A sala dos oficiais é uma caixinha de veludo. Cómoda e elegante. Sobre uma mesa, um vistoso cestinho de cravos, com uma legenda doce: À tripulação do “Vouga”, duas portuenses.
- ?
- São duas meninas que vem cá, todos os dias, visitar o navio. E tem estas gentilezas.
O marinheiro António, que foi polícia-sinaleiro vai enchendo os cálices com vinho do Porto. Treme-lhe a mão, por falta de hábito, decerto. E o Sr. comandante, gracioso e simples:
- Vá lá, António: parece que ainda estás a fazer sinais, lá fora…
(Lá fora, é esta terra dura que nós, os terrestres, habitamos.)
Estão cheios os copos. Vai brindar o Sr. comandante Carvalho Crato. Dirige-se aos jornalistas: Tenho muito prazer em recebê-los neste vapor. Um marinheiro gosta sempre que lhe conheçam o navio. E os srs. não vem aqui, como simples visitantes.
São observadores e, por isso, irão dizer, por terem visto, aquilo que eu lhes digo. Este vapor é, na verdade, bom. Assisti à sua construção e sei quanto ela foi cuidadosa e perfeita. Podem dizer em toda a parte que o “Vouga”, como de resto todos os navios a fazer em Inglaterra, corresponde às nossas ansiedades. Não se esbanjou, mas também não se apertou. Fez-se um navio como era preciso.
A casa construtora merece elogios. Cumpriu bem e não se julgue que ganhou mundos e fundos. A crise, lá fora, é fenomenal. Os estaleiros estão 70% parados. Por isso, trabalha-se com certas vantagens. Concluindo: Desejo que os srs. jornalistas levem boas impressões desta visita e reafirmo-lhes que o “Vouga” é um navio digno da casa construtora e da nossa marinha.
O jornalista Costa Brochado, agradeceu este brinde, em nome da Imprensa e o distinto repórter fotográfico Sr. José Gonçalves, ofereceu ao Sr. comandante Carvalho Crato uma esplêndida colecção de óptimas fotografias do “Vouga”, à chegada ao Douro.
Acabaram as visitas ao “Vouga”
A visita de ontem encerrou as visitas. O Sr. Presidente da Câmara, que ontem teve de acompanhar o Sr. Ministro das Obras Públicas, não pode ir. Foi o Sr. Vereador Sr. Jorge Ferreira em sua representação. E pôs-se um ponto final nas visitas ao “Vouga” – porque agora, é preciso trabalhar.
Começou a instrução das praças. Começa a vida do navio. Entram agora no regime militar. Quem não foi nesta ocasião, tem de esperar outra maré. A vida é longa e o “Vouga”, se Deus quiser, está aí para durar.
A despedida
Deixamos o “Vouga”, ao cair da tarde. Tarde de sol rebrilhante e vitorioso. O metal das peças, duma brancura agressiva, chispava centelhas de luz, reflexos desse sol vivo da tarde cálida. Descemos a escadinha…
No alto, a figura imponente do comandante Carvalho Crato, curva-se, numa última despedida. À ponta, no mastro firme, bamboleia-se ao vento suave que vem do mar amigo, a bandeira da Nação!
A sentinela no portaló, de baioneta calada, está firme como rocha viva. Tocou um clarim! Seria a reunir? A reunir as almas portuguesas em torno deste navio forte e majestoso – feito com o sangue do povo para fazer respeitar o mesmo sangue sagrado vertido noutras eras, por esses mares nunca dantes navegados…
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Setembro 1933)