicente” tinha, na altura do afundamento, seis redes de pesca, que valiam hoje cerca de 100 contos, com a agravante de não haver presentemente redes no mercado. Com o afundamento do vapor, são seis os navios portugueses metidos no fundo.
O primeiro foi o “Alpha”, da Sociedade Luso-Marroquina, em 22 de Julho de 1940; depois foi o “Exportador I”, da firma Novo Horizonte, em 1 de Junho do ano findo; o “Ganda” da Companhia Colonial de Navegação, em 20 de Junho; o “Corte Real”, da Companhia Carregadores Açoreanos, em 12 de Outubro, e o “Cassequel”, em 14 de Dezembro, pertencente também à Companhia Colonial de Navegação.
O ataque de agora ao “Cabo de S. Vicente” foi feito em condições totalmente diferentes dos que têm sido feitos aos outros navios portugueses. De todos os vapores nacionais afundados, só o “Alpha” foi atacado por um avião que varreu o navio a tiro de metralhadora. O “Cabo de S. Vicente” foi atacado com bombas magnéticas e quase simultaneamente metralhado.
Duas bombas caíram no mar, uma de cada lado do navio e a pequena distância. Enquanto as bombas eram atraídas pelo pesqueiro e rebentavam contra ele, o avião varria o convés, com o firme propósito, não só de destruir o navio, como de matar os seus tripulantes.
Por isso o capitão ainda ontem confessou às autoridades: «Não sei como conseguimos escapar. As balas caíam aos nossos pés!».
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 13 de Março de 1942)

O afundamento do “Cabo de S. Vicente”
Uma nota da Embaixada Britânica
Dos serviços de imprensa da Embaixada Britânica foi recebido, com pedido de publicação, a seguinte nota:
«Com referência ao afundamento do navio português “Cabo de S. Vicente”, na tarde do passado dia 10, as autoridades navais britânicas de Gibraltar informam que nenhum avião inglês ou aliado se encontravam naquelas paragens nessa ocasião».
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Março de 1942)

P.S.- Com a publicação do ataque aéreo, que ocasionou o afundamento do navio de pesca “Cabo de S. Vicente”, fica quase completa a transcrição e narração no blog dos seis navios abatidos, de acordo com a informação referida no texto.

terça-feira, 21 de abril de 2015

História-trágico-marítima (CXLVI)


O naufrágio do lugre " Ilda "
1934-1934

Encalhou o lugre “Ilda” à saída da barra de Aveiro
Aveiro, 13 – Hoje, na praia-mar, da manhã, quando o lugre “Ilda” carregado de sal, com 11 pés de calado, saía a barra rebocado pelo rebocador “Vouga”, um violento estoque de água lançou-o para um banco de areia a leste da barra, onde encalhou.
Este navio destinava-se aos Açores e pertencia ao sr. Daniel da Silva, de Angra do Heroísmo.
A barra mantém, como calado 17 pés.
A tripulação, que foi salva por barcos de pescadores, pertence à vila de Ílhavo, bem como o seu comandante, sr. António de Oliveira Abelha, e piloto o sr. José Russo.
O lugre estava seguro numa companhia inglesa e foi encalhar na praia, ao sul do farol de Aveiro. Foi perdido, também, um gasolina que se empregava no salvamento da tripulação do navio.
O lugre começa amanhã a desaparelhar, pois o casco considera-se perdido.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 14 de Agosto de 1934)

O "Ilda" encalhado sobre o banco de areia
Foto de autor desconhecido - imagem do A.D. de Aveiro

Dia de romaria na barra para ver o navio encalhado, com escada a permitir o acesso fácil aos proprietários, tripulantes e seus familiares para eventualmente avaliar e ajuizar dos prejuízos. Muito provavelmente terá sido, também, o tempo e a oportunidade da tripulação, para recuperar os equipamentos e as bagagens deixadas a bordo.

Características do "Ilda"
Armador: Daniel da Silva, Angra do Heroísmo
Nº Oficial: B-221 - Iic: N/s - Registo: Angra do Heroísmo
Construtor: António Dias dos Santos, Fão, 04.1906
ex “Argonauta”, Soc. Nacional Pescarias, Lisboa, 1906-1921
ex “Argonauta”, Soc. Argonauta, Lda., Aveiro, 1921-1926
ex “Elzira”, Soc. de Navegação e Pesca, Aveiro, 1926-1934
Arqueação: Tab 225,27 tons - Tal 189,30 tons
Dimensões: Pp 36,75 mts - Boca 8,40 mts - Pontal 3,47 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: António de Oliveira Abelha

Foto do encalhe do "Ilda" de autor desconhecido
Imagem (c) da colecção de Francisco S. Cabral

Em Aveiro – O encalhe do lugre “Ilda”
O lugre português “Ilda”, da praça de Angra do Heroísmo, encalhou num banco de areia, pelo sul do farol de Aveiro. O encalhe deu-se, no dia 13 do corrente, quando o lugre saía aquela barra a reboque do rebocador “Vouga I”, tendo o sinistro sido provocado por um estoque de água.
(In jornal “Comercio do Porto”, quinta, 16 de Agosto de 1934)

domingo, 19 de abril de 2015

A primeira escala do "Almirante Saldanha"


Navio-escola da marinha brasileira
O navio-escola da marinha brasileira “Almirante Saldanha”, que chega ao Tejo no dia 30, deve atracar à muralha de Alcântara.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Julho de 1934)

Navio-escola brasileiro
O navio-escola da Marinha de Guerra Brasileira “Almirante Saldanha” é esperado no Tejo pelas 19 horas de amanhã. O sr. ministro da Marinha, em seu nome e da corporação da Armada oferece ao comandante e oficiais do navio brasileiro um chá no Palácio Hotel do Estoril e no Luna-parque realizar-se-à uma festa de confraternização entre praças da nossa armada e as daquele navio.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 31 de Julho de 1934)

Navio-escola "Almirante Saldanha", em 1934
Foto de autor desconhecido - Imagem Photoship.Uk

O navio-escola brasileiro “Almirante Saldanha” fundeou
hoje no Tejo, sendo saudado pela marinha e pela aviação
Está desde hoje no Tejo o navio-escola da armada brasileira “Almirante Saldanha”, que vem a Lisboa em visita oficial saudar o governo português, em nome do governo do Brasil.
Catorze anos depois da última estada no Tejo de um navio de guerra brasileiro, o navio-escola “Almirante Saldanha” vem retribuir visitas de navios da armada portuguesa a terras de Santa Cruz e fá-lo em circunstâncias especiais, duplamente honrosas para o país: vindo de Inglaterra, onde acaba de ser construído, visita Portugal antes da sua própria Pátria.
Pouco depois do meio-dia a mastreação alta do elegante navio – que se assemelha à “Sagres” – denunciava o seu avanço rumo a Cascais. Pintado de branco a rigor, o “Almirante Saldanha” oferecia, na verdade, um belo aspecto, singrando vagaroso para a baía e ostentando no penol uma grande bandeira verde e amarela do Brasil.
Não vinha à vela, mas com o auxílio dos seus motores. Entretanto saía a barra, com rumo feito ao navio brasileiro o torpedeiro “Mondego”, que ia levar aos marinheiros do “Almirante Saldanha” a primeira saudação da armada portuguesa.
O encontro dos dois navios deu-se ao largo de Cascais. O “Mondego” passou pela popa do navio brasileiro e com a guarnição alinhada em continência foi dar-lhe escolta por estibordo. No convés do “Almirante Saldanha” alinhou também a guarnição e uma luzida guarda de honra de marinheiros envergando jaquetões vermelhos, calças e barretes brancos. A charanga de bordo executou os primeiros acordes dos hinos português e brasileiro.
O navio-escola brasileiro, depois de meter piloto, tomou o rumo da barra, escoltado até ao enfiamento pelo torpedeiro português. Um hidro-avião do Bom Sucesso voava a pouca altura, em curiosas evoluções, saudando também os marinheiros do Brasil.
O “Almirante Saldanha” entrou a barra pelas 13 horas e salvou com 21 tiros em frente de Belém, respondendo-lhe o forte do Bom Sucesso. Uma vez nas alturas de Alcântara, guinou em direcção ao cais do Ginjal, indo então busca-lo o rebocador “Cabo Sardão”, que o trouxe para dentro da doca. À entrada ali, a guarnição brasileira foi saudada pelos seus camaradas portugueses do aviso “Cinco de Outubro” e do transporte “Gil Eanes”, que se encontravam atracados à muralha norte.
Depois do navio ter atracado, entrou a bordo um secretário da embaixada do Brasil, tendo trocado impressões com o comandante Sílvio Noronha acerca dos cumprimentos oficiais e outras solenidades. Cerca das 17 horas o comandante do navio brasileiro desembarcou, dirigindo-se à embaixada do seu país, onde saudou o sr. dr. Guerra Duval, que ao fim da tarde irá a bordo retribuir a visita.
Do programa de festas em honra da armada brasileira constam: um chá no Estoril, oferecido pelo sr. ministro da Marinha, em seu nome e no da armada portuguesa, uma recepção na embaixada do Brasil e outra a bordo do “Almirante Saldanha” e uma festa no Luna-parque, de confraternização entre marinheiros portugueses e brasileiros.
A oficialidade brasileira deporá uma coroa no monumento aos Mortos da Guerra e irá a Belém saudar o sr. Presidente da República, se o estado de saúde do sr. general Carmona lhe permitir conceder audiência.
Depois de amanhã o sr. embaixador do Brasil vai a bordo do “Almirante Saldanha” retribuir cumprimentos ao sr. comandante Sílvio Noronha. Na quinta-feira o sr. embaixador do Brasil oferece no Palácio da Embaixada um jantar em honra do comandante do navio.
O chá dançante que o sr. ministro da Marinha oferece ao comandante e oficiais do “Almirante Saldanha” realiza-se sexta-feira, tendo a sociedade do Estoril comunicado que manda pôr à disposição dos convidados e do sr. ministro um comboio especial com 250 lugares e oferece também aos mesmos convidados um «Porto de Honra», no Tamariz e à noite oferecerá um jantar à americana.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 1 de Agosto de 1934)

Navio-escola “Almirante Saldanha”
O comandante e o imediato do navio-escola brasileiro “Almirante Saldanha”, estiveram hoje no Ministério da Marinha a apresentar cumprimentos de despedida ao ministro e mais autoridades da marinha.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Agosto de 1934)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

História trágico-marítima (CXLV)


O encalhe do paquete "Ruy Barbosa"
Conclusão

Paquete “Ruy Barbosa”
O mar apresentou-se, ontem, com alguma ondulação, devido ao vento fresco que se fez sentir, dificultando um pouco a descarga da mercadoria do “Ruy Barbosa”, pois junto ao vapor fazia alguma ressaca. Contudo, ainda foram descarregadas bastantes mercadorias e transportadas para o porto de Leixões.
Conforme previamente noticiado, o vapor considera-se completamente perdido e entregue à inclemência do mar, que se encarregará de destruir, depois de serem retiradas todas as mercadorias que sejam possíveis de descarregar, bem como todos os apetrechos de bordo.
O salvadego dinamarquês “Geir” levantou ferro, ontem, de Leixões, pelas 8 horas da manhã, com destino a Gibraltar, visto os seus serviços não serem precisos para o salvamento do navio, por se tornarem dispendiosos.
Toda a tripulação do paquete “Ruy Barbosa” foi, ontem, ouvida na 3ª. secção da 1ª. vara, de que é chefe o sr. escrivão Teixeira, acerca do encalhe do navio, para efeito do protesto marítimo. Interveio nessa diligência o sr. dr. António Pinheiro Torres.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 10 de Agosto de 1934)

O paquete "Ruy Barbosa" no porto de Vitória, Brasil
Foto da colecção do sr. Edson de Lima Lucas

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
A descarga deste vapor foi activada, desde ante-ontem de tarde, pela montagem de uma nova caldeira geradora de vapor para os guinchos, devido à que estava a bordo não poder accionar os mesmos sem grandes interrupções.
Também a bomba de esgoto, que está a operar no porão nº 2, de acordo entre os representantes do Lloyd Brasileiro e o sr. Júlio Pinto, da firma Garland, Laidley & Cª., Lda., foi mudada para a amurada de estibordo do referido porão, porque a inclinação do navio sobre esse lado, juntava ali água, a qual foi ontem esgotada, ficando o porão nº 2 enxuto e a carga descoberta.
Devido, também, à potente caldeira da firma Abel Martins Pinto & Cª., que foi colocada a bordo do “Ruy Barbosa”, os serviços de descarga da mercadoria que constitui um Luna-Parque, que seguia para o Rio de Janeiro, tem decorrido normalmente. Ontem, já seguiram do paquete para o porto de Leixões, duas barcaças com diverso material do referido Luna Park, com o peso de 14 toneladas. A dirigir estes serviços tem estado os srs. Abel Martins Pinto e Armando Saldanha, que tem permanecido a bordo, visto o interesse que demonstraram em salvar todo esse equipamento, que não estava no seguro.
Tem-se notado muitíssimo o incremento que tomou, há 3 dias, a operação da descarga, apesar da dificuldade que o pessoal da estiva tem para trabalhar. O sr. António Costa, mestre estivador, tem posto à prova a sua competência e prática nestes serviços, motivo porque tudo está a ser feito com a ordem, que tais casos requer, o que muito concorre para a descarga ser mais rápida.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 19 de Agosto de 1934)

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
Um esclarecimento
Foi recebida uma carta da agência no Porto da Companhia Lloyd Brasileiro comunicando que, de acordo com a declaração da firma Abel Martins Pinto & Cª., a permanência a bordo de qualquer sócio desta firma se destina a fiscalizar o seu pessoal, para o bom funcionamento da caldeira alugada.
Esclarece, ainda, a carta da agência da Companhia Lloyd Brasileiro, que todos os trabalhos de direcção têm sido levados a efeito pelo sr. F. Schmidt, estimado agente geral daquela Companhia, que se constitui o único salvador.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Agosto de 1934)

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
Foram suspensos os trabalhos de descarga
Comentários do agente geral do Lloyd Brasileiro
O mar, nestes últimos dois dias, apresentou-se um tanto alterado, o que motivou a suspensão dos serviços a bordo do paquete “Ruy Barbosa”, para salvamento da carga que conduzia.
Num encontro agendado com o sr. F. Schmidt declarou:
- «A meu ver, desde o primeiro momento considerei o navio como perdido; pois, se tecnicamente o seu salvamento seria possível, como ainda é, não é cabível praticamente em função da soma que teria de dispender-se para o navio ser arrancado dos rochedos, no estado em que se acha, e pô-lo em condições de navegabilidade. Certamente importaria numa despesa que, por si, não compensaria esse sacrifício. Mais, os preços correntes dos navios com a idade do “Ruy Barbosa”, ou mesmo os preços correntes de navios já usados e com capacidade idêntica àquele paquete, com uso muito menor do que o dele, são de molde a confirmar o meu ponto de vista.
Nestas circunstâncias, deve-se continuar a salvar tudo quanto fôr possível (carga e apetrechos do navio), tal como vem sendo feito desde as primeiras horas. Quanto ao casco, devo esclarecer que o navio não está no seguro e, sendo assim, teremos de depender das instruções que a sede da Companhia se servir passar.
Pela minha parte, estou satisfeito com o serviço de salvamento das mercadorias. Acho mesmo que, se se atender de um modo geral às condições do sinistro, seria impossível fazer-se mais do que tem sido feito. Eu, entretanto, como salvador, posso com toda a segurança afiançar que as cargas, que respondem pelas despesas de salvamento, serão, segundo os meus cálculos, sobrecarregados de uma parcela tão pequena, que talvez não tenha até hoje havido um exemplo tão frisante, quanto ao deste, no que diz respeito ao escrúpulo em matéria de salvamento.
Tudo isto resulta de um sinistro, que se deve unicamente aos caprichos ou fortuna do mar. Se não fosse bastante a fé de ofício do sr. comandante Floquet – 22 anos de serviço à Companhia, sendo 17 anos ininterruptos de comando, sem nunca ter registado uma única avaria; se não fosse a demonstração dada com a ordem que houve no desembarque de passageiros, tripulantes, suas bagagens e malas do correio, logo ao primeiro momento; se não fosse bastante, ainda, a demonstração espontaneamente fornecida por todos os passageiros das precauções que notaram e que foram tomadas pelo comando do navio, antes do sinistro: seria mais que suficiente a declaração pública feita pelo sr. capitão do porto, no dia seguinte ao do desastre, de que o nevoeiro era denso quando se deu o encalhe.
Quero neste quadro agradecer as atenções e facilidades concedidas por parte das autoridades e da alfândega, dentro da medida do possível, estando muitíssimo grato por tudo quanto tem sido feito em favor do Lloyd Brasileiro».
Notas
- O rebocador “Mars II”, na noite de Domingo para segunda-feira, conduziu para a bacia de Leixões o comandante do “Ruy Barbosa”, dois guardas-fiscais e dois marítimos do Mindelo, bem como o barco destes.
- Se o mar o permitir, hoje recomeçarão as operações de descarga e simultaneamente o esgotamento que fôr aconselhável dos porões, que tenham agora metido água devido à violência do mar.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Agosto de 1934)

O "Ruy Barbosa" no local do encalhe com a proa alquebrada
Foto da minha colecção

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
Devido à alteração do mar nestes últimos dias, as vagas embatendo contra o paquete “Ruy Barbosa”, encalhado em frente a Pampelido, originou alquebrar um pouco a proa do vapor, conservando-se, contudo, na mesma posição. Esse alquebramento mal se nota, pouco prejudicando o navio.
A impetuosidade do mar obrigou à paralisação dos trabalhos de descarga de mercadorias e inundou mais o porão nº 2, donde foi retirada quase toda a carga que continha, faltando, apenas, retirar quatro vagões do Luna-Parque, para que fique vazio.
Ontem, procederam ao escoamento da água que novamente inundou aquele porão, tendo trabalhado a caldeira que movimentava duas bombas de escoamento do lado de estibordo. Após o escoamento, irão proceder à retirada do restante material do Luna-Parque, serviço que deve ser efectuado hoje.
Toda a carga boa que se encontrava no paquete encalhado já foi retirada, bem como muito material de bordo. A outra carga existente nos cinco porões inundados será retirada logo que seja possível, estando, contudo, já salva a carga que existia nas cobertas daqueles porões.
Os serviços de salvamento da carga tem sido esplêndidos, dada a rapidez como eles se têm efectuado, não só pela quantidade de mercadoria que já foi retirada, como pela distância a que o “Ruy Barbosa” se encontra do porto de Leixões – cerca de 3 milhas.
Muito do material do Luna-Parque, que se destinava ao Rio, bem como material do navio encalhado seguiu, ante-ontem, para aquela cidade do Brasil, a bordo do paquete “Almirante Alexandrino”, estando-se a proceder à organização do embarque da restante carga, que foi salva e que está em boas condições.
Junto do “Ruy Barbosa” tem-se conservado o rebocador “Mars II”, que serve de vigia ao navio e reboca as lanchas com a mercadoria salva para o porto de Leixões.
Se o mar o permitir, prosseguirão os trabalhos de salvamento da restante carga que está a bordo, com a mesma intensidade como até aqui, visto ter sido de molde a merecer os mais rasgados elogios pela rapidez como foram executados, sem exigências de mais ou melhor.
Ontem, o “Ruy Barbosa” foi bastante fustigado pelas vagas, tendo o navio com surpresa vindo a resistir muito à força do mar.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 30 de Agosto de 1934)

O naufrágio do “Ruy Barbosa”
A Companhia Lloyd Brasileiro, de acordo com as autoridades brasileiras, a União Internacional Marítima, de Berlim; o Verein Hamburger Assurance, e os comités dos Lloyds de Londres e Paris, encarregou o regularizador de avarias sr. Manuel Fontes, de tratar do caso do paquete “Ruy Barbosa”, pertença daquela empresa e que se perdeu num naufrágio, próximo a Leixões.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 18 de Outubro de 1934)

O paquete “Ruy Barbosa” começou a ser desfeito pelo mar,
sendo grande a quantidade de madeira arrojada à praia.
Foi anulada a arrematação do casco e morreu, já, o gato de bordo.
O “Ruy Barbosa”, o explêndido paquete do “Lloyd Brasileiro” há meses encalhado à vista da praia de Pampelido, continua à merce da impetuosidade do mar, sem que, desde o dia 1 deste mês tenha podido ir a bordo o pessoal, a fim de continuar os trabalhos encetados para o seu desmantelamento.
Devido aos recentes temporais, o belo paquete foi fortemente batido pelo mar, que o partiu a meio, junto à ponte de comando, numa das últimas noites.
A proa ficou mergulhada em parte, com grande inclinação e sensivelmente separada da outra parte do paquete, que se conserva na posição tomada aquando do encalhe.
Agora é o “Ruy Barbosa” atravessado de lado a lado pelas vagas, sendo considerável a quantidade de madeira arrancada ao seu interior, e que, à mistura com carvão, tem sido arrojado à praia.
Resistindo a tudo, a mastreação e a ponte de comando ainda se conservam nos seus respectivos lugares, o que é para admirar.
***
Em Pampelido foi construído um barracão para resguardo do que o mar arroje à praia, estando os salvados sob a vigilância da guarda-fiscal.
***
No paquete viajava um gato, ao que parece pertença do pessoal de bordo. Deu-se o encalhe. Passageiros e tripulantes fizeram o desembarque, trazendo para terra a bagagem e tudo mais que lhes pertencia.
No entanto, apesar da tragédia o gato foi abandonado, como coisa inútil, talvez esquecido nas primeiras horas de nervosismo por quem com ele tantas viagens tinha feito. E o gato, por estar já habituado a viver em casa flutuante, deixava-se amimar pelas pessoas que procediam ao salvamento da carga e dos restos do paquete, mas fugia sempre quando pretendiam trazê-lo para terra.
O seu corpo foi há dias arrojado à praia, tendo morrido de fome por a bordo não ir pessoa alguma, durante quase um mês, levar-lhe o alimento necessário. Foi a única vítima do naufrágio...
***
Na oportunidade dá-se conhecimento que a arrematação do casco do “Ruy Barbosa” foi anulada pelas instâncias competentes, por estar pendente dos tribunais uma reclamação.
Segundo consta, os arrematantes, considerando-se prejudicados, vão propor no respectivo tribunal uma acção por perdas e danos.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 30 de Dezembro de 1934)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

História trágico-marítima (CXLV)


O naufrágio do paquete "Ruy Barbosa"
2ª Parte

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
Continua a ser do interesse geral o encalhe do paquete “Ruy Barbosa”, pois à praia de Pampelido (Mindelo) tem afluído muitas pessoas, não só dos lugares próximos, como do Porto, que se transportam em automóveis, a fim de presenciarem o vapor encalhado.
As pessoas, ontem, conservaram-se na praia muito tempo na eventualidade de assistir a qualquer ocorrência, que pudesse surgir ao “Ruy Barbosa”, em virtude do mar apresentar maior ondulação. No entanto, os trabalhos para salvamento do diverso recheio do vapor puderam prosseguir durante o dia. E assim, foi possível retirar do interior do “Ruy Barbosa” vários utensílios de bordo, no valor de centenas de contos, tais como: pratas, mobiliário, ventoinhas, trens de cozinha, etc.
À noite, apenas ficaram a bordo o comandante e o imediato do vapor, um criado e um marinheiro. Os rebocadores que tem rebocado as barcaças com aqueles valores, foram o “Tritão” e o “Mars II”, tendo o salva-vidas a motor “Carvalho Araújo” feito a devida assistência aos tripulantes que, até ontem, à tarde, se conservavam a bordo e que, depois retiraram para Leixões, com ordem das autoridades marítimas.
Quanto à carga, aparte os volumes de certa importância e as malas do correio, que vinham no porão nº 1, nada mais foi descarregado, prosseguindo hoje, caso o mar permita, esses trabalhos. Além das barcaças com carga que o rebocador “Mars II” rebocou para Leixões, trouxe mais sete escaleres pertencentes ao “Ruy Barbosa”. Quando trazia estes escaleres a reboque, próximo da entrada de Leixões, rebentaram as amarrações de seis destes escaleres, ficando os mesmos à mercê da ondulação do mar, até que foram apanhados pela lancha-motor “Pátria”, que depois os rebocou, para dentro do porto.
Quanto ao outro escaler, que o “Mars II” ainda tinha a reboque, ao entrar no porto de Leixões voltou-se, seguindo submerso até ao porto de serviço.
O capitão do rebocador de alto mar “Cabo Raso”, que tinha vindo para colaborar nos trabalhos que fossem necessários ao salvamento do paquete, declarou ser esse salvamento impossível, não só devido aos rombos que o navio sofrera, como, ainda, à abundância de água que se conserva nos porões e casa da máquina, e que as bombas seriam impotentes para a esgotar.
No entanto, são ainda esperados os vapores salvadegos dinamarquês “Gier” e alemão “Seefalke”, para ser ouvida a opinião dos seus capitães, bem como a chegada de Lisboa de um engenheiro, a fim de passar uma vistoria ao vapor encalhado.
Outras notas
- A Companhia Lloyd Brasileiro resolveu que os passageiros que transitavam no “Ruy Barbosa” aguardassem nos hotéis e pensões, onde estão hospedados, a chegada do vapor “Cuyabá”, da mesma Companhia que deve chegar a Leixões, no dia 13 do corrente, a fim de prosseguirem viagem nesse vapor. E, aos passageiros que em Leixões deviam embarcar no “Ruy Barbosa”, com destino aos portos do Brasil lhes fosse dado um subsídio para poderem regressar às suas terras, onde aguardarão a chegada desse mesmo vapor.
- O posto de socorros, que a Cruz Vermelha montou na praia de Pampelido, já retirou do local por ali ser desnecessário. Apenas se conserva ainda, o cabo de vai-vem que foi montado pelos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça, estando lá um piquete de prevenção.
- O vapor que guinou um pouco para estibordo, apesar do mar se ter alterado um pouco durante o dia, não modificou a sua inclinação.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 3 de Agosto de 1934)

O "Ruy Barbosa" numa escala anterior em Leixões
Bilhete postal - Minha colecção

O encalhe do “Ruy Barbosa”
Não se deu qualquer modificação na posição do paquete
Os trabalhos de descarga – Conferências a bordo – Outras notas
Conferências a bordo
Chegou na madrugada de ontem a Leixões, o salvadego dinamarquês “Gier”, que veio para prestar auxílio. O capitão deste salvadego, acompanhado do capitão do porto de Leixões, sr. Pais do Amaral foi num gasolina a bordo do “Ruy Barbosa” e, após ter conferenciado com o capitão daquele paquete e, ainda, depois de ter verificado estar aquele paquete em más condições de se salvar, o que justificou, assim, a opinião mantida dos técnicos portugueses desde o seu encalhe, tendo retirado para Leixões para bordo do seu barco. Mais uma vez se confirma que o “Ruy Barbosa” está completamente perdido. No entanto é ainda aguardada a chegada do salvadego alemão “Seefalk” para ser ouvida, também, a opinião do seu comandante.
Várias notas
- Pelas 4 horas e meia da tarde, de ontem, os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça que se tem conservado na praia de Pampelido desde terça-feira última, dia do encalhe, e como vissem que já não era precisa a sua permanência ali retiraram o cabo de vai-vem e as espias que tinham sido lançadas para o paquete. - De noite, junto ao “Ruy Barbosa”, ficaram os rebocadores “Tritão” e “Mars II”, a fim de prestarem assistência caso seja necessária.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Agosto de 1934)

O encalhe do paquete “Ruy Barbosa”
O vapor mantém-se na mesma posição
Prosseguiram, ontem, os trabalhos de descarga das mercadorias
Outras notas
Muito tem contribuído para que o “Ruy Barbosa” não tenha sofrido mudança de posição, o facto do mar se apresentar bastante sereno. Mesmo no enchimento das marés, que ocasiona muitas vezes uma certa alteração do mar, não se tem registado grande ondulação das águas, o que muito tem beneficiado o “Ruy Barbosa”, que não se mexe do lugar onde encalhou. Essa circunstância tem permitido fazerem a descarga de muitas mercadorias que o vapor transportava. A bordo do paquete, já não existe quase nada do seu mobiliário, haveres e utensílios, pois já foi tudo retirado.
Ontem, procederam à recolha das canalizações mais importantes, que foram postas a salvo. A bordo já não existem os tanques de água, que eram utilizados para o fornecimento das comidas e para outros serviços dos passageiros e da tripulação. A água agora é fornecida de terra. Prosseguiram, ontem, normalmente, os trabalhos da descarga das mercadorias, que foram transportadas em barcaças para Leixões, e que eram rebocadas, ora pelo rebocador “Tritão”, ora pelo “Mars II”, empregando-se todo o dia nesse serviço.
Para que pudessem ser retiradas do navio as mercadorias mais pesadas, foram colocadas no convés do vapor, duas gruas que movimentavam os guindastes de bordo. Essas gruas pertencem à Administração dos portos do Douro e Leixões, tendo, ontem, funcionando uma delas, que prestou relevantes serviços, tornando-os menos morosos. Além disso, braçalmente, foi continuada a ser feita a descarga das mercadorias mais leves.
Mercadorias há que já não se podem aproveitar, pois encontram-se no porão nº 1, que está completamente inundado. Entre essas mercadorias contam-se aparelhos de rádio e dois automóveis, bem como sedas, fazendas, etc. Hoje, Domingo, prosseguirão os trabalhos de descarga das mercadorias, começando esse serviço de manhã cedo.
Ontem, a afluência de gente à praia de Pampelido, ainda foi grande, sendo que no dia de hoje também ali acorram numerosas pessoas para presenciarem o navio.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Agosto de 1934)

Paquete “Ruy Barbosa”
É a mesma a situação do vapor – Chegada do salvadego alemão
Os trabalhos de descarga de mercadorias prosseguem normalmente
Depois da leve inclinação para estibordo do paquete “Ruy Barbosa”, não se deu qualquer alteração na sua posição, atendendo às circunstâncias do mar se ter mantido calmo, até à presente ocasião.
Deu entrada no último Domingo, à tarde, para a bacia do porto de Leixões, o salvadego alemão “Seefalke”, procedente de Bremerhaven, e que já, há dias, era aguardado a fim de ser ouvida a opinião do seu comandante, sr. Reents, sobre a possibilidade de salvamento do “Ruy Barbosa”. A meio da tarde, de ontem, aquele senhor dirigiu-se, num barco a gasolina, a bordo do paquete no sentido de averiguar da gravidade das avarias sofridas aquando do seu encalhe.
Ao fim da tarde, porém, regressava a Leixões, sem ter, contudo, tornada pública a sua opinião, que, no entanto, é ansiosamente aguardada por todos aqueles que se interessam pela sorte do vapor.
Os trabalhos de salvamento da carga, existente nos porões não inundados, têm continuado normalmente, tendo de lá sido retirada grande quantidade das mercadorias, no valor de alguns milhares de escudos. O mar continua a favorecer estes trabalhos e a poupar o vapor encalhado.
No transporte das barcaças com as mercadorias retiradas do “Ruy Barbosa”, continuam a ser utilizados os serviços do rebocador “Mars II” e da lancha-motor “Pátria”, deixando o rebocador “Tritão” de prestar esses serviços, bem como o salva-vidas “Carvalho Araújo”.
No Domingo, acorreu numeroso público à praia de Pampelido, a fim de presenciar o navio encalhado, contando-se em centenas as pessoas que afluíram ao local, vendo-se vários grupos com merendeiros. Ao fim da tarde, a chuva que caiu fez dispersar todas essas pessoas, depois de uma boa molhadela.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Agosto de 1934)

Ainda o encalhe do “Ruy Barbosa”
Prosseguiram ontem, os trabalhos da descarga do “Ruy Barbosa”, que foram dificultados, devido à forte ondulação do mar. Apesar disso, ainda procederam à remoção de bastante mercadoria para Leixões, que foi transportada nas barcaças rebocadas pelo “Mars II” e pela lancha-motor “Pátria”.
Os salvadegos dinamarquês “Gier” e alemão “Seefalke”, que estão ancorados em Leixões, ainda não procederam a qualquer trabalho para safarem o “Ruy Barbosa”, do local onde está encalhado. Segundo consta, esses serviços ficariam tão dispendiosos, que não valeria a pena realizá-los, em função das despesas que já foram feitas, pela perda das mercadorias que estão nos porões inundados, que ascendem a algumas centenas de contos, e também pelas grandes reparações que o vapor precisaria fazer. Contudo, o sr. Reents, capitão do salvadego alemão “Seefalke”, está a elaborar o seu relatório para o apresentar à Companhia Lloyd Brasileiro que, em seguida decidirá sobre a sorte do paquete. São aguardadas estas resoluções, para ser tentado o desencalhe do navio, visto que o capitão do salvadego alemão, ter declarado ser possível retirar o navio daquele local.
Entretanto, no caso de o mar permitir, os trabalhos da descarga da mercadoria dos porões não inundados prosseguirão durante o dia de hoje, com a mesma actividade como até agora tem sido feitos.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 8 de Agosto de 1934)