terça-feira, 24 de março de 2015

Crónica de um futuro adiado!


Naufrágios na costa norte
O sr. presidente da Associação Comercial, aludindo aos naufrágios dos vapores de carga “Silurian” e “Bogor”, ambos ocorridos nesta costa e, respectivamente, em 12 e 13 de Dezembro último, comunicou que a Associação Comercial telegrafara logo ao governo, manifestando o seu vivo desgosto pelas duas catástrofes marítimas, a segunda das quais, como era sabido, ficou tristemente assinalada com a morte de 33 homens, que faziam parte da tripulação do “Bogor”; e que em representação dirigida, depois, ao poder central, a mesma Associação verberou o abandono a que continua condenada, pelas estações oficiais, a costa norte do país e indicou algumas das mais instantes medidas de previdência e protecção, que urge pôr em prática a fim de obstar, tanto quanto possível, a futuros sinistros marítimos e assegurar, por tal forma, a defesa da navegação que demanda os portos de Leixões e do Douro.
Feita a leitura da representação que a Associação dirigiu ao chefe do governo, o assunto foi largamente discutido, manifestando os vogais presentes o seu pesar pela dupla catástrofe marítima, que tão fundamente emocionou a generosa alma portuguesa, e todos declararam a sua plena concordância com os termos da mencionada representação, na qual se aponta a adopção das seguintes providências:
Colocação de um farol moderno, de maior alcance, entre Viana do Castelo e a Póvoa de Varzim, nas vizinhanças de Fão ou Esposende; substituição do farol da Póvoa, cujo poder iluminante é insuficiente; montagem de um sinal ou aviso sonoro em Leixões e de outro em Fão ou Esposende, porque os rochedos denominados “Cavalos de Fão”, em ocasiões de nevoeiro são de grande perigo para a navegação; estabelecimento de um posto de socorros a náufragos entre Leixões e Vila do Conde, o qual se patenteia de absoluta necessidade; abertura de uma estrada à beira mar, que permita um serviço eficaz de socorros, quer do posto de Vila do Conde, quer de Leixões; ligação telefónica entre os diversos postos fiscais da costa para rápido aviso de qualquer sinistro e pronto socorro; instalação de uma estação radio-telegráfica, há tanto tempo esperada e cujos serviços todos os países adquirem e bem-dizem; e montagem de um posto de socorros a náufragos na costa ao sul do Douro, ou entre o Douro e o Vouga, a fim de, nessa costa tão perigosa em ocasiões de nevoeiro, acudir de pronto também à numerosa população piscatória de Espinho, Furadouro e Torreira, que bem carecem de proteção e socorro; e bem assim a conclusão das obras do porto de Leixões, que devem ser ultimadas quanto antes, porque assim o reclamam o prestígio e os mais altos interesses da nação.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 6 de Janeiro de 1915)

Costa norte do país
O presidente da Associação Comercial, sr. Luís Marques de Sousa, telegrafou ontem, à noite, de Lisboa ao respectivo vice-presidente, sr. Jacinto Furtado, comunicando ter conferenciado com o sr. presidente do ministério sobre o objecto da representação que o Centro dirigiu ultimamente ao governo, e em que foram apontadas as medidas que urge adotar na costa norte do país, para defesa e segurança da navegação; e que sua excelência respondera que o assunto estava devidamente estudado, devendo achar-se no Porto dois engenheiros encarregados de elaborarem o projecto e orçamento para a instalação, em Leça, de um farol e de um sinal sonoro.
O sr. Marques de Sousa comunicou também haver trocado impressões com o chefe do governo acerca da abertura de uma estrada ao longo da costa, para facilitar a prontidão dos socorros, em caso de sinistro marítimo.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 9 de Janeiro de 1915)

A norte, nada de novo...
Logicamente previsível, esta enérgica tomada de decisão no sentido de serem reclamadas condições condignas para salvamento de náufragos, parecem ser posteriores a outro navio perdido sensivelmente na mesma área dos naufrágios anteriores. Porém, em forma de achega por ter sido grave, falha a explicação por não ter merecido referência nos textos acima. Foi o caso do sinistro do vapor norueguês “Jamaica”, que ocorreu no primeiro dia desse ano de 1915, com o nefasto resultado de mais 13 tripulantes mortos, vítimas por afogamento.

segunda-feira, 23 de março de 2015

História trágico-marítima (CXLI)


O naufrágio do patacho “Commércio”

Apareceu ante-ontem (28.10.1892) à vista da barra de Viana, o patacho português “Commércio”, pertencente a essa praça e propriedade do sr. João António de Magalhães Vianna Jr., também de Viana do Castelo. Como a barra não desse entrada, em virtude do grande temporal, o navio fez rumo ao norte em direção a Vigo, onde naufragou ontem (29.10.1892) pelas 11 horas da noite, indo a pique nas ilhas de Cies (à entrada da ria daquele porto).
Características do navio
Nº Oficial: N/t - Iic: H.F.C.M. - Registo: Viana do Castelo
Armador: João António de Magalhães Vianna Jr.
Construtor: Desconhecido, Viana do Castelo, 10.1874
Arqueação: 182,885 m3
Dimensões: Pp 26,79 mts - Boca 6,80 mts - Pontal 3,29 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 8 tripulantes (Capitão Matos)
ex “Rio Lima”, A.J. Barbosa & Cª., Viana do Castelo

Vinha de Vila Nova de Portimão com destino a Viana transportando um importante carregamento de figos e amêndoas. A tripulação compunha-se de oito homens, que se salvaram na lancha de bordo. O navio e a carga estão totalmente perdidos. O patacho estava seguro nas companhias Confiança Portuense e Segurança.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 1 de Novembro de 1892)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Superstições!


A viagem de núpcias por mar

Entre os marinheiros ingleses existia a superstição de que havia sempre de suceder alguma desgraça, quando viajavam a bordo de qualquer navio dois noivos em viagens de núpcias.
No dia 28 de Setembro de 1892, o vapor inglês “Canadian”, saiu do porto de Nova Iorque com 257 passageiros. Entre eles achava-se um jovem diplomata e sua esposa, que faziam a viagem de núpcias, dirigindo-se a Manchester.
Depois de dois dias de navegação feliz, uma palavra imprudente deu a conhecer à tripulação que iam a bordo dois noivos. A notícia espalhou-se rapidamente, e desde o comandante ao último grumete todos tremeram, agourando uma tempestade terrível que faria naufragar irremediavelmente o vapor.
Na manhã do dia 3 de Outubro, nuvens espessas cobriram o horizonte. O comandante olhou com inquietação em volta dele, e conferenciou apressadamente com o oficial imediato.
Entretanto, os marinheiros tiveram um secreto conciliábulo, resolvendo deitar ao mar os recém-casados, a fim de se livrarem do perigo que julgavam iminente.
Então o comandante, sobrepondo os sentimentos de humanidade à sua própria superstição, defendeu com o revólver na mão os jovens esposos, fazendo-os vigiar por alguns homens da sua confiança e pondo a ferros doze dos revoltosos mais inconformados.
A tempestade não se desencadeou, chegando o vapor ao seu destino sem outro incidente. Daí resultou que, por motivos óbvios, os amotinados foram entregues aos tribunais. Quanto aos noivos, por bem felizes se deram, quando se viram livres de tão angustiante aventura.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Novembro de 1892)

O vapor inglês "Canadian" da Allan Line
Imagem Photoship.Uk

O navio a que se refere a notícia e que supomos possa ser o que se encontra reproduzido na imagem, eventualmente sob o comando do capitão Dunlop, segundo documentos da época, é provavelmente, por exclusão de partes, o seguinte:
s.s.”Canadian”
Armador: Allan Line, Liverpool, Inglaterra
Nº. Oficial: ? - Iic: W.R.M.Q. - Porto de registo: Liverpool
Construtor:?, Montereal, Canadá, 1872
Arqueação: Tab 2.911 tons - Tal 1.872 tons
Dimensões: Pp 106,65 mts - Boca 10,85 mts - Pontal 7,65 mts
Em função do caso tratar de uma história sobre marítimos e as suas superstições, optamos por omitir outros detalhes ou pormenores relativos ao navio, irrelevantes nestas circunstâncias.

domingo, 1 de março de 2015

Rio de Janeiro, 450 anos!


A cidade em tempo de aniversário

No dia de hoje a cidade do Rio de Janeiro comemora 450 anos de existência e, muito embora estando ausente, não duvido que este evento representa mais um período de intensa euforia na capital carioca.
Ocorreu-me na oportunidade lembrar esta efeméride, recorrendo a um dos principais ex-libris da cidade, a estátua do Cristo Rei no Corcovado, para ilustrar a minha passagem pelo local em visita recente, perdendo-me entre uma verdadeira multidão de turistas, chegados de diversos pontos do globo.


Com uma localização privilegiada para fotografar a cidade, houve quem se tivesse apercebido de em determinados momentos fixar a objectiva da câmara para a baía de acesso ao porto, onde bem lá em baixo navegava a fragata F46 "Greenhalgh", que anos antes passou por Leixões, ainda sob pavilhão inglês denominada F88 HMS "Broadsword", seguindo em direcção à base naval de Niterói.


E de tentativa em tentativa para conseguir imagens de outros navios, que se encontravam em manobras a considerável distância, só foi mesmo possível registar a foto do "MSC Barcelona", em condições mínimas de qualidade, para a poder apresentar no blog.


Assim sendo, fazendo jus à solenidade do aniversário, cujas festividades se vão prolongar por vários meses, resta formular votos de parabéns ao Rio de Janeiro, que qualquer dia ou sempre que puder, espero lá voltar!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Uma vez poveiro, Poveiro para sempre!


O 85º aniversário da Casa dos Poveiros, no Rio de Janeiro


A Casa dos Poveiros no Rio de Janeiro celebrou 85 anos de existência no passado dia 11 de Janeiro, e o Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Aires Pereira, fez questão de estar presente nas comemorações.


Antes de partir para o Rio de Janeiro, o edil afirmou da importância da deslocação, para encerrar um capítulo em que devia ter sido feito o devido reconhecimento a um conjunto de pessoas, que muito fizeram pela Póvoa, deixando um património assinalável como a Casa dos Poveiros, tal como ela se apresenta, em representação da cidade no exterior.


Em relação a esta infraestrutura revelou que “a autarquia poveira tem colaborado e ele mesmo será portador de mais uma ajuda para a manutenção da Casa dos Poveiros. Este é um sinal do interesse em manter o património cultural da cidade no Rio de Janeiro e simultaneamente a presença histórica da Póvoa no Brasil”.


O Presidente aproveitou ainda para fazer uma apresentação na Casa dos Poveiros, a mais de 500 pessoas, “daquilo que é a Póvoa de hoje e a do século XXI, que vem sendo preparada”, focalizando-se no “futuro porque é importante que a nova geração tenha esta ideia de modernidade de Portugal e da Póvoa de Varzim, em particular”.


Ainda no âmbito da viagem, Aires Pereira, prestou uma homenagem ao Monsenhor Abílio da Nova, sepultado no Brasil, com a colocação de uma placa na sua campa. Para o Presidente, trata-se de “uma justa homenagem a quem tanto trabalhou e se dedicou à Póvoa. O Município tem obrigação de não o deixar esquecer”, disse.
O Rancho Poveiro também participou nas comemorações do 85º aniversário da Casa dos Poveiros, levando um pouco do cheirinho da nossa terra à comunidade distante. Recorde-se que, fundado em 24 de Junho de 1936, pelo etnógrafo poveiro António dos Santos Graça, tem a finalidade de manter vivos os trajes, danças e cantares dos pescadores, encontrando-se prestes a completar 80 anos de existência.
(Texto transcrito parcialmente a partir das notas produzidas pelo Gabinete de Imprensa, da C.M. da Póvoa de Varzim).

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Navios na Base Naval do Rio de Janeiro


Apreciados à distância!

Durante a visita à Ilha Fiscal, a viagem foi efectuada pelo interior da Base Naval do Rio de Janeiro, onde se encontravam diversos navios de guerra, alguns dos quais formam a esquadra de vigilância costeira e alguns submarinos.
Foram igualmente vistos em trabalhos de manutenção outros navios, uns maiores e outros menores, e entre esses estava também amarrado ao cais o porta-aviões "São Paulo", que julgamos deve ser considerada a principal unidade da Marinha Brasileira.

Corveta V30 "Inhaumá"

Corvetas V31 "Jaceguaí" e V32 "Júlio de Noronha"

Navio G28 NDCC "Mattoso Maia"
(NDCC - Navio de Desembarque de Carros de Combate)

 
Navio patrulha P45 "Guaporé"

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Museu Naval do Rio de Janeiro


A Ilha Fiscal

A Ilha Fiscal foi primeiramente denominada Ilha dos Ratos. O nome deriva do grande número de ratos que teriam vindo fugidos das cobras da Ilha das Cobras. Havia, numa outra versão, umas pedras cinzentas espalhadas pela ilha que se assemelhavam a ratos, à distância.
O castelo da Ilha foi projectado pelo engenheiro Adolpho José Del Vecchio, para o Ministério da Fazenda que pretendia ter ali um posto aduaneiro. Del Vecchio, que era diretor de obras do ministério, elaborou um projeto em estilo neo-gótico com inspiração nos castelos do século XIV, em Auvergne, na França.
O projeto foi agraciado com a Medalha de Ouro na exposição da Escola Imperial de Belas-Artes, e foi elogiado pelo Imperador “como um delicado estojo, digno de uma brilhante jóia”, referindo-se à sua privilegiada localização e à beleza da Baía da Guanabara.
A construção foi executada com extrema qualidade e os profissionais que trabalharam, cada um no seu ofício, merecem destaque: o trabalho em cantaria é de António Teixeira Ruiz; Moreira de Carvalho encarregou-se dos mosaicos do piso do torreão, um trabalho primoroso feito com diversos tipos de madeira. Os vitrais foram importados da Inglaterra, o relógio da torre é de Krussman & Cia.; os aparelhos elétricos da Seon Rode. A pintura decorativa na parede é de Frederico Steckel e as agulhas fundidas foram feitas por Manuel Joaquim Moreira & Cia. O prédio da Ilha Fiscal foi inaugurado no início do ano de 1889 pelo Imperador.
Na revolta da Armada em 1893 a Ilha Fiscal foi bastante danificada por projecteis que atingiram as suas paredes, além de terem danificado os vitrais e os móveis. Depois de alguns anos o prédio foi transferido do Ministério da Fazenda para o Ministério da Marinha, numa troca efectuada em 1913.
O famoso baile da Ilha Fiscal, foi um evento em homenagem à tripulação do couraçado chileno Almirante Cochrane, para cerca de 5 mil convidados. Com essa recepção, o Império reforçava os laços de amizade com o Chile, bem como tentava reerguer o prestígio da Monarquia, tendo ficado bastante abalado pela propaganda republicana. A maior festa até então realizada no Brasil ocorreu pouco após a inauguração da ilha.
Falou-se muito da música (valsa e polca), e do cardápio (uma imensa quantidade de garrafas de vinho e comidas exóticas) dessa festa. O comportamento dos participantes foi largamente explorado (a imprensa da época - século XIX - noticiou que peças íntimas foram encontradas na ilha depois da festa), curiosidades que ainda atraem historiadores actualmente. O luxo e as extravagâncias com que se apresentaram os convidados geraram todo tipo de comentários.
A república foi proclamada seis dias depois do baile, e o Imperador embarcou no mesmo Cais Pharoux de onde partiam os ferry-boats para levar os convidados para o baile. Vale observar que o cais Pharoux, no centro do Rio, hoje é conhecido como Praça Quinze, onde recentemente foram renovadas as escadarias utilizadas no embarque para a Ilha.
Em 2001, o espaço passou por intensos trabalhos de restauração, coordenados pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A partir das obras, foi recuperado o esplendor das pinturas decorativas do tecto, das paredes e do piso de parqué do torreão. Também a parte externa do edifício voltou a exibir a sua cor original.
De quinta a Domingo, visitas guiadas permitem explorar cada canto da construção, uma das preferidas de D. Pedro II. Os salões mais atractivos abrigam exposições temporárias e permanentes, que revelam a história da Ilha e da Marinha, a coleção de vitrais e os trabalhos em cantaria - colunas, arcos, florões e símbolos imperiais.
In “Empresa Municipal de Turismo do Rio de Janeiro”, 2010

Edifício da Ilha Fiscal - ala esquerda

Edifício da Ilha Fiscal - entrada principal (centro)

Edifício da Ilha Fiscal - ala direita

Uma raríssima bússola portuguesa do século XVII

Edifício da Ilha Fiscal - vitrais (1)

Edifício da Ilha Fiscal - vitrais (2)

Navio-Museu "Bauru" - Relíquia da Iª Grande Guerra Mundial

A navegar ao largo da ilha o ferry "Vital Brazil", utilizado no transporte de passageiros entre Niteroi e o Rio de Janeiro.

E para terminar foi ainda visto em manobras o navio ro-ro "Grande Francia", das linhas Grimaldi, sediadas em Palermo.