segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pesca do bacalhau


A cerimónia da bênção dos lugres bacalhoeiros, em 1940

Navios no Tejo, durante a cerimónia da bênção

Realiza-se no Domingo, com grande solenidade, a bênção
dos lugres que vão partir para a Terra Nova e Gronelândia
Na Junqueira, em frente ao Tejo, efectua-se no Domingo, às 10 horas e meia, bênção dos lugres bacalhoeiros da frota portuguesa que estão de largada para os mares da Terra Nova e Gronelândia, com alguns milhares de pescadores.
Diferente dos anos anteriores, esta cerimónia será imponentíssima. No local designado entre a Geradora Eléctrica e os terrenos da Exposição do Mundo Português, está a ser levantado um altar no qual o rev.mo Bispo de Macau, em substituição do Ex.mo Cardeal Patriarca, ausente de Lisboa, celebrará missa campal. O altar é circundado por múltiplas bandeiras e plantas decorativas e tem ao fundo e ao centro uma grande cruz que dominará todo o conjunto da ornamentação, a terra em volta e as águas em frente.
À cerimónia assistem os Srs. Ministro da Marinha e do Comércio e Indústria, Sub-Secretário de Estado das Corporações, oficiais generais da Armada, do Exército, comando superior da «Legião Portuguesa», organismos corporativos e direcções dos Sindicatos Nacionais de Lisboa. Forças da «Brigada Naval» e da «Mocidade Portuguesa» com bandeiras e aquela com banda de música prestarão a guarda de honra ao altar.
Em frente, no Tejo, estão fundeados os lugres embandeirados em arco. As tripulações, cerca de um milhar de homens com os seus característicos trajes de pescadores, desembarcarão e assistirão com os capitães e mestres dos barcos à missa campal.
Finda esta, o rev.mo Bispo de Macau seguirá até à beira-rio sobre uma passadeira e dali fará a bênção aos lugres bacalhoeiros.
Neste momento serão largados 4.000 pombos-correios, iniciativa do Clube Columbófilo de Portugal. A cerimónia terá assim particular relevo, beleza e emoção. À tarde os lugres começarão a largar do Tejo para a campanha de 1940.
As entidades oficiais têm junto do altar um recinto especialmente reservado. Para a cerimónia de Domingo também serão distribuídos convites durante os dias de hoje e de amanhã no Grémio dos Armadores dos Navios da Pesca do Bacalhau e na sede da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 18 de Abril de 1940)

O Bispo de Macau lançou, ontem, a bênção aos lugres
portugueses que vão partir para a Terra Nova e Gronelândia
Perante uma multidão de muitos milhares de pessoas, o Sr. Bispo de Macau lançou ontem de manhã a bênção aos lugres e arrastões portugueses que vão para a Terra Nova e Gronelândia.
A cerimónia teve grandiosidade. O local estava lindamente decorado com dezenas de bandeiras nacionais, da «Legião» e da «Mocidade Portuguesa». Ao fundo do altar, sobre o qual se elevava uma grande cruz, via-se um friso de galhardetes brancos com a Cruz de Cristo. Em volta, contingentes da «Brigada Naval» e «Mocidade» faziam a guarda de honra.
Diante do altar, dois lindos tapetes em flores naturais reproduziam a Cruz de Cristo. Uma decoração de flores completava o encanto do cenário.
A multidão começou a chegar pelas 9 e meia e às 10 horas era já muito densa. Diante dos terrenos de Belém, onde ia ser rezada a missa, estavam fundeados todos os lugres e arrastões com vistosos embandeiramentos. O efeito de conjunto harmonizava-se com a mancha colorida da muralha.
Cerca das 10 horas e trinta minutos chegaram os Srs. Ministros da Marinha e do Comércio, Sub-Secretário das Corporações, Almirantes Mata Oliveira e Marcelino Carlos, Comandantes Américo Tomaz, António José Martins e Vasco Lopes Alves, etc.
Momentos depois chegava o Sr. Bispo de Macau. Receberam-no os Srs. Comandante Henrique Tenreiro e engenheiro Higino de Queiroz, em nome da comissão organizadora da cerimónia. O Sr. Bispo correspondeu aos cumprimentos de toda a assistência – entre a qual se viam muitas centenas de pescadores das equipagens dos navios da frota bacalhoeira – e dirigiu-se para o altar diante do qual orou por momentos. Ia começar a missa. Fez-se um silêncio absoluto, entrecortado apenas pelo drapejar das bandeiras sacudidas pela brisa da manhã e iluminadas por um sol que queria romper através de nuvens baixas.
O Sr. Bispo de Macau, coadjuvado pelos seus acólitos e assistido por quatro pescadores, rezou missa pela boa sorte da frota bacalhoeira portuguesa e por uma pesca muito feliz.
No momento da elevação a Deus os clarins da «Brigada Naval» tocaram a marcha de continência e a guarda de honra apresentou armas. Simultaneamente eram soltos, por detrás do altar, cerca de 4.000 pombos-correios, os quais numa largada espetaculosa deram a volta à grande cruz e perderam-se no espaço.
Finda a missa o ilustre prelado proferiu breves palavras alusivas ao acto, lembrou as tradições marítimas dos portugueses e disse que pedia para os pescadores a bênção do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Procedeu depois à bênção. O Sr. Bispo, seguido por todo o elemento oficial, dirigiu-se para a muralha. Novamente se fez um grande silêncio. O prelado leu a oração do ritual e lançou depois a bênção na direcção dos lugres. Foi uma cerimónia breve mas emocionante que encerrou a tradicional festa religiosa dos pescadores nas vésperas da sua partida.
Antes de se retirar, o Sr. Bispo de Macau esteve a conversar com os membros do Governo e dirigiu palavras de saudação aos Srs. Comandante Henrique Tenreiro e engenheiro Higino de Queiroz, pela forma como toda a cerimónia tinha sido organizada.
Ao fim da tarde, aprontaram para sair alguns dos lugres. Até ao fim do mês toda a frota bacalhoeira estará em viagem para Terra Nova e Gronelândia.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 21 de Abril de 1940)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Imagens do dia


A improvável celebração da marinha mercante italiana,
no porto de Leixões

Navio petroleiro "Peonia"
Em serviço entre refinarias nacionais, de Sines para Sines,
no eventual transporte de gasóleo para o norte do país.
Navio de passageiros "Silver Whisper", da Silver Cruises
 Em viagem de cruzeiro entre os portos de Lisboa e da Corunha
O navio ro-ro da Grimaldi Lines "Grande Ghana"
Em provável viagem com destino a portos africanos
Navio de passageiros da Costa Cruises "Costa Classica"
Em viagem de cruzeiro entre os portos de Lisboa e Vigo

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Imagens do dia


Navios vistos no dia de ontem, 6 de Maio,
no porto de Leixões

Navio de passageiros "Arcadia",
em viagem de cruzeiro entre Cartagena e Southampton
Embarcação de pesca costeira "Viana Coentrão"
Embarcação de pesca costeira "Mestre Silva"
Navio porta-contentores "Conmar Fjord"
Embarcação de pesca costeira "Mãe Puríssima"
Arrastão de pesca costeira "Lucimar"
Lancha do serviço de pilotagem "Perlongas"
Outra imagem do navio de passageiros "Arcadia",
cuja escala em porto atraiu seguramente o interesse de muitos curiosos, devido às suas consideráveis dimensões.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Fotos da semana


Alguns dos navios vistos no decorrer da última semana
no porto de Leixões
(continuação)

Navio de passageiros "Delphin"
Em viagem de cruzeiro entre Lisboa e a Corunha
Navio de passageiros "Empress"
Em viagem de cruzeiro entre Lisboa e a Corunha
Navio de pesca costeira "Força do Mar"
Navio de passageiros "Hamburg"
Em viagem de cruzeiro entre Lisboa e a Corunha
Navio petroleiro "Korsaro"
Navio de passageiros "Voyager"
Em viagem de cruzeiro entre Cadiz e Southampton
Navio de passageiros "Le Boreal"
Entrado já hoje, dia 5, em Leixões, a realizar um cruzeiro com visita a diversos portos nacionais. Procede de Lisboa e sai com destino a Viana do Castelo.

domingo, 4 de maio de 2014

Fotos da semana


Alguns dos navios vistos no decorrer da última semana
no porto de Leixões

Embarcação de pesca costeira "Bem Aventurado"

Caça-minas inglês H.M.S."Blyth"
Corveta da Marinha portuguesa N.R.P. "João Coutinho"
Navio porta-contentores "Johanna Scheppers"
Rebocador portuário "Monte da Lapa"
Navio porta-contentores "Niledutch Gemsbok"
Navio de passageiros "Saga Pearl II"
Em viagem de cruzeiro entre Gibraltar e Dover

sexta-feira, 2 de maio de 2014

História trágico-marítima (CXXXVI)


O encalhe do navio "Penteola"

Ao sair a barra de Lisboa encalhou o petroleiro “Penteola”,
que sofreu grande rombo, mas, foi safo pouco depois
Ontem (11.1947), cerca das 22 horas, quando saía a barra de Lisboa, a caminho do Porto, o navio petroleiro da Shell “Penteola”, que não levava piloto a bordo, encalhou nas alturas de S. Julião da Barra, sofrendo grande e fundo rombo. Foi socorrido pelo barco dos pilotos “Pedro Rodrigues”, que estava perto, e que, após uma manobra habilmente dirigida pelo sota-piloto António Rodrigues Martins, conseguiu safá-lo e rebocá-lo para o Tejo, onde chegou ao começo da madrugada.
O “Penteola” era comandado pelo capitão da marinha mercante Sr. Vagos, e tinha como tripulantes, além deste, o imediato, três maquinistas, quatro marinheiros, um criado e um cozinheiro.
O navio empregava-se no transporte de petróleo e gasolina daquela companhia, entre Lisboa e os vários portos do continente. Não houve desastres pessoais. No entretanto, os prejuízos materiais são importantes.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 17 de Novembro 1947)

Foto do navio petroleiro "Penteola"
Imagem de autor desconhecido

Identificação do petroleiro “Penteola”
Armador: Companhia Shell Portuguesa – 1936 / 1951
Nº Oficial: G-375 - Iic.: C.S.C.F. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: van der Giessen, K. a/d Ijssel, Holanda, 03.1936
Arqueação: Tab 544,52 tons - Tal 259,45 tons - Pm 850 tons
Dimensões: Ff 53,03 mt - Pp 51,05 mt - Bc 8,58 mt - Ptl 3,58 mt
Propulsão: D. Hoedkoop, Jr. - 1:Di - 300 Bhp - 10 m/h
Equipagem: 11 tripulantes
Transferido para a companhia Shell na Dinamarca, em 1951, alterou inicialmente o nome para "Faero Shell". Ainda propriedade da mesma empresa mudou o nome para “Peter”, em 1956. Em 1957 foi vendido a G. Scalese, passando a usar o registo "Ela" e em 1964 pertencia à frota de Augusta Priolo, com o nome "Carlotta". Recebeu novo registo em 1967, sob propriedade de N. Thanapoulos, recebendo o nome "Agia Lavra" e em 1968 pertencia a P.C. Chrissochoidos, tendo sido rebaptizado “Rodos”. Finalmente, em 1970, foi vendido para demolição em Perama (Turquia).

O desastre do petroleiro “Penteola” foi devido ao leme
deixar de governar, à saída da barra
O petroleiro “Penteola”, da frota da Shell, que ante-ontem à noite encalhou nos rochedos da Ponte da Laje, em frente de São Julião, principiou na manhã de ontem a descarregar a gasolina e petróleo que transportava, nos depósitos que aquela companhia possui na Banática.
Não pode ainda calcular-se o valor dos prejuízos. Só depois do navio estar totalmente descarregado se saberá a quantidade de gasolina perdida, pois, ao que parece a carga de petróleo ficou intacta.
O “Penteola” transportava, para o Porto, 200 toneladas de petróleo e 300 toneladas de gasolina. Como não se verificou ainda quais os tanques que ficaram arrombados, não é possível saber se as 300 toneladas de gasolina se perderam totalmente. No entanto, os prejuízos, quer da carga, quer do próprio navio são avultados.
O desastre não se deu por motivo de nevoeiro, como se supôs a princípio, mas sim porque à saída da barra o leme do petroleiro deixou de governar. O “Penteola” encontrava-se nessa situação quando um estoque de água o atirou para cima dos rochedos. Depois de descarregado o navio dará entrada numa doca seca.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 18 de Novembro 1947)

terça-feira, 29 de abril de 2014

O N.R.P. “D. João de Castro”


O princípio e o fim…!

Navio-hidrográfico “D. João de Castro”
Sob a presidência do Chefe do Estado efectua-se no próximo dia 22, pelas 16 horas, no Arsenal do Alfeite, a cerimónia do lançamento à água do novo navio-hidrográfico que se chamará “D. João de Castro”.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 17 de Abril de 1940)

O lançamento ao Tejo do navio  “D. João de Castro”
Os Srs. Presidente do Conselho, Ministros do Comércio e Indústria e das Obras Públicas e o sub-Secretário de Estado da Guerra, foram, ontem, convidados pelo Sr. Engº. Perestrelo de Vasconcelos, Administrador do Arsenal do Alfeite, a assistir, no dia 22, ao lançamento ao Tejo, do navio “D. João de Castro”.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 18 de Abril de 1940)

Navio-hidrográfico “D. João de Castro”
Foi dirigido convite a todas as autoridades militares e civis para assistir ao lançamento à água do navio “D. João de Castro”, que se realiza do dia 22 do corrente.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 19 de Abril de 1940)

Navio-hidrográfico “D. João de Castro”
A cerimónia do lançamento à água a que assiste o Chefe do Estado
No dia 22, realiza-se, o lançamento à água do navio-hidrográfico “D. João de Castro”. Por esse motivo os navios de guerra surtos no Tejo embandeirarão em arco até ao pôr-do-sol.
A esta cerimónia assiste o Sr. Presidente da República, que embarcará no extinto Arsenal de Marinha, às 13 horas e vinte minutos, com destino ao Alfeite. À sua passagem junto dos navios de guerra ser-lhe-ão prestadas pelas respectivas guarnições as honras da ordenança. Na ocasião da entrada na água, do novo navio-hidrográfico, todos os navios de guerra surtos no Tejo darão uma salva de 21 tiros.
A guarda de honra ao Sr. Presidente da República junto à carreira do lançamento, será feita por um corpo de cadetes da Escola Normal e Corpo de Marinheiros a duas companhias, com banda e terno de clarins. Foram convidados os oficiais da Armada a assistir a esta cerimónia.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 20 de Abril de 1940)

Marinha de Guerra
Foi lançado, ontem, à água o navio "D. João de Castro”,
tendo assistido à cerimónia o Sr. Presidente da República
Com grande cerimonial, realizou-se ontem, de tarde, o lançamento à água do navio-hidrográfico “D. João de Castro”, construído nos estaleiros do novo Arsenal do Alfeite. A despeito da chuva que caiu durante a tarde, e do mau estado do rio, afluíram àquela margem inúmeras pessoas, entre as quais se notavam as famílias das centenas de operários, que ali trabalham.
À entrada do Arsenal foi prestada guarda de honra ao Sr. Presidente da República por um terço da Brigada Naval do Alfeite. Às 15 horas, forças de Polícia foram dispostas em redor da «carreira», onde se encontrava o novo navio da Marinha de Guerra, pintado de cinzento, com o escudo nacional à proa.
Ladeavam o “D. João de Castro” muitos mastros onde flutuavam bandeiras nacionais e pavilhões da Legião. Junto à proa do navio foi montado um palanque destinado ao chede do Estado, Ministros e altas patentes do Exército. A um canto desse palanque via-se, sobre um cavalete a planta do navio.
Às 16 horas chegou o Sr. Presidente da República acompanhado da sua casa militar e de sua filha Dª Cesaltina Carmona e Costa.
O Sr. General Carmona foi recebido à entrada do recinto das «carreiras» pelos Srs. Ministros da Marinha e da Educação Nacional, sub-Secretário da Guerra, das Corporações e das Obras Públicas, Almirantes Mata e Oliveira, Major-general da Armada, Sarmento Saavedra, Mendes Cabeçadas e Tito de Morais; General Morais Sarmento, Major-general do Exército; adidos militares inglês, italiano e alemão, Engenheiro Perestrelo de Vasconcelos, Administrador do Arsenal do Alfeite; Almirante-engenheiro Haghill, Director Técnico; Dr. Pereira Coutinho, Director Comercial e muitas outras personalidades oficiais, altas patentes e convidados.
Foram prestadas honras e continência ao Chefe de Estado pelas forças da Marinha dispostas junto do recinto, havendo o Sr. General Carmona passado revista à força de Marinha e alunos da Escola Naval.
Uma vez o Sr. Presidente da República na sua tribuna, o Prior de Almada deu a bênção ao navio, do qual foi madrinha a filha do Chede do Estado, Srª. Dª. Cesaltina Carmona e Costa.
Com o cerimonial do costume, e ao som de marchas de guerra, e silvos de navios, o novo navio da esquadra portuguesa começou a deslizar lentamente, e entrou no rio com normalidade.
Depois da cerimónia do lançamento do navio ao mar, o Sr. Presidente da República condecorou com o grau de Cavaleiro de Mérito Industrial, os operários do Arsenal, Manuel Pais Baptista, Luiz Manuel da Costa e Rodrigues Pereira.
O Sr. Director do Arsenal ofereceu à madrinha do “D. João de Castro” um lindo ramo de flores. E logo após a cerimónia do protocolo, o Chefe do Estado retirou-se para Lisboa.
(In jornal ”Comércio do Porto”, terça, 23 de Abril de 1940)

Imagem do navio-hidrográfico “D. João de Castro”
Foto-postal da Marinha de Guerra Portuguesa

Identificação do navio “D, João de Castro”
Nº Oficial: N/ tem - Iic.: C.T.A.J. - Porto de Armamento: Lisboa
Arqueação: Tab 879,55 tons - Tal 221,35 tons
Deslocamento: Std 1.044 to - Normal 1.033 to - Max. 1.330 to
Dimensões: Pp 63,00 mts - Boca 10,00 mts - Pontal 5,25 mts

O navio-hidrográfico “D. João de Castro” considera-se perdido
O contra-torpedeiro “Vouga” seguiu, para o local do sinistro
O navio-hidrográfico “D. João de Castro”, uma das nossas mais recentes unidades navais, encalhou, ante-ontem, ficando em posição muito difícil, no litoral da ilha de Santo Antão, no arquipélago de Cabo Verde, no local designado «Janela», junto do porto aberto a Nordeste da mesma ilha, com aquele nome. O desastre verificou-se quando o navio procedia a trabalhos da sua especialidade, que na generalidade são muito arriscados.
O navio, comandando pelo Sr. Capitão-tenente Augusto Vasconcelos de Sousa, técnico distinto e dos mais competentes oficiais da nossa Marinha de Guerra, encontrava-se naquele arquipélago em funções de levantamento da costa. Sobre o regresso da tripulação ao Continente nada foi ainda determinado concretamente.
Tudo leva a crer que o “D. João de Castro”, dada a má situação em que ficou, só com muita felicidade se salvaria. Novas informações recebidas no Ministério da Marinha, levam à conclusão de que, infelizmente, o navio-hidrográfico se encontra perdido, estando a tripulação a proceder ao maior número de salvados de bordo.
Às 14 horas e quinze minutos de ontem largou do Tejo, com destino às águas de Cabo Verde, o contra-torpedeiro “Vouga”, que segue para o local a fim de prestar a necessária assistência.
Confirma-se que não há desastres pessoais, encontrando-se a tripulação recolhida em casas particulares, em S. Vicente, depois de ter sido conduzida a bordo dos rebocadores, que desde logo seguiram para o local do sinistro. Constituem a guarnição, cerca de 80 tripulantes, oficiais, sargentos e praças.
O “D. João de Castro” foi construído no Arsenal do Alfeite – o primeiro navio a sair daqueles novos estaleiros. A sua quilha foi assente em 29 de Março de 1939 e o seu lançamento à água, com a presença do Sr. Presidente da República e de membros do Governo, verificou-se num dia tempestuoso: 22 de Abril de 1940. Terminada a sua construção, o “D. João de Castro” foi solenemente incorporado ao efectivo da Armada, no dia 20 de Fevereiro de 1941. O seu primeiro serviço foi o levantamento hidrográfico dos fundos numa parte da zona do arquipélago dos Açores, após o que regressou ao Tejo para proceder a reparações nas máquinas, as quais nunca imprimiram ao navio a força prevista no contrato de fornecimento, facto que chegou a ser levado às barras dos tribunais.
O “D. João de Castro” deslocava 1.140 toneladas, mede 67 metros de comprimento, por 10 de largura e 2,90 metros de pontal, tinha a velocidade de 13,5 nós, máquinas com a força prevista de 1.400 Hp; um raio de acção de 5.000 milhas a 10 nós; duas hélices, capacidade para 220 toneladas de nafta e uma equipagem constituída por 9 oficiais e 88 sargentos e marinheiros. O navio podia ser dotado de um pequeno hidro-avião, para cooperar nos trabalhos de levantamentos hidrográficos.
A sua construção no Arsenal do Alfeite foi assinalada pela cunhagem de uma artística medalha, comemorativa, precisamente, da entrega do primeiro navio construído naquele Arsenal.
O “D. João de Castro” custou 17.600 contos e foi autor do seu projecto o Sr. Capitão-de-fragata engenheiro construtor naval Vasco Taborda Ferreira.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Outubro de 1947)

O navio-hidrográfico “D. João de Castro”
considera-se definitivamente perdido
Apesar de todos os esforços no sentido de ser conseguido o salvamento do navio-hidrográfico “D. João de Castro”, nos quais chegou a haver grandes esperanças de êxito, foi reconhecido finalmente, no decorrer dos trabalhos de conjunto que, nesse sentido, estavam a realizar-se no local do encalhe, ser impossível pôr aquela unidade a flutuar, a fim de a rebocar, depois, para um porto de reparação.
As avarias eram graves e tornou-se infrutífera a tarefa que, com o maior interesse, estava a ser levada a efeito para safar o navio. Entretanto, continuam a proceder aos salvados de bordo, tendo sido recolhido lá muito material.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 20 de Outubro 1947)